terça-feira, 4 de agosto de 2009

BHRIF - 15 Anos

Há exatos 15 anos, em 1994, aconteceu em Belo Horizonte, MG, um Festival que marcou época no cenário independente brasileiro. Foi o BHRIF – BH Rock Independente Fest, totalmente dedicado à musica independente e/ou alternativa. Para que se tenha uma idéia da proposta inovadora do evento, apenas veículos de comunicação totalmente alternativos, notadamente fanzines ou revistas independentes, sem nenhum tipo de relação com a chamada “grande midia”, foram credenciados para a cobertura. As bandas também, para que pudessem tocar, não poderiam ter absolutamente nenhum vínculo com as “majors” da indústria fonográfica. Os Raimundos, por exemplo, que estavam despontando no cenário da época, não se apresentaram porque gravaram por um selo que era distribuído pela Warner Music, o Banguela Records, dos Titãs e de Carlos Eduardo Miranda. Nenhuma emissora de TV, aberta ou fechada, recebeu credencial para fazer a cobertura dos shows, palestras e seminários, tudo promovido pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, então administrada por Patrus Ananias, hoje “Ministro do Fome Zero” do Governo Lula. Nem mesmo a MTV, cuja marca estava incluída na publicidade como apoiadora, teve regalias, cobriu mas com imagens feitas à distancia. Essa premissa radical talvez tenha contribuído para o fato de que pouca gente, hoje, sabe que um Festival deste porte e com uma proposta tão ousada aconteceu, e no Brasil. Eu fui convidado a participar como único representante do nordeste no segmento “fanzine” ou “imprensa alternativa”. Costumo dizer que foram, provavelmente, os melhores dias de minha vida – viajar com tudo pago pela produção, ficar hospedado no mesmo hotel que alguns dos maiores ídolos e ícones da musica alternativa, como o Fugazi, e de quebra conhecer algumas das pessoas com as quais eu já tinha uma longa amizade via carta, foi algo realmente inesquecível. Abaixo, o relato que eu fiz desses dias, publicado originalmente num fanzine chamado DELIRIUM, uma edição especial do Escarro Napalm, lançado em 1995 com uma tiragem reduzidíssima.

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Tudo começou numa ensolarada e tediosa tarde de trabalho como outra qualquer, quando fui surpreendido por um telefonema do meu amigo Jefferson, que editava o fanzine KASPAR. Quase caí pra traz quando ele me disse: “Pois é, estamos a fim de trazer você para cá”. Eu, Adelvan Barbosa, brasileiro, solteiro, nascido em 26 de janeiro de 1971 na cidade de Itabaiana, estado de Sergipe, iria participar do maior Festival de Musica Independente do Brasil ...

Pouco mais de um mês depois, desembarcava na Rodoviária de Belo Horizonte. Outdoors espalhados pela cidade testemunhavam que o negócio não era brincadeira mesmo, era superprodução. Houve um mal-entendido e não havia ninguém para me receber. Depois de duas horas de espera, resolvi me virar sozinho. Qual não foi minha surpresa ao me deparar, logo que saí do Terminal, com a Avenida Afonso Pena ! Não deu outra, fui bater na Prefeitura ( NOTA: que estava promovendo o evento e cuja sede, eu não sabia, ficava nesta mesma avenida ) e algum tempo depois já estava confortavelmente instalado num quarto de hotel (diga-se de passagem, o mesmo onde estavam hospedados os caras do Fugazi, do Anathema, e um monte de gente legal). Esta gente legal logo logo estava toda reunida no quarto da Gabriela Dias (PANACEA), uns se conhecendo, outros se revendo e colocando a conversa em dia. Presentes, além de mim e da Gabriela, estavam o M.Z.K., Eduardo Abreu (100 TRIBOS), Emerson Gasperim (FUTIO INDISPENSÁVEL), Jefferson (KASPAR) e ... Pat Get, da DYNAMITE (Oh! My god!) (NOTA: Pat Get fazia uma espécie de “coluna social” e de fofocas roqueiras na revista Dynamite, na época).

Apesar de esgotados pela viagem (NOTA: no meu caso, de ônibus), fizemos presença na noite de abertura , na Serraria Souza Pinto. O lugar é um prédio enorme, antigo e aparentemente abandonado. A noite seria pontuada pela vanguarda da vanguarda da música independente. Para abrir, ninguém menos que THE NUDES, banda do legendário Chris Cluter, criador da também legendária RECOMENDED RECORDS (RéR). Para mim, que moro no cu do mundo (NOTA: Não acho mais isso, mas os tempos eram outros. Aracaju hoje em dia não é nenhum pólo cultural super-movimentado, mas há 15 anos atrás acredite, era bem pior) e tenho os ouvidos, infelizmente, ainda acostumados a clichês musicais, é um pouco difícil descrever o som deles. Em alguns momentos lembra Pixies, mas muito, muito vagamente ... As musicas têm uma estrutura muito estranha, uma melodia dispersa, hipnótica. E é muito energético. A mulher que toca baixo e sax tem uma voz fenomenal, e Chris Cluter é um monstro na bateria, com um estilo próprio e marcante. Mas a loucura estava apenas começando. Piração total foi a apresentação seguinte, do violinista John Rose – é algo como “o grindcore da música erudita”, como bem definiu Eduardo Abreu. O cara usa um monte de efeitos de distorção no violino e toca em cima de uma base pré-programada, tendo como resultado uma musica não muito agradável aos ouvidos incautos. Destoando completamente e quebrando o clima experimentalista tivemos o LORENZO Y LA NOTA FALSA, de Porto Alegre. Não sei se foi o sono que tava pegando (não conseguia mais ficar de pé), mas esta banda me deixou uma péssima impressão – parecia um Legião Urbana de quinta categoria. No dia seguinte soubemos que o MINISTER OF NOISE detonou a melhor apresentação da noite para o aguerrido publico de cerca de 15 pessoas que ficou até o final.

Manhã de sábado, 13/08/1994. Centro Cultural da UFMG. Exposição de discos independentes, demo-tapes, fanzines, fotografias e vídeos. Não preciso nem dizer que tinha muita, mas muita coisa boa mesmo. Participei (como palestrante, veja só !!!) de um seminário muito legal sobre fanzines, onde expus toda a minha sabedoria e experiência deixando boquiabertos os presentes (aplausos, por favor). Na platéia, amigos distantes que pude finalmente conhecer. Marcos de O. Ferreira (MELEKA KORROZIVA), Beto podrinho (OS CABELODURO), Phu (DFC), o pessoal da banda PURO LIXO, da RADIO LEOPOLDINA, da banda LUPE, entre muitos outros. Estava lançando o # 6 do Escarro Napalm, mas nem divulguei para evitar o assédio dos fãs ensandecidos que, com certeza, fariam um enorme tumulto para conseguir um exemplar autografado (mais aplausos) (NOTA: Não me lembrava que eu era tão metido a engraçadinho).

Depois de uma tarde de bate-papos e amenidades, partimos para a maratona de shows. Graças ao atraso do ônibus que nos levaria à praça da Estação (NOTA: onde aconteceram os principais shows), perdemos o HOLOCAUSTO – algo de que me arrependi mais tarde, pois ao ouvir o interessante trabalho que eles fizeram no disco “tozago as deismno” fiquei curioso de ver como soaria aquilo ali ao vivo. BLACK FUTURE eu achei um saco, o cara fica naquele discurso manjado de poeta marginal, enaltecendo os becos da Lapa, as prostitutas, os vadios, blah blah blah. Passo pro seguinte. INVISIBLE OPERA. Deve funcionar melhor em disco, porque ao vivo ... Tudo bem, os caras são bons pra caralho, e eu sempre gostei muito do Violeta de Outono, mas não me empolgou. Na seqüência, provavelmente a pior apresentação de todo o festival: SELF, com participação de uma das garotas do INHUMANOIDS. Lixo total, um pé no saco, um monte de efeitos eletrônicos sem pé nem cabeça. Musica para quem se acha “o máximo”, de “vanguarda”, estas coisas. Quem salvou a noite entre as atrações principais foi o CONCRETENESS. Os caras já chegaram detonando: “isso aqui é rock and roll, porra”. E tome porrada na cara. Punk Rock/Hard Core Industrial. Som pesadíssimo, martelado, refrões grudentos e a tecnologia a serviço da adrenalina. O tecladista agitava feito um louco. Muito interessante a inclusão de uns tecladinhos meio infantis no meio da porradaria toda. Você ainda vai ouvir falar muito desta banda ...

É a vez dos mineiros do PRIMAL VIOLENCE darem seu “recado”. Bom, limitava-se a um cara tocando guitarra e fazendo um vocal ininteligível, cheio de efeitos, enquanto o paulistano Loop B, em participação especial, ficava batendo com um vergalhão num monte de tralha que ele levou para o palco. Deve ter sido divertido – para eles. Quanto a mim, preferi ficar circulando e conhecendo melhor as pessoas. Como disse o Marcos “meleka”, num comentário tipicamente carioca: “se fosse eu dava logo um tiro nessa porra de lataria, aí sim ia fazer barulho”. A banda que fecharia a noite seria o SWAMP TERRORISTS, da Suíça. Fazem um som industrial, porém bastante dançante. Alguns compararam com Young Gods, o que eu acho questionável. Gostei do som, mas a uma certa altura ficou chato e repetitivo. Pra dizer a verdade, eu já tava era de saco cheio de ouvir musica eletrônica. Nos mandamos para a Serraria Souza Pinto, onde ocorreria o OFF-BHRIF, com bandas que haviam se deslocado a Belo Horizonte por conta própria, para tocar. Acabei perdendo mais uma vez o MINISTER OF NOISE, que tocou novamente no palco principal para compensar o horário ingrato da noite anterior. Mas valeu a pena: o OFF daquela noite deu de dez na programação oficial. Quando cheguei estava no palco o VE, skate-core, de BH mesmo. Não chegou a empolgar ao vivo, apesar de sua demo ser bem legal. É som na linha HC Californiano – Bad Religion, para ser bem claro. A banda seguinte foi a chapante LINGUACHULA, de Campinas (SP). Fiquei petrificado na beira do palco, babando. Com certeza uma das melhores do Brasil. Letras são inteligentes, sacadas espertas, som simples e potente e, no baixo e vocal, uma das mulheres mais “cool” que meus olhos já tiveram a oportunidade de “fotografar”. Fiquei apaixonado. Por ela e pela banda. Mas aí foi amor à primeira vista. OSCABELODURO eu já conheço há mais tempo, e sou fã incondicional. Subiram ao palco e eu presenciei, provavelmente, o melhor show de hard core da minha vida. Porrada atrás de porrada, Beto podrinho parece um louco, de chinelo de dedo (visual largado é pouco), levantando a bandeira do “rock paulêra”. A uma certa altura, o publico invadiu o palco, que quase veio abaixo. Madrugada, o dia quase amanhecendo, e eles tocam a impagável “canção de amor”. Sem mais comentários. A melhor apresentação da noite, uma das melhores do festival.

