terça-feira, 7 de julho de 2020

Amaral Cavalcante

Na década de 1980 minha familia costumava "descer a serra" de Itabaiana ruma a Aracaju para se esparramar nas areias da Atalaia ou da praia dos artistas. Foi nessa época que tive meus primeiros contatos com o "pasquim sergipano", o jornal alternativo Folha da praia, distribuído farta e gratuitamente entre os que tostavam ao sol entre banhos de mar, farofa e cerveja gelada. Mais tarde, já universitário - e "fanzineiro" - fui convidado por um amigo, Antonio Passos, a escrever meu primeiro artigo para aquele mesmo jornal. Dois, na verdade: um sobre a chegada das TVs por assinatura a nosso país e outro sobre, veja só, perversão sexual!

Só fui conhecer seu editor, Amaral Cavalcante, cerca de 20 anos depois, quando participamos juntos de algumas edições do programa de debates "Contraponto" da TV Aperipê, a emissora pública do estado de Sergipe. Ele então me ofereceu uma coluna fixa sobre cultura naquele mesmo Folha da praia, que continuava circulando gratuitamente pela cidade. Aceitei, claro, e foi graças a Amaral, que quando eu menos esperava me ligava pedindo um novo texto longo ou notas para a coluna, que eu não parei completamente de escrever - quem um dia acompanhou esse blog e o visita esporadicamente certamente já notou isso: as poucas matérias publicadas com a minha assinatura nos últimos tempos foram reproduções de textos publicados originalmente no Folha da praia ou na revista Cumbuca, que ele também editava.

Amaral morreu hoje, aos 73 anos. Com a morte de Amaral é possível que este blog morra de vez, ou entre num longo períordo de hibernação. o tempo dirá. Segue um texto que o jornalista e poeta Jozailto Lima publicou hoje em seu site que faz jus à sua memória, muito mais que essas mal traçadas linhas que teclei de forma hesitante e atabalhoada até aqui.

Um beat. Um poeta. Um iconoclasta. Um lúdico. Um lírico. Um memorialista. Um passional. Um jornalista. Um arregimentador de desiguais e de diferentes. Um boêmio. Um que marcou.
Em diversas categorias de definições bem se encaixava o velho Antonio Amaral Cavalcante, que na madrugada deste dia 7 de julho juntou uma bota noutra com o bico pra cima e bateu às portas de São Pedro. 
Amaral Cavalcante lutou bravamente, entre uns e vinhos, contra um diabetes indelicado, um câncer de próstata, mas não quis prosa com a Covid-19 que Jair Bolsonaro batizara de uma gripinha. 
Amaral Cavalcante morreu nesta madrugada na Urgência do Hospital do Ipes e vai ser cremado na Caueira ainda durante esta terça-feira numa solenidade nada solene: só ele com seu fogo final. No atestado de óbito está contida a inscrição da Covid.
Antonio Amaral Cavalcante nasceu no dia 11 de julho de 1946 em Simão Dias - estava, portanto, a quatro dias de emplacar 74 anos. Foi avexado, e partiu  sem arredondar a conta.
Impossível pensar a cena da memória, da cultura beat e do jornalismo sergipano sem que se puxe uma cadeira cativa e fornida para Amaral Cavalcante. Nos anos 70 e 80 ele deu dois tiros certeiros nos agitos culturais do lugar.
Com um, funda o irreverente Folha da Praia, que foi laboratório jornalístico e da contracultura de muitos malucos sergipanos e aqui aportados. A Folha da Praia foi, em versão serigyzada, um Pasquim. Um monumento ao jornalismo destabacado, lírico, chutador de paus de barraca. Contestador.
Era um inferninho contra botas e quepes de milicos e adesistas da nada branda ditadura militar, hoje irresponsavelmente tão evocada com suspiros de saudade por alguns insanos. A Folha fez história e garantiu a existência e os vinhos de Amaral.
Ainda na mesma década, Amaral Cavalcante causou com "Instante Amarelo", seu único livro de poemas publicado em vida - bom livro, por sinal. Ele era, ao modo arrebentador, signatário da poesia marginal dos 70, que tinha uma visão dos beats bem ativada. 
Há em "Instante Amarelo" ecos de Cacaso, Leducha, Leminisk e de muitos dos seus contemporâneos, como Mário Jorge Menezes e Ilma Fontes, que reverberam a poesia dos 70 com dignidade na terra dos cajueiros e papagaios.
Neste milênio, convidado por mim a ser um cronista do falecido Cinform, Amaral Cavalcante surpreendeu com um jorro portentoso de escritos na esfera memorialista.
Destilou textos fantásticos, onde a linha do afeto memoralístico deu o ritmo, o compasso e a formação do livro "A vida me quer bem", uma reunião do melhor desta fase, que ele lançou dia 7 de novembro do ano passado.
Sim, a vida quis bem a Amaral Cavalcante e ele, inegavelmente, quis bem a ela. Uma pena que ambos tenham levantado o crachá do adeus assim tão cedomente. Tão precocemente.
E, ainda mais, em tempo de pandemia de Covid-19, que nos veda de afagar os cabelos ou beijar a testa dos que partem.
Mas incomode-se não, Amaral velho de guerra, e se sinta afagado. Que a terra - ou melhor -, o fogo lhe seja leve.
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sábado, 16 de maio de 2020

DENTRO DO PESADELO

Raskólnikov ficou de cama no hospital todo o fim da Quaresma e também na Semana Santa. Quando já estava se recuperando, recordou seus sonhos da fase de febre e delírio. Doente, sonhou que o mundo todo parecia condenado ao sacrifício por uma peste terrível, desconhecida e nunca vista, que provinha das profundezas da Ásia para a Europa. Todos tinham de morrer, exceto alguns escolhidos, muito poucos. Apareceram novos parasitas, criaturas microscópicas que se instalavam no corpo das pessoas. Só que tais criaturas eram espíritos, dotados de inteligência e vontade. As pessoas contaminadas por eles se tornavam imediatamente endemoniadas e loucas. Mas nunca, nunca as pessoas se consideravam tão inteligentes e tão inabaláveis na verdade como ocorria com os infectados. Jamais consideravam que houvesse algo mais inabalável do que suas sentenças, suas conclusões científicas, suas convicções morais e suas crenças. Povoados inteiros, cidades e populações inteiras se infectaram e enlouqueceram. Todos ficaram perturbados, ninguém se entendia, cada um achava que a verdade se encerrava só nele e sofria ao olhar para os demais, cada um batia no peito, chorava e retorcia as mãos. Não sabiam quem nem como julgar, não conseguiam entrar em acordo sobre o que era bom e o que era mau. Não sabiam quem deviam culpar e quem deviam inocentar. As pessoas se matavam umas às outras numa espécie de raiva insana. Uniam-se em exércitos inteiros, mas as tropas já em marcha começavam de repente a se dilacerar, as fileiras se dispersavam, os militares se atracavam entre si, furavam e cortavam, mordiam e comiam uns aos outros. Nas cidades, o sino de alerta tocava o dia inteiro: reuniam todos, mas ninguém sabia quem estava convocando nem para quê, e todos ficavam perturbados. Os ofícios mais corriqueiros foram abandonados, porque cada um propunha suas ideias, suas correções, e não conseguiam entrar num acordo; a agricultura parou. Aqui e ali, as pessoas se juntavam em bandos, concordavam em alguma coisa, juravam não se separar – mas logo começavam algo muito diferente daquilo que elas mesmas tinham acabado de propor, passavam a acusar uns aos outros, brigavam e se dilaceravam. Irromperam incêndios, começou a fome. Tudo e todos pereciam. A peste crescia e se alastrava cada vez mais. No mundo todo, só algumas pessoas conseguiram salvar-se, eram os puros e os eleitos, destinados a originar uma nova espécie de pessoas e uma nova vida, a renovar e purificar a terra, mas ninguém via tais pessoas, em nenhum lugar, ninguém ouvia suas palavras nem sua voz.

