terça-feira, 31 de março de 2015

Noite sinistra ...

A noite prometia: era apenas a segunda apresentação do Ratos de porão, lendária banda de Hard Core paulistana, há mais de 30 anos na ativa, em Aracaju. Terceira vinda deles aqui, se contarmos a vez em que vieram mas não tocaram porque tomaram um calote do “produtor”. Ficou apenas numa tarde de autógrafos no shopping Riomar e num acesso de furia coletiva do publico, que destruiu e saqueou a loja do pilantra. Que pouco tempo depois foi preso em flagrante por estupro, mas fugiu da cadeia e hoje é procurado até pela Interpol! Mas isso foi há muito tempo atrás. Coisa de 20 anos. Tocaram, finalmente, há cerca de 7 anos, na finada – e saudosa – ATPN, na Atalaia. E, que eu saiba, foi tudo mais ou menos ok ...


Mais ou menos porque aquela noite marcou a saída de cena da Terrozone produções, que vinha trazendo grandes nomes do cenário nacional à cidade, sob a alegação de prejuízos na bilheteria. Não parecia o caso, agora: um bom público compareceu à Casa Rua da Cultura na noite de sábado, 28 de março de 2015.

Cheguei por volta das 22:00H à recém-reformada Praça Camerino, no centro da cidade, àquela altura já tomada pelo tradicional “pretume” dos freqüentadores deste tipo de evento. A tempo de presenciar, logo de cara, uma cena inusitada: a primeira pichação, no monumento central da praça! Pelo menos havia uma mensagem, digamos, “edificante”: “A Rua é nossa! Fora fascistas”. Ah se a “wannabe” “puliça” (não mais uma “simples” guarda municipal) de sua excelência João Alves primeiro e único, o eterno, pega uma coisa dessas! Ia ser bomba de gás pra todo lado! A festa ia acabar ali mesmo ...

Não foram pegos, os pichadores - a guarda municipal certamente estava brincando de ser PM em algum outro lugar, ao invés de cumprir sua obrigação original, que é a de garantir a preservação do patrimônio público -, e a noite prosseguiu relativamente tranqüila. Mas não por muito tempo. Já na entrada estranhei: não havia revista! Era pagar, apresentar o ingresso e entrar, livremente. Não me lembro de ter visto, também, nenhuma sinalização de saída de emergência. A  área pela qual o público tinha que passar para circular entre os ambientes era estreita e estava sempre congestionada. Não quero nem imaginar o que teria acontecido caso houvesse algum tumulto ou incidente sério durante as apresentações. O mesmo vale para vários outros espaços de eventos da cidade. A tragédia da Boate Kiss já parece ter sido esquecida e voltamos à velha rotina de negligencia com a segurança e a vida das pessoas. Péssimos sinais. Mas tudo bem, vai dar tudo certo ...

Não deu. Mas a gente chega já lá. Nem tudo foi “treta” nesta noite antológica que foi aberta pela Cessar Fogo, banda já não tão nova mas que acaba sendo, se comparada à “headliner” e à Karne Krua, que tocaria em seguida e já está há 30 anos na estrada. Since 1985.

Cessar Fogo mandou muito bem! Fazem um som com uma pegada bem tradicional aliada a algumas firulas na guitarra, o que dá ao "molho" um sabor especial, inusitado, fugindo um pouco do "feijão com arroz" do punk rock. Estão com uma nova formação, novamente com dois guitarristas, o que ajuda a reproduzir os arranjos de seu primeiro – e excelente – disco, “conflitos mundanos”. Muito bem ensaiados, entregaram uma perfomance precisa e energética sob o comando do carismático “frontman” Luiz. O publico prestigiou e já se apresentava em bom número no recinto, agitando bastante, muito embora já se fizesse presente, também, o tradicional palhaço que pensa que show de rock é um picadeiro no qual pode extravasar suas frustrações na base da violência gratuita. Lamentável, mas o imbecil era um só e foi devidamente identificado – não pela segurança, que não existia, mas pela própria intervenção dos presentes, que trataram de colocá-lo em seu devido lugar. Ânimos acalmados, tudo transcorreu na paz.

Na apresentação seguinte, da Karne Krua, os problemas com o som começaram a se tornar evidentes: a guitarra estava baixa e mal se ouvia a voz de Silvio. Melhorou quando ele trocou de microfone. Foi uma apresentação curta e grossa, que se encerrou em grande estilo com “inanição”. Em todo caso, muito boa, como sempre.

Os ânimos voltaram a se exaltar no meio do público quando a Edose estava no palco. Fazem um som que remete a Matanza e Raimundos, com letras que falam de cerveja, mulher e ... briga! “Não sei ainda o que penso da vida/Mas o que me incomoda eu resolvo na briga”, diz uma delas. “Rock testosterona", eu diria. A pista foi tomada por caras “fortões” exalando “masculinidade”. Não é, definitivamente, a minha praia, então fui tomar um ar, porque o calor dentro do recinto era insuportável ...

Piorou, e muito, quando o Ratos subiu, finalmente, ao palco. Haviam cerca de 400 cabeças na casa – relativamente pequena - e todo mundo entrou pra ver, evidentemente – a Casa Rua da Cultura tem vários ambientes, um deles externo, onde todos se concentravam nos intervalos, já que não era permitido sair para a praça. O caos se formou, com algumas rodas de pogo mais insanas já registradas aqui neste cantinho do mundo, além das já tradicionais invasões de palco e "stage dives".  E o Gordo já foi logo mandando o papo reto, confirmando a suspeita de que havia algo errado no ar: “o patrão aí diz que não tem grana pra pagar a gente, e ainda vamos ter que pegar uma van até Salvador pra descer a duas horas de SP pra voltar pra casa. Mas vamos tocar, em respeito a vocês, do público. Se isso não for amor, não sei mais o que é”. E tome cacetada atrás de cacetada no pé do ouvido! Um repertório eclético, que misturou músicas de praticamente todas as fases da banda tocadas numa velocidade insana, além de dois covers, do Anti Cimex e do Extreme Noise Terror. Grande show, com um som bem melhor equalizado que o das bandas de abertura. Deu pra ouvir tudo em alto e relativamente bom som.

Teria sido tudo, se não perfeito, de excelente tamanho, não fosse o que veio a seguir, na praça, quando o evento já havia acabado e o público se dispersava: uma briga estúpida que terminou, literalmente, em sangue. Muito sangue! Nunca tinha visto nada parecido, parecia cena de Kill Bill. Estranho, pois não vi nenhum objeto cortante na mão de nenhum dos “gladiadores”. Mas havia, certamente, porque o corte foi feio. Com as unhas é que não foi feito ...

O cara foi socorrido e consta que passa bem. O autor da “proeza”, velho conhecido da cena, fugiu do flagrante mas não demonstra arrependimento, já que chegou a postar novas ameaças no facebook! Facebook que também foi usado pelo Ratos para lavar a roupa suja, numa sequencia de troca de ofensas lamentável. Eles reclamam da falta de pagamento e do não cumprimento das exigências técnicas previamente acordadas relativas ao som de palco. Acompanhe a polêmica clicando aqui, caso tenha estômago para mais uma daquelas discussões intermináveis, com direito a ameaças de morte e linchamento virtual coletivo.

E foi isso. Dentre mortos e feridos, salvaram-se todos. Lamentáveis os contratempos, mas eu me diverti, devo admitir. E diversão é solução, sim. É solução pra mim. Que a crise nacional e mundial seja contornada, que o Estado Islâmico seja derrotado, que os produtores produzam e as bandas sejam pagas! Que venham mais e melhores shows ...

Mas o DOOM, que ia rolar no lançamento do novo disco da Karne Krua, já era. Foi cancelado.

"O sonho acabou". De novo.

Sonhar é de graça.

Realizar ...

A.

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segunda-feira, 23 de março de 2015

MINISTRY, PORRA !!!!!!!!!!!!!!!

Foto: Edi Fortini
Cerca de 700 pessoas compareceram no dia 06 de março de 2015 ao Audio Club, em São Paulo, para presenciar a primeira passagem do Ministry, banda pioneira do rock industrial, pelo Brasil. “Banda” em termos: trata-se da lenda-viva (há quem diga que por pouco tempo) Al Jourgensen acompanhado de uma competentíssima “trupe”que ele definiu numa entrevista à revista Rodie Crew como, basicamente, “o Prong com um vocalista melhor”: Tony Campos (que também toca no Soufly) no baixo, Aaron Rossi na bateria, John Bechdel (Fear Factory, Killing Joke) nos teclados e Monte Pittman – que, acredite, toca há anos com a Madonna! – numa das guitarras. Na outra guitarra a única exceção, o californiano - com cara de mexicano - Sin Quirin. Que nunca tocou no Prong.