Oz
Domingo, 19/08/1994. Seminários, palestras, debates e workshops pelo dia. À tarde eu estava frente a frente com “o cara”: Ian Mckaye, do Fugazi. Gabriela Dias e Eduardo Abreu o entrevistaram. Eu, que não falo nada de inglês, fiquei chupando dedo. Rodeado de chá com torradas. Se pelo menos fosse café com cuzcuz ... Mas valeu, não é todo dia que a gente fica lado a lado com uma lenda viva do rock, né ? De quebra, dei um disco da Karne Krua (NOTA: o primeiro, em vinil, na época recém-lançado) de presente pra ele. À noite, pra variar, perdi mais três shows: JUNKIE JESUS FREUD PROJET, RESIST CONTROL e KILLING CHAINSAW (NOTA: Caralho, não acredito que eu perdi a única chance de minha vida de assistir a um show do Killing Chainsaw ...). Merda ! Eram os que eu mais estava a fim de ver. DEATH BY VISITATION OF GOD: Interessante, “pero no mucho”. Som industrial pendendo para o Hard core e o thrash, competente mas sem muitas novidades. SERPENT RISE: Doom Metal, se não for feito com competência, se torna chato e caricato. É este o caso. Um pé no saco – muita carinha de mau, muito clichê ... Passa. DORSAL ATLÂNTICA: Fez um show “ultraporrada”, muito energético, levou ao delírio os fãs, que não são poucos. Eu achei razoável, o som tava meio embolado, mas valeu pela garra e tesão dos caras em tocar. No final uma viagem muito louca, entrou um cara de cueca carregando uma cruz, parecia um Cristo do terceiro mundo, e ficou quebrando a dita-cuja no palco. Achei meio ridículo, mas tudo bem ... Por fim uma das grandes atrações internacionais, o ANATHEMA. Confesso que fiquei um pouco decepcionado, pois gosto muito do LP que foi lançado no Brasil, o “serenades”. Não esperava que ao vivo eles fossem tão “clicherosos” (será esta a palavra?): Dedos em chifre, cara pintada, cover do Venon ... Mas o som é muito bom, pesado e melancólico, como convém ao “doom”de qualidade na linha do Cathedral, Paradise Lost, My Dying Bride. Partimos para o OFF-BHRIF, hoje seria a noite do psychobilly !!!! Abrindo a zona, os CATCHUP BOYS, banda do presidente do fã-clube do Pato Fu, o Marquinhos. (NOTA: da época em que o Patu Fu ainda pertencia ao cast da Cogumelo, tinham acabado de lançar seu clássico primeiro disco). O cara não nega a influência e detona na guitarra, além de agitar muito. O som deles é uma fuleiragem total, o vocalista é muito escroto – só tendo muita cara de pau pra cantar o tempo inteiro com um frasco de catchup nas mãos. Achei massa. Na seqüência, OS BARATAS TONTAS, de BH. Psychobilly na veia e na cara, visual bem tradicional e topetudo. Som idem. Não precisa nem dizer, né? Mas eu digo: As letras são bem escrotas, o som é superbásico, e eu adorei (“I know, it’s only rock and roll, but I like it). Ah! Tocaram também um cover da musica tema do seriado do Batman. Mais aloprado que eles só mesmo a Isadora (do ZINE DEMARCHÉ) do meu lado gritando “uôu uôu uôu”. Pra fechar detonando tudo, OS CERVEJAS, de Curitiba. Um supertrio, o batera é quem canta. Não deixam ninguém respirar, é porrada pra todo lado. Muito bom, detonaram !!! Muito bom mesmo !!! This is rock and roll, baby !!!

Anathema
Segunda-feira, 15/08/1994. A cidade estava vazia, pois era feriado prolongado e o povo lá se manda para o litoral do Espírito Santo. Mania de brasileiro, praia. À tarde eu assisti um debate com Pena Schmidt, Carlos Eduardo Miranda e outros sobre uma suposta rede de distribuição dos produtos alternativos. Chato. Chato também a babação de ovo de alguns indivíduos em cima destes caras, principalmente do Miranda. No princípio eu tinha a intenção de colocar um material na mão dele, mas logo desisti da idéia. Preferi deixar com gente que eu sei que dará mais valor, como zineiros, punks, gente realmente envolvida de corpo e alma com o universo alternativo. O OFF-BHRIF eu não vi pois, pra dizer a verdade, já tava chapado de tanto show e resolvi guardar as energias para a noite de encerramento, que prometia ser a melhor. E foi. Começou com STIGMATA, que eu assisti de longe, pois não fazia muito o meu gênero. Depois tivemos o JORGE CABELEIRA E O DIA EM QUE SEREMOS TODOS INÚTEIS, o único representante da região nordeste entre as bandas que se apresentaram no festival. Legal. Como é moda agora, em Recife, fazem um som bem regionalista com pitadas de rock. É algo como Alceu Valença influenciado por Pixies (tiraram cover dos dois, inclusive). O problema desses caras de Pernambuco é que todos parecem estar querendo embarcar na onda do mangue beat e pra isso recorrem a expedientes vexatórios como a “babação de ovo” explícita em cima de jornalistas renomados em troca de espaço na mídia – a bola da vez, no caso, foi Alex Antunes, a quem dedicaram agradecimentos especiais e chamaram para uma canja numa das músicas. E o pior é que parece que dá resultado: correm boatos de que a Sony Music irá contrata-los. O espírito alternativo ? Ainda existe, é só procurar nas pessoas certas. O Fugazi estava lá para comprovar.

Anathema
Mas a sonzeira estava apenas começando. A banda seguinte foi o DAISY DOWN, do interior de São Paulo. Eu até gosto do disco deles, mas o show foi apenas razoável. Pecou pela falta de energia e porque as músicas, principalmente as que eu não conhecia, lembram um pouco demais o Nirvana. Já o OZ, de Brasília, subiu ao palco com o despojamento e a energia que fez deles uma das grandes promessas vindas daquelas paragens que tantas glórias já deu ao rock nacional. É uma guitar band simples e criativa. Destaque para o vocalista, que parece cantar numa língua muito estranha – eu, particularmente, não consegui entender que dialeto era aquele, mas dizem que é inglês. “três bien, mon ami”. O INTENSE MANNER OF LIVING conseguiu me colocar na roda de pogo, apesar do fôlego curto devido à variação de temperatura (minhas eternas crises de asma). Tava um frio da porra !!! IML é cacete, legítimo hardcore paulista, certamente entre os melhores do mundo. E a energia desses caras é algo difícil de descrever, só mesmo sentido na veia. Vivo e chutando ! Do caralho ! O pano de fundo do palco já anunciava o VIRNA LISI, grande revelação mineira. Dava pra ver na cara de todo mundo ali que já estavam cansados de vê-los ao vivo, mas eu não. Como em tudo o mais nesse festival, era minha primeira vez e provável única oportunidade. Um som um tanto quanto “cabeça” demais, em algumas passagens lembra Titãs, principalmente nas letras. Mas é bom, e é muito rock. Faltou mais percussão, mas eles devem estar querendo evitar associações com os modismos tão em voga hoje em dia (NOTA: 1994). Faltou também “esperar o que”, o “hit”, mas é compreensível, eles também devem estar cansados de tocá-la.

Fugazi
O Fugazi não tem hit, tem atitude e energia de sobra. Muita energia. Em disco já é muito bom, mas ao vivo é, provavelmente, uma das melhores bandas do mundo. Os dois vocalistas/guitarristas agitam como loucos na linha de frente, amparados por uma cozinha pra lá de discreta e eficiente. O baixista permanece imóvel durante todo o show, a não ser numa musica em que ele faz o vocal. Nesta, ele se dirige lentamente ao microfone e lá fica, estático. Nada de iluminação vibrante e colorida, apenas as luzes brancas acesas. Despojamento era a tônica para esta apresentação. Melodias incríveis intercaladas por efeitos estranhos e vanguardismo. “Hardcore Avant-garde”, uma boa definição para o som deles. Destaques? Nenhum. Um show perfeito, uma prova inconteste de que eles merecem ser o que são: uma das bandas mais coerentes e, por isso mesmo, cultuada em todo o mundo. Prova viva da vitalidade do punk rock, que só morreu para quem vê o mundo através das câmeras da MTV.

Bom, acabou. Uma certeza pairava no ar: aquele foi o maior festival de rock independente que este país já viu, e o mérito deve ser dado a todos os que colaboraram para a sua realização, tanto os organizadores quanto os participantes, que se dispuseram a viajar às vezes centenas de quilômetros sem ganhar nada em troca, a não ser a oportunidade para uma intensa troca de experiências e informações. Uma observação final é necessária para que justiça seja feita: a Prefeitura de Belo Horizonte, que bancou todo o evento, é administrada pelo Partido dos Trabalhadores. Já imaginaram o salto que o Brasil iria dar caso Lula fosse eleito presidente? (NOTA: Sim, eu era petista. Não filiado, mas simpatizante e dos mais fervorosos. E sim, eu também estou decepcionado com Lula na presidência).

por Adelvan Kenobi

Set list do show do Fugazi:

Fugazi - Live At B.H.R.I.F., Praça da Estaçao, Belo Horizonte,
Brasil - 15 aug. 1994

Fugazi
01.Intro.mp3
02.Brendan #1.mp3
03.Facet Squared.mp3
04.Public Witness Program.mp3
05.Reclamation.mp3
06.Nice New Outfit.mp3
07.Birthday Pony.mp3
08.Turnover.mp3
09.Waiting Room.mp3
10.Margin Walker.mp3
11.Song #1.mp3
12.Give Me The Cure.mp3
13.By You.mp3
14.Instrument.mp3
15.Rend It.mp3
16.Great Cop.mp3
17.Target.mp3
18.Promisses.mp3

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Abaixo, na íntegra, a histórica entrevista com Ian McKaye da qual participei (como mero expectador) durante o BHRIF.