Bastam algumas linhas para que o leitor se veja diante da pandemia do novo coronavírus. É impossível atravessar esse trecho do romance de Fiódor Dostoiévski sem associá-lo imediatamente à peste que assola o planeta. Embora seu poder de sugestão para os dias que correm seja flagrante e dispense comentários, devo uma explicação sobre as circunstâncias que trouxeram os delírios noturnos de Raskólnikov até aqui. Crime e Castigo foi publicado há mais de 150 anos, em 1866. Li o romance quando já era adulto, há mais ou menos três décadas – e só uma vez. Bem próximo do final da trama, o pesadelo foi uma das cenas que me capturaram para sempre. Mas permaneceu todo esse tempo bem guardado, num canto remoto da memória, como que adormecido. E, ironicamente, não foi o cataclismo do coronavírus que o despertou.
Estávamos na campanha presidencial de 2018, poucos dias depois do atentado sofrido por Jair Bolsonaro em Juiz de Fora, quando essa passagem de Crime e Castigo acendeu na minha mente como faísca. Corri para a estante, peguei o livro, achei o trecho, li uma, duas, várias vezes, e transcrevi a cena para o computador. Sem que tivesse isso muito claro, eu estava à procura de uma imagem que fosse excessiva, hiperbólica ou absurda mesmo para dar conta do sentimento de horror e incredulidade que havia me tomado. Tentei escrever um artigo a quente para o site da piauí usando a alegoria da peste que enlouquecia as pessoas para falar da calamidade que então se desenhava no horizonte do país. Simplesmente não funcionou. Não demorou para que o recurso à literatura me parecesse postiço e um pouco afetado diante da urgência da situação. A dinâmica daqueles dias tumultuados acabou devorando as minhas pretensões de iluminar o ingresso do país nas trevas com a imaginação sombria de Dostoiévski.
Sigo mais um pouco com essa digressão. Quando Bolsonaro e Fernando Haddad passaram ao segundo turno, logo ficou evidente quem iria ganhar. O PIB (ou a parte dele que ainda não tinha assumido publicamente seu lado) correu em bloco para o colo do candidato da extrema direita; do outro lado – onde se encontravam supostamente os democratas do país –, cada um correu para um canto, com cara de paisagem. Àquela altura da campanha, além da óbvia associação com o transe bolsonarista, o pesadelo de Raskólnikov me servia também como imagem da autofagia do campo político civilizado: Todos ficaram perturbados, ninguém se entendia, cada um achava que a verdade se encerrava só nele e sofria ao olhar para os demais, cada um batia no peito, chorava e retorcia as mãos. Não sabiam quem nem como julgar, não conseguiam entrar em acordo sobre o que era bom e o que era mau. Não sabiam quem deviam culpar e quem deviam inocentar.
Não se tem notícia de que lideranças comprometidas historicamente com a democracia chegaram a chorar ou retorcer as mãos, mas todas, sem exceção, abdicaram de suas responsabilidades, cada uma batendo no próprio peito, como se a verdade se encerrasse toda em si, como se essa fosse apenas uma eleição – mais uma. Cegos ou omissos, colaboraram todos para pavimentar o caminho que Bolsonaro atravessou com ares triunfais, cuspindo ódio. É mais do que provável que esse desfecho fosse inevitável. Não acredito que a onda conservadora e a fúria revanchista que fermentaram na sociedade ao longo dos últimos anos pudessem ser revertidas nas urnas. Nada, no entanto, justifica as mesquinharias, a falta de percepção ou o pouco caso dos democratas diante do que estava em jogo. Ninguém fez boa figura. Ninguém mesmo.
Os tucanos empilharam vexames. Começaram lá atrás, em 2014, quando, derrotado por Dilma Rousseff, Aécio Neves colocou o resultado da eleição sob suspeição (nunca é demais relembrar os momentos marcantes da acumulação primitiva do bolsonarismo, chamemos assim). O playboy emplumado das Alterosas foi depenado pelo caminho, mas os tucanos seguiram sua marcha torta. Depois de apoiar o impeachment, dando aval (e não apenas os votos) à destituição de Dilma, o PSDB embarcou no governo de Michel Temer, capitaneado pelas pretensões delirantes de José Serra. Nomeado chanceler em retribuição à participação ativa nas articulações da parlamentada (na boa definição de Marcos Nobre), Serra acreditava que Temer era Itamar e ele seria o novo Fernando Henrique Cardoso. A sequência do filme todos conhecem. O senador tucano está praticamente reduzido à condição de fugitivo da Lava Jato – ele, que foi um importante ministro da Saúde na era FHC, hoje é irrelevante. E o PSDB, como se sabe, foi parar nas mãos de João Doria Júnior. Depois de abandonar a prefeitura paulistana e trair o padrinho Geraldo Alckmin, ele não hesitou em se oferecer para a dança do acasalamento com Bolsonaro, elegendo-se governador de São Paulo no sufoco, agarrado à chapa Bolsodoria. Da molecagem de Aécio em 2014, passando pelo patrocínio ao impeachment em 2016, até a carona no colo de Bolsonaro, em 2018, a trajetória descrita pelos tucanos pode ser lida como uma sucessão de flertes, cada vez mais ousados e explícitos, com a direita incivilizada. Em determinado momento pareceu impossível discernir a linha que separava o PSDB do Novo.
Ciro Gomes decidiu flanar em Paris no segundo turno da campanha, como se nada fosse, delegando ao irmão Cid a tarefa de avançar com a retroescavadeira contra a militância petista. Retroescavadeira era apenas metáfora, entendam. Como me disse um bom observador logo depois da eleição: “Descobrimos na campanha que o Ciro era melhor do que a gente imaginava, e também muito pior do que podíamos imaginar.” A definição paradoxal vai ao ponto. Os valores de Ciro são progressistas, sua atuação é relevante e faz diferença, mas sua personalidade é autoritária e ele invariavelmente descamba. Ciro quase nunca respeita o seu interlocutor. Exercita com gosto um tom professoral diante de entrevistadores inofensivos ou servis; quando o entrevistador lhe aperta o calo – às vezes basta um beliscão de leve –, tende a ser agressivo ou truculento, com variações de grau. É uma pena.
Lula e o PT tampouco estiveram à altura dos acontecimentos. Não é possível desconsiderar a circunstância decisiva de que o líder petista estava preso – vítima de um processo viciado, conduzido de maneira francamente parcial, com o propósito claro de alijá-lo da disputa eleitoral –, mas isso não o eximia de responsabilidades políticas. Da cadeia, o ex-presidente levou Haddad ao segundo turno e ao mesmo tempo o impediu de ter alguma chance de virar presidente. No dia seguinte à votação do primeiro turno, o candidato foi a Curitiba visitar seu criador. Pretendia sair dali com respaldo para fazer a campanha a seu modo. Queria caminhar ao centro e, entre outras coisas, tinha a intenção de convidar Pérsio Arida para ministro da Fazenda. Seria um lance ousado, com chances remotas de dar certo (um dos pais do Plano Real, banqueiro e ex-sócio de André Esteves, Arida era até a véspera responsável pela coordenação da área econômica de Geraldo Alckmin). Tudo isso, porém, ficou para as calendas gregas. Haddad saiu da sede da Polícia Federal como havia chegado: sob tutela. Foi até o fim o candidato de Lula, quando precisava ter sido o candidato da democracia. A direção do PT tratou de enquadrá-lo nos termos definidos pelo ex-presidente. Gleisi Hoffmann está lá para isso. Tem o espírito tarefeiro, mesmo diante das missões mais constrangedoras. Nem ela nem a burocracia petista fizeram esforço para derrotar Bolsonaro. Pelo contrário, houve um boicote branco a Haddad, como se fosse preferível a derrota nas urnas para não perder o discurso de que Lula estava sendo vítima de um complô. Naquelas condições, o desempenho do candidato foi surpreendente. O que o impulsionou na reta final foi uma espécie de mutirão espontâneo e desesperado na sociedade, sobretudo entre os jovens, à revelia do PT e das lideranças políticas – todos acoelhados.

Bolsonaro venceu nos termos dele, a bordo de um partido de aluguel, sem alianças regionais nem tempo de exposição na tevê, carregando como vice um general que, como ele, só tem boas recordações do golpe de 1964. Venceu sem fazer concessões, sem nenhum aceno ao centro do espectro político, contrariando a tendência das eleições em dois turnos. Venceu reiterando a retórica extremista e desafiando o establishment (parte dele encantado com a “sinceridade rústica” do capitão). Bolsonaro venceu misturando o discurso do ódio, do ressentimento e da revanche à promessa de redenção nacional, com forte conotação religiosa. O atentado que sofreu no início de setembro elevou à potência máxima os contornos messiânicos e a carga irracional da candidatura. A partir da facada nasceu um mártir que estava sacrificando a própria vida para salvar o país. A graça divina havia intercedido em favor do Brasil.
O fervor cristão, a fanatização da política, o anticomunismo delirante, a defesa da família patriarcal e o nacionalismo tacanho passaram a compor a nova gramática do poder. Era preciso expurgar os traidores da nação, restaurar os valores perdidos, fazer a limpeza, promover uma verdadeira faxina – dos esquerdistas, dos corruptos, dos transviados, a lista é virtualmente infinita, porque sempre haverá algo a ser varrido do mapa –, tudo convergindo para a ideia de que a missão de Bolsonaro, vocalizada por ele próprio, seria destruir o que existe e a partir daí refundar a pátria, entendida como um lugar idílico, onde estariam salvos, para falar como Dostoiévski, os puros e os eleitos, destinados a originar uma nova espécie de pessoas e uma nova vida, a renovar e purificar a terra. É claro que ninguém via tais pessoas, em nenhum lugar, ninguém ouvia suas palavras nem sua voz. Aliás, cadê o Queiroz?
O pesadelo de Raskólnikov reproduz a dinâmica do livro bíblico do Apocalipse (o Juízo Final antecede a paz eterna dos justos no Paraíso), duvidando, ao mesmo tempo, do final feliz da história. Não há salvação em Dostoiévski. No caso de Bolsonaro, isso não é um problema. Enquanto a obra divina não se realiza, ele já elegeu para si um Éden tropical. Sua imagem do paraíso sempre foi a grande obra dos golpistas fardados que usurparam o poder no país por 21 anos. Dentro da longa noite do arbítrio, o presidente nunca escondeu que tem, digamos assim, um carinho especial pelo período de maior escuridão do regime militar, aquele em que a engrenagem da tortura, das mortes e dos desaparecimentos funcionou a todo vapor. (Aqui vale um parêntese: desaparecimentos, como se sabe, é um eufemismo para designar as mortes produzidas pelo Estado e não assumidas enquanto tais, o que representa uma volta a mais no parafuso da crueldade, com consequências indeléveis para parentes e amigos das vítimas). Estamos falando do intervalo de tempo que vai do AI-5, no final de 1968, até a metade dos anos 1970, quando o regime começa a “dar uma fraquejada” e Ernesto Geisel decide encampar aquela besteira de “abertura lenta, gradual e segura”. Erro brutal, porque para resolver os problemas do Brasil só “matando 30 mil”. A frase poderia estar na boca de um personagem de Rubem Fonseca, mas quem a pronunciou foi Bolsonaro, ao defender, em 1999, numa entrevista à TV Bandeirantes, o fechamento do Congresso e a necessidade de uma guerra civil para fazer “um trabalho que o regime militar não fez”. O primeiro alvo a ser executado seria o próprio presidente da República: “Começando com FHC. Não deixar ele de fora, não. Matando!” Vão “morrer alguns inocentes”, ele admitiu, mas acrescentou: “Tudo bem.” É assim mesmo, “em tudo quanto é guerra morre inocente”.
Não havia guerra nenhuma, a não ser aquela que fermentava na mente ruim do deputado. O disparate gerou, é claro, certo desconforto, mas ninguém levou adiante o pedido de cassação do mandato do genocida. Afinal, parecia ocioso perder tempo com um tipo periférico e perturbado, uma espécie de zumbi boquirroto, saudoso de “uma página infeliz da nossa história”, já superada.
O país atravessava uma séria crise monetária em 1999, é verdade, mas se respirava por toda parte ares democráticos. Àquela altura, uma década depois da Constituição de 1988 – a Cidadã – e depois da travessia de um impeachment que havia fortalecido a crença nas instituições, o consenso em torno da democracia parecia consolidado. Era sobre esse solo comum democrático que as divergências brotavam. A despeito de todos os problemas, tinha se formado a partir do Plano Real a perspectiva concreta de um novo ciclo de desenvolvimento e, com ele, a esperança de que iniquidades históricas do país começariam a ser reparadas. Tínhamos a sensação muito palpável de que algo estava em construção.
É divertido e triste ao mesmo tempo recordar que em 1994 a aliança dos tucanos com o então PFL foi motivo de grande escândalo e intermináveis discussões entre intelectuais. A muitos aquilo soava como uma concessão moralmente intolerável, um imperdoável passo em falso à direita, que recolocava em cena, ainda que na condição de coadjuvantes, velhas raposas da Arena, o braço de sustentação da ditadura no Congresso. Na grande angular da história, porém, o vilão da esquerda naqueles anos era a globalização, da qual FHC seria um fantoche, um presidente mais ou menos decorativo a serviço do capital que desconhecia fronteiras. À luz dos dias atuais, diante do avanço da xenofobia de extrema direita pelo mundo e da participação especial do Brasil nesse circo de horrores, vislumbro a montanha de ilusões em que estávamos sentados e o tamanho do tombo que levamos. Ainda estamos caindo, não se animem.