Foto: Edi Fortini
A platéia, por conta dos mais de 20 anos de atraso, se transformou num verdadeiro ponto de encontro de roqueiros doidões de meia-idade vindos de todas as partes do Brasil. Dentre eles, alguns “pesos-pesados” do jornalismo musical safra década de 1990, como Regis Tadeu(ok, nem tanto) e os Andrés Barcinsky e Forastieri. Eu revi amigos de longa data do Rio – Hudson, eterno ex-INP$ - Goiânia – Marcio Jr., do Mechanics e da Monstro Discos – e de SP mesmo – Eduardo Abreu, ex-diretor de filmes pornô e editor da revista 100Tribos. Uma verdadeira festa de confraternização de luxo, com sonorização de primeira.

Não teve discotecagem, apesar de João Gordo constar no “cardápio”. A julgar pelo que eu havia visto na noite anterior não perdemos muita coisa. Nem banda de abertura. Teve atraso, o que na verdade veio a calhar, pois contribuiu para que acontecessem os encontros descritos no parágrafo anterior. Nevermind: o que importa é que os caras estavam lá, fizeram um puta show e deu pra ver tudo de forma confortável, relativamente perto do palco mas a uma distancia segura da insanidade que, previsivelmente, se materializou na “linha de frente” ...

A visão de quem entrava na casa já era de arrepiar: o característico pedestal com osssadas à frente e um telão com o nome da banda ao fundo. Telão que passou a mostrar imagens muito bem editadas que ilustravam as letras das músicas à medida que estas iam sendo  executadas - em alto e bom som! Não tão alto, nem tão bom, mas ok.  Tudo quase perfeito, da perfomance ao repertório, que ignorou o fato de que aquela era a primeira vez deles por aqui e seguiu o roteiro da tour, com destaque para músicas do disco mais recente, “From Beer to eternity”. Blocos de músicas de álbuns específicos executados em sequencia, na verdade. Às vezes na exata sequencia em que estão nos discos, como no caso das quatro primeiras, “Hail to His Majesty”,  “Punch in the Face”, “PermaWar” e “Fairly Unbalanced”. Do “Rio Grande Blood”, por exemplo, tivemos faixa-título e as matadoras “Señor Peligro” e “LiesLiesLies”, esta última com o refrão cantado a plenos pulmões pela platéia.

Saltava aos olhos – e ouvidos – à esta altura a qualidade técnica dos músicos, especialmente de Quirin, que debulhava a guitarra em solos fantásticos sob o olhar de aprovação do “Uncle” Al. A massaroca sonora era precisa, opressiva e impiedosa, mas soava como um bálsamo auditivo para quem esperou quase que uma vida inteira pra ver – e ouvir! - aquela desgraça ao vivo.  O show prossegue com duas “dobradinhas”: “Waiting” e “Worthless”, do “Houses of the Molé”(2004), e “Watch Yourself” e “Life Is Good”, do “The Last Sucker”(2007). E então o mundo acabou ...

... porque eles entraram, finalmente, na fase áurea da banda, do final dos anos 80 ao início dos 90, com uma sequencia absolutamente matadora: “NWO”, “Just One Fix”, “Thieves” e “So What”. Sangue, suor e lágrimas. Por todos os lados.

Já teria valido a pena só por estes quatro petardos, o que torna passível de perdão o bis preguiçoso e anticlimático, com a arrastada “Khyber Pass”, do “Rio Grande Blood”, e “Enjoy the quiet”, uma colagem de ruídos que serviu de trilha sonora para uma decida de Al até a platéia para cumprimentar os que estavam colados na grade.

Aquele foi o tipo de noite que se recusa a acabar, então saímos eu e meus camaradas Reinaldo, Hudson e Marcio Jr. atrás de um boteco para comemorar o feito. Encontramos. Bebemos. Comemoramos.

E nunca esqueceremos.

A.

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Set list:

Hail to His Majesty
Punch in the Face
PermaWar
Fairly Unbalanced
Rio Grande Blood
Señor Peligro
LiesLiesLies
Waiting
Worthless
Watch Yourself
Life Is Good
N.W.O.
Just One Fix
Thieves
So What

Khyber Pass
Enjoy the quiet

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sexta-feira, 20 de março de 2015

The Sonics em São Paulo ...

Foto: Luisa Migueres / Terra
The Sonics é uma daquelas bandas que surgiram, fizeram algum barulho – tiveram pelo menos um hit "underground", “The Witch” – e depois sumiram na poeira da história. Ficariam para sempre no limbo do esquecimento se não estivessem, também, muito à frente do seu tempo, o que fez com que se tornassem um objeto de culto extremamente influente. Só para que se tenha uma idéia, Iggy Pop já disse uma vez que se não fosse pelos Sonics, o Stooges não teria existido. Não precisaria dizer mais nada, mas digo: The Cramps gravou “strychnine” em seu álbum de estréia, “Songs the Lord Tought us”. The Fall a incluiu numa “peel session”. Kurt Cobain era fã. Eles são de Tacoma, Washington. Na região de Seattle. Desnecessário dizer que são, também, uma espécie de padrinhos, ou “avôs”, do grunge.

Foto: Luisa Migueres / Terra
É protopunk, rock de garagem sujo e distorcido produzido muito antes da sujeira e da distorção tomarem conta do mundo. Falavam sobre sexo, drogas e insanidade – “psycho”! - entre acordes minimalistas e ritmos primais quando o mundo se preparava para mergulhar na psicodelia – que logo levaria ao rock progressivo – e no verão do amor hippie. Deram seu recado e se separaram, em 1968. Uns foram para a universidade, outros entraram em outras bandas. O saxofonista Rob Lind foi para o Vietnã. Combater. Fizeram aparições esporádicas com formações improvisadas ao longo do tempo, até decidirem voltar definitivamente no final da primeira década do século XXI. Em 2010 lançaram um EP, “8”, com quatro musicas inéditas gravadas em estúdio – de Seattle, com produção de Larry Parypa e Jack Endino - e quatro clássicos de seu repertório registrados ao vivo. Anunciam para o próximo dia 31 de março o primeiro álbum de inéditas em mais de 40 anos. Para comemorar, saíram em turnê pelo mundo. E começaram pelo Brasil ...

Foto: Luisa Migueres / Terra
Por São Paulo, mais precisamente. Show único e exclusivo. Imperdível! Eu não perdi – por sorte, estava de viagem marcada para ver o Ministry, que se apresentaria na mesma casa – Audio, na Barra Funda – na noite seguinte. Também pela primeira vez no Brasil e com um único show. Duas noites que prometiam. Muito.

A primeira promessa foi cumprida com louvor. Cheguei atrasado mas consegui ingresso. A entrada foi tranqüila – havia fila apenas para as cortesias. Era uma festa da Levi´s. Lá dentro, pouca gente – e olha que a casa é pequena. Mas não por muito tempo: logo o ambiente estava completamente tomado por um público ansioso que, no entanto, curtiu numa boa a apresentação do Legendário Chucrobilly, de Curitiba. Bom show. Extremamente minimalista – é uma “one man band” – e com uma sonoridade totalmente “hillbilly”. Na sequencia, uma discotecagem – fraca – de João Gordo.Muita musiquinha japonesa esquisitinha. Achei chato.

Foto: Luisa Migueres / Terra
Um “coroa” sobe ao palco para averiguar as instalações – eu estava colado lá, com meu camarada Andhye Iore, de Maringá. Uma garota mostra um LP, em vinil, e dá a entender que quer autógrafos. Ele explica que não é da banda, mas ela pede, por gestos, que ele leve o disco para os caras assinarem. Ele leva. E trás, com as assinaturas. Ela fica feliz. Eu também. Estamos todos felizes. E a felicidade explode de vez quando eles sobem finalmente ao palco, com um visual totalmente antiquado – roupas indênticas, estilo “country” – mas um som poderoso,  apesar dos problemas técnicos com o amplificador da guitarra. Começaram com “Cinderella” sendo berrada a plenos pulmões pelo vocalista/baixista Freddie Dennis, ex-Freddie and the Screamers, the Kingsmen e  the Liverpool 5. Ele não é da formação original, como o baterista, mas foda-se: puta vocal ácido! Perfeitamente integrado. O outro vocal, mais “encorpado” e técnico, fica por conta do tecladista, Gerry Rosile – este, sim, membro fundador. Assim como o guitarrista, Larry Parypa, e o ex-soldado e saxofonista Rob Lind. Que não se fez de rogado e já foi logo sacando do bolso uma gaita que tocou de forma visceral. A casa quase veio abaixo ...

Foto: Luisa Migueres / Terra
Já na segunda ou terceira música o palco foi invadido por garotas que dançavam ao som da banda, sem atrapalhar o show. Coisa linda de se ver. Pena que a festa não duraria: a equipe de segurança tratou de por ordem na casa. Na medida do possível, pois o público estava realmente insano e conseguiu passar a energia para o palco. Com direito, inclusive, a vários “crowd surfing”! Parecia show de Hard Core! Lind, o saxofonista, era também o encarregado de se comunicar com a platéia e não conseguia esconder a cara de satisfação.  Se despediu com um “goodbye, crazy  people”, depois de uma apresentação histórica em que standards – tipo “loui loui” - foram executados ao lado de composições próprias cantadas por todos a plenos pulmões. Algumas novas, e muito boas. Inclusive nos títulos: uma delas foi anunciada como “I don´t need no fucking doctor”! Mais apropriado, impossível.