Contexto desta entrevista: O Fugazi, banda americana independente, esteve no Brasil pela primeira vez em 1994 para uma turnê que incluiu o BHRIF (BH Rock independente Fest, Festival somente com bandas desvinculadas de grandes gravadoras promovido pela prefeitura de Belo Horizonte) e shows em São Paulo, Rio e Curitiba. Esta entrevista, publicada na Revita Panacea 36 em conjunto com a revista 100 Tribos, se deu em Belo Horizonte e foi conduzida pela Gabriela Dias, com participação do Adelvan, fanzineiro das antigas, e Eduardo Abreu, editor da 100 Tribos e posteriormente proprietário de uma produtora de filmes pornográficos (as voltas que o mundo dá).

Simples, direto, ríspido, até. Assim é Ian MacKaye. Só quando eu, Eduardo Abreu (do 100 Tribos) e Adelvan (do Escarro Napalm) fomos enfrentar o monstro é que vimos que ele não tinha 7 cabeças. Obsessivo, gentil, atencioso, Ian (bem como Guy, Brendan, Joe e Joey, o roadie multitarefa) foi se revelando aos poucos para quem, como eu, teve o privilégio de acompanhar a banda em BH e Sampa. Os estereótipos começaram a cair durante esta entrevista, realizada no restaurante do hotel em que nós (fanzineiros convidados do BHRIF) e eles (maior atração do evento) estávamos hospedados. Com vocês, o Fugazi como ele é.

Gabi & Eduardo
gabriela: O maior problema da cena independente brasileira é que não há muitas gravadoras, rádios e publicações para apoiá-la. Considerando isso, que diferença você vê entre o fato de uma banda daqui e de uma banda americana assinarem com majors?


mackaye: Nos EUA não foi sempre assim. Isso é uma conseqüência. Entre 78 e 81, não havia muitas gravadoras. Mas é difícil fazer comparações. São países diferentes, culturas diferentes.

gabriela: Você tem uma "receita" para que se desenvolva, aqui, uma cena forte?

mackaye: O quê?

gabriela: Uma "fórmula".

mackaye: Vim para o Brasil porque convidaram. Não sou desbravador. Vocês não precisam de um americano para dizer como fazer as coisas.

gabriela: E como se desenvolveu a cena nos EUA?

mackaye: Havia muitas cenas [regionais] diferentes. O comecinho, pra mim, foi em 79, com o punk. Em cada cidade havia algumas bandas, o que ocasionava o aparecimento de uma gravadora. As cidades se comunicavam por meio de cartas, telefonemas, fanzines. E a coisa cresceu. É como o seu fanzine. Como começou, como chegou até aqui? Não é tão simples. A minha versão favorita da história é: um dia, formamos uma banda. Agora estamos aqui.

gabriela: Você é uma das lendas do hardcore americano. Qual é a sua opinião sobre outros ícones dessa época: Jello Biafra, GG Allin?

mackaye: O que você quer saber deles?

gabriela: O que você acha deles.

mackaye: Alguns foram meus amigos. Nunca conheci GG Allin. E agora ele está morto, então ...

gabriela: Você não tem nenhuma opinião sobre ele?

mackaye: GG? [pausa. risos] Claro que sim. Não sei. Acho que todo mundo tem uma opinião sobre GG Allin. Não acho que a minha seja diferente. Ele me parecia uma pessoa infeliz com alguma coisa.

gabriela: E quanto a Jello Biafra? Vocês são amigos?

mackaye: Eu o conheço há alguns anos.

gabriela: Você gosta dos projetos solo dele? E das colaborações de estúdio, como o Lard?

mackaye: Não gosto de falar dos outros. Digamos, por exemplo, que você odiou esse pão, mas eu amei. O pão é bom ou ruim? O pão é o pão. Jello é uma pessoa que lutou muito, que tem lá suas idéias, e que é um bom performer. A primeira vez que o vi foi em julho de 80, num show dos Dead Kennedys em São Francisco. Desde então temos sido amigos. Ele é legal.

gabriela: Como foi aquela época pra você? Eu falei com Henry Rollins [veja Panacea 35] e ele disse que estava feliz agora porque, quando em turnê com o Black Flag, passava fome.

mackaye: Bem, não vou falar necessariamente sobre Henry, ok? A maioria das pessoas que assinam com majors têm desculpas. Uma das que mais ouço é que passavam fome e não tinham dinheiro. Mas estou numa independente e faço parte de uma banda punk. Não assinei com major. Não estou passando fome. Estou bem. Estou no Brasil. Quando as pessoas dizem "foi tão difícil", o que elas querem dizer é: "Me sinto um pouco culpada por ter feito isso". Essa é a minha opinião. Não necessariamente sobre Henry. O Black Flag estava na estrada o tempo inteiro. Trabalhavam muito, geravam bastante dinheiro, vendiam muitos discos. O que aconteceu com Henry não foi o caso da música independente, mas sim do Black Flag, tê-lo deixado na mão. Ele não recebia a grana. Nunca recebeu royalties.

gabriela: Roubado por Greg [Ginn, guitarrista; dono da SST, gravadora da banda]?

mackaye: Sim, por Greg.

gabriela: Ele me disse.

mackaye: Não se pode culpar toda a cena com base nas ações de algumas pessoas ambiciosas e sem caráter. Não é justo! Henry devia dizer: "Eu estava no Black Flag, e as pessoas da minha gravadora não me pagavam. Agora tenho controle sobre meus negócios e estou sendo pago." É o que ele devia dizer.

gabriela: Ouvi a mesma coisa da baterista das Babes in Toyland, a Lori Barbero.

mackaye: Babes in Toyland? Elas nunca foram uma banda independente! Lançaram um álbum pela TwinTone, e logo depois assinaram com a Warner.

gabriela: Mas ela tem um selo indepedente, o Spanish Fly.

mackaye: Sim, tem. O fato é: se você é uma banda popular, que trabalha e toca muito, e se as pessoas gostam de você, pode conquistar algo em gravadoras independentes. Se não, é difícil. Em uma major, você pode não ser popular, mas ainda assim vão fazer dinheiro com você, porque eles vendem qualquer coisa. Essa é a especialidade das majors: pegar um pedaço de merda, dar uma polida, e fazer um disco.

gabriela: Fazer vídeos pra MTV

mackaye: Eu não odeio majors. Não odeio pessoas que assinam com elas. É apenas a realidade, o modo como as coisas são. Eu gostaria que as gravadoras independentes não tivessem sido tão ambiciosas nos úlltimos dez anos. Porque o que aconteceu essa é a minha opinião sobre o porquê da música independente haver falhado, de certo modo, nos EUA , o que aconteceu foi que havia bandas, em 85, na SST, Black Flag, Minutemen, Bad Brains, Meat Puppets, Hüsker Dü.

gabriela: Sonic Youth.

mackaye: Sonic Youth. Qualé? Era uma loucura. Aquelas bandas eram tão populares. E o fato de que não recebiam a grana da SST era ridículo. Se a SST as tivesse pago, não creio que teriam ido para majors. A coisa poderia crescer para algo enorme. Mas a SST não pagou. Então o Sonic Youth disse: "Foda-se! Nós vendemos 15 mil discos e não recebemos!" As próprias gravadoras falharam. Se tivessem sido responsáveis, as coisas estariam melhor.

gabriela: Foi falta de organização?

mackaye: Não sei. Acho que, quando acontece um sucesso numa independente, as pessoas imediatamente pensam: "Nossa, é melhor começar a pensar como major!" Pra gente da Dischord que vendeu, com um disco do Fugazi, In on the kill taker, 250 mil cópias , é diferente. Não assinamos contratos. Nossas bandas são nossos amigos. Com o Jawbox e o Shudder to Think que deixaram a Dischord por majors , foi assim: "Vão e boa sorte." Não brigamos. Esse é o relacionamento que eu tenho que ter, se vou fazer esse trabalho. Porque o mundo da música fede. É uma merda.

gabriela: A sua palavra é mais importante que uma assinatura?

mackaye: Claro. Acho que, se fiz um acordo com alguém e a coisa não deu certo, não tenho que ir pro tribunal por isso. Acabou. Digamos: Babes in Toyland. Assinaram com a TwinTone, que era uma pequena distribuidora de Minneapolis.

gabriela: A mesma que lançou um dos álbuns do Soul Asylum.

mackaye: Exatamente. Elas assinam, e aí a Warner vem e diz: "Nós queremos contratar vocês." Aí a TwinTone diz: "Nós temos um contrato com elas." A Warner: "Quanto vocês querem pra liberá-las?" Aí a TwinTone ganha, talvez, 50 ou 75 mil dólares. É pra isso que existe contrato. Pras gravadoras fazerem dinheiro. Quando a Atlantic [N. da E. Parte do grupo Time Warner] veio atrás do Jawbox, eu disse: "Não queremos dinheiro." Não queremos nosso nome em lugar nenhum do disco. [risos] Quando a banda sai, acabou. Eu disse a eles [o Jawbox]: "Garantam alguma vantagem pra vocês." E eles garantiram: ganharam um bom dinheiro a mais já que a Atlantic não teve que dar dinheiro pra Dischord pelo Jawbox, a banda ficou com algum. No final das contas, pra mim, não quero ter nenhuma conexão, não quero ser parte da Atlantic, da Warner, da Capitol. Fodam-se eles! Simplesmente não estou interessado.

gabriela: Você não precisa delas.

mackaye: Não que eu não precise. Não é interessante [ser parte de uma major]. É chato. Às vezes eu penso: "Deus! Todos os meus amigos são milionários e famosos!" E eu sou este carinha que é fiel ao próprio mundo. Aí as pessoas pensam que uma banda como o Rage Against the Machine é que é radical. Como se pode ter rage against the machine [N. da E. Raiva da máquina, do "sistema"] quando se é parte dela [N. da E. O RATM é contratado da Sony]? As pessoas têm que superar essa coisa da imagem, do dinheiro Talvez não estejamos ganhando tanto, nem recebendo toda a atenção da imprensa, mas estamos vivendo uma experiência única. Nenhuma outra banda vende tanto quanto a gente fazendo as coisas como nós. Você quer saber quem é o empresário do Fugazi? Você está olhando pra ele. Nós agendamos os shows, nós empresariamos. Nós temos o controle. Essa é a porra da nossa banda! É uma experiência muito interessante, mas que a maioria das bandas não tem.