Aatmosfera do país e a relevância política de Bolsonaro haviam mudado muito quando ele proferiu, em abril de 2016, seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff. À sua maneira, o futuro presidente lançava ali o seu programa de governo, com direito ao bordão de campanha no final. O oxigênio da democracia brasileira já estava sendo cortado:
Nesse dia de glória para o povo brasileiro, tem um nome que entrará para a história nessa data, pela forma como conduziu os trabalhos nessa Casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em 1964. Perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve. Contra o comunismo. Pela nossa liberdade. Contra o Foro de São Paulo. Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff. Pelo Exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas. Por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim!
Em poucos segundos, Bolsonaro estabeleceu a conexão histórica entre os dois golpes (1964-2016) – o primeiro, militar; o segundo, jurídico-parlamentar –, como se desenhasse uma moldura para homenagear no centro do quadro o “pavor de Dilma Rousseff”. Ao acrescentar esse aposto ao nome do torturador, o deputado de alguma maneira fez reviver a própria tortura, num exercício de sadismo de que pouca gente é capaz. De forma provavelmente inédita no Congresso Nacional desde o fim do regime militar, estavam sendo atiradas no lixo a democracia como experiência histórica e a democracia como ideia e referência fundamental da vida política.
Detenho-me mais um pouco aqui porque Brilhante Ustra não foi um patife qualquer. Teve papel de destaque no “trabalho” que, segundo o lamento de Bolsonaro, a ditadura não terminou. O DOI-Codi que Ustra comandou entre 1970 e 1974 foi chamado de “casa dos horrores” na sentença histórica, proferida em 2008, em que o juiz Gustavo Santini Teodoro condenou o coronel. Ustra foi o único oficial militar condenado civilmente pela Justiça brasileira pelo crime de tortura. Isso porque a Lei da Anistia, de 1979, serviu como escudo legal para impedir que os torturadores fossem levados penalmente ao banco dos réus.
Ao contrário do que aconteceu no Chile, na Argentina e no Uruguai, no Brasil a tortura e os assassinatos cometidos por agentes do Estado jamais foram punidos. Nunca mais serão – e isso não é trivial. Faz pensar na maneira como o país costuma lidar com seus traumas, por meio de negaças e acomodações, sem nunca enfrentá-los. Na língua de Freud, se diria que o país, incapaz de elaborar os traumas, convive indefinidamente com seus sintomas. A começar pela escravidão, o trauma que nos formou como nação. Foi abolida há mais de 130 anos, em 1888, mas a dívida com a população negra jamais foi reparada. Os sintomas dessa omissão crônica, dessa nossa maneira de driblar as exigências da civilização e perpetuar no presente a herança colonial, estão aí, à vista de todos, nos morros, nas periferias, nas prisões, dentro das nossas casas, estampados em praticamente todos os indicadores sociais – renda, escolaridade, mortes, oportunidades de trabalho etc. Alguém pode mostrar um indicador, deve haver ao menos um, em que os negros não estejam expostos a situações de maior vulnerabilidade ou exclusão? Pois é.
Ustra foi condenado por uma ação movida pela família Almeida Teles, não por uma iniciativa do Estado. Entre 1972 e 1973, pai, mãe e dois filhos, uma criança de 4 e outra de 5 anos, foram presos e torturados nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Além deles, a irmã da mãe, uma jovem grávida de sete meses, também foi vítima de sevícias. Todos presenciaram a morte por tortura de um amigo da família. Ustra, segundo os termos da ação, “praticou pessoalmente os atos de tortura”. Quem conta isso é a historiadora Janaína de Almeida Teles, a criança de 4 anos da família torturada, hoje com 53 anos. Extraí seu relato de um artigo intitulado Os Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e a Luta por Verdade e Justiça no Brasil, incluído no livro O que Resta da Ditadura, organizado por Vladimir Safatle e Edson Teles, irmão da autora. O livro, que reúne reflexões feitas num seminário promovido pela Universidade de São Paulo em 2008, quando o AI-5 completou 40 anos, só seria lançado em 2010, num momento em que falar dos restos da ditadura estava meio fora de moda até na esquerda (Lula vivia sua apoteose como presidente, com mais de 80% de aprovação popular).
Eu estava na redação da piauí com alguns colegas no domingo em que a Câmara aprovou o impeachment de Dilma. Lembro-me bem do mal-estar que os termos do “sim” de Bolsonaro provocou em todos. Sua apologia ao torturador representava uma ruptura na sequência modorrenta de votos paroquiais e involuntariamente cômicos (em nome de Deus, em nome da minha tia, pelo futuro dos meus filhos, em homenagem ao meu papagaio…). Houve silêncio na redação por alguns segundos. Alguém soltou um sonoro “filho da puta”. Escrevi naquela mesma noite um pequeno texto para o site da revista, comentando um aspecto até então despercebido de uma pesquisa recém-publicada do Datafolha. No topo da pirâmide social, Bolsonaro já então liderava a corrida presidencial. Tinha 23% das intenções de voto entre os eleitores com renda familiar superior a dez salários mínimos. No conjunto da sociedade, ainda estava em quarto ou quinto lugar, com 7% ou 8%, dependendo dos adversários, mas sempre atrás do líder Lula, de Marina Silva e do candidato tucano (Aécio, Serra ou Alckmin). Na tarde em que Jair Bolsonaro “reparou uma justiça” ao exaltar o militar condenado por tortura na ditadura, boa parte da elite já havia arrastado suas fichas para o lado do capitão.
Dois anos e meio depois, a uma semana de ser eleito presidente, o candidato fez aquele famoso discurso transmitido por celular a manifestantes aglomerados na Avenida Paulista, em São Paulo. Para quem convalescia de uma facada, Bolsonaro aparece em cena bastante disposto e corado, sorridente na maior parte do tempo. Postado em pé no quintal dos fundos de casa, veste uma camiseta verde e tem atrás de si, como cenário, algumas peças de roupa e lençóis brancos pendurados no varal. Tudo é muito descontraído, casual, calculadamente mambembe. Revendo o vídeo, tive a impressão de que Bolsonaro lia o que falava de forma pausada, interagindo com a excitação da massa. Foi um discurso atroz. Atrás da câmera, fora de quadro, pode-se ouvir uma pessoa rindo em pelo menos duas ocasiões, quando o candidato diz que Lula iria “apodrecer na cadeia” e quando diz que vai mandar a “petralhada” para “a ponta da praia”. É um risinho sarcástico e meio abafado, de personagem de desenho animado, uma espécie de Muttley, o cão rabugento de Dick Vigarista, que sabe do que o chefe (ou o papai) está falando. Pinço algumas passagens desse discurso, em ordem aleatória, preservando os erros de português, em nome da autenticidade:
“Lula, você vai apodrecer na cadeia.”
“A faxina agora será muito mais ampla.”
“Será uma limpeza nunca visto na história do Brasil.”
“Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria.”
“Vocês verão umas Forças Armadas altiva.”
“Vocês, petralhada, verão uma polícia civil e militar com retaguarda jurídica pra fazer valer a lei no lombo de vocês.”
“Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo.”
“Petralhada, vai tudo vocês pra ponta da praia.”
“O Brasil não será mais motivo de chacota junto ao mundo.”
Essa última frase está aí apenas para que você, leitor, possa dar uma risada nesses tempos de cólera. A verdade é que “rimos do fato de que não há nada de que se rir”, como escrevem Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento. “Faxina”, “limpeza”, “marginais”, “banidos”, “apodrecer”, “lombo”, “bandidos”, “petralhada” – tudo transpira ódio e recende a fascismo. A “ponta da praia”, talvez nem todos saibam, era o nome dado pela ditadura a um local de desova de cadáveres no Rio de Janeiro. Bolsonaro fala como torturador, não como candidato à Presidência. Assim como hoje governa como miliciano, não como estadista.

Insisti nesses registros já antigos porque a demência atual já aparece inteira lá. Não havia nada incubado. Tudo já era explícito. O inimigo da democracia que dedica em 2016 seu voto ao “pavor de Dilma Rousseff” é o mesmo que, em 2018, ameaça mandar os adversários para “a ponta da praia”. É exatamente o mesmo que, vinte anos antes, queria “matar 30 mil” e fechar o Legislativo para resolver o problema do país. É o mesmíssimo inimigo da democracia que, agora, no meio da mais grave pandemia mundial em mais de um século, participa, na condição de presidente da República, montado na caçamba de uma camionete, de um ato público em frente ao Q.G. do Exército a favor do AI-5, contra o Congresso e o STF – isso tudo três dias depois de ter demitido seu ministro da Saúde porque ele teimava em ser… razoável. Esse é o Messias do Brasil.
Mas ainda era pouco. Quando já estávamos estupefatos, exauridos, sem saber o que dizer nem como dizer diante da capacidade infinita do presidente de humilhar a racionalidade, multiplicar o caos e vilipendiar o sofrimento alheio, quando a cota de desmandos e desvarios no meio da pandemia já havia transbordado, Bolsonaro decide dobrar a sua meta e investe sobre a Polícia Federal, na intenção de capturá-la para si, provocando o pedido de demissão de Sergio Moro.
A queda do ministro da Justiça elevou a crise político-institucional a um patamar inédito. Veio uma semana depois da saída do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que encarou um mês de fritura em praça pública, período durante o qual Bolsonaro deu seus rolezinhos pelos arredores de Brasília, conclamou a população a desrespeitar o isolamento social, fez discursos mistificadores, propaganda indevida de remédio, tossiu, fungou, abraçou e apertou a mão de incautos. “A hora dele ainda não chegou”, disse o presidente a meia dúzia de admiradores na entrada do Palácio da Alvorada, dias antes de demitir Mandetta, falando como se fosse um meganha ameaçando um delinquente. Já a hora de Moro chegou sem aviso. Havia, sim, um acúmulo de rusgas entre eles, sobretudo “no tocante à qüestão” da Polícia Federal, mas a briga estava fora dos holofotes. Entramos numa nova fase do governo, não há dúvida. Pode ser o início do fim de Bolsonaro, mas está parecendo apenas o início de algo ainda pior sob Bolsonaro – “É melhor já ir se acostumando”, dizia o slogan de campanha, em tom intimidador.