Uma daquelas noites para lavar a alma e ficar na memória de quem presenciou.

Foto: Luisa Migueres / Terra
Para sempre!

A.

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segunda-feira, 2 de março de 2015

BEM-VINDOS AO FIM DO MUNDO

O que faz o conceito de “álbum” tão caro à cultura pop é o fato de que o projeto é geralmente pensado como um todo, desde a concepção da arte da capa, do lay-out do encarte, da contracapa e do selo, até a posição em que as músicas são dispostas ao longo do disco. O novo disco da Karne Krua, “Bem-vidos ao fim do mundo”, é um álbum, na melhor acepção da palavra, com conceitos, no geral – há apenas uma exceção, sobre a qual discorreremos mais detalhadamente adiante - muito bem desenvolvidos e definidos. E o que é melhor: tudo realizado pelos próprios componentes da banda, como manda a tradição do “faça você mesmo”. “With a little help from their friends”, na produção – musical e executiva.

A capa é belíssima. Obra de Alexandre Gandhi, o guitarrista – que é também artista plástico. Nela, num círculo em que o centro é a morte, gravitam os males do mundo, das crianças famintas à repressão dos “pigs”, das favelas aos horrores da guerra. A capa é dupla, e dentro temos uma bela foto de Silvio, vocalista e único membro fundador remanescente. No encarte, uma foto tirada nos corredores da Aperipê FM na noite antológica – para mim, pelo menos – em que eles lançaram o disco anterior, “Inanição”, ao vivo no programa de rock. Tudo perfeitamente organizado numa diagramação elegante e de muito bom gosto, cortesia de Ivo Delmondes, o baixista.

Aí partimos para o que realmente importa – mentira, tudo é importante. Mas a música é a razão de tudo, então é nela que devemos nos ater. Começa de sopetão, numa “vibe” “Tudo ao mesmo tempo agora”, assim que os sulcos encontram as primeiras freqüências gravadas: é “Horrores humanos”, curtinha, simples e direta, perfeita como faixa de abertura. Na seqüência temos “Por enquanto sem coisas belas”, e aí já nos deparamos com outra característica marcante da Karne Krua: a construção coletiva. Letra e música de Alexandre Gandhi.

Na faixa seguimos quem dá as caras de forma vigorosa, com uma marcação poderosa e perfeitamente integrada ao arranjo, é o baixo de Ivo Delmondes. Segue assim em “Usinas de mortos”. A esta altura fica evidente o entrosamento dos músicos e a qualidade da gravação. Tudo feito aqui mesmo, em Aracaju. Gravado nos estúdios Rikeza e mixado e masterizado por Alex Prado, com o auxílio da própria banda. Impossível não comparar com o primeiro disco, de 1994, que teve que ser gravado em Recife, com um resultado infinitamente inferior. Outros tempos ...

Seguindo a audição chegamos à faixa título, que, a exemplo do que aconteceu com o álbum anterior, é uma pequena obra-prima! Tem uma estrutura muito bem pensada, com a letra perfeitamente encaixada na melodia nos levando por um cenário apocalíptico com imagens mais aterrorizantes que as que constam no último livro da Bíblia. Porque são reais! Estão lá, no dia a dia, pairando ao nosso redor e estampadas nas manchetes dos jornais. Terremotos, tsunamis, meteoros e “grandes balas de aço e pólvora com urânio enriquecido” causando morte e destruição generalizada – Sejam bem-vindos ao fim do mundo! O lado A poderia terminar alí, mas ainda tem mais: “O anti-herói”, de Ivo Delmondes (letra e música) e, fechando com chave de ouro, outra pequena pepita, já bastante executada ao vivo: “Terrorismo XXI”, de Alexandre Gandhi – letra e música – que nos alerta para o perigo real e imediato de que um desses grupos de fanáticos ensandecidos ponha as mãos num artefato atômico. Assustador, para dizer o mínimo ...

O inventário de desgraças prossegue de forma catártica já na abertura do lado B com outro grande momento: “Quando o homem vira um animal”. Perfeita. Hard Core na veia! A pancadaria prossegue sem descanso com “Grandes corporações”, dá uma pequena tropeçada na fraca “Direito à vida” – que, por sua letra, merecerá um parágrafo à parte – e volta a tomar fôlego com “Auto destruição” e “Pequena Sofia”, já conhecida do split 7 polegadas com a Besthoven. O disco se encerra com um belíssimo poema de Charles Bukowski musicado de forma primorosa, com destaque especial para os arranjos de guitarra, nos quais Alexandre Gandhi viaja nas melodias – ainda distorcidas – depois de nos bombardear com uma seqüência memorável de riffs matadores ao longo de todo o play ...

Mas peraí, não acaba não! Temos ainda três “bônus tracks”, com regravações músicas de fases distintas da banda. Dos primórdios temos “Rumors of wars”, na versão em inglês – não gosto, prefiro a original em português mesmo -, depois “Manchas de sangue”, um clássico de uma fase intermediária, início dos anos 1990, gravada no primeiro disco, e encerrando tudo, de vez, “As Crianças da usina nuclear”.

Mencionei bastante o primeiro disco, lançado, também em vinil – numa época em que o formato digital, em CD, começava a dominar o mercado – há exatos 20 anos, em 1994. Não foi por acaso. Muito bom terminar a audição deste verdadeiro petardo e poder guardá-lo em minha coleção, ao lado do primeiro. Com “Bem-Vindos ao fim do mundo” a Karne Krua fecha um ciclo, voltando às origens com um som cru, curto e grosso, registrado nos bons e velhos – e ravalorizados! - sulcos negros de um bolachão. A banda já está com uma nova formação – trocaram de baterista – e pronta para o futuro. Aos 30 anos, parece estar apenas começando ...

Dito isto, para encerrar, preciso falar sobre o “tropeço”: “Direito à vida” é uma música fraca, perfeitamente dispensável. Especialmente pela letra: ouvi a primeira vez com um assombro! Custava a acreditar no que estava sendo dito pelo meu velho camarada Silvio! Tanto que, a princípio, achei que se tratava de uma crítica ao nosso combalido sistema de saúde, de uma forma geral. Até que veio a terceira estrofe, que soou como um verdadeiro tapa na cara da luta pela emancipação feminina: “Vidas humanas em perfeita condição/Condenadas ao extermínio/Sentem dor e rejeição/E têm suas vidas decepadas/pelos médicos e suas mães”. Era uma música contra o aborto, não tinha mais dúvidas! E pior: dá a impressão de culpar as mulheres que se submetem ao procedimento de forma precária e clandestina, e que na verdade são vítimas, não apenas de assassinato, mas de um verdadeiro genocídio ...

Sou amigo de Silvio há quase 30 anos e não poderia deixar de questioná-lo sobre o conteúdo desta letra, agora imortalizada, já que consta de um disco lançado em vinil! Fui na Freedom e tivemos uma conversa franca na qual ele me explicou que a intenção não era esta. O que ele queria, na verdade, era denunciar a ganância de profissionais da medicina que se aproveitam da fragilidade e da ignorância de mulheres desesperadas para alimentar uma verdadeiro rede de açougues humanos clandestinos. Argumentei que o problema está, na verdade, na proibição legal, que alimenta a clandestinidade. Ele concordou, e se disse a favor da legalização do aborto nos termos propostos pelo Conselho Federal de Medicina, ou seja, que seja feito o procedimento de forma assistida e respaldada pela lei até a décima segunda semana de gestação, quando os riscos para a saúde da mulher são minimizados e o feto ainda não tem o seu sistema nervoso central formado, ou seja: NÃO SENTE DOR! É ainda, na verdade, um projeto de ser humano! Virá a se tornar um ser humano caso a gestação não seja interrompida. A interrupção da gravidez nestas condições não pode, portanto, ser considerada assassinato, e é cruel acusar de um crime tão grave as mulheres que passam por este drama.