gabriela: Considerando sua discografia completa, o Fugazi já vendeu mais de 1 milhão de cópias. Sabemos que isso é resultado de um esforço enorme, mas Como você se sente administrando tanto dinheiro?

mackaye: Isso não me afeta. Nós somos honestos. A Dischord é honesta. Pagamos todo mundo. Todo mundo que trabalha pra gente recebe um bom dinheiro.

gabriela: Quantos empregados vocês têm?

mackaye: A gravadora tem cinco funcionários, que ganham muito mais do que a maioria das pessoas que trabalham, por exemplo, em livrarias

gabriela: Em punk jobs [N. da E. Quaisquer empregos relacionados ao sistema alternativo punk].

mackaye: Exatamente! Além disso, os empregados fazem o próprio horário e têm seguro-saúde, um grande problema nos EUA. São US$ 150 por mês de seguro-saúde. É uma loucura.

gabriela: Aqui também.

mackaye: Vocês também têm que pagar por isso? Que merda. Com o sucesso do Fugazi, quem está em volta se dá bem. Quem trabalha pra gente ganha bem; nós fazemos um bom dinheiro. É loucura: pro meio em que vivemos, é bastante dinheiro, mas, em comparação com algumas pessoas que vivem em Washington não sou rico!

gabriela: Classe média.

mackaye: Isso. Não sou nada. O dinheiro que fazemos agora, que talvez pareça muito Quanto tempo essa banda vai permanecer junta? Não é como alguém que tem uma carreira e trabalha 30 anos da sua vida fazendo um bom dinheiro por ano. Quem sabe? Talvez o próximo disco do Fugazi não venda nada. Nunca se sabe. Eu tento não pensar sobre isso. Eu era feliz há dez anos atrás, com nenhum dinheiro; era feliz há cinco anos, com algum dinheiro, e agora é a mesma coisa. Não fez diferença pra mim. Pra mim, é assim: "Ah, eu tenho algum dinheiro." Esse pão, por exemplo [N. da E. Ao longo desta entrevista Ian tomou chá preto, uma de suas poucas manias, e comeu torradas]. Não o pedi. Ele apareceu. Ok, aqui está ele. É a mesma coisa com o dinheiro. As pessoas do Fugazi são muito conscientes do que fazem com o próprio dinheiro. Alguns entrevistadores dizem: "Queremos saber o que vocês estão fazendo com todo o dinheiro." "Vá se foder! Não é da sua conta!"

gabriela: Você não tem vergonha de fazer dinheiro honesto.

mackaye: É loucura. As pessoas nunca estão satisfeitas: se nós fazemos as coisas dessa maneira, elas perguntam o que estamos fazendo com o dinheiro. "Não é da sua conta!" Se eles confiam na gente, ótimo; se não, problema deles. Não damos a mínima. O mundo tem 5 bilhões de pessoas. Não é necessário confiar no Fugazi. Não somos o governo, não somos a justiça. Nossas decisões não são nada, além de nossas decisões. Se as pessoas gostam e confiam em nós, se se sentem inspiradas pela gente, legal, porque é isso que eu tiro da música: inspiração. Vocês entendem?

gabriela: Claro.

mackaye: Se não gosto, não confio numa banda, não fico perguntando: "Oh, por que será que não gosto de vocês? Você pode me explicar?" Vá se foder! Há dezenas de outras bandas e pessoas legais no mundo. É uma questão de trabalhar construtiva ou destrutivamente. Se eu acho que uma coisa é boa, vou trabalhar por ela; se acho que é ruim, vou procurar uma boa. Não destruo, construo.

gabriela: Como a Dischord distribui seus discos?

mackaye: Nossos produtos são prensados na Europa.

gabriela: Na França?

mackaye: Na França e na Inglaterra. Onde estiver mais barato. Após a prensagem, são distribuídos de um porão em Londres até uma loja em Chicago, ou até o escritório da Dischord em Washington. Há distribuidores pros EUA; há outros para o resto do mundo. Mas não temos um representante no Brasil.

gabriela: Distribuidores indies?

mackaye: Sim. Nos EUA a coisa está meio estranha: por causa do sucesso e de razões escusas, muitos distribuidores foram comprados por majors. Elas fazem isso porque é bom negócio, mas também porque, quando lançam novas bandas, querem lhes dar credibilidade. Fazem isso colocando-as em suas gravadoras "independentes", distribuídas "independentemente".

gabriela: O Maximum Rock'n'roll [N. da E. O mais famoso zine punk dos EUA] fez uma matéria de capa sobre isso.

mackaye: Exato. Achamos que a Caroline, por exemplo que é da EMI , pode distribuir nossos discos, porque ela não tem exclusividade: compra da gente tanto quanto as lojas. Na verdade, nós distribuímos. E, se você não consegue comprar o CD pelo preço [N. da E. A Dischord põe um "preço máximo" no CD: US$ 8], tem sempre a opção de comprar direto. É mais barato.

gabriela: Fui comprar a compilação do Minor Threat em São Paulo, e quiseram me cobrar 26 reais.

mackaye: Quanto custa o CD nacional?

gabriela: 17, 18 reais em média.

mackaye: E o importado?
gabriela: De 20 a 30.

mackaye: Então nossos discos estão sendo importados pra cá.

gabriela: Sim.

mackaye: Se você comprasse a compilação da gente, pagaria US$ 11. Por correio, via aérea. É mais barato que o CD nacional! Mas é menos cômodo. Você tem que ir ao correio, esperar duas semanas. Eu queria ter mais catálogos.

gabriela: Catálogos da Dischord, com endereço e preços?

mackaye: Isso. Negócios, negócios.

gabriela: E quanto às camisetas? Você desencoraja o merchandising.

mackaye: Sim. E fazem pouco da gente.

gabriela: E aquela camiseta "this is not a Fugazi t-shirt"?

mackaye: É tudo pirata. Essa camiseta, em particular, eu escrevi pro cara e disse: "Pare com isso." Aí ele fez essa, que é engraçada.

gabriela: Ao menos tem senso de humor.

mackaye: É. Liguei e disse: "Já que você é tão criativo e vende camisetas só porque tem 'Fugazi' nelas, por que não dá o dinheiro a uma instituição de caridade aí de Boston?" Ele aceitou. O dinheiro delas fez algo de bom. Se eu fosse garoto, nunca iria a uma loja comprar camiseta. Agora, se você for a um show de uma banda nova, e ela estiver vendendo camisetas que fez, compre. Se vier uma grande banda, com stands vendendo camisetas a US$ 25 (coisa normal nos EUA), que se foda! São roupas, não anúncios.
gabriela: E por que o Fugazi não faz sua camiseta?

mackaye: Porque nós somos uma banda! Não é interessante. Na verdade, Jeff, meu parceiro na Dischord, faz camisetas da gravadora. Mas pra mim isso é chato. Pense nas bandas de jazz dos anos 30, 40: já imaginou se todo mundo que fosse vê-las usasse sua camiseta? Por que é normal, pra gente, em 1994, um garoto pagar US$ 20 pra ver uma banda, US$ 25 pela camiseta, US$ 15 pelo poster?

gabriela: O que você acha da briga entre o Pearl Jam e a Ticketmaster? [N. da E. A banda está na Justiça contra o monopólio de venda de ingressos de shows que a Ticketmaster tem nos EUA]

mackaye: O que eu penso disso?

gabriela: Sim, como vê a situação?

mackaye: Bem, nós já brigamos com a Ticketmaster. [risos] Vencemos a luta: damos shows por US$ 5. O Pearl Jam está na mesma situação, só que em nível de estádios. Tenho amigos que ironizam: "Coitadinhos, lutando por um ingresso barato, de US$ 18" Mas os Eagles estão fazendo turnê por US$ 100.

gabriela: E os Stones?

mackaye: US$ 50, 60. Talvez US$ 18 seja barato pra um show desses.

gabriela: O ingresso dos Eagles é mais que o salário-mínimo daqui.

mackaye: Loucura.

gabriela: E o que você acha dos códigos de barra nos CDs?

mackaye: O Maximum Rock'n'roll e outras pessoas são contra. O que eu penso: eles são adesivos, etiquetas, e deveriam ser tratados como tal. As pessoas não deveriam colocá-los em cima da arte da capa, porque aí ela vira só um produto. Mas se são adesivos pra colar, qual é o problema?

gabriela: Essas pessoas estão tentando "salvar" o hardcore.

mackaye: Em primeiro lugar: o hardcore não pode ser salvo. Em segundo: o punk ou o hardcore, seja qual for o nome que se queira dar viverá pra sempre, goste-se ou não. Sempre haverá pessoas trabalhando e criando em um nível "abaixo" de tudo.

gabriela: É a atitude "underground".

mackaye: A palavra underground se tornou uma marca. Mas o conceito sempre irá existir. A garotada sempre vai dizer: "Foda-se essa merda. Odeio Fugazi. Vou tocar diferente." E isso é ótimo.

gabriela: É assim que a música evolui.

mackaye: Exatamente.

gabriela: O hardcore é um estilo musical ou um modo de vida?

mackaye: Eu não sei o que é hardcore. Digamos que há uma série de portas e uma linha de tempo. Na primeira porta está escrito new wave; na segunda, punk; na terceira, hardcore; na quarta, alternativo, e depois, independente. São portas diferentes de tempos diferentes, mas que dão mais ou menos no mesmo lugar. Entro pela do punk. O hardcore é uma porta que veio depois. Sou um punk rocker. Mas talvez seja a mesma coisa. Não sei. Talvez vocês achem que punk é Sex Pistols. Mas pra mim é Patti Smith, Stooges, MC5. E também é Black Flag! Minor Threat era punk, não hardcore!

gabriela: E a violência? Skinheads etc.

mackaye: Não faz sentido. Em 81, quando começamos, havia tanta violência no punk Sei do que estou falando, porque eu costumava brigar muito.

gabriela: Está melhor agora?

mackaye: Sim. Menos brigas.

gabriela: Diz-se que você criou o straight edge, um movimento muito ativo hoje em dia

mackaye: [interrompendo] O que é isso? O que eles fazem?

gabriela: Muitas bandas, zines

mackaye: Ok. [risos] Já respondi essa pergunta milhares de vezes, mas estou pronto. Você está?

gabriela: Sim.