Na reunião que decretou o AI-5, em 13 de dezembro de 1968, quando chegou sua vez de votar, o coronel Jarbas Passarinho, então ministro do Trabalho, dirigindo-se ao presidente, justificou sua adesão ao fechamento do regime com uma frase que entrou para a história: “Sei que à Vossa Excelência repugna, como a mim, e creio que a todos os membros deste conselho, enveredar para o caminho da ditadura pura e simples. […] Mas, às favas, senhor presidente, neste momento, todos, todos os escrúpulos de consciência.” Atribui-se a Pedro Aleixo, vice-presidente do marechal Costa e Silva, uma ressalva ao AI-5 que ele teria feito na famigerada reunião: “O problema desse ato não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país, mas o guarda da esquina.” A autoria da frase é duvidosa (não consta da gravação em áudio da reunião), mas ela entrou para a mitologia do período.
Não estou equiparando a ocupação da PF e do Ministério da Justiça pelos apaniguados do clã Bolsonaro com um novo AI-5. Rememoro as duas passagens da reunião porque ambas me vieram à mente quando o presidente foi questionado por uma seguidora no Twitter a respeito da amizade do diretor indicado para a PF com o seu filho Carlos, o atormentado Zero Dois. Ele respondeu assim: “E daí? Devo escolher alguém amigo de quem?” Afinal, para que escrúpulos de consciência? Pulemos então para a parte que interessa – “Vai tudo vocês às favas!” Escrevi na véspera da eleição, em 2018, que o país estava muito próximo de transformar o guarda da esquina do AI-5 em presidente da República. Aqui estamos, um ano e meio depois. No eco desse “e daí?”, pode-se escutar a voz do guarda da esquina da ditadura.
Bolsonaro escancarou a intenção de fazer da PF um braço de sua polícia política. Um arremedo disso já existe, infiltrado na Agência Brasileira de Inteligência (Abin), na inteligência militar, nessa coisa anômala e ao mesmo tempo didática chamada “gabinete do ódio”, espalhada entre representantes das polícias pelos estados e sabe-se lá entre quantos milicianos, a exemplo de Fabricio Queiroz e do finado Adriano da Nóbrega. O cavalo de pau na PF é um passo decisivo para consolidar a submissão do aparato de segurança e investigação do Estado aos interesses particulares do presidente, escusos por definição. É também um passo arriscado, entre outras razões porque na cúpula da corporação existem hoje profissionais sérios e comprometidos com o combate à corrupção e ao crime organizado nos marcos da legalidade. O fato é que a distância entre o topo da República e o submundo do aparelho estatal e paraestatal de segurança e repressão do país nunca foi tão pequena. O bolsonarismo representa a vitória do modelo miliciano de gestão da violência brasileira.

Há ainda muita gente que se apega à capacidade de resistência das instituições. É uma maneira de brincar de avestruz. Basta um “recuo” do presidente para que os arautos da nossa vitalidade democrática venham dizer nos jornais e nas redes sociais que está tudo bem. Ou, quando Bolsonaro não recua, nossos arautos vêm a público para dizer que “desta vez, ele se excedeu”, apenas para, depois do próximo absurdo do presidente, voltarem a público para repetir, com a mesma inflexão na voz, que “desta vez, ele se excedeu”, num moto-contínuo que revela mais apatia diante das ameaças às instituições do que propriamente confiança cega nelas.
Os adeptos dessa tese terão sempre uma parcela de razão – as instituições, bem ou mal, exercem aqui e ali a função de contraponto à insanidade presidencial, evitando algumas vezes o pior. Isso vale até o momento em que forem imperceptivelmente contagiadas pela demência. Volto aqui às perturbações de Raskólnikov:
As pessoas contaminadas por eles se tornavam imediatamente endemoniadas e loucas. Mas nunca, nunca as pessoas se consideravam tão inteligentes e tão inabaláveis na verdade como ocorria com os infectados.
As instituições, tão inteligentes e tão inabaláveis em suas convicções, já foram contaminadas, perdão pela insistência, em 2016. Em 2018, veio a segunda onda da contaminação, mais resistente porque disfarçada numa eleição democrática. O vírus antidemocrático tem levado a melhor sobre as notas de repúdio que pretendem combatê-lo. A indignação retórica se transformou numa espécie de cloroquina política. Não vai conter o avanço da pandemia autoritária.
O que temos visto nos constantes embates entre o presidente e a ordem legal segue um padrão teatral, com forte componente de autoengano: a cada “vitória” da institucionalidade, a cada “recuo” de Bolsonaro, o que ocorre na prática é uma pequena vitória do perdedor – ele avançou mais duas casas, avançou mais 5%. A exemplo do que acontece em várias partes do mundo, a democracia brasileira está sendo roída e vai se desmanchando aos poucos. É um processo de erosão, com picos de aceleração e momentos menos perceptíveis, não uma implosão. Não há no Brasil, até segunda ordem, espaço político para um golpe de manual, na antiga acepção de tomada abrupta do poder pela força. Até porque os militares já estão no poder. Bolsonaro entupiu o primeiro escalão do governo de generais. Estima-se que sejam em torno de 2,5 mil os militares que ocupam cargos de confiança na esfera federal. Estão no filé-mignon da administração pública. É o que se chamava na época do PT de aparelhamento do Estado. Alguém acha que essa gente toda estaria disposta a inibir as tentações autoritárias do presidente? Teria compromisso efetivo com a democracia? Bolsonaro é pior que os militares, mas os militares não são melhores do que ele. Soa estranho? Vamos fingir que o nome disso seja dialética.
O general Hamilton Mourão, herdeiro da cadeira de Bolsonaro na hipótese de impeachment ou na eventualidade de renúncia (ambas por ora improváveis), organizou em 2015, quando ocupava o posto de comandante militar do Sul, uma homenagem à memória do coronel Brilhante Ustra, morto naquele ano. Corria o governo Dilma, e Mourão acabou sendo demitido do cargo pelo então chefe do Exército, general Eduardo Villas Bôas.
Augusto Heleno, atual chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, mentor de Bolsonaro e patriarca do generalato instalado no Planalto, é um herdeiro da linha dura do regime militar. Atuava como ajudante de ordens do general Sylvio Frota quando este, então ministro do Exército, em 1977, tentou emparedar o presidente Ernesto Geisel. Acabou exonerado por Geisel, a quem criticou publicamente, depois de ser apeado do ministério, por “complacência com a infiltração comunista e a propaganda esquerdista”, conforme relata o jornalista Elio Gaspari em seu livro A Ditadura Encurralada. A abertura do regime avançou. Mais de quarenta anos depois, não consta que as ideias do então jovem capitão Heleno tenham evoluído.
Esses são os “moderados”, os razoáveis, os que controlam os impulsos do presidente. Chegamos a esse ponto. Sim, claro que existem divergências entre os militares de alta patente. Deve haver entre eles aqueles que sejam democratas além da página 2. Não é certamente o caso nem de Mourão nem de Augusto Heleno. Numa democracia digna do nome, de toda maneira, essas divergências deveriam ser resolvidas dentro dos quartéis, não no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Bolsonaro substituiu o chamado presidencialismo de coalizão pelo presidencialismo de colisão. Trocou a cooptação pelo conflito. Sim, é verdade que ele agora está pedindo socorro ao Centrão, mas logo a coisa vai desandar. É só esperar. O que define o bolsonarismo é o desprezo pelo Congresso, pelos partidos, pelas instituições, pela imprensa livre, pela sociedade civil organizada. Ele gosta do caos, ele gosta de dar tiros. Sua opção política funciona porque ele tem o Exército às suas costas. O projeto autoritário de Bolsonaro passa pela atrofia do poder civil e do estado laico, dois pilares da vida democrática.
Até aqui falei mais do primeiro aspecto, mas é evidente que a deslaicização do Estado está no centro da regressão brasileira. Assim como está em formação uma polícia política, há uma milícia neopentecostal em expansão no país. Não me refiro aos fiéis, embora seja fato que a pauta conservadora encontre maior acolhida entre a população evangélica. Para não cairmos nós na intolerância obscurantista, é preciso fazer esforço e separar as vítimas da ausência do Estado e da exclusão social dos neotubarões da fé que falam em seu nome. Bolsonaro os abraçou, estamos nos convertendo numa república semirreligiosa, na qual o chefe da nação ignora as recomendações médicas contra a pandemia, mas participa de rodas de oração para afastá-la do país (ou apenas deles, os eleitos de Deus).
Se dependesse da vontade de Bolsonaro, Edir Macedo seria o novo Roberto Marinho. Se isso acontecesse – acho que não chegaremos a tanto –, seríamos um país bem pior do que já somos. Não é preciso deixar de lado a memória do vínculo umbilical da Globo com a ditadura, nem mesmo é preciso aliviar nas críticas que lhe dirigimos hoje para reconhecer, ao mesmo tempo, que não é na tela da emissora que a barbarização do país está se desenrolando. Por abominável que seja, o BBB da Globo é mais inofensivo que o BBB da Bíblia, do Boi e da Bala que cerram fileiras com Bolsonaro. Não precisamos escolher entre um e outro, alguém dirá. Minha resposta é que talvez precisemos, sim. Seria como ter que escolher entre um horizonte muito acanhado e horizonte nenhum.

Aeleição de Bolsonaro representa um revés histórico comparável ao golpe de 1964. Isso para mim era intuitivamente óbvio desde o começo, quando desencavei sem querer da memória o romance de Dostoiévski. De tudo que li nos últimos meses, foi o crítico Roberto Schwarz quem melhor organizou o que aproxima e o que diferencia o governo do guarda da esquina de hoje do regime autoritário de ontem. Recapitulo os pontos principais da entrevista que ele concedeu à Folha de S. Paulo, em novembro passado.
Como em 1964, houve em torno de Bolsonaro uma aliança entre o fundo regressivo da sociedade, descontente com os rumos liberais da civilização, e um programa pró-capital, encarnado nas promessas de Paulo Guedes.  “Ao dar protagonismo político, a título de compensação, aos sentimentos antimodernos de parte da população, os mentores do capital fizeram um cálculo cínico e arriscado”, diz Schwarz. Na Alemanha dos anos 1930, o cinismo custou muito caro: “Aceitando e estimulando o nazismo, a grande burguesia alemã deflagrou um processo incontrolável, ao fim do qual já não se sabia quem devorava quem.” Nas palavras do crítico, se Bolsonaro não chegar lá, “não terá sido por falta de vontade”.
Feita a aproximação, Schwarz ressalva que há uma diferença decisiva entre o atual casamento das pautas arcaizantes do bolsonarismo com a reforma liberal da economia e aquele outro casamento celebrado em 1964. “Cinquenta anos atrás, quem marchava com Deus, pela família e a propriedade eram os preteridos pela modernização, representativos do Brasil antigo, que lutava para não desaparecer”, diz Schwarz. Apesar da “derrota do campo adiantado, continuava possível – assim parecia – apostar no trabalho do tempo e na existência do progresso e do futuro”.
Já o neoatraso bolsonarista é de outro tipo e está longe de ser “dessueto”, diz o crítico. A própria escolha da expressão “dessueto”, impregnada de naftalina e com cheiro de coisa antiga, assume aqui conotação crítica. Vejamos:
A deslaicização da política, a teologia da prosperidade, as armas de fogo na vida civil, o ataque aos radares nas estradas, o ódio aos trabalhadores organizados etc. não são velharias nem são de outro tempo. São antissociais, mas nasceram no terreno da sociedade contemporânea, no vácuo deixado pela falência do Estado. É bem possível que estejam em nosso futuro, caso em que os ultrapassados seríamos nós, os esclarecidos.
Dessueto, caro leitor, somos você e eu (peço escusas para preservar a veleidade de estar no campo esclarecido nestes tempos em que a linha que separa o esclarecimento da escuridão anda desbotada).
Em 1964, transpor o subdesenvolvimento era uma ambição real tanto da esquerda como da direita – “horizonte com que hoje ninguém mais sonha”, diz Schwarz. Sua hipótese, que ele mesmo admite ser pessimista, é de que “a sequência de superações que durante algum tempo deu a sensação de que o país decolava rumo ao Primeiro Mundo pode ter chegado a seu limite”. Em sentido substantivo, o Brasil deixou de ser um país em formação. Somos isso que está aí, esse bicho anômalo, improvável, como o ornitorrinco de que falava o sociólogo Francisco de Oliveira em 2003. Nossa próxima contribuição ao mundo será a destruição irreversível da Amazônia. Com um pouco de sorte, se lhe deixarem trabalhar, esse será mais um legado de Bolsonaro.