Ele admitiu que, na busca por um minimalismo primal, típico dos primórdios do estilo no Brasil – volta às origens, como mencionei acima - deixou a mensagem muito em aberto e caiu na mesma armadilha de bandas como Ira!, Olho Seco e Garotos Podres, que têm letras que ainda hoje são questionadas e/ou mal interpretadas, tendo que se explicar eternamente sobre o seu conteúdo. Concordou, então, em fazer um texto de próprio punho detalhando melhor o que quis realmente dizer com esta letra. Reproduzo-os, texto e letra, abaixo ...

por Adelvan

“Eu, Silvio Campos, vocalista da banda Karne Krua, não sou contra a prática do aborto. Na letra da musica “Direito à Vida”, inserida no nosso último álbum, “Bem-Vindos ao Fim do Mundo”, o que quis enfatizar e evidenciar foi a forma fragilizada e os riscos em que as mulheres de forma geral, sejam elas com um nível de escolaridade alta ou não, se colocam diante da clandestinidade desse sistema e ato . Quando refiro- me a clinicas clandestinas não estou me referindo a nenhum centro de saúde com estruturas corretas e que possa passar segurança e confiança para a pratica do aborto, refiro-me a salas, quartos, pessoas sem condições estruturais e psicológicas de apoio às mulheres que buscam essa pratica. Também quando me refiro a médicos que decepam vidas estou falando de um tipo de profissional que, nesse caso, só esta interessado nos lucros que a clandestinidade do ato oferece, colocando sempre a mulher em situação de total  vulnerabilidade em relação a sua saúde. Mesmo que seja uma opção dela passar por isso, esse tipo de medico ou profissional (às vezes nem medico é) não está preocupado em salvar vidas, além do fato de ter que matar fetos em estado avançado de desenvolvimento - o que, às vistas da lei, seria caracterizado como crime, mesmo que o aborto saísse da clandestinidade, nos termos do que propõe o Conselho Federal de Medicina. Dai também a frase que digo “Medicina pra matar, carnificina eficaz, contradiz os princípios dessa profissão que se fez para salvar”, nesse caso (quando praticado por um medico) não sinto-me culpado pela frase.

Mais uma vez: quando falo que vidas humanas são decepadas pelas mães é pela opção que muitas vezes as próprias mulheres tem e cometem o aborto sem uma  informação mais concreta sobre o que isso pode gerar, algumas presas aos dogmas religiosos. Muitas também se arrependem, mas insisto no que diz respeito a direito e ética: o direito é das mulheres sobre seu corpo, o respeito sobre as vidas delas e do que elas podem ou não querer gerar ou ter, a ética em todo o processo, a regulamentação de tudo para o avanço na sociedade.

Sou casado há 30 anos e minha mulher passou por isso. Toda opção da pratica do aborto ficou por decisão dela mesma, naquele momento era o que ela achava melhor para ela. Ela decidiu pelo aborto, hoje ela não é favor do aborto (somente em situações diferenciadas é que ela concorda) e eu sou a favor do aborto. Desejo que os órgãos responsáveis regulamentem essa pratica para que não tenhamos de presenciar verdadeiros açougues humanos.

Me desculpo pelas falhas e brechas na minha fala que possam ter dado uma impressão equivocada do meu posicionamento.

Silvio Campos

Direito à vida

Letra: Silvio Campos/Música: Karne Krua

Clínicas clandestinas
Entidades assassinas
Interesses financeiros
Promovem um genocídio
Puro horror e desespero

Direito, respeito e ética
Falta de informação
Controvérsia e discussão
Reforça toda a idéia
Contra essa degradação

Vidas humana em perfeitas condições
Condenadas ao extermínio
Sentem dor e rejeição
E tem suas vidas decepadas
Pelos médicos e suas mães

Medicina pra matar
Carnificina eficaz
Contradiz um dos princípios
Desta velha profissão
Que se fez para salvar


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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Michael Moore, uma entrevista ...

Em 18 de janeiro, dois dias depois do lançamento de Sniper Americano, de Clint Eastwood, Michael Moore tuitou: "Meu tio foi morto por um sniper na Segunda Guerra Mundial. Aprendemos que snipers eram covardes. Atiram pelas costas. Snipers não são heróis. E invasores são piores"; em seguida, continuou: "Mas, se você estiver no teto da sua casa se defendendo de invasores que vieram de 11 mil km de distância, você não é sniper – você é corajoso, é um vizinho". A repercussão negativa da direita foi rápida e barulhenta. Breitbart chamou os tuítes de "trolagem patética", John McCain disse que essas colocações foram "idiotas" e "ultrajantes" e Kid Rock escreveu no seu site: "Vai se foder, Michael Moore, você é um bosta e seu tio teria vergonha de você". Mas a reação mais dramática aos tuítes veio de Sarah Palin, que posou ao lado do sargento Dakota Meyer, condecorado com a Medalha de Honra, com um cartaz escrito"Vai se foder, Michael Moore". Os dois Os do nome do cineasta foram substituídos por duas miras.

Depois de atrair críticas da direita e da esquerda, Palin defendeu a foto durante um discurso bizarro e incoerente na Cúpula pela Liberdade de Iowa, no sábado seguinte, afirmando: "O que o cartaz disse é o que todos nós estamos pensando". Moore, de sua parte, não apareceu na TV nem reagiu à polêmica para além de alguns posts no Twitter e no Facebook, mas aceitou falar longamente com Eddy Moretti, da VICE, sobre sua opinião a respeito de Sniper Americano, franco-atiradores em geral, Sarah Palin, transtorno de estresse pós-traumático, a vez em que Clint Eastwood o ameaçou de morte e um monte de outras questões que estão circulando no circo da mídia no momento.

VICE: Oi, Michael. Vamos começar com os seus tuítes: antes de falar sobre a reação que eles desencadearam e te dar a oportunidade de esclarecer o que você quis dizer, o que te inspirou a escrevê-los e como você se sentia emocionalmente quando postou?

Michael Moore:Bom, a primeira coisa que eu diria é que não sinto nenhuma necessidade de esclarecer ou defender o que escrevi. Tenho orgulho do que escrevi. Não volto atrás em nada e, aliás, só acrescentei mais coisas. Não me assusto com essas pessoas que aterrorizaram uma nação inteira para entrar em uma guerra ilegal e sem sentido. Então, mesmo, em termos de impacto, isso não tem nenhum em mim. Eu disse o que disse. Claro, se estivesse errado ou tivesse cometido um erro, com certeza corrigiria, mas não é o caso. E fico meio mal quando vejo na TV ou escuto outras pessoas falando, tipo: "O Michael Moore voltou atrás". Bom, isso não aconteceu. Não me desculpo pelas minhas opiniões fortes no sentido de como quero que o belicismo neste país acabe.

E acho que o motivo pelo qual estamos tendo esta conversa também – e não falei sobre isso com mais ninguém, recusei todos os pedidos de programas de TV – é que o problema do Twitter e por que você precisa... vamos usar a palavra esclarecer: é porque 140 caracteres não conseguem expressar coisas que têm uma profundidade enorme. Então, postar no Facebook e falar com você me dá uma boa oportunidade de acrescentar ao que eu disse no Twitter.

O que me chamou atenção é que tem duas coisas que você está discutindo em mídias diferentes. No Twitter, você fala sobre a questão dos snipers, que é um assunto fascinante e que merece um pouco mais de discussão, e aí tem o filme chamado Sniper Americano.E parece que você está falando de duas coisas diferentes. Estou certo? 

Correto. Intencionalmente, não falei nada sobre Sniper Americano nos primeiros tuítes. Com certeza, escrevi o que escrevi, porque,naquele fim de semana, estava se falando muito sobre snipers por causa do filme, mas também porque era o fim de semana do dia de Martin Luther King e achei indelicado que uma coisa chamada Sniper Americano, um filme sobre um franco-atirador, fosse lançado no fim de semana em que homenageamos um grande americano que foi morto por um. E, se ninguém vê nada de errado com isso, como você se sentiria se anunciassem amanhã que o Sniper Americano 2 vai ser lançado no dia 22 de novembro (dia da morte de John F. Kennedy)?

É, não fariam um filme sobre algum tipo de ataque catastrófico e lançariam no dia 11 de setembro, por exemplo.

Exatamente. Uma loja de eletrodomésticos não vai fazer um anúncio no Dia da Memória do Holocausto do tipo: "Hoje, promoção de fornos". Quer dizer, esse seria o exemplo mais extremo e bizarro, mas mostra um pouco de falta de sensibilidade. Ou será que mostra? Vai ver que o plano era: "Bom, acabaram de lançar Selma. Será que os brancos vão assistir a esse filme? Vamos oferecer alguma coisa para os brancos assistirem no fim de semana de Martin Luther King". Sei lá, foi muito desconfortável. Isso me fez pensar em snipers, e se precisa ter crescido na minha família para entender a indignação intensa que a ideia do franco-atirador criou.

O nome do meu tio era Lawrence Moore, mas chamavam ele de Lornie. O tio Lornie foi uma pessoa que não conheci, porque nasci nove anos depois da guerra, mas, desde muito cedo, estava claro para mim que a morte dele tinha afetado muito a família. O impacto na minha avó foi muito intenso. Quando finalmente mandaram o corpo dele de volta e enterraram no cemitério católico de Flint, ela convenceu o marido a saírem da casa deles. Eles se mudaram para uma casa a duas portas do cemitério. E ela ia lá todo dia visitar o túmulo dele. E, para piorar ainda mais, a placa militar enviada para o túmulo pelo Departamento da Guerra – era assim que chamava antes de virar Pentágono – não tinha o nome do Lornie, nem Lawrence Moore, mas Herbert Moore, que era o marido dela, meu avô, Herbert (eles também tinham um filho, outro dos meus tios, chamado Herbert). Então, não tem nem o nome dele na lápide.