mackaye: Em 1980, estava no Minor Threat. Escrevi uma canção chamada "Straight edge", sobre um garoto que não bebe álcool, não se droga, não fuma, e se sente pressionado por causa disso. Sou esse garoto. Escrevi uma música sobre a minha vida? Descobri que havia muitas pessoas que concordavam comigo. Outras diziam: "Vá se foder, Adolf Hitler! Idiota!" Se você ler a letra, verá que não digo "não faça". As pessoas acharam que eu estava tentando criar um movimento. E eu: "Isto não é um movimento, é apenas uma canção." Não fez diferença. É 1994, e você está perguntando a mesma coisa.

gabriela: Talvez porque as pessoas continuem te vendo como um líder.

mackaye: Mas não posso fazer nada! O que aconteceu é que surgiram outras bandas que gostavam daquilo. A coisa se deturpou. Existem dados estranhos: muitos dos garotos que entraram no straight edge são de famílias fortemente católicas. É mais ou menos o que acontece também com o Shelter. [N. da E. Banda de hardcore ligada ao Hare Krishna]

gabriela: O crossover religião e hardcore não funciona?

mackaye: Pra eles, acho que funciona. Pessoalmente, não endosso nenhuma religião. Mas não tenho regras. Sou só um ser humano. Acredito que é natural o ser humano fazer coisas boas, e é por isso que fazemos benefits [shows para arrecadar fundos para alguma causa]. Não se tem que ter religião para ser consciente. Tem gente que diz: "Por que o Fugazi faz as coisas assim? Deve ter motivação política ou religiosa." Não. Somos quem somos. O Fugazi sou eu, Guy, Brendan e Joe. Os quatro decidem. É nossa banda, gerando nosso dinheiro, sem nada por trás. Fazemos o que queremos.

gabriela: E o que você acha quando dizem que o straight edge é de direita, porque "combate" as mesmas coisas que o governo americano: drogas, álcool etc?

mackaye: Essa é a maior besteira que já ouvi na vida. Quem acredita nisso é burro, porque realmente acredita que o governo dos EUA é contra as drogas. Todo mundo sabe que ele é totalmente envolvido com o tráfico de cocaína, o crack etc, via CIA. Acho que as drogas deveriam ser legalizadas. É absurdo que a maconha seja proibida. A idéia de que governos como o dos EUA estão gastando dinheiro para prender gente que fuma maconha me dá nojo. Mas também acho que fumar maconha é idiotice. É o que digo: ser você mesmo já é suficiente.

gabriela: Você já ficou doidão?

mackaye: Não. Nunca fumei maconha. Já fiquei bêbado, aos 12, 15 anos. Depois, nunca mais bebi.

gabriela: Nunca fumou cigarro?

mackaye: [enojado] Não, não. Gosto de ar. Tem mais a ver com o ato de respirar, sabe? [risos] Mas algumas das pessoas que amo fumam. Vamos colocar desse modo: odeio vícios, mas não odeio as pessoas que os têm. Não sou do tipo "fodam-se todos vocês, seus fumantes!" [risos] As pessoas têm uma idéia errada de mim. Acham que sou um radical que "prega" coisas. Não! Sou uma pessoa normal, que tem algumas opiniões. Isso não as faz corretas. E tenho necessidade de falar. Só isso. Punk por filosofia

gabriela: O que te fez ser músico?

mackaye: Não sei. O que te fez querer ser o que você é? Aconteceu.

gabriela: Como, quando?

mackaye: Se você for atrás, foi aos 6 anos, tocando piano. Mas isso não teve a ver. Essa é minha história da "porta do punk": quando eu tinha 12 anos queria ter uma banda (aliás, queria tanto que comprava guitarras de brinquedo e fingia que tocava), mas não conseguia tocar guitarra. Tive duas aulas; não consegui. Desisti pensando: "Música é Zeppelin, Stones, The Who. É só para deuses." Virei skatista. Eu, Henry [Rollins], Mark, todos os garotos de Washington de 13 anos. Cresci com Henry: aos 11 anos, ele era meu melhor amigo. Estava na high school [N. da E. Equivalente ao segundo grau] quando o punk começou a surgir. Comecei a me envolver e pensei: "Puxa, isso eu posso fazer."

gabriela: O conceito do do-it-yourself.

mackaye: Exato. O punk criou um formato acessível pra todos. Em um momento, música era como cenas na TV: eu nunca seria parte daquilo. No outro, qualquer um podia fazer qualquer coisa. Quando entrei nele, vi que não era só música: era político, sociológico, sexual. Tudo com o que eu sempre sonhara. O underground era diferente, e isso era importante. Aos 16, o que eu queria? Arranjar uma namorada, casar, trepar, ter filhos, blablablá. Com o punk descobri que havia muito mais a se fazer. Claro que não é preciso ser punk pra descobrir isso. Pode ser por meio de literatura, jazz, teatro, cinema sempre haverá comunidades alternativas. Foi como um presente. Por isso que me sinto na obrigação de continuar na comunidade. Muitas pessoas viram que podiam fazer dinheiro em cima daquilo, e usaram o meio para se vender. E toda vez que isso acontece, a comunidade enfraquece. Quando as bandas assinam com majors é ótimo, se é isso que elas querem fazer, e se elas se lembram de onde vieram. Só não gosto de gente que diz: "Eu tinha que largar aquilo pra chegar aonde estou." Nessa eu não caio. Henry fala mal do punk, mas Como chegou à major? Ele não seria "Henry Rollins" se não fosse pelo Black Flag. Desculpem-me se falo muito [risos] É que, quando dou entrevistas, tenho a oportunidade de repensar. Já respondi à maioria das perguntas antes, mas não fico entediado. Só com as do straight edge. [risos] Não me chateio porque é uma chance de ver, aos 32 anos, como penso, no que mudei. Volto às raízes. Mesmo com o straight edge: não é justo me recusar a responder. Foi por causa dessa música que estou aqui, agora. É uma ótima música, acho. Não me arrependo de nada do que fiz.

gabriela: O mais engraçado é que tem um monte de jornalista por aí perguntando: "Quem é o Ian?" Gente que nunca ouviu Fugazi nem Minor Threat, e faz pergunta idiota em entrevista coletiva.

mackaye: Exato. Jornalistas são assim.

gabriela: É muito estranho.

mackaye: Mas escrever sobre música é estranho, porque música não se explica em palavras. Já é um meio estranho. [risos] Mesmo o que vocês fazem é estranho. [risos] Se bem que vocês fazem zines: escrevem sobre o amor à música, não sobre a música.

gabriela: Participamos de um debate em que houve uma discussão sobre o que era zine. Argumentávamos a diferença era o espírito não uma capa colorida.

mackaye: Concordo. E isso não quer dizer que você tem que falar bem de tudo, porque, se você ama música, sempre vai achar que alguma banda é ruim. O posicionamento é diferente: um zine é sobre o que as pessoas sentem em relação à música; uma revista tem um monte de gente escrevendo de um ponto de vista do tipo "eu entendo de música". E a maioria dos jornalistas não entende de nada, são só pessoas que foram contratadas para escrever sobre qualquer coisa.

gabriela: Uma curiosidade: você é direto e seguro quando fala. Como você consegue se manter tão 100% sobre as coisas? Parece que você nunca fica confuso!

mackaye: Sou um bom ator. [risos] Fico confuso muitas vezes. [longa pausa] Faço muitas coisas, e penso sobre elas. Tento simplificar. A vida é simples. Vejo as coisas assim: estamos aqui, agora. Ponto. Tudo o mais é distração - nosso cabelo, o que comemos, ouvimos. Tento simplificar o modo como vivo. Se me perguntam sobre dinheiro, digo: "Um dia não tive, outro dia tive um pouco" Odeio ficar confuso. Tento simplificar, ser natural. É mais fácil. Não somos socialistas, religiosos, nada. Somos uma banda, só. Não quero confundir ninguém. A música é suficiente ela contém a própria razão

segunda-feira, 20 de julho de 2009

40 Anos Hoje



(Berry/Buck/Mills/Stipe)

Mott the Hoople and the Game of Life. Yeah, yeah, yeah, yeah
Andy Kaufman in the wrestling match. Yeah, yeah, yeah, yeah
Monopoly, twenty one, checkers, and chess. Yeah, yeah, yeah, yeah
Mister Fred Blassie in a breakfast mess. Yeah, yeah, yeah, yeah
Let's play Twister, let's play Risk. Yeah, yeah, yeah, yeah
See you in heaven if you make the list. Yeah, yeah, yeah, yeah

Hey Andy, did you hear about this one? Tell me, are you locked in the punch?
Hey Andy, are you goofing on Elvis? Hey baby, are we losing touch?
If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool

Moses went walking with the staff of wood. Yeah, yeah, yeah, yeah
Newton got beaned by the apple good. Yeah, yeah, yeah, yeah
Egypt was troubled by the horrible asp. Yeah, yeah, yeah, yeah
Mister Charles Darwin had the gall to ask. Yeah, yeah, yeah, yeah

Hey Andy, did you hear about this one? Tell me, are you locked in the punch?
Hey Andy, are you goofing on Elvis? Hey baby, are you having fun?
If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool

Here's a little agit for the never-believer. Yeah, yeah, yeah, yeah
Here's a little ghost for the offering. Yeah, yeah, yeah, yeah
Here's a truck stop instead of Saint Peter's. Yeah, yeah, yeah, yeah
Mister Andy Kaufman's gone wrestling (wrestling bears). Yeah, yeah, yeah, yeah

Hey Andy, did you hear about this one? Tell me, are you locked in the punch?
Hey Andy, are you goofing on Elvis? Hey baby, are we losing touch?
If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool

If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool
If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool
If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool

sexta-feira, 3 de julho de 2009

2009 - 10 Anos sem Stanley Kubrick



Kubrick, o Iluminado

A aurora do homem. Bandos de animais simiescos numa paisagem deserta são despertados pelo súbito aparecimento de um objeto gigantesco nunca antes visto. O monólito negro lhes desperta a curiosidade. Esta mesma curiosidade faz com que um deles tenha a luminosa idéia de usar um osso como extensão do braço na luta pela sobrevivência. Mais um pequeno passo na lenta porém inexorável marcha da evolução que levaria os símios ao homo sapiens, e estes às estrelas.

Década de oitenta, século XX da era cristã.Um pirralho de sua poltrona assiste à conquista do universo pela tela da televisão. O ritmo lento do filme não o incomoda, pois a beleza das imagens e a curiosidade para saber o objetivo da onipresença do monolito afastam o sono. Após uma viagem fantástica na qual é apresentado ao supercomputador HAL 9000, uma das maiores criações da história da sétima arte, a tela é subitamente arremessada em um turbilhão de sons e imagens que culmina no nascimento de um novo homem ao som de “Assim falava Zaratustra”, poema sinfônico de Richard Strauss. O pirralho vai dormir atordoado, sem entender nada, porém com a certeza de haver visto o melhor filme de sua vida.