Num registro mais pessoal, a mesma ideia de algo definitivamente malformado aparece no último livro de ensaios de Nuno Ramos. No prefácio de Verifique Se o Mesmo, lançado pela Todavia, o artista plástico e escritor diz a certa altura: “Quero apenas declarar, e me perdoe o leitor esse tom abrupto, que os acontecimentos recentes parecem encerrar o ciclo de esperanças que acompanhou minha vida adulta desde os anos 1980.” O texto é de maio de 2018, anterior, portanto, à eleição presidencial, mas já está impregnado pelo ambiente que levou Bolsonaro ao poder.
Logo depois de dizer isso, Ramos menciona que a consciência do fim desse ciclo aparece pela primeira vez num texto que ele publicou na Folha, em 2014 (incluído no livro). Suspeito que Estamos é uma intervenção política, mas também uma obra de escritor. “Suspeito que o tema primordial e decisivo da sociedade brasileira sempre tenha sido, e seja ainda, a violência”, ele diz. Ramos suspeita de muita coisa, mas é em torno dessa ideia poderosa que tudo orbita. Cito duas passagens do texto.
Por estar em toda parte, suspeito que esse tema [a violência] aproxime-se, entre nós, do impensável, e que traga em seu DNA, como esses vírus de mutações constantes e velozes, alguma coisa metamórfica que sempre se transfigura e escapa.
E mais adiante:
Suspeito que Paulo Coelho, o padre Marcelo Rossi e o bispo Edir Macedo sejam três faces de uma mesma e última privatização – a do infinito.
É espantoso que um texto de maio de 2014, escrito meses antes da reeleição de Dilma (contra Aécio, Eduardo Campos e depois Marina, lembrem-se disso), exprima tão bem o país tão pior que estamos experimentando neste momento.
Volto ao prefácio: “Sempre considerei que meu trabalho representava uma inflexão ao mesmo tempo gulosa e pessimista diante desse quadro [do país], mas, para que houvesse pessimismo, era preciso que o outro polo estivesse vivo.” A dinâmica alimentada por décadas se quebrou. “Alguma coisa definitivamente se formou, está formada, deixamos que se formasse – e não parece nada boa”, diz Ramos.

Comecei este texto revelando os sentimentos de horror e incredulidade diante do que estava por vir em 2018. Um ano e meio depois, termino renovando aqueles sentimentos, dos quais não me livrei, fisicamente falando, acrescidos, neste momento, da sensação incontrolável de que “os acontecimentos recentes parecem encerrar o ciclo de esperanças que acompanhou minha vida adulta desde os anos 1980”.
Com a licença de Nuno Ramos, suspeito que as consequências do estrago de Bolsonaro na vida brasileira vão perdurar por muito tempo depois do fim de seu mandato. A violência sempre foi e, mais do que nunca, é o tema primordial e decisivo da sociedade brasileira. Com a eleição de Bolsonaro, abrimos um alçapão que não poderia ter sido aberto. O cinismo das elites brasileiras pode custar, já está custando muito caro. Tenho vontade de dizer: as vítimas do novo coronavírus são os petralhas que o presidente ameaçou mandar para a ponta da praia uma semana antes de vencer. Naquela época, a imprensa dizia – com falsa isenção, com falso espírito crítico, com uma equidistância que só ela, na sua miopia de classe, conseguia enxergar e, sim, com uma dose intolerável de cinismo – que estávamos diante de “dois extremos” igualmente perigosos, diante de uma “escolha difícil”, diante de “duas ameaças” à democracia. Aqui estamos hoje. Não venham agora, por favor, com a ladainha de que Bolsonaro passa e as instituições permanecem. É justamente o contrário o que está se desenhando no horizonte muito acanhado ou no horizonte nenhum que temos à nossa frente.
Volto a Crime e Castigo, exatamente ao ponto em que acaba o pesadelo narrado no início deste texto:
O que atormentava Raskólnikov era o fato de que esse delírio insensato se refletia nas suas recordações de modo tão triste e tão angustiante que a sensação dos devaneios febris demorou muito tempo para passar.
por Fernando de Barros e Silva
na piauí

sábado, 11 de janeiro de 2020

Blues sergipano

Silvio Campos
O Blues é um gênero musical eminentemente norteamericano. Sua origem remonta o fim do século XIX e é fruto de uma mistura entre raízes das tradições musicais africanas; "spirituals" - um tipo de música "gospel" negra, sempre acompanhada de palmas e movimentos corporais; canções de trabalho, criadas pra distrair durante a dura rotina da labuta diária, e cantos folclóricos. Entoada quase sempre em tom de lamento, caracteriza-se pelo padrão de chamada e resposta e por progressões de acordes específicos. Projetou-se mundialmente na década de 1950 ao migrar para a área urbana de Chicago, principalmente, e ser eletrificado. Influenciou decisivamente na gênese e no posterior desenvolvimento do rock and roll, com a chamada "invasão britânica".
No Brasil os principais expoentes do gênero são Blues Etílicos, André Christovam e Celso Blues Boy(já falecido).
Ferdinando
Em Sergipe até a década de 1990 não se tem notícia de nenhum nome de relevância que tenha assumido para si a tarefa de tocar blues - o estilo era diluído no repertório de músicos de bar e bandas de rock and roll, sem grande destaque. Algumas, inclusive, o ostentavam no nome, como a Passos Blues band e a Shaman´s Blues. Eram, no entanto, bandas de rock.
Tudo mudou com a chegada da Angelus Novus, em 1995. Foi formada pelo guitarrista e compositor Gilberto Monte, com Beto "Hendrix" na segunda guitarra, Dinho Dog no baixo e Carlinhos na gaita. Completavam a formação os irmãos Fabio(vocal) e Rafael(bateria), da então recém criada Snooze - foi a primeira incursão musical deles fora dos domínios do rock. Fabinho era o caçula da turma, tinha apenas 16 anos, e sequer bebia álcool - levava para os shows uma garrafa térmica com chá para encarar a responsabilidade de ser um frontman tão jovem. A Angelus Novus foi uma grande novidade para a cidade na época e atraía pequenas multidões para suas apresentações, quase sempre no Tequila Café e no Capitão Cook . Tocavam basicamente “Standards” e clássicos de nomes consagrados do gênero, mas tinham também algumas poucas composições próprias. Chegaram a se apresentar uma vez em Lagarto, na "Rinha de Zezé Rocha", com Snooze e Maria Scombona. Detalhe: Rafael Jr. era o baterista das três bandas! Shows de rock - e blues - no interior eram raridade. Ainda são, na verdade ...
Por volta de 1998 Gilberto Monte se mudou para Salvador, onde hoje é um produtor musical requisitado, e a banda continuou por algum tempo com um novo nome, Little Red Rooster, até encerrar definitivamente as atividades. O que poucos sabiam é que no interior do estado, em Itabaiana, um grupo de amigos já algum tempo se reunia em torno de Ferdinando, um virtuoso guitarrista autodidata, para tocar blues.
Em 1993, na capital do agreste sergipano,Carlos Magno, um fã dos Smiths misantropo e recluso, havia comprado uma guitarra para montar uma banda de rock de garagem, mas acabou se dando melhor como baterista. Vendeu-a a um amigo, Ferdinando. Todos se impressionaram com a rapidez e a facilidade com que Ferdinando aprendeu a tocar. Como a banda de rock não tinha dado muito certo, juntaram-se ao baixista Fabio e decidiram se dedicar a uma outra paixão em comum, o blues. Nascia a Urublues, que ficou muito tempo apenas ensaiando e aprendendo a tocar covers.
Magno se revela um letrista de mão cheia – era um leitor voraz – e eles vão aos poucos amadurecendo composições em torno de suas palavras. Urublues se torna, então, uma banda quase que 100% autoral - ao contrário da Angelus Novus - com excelentes composições que falavam daqueles velhos temas de lamentos universais, como desilusões amorosas e noites de bebedeira em “quartos de hotel construídos pra abrigar romances que terminam em pontas de faca”, nas palavras do jornalista Rian Santos.
O primeiro show aconteceu apenas em 1999, em Carira, com duas bandas punk, Karne Krua e Gee-O-die. Mas a partir daí tomaram gosto pelo palco e não pararam mais: logo estavam abrindo para o Jason, do Rio de Janeiro, no Tequila Café, e tocando em Lagarto, no Festival Rock Sertão de Nossa Senhora da Glória, em Canindé do São Francisco, Poço Redondo, Tobias Barreto, Ribeira do Pombal, na Bahia, e em em Aracaju nos festivais Punka, Cajurock, Noites Fora do eixo, Rua da Cultura, Casa Rua da Cultura, no Teimonde, Capitão Cook, Casa Cultiva, em encontros de estudantes da ufs, onde fosse: era só chamar que lá ia o urublues com seu “boogie vigarista”.
A primeira gravação “demo”(de demonstração) foi o registro caseiro de um ensaio lançado em CDR  sob o nome “Na estrada do sol”. A segunda, “Andarilho”, lançada em 27 de fevereiro de 2010 num show antológico no Capitão Cook, foi mais caprichada, contando inclusive com a participação de Leo Airplane, um dos músicos e produtores mais requisitados da cidade, na faixa “Migalhas”. A formação, durante esses mais de 20 anos de atividade, contou sempre com Ferdinando na guitarra e voz e Fabio Santana no baixo, com os bateristas Magno, Marcio, “Pitoco” e Davi, além dos gaitistas Igor Cortes e Mateus Santana. No início da década de 2010 a banda se separou e Ferdinando engatou uma carreira solo, Ferdinando Blues Trio. Voltaram agora em 2019, depois de um hiato de aproximadamente 4 anos, com o baterista Junior Giorgio. Estão compondo músicas novas e pretendem voltar aos palcos apenas quando tiverem um álbum pronto.
A outra grande banda de blues sergipana é a Máquina Blues, capitaneada por Silvio Campos, veterano cantor, compositor e guitarrista de infinitas bandas de rock, e Melcíades, guitarrista, filho do célebre arquiteto e artista plástico itabaianense de mesmo nome. Silvio é mais conhecido da cena punk local, principalmente por ter sido um dos fundadores da mais importante banda de rock do estado, a Karne Krua. Mas sempre teve vontade de tocar e cantar blues. Seu primeiro projeto nesta seara foi a WRS e as Mulheres invisíveis, com Robson “Macaxeira” (hoje no Ferraro Trio) e Wendell Miranda (ex-guitarrista da Karne Krua). Faziam um som basicamente acústico e tocavam em bares. Chegaram a se apresentar em Salvador, mas teve vida curta, pois Wendell se mudou para São Paulo.
A Máquina começou a funcionar pra valer quando Silvio encontrou um fiel escudeiro, Melciades, que era cliente de sua loja de discos. Montaram a Máquina Blues no ano 2000, com Paulo  Antônio no baixo e Adriano Tavares na bateria. A exemplo da Urublues, com um repertório quase que 100% autoral: Silvio se revelou um excelente compositor do estilo, o que foi uma surpresa pra muita gente, já que todos os seus projetos, até aquele momento, giravam em torno do rock pesado, principalmente o punk Hard Core. É também um grande intérprete, com uma entrega impressionante no palco e vocais viscerais movidos a conhaque e com um orgulhoso sotaque nordestino.
A Máquina nunca parou e segue funcionando a todo vapor, tocando bastante pelas noites sergipanas, especialmente em pubs e barzinhos, mas também em alguns palcos públicos e festivais, como os extintos Rua da Cultura e Zons. Nestes quase 20 anos de existência lançaram apenas um EP “demo”, em CDR, em 2003, e um álbum em CD “oficial” – industrializado, “de fábrica” – totalmente independente no ano passado(2018). Chama-se “Um blues pra elas” e pode ser adquirido em formato físico em Aracaju na Rua Santa Luzia, 151, no centro, ou ouvido “na nuvem” em deezer.com.
Em 2009 esta incipiente porém orgulhosa “cena” de blues sergipano ganhou um importante reforço quando a Aperipê FM colocou no ar um programa dedicado exclusivamente ao gênero, o “Encruzilhada”. Produzido e apresentado por Isabela Raposo, ia ao ar aos domingos das 22H à meia noite e fez história, transmitindo inclusive apresentações ao vivo, direto dos estúdios, das bandas locais. O programa promoveu também algumas concorridas festas de aniversário – em uma delas a Máquina lançou um EP virtual, “Esse blues triste”.
Não podemos deixar de mencionar, também, The Baggios, que apesar de não ser exatamente uma banda de blues é fortemente influenciada pelo estilo e tem hoje uma grande projeção no meio independente nacional, aventurando-se, inclusive, em algumas turnês internacionais, na Europa e no México. Foram indicados ao Grammy latino pelo álbum “Brutown”.
Além da Máquina e do Urublues foram formados alguns projetos esporádicos, como o Double Trouble, dupla que reunia Julico, da The Baggios, e Little Mel, da Máquina Blues. Mais recentemente Silvio Campos, o incansável, tem se dedicado a uma nova empreitada, a “Dry Blues”, com Max no baixo, Matheus na bateria e Julio na guitarra.