Era um ritual que acontecia duas ou três vezes por ano com todas as crianças: ir lá e colocar bandeiras no túmulo. Ele era um irmão querido. Para todas as tias e tios, ele era querido, o gentil, aquele que todos procuravam, e isso impactou muito a família. Sabe? A batalha já tinha acabado nas Filipinas e eles tinham ganhado, essencialmente. Eles estavam na província de Luzon marchando para a base por uma estrada. Os soldados japoneses eram conhecidos por não desistir, e um franco-atirador em cima de uma árvore atirou por trás na cabeça dele e o matou na hora. Eles simplesmente não entendiam que tinha acabado, por que é que... que ato absolutamente covarde.

Postei também um segundo tuíte imediatamente, porque quis esclarecer o que eu queria dizer com "sniper". Um sniper, para mim, é a pessoa da força invasora. É o soldado e as pessoas que estão fazendo errado, que sobem nos prédios ou em árvores, e se escondem, e derrubam pessoas sem elas saberem, sem sequer terem a chance de contra-atacar. Se as tropas de outro país estivessem marchando pela Broadway e alguém subisse num prédio para tentar pará-los, de jeito nenhum, isso não é um sniper. É um defensor ou defensora da sua casa. Assim como a pessoa que era o sniper, o franco-atirador árabe em Sniper Americano: o que ele estava fazendo? Estava tentando impedir a força invasora.

Antigamente, os snipers eram chamados de "sharpshooters" ou "marksmen" (atiradores de elite). Só foram começar a ser chamados de snipers na Primeira Guerra Mundial – e foram os alemães nessa época que aperfeiçoaram o conceito de sniper, não os aliados. E aí isso continuou. Na Segunda Guerra –acho que dá para procurar isso –, dois terços de todas as mortes provocadas por franco-atiradores foram por soldados alemães e japoneses. E, com o desenrolar da guerra, os russos descobriram como fazer isso. O que o Eisenhower fez em 1956, 1957: tinha a escola americana de snipers no Campo Perry em Ohio, e ele fechou.

Por quê?

Não sei. Quer dizer, fiz umas pesquisas nesta semana. Ele ficou fechado 30 anos, até que o Reagan reabriu em 1987 no Forte Benning. Depois da guerra da Coreia, se falava muito – um veterano me contou essa história – que isso não tinha muito a cara dos americanos. Os franco-atiradores são muito necessários para a força invasora. Com o lado que se defende, a caça acontece de muitas formas. Tipo, se fôssemos atacados, todos nos tornaríamos, como tal, snipers, se você quisesse usar essa palavra. Mas, quando chegam os libertadores, são os snipers que matam os libertadores. E essa é a confusão, obviamente, quando você assiste à FOX News. Quer dizer: falando sobre Sniper Americano, eles falam dos soldados americanos como libertadores do Iraque! Não libertamos nada. Aliás, pioramos a situação e perdemos a guerra! Coloca isso aí na coluna das perdas. E as pessoas deviam treinar dizer isso. Será melhor no futuro se conseguirmos dizer que perdemos no Vietnã, perdemos no Iraque, perdemos no Afeganistão. Por que inventamos esse conto de fadas sobre nós mesmos? Não ajuda em nada e só vai fazer a gente ter mais problema no futuro.

A direita no país está defendendo esse filme e ele vem tendo muito sucesso. Se você presumir que um filme faz sucesso porque as pessoas amam o personagem principal, poderia-se dizer que os americanos estão adorando esse atirador, certo? Por que você acha que isso acontece? Você está certo: em geral, os snipers sempre foram uma ameaça. É sempre o coitado pego na praça que leva o tiro e o franco-atirador está sempre escondido, numa atitude sorrateira. Mas o que esse sniper está fazendo para a consciência coletiva norte-americana que tanto satisfaz as pessoas e estimula a ida ao cinema? Tem um psicodrama incrível acontecendo em torno desse filme no nível psicológico nacional. 

Sim, e tem a ver com o fato de que, psicologicamente, sabemos que estamos errados. Sabemos que não havia armas de destruição em massa. Sabemos que 4.400 jovens americanos perderam suas vidas e inúmeras dezenas de milhares de iraquianos. Sabemos disso tudo – e sério, no fundo, é uma culpa muito arraigada.

Além disso, muitos republicanos órfãos da Guerra Fria que também vão ao cinema não vivem numa bolha. Eles têm familiares ou vizinhos, pessoas que voltaram dessa guerra transtornadas. Temos um problema enorme de transtorno de estresse pós-traumático. Temos um problema psicológico enorme aqui com os soldados que voltaram dessa guerra. E vou te dizer: nas duas vezes a que assisti, no final fica um silêncio. Ninguém comemora. Mesmo quando o Bradley Cooper mata o Mustafa, o sniper árabe, não rolou um "uhuu". E acredite: assisti com um público que não está do meu lado do muro político. E eles ficaram muito abalados, muito tristes. Todo personagem principal do filme acaba ficando perturbado pela guerra ou morre. E não é uma celebração disso. As pessoas podem entrar no cinema pensando "Ha ha!", mas não saem dizendo "Ha ha!".

A última coisa que vou dizer é que muita gente quer assistir agora por causa da polêmica e também porque foi indicado a Melhor Filme, e as pessoas querem ver o melhor filme. Além disso, é o Clint Eastwood: ele já fez alguns dos melhores filmes. Então, tem muitos motivos para as pessoas assistirem, mas vou te dizer: assisti na segunda noite na Union Square, e não tinha uma pessoa sequer que morasse no Village naquele cinema. Só tinha gente que pegou o trem de Nova Jersey ou de Long Island. E a pesquisa foi feita: o estúdio quer saber quem vai ao cinema. E o público desse filme é formado por pessoas que vão ao cinema uma vez por ano ou [por] gente que nunca vai ao cinema. É o público de A Paixão de Cristo que está nessas salas.

Vamos voltar um pouco à questão do sniper e à distinção que você faz entre comentários sobre snipers e sobre o filme Sniper Americano. Você tem uma conexão muito pessoal com o franco-atirador e seus efeitos, e não existem muitas histórias modernas sobre snipers que ecoem na consciência americana – tirando, talvez, se você voltar à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, como você estava dizendo.

Só que, mesmo nessa época, se você tentar lembrar, não tem um sniper que, com o tempo, a sociedade aceitou como herói americano. Não faz parte da nossa cultura. Tem uma história famosa do Jesse James e do covarde que atirou nele pelas costas. Ele estava pendurando um quadro na parede da casa dele quando um cara chegou na janela, atirou e o matou. O Jesse James não é lembrado como o canalha. Ele era ladrão e assassino, mas o cara que o matou é o canalha na história que se contou.

Crescemos ouvindo histórias assim. Nossos pais contam, pelo menos para os meninos, que atacar alguém pelas costas é uma atitude covarde. Acertar alguém sem a pessoa te ver, vir por trás, isso é considerado errado. A própria palavra sniper: já ouviu a palavra sniping (tocaia, emboscada) ser usada de um jeito positivo?

Não, nunca.

Tem um contexto negativo. Não fui eu que inventei isso outro dia no Twitter. É uma crença comum, e é por isso que nunca fomos conhecidos pelos nossos chamados snipers. Nas guerras das quais participamos, sempre é o outro lado que tem snipers. E não é que a gente nunca tenha tido atiradores de elite. Pelo amor de Deus, eu já ganhei um prêmio de atirador de elite da NRA [Associação Nacional do Rifle americana] quando era criança. Mas acho que o sniper normalmente é associado com o lado do mal, o que está lesando, sejam os alemães nas duas guerras ou os japoneses no caso do meu tio.

Saiu outro filme agora chamado Corações de Ferro. Você já viu?

Já, já vi.

Também tem um franco-atirador no filme e, no fim, ele mata o herói americano. Então, parece que o valor do sniper está nos olhos de quem vê. É o sniper malvado camuflado que mata o Brad Pitt, que estava destruindo um batalhão de soldados da SS.

Eu gostei desse filme. É um filme de guerra bem feito e me deixou nervoso mesmo na cadeira do cinema. E antes, no filme, quando eles chegam na cidade onde tem outro sniper alemão, que era o problema de todos os americanos que chegavam nessas cidades. A força invasora, os alemães, estavam ocupando a cidade e tentando deter os libertadores. Eles não poderiam ganhar numa briga justa, e pode-se dizer que os americanos tinham mais tropas, mais dinheiro e mais poder de fogo. Mas também faço uma análise mais zen: [a de] que o opressor, o invasor, o agressor basicamente – não sempre, mas muitas vezes – em toda a História é derrotado. Em outras palavras, o bem triunfa sobre o mal. Com algumas exceções – os povos indígenas sendo, claro, uma óbvia.

Recebo um monte de e-mails de gente dizendo:"O Chris Kyle protegeu nossas tropas e salvou vidas". Bom, o que quer dizer isso: "salvou vidas"? As vidas dos nossos soldados não deveriam estar em risco para começo de conversa. Nós é que estávamos errados. Nós éramos a força invasora e acabamos perdendo. Fomos até lá com falsos pretextos e deixamos o lugar muito pior do que estava quando chegamos.