Foi assim meu primeiro contato com a obra de Stanley Kubrick: Na tela da Globo, entre comerciais de shampoo e sabão em pó. Apenas recentemente tive a oportunidade de ver “2001 - Uma Odosséia no Espaço” como ele deve ser visto: no cinema, e numa ocasião muito especial, pois caia um temporal sobre a cidade e poucos se arriscaram a colocar o pé para fora de casa. Estas circunstâncias me proporcionaram uma tranquila e deliciosa sessão, com o toque especial do barulho de chuva ao fundo. Sempre havia ouvido dizer que aquele era um filme para se ver no cinema, e agora posso atestar a veracidade dessa afirmação. Arrisco dizer que o trecho que mais se perde em vídeo é a parte final, tendo em vista que no escuro da sala de projeção fui tomado por uma sensação de medo que só havia sentido quando ouvi a assustadora trilha sonora sozinho, no escuro, alguns anos atrás. É o medo do desconhecido, ou da morte, tendo em vista que uma das muitas especulações sobre o significado do final do filme é justamente a de que o astronauta David Bowman havia morrido ao chegar a Jupiter. . “Anyway”, este é apenas um dos mistérios desta obra fascinante que há anos povoa minha imaginação. Basta dizer que na única vez em que fui assaltado, o fui porque andava distraído por ruas desertas, imerso em meus pensamentos, tentando decifrar o enigma do monólito.

Desisti. Entendi que 2001 era uma obra aberta às mais variadas interpretações, muito embora seu autor, o escritor Arthur C. Clarcke, tenha dado pistas em seus livros posteriores, 2010, 2060 e 3001. Na visão de muitos, a história trata do encontro do homem com Deus, consequência inevitável da busca pelo conhecimento à medida que a humanidade se lança na vastidão infinita do espaço. Para Clarck, os imensos monolitos seriam fruto de uma tecnologia incompreensível para os seres humanos, encarregados de enviar sinais a seres cuja função era a de monitorar a evolução da vida nos mais distantes confins das galáxias. Estes seres, aparentemente, tinham sua consciência de alguma forma unida ao universo, e poderiam se manifestar fisicamente da maneira que desejassem para que fossem compreendidos por seus interlocutores. E assim o astronauta da nave Discovery foi incorporado ao monólito, sendo usado por eles para avisar aos homens que deveriam se manter distantes da lua de Júpiter Europa, onde a vida, ao que tudo indica, tem possibilidades de germinar. “Eram os Deuses Astronautas?” O que o cientista/escritor parece querer nos dizer é que, no campo das especulações sobre o desconhecido, nenhuma hipótese pode ser previamente descartada.

Além da impressionante saga metafísica de 2001, a obra de Kubrick precisa ser conhecida por inteiro. Entre todos os itens de sua filmografia (felizmente, totalmente disponível em DVD), destaca-se “A LARANJA MECÂNICA”, cujo tema gerou uma polêmica tão grande à época de seu lançamento que a fita encontra-se banida das telas de TV e cinema em muitos paises até os dias atuais. Trata-se de um tratado sobre a violência no qual, em um futuro indefinido, o estado usa meios pouco ortodoxos para conter a brutalidade de gangues de jovens ensandecidos cuja única diversão é espancar, estuprar e ouvir Beethoven. O filme foi acusado de glamourizar a violência e, com isso, incitar os jovens.

Temas polêmicos nunca assustaram este diretor. É dele a primeira versão para o cinema do clássico de Vladimir Nabokov, LOLITA, que trata da obsessão de um homem de meia idade por sua enteada pré-adolescente. É dele também aquele que pode ser considerado, ao lado de “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polansky, o mais aterrorizante filme de horror psicológico da história do cinema, “O ILUMINADO”. Nele, Jack Nicholson enlouquece (ou é possuído?) ao se ver isolado com a mulher e o filho num hotel cercado de neve. Imperdível também “DOUTOR FANTÁSTICO OU COMO PAREI DE ME PREOCUPAR E APRENDI A AMAR A BOMBA”, uma parábola sobre a guerra fria, “GLORIA FEITA DE SANGUE”, um épico situado durante a primeira guerra mundial, “SPARTACUS”, a historia de uma rebelião de escravos no império romano, e “NASCIDO PARA MATAR”, um libelo contra o militarismo e a pressão psicológica sofrida pelos soldados para que se tornem maquinas de matar a serviço do sistema.

Stanley Kubrick morreu de ataque cardíaco aos 70 anos de idade no dia 7 de março de 1999. O mundo, é claro, ficou mais burro. Foi, na minha modesta opinião de leigo e admirador, o maior cineasta de todos os tempos. Encerrou sua carreira em pleno vigor intelectual com “EYES WIDE SHUT”, seu ultimo testamento, que gerou expectativas exageradas no final do século passado devido ao enorme intervalo de tempo em relação a sua obra anterior, “Full Metal Jacket”. Para aguçar ainda mais a curiosidade de todos, o ousado primeiro treiler mostrava 90 segundos de nu frontal do casal Tom Cruise e Nicole Kiedman. O resultado, porém, ficou abaixo do esperado, muito embora esteja a anos luz de distancia da esmagadora maioria das produções exibidas nos cinemas em sua época e mesmo hoje, sejam elas destinadas ao grande publico ou não. No filme Cruise e Kiedman vêem a estabilidade de seu casamento ultraconvencional ameaçada pelo súbito aflorar de desejos obscuros emergidos de seus respectivos subconscientes, o que os faz enveredar por uma perigosa “tour de force” de perversão sexual. É a provocação final de um dos únicos diretores que conseguiram confrontar Hollywood e se impor pelo talento. Feito não conseguido, por exemplo, por Orson Welles, que iniciou sua carreira batendo de frente com o maior magnata da industria do entretenimento americana, o que marcou para sempre seu destino na industria cinematográfica. Kubrick, ao contrário, filmava quando quisesse, da maneira que quisesse. O grande intervalo de tempo entre seus filmes devia-se unicamente a seu perfeccionismo doentio, não a nenhuma espécie de pressão ou boicote dos produtores. É a mais acabada comprovação de que qualidade é mais importante do que quantidade. Fez pouco, mas tudo que fez se tornou clássico. Será lembrado para sempre!

por Adelvan Kenobi






















terça-feira, 23 de junho de 2009

Cine Cult - “Aracaju com jeito de cidade grande”



por Adelvan Kenobi

“Aracaju com jeito de cidade grande”. Por conta da inauguração de um viaduto na cidade a prefeitura nos brindou com essa pérola de provincianismo em forma de slogan publicitário. Sim, com o novo viaduto do DIA Aracaju fica, realmente, com cara de cidade grande, pois começa a apresentar os problemas que as cidades costumam apresentar quando crescem, a saber, no caso, o transito caótico, conseqüência de uma mentalidade insana que privilegia a posse do carro de passeio individual em detrimento do transporte publico de massas. O resultado da equação é fácil de entender, não é preciso ser matemático: mesmo que todas as pessoas pudessem possuir um carro de passeio, o que parece ser o ápice do sonho de consumo estimulado diariamente pela publicidade, não haveria espaço. Em nenhuma cidade do mundo. Simples assim. Mas aos olhos de todos parece mais adequado adaptar a realidade ao sonho, o que gera distorções como o dispêndio de enormes somas de recursos públicos que poderiam estar sendo direcionadas para áreas fundamentais como a saúde e educação e mesmo para meios de transporte público mais eficientes e de qualidade, como o metrô, para a construção de viadutos, para que o transito possa fluir por mais algum tempo até que a incessante entrada de novos veículos em circulação provoque novos engarrafamentos onde eles, supostamente, não deveriam existir.

Esta é uma das conseqüências ruins do crescimento urbano. Aparece de mãos dadas com o aumento da violência e a deterioração da qualidade de vida (mal que, pelo menos por enquanto, graças a algumas ações acertadas do poder publico nos últimos anos, inclusive no transito, com a implantação de ampla rede de ciclovias, ainda não sofremos). Mas há também o fator positivo: o aumento das opções de entretenimento e cultura, propiciado por uma concentração maior de pessoas dispostas a bancar espetáculos e eventos de qualidade. Há dois anos nasceu em Aracaju uma idéia que, por ter frutificado de forma surpreendente, demonstra um salto qualitativo no aspecto cultural da cidade: A Sessão “Cine Cult”, exibida diariamente no cinemark, atualmente detentor das únicas salas de exibição de cinema em Aracaju. O sucesso do Cine cult demonstra que havia uma demanda reprimida por uma programação diferenciada entre os amantes da sétima arte, para além dos simples consumidores de pipoca e adeptos do bate-papo dos Blockbusters (impressionante como tem gente que parece que considera o cinema o lugar ideal para se ir para ... conversar!). O projeto já existia há alguns anos nos cinemas do Shopping Riomar, mas nessa nova fase tornou-se diári0, com uma sessão a preços populares às 15:00 e uma sessão extra na quarta à noite. Uma avanço considerável, tendo em vista que antes acontecia apenas nos finais de semana, às 11:00 da manhã.

Para comemorar 1 Ano do Cine Cult foi promovida uma Virada Cinematográfica: uma única sessão com 3 filmes, ao preço de uma sessão normal, começando à 0:00 do sábado e terminando às 6:30 da manhã do domingo, 15 de junho de 2008, com direito a intervalos de meia hora regados a refrigerantes, salgadinhos e bolo de aniversário, e um café da manhã reforçado ao final da maratona. O publico, mais uma vez, compareceu em massa ao evento, que contou com a presença do produtor e da protagonista do filme que abriu a sessão, “Deserto Feliz”, de Paulo Caldas. O segundo filme era surpresa, foi revelado apenas no momento da exibição: “Minha vida não cabe num opala”. Ambos ainda inéditos no circuito comercial nacional. Para encerrar, “Beijo Roubado”, do coreano Wong Kar Wai. A Virada também foi um sucesso e teve mais três edições, sendo que a última, a quarta, acontecida no dia 13 de junho de 2009, serviu também para marcar os dois anos do Cine Cult, cujo sucesso levou o Cinemark a estender o projeto ao país inteiro. Hoje, o Cine Cult atua nos complexos do Cinemark nas seguintes cidades: Aracaju, Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis, Jacareí, Manaus, Natal, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro (Downtown e Carioca), Salvador, São José dos Campos (Colinas e Center Vale), São Paulo (Santa Cruz, Villa Lobos e Metrô Tatuapé) e Vitória.