A.

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sábado, 21 de dezembro de 2019

Contagem regressiva

Jair Bolsonaro sempre teve clareza de que chegou ao poder por uma confluência única de circunstâncias, uma janela no tempo difícil de se repetir. Desde que se elegeu, tem apenas duas preocupações: evitar o impeachment e se reeleger. A tática para atingir suas metas é a mesma: manter o sólido apoio de uma parcela do eleitorado que não é maioria, mas que é grande o suficiente tanto para resistir a um impeachment como para chegar ao segundo turno em 2022.
A partir do terceiro mês de mandato, a parcela que apoia o atual presidente se estabilizou em torno de um terço do eleitorado. Mesmo que o apoio venha a cair para um quarto dos eleitores, ainda assim Bolsonaro tem boas chances de ser bem-sucedido. O sinal vermelho para seu projeto só acenderá caso caia abaixo desse patamar.
A grande ameaça está no fato de que o duplo objetivo – evitar o impeachment e conseguir a reeleição – não é um fim em si mesmo. É apenas um meio. O objetivo real de Bolsonaro é destruir a democracia. Manter-se no poder e vencer a eleição em 2022 são apenas requisitos para alcançar esse objetivo maior.
É claro que esse roteiro pode mudar. Bolsonaro pode tentar um golpe antes de 2022. Mesmo que seja uma tarefa ainda mais difícil neste momento de dispersão e de fragmentação, as forças democráticas têm de se preparar como puderem também para isso. Este texto é otimista. Acredito que, pelo menos por enquanto, as condições para um golpe não estão dadas e que está mantido o roteiro de destruição da democracia pela via eleitoral.
Apesar de todas as indicações, tem muita gente que ainda duvida de que o objetivo de Bolsonaro seja destruir a democracia. Os atos e palavras antidemocráticos do atual presidente não passariam, segundo essas pessoas, de “arroubos”. Outra parcela da sociedade acha que “as instituições democráticas” irão mantê-lo na linha. Porque, afinal, Bolsonaro continua apostando em eleições. E está realizando o que prometeu durante a campanha de 2018.
Mas o que Bolsonaro prometeu em 2018 foi exatamente isso – destruir as instituições democráticas. Na campanha, as “instituições democráticas” eram “o sistema”. E o sistema é “de esquerda”. O liberalismo que ele abraçou é meramente econômico – Bolsonaro tem ojeriza ao liberalismo político. Entre outras razões, é por isso que não passa de conversa fiada dizer que se trata de um governo “liberal na economia e conservador nos costumes”. É um governo liberal na economia e antiliberal em política.
No mundo todo, movimentos antidemocráticos destroem a democracia pela via eleitoral. Para isso, reduzem a democracia à realização de eleições, justamente. Insistem que a democracia não depende de instituições democráticas e de uma cultura política democrática para existir, precisa apenas de eleições e de consultas populares. Pelo contrário, as instituições democráticas e a convivência democrática na vida cotidiana são “ideológicas”, “de esquerda”.
É um liberalismo autoritário, um Frankenstein político. Para que cada pessoa possa fazer o que bem entende em sua vida privada, deve ter sua vida política reduzida a votar. Uma democracia reduzida ao voto não precisa de imprensa livre, Judiciário independente, escola que fomente a tolerância, Legislativo que fiscalize, movimentos sociais de contestação, autocontrole democrático da burocracia estatal.
Quando Eduardo Bolsonaro falou em “um novo AI-5”, a repulsa foi de tal ordem que não se prestou a devida atenção ao que ele disse em seguida: “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, vamos precisar dar uma resposta. E essa resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada por plebiscito, como ocorreu na Itália.” É claro que quem define o “ponto” da “radicalização” é quem fala. Especialmente se estiver no poder. O primeiro caminho escolhido por Eduardo Bolsonaro é usar a Presidência para decretar um novo AI-5, assim como o pai falou em invocar a Lei de Segurança Nacional contra Lula.
O outro caminho imaginado por Eduardo Bolsonaro foi o de um “plebiscito”. Quando a democracia é reduzida ao ato de votar, a realização de plebiscitos ou referendos dá a aparência de tornar o processo político “mais democrático”, já que “se vota mais”. E a referência à legislação aprovada na Itália pode ser à Lei de Legítima Defesa, cuja cópia foi entregue em mãos a Eduardo Bolsonaro pelo então homem forte do governo, o líder da extrema direita italiana, Matteo Salvini. Mas pode ser também uma referência a qualquer plebiscito da Itália de Mussolini, sempre lembrado veladamente por Salvini de maneira elogiosa.
ara realizar seu projeto autoritário, Bolsonaro precisa investir em duas frentes simultâneas. Precisa manter as instituições democráticas existentes no mesmo estado de colapso em que já se encontravam desde as manifestações de Junho de 2013 – uma das razões decisivas para explicar sua eleição, aliás. Com isso, ele pretende eliminar entraves ao seu projeto que possam vir da própria burocracia de Estado, pretende eliminar a diversidade no fomento à cultura e os controles institucionais penosamente conquistados ao longo da redemocratização. Ao mesmo tempo, Bolsonaro quer introduzir uma nova cultura institucional, aparelhando o Estado com o máximo de adeptos do autoritarismo que conseguir. É marcante como aposta na formação de quadros jovens em seu governo. É visível a tentativa de construir um dispositivo cultural de extrema direita para chamar de seu. Com isso, tornará o aparelho de Estado o quanto possível uma arma eleitoral em 2020 e em 2022.
Na outra frente, Bolsonaro espera tornar mais orgânica sua base de apoio, convencendo-a paulatinamente de que a saída autoritária é não só a melhor, mas a única possível. Foi o que pretendi dizer há um ano, logo após a eleição, aqui mesmo na piauí (“A revolta conservadora”, edição 147, dezembro de 2018): “Como venceu a eleição com muita mobilização, mas sem nenhuma organização, Bolsonaro tem de convencer seu eleitorado mais fiel de que a revolução conservadora apenas começou. Precisa pedir tempo e paciência para desmontar de uma vez por todas o sistema político. Precisa conseguir que as pessoas de sua rede se engajem e se candidatem na eleição de 2020 para preparar uma renovação geral que prometerá completar apenas em 2022. A tática de identificar tudo que não é o seu governo – ou seja, a ‘esquerda’ – com o ‘sistema político’ o impede de utilizar os mecanismos clássicos do mesmo sistema para atingir esse objetivo.”
No mundo todo, não só no Brasil, eleições estão produzindo impasses. O exemplo mais recente é o da Espanha, um país de regime parlamentarista que realizou quatro eleições nos últimos quatro anos. Por toda a parte, as forças políticas adotaram posições meramente defensivas. Empenham-se em manter as bases eleitorais que têm, sem qualquer pretensão de ampliação ou de solapamento das bases de adversários.
Mas, apesar do travamento e do impasse, o Brasil não é a Espanha. É um país governado por um presidente de extrema direita que sinaliza o tempo todo sua intenção de instaurar um governo autoritário na primeira oportunidade. O atual presidente tem clareza de que propostas autoritárias têm tanto mais chance de vingar quando se apresentam em situações de travamento e de impasse como a nossa.