Considerando sua história e seus sentimentos pessoais a respeito do conceito de sniper, você pode descrever como se sentiu quando entrou na sala de cinema e também quando saiu?

Bom, fui na segunda noite da estreia. Só estava passando em quatro cinemas no país. Gosto do Clint Eastwood e queria ver esse filme. Sinceramente, o trailer e as propagandas na TV dele são melhores do que qualquer outro filme do ano. Mas, quando cheguei lá, da fila da pipoca até entrar no cinema, falei: "Nossa. Olha aí, estamos no Village e não tem ninguém do Village aqui". Daí umas pessoas me viram, e uma falou "Opa, que bom que você está aqui" e agradeceu pelo meu trabalho.

Fiquei muito feliz de estar lá com esse público, porque eles ficaram muito abalados. As pessoas choravam. Ficou claro que estávamos em um cinema com 800 veteranos, militares, familiares ou amigos, e pessoas que nunca vão no cinema. Aliás, a pessoa com quem eu estava ria porque eu meio que fiz as vias de lanterninha. Ir no cinema em Nova York é diferente de outros lugares, e as pessoas entravam, olhavam, não encontravam lugares para sentar juntas e entendiam como o sistema funciona. Elas estavam muito fora do seu habitat. Nem sei dizer, eu devo ter dito umas doze vezes: "Olha, tem ali em cima". E eles olhavam impressionados, porque não sacaram sozinhos. E eu perguntava para as pessoas: "Você pode tirar esses casacos daqui? Pode deixar esse casal sentar?" Parecia que eles estavam muito confusos, com uma cara que eu provavelmente faria se estivesse tentando achar um lugar para sentar na sociedade de debates de Oxford.

Enfim, fiquei muito feliz de estar lá com esse público, porque eles ficaram muito abalados. As pessoas choravam. Elas estavam reagindo àquilo. Nos créditos finais, não tinha música, foi muito sombrio. Todo personagem principal do filme acaba transtornado pela guerra, se volta contra a guerra ou morre. Não tem uma vitória norte-americana a se comemorar no final e não tem ocasião de olha só o que fizemos, ou como no fim de O Resgate do Soldado Ryan, em que você vê o Tom Hanks morrendo, mas no fundo você pensa: Bom, ele não morreu em vão. Não tem nada disso nesse filme. Não tem catarse. Conversei com a Deb, que organiza meu festival de cinema em Traverse City, e ela disse a mesma coisa. Ela foi assistir no shopping. E disse que foi triste do começo ao fim. Disse que tinha muita gente conversando durante o filme, a maioria fazendo perguntas porque não entendia a política, não entendiam a coisa xiita-sunita, e perguntavam: De que lado ele está? Tinha muita ignorância na plateia.

Mas é interessante. Vi hoje que ele vai quebrar o recorde de bilheteria de filme recomendado para maiores de 17 anos, que até agora era de A Paixão de Cristo. E acho que estão descobrindo que o público é muito parecido. Não são pessoas que normalmente vão ao cinema, e se vão, não vão com muita frequência. Cinquenta por cento do público norte-americano nunca vai ao cinema. E outros 25% que vão só vão uma vez por ano. O público que frequenta o cinema são esses últimos 25%. Parecia mesmo o público de A Paixão de Cristo. Gente que normalmente esperaria sair em vídeo ou veria na TV, mas queria esse sentimento coletivo de sentar lá com os outros.

Deixando de lado suas questões com snipers e a política da guerra, seria justo dizer que você não tem nenhuma questão com o filme enquanto produção?

O filme em si não comento normalmente, se você segue meu Twitter. Eu, como muitos cineastas e diretores, tem meio que um código informal implícito de que não criticamos os filmes uns dos outros. Se não gostamos de um filme de outro diretor, não dizemos nada. Se gostamos, aí falamos aos quatro ventos e incentivamos as pessoas a assistirem. É por isso que é raro encontrar um cineasta atacando outro por um filme. Porque todos nós sabemos como é difícil fazer um bom filme. A única vez que fiz isso no passado foi quando me senti muito mal por tanta gente, principalmente trabalhadores, que estava pagando para ver uma coisa que disseram que era uma coisa e não era, e aí eles ficariam péssimos. Eles dão duro a semana toda, e hoje é muito caro ir ao cinema, comprar um doce e coisas para as crianças. É o que acho. Então, sobre o filme, eu não disse nada nos primeiros dois tuítes. E depois, quando finalmente escrevi mais do que 140 caracteres, quando fui no Facebook e disse: "Bom, não vou dizer nada sobre Sniper Americano, mas vou dizer o seguinte: Bradley Cooper, uma das melhores atuações do ano". Sem dúvida. Como ele se transforma... você nem pensa que é o Bradley Cooper.

Steve Carell fez a mesma coisa em Fox Catcher. Muito rapidamente, aquele cara "Steve Carell" some e no lugar aparece um monstro.

Exatamente. Esse é o sinal de um bom ator; então, esse é o meu primeiro comentário positivo sobre o filme. A segunda coisa é que, tecnicamente, é um filme bem feito. Acho que houve algumas boas escolhas em termos de... foi muito ousado não colocar uma música no final, só os créditos subindo no escuro. Preto e silencioso. Como história, acho que é aí que o filme fica um pouco complicado para mim, porque o Clint basicamente quer fazer um faroeste das antigas – tudo muito simples e sem complicar as coisas. Por exemplo: as Torres Gêmeas foram atacadas, eles são chamados e, de repente, estão no Iraque.

Se você não presta atenção em nada, basicamente o filme diz: "Fomos atacados e aí contra-atacamos no Iraque". Claro, sabemos que o Iraque não teve nada a ver com o 11 de setembro, mas o filme deixa implícito que tem e que essa é a missão em que ele está para defender nosso país. Mas não estamos sendo defendidos por ele estar no Iraque. Você pode defender que ir ao Afeganistão para detê-los, e tentar pegar o Bin Laden e tudo isso, que teve alguma legitimidade. Mas, antes, estava tudo nas mãos de um comandante-chefe incompetente, e o novo chefe levou 13 meses – se tanto – para fazer o trabalho que o Bush teve oito anos para fazer: pegar o assassino em massa. Então, tem problemas de narrativa no filme, e acho que é por isso que as pessoas na plateia ficavam falando, porque estavam confusas. Sniper Americano cobre o que parece cerca de cinco ou seis anos, ou três ou quatro incursões no Iraque, e é tipo: "Como é que ele sempre acaba na mesma cidade com aquele mesmo cara?". É meio bobo nesse jeito faroeste das antigas. Foi meio filme B nesse sentido. E, claro, tem todas as coisas históricas que estão erradas, mas não queremos entrar nisso. É um filme. Não estou assistindo como documentário.

Mas acho que as pessoas ficam muito abaladas com o que fizemos e continuaremos a nos abalar com isso. Onde eu moro, em Traverse City, criei programas de apoio a veteranos com transtorno de estresse pós-traumático. Faço conferências para encontrar empregos, montei o primeiro programa de ação afirmativa para contratar especificamente veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, e qualquer militar da ativa e familiares pode entrar nos meus cinemas de graça todos os dias do ano: eles não pagam um centavo. Não são muitas empresas que oferecem coisas de graça todo dia do ano para militares da ativa. E tem três cinemas que restaurei, são todos sem fins lucrativos. Montei para que sejam das comunidades onde estão localizados.

O filme está passando no seu próprio cinema, né?

É, estou exibindo o filme em um dos três cinemas. E isso é porque acho que faz parte do debate americano e as pessoas devem assistir. Não dá para falar sobre ele sem ter visto. Vi o John McCain me criticando ontem pelo que eu disse sobre os snipers em geral, e um repórter perguntou para ele se ele tinha visto o filme, e ele disse: "Não, ainda não vi". Isso me fez lembrar de quando ele foi no Lettermane criticou o 9/11,e o Letterman falou: "O senhor viu o filme?". E ele disse: "Não, ainda não vi". E o Letterman disse: "Senador, o senhor acha que é certo criticar coisas que o senhor não viu?". E ele respondeu: "Não, você deve estar certo. Preciso assistir".

Eu não passaria Transformers 5, porque é uma merda. Mas esse não é uma merda de filme. E, aliás, o Clint Eastwood até disse que tem um sentimento muito forte contrário à guerra no filme. Me diga, Eddy: quando você saiu do cinema depois de assistir, você pensou: "Que ótimo filme para recrutar jovens para o serviço militar?".

Acho que eu meio que me preparei para uma propaganda de direita quando fui ver o filme. Quando assisti, fiquei assustado, porque parecia um jogo de FPS. Pensei que isso tem um potencial muito perigoso. Se as pessoas achassem emocionante e pensassem: "Nossa, o Iraque é uma versão na vida real de um jogo de videogame que estou jogando. Legal". Então, foi um momento alarmante. Mas fiquei vidrado o filme todo. Não tirei os olhos da tela em nenhum momento. Então, é: fui preocupado e achei que o filme justificou, sim, a preocupação, mas agora, falando com você, talvez tenha uma mensagem contrária à guerra ali.