O Sucesso da Virada Cinematográfica deu origem, inclusive, a uma nova sessão, a NOTÍVAGOS, bastante inovadora e também de bastante sucesso – pelo menos em sua primeira edição (a segunda foi prejudicada por uma greve no transporte publico). Trata-se de uma sessão de cinema seguida de uma apresentação musical no Hall do multiplex. Na primeira edição foi exibido o filme “Repulsa ao sexo”, de Roman Polanski, estrelado por Catherine Deneuve, seguido de uma apresentação da banda sergipana The Baggios. O publico compareceu em bom número – mas infelizmente se comportou muito mal durante a exibição do filme, com muito barulho e gargalhadas absolutamente inconvenientes. Já o show da The Baggios foi impecável – destilaram seu blues rock minimalista com a competência e o entusiasmo de sempre, só que desta vez num ambiente inusitado – foi a primeira vez que eu assisti a um show no hall de um cinema. Para Aracaju, pelo menos, foi um fato inédito. Na segunda Sessão Notívagos foi exibido o filme "O Fim da Picada" (Sinopse: Macário, personagem principal, participa de uma orgia satanista numa praia brasileira no ano de 1850. Na manhã seguinte, inicia sua difícil viagem subindo a serra em direção à cidade de São Paulo, montado em seu burro. No trajeto encontra Exú-Lebara, versão feminina da entidade fantástica de origem afro-brasileira. Decidem seguir juntos a viagem para São Paulo. No entanto, Exú engana Macário durante a viagem, fazendo-o acordar em São Paulo, mas no ano de 2008, na mega-metrópole com quase 20 milhões de habitantes. Macário fica atordoado e torna-se um mendigo, vítima da cruel e desumana realidade em que passa a viver). Era pra ter havido, na sequencia, um debate com o cineasta, crítico e professor da UFF Daniel Caetano, mas o que se ouviu na realidade foi um profundo silêncio, fruto provavelmente do impacto provocado pela fita, extremamente experimental, com uma narrativa fragmentada e imagens fortes, metafóricas e/ou alegóricas, na cabeça dos expectadores (para que se tenha uma idéia, a primeira imagem da fita é um close numa vagina tatuada com o “numero da besta”, 666, sendo masturbada). Além disso, o publico foi bastante reduzido, fato devido, muito provavelmente, à greve dos transportes públicos já citada. A banda que se apresentou na noite foi a Daysleepers, revelação do cenário local, com seu folk rock sofisticado e muito bem executado.

A seguir, puxarei um pouco pela memória e exporei minhas impressões sobre alguns dos filmes que assisti nestes dois anos de Cine Cult (não vi todos, longe disso), a começar pelos exibidos durante a última Virada:

VALSA COM BASHIR – Excelente. Gosto muito de animação, e esta aqui é primorosa, tanto em termos de realização quanto na temática, que resgata um dos acontecimentos mais infames da recente historia humana, o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano, ocorrido nos anos 80. O traço é muito bom, e a animação combina muito bem o estilo tradicional com a tecnologia digital. Destaque para a trilha sonora, que recria o clima da época (numa das cenas os jovens tentam esquecer os horrores da guerra numa boate ao som de “this is not a Love song” do PIL), e para a combinação de realismo com imagens oníricas para representar o estado de espírito dos personagens. No final, cenas reais do massacre garantem um soco no estômago da platéia.

CONTOS DE CANTEMBURY: O “filme surpresa” da última Virada foi este clássico de Píer Paolo Pasolini, parte de sua chamada “trilogia da vida” e baseado nas obscenas histórias de Geoffrey Chaucer do século XIV. Perversão sexual e libertinagem até dizer chega, com um forte teor anti-clerical que culmina numa imagem do inferno de dar inveja ao célebre pintor Hieronymos Bosch, onde os monges habitam o ânus do demônio. Adorei.

GOMORRA: Foi o ultimo filme da noite, exibido pro volta das 4 da manhã. Não tinha como ver direito, por causa do sono, mas do que vi, gostei muito. Hiper-realista, seco e violentíssimo, como o próprio tema representado – a temida camorra, a máfia napolitana. É baseado num livro best-seller na Europa que transformou seu autor, Roberto Saviano, num alvo da Máfia, que prometeu matá-lo até o fim do ano.Um filme sujo, feio e malvado, exatamente igual ao tema retratado – me impressionou especialmente o fato de que os bandidos fazem negócio até com lixo tóxico, sem dar a mínima para as conseqüências (e elas são terríveis) de seus atos. “O cenário é pobre, de uma feiúra perturbadora, os protagonistas, com exceção de um ou outro personagem, inspiram repulsa por serem justamente a antítese daquele ideal mafioso forjado no cinema hollywoodiano. Ninguém aqui é bonito, bem-vestido ou ligeiramente sedutor. A máfia de Gomorra é tão imunda, e parece tão real, quanto as ruas de Nápoles, que até há pouco tempo estavam entupidas de montes de lixo por conta da paralisação da coleta municipal” (Omelete). Preciso urgentemente ver direito, sem cochilos.

ESTÔMAGO: É uma pena que os filmes nacionais que fazem realmente sucesso, em sua maioria, são os pastiches globais comandados por Daniel Filho. Este filme, “Estômago”, merecia muito ser visto por um grande público. Excelente atuação de João Miguel na pele do cozinheiro de boteco Raimundo Nonato, cujo talento o leva a galgar novos horizontes, para logo a seguir ser puxado de volta à lama e rumo ao cárcere por sua índole destemperada e sua ignorância. Mas, como diz a sinopse, “Na vida há os que devoram e os que são devorados”, e Raimundo Nonato está, definitivamente, na primeira categoria, pois aprende a conquistar status fazendo o que faz melhor, cozinhar. Seduzidos por seus dotes culinários, seus companheiros de cela e prováveis algozes acabam “presos pelo estômago.”. Não deixe de ver. E clique AQUI para baixar o livro de receitas.

BEIJO ROUBADO: Entre um cochilo e outro, na primeira Virada, deu pra notar que é mais interessante que o outro filme que tinha assistido do mesmo diretor, 2046, também na sessão Cinecult da época do Shopping Riomar. Ainda estiloso, porém menos confuso. Um pouco ingênuo, talvez vazio de conteúdo, mas interessante. Boa atuação de Natalie Portman como uma jogadora profissional, boa estréia de Norah Jones, cantora consagrada, como atriz.

PARANOID PARK – Curioso e competentíssimo exercício estilístico de Gus Van Sant. Belas imagens e pouquíssimos diálogos para ilustrar a vida vazia e alienada de uma certa parcela da juventude atual, tudo centrado no universo do skate e girando em torno do acobertamento de um acidente fatal. O resultado reflete bem o universo retratado: muito estilo e pouco conteúdo.

UMA JUVENTUDE COMO NENHUMA OUTRA – (alguns) dia(s) na vida de Mirit e Smadar, duas jovens israelenses recrutadas para o serviço militar obrigatório de seu país. Passam o dia patrulhando as ruas e recolhendo informações sobre os palestinos que cruzam o seu caminho. Smadar despreza totalmente seu trabalho, preocupando-se apenas em não ser pega pela sua supervisora ao negligenciá-lo, enquanto Mirit, tímida e retraída, procura apenas cumprir suas obrigações da melhor maneira possível. “Enxergar a realidade de Jerusalém, uma realidade difícil de assimilar, através do olhar naturalmente incerto de uma garota a caminho da vida adulta é o grande achado do filme. Se de um lado Mirit tem as suas aspirações, do outro o mundo continua a lhe dizer para não sonhar alto demais” (omelete). Um pequeno grande filme.

A CRIANÇA – Co-produção belgo-francesa ganhadora da palma de ouro de Cannes em 2005. Drama existencial focado nas dificuldades de relacionamento de um casal diante do nascimento de um filho. Ela quer cuidar da criança, mas o pai quer apenas continuar sua vida medíocre sustentada em pequenos furtos, e enxerga no pequeno rebento apenas mais uma oportunidade de negócios – excusos, evidentemente. Bom filme.

PERSÉPOLIS – Sensacional animação baseada na auto-biografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi, indicada ao Oscar. Conta sua vida, passada em grande parte no Irã dos aiatolás, sob o signo da repressão e da intolerância religiosa. Uma situação, por sinal, por si só intolerável para a autora, um espírito livre e rebelde, que não conseguia ficar calada diante dos absurdos que via a seu redor a todo instante e, por conta disso, se metia em uma confusão atrás da outra, até ser mandada definitivamente ao exílio por sua família, zelosa por sua segurança. Vivendo exilada em paris, com o sucesso de seu filme, se tornou, hoje, uma voz respeitada em assuntos relacionados à terra dos antigos persas, como pode-se notar por esta entrevista na qual discorre sobre os recentes acontecimentos de sua terra natal. Mesmo que tivesse trazido apenas este filme à tela grande em Aracaju, o Cine Cult já poderia dar como cumprida sua missão.

SICKO – Virou meio que moda falar mal de Michael Moore depois dele ter ganho o Oscar. É insistentemente chamado de Panfletário, maniqueísta e manipulador. E pode até ser que seja (panfletário é, sem sombra de dúvidas), mas qual político não acaba sendo também um manipulador ? – e o que Michael Moore faz em seus filmes é política. Ele mira num alvo e, a partir daí, faz o possível para tentar nos convencer de que está certo. No mínimo, levanta questionamentos inquestionavelmente relevantes e incômodos que, de outra forma, seriam irremediavelmente varridos para baixo do tapete pelo “status quo”. Se ele omite alguns fatos com a intenção deliberada de nos manipular é dever de seus críticos apontá-los e denunciá-los, coisa que, particularmente, não vi até agora. Vejo apenas acusações vazias, sem que se aponte onde está, afinal, toda essa manipulação. A acusação de maniqueísmo também é, a meu ver, injusta, tendo em vista que ele não hesita em descer seu tacape também no lombo de figurões do Partido Democrata - quando eles “agem como republicanos”, evidentemente, porque Michael Moore tem lado e não esconde isso. O que, no Brasil, a terra da dissimulação, longe de ser um mérito, parece mais um defeito, e dos mais graves. Neste filme, que trata da falta de um sistema de saúde universal e gratuito nos Estados Unidos (e só por considerar isso uma obrigação do estado ele já marca posição contra republicanos e neo-liberais), por exemplo, ele não perdoa a Senadora Hilary Clinton, rendida ao lobby empresarial. Mais um tiro certeiro do gordinho impertinente. Mais um convite á reflexão. Um Michael Moore incomoda muita gente.