Mesmo quem considera que a situação é gravíssima age como se estivéssemos diante de um governo normal. Há um descolamento flagrante entre repetir à exaustão que a democracia está em risco e a ausência do sentido de urgência que deveria acompanhar essa constatação. O resultado é uma paralisia da ação que pode colocar tudo a perder.
Bolsonaro é agora presidente e não mais um candidato outsider. Mas, paradoxalmente, continua a ser tratado como candidato e como se ainda outsider fosse. O paradoxo tem sua razão de ser: ele se põe de fato como um presidente outsider; e é de fato candidato. Lançou-se à reeleição com menos de seis meses no cargo. E então a imprensa cobre seu governo como se fosse campanha eleitoral. Mais do que isso, tanto as mídias sociais como as forças políticas lidam com o governo como se estivéssemos em campanha eleitoral.
Continuamos a subestimar o atual presidente e as chances que tem de realizar seu projeto autoritário. Como todo outsider que se preze, Bolsonaro age sempre como se estivesse acuado, encurralado. E acreditamos. Acreditamos que o presidente da República está sempre na defensiva, perdendo. O presidente da República!
Tratamos Bolsonaro como se ele ainda fosse um candidato azarão e não o presidente do país. Como se fosse algo óbvio que seu projeto fracassará. Afinal, “não é possível que um sujeito tosco como esse, que não faz articulação política” possa chegar a 2022 com qualquer chance – é o que ouvimos dia sim, outro também. Mesmo porque – assim continuam os mantras da preguiça mental que tomou conta de nós nos últimos tempos – “a economia não vai decolar” e Bolsonaro pagará o preço.
Sério? Vamos agora acreditar em unicórnios em lugar de fazer política? Vamos colocar em risco a democracia brasileira com base em palpites de botequim?
O efeito dessa preguiça política generalizada é favorável a Bolsonaro em pelo menos três sentidos. Entra no ritmo eleitoral em que ele se sente confortável. Acredita no show de um presidente acuado, nas cordas, sem margem de ação. E, paradoxalmente, trata seu governo como se fosse um governo normal. A prova mais cabal dessa normalidade é que todas as forças políticas continuam a fazer cálculos meramente eleitorais, sem levar em conta que é a própria democracia que está em risco.

Acampanha midiática de normalização do governo Bolsonaro como um governo democrático ficou delegada sobretudo ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Na semana em que a Folha de S.Paulo foi frontalmente atacada por Bolsonaro, Guedes concedeu uma entrevista ao jornal, em 3 de novembro último. A entrevista pretendeu mandar o recado de que o governo continua contando com gente esclarecida, ciosa das liberdades democráticas, verdadeiramente liberal no sentido político da expressão. A normalidade foi expressa com perfeição já na chamada da entrevista, que reproduziu a seguinte fala de Guedes: “Dá para esperar quatro aninhos de um liberal-democrata após trinta anos de centro-esquerda?” Como se estivéssemos diante de uma simples “alternância no poder”. Como aconteceu em outra ocasião, quando Guedes afirmou que iria “enterrar o modelo econômico social-democrata” dos governos do PSDB e PT.
E, no entanto, ao identificar PSDB e PT como farinha do mesmo saco social-democrata, Guedes ecoa Bolsonaro, que identifica todas as forças políticas que não a sua ao “sistema”, à “esquerda”. O ministro fala como se integrasse um governo liberal sem mais. Ao mesmo tempo, deixou claro na entrevista que seu horizonte não se restringe a apenas “quatro aninhos”. Perguntado sobre a inclusão da Petrobras na lista de empresas a serem privatizadas, Guedes respondeu assim à jornalista Alexa Salomão: “Não agora. Num segundo mandato o presidente vai considerar as grandes [empresas estatais]. Nós, da equipe econômica, queríamos tudo agora.”
Para não deixar dúvidas de que se trata de um governo revolucionário, que vai muito além da adesão incondicional ao projeto reeleitoral dos “oito aninhos”, Paulo Guedes também entrou de cabeça no discurso apocalíptico-salvacionista dos mártires. No anúncio de sua proposta de refundar o Estado e a sociedade no Brasil, em 5 de novembro, usava uma pulseira com os dizeres “Apocalipse 12:11”.
O texto bíblico do versículo 11 do capítulo 12 do livro do Apocalipse (o “livro da revelação”) diz: “Eles, pois, o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra que testemunharam, pois desprezaram a própria vida até a morte.” Trata-se do capítulo bíblico que introduz o tópico das batalhas com o Diabo, que foi jogado para fora do Céu, para a Terra. O capítulo narra nada menos do que o conflito cósmico entre o bem e o mal: o mártir vence, mas morre; e morre para vencer.
A pulseira bíblica indica o que está por trás da versão liberal-tecnocrática do caos como método implantado por Bolsonaro como estilo de governo. Guedes propõe tanta mudança radical ao mesmo tempo que é impossível debater com alguma seriedade. O discurso nacionalista, o religioso e o tecnocrata se uniram para abolir de uma tacada o lento trabalho constituinte e constitucional realizado nos últimos 31 anos pela sociedade e pelos três poderes.
Sem nem entrar no mérito das inúmeras propostas e de suas muitas incoerências e iniquidades, o ministro age como se jogasse no colo do Congresso uma Constituinte específica. Isso, com eleições municipais pela frente, sem qualquer preparação anterior. Trata-se, além disso, de um pacote de medidas que poderia ter sido debatido de maneira escalonada, em uma série coerente.
Vai passar pelo Congresso? De que maneira? Essas são as perguntas que miram o alvo errado. O pacotaço de Guedes vai na contramão do consenso que se formou na elite do capitalismo global. Todas as políticas adotadas para enfrentar a crise econômica mundial iniciada em 2008 salvaram os sistemas financeiros, mas apenas empurraram o real problema com a barriga. O ciclo de revoltas de 2011 a 2013, que mirou essa primeira gambiarra, está sendo agora retomado em diferentes partes do planeta em novo patamar. Duas coisas já estão claras para a elite do capitalismo global: a desigualdade chegou a níveis inadministráveis; estamos efetivamente em estado de emergência ambiental.
O plano Guedes quer introduzir com trinta anos de atraso as mesmas políticas que levaram à crise de 2008. Somada à política de vale-tudo ambiental do governo Bolsonaro e ao estado deplorável das instituições, caminhamos para um acirramento das nossas crises superpostas. É nesse contexto que deve ser compreendida a declaração de Guedes durante entrevista coletiva em Washington, no último dia 25 de novembro: “Sejam responsáveis, pratiquem democracia. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?” Não há democrata que tenha o direito de permanecer indiferente a um ataque dessa magnitude à democracia. Não há democrata que tenha o direito de continuar a acreditar que Paulo Guedes é um democrata depois de uma declaração como essa.
Do pacotaço de Guedes o que de fato importa para o projeto de poder do atual presidente é culpar “o sistema” pelo resultado “distorcido” que vier do Congresso. Seja lá qual for. A narrativa oficial já está preparada de antemão: Bolsonaro apresentou um projeto de reformulação de cima abaixo do país e não foi ouvido pelo “sistema”. Como queríamos demonstrar.

Com alguma variação, as pesquisas de opinião sobre o presidente mostram que o eleitorado se divide em três terços: aprovação, rejeição, nem aprovação nem rejeição. Também os principais nomes colocados para 2022 se organizam segundo essa divisão: Bolsonaro, Lula, João Doria/Luciano Huck. Não importa aqui se o eleitorado se divide exatamente em três terços. O que importa é que se consolidou na política institucional uma tática de organização que se baseia na divisão em três partes, seja lá o tamanho que tenha cada uma. Para a manutenção dessa lógica, o que não pode acontecer é alguma das partes cair para um patamar abaixo de um quinto do eleitorado.
A tática de cada terço é a mesma: fidelizar o eleitorado que acredita ser seu. Não há empenho de ninguém em minar a base das outras forças ou em estender a sua própria para além de seu terço.Por paradoxal que possa parecer, é confortável para todas as demais forças políticas dar por certo, por exemplo, que a parcela do eleitorado que está com Bolsonaro não pode ser reconquistada para a democracia. A tática de cada um dos três terços reforça a dos demais.
Desapareceu do horizonte a lucidez do discurso de Mano Brown no último comício no Rio de Janeiro do então candidato Fernando Haddad, em 2018: “Não sou pessimista, sou realista. Eu não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, pessoas que me respeitavam, me amavam, que serviam o café de manhã, que lavavam meu carro, que atendiam meu filho no hospital se transformaram em monstros. Eu não posso acreditar nisso. Não posso acreditar que… Essas pessoas não são tão más assim.”
Uma importante figura de referência do terço do meio, por exemplo, considera que não vale a pena perder tempo em solapar a base de apoio de Bolsonaro. Em entrevista a Igor Gielow publicada pela Folha em 24 de outubro, Jorge Bornhausen avaliou que o “centro deverá apoiar Luciano Huck na disputa com o PT para enfrentar Jair Bolsonaro no segundo turno em 2022, deixando João Doria de lado”. Para o ex-governador, ex-ministro e ex-senador, “Huck e um nome do PT irão disputar a vaga no segundo turno contra Bolsonaro (PSL). O presidente manterá seus 25%, 30% de apoio, apesar de tudo”. O político de 82 anos, que já pertenceu à Arena, ao PDS, ao PFL, ao DEM e ao PSD, deixou claro que não quer conversa com o terço à esquerda. Diz ter votado em Bolsonaro no segundo turno de 2018 “por exclusão, porque não voto no PT”. Bornhausen faz do partido de Lula, e não de Bolsonaro, o adversário a ser primeiramente batido em 2022.
Também Lula, já livre, aposta fundo na fidelização de seu terço do eleitorado. Em reunião da Executiva Nacional do PT em Salvador, em 14 de novembro, disse: “Vocês já viram alguém pedir para FHC fazer autocrítica? […] Quem quiser que o PT faça autocrítica, que faça a crítica você. Quem é oposição que critica, ela existe para isso. […] Na dúvida, a gente defende nosso companheiro.” É claro que exigir autocrítica de outra pessoa ou outra instituição é uma contradição em termos. Se é autocrítica, não cabe exigir que outra pessoa a faça. Lula tem razão, quem quer criticar, que critique.
Mas por que mirar em FHC quando é Bolsonaro o presidente? Lula fala de “oposição” como se ainda estivesse na Presidência da República e como se o PSDB ainda tivesse força para liderar a oposição a seu governo. Como se ainda estivéssemos na República do Real, encerrada definitivamente com a eleição de Bolsonaro. Como se o adversário a derrotar fosse o terço “nem nem” – que nem apoia nem rejeita Bolsonaro – e não o próprio Bolsonaro.
Sobretudo, Lula fala como se a tática do PT na eleição de 2018 tivesse sido sem mácula. Como se a total ausência de empenho efetivo em trazer o eleitorado “nem nem” para a candidatura Haddad não tivesse qualquer relação com o resultado. Em seu discurso na abertura do Congresso Nacional do PT em São Paulo, em 22 de novembro, Lula disse: “Não fomos nós os responsáveis, ativos ou omissos, pela eleição de um candidato que tem ojeriza à democracia.” O que mais se ouve na parte mais mobilizada do terço fiel ao PT é que quem não votou em Haddad não passa de canalha sem remissão. Trabalham com a convicção de que repetindo o mesmo erro de 2018 terão um resultado completamente diferente em 2022. Porque o PT já estará preparado para enfrentar as fake news. E porque não haverá a facada que garantiu Bolsonaro no segundo turno em 2018. Então tá.