Tá, primeiro ele encontra o irmão na pista. Ele fica muito feliz de ver o irmão, que vai pegar um avião para ir embora de lá. Você vê que o coitado está completamente traumatizado. O sniper americano, Chris Kyle, está todo animado de vê-lo, e aí o irmão finalmente conta a verdade para ele: "Que se foda este lugar". Quantas vezes já ouvi isso dito por caras que voltam de lá? "Que se foda esse lugar". E aí o melhor amigo dele é morto: ele vai ao velório com a esposa, e a viúva do amigo lê a última carta que ele mandou, uma carta contra a guerra. Entende? A guerra é um erro.

Clint Eastwood não é um ideólogo da direita. Ele é uma miscelânea maluca politicamente. E, na verdade, ele é um libertário. Se quiser rotulá-lo, deve ser provavelmente nisso que ele acredita politicamente. Não acho que ele acredite que os Estados Unidos deveriam ser a polícia do mundo. Já é muita coisa mostrar que o irmão é contra a guerra, o melhor amigo é contra guerra. Parece que o Chris é o único que está tipo "Uhuu!". Todo mundo olha para ele do tipo: "Está louco? Vamos abaixar a cabeça e cair fora daqui o mais rápido possível, porra."

Todo mundo sabe da mentira que o Chris fica dizendo para si mesmo: de que vale a pena. Ele tem de repetir isso, porque provavelmente sabe, no fundo do coração, que não vale nada a pena. Não tem nada a ver com defender os Estados Unidos da América, que é o único trabalho deles. É para isso que pagamos nossos impostos. Para que, se formos atacados ou alguma coisa nos ameaçar, sejamos protegidos. Isso não estava nos ameaçando. O Iraque não estava nos atacando e não estava planejando nos atacar.

Lancei um livro de cartas de soldados, porque recebi muitas de pessoas que se alistaram depois do 11 de setembro. Queriam fazer a sua parte e, dois anos depois, foram mandadas para o Iraque e pensaram: "Mas que porra estou fazendo aqui? Não foi para isso que me alistei".

Parece que o que você está dizendo é que o filme é menos unidimensional do que o discurso em torno dele e a crítica contra você, que é quase mais míope do que o filme em si.

Sim, exatamente. E aí a pergunta precisa ser feita: por quê? Como foi que eu me tornei... por que virei o bode expiatório? Quer dizer, eu li o que o Noam Chomsky escreveu sobre o assunto. Li Matt Taibbi, li Chris Hedges... li o que os pensadores da extrema-esquerda disseram, e são todos muito cruéis e ferozes contra o filme. E concordo com muito do que eles dizem, mas não vão atrás deles. E o motivo pelo qual foram atrás do Seth Rogen é porque temos uma grande penetração no mainstream do norte-americano médio. Meus fãs, e obviamente a igreja da esquerda, adoram meu trabalho, compram meus livros e assistem aos meus filmes, mas, se fossem só eles, eu estaria condenado. Meus filmes passam em alguns shoppings e cinemas comerciais. E isso é muito incomum para uma pessoa da esquerda – nosso trabalho, nossa arte –, alcançar a massa dos Estados Unidos. Então, isso me torna perigoso para eles, porque sabem que eu tenho esse público. Acho ótimo que, às vezes, receba comentários do tipo: "Como foi que ele conseguiu dois milhões de seguidores no Twitter? Alguém pode me explicar? Em que mundo vivemos?".

Não tenho um programa diário na TV como a Rachel [Maddow], não tenho um programa semanal como o Bill [Maher]. Meu último filme foi feito há cinco anos e meu último livro, há uns dois. Não estou na mídia todo dia. Não apareço na TV. E, mesmo assim, tenho um número de fãs enorme que vai muito além da igreja da esquerda – e,obviamente, Seth Rogen também, até mais, porque ele não é uma pessoa política. Ele está muito, muito no mainstream, principalmente com a geração mais nova. E isso o torna perigoso, e eles precisam detê-lo imediatamente. Ele não pensou em nada muito político, achei que foi uma observação muito astuta e engraçada que ele fez. Mas agora tem um restaurante em Michigan onde Seth Rogen e eu não podemos comer. Criei a hashtag #tableforsethandmike ("mesa para Seth e Mike") para qualquer restaurante que aceitar nos servir, por favor, mandar o nome para nós. [risos]

Obviamente, você viu o cartaz que a Sarah Palin levantou: "Michael Moore", com miras nos dois Os.

Aquele que acabou com a carreira política dela no sábado?

É.

É, eu postei aqueles dois tuítes no domingo. E, na segunda-feira, percebi que era melhor fazer um post no Facebook, porque moro em uma nação onde muita gente não consegue compreender. Fora que 140 caracteres não é muita coisa. Então, fiz [um post] no Facebook e decidi que não ia mais falar nada até sexta-feira. Não postei nada no Twitter sobre o assunto, não falei nada, não fiz nada: simplesmente decidi deixar esses malucos cansarem e gritarem a semana toda. Não vão me ver contra-atacando, o que vai aumentar ainda mais a gritaria e maluquice, e essencialmente deixá-los socarem a própria cara. Era isso que eu esperava que fosse acontecer. Pensa: a grande maioria dos seguidores dela são evangélicos. Gente cristã de bem. Eles ficaram chocados ao vê-la segurando um cartaz escrito "Vai se foder".

Essa é uma pessoa que se coloca como uma respeitável mãe americana.

É. Valores da família. Muito exemplar, e ela fala coisas do tipo: "Valei-me, minha nossa senhora". Ela ficou tão irritada comigo que abaixou a guarda e mostrou quem é de verdade, e a direita cristã viu e ficou horrorizada. A repercussão negativa nas redes sociais foi imediata e também se repetiu no sábado antes do discurso dela. Minha teoria é que ela achou que seu próprio povo se voltou contra ela, e isso deixou-a aturdida. E aí acho que o teleprompter pifou, né? Ela não conseguiu [se] recuperar, e estava bem no meio. Preciso ver de novo, não lembro. Vi na C-Span. Mas, no começo, ela estava me criticando, estava sendo muito criticada pelo próprio povo, e aí começou [a ir] para cima de mim, e o teleprompter cai. Então, enfim. Gosto de imaginar que foi um bom ou uma boa sindicalista...

Que desligou o aparelho?

[risos] Que desligou o aparelho. Mas, seja como for, ela ficou atordoada. Se você acompanha as notícias sobre ela agora, nos últimos quatro dias, só se fala que ela acabou. Estão atacando-a na Fox: Bill Kristol, que era um grande apoiador dela. Todas essas pessoas a abandonaram por causa dessas duas coisas que ela disse: segurar um cartaz usando a palavra "foder" e o atordoamento dela quando ela foi me atacar, e se perder e não conseguir mais falar.

Com as miras e os Os, ela já não tinha tido problema? O site dela alguns anos atrás não tinha miras em alguns distritos no país?

Sim, e ela teve de tirar. E, no cartaz do "Vai se foder", ela colocou miras nos dois Os do meu nome. E isso também teve repercussão negativa, obrigado por me lembrar. Então, foi por usar o palavrão e voltar a colocar a mira em um ser humano.

De qualquer forma, estou olhando a foto agora e ela está fazendo um sinal com a mão que é bem "trasheira". Sabe quando você levanta o dedinho e o dedão? Não sei nem como chama. Tem um nome.

É, sei do que você está falando.

É tipo um sinal meio festeiro. É bem engraçado.

[risos] É mais tipo: "Vamos matar esse filho da puta e fazer FESTA!".

Tem uma coisa que é muito zoada e grosseira no que ela está fazendo com as mãos. Preciso te fazer uma última pergunta, porque não posso terminar uma entrevista falando sobre a Sarah Palin. Você permite que pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático usem seus cinemas como espaços de reunião. Como você acha que o filme lidou com a questão do transtorno, já que o assunto é tão próximo de você?

Bom, eu me identifico com ele através dos veteranos que ajudo, mas também me identifico pessoalmente. Não tive de passar pelo que eles passaram no Iraque, mas tive de lidar com as ameaças que sofri depois do meu discurso no Oscar; e, depois de Fahrenheit, houve meia dúzia de agressões contra mim. Tive de contratar segurança, essencialmente seis ex-Seals da Marinha e Boinas Verdes, e eles pegaram um cara que fez uma bomba de fertilizante para explodir a minha casa. Então, também tive problemas nesse sentido.

Fiquei feliz [pelo transtorno] estar no filme. Sabe, o Clint não tentou retratar nem os soldados nem os veteranos como uma operação monolítica de He-Man. Eram todos gentis. E acho que são. Sei que isso desencadeou coisas boas para pessoas que querem lidar com o problema do trauma e acho que o filme vai gerar uma vontade de ajudar os veteranos que retornam. Espero que promova coisas boas em níveis emocionais. Mas, no nível cognitivo, os americanos que assistem a esse filme precisam se comprometer a nunca mais: nunca mais vamos permitir que uma situação como essa se repita.