LADY VINGANÇA – já tinha ficado impressionado com “old boy”, a segunda parte desta trilogia, e este aqui não deixa a peteca cair. Mais uma parábola sobre vingança contada de forma vigorosa e original pelo diretor Park Chan-Wook, desta vez sob o ponto de vista feminino, o de Geum-Ja, que passou 13 anos de sua vida planejando uma vingança contra seu namorado, o verdadeiro culpado pelo crime pelo qual foi presa, o assassinato de um garoto de 7 anos de idade. Excelente fotografia contrastando branco e vermelho.

O HOSPEDEIRO – Foi o primeiro filme a ser exibido no Cine Cult, o que significa que o projeto começou com o pé direito. Trafega por vários gêneros, indo da comédia ao suspense, do horror à critica social com um ritmo ágil e maestria impressionante, mas no final das contas é um “filme de monstro” ao estilo coreano - e que monstro! A criatura é impressionante, feia como o diabo e muito ágil. Tem cenas assustadoras, como as que se passam no porão onde a garota protagonista fica presa junto a uma pilha de cadáveres. Cult.

PRINCESAS – Drama realista sobre a vida de prostitutas estrangeiras na Espanha. A discriminação e as conseqüências psicológicas da banalização do sexo permeiam a historia, que é comovente e contada de modo acessível e fluente, de forma dura, “pero sin perder la ternura jamás”

INFÂNCIA ROUBADA – Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, esta película sul-africana tem lá suas qualidades, mas meio que se perde numa pieguice açucarada sem fim, especialmente do meio para o final, com uma solução dramática das mais pueris. Vale mais pelo aspecto antropológico, no sentido de ficar conhecendo o dia-a-dia da periferia de Johannesburgo, que se tem muito em comum com as periferias de qualquer parte do mundo, goza também de algumas peculiaridades, como o curioso dialeto local.

A CASA DE ALICE – Um drama naturalista. Um daqueles filmes que muitos detestam por, supostamente, apenas mostrar o cotidiano aparentemente sem nenhum interesse especial de pessoas comuns. Mas, como dizia Shakespeare, há sempre “mais coisas entre o céu e a terra do que supões a nossa vã filosofia”. Aqui temos uma mulher aprisionada por suas escolhas, presa a um marido dissimulado que tem um caso com a vizinha adolescente, aos filhos que “escondem segredos auto-destrutivos” e à mãe, que é vista pelo marido como um fardo. “Não é nada que outras famílias também não sofram, e Teixeira toma a casa de Alice justamente como amostragem desse estrato social que se limita a sobreviver e, o tempo inteiro, a sufocar eventuais ambições de vida. Alice é bela, honesta, tem suas paixões e os seus anseios. Mas o mundo ao seu redor lhe impede de praticá-los. A questão central do filme é saber até quando Alice aguenta.” (omelete). Magnífica interpretação de Carla Ribas no papel da protagonista. Gostei muito, e recomendo.

A VIA-LÁCTEA – O contrário de “A Casa de Alice”. Pretensioso e chato – mas devo admitir que bem realizado. A montagem é primorosa.

BATISMO DE SANGUE – De boas intenções o inferno está cheio, já dizia (muito bem) o ditado popular. Este aqui é mais um daqueles filmes com ótimas intenções mas que derrapa num academicismo exagerado em sua realização. Baseado num livro de Frei Beto, conta a historia dele e dos demais frades dominicanos que se envolveram com o combate á ditadura nos anos 70, com especial destaque na figura trágica do Frei Tito, que não conseguiu se desvencilhar dos traumas da tortura e acabou se suicidando no exílio, na França. Não chega a ser de todo ruim, mas é dispensável – a não ser que você tenha um interesse muito específico pelo tema e não queira ler direto da fonte de onde foi tirado.

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO – Almodóvar em grande forma. Excelente.

CÃO SEM DONO – Drama pesado, arrastado e existencialista dirigido com maestria por Beto Brant. Nas mãos de um diretor pretensioso porém sem talento seria insuportável, mas aqui é comovente. Não há pano de fundo social, há apenas o beco sem saída de um personagem que parece não se adaptar á sua própria condição miserável de ser humano, mesmo tendo em seus braços uma namorada belíssima, fato que, por si só, já seria, presumivelmente, de levantar o astral de qualquer ser devidamente provido de testosterona. Testosterona não falta a Ciro, vivido por Júlio Andrade, que até que dá uma assistência legal á sua namorada Marcela (Tainá Muller). Falta-lhe o resto. Um rumo na vida. O personagem parece viver encalhado em uma eterna crise existencial, mergulhado numa vida medíocre sobrevivendo como tradutor de textos em russo. Um torpor do qual só desperta quando seu “quase-namoro” é interrompido de súbito por um acontecimento trágico. Um filme maduro, de um cineasta que domina de forma magistral sua arte.

HERCULES 56 – Excelente documentário sobre o destino dos prisioneiros libertos em troca do embaixador americano seqüestrado no episodio já anteriormente explorado pelo polêmico “que é isso companheiro”, de Bruno Barreto. O diretor teve a excelente idéia de colocar 5 dos envolvidos numa mesa de bar (aparentemente sem a presença de bebida alcoólica ) e entrevistá-los todos de uma vez, de forma a evitar algumas armadilhas bastante comuns em depoimentos históricos, como a tendência a se moldar os fatos de forma favorável ao entrevistado. De quebra, a memória de um compensa os lapsos da memória do outro, e um painel bem mais claro e amplo acaba se configurando – auxiliado por ricas e até então inéditas imagens da época. Fato curioso: um dos presos políticos libertados é Sergipano e vive até hoje em Aracaju, Agonalto Pacheco, velho militante comunista. Fato lamentável: o péssimo hábito de confabular no cinema enquanto o filme é projetado não é privilegio de sessões de blockbusters americanos povoados de adolescentes, como pude comprovar por um grupo de pessoas atrás de mim que pareciam estar promovendo um verdadeiro debate com o filme em pleno andamento. O fato se agravava toda vez que aparecia na tela a figura do ex-ministro José Dirceu (vivíamos o auge do escândalo do “mensalão”), quando os “debatedores” não conseguiam se conter e irrompiam em xingamentos exaltados de baixo calão.

PARIS, TE AMO – curiosa declaração de amor à cidade de Paris realizada com a costura de pequenos contos dirigidos por nomes como Alfonso Cuarón, Walter Salles, Wes Craven e Gerard Depardieu, tendo como resultado um amplo painel do cinema contemporâneo. Como não poderia deixar de ser, o resultado final é irregular mas, a meu ver, bastante satisfatório.

BUBBLE – Um filme israelense que versa sobre o amor homo-erótico entre um judeu e um palestino. Mais polêmico, impossível. O próprio título deixa claro que os protagonistas vivem numa “bolha”, no caso, a cidade de Tel-Aviv, mais cosmopolita e aberta que o restante de Israel, eternamente atolado numa guerra sem-fim contra seus vizinhos indesejados. As confusões decorrentes do choque cultural são bastante previsíveis, mas no final das contas resulta num bom filme, surpreendentemente leve e otimista até, apesar da premissa original prenunciar um apocalipse regado a intolerância.

2H37 – filme australiano com uma premissa bem parecida à de “Elefante”, de Gus Van Sant – uma tragédia anunciada num ambiente escolar repleto de adolescentes desajustados. O final surpreende, pois o desfecho trágico não decorre dos conflitos com maior destaque na trama.

A MORTE DO BOOKMAKER CHINÊS – Um filme cru, que dá a impressão de ter sido feito de improviso, num esquema “qualquer nota”. Lendo a respeito, soube que não foi, já que o diretor John Cassavetes era famoso por ensaiar exaustivamente cada cena antes de registrá-la. Certamente um belo exercício de estilo, mas um tanto quanto cansativo para uma tarde de domingo modorrenta. Confesso que “morguei” e, com isso, perdi a oportunidade única de ver na tela grande a obra de um grande diretor. É a vida.

CONCEIÇÃO – AUTOR BOM É AUTOR MORTO – Longa experimental que conta a revolta de um grupo de personagens contra seus próprios criadores. O filme foi realizado com recursos da UFF e tem sua direção assinada por cinco alunos daquela instituição. Os argumentos sugeridos numa mesa de bar, entre copos de cerveja e cigarros de maconha sorvidos um atrás do outro, vão se materializando na tela de forma divertida e aparentemente descompromissada. Uma prova concreta de que uma obra experimental não precisa ser, necessariamente, uma obra chata.

TRANSYLVANIA – O contrário de “conceição”. Chato. Chato pra caralho. Nem um pouco descontraído ou descompromissado. Vale pela beleza e exotismo de Ásia Argento e das paisagens romenas.

ATRAVESSANDO A PONTE – O SOM DE ISTAMBUL - Uma bela surpresa, especialmente para mim, que não sabia que o filme é obra, em grande parte, do baixista da legendária banda de rock industrial alemã Einsturzende Neubaten, que aqui assume o papel principal como “alter ego” do diretor Fatih Akin, também alemão mas descendente de turcos. Mostra a música feita em Istambul, uma mistura de referencias orientais e ocidentais, reflexo do que é a própria Turquia, diga-se de passagem.

MUTUM – Outro “drama naturalista”. Baseado em “campo geral”, de Guimarães Rosa, mostra, sob o ponto de vista de uma criança, o nebuloso mundo dos adultos, repleto de mentiras, traições, silêncios e reações violentas. Me identifiquei bastante. Me lembrei de quando era criança e assistia, meio sem querer, aos filmes de Nelson Rodrigues na televisão. Não entendia e, o pouco que entendia, me causava repugnância. Então era isso, o tal “mundo dos adultos” ? Por pouco não sofro da “síndrome de Peter pan” e me recuso a crescer – ou não, tendo em vista que tenho 38 anos e ainda visto basicamente o mesmo tipo de roupa de quando era adolescente, não sou casado, não tenho filhos, vou a shows de rock pesado e barulhento e adoro ficar em casa no sábado à noite lendo revistas em quadrinhos. E tenho sérias duvidas se quero mudar de comportamento, daqui pra frente .