Oque é necessário para que um acordo mínimo entre as forças que não apoiam Bolsonaro possa acontecer? O que é necessário para que uma agenda pública alternativa à lógica de campanha eleitoral mantida por Bolsonaro consiga se impor? Menos do que isso ainda: o que é necessário para dar o primeiro passo para evitar a catástrofe, para que forças políticas adversárias, mas dispostas a manter a democracia, aceitem simplesmente sentar para conversar?
Há uma montanha de desconfianças acumuladas de lado a lado. Mas, se a convergência em torno de um acordo mínimo em defesa da democracia não começar a ser construída desde já, a democracia já perdeu. Porque a construção de um acordo desse tipo tem de elaborar anos de golpes duríssimos, de mágoas e de acusações graves. E isso leva tempo.
É justamente da continuidade dessa desconfiança generalizada no campo democrático que se alimenta Bolsonaro. O atual presidente conta com a divisão no interior do campo democrático, aposta que continuarão dinamitadas todas as pontes entre as forças desse campo. Bolsonaro ainda não dispõe de uma maioria de extrema direita para chamar de sua. Só tem chance de realizar seu projeto autoritário se as forças democráticas não forem capazes de chegar a um acordo para isolá-lo.
O eleitorado “nem nem” é uma realidade. Mas o “centro” de Jorge Bornhausen é uma abstração política. O que se costuma chamar de centro é um estacionamento composto por aquela parte do eleitorado que não quer ser obrigada a escolher previamente se votará mais à esquerda ou mais à direita na próxima eleição. Foi sempre o sonho de parte da direita e de parte da esquerda tornar o centro algo orgânico, uma força política com identidade própria. Funciona como recurso retórico. Mas só.
É enorme a responsabilidade de uma direita comprometida com a democracia. Mesmo que não exclusivamente, ela tem o papel de roubar votos de Bolsonaro, de minar sua base de apoio, de disputar a sério a representação à direita para isolar a extrema direita. Em setembro último, o Datafolha tentou medir o efetivo apoio a Bolsonaro e chegou ao resultado de que o “núcleo duro de entusiastas” do atual presidente é de cerca de 12% da população, sendo algo como 22% os “entusiastas médios” do bolsonarismo. Ou seja, há muito apoio a Bolsonaro a ser roubado se houver um esforço real nessa direção. Parte desse esforço terá de ser feito pela esquerda, mas a responsabilidade da centro-direita é ainda maior. O único que tentou isso até agora foi João Doria – o mesmo que Bornhausen achou por bem tirar do jogo sucessório. Foi atrás de Alexandre Frota e de Joice Hasselmann, por exemplo. Mas Doria continua restrito a São Paulo, não tem capacidade de articulação nacional.
Isolar Bolsonaro requer ainda outro passo: a centro-direita precisa parar de fazer o jogo “me engana que eu gosto”, como se estivesse “usando” o atual governo para passar as mudanças legislativas com que sonha há mais de duas décadas. Quem usa os outros é quem está no poder. E quem está no poder é a extrema direita.
Em suma, Rodrigo Maia não preside o país, preside a Câmara dos Deputados. E seu mandato acaba bem antes do de Bolsonaro, em fevereiro de 2021. Os candidatos a substituí-lo nada têm a ver com o projeto do “novo centro”. É bom começarem a pensar nisso desde já.

Por fim, para que o movimento de ataque à base de apoio de Bolsonaro seja bem-sucedido, é necessário um cessar-fogo de parte a parte entre a centro-direita e Lula. O “centro” precisa parar de tratar Lula e o PT como inimigos preferenciais e passar a considerá-los como adversários com os quais é necessário se entender sobre o que será a democracia brasileira. Porque, como se sabe, na democracia há apenas adversários, e não inimigos.
Por isso mesmo, o único inimigo de fato é Bolsonaro. Porque é inimigo da democracia. Diante da ameaça autoritária representada pelo atual presidente, é politicamente irresponsável agir como se a polarização ainda fosse entre PT e PSDB. Irresponsabilidade, aliás, que é um presente para Bolsonaro.
A centro-esquerda alternativa ao PT desejada por Ciro Gomes e pelo PSB é um espaço ainda mais imaginário do que o “centro” de Bornhausen. Ciro quer abrir um espaço onde espaço não há, quer fazer política entre Lula e Luciano Huck. Para isso, resolveu hostilizar Lula e o PT de maneira permanente. Mais um presente para Bolsonaro.
Se uma candidatura de esquerda chegar ao segundo turno contra Bolsonaro em 2022, é evidente que vai precisar do eleitorado “nem nem” para vencer a eleição. Ainda mais se for um candidato do PT, um partido que registra hoje taxa de rejeição por volta de 43% no eleitorado. A parcela “nem nem” não virá para uma candidatura de esquerda “por gravidade”, por “não ter para onde ir”, como muita gente insiste em fantasiar.
O eleitorado “nem nem” só poderá vir a apoiar um candidato da esquerda contra Bolsonaro se sentir que novas regras de disputa política foram acordadas, se acreditar que um novo solo democrático para o exercício da divergência foi construído entre os adversários de ontem. Não para apagar as diferenças, muito pelo contrário. Como escrevi no texto de dezembro de 2018 aqui na piauí: “Uma concertação democrática como essa teria ao mesmo tempo de defender instituições indefensáveis na sua forma atual e propor uma renovação radical dessas mesmas instituições. Cada força política de oposição teria de ter garantido o espaço de fazer oposição à sua maneira e como bem entender, ao mesmo tempo que se perfilaria ao lado de todas as outras forças de defesa das instituições democráticas e de sua reforma.” O eleitorado “nem nem” só poderá apoiar uma candidatura da esquerda contra Bolsonaro se tiver a segurança de que não será hostilizado, de que sua posição será respeitada. Hostilizar essa parcela do eleitorado por não ter votado em Haddad em 2018 é o mais vistoso dos presentes para Bolsonaro.
Ao sair da cadeia, em 1945, após nove anos de prisão, Luiz Carlos Prestes apoiou o ditador que tinha mandado prendê-lo. Elegeu-se senador e viu seu partido, o PCB, ser posto na clandestinidade dois anos depois. Independentemente da montanha de equívocos de sua posição, o que Prestes fez ao apoiar Getúlio Vargas em 1945 foi política. Mesmo perseguido, mesmo na clandestinidade, aquele PCB -stalinista fez mais pela frágil democracia da Constituição de 1946 do que muito autoproclamado democrata histórico.
Lula e o PT ocupam hoje um lugar histórico ainda mais importante do que ocuparam Prestes e o antigo PCB em 1946. O PT governou por treze dos 22 anos da República do Real, tem a maior bancada na Câmara dos Deputados. É enorme a responsabilidade política de Lula e do PT na sustentação da democracia em seu momento de maior fragilidade desde a redemocratização.

“Sistema” é o lugar que o vencedor da eleição presidencial de 2018 atribuiu a quem perdeu. Quem hoje defende a democracia faz parte do “sistema”. Bolsonaro conseguiu transformar em “sistema” até mesmo o próprio partido pelo qual se elegeu. Essa é a lógica da política atual. Mostra a hegemonia de Bolsonaro no debate público, mesmo sendo apoiado por apenas um terço da população.
Se as forças democráticas entrarem em concertação (explícita ou implícita, não importa) para tentar encontrar uma convergência mínima que permita salvar a democracia, com certeza receberão o carimbo de “sistema”, darão razão à tática antissistema de Bolsonaro. Mas a atual tática meramente defensiva dos grupos não bolsonaristas também não se mostrou até agora capaz de escapar dessa consequência. Pelo contrário, apenas reforçou a posição de Bolsonaro. Porque o impasse dos três terços mantém tudo como está sem apontar para nenhuma saída, sem apontar para nada além da permanência do atual estado de crise da democracia. Se alguma das forças políticas não bolsonaristas vier a vencer o atual presidente em 2022 mantendo sua tática de hoje, apenas adiará a crise. Apenas produzirá novos Bolsonaros.
É por isso também que uma convergência mínima das forças não bolsonaristas não pode se resumir a restaurar o que foi a democracia brasileira. Tem de ir além de seu importante primeiro passo de um cessar-fogo nos bombardeios mútuos e permanentes. Tem de ser uma concertação que aponte para o futuro, para a construção de um novo espaço comum de divergência democrática, para reformas significativas das instituições.
Pode ser pura miragem o encontro entre Lula e Rodrigo Maia anunciado pelo colunista do UOL Tales Faria, em 19 de novembro último. Mas, mesmo sendo uma luz ainda fraca demais para o tamanho do túnel em que nos metemos, seria já um sinal alentador. Vai no mesmo sentido a tese da corrente majoritária do PT apresentada no último congresso nacional do partido, em novembro: “Não há contradição entre consolidar a unidade dos progressistas e, ao mesmo tempo, buscar alianças mais amplas, até com personalidade e setores de centro, em prol do Estado de Direito.” Já o discurso de Lula na abertura do mesmo congresso do PT vai em sentido contrário, segue na mesma linha dos pronunciamentos em Curitiba e no Recife, feitos após a sua libertação.
Os canais de diálogo e de concertação política estão hoje entupidos e enferrujados. Uma verdadeira DR [discussão da relação] do campo democrático vai exigir disposição, paciência e tempo. Um tempo que parece curto para o tanto de conversa que ainda precisa acontecer. Na melhor das hipóteses, o campo democrático tem menos de três anos para encontrar um acordo mínimo, tem menos de três anos para evitar a catástrofe.
Se o projeto autoritário em curso ainda mantiver seu roteiro eleitoral, o imperativo categórico da política brasileira é derrotar Jair Bolsonaro na eleição de 2022. Dar prioridade a qualquer outro objetivo em relação a esse significa arriscar tudo. Significa arriscar a pouca democracia que ainda temos.

por Marcos Nobre

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