E se presta pouquíssima atenção a isso... o grande funeral que fazem no final com a caravana parece uma coisa que se faz para alguém que morreu na guerra. A guerra em que ele morreu foi a guerra em casa – a guerra do veterano que retorna, mas não recebe ajuda. Mas também é a guerra de uma cultura americana, especificamente a cultura texana, que diz: "Claro, dá uma arma para todo mundo. Vamos para o campo de tiro. Ah, ele tem transtorno de estresse pós-traumático? Não tem problema, toma uma arma". A arma americana, a cultura e a atitude americana com relação às armas mataram Chris Kyle. E isso é tratado de forma muito breve no filme. Só sabemos como ele morreu. O Clint não mostra a cena em que ele pega a arma e eles vão ao campo de tiro, e [não] mostra a cena no campo de tiro e [não] mostra que, depois de tudo que ele passou no Iraque, ele é morto desse jeito por um colega do exército. Não foi um liberal, nem um manifestante, mas um deles. A coisa toda é um erro, a guerra toda era um erro. Era imoral, era ilegal. O Papa disse que não é uma guerra justa, e é completamente... olhe as estatísticas dos caras que voltaram em termos de violência doméstica.

Abuso de remédios controlados...

Nossa. É muito... e tenho a impressão de que as pessoas acham que o que os olhos não veem, o coração não sente. "Não quero pensar nisso". Mas se o filme faz pensar sobre isso, terá feito uma coisa positiva; mas se saírem do filme pensando "Ansioso para a próxima guerra, para a gente pegar mais desses criminosos"...bom, desculpa, pessoal, mas não vamos aprender a lição até estarmos dispostos a dizer: "Nós fomos os criminosos, nós fomos os caras que erraram aqui". As pessoas estavam defendendo suas casas, e é por isso que estavam matando a gente. Assim como a gente os mataria! Se um grupo de iranianos ou iraquianos ou canadenses aparecesse na rua principal da sua cidade, me diz se você faria diferente.

É mais complicado que isso, porque eles não só estavam matando soldados americanos, mas estavam também se matando entre si. E, sinceramente, de certa forma, talvez seja perfeito que esse filme tenha sido lançado agora em um momento em que o ISIS trouxe a guerra do Iraque de volta para a consciência das pessoas e expôs a complexidade de lá que ninguém sabia que existia quando fomos ao Iraque, porque não se prestou atenção nem se aprendeu com isso. É interessante o filme sair agora, quando tudo está voltando a aparecer, porque nós que despedaçamos essa coisa. A confusão é agora e ainda está por vir.

Despedaçamos mesmo. Não digo que o Saddam Hussein fosse um cara do bem, mas ele claramente entendia que a única forma do Iraque não se desintegrar era ser um país laico, não religioso. Se a religião fosse introduzida, haveria uma guerra civil. E ele estava certo. É isso que está acontecendo agora.

Será que passaríamos um filme que se referisse constantemente aos indígenas americanos como selvagens?

Preciso dizer, antes de encerrarmos, que o retrato dos iraquianos, árabes e muçulmanos nesse filme é muito ofensivo. Estamos discutindo isso aqui na nossa casa, em Michigan. Existem muitos povos indígenas aqui. E será que passaríamos um filme que se referisse constantemente aos indígenas americanos como selvagens? O termo é falado muitas vezes nesse filme. A primeira vez que ouvi, pensei: "Tá, entendi, os soldados falam assim". Mas aí continuou se repetindo, e aí ouvi o Clint Eastwood falando, não os soldados. Ele precisava muito afirmar essa ideia. Ele precisava afirmar, do ponto de vista da história, que os outros lados eram selvagens, que eles enfiariam uma furadeira na cabeça de um menino. Isso ele precisava muito.

A primeira coisa que escrevi sobre a confusão que ele faz entre Vietnã e Iraque foi que a coisa toda de mandar crianças ou mulheres com granadas, ou enfim, isso faz parte da mitologia do Vietnã. E aconteceu de fato no Vietnã algumas vezes, mas isso assustava todo mundo, fazia todo mundo achar que os vietnamitas eram animais. Bom, isso não aconteceu na guerra do Iraque. As crianças não eram pegas em armadilhas, não levavam granadas e essas coisas todas. Na Palestina, tinha mulheres que faziam atentados suicidas: teve a mulher que tentou um ataque suicida na Jordânia, mas estão tentando negociar a libertação agora. Mas isso não foi na guerra do Iraque. Não teve esse tipo de coisa.

Perdemos muitas pessoas e muitos membros por causa de celulares e bombas caseiras que plantavam na estrada e explodiam. E aí o Rumsfeld se recusou a trocar os veículos da General Motors; então, nos primeiros anos, o chão dos veículos era praticamente papel alumínio. O pessoal lá começou a adaptar: pegavam sucata e parafusavam na porra toda para poder viver, porque o Pentágono não queria dar veículos nos quais eles pudessem sobreviver. Então, é ofensivo ouvir essa palavra dita em todo o filme por... não por pessoas ruins, mas pessoas boas, o que faz parecer que tudo bem dizer essas palavras sobre os iraquianos "selvagens".

Isso também reforça um sentimento sobre os árabes e muçulmanos que me deixa desconfortável. Mas – sabe? – não estou dizendo para tentar esconder isso. Existem problemas sérios. Até o cara com a bomba de fertilizante, posso citar um exemplo em dez anos contra mim. Se eu morasse em outros países, seria um pouco mais frequente. Então, não quero comparar isso àquilo, mas postei uma coisa no Facebook , porque me pediram nos últimos dias, com o Clint Eastwood. Se ele me ameaçou de morte? O Snopes finalmente fez uma matéria sobre isso ontem e disse que sim: é verdade, aconteceu em 2005 no restaurante Tavern on the Green. Acho que todo mundo levou como piada ou meio piada, mas foi uma dessas situações esquisitas em que ele não esperava uma risada, e aí as pessoas riram, e ele não gostou e disse: "Aí, estou falando sério. Te meto bala". E aí ficou um silêncio, do tipo: "Qual é o problema dele, porra?". Não se brinca com certas coisas. Não se fala para uma mulher "Aí, vou te estuprar" e, depois de uma risada nervosa, "Não, estou falando sério! Vou te estuprar!". Não diga isso, por favor. Não é legal.

Vamos encerrar aqui. Uma última coisa: nenhum filme consegue contar toda a história. Com certeza, existem muitas histórias iraquianas que não estão sendo contadas nesse filme. Mas a última cena, em que o Chris vai até a porta e sabemos o que vai acontecer: e a história não contada desse assassino? Será que devemos saber sobre eles? Tem alguém contando essa história do veterano iraquiano que volta para casa destruído psicologicamente?

Não, não está sendo contada. Ninguém pensa nisso no dia a dia. As pessoas não querem pensar na seriedade que esse problema pode ter. Vamos pagar o preço por isso se não tratarmos do assunto. Já estamos pagando. É um grande problema e deveria ser prioridade máxima.

Onde as pessoas podem buscar saber mais? Você quer indicar algum lugar?

As linhas de apoio aos veteranos que foram criadas por grupos de veteranos. Tem um documentário em curta-metragem, que foi indicado ao Oscar neste ano, chamado Crisis Hotline: Veterans Press 1 ("Linha Direta da Crise: Veterano, Digite 1", em tradução livre). É muito forte. É baseado em uma linha direta de veteranos que funciona perto daqui. Então, acho que tudo que você puder fazer para apoiar e incentivar, localmente, psicólogos e psiquiatras a doarem o tempo que tiverem. Não dependa do governo para isso. E também tem grupos muito bons, como os Veteranos Americanos do Iraque e do Afeganistão, e outros que estão tentando ser bons defensores dos veteranos. E acho que as pessoas devem entrar para esse grupo. Devem apoiá-lo, e também acho que devemos forçar nossos representantes a fazerem disso uma prioridade. Nosso sistema de saúde tem um problema, porque não tratamos de saúde mental da mesma forma. Devemos nos preocupar igualmente com a saúde mental e física.

Quantos veteranos cometem suicídio por dia?

São 22 por dia.

Isso é assustador.

A porcentagem de veteranos em situação de rua é assustadora. Se fosse possível mostrar para jovens no ensino médio: "É assim que o seu país te agradece pelo seu serviço". Escrevi um blog no ano passado dizendo que quero que todo mundo pare de dizer para os soldados e veteranos: "Obrigado por servir o nosso país". Eles não querem ouvir isso: querem que você cale a porra da boca e faça alguma coisa. Garanta tratamento de saúde mental. Vote em políticos que não vão os mandar para a guerra por motivo nenhum. Sabe? Se quer agradecer, é assim que pode fazer.

Tradução: Aline Scátola

por Eddy Moretti


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