quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Fanzines sergipanos

Fanzines são publicações amadoras e artesanais dirigidas, geralmente, a um público especifico: são produzidas por fãs para fãs – de rock, quadrinhos, ficção científica, etc. A palavra, em si, é um neologismo oriundo da união das palavras Fan(atic) e magazine, ou revista de fã(nático). O termo foi cunhado nos Estados Unidos no início do século passado e popularizado, a princípio, entre os fãs de ficção científica, mas tomou um novo impulso no final da década de 1970 com o advento do punk rock e sua filosofia “Do It Yourself”, “Faça você mesmo”. A partir daí se tornou o principal veículo de divulgação da cena do rock independente e “underground” em todo o mundo .

No Brasil os primeiros fanzines de que se tem registro datam da década de 1960 e também circulavam entre fãs de ficção científica. A partir dos anos 1980 começou a se formar uma grande rede de circulação de informações subterrâneas voltada principalmente para os universos do rock e das histórias em quadrinhos, fenômeno que perdurou até a popularização da internet, no final da década seguinte.

Em Aracaju os pioneiro deste tipo de publicação na seara do então nascente rock "alternativo" foram Silvio Campos, Helder "Podre", Luiz Eduardo, Wilton e Tarcisio. O primeiro ao que tudo indica foi o "Submundo", de 1984, que teve duas edições. Era editado por uma galera mais intelectualizada e ligada ao pós punk. Já Silvio, que partiu para uma militancia anarquista mais radical, produzia o “Arakarock” – todo feito a mão, de próprio punho – que chegou anunciando a formação da Karne Krua em 1985, além do nascimento do Heavy Metal sergipano, com a banda "Massacre", do "Alice", mais soturna, da experimental "Fome Africana", de Vicente Coda, e da entrada do hoje lendário baterista Marcos Odara na formação da "Crove Horrorshow ". Esse envolvimento mais próximo de Silvio com o movimento punk fez com que iniciasse em 1986 a publicação do “Buracaju” – já datilografado e sempre muito bem diagramado -, certamente a mais importante publicação do estilo. Era voltado à divulgação de bandas e de ideias anarquistas e teve grande circulação nacional, via correios, sendo o maior responsável pela divulgação da embrionária cena roqueira local.

Circulava também na época o “Seduções ecológicas”, publicado por Ana Iuna, formada em biologia pela UFS; o “Centauro sem cabeça”, do poeta e capoeirista Nagir Macaô; e o “Boca Quente”, de Luiz Eduardo e Roberto Aquino, com participação de Tarcisio e Helder. A primeira edição registra a mudança na formação da banda THE M.E.R.D.A devido à ida de Helder para o Recife, onde viria a ser conhecido como DJ Dolores. Na segunda edição publicaram uma carta de Silvio "Samarony", depois "Suburbano" , do Bugio - sim, ele mesmo. Em 1986 surgiu o "Clube do òdio", mais criativo e provocativo, que também teve apenas duas edições. Já em 1987 Luiz Eduardo partiu para uma "carreira solo", digamos assim, com um fanzine próprio, "O Espectro", de caráter mais literário que musical, mas com uma sessão dedicada aos discos independentes e alternativos que começavam a aparecer na cidade com a primeira loja especializada no gênero, a "Disturbios Sonoros".

Esta movimentação acabou chegando até mim em Itabaiana, onde eu nasci e ainda morava e onde criei meu primeiro fanzine, o “Napalm”, cuja primeira edição data de 1988, sem ter consciência disso. Eu comecei a me interessar por rock a partir do primeiro rock in rio e da leitura da revista Bizz e resolvi fazer minha própria publicação – porque tinha ciúme de emprestar minhas revistas! Como não conhecia o termo, chamava de “apostilha”.

Na década de 1990 meu fanzine passou a se chamar “Escarro Napalm”. Era xerocado e teve seis edições, com periodicidade mais ou menos semestral e tiragem de 100 a 150 exemplares distribuídos pelo correio. O número 2 foi publicado em conjunto com o “Buracaju” de Silvio. O formato era meio oficio, com as páginas dobradas e grampeadas, simulando uma revistinha mesmo. Foi o formato que Silvio também passou a adotar para seu Buracaju. Ele também publicou, na época, um fanzine maior, tamanho A4, chamado Microfonia. Silvio era um exímio diagramador autodidata: gostava de experimentar com texturas de fundo e colagens decorativas, além de usar muito bem os novos recursos que as copiadoras disponibilizavam na época, com edições em cores diferenciadas, como azul ou vermelho – às vezes duas cores numa mesma página, o que encarecia o produto, mas produzia efeitos diferenciados. Ele publicou também o fanzine “Ultralibido”, mais erótico e escrachado, e o informativo “A Bomba”, que consistia de uma única página impressa dos dois lados e dobrada em formato de folder. Este formato, mais barato tanto para copiar quanto para mandar pelo correio, foi adotado por um grupo de punks anarquistas em seu informativo “Humanismo”, que teve circulação expressiva, com numeração alta e periodicidade regular – fato raro.

Outros punks seguiram o exemplo de Silvio e passaram a publicar seus próprios fanzines no início da década de 1990. Os que mais se destacaram foram o “Brigada de resgate”, de Jall Chaves, um baiano de Alagoinhas radicado na cidade, e o “Zoada”, de Cícero “Mago”. “Mago” publicou também o “Muda Expressão”, que não tinha texto, era feito só com colagens de frases e imagens recortadas. Cícero é irmão de Jamson Madureira, notório artista gráfico que colaborava com capas de fitas demo e ilustrações para diversos fanzines – chegou, inclusive, a ilustrar dois livros, do poeta Araripe Coutinho e do depois ministro do Supremo Carlos Ayres de Brito. No final da década de 1990 Madureira costumava aparecer esporadicamente pelas ruas da cidade com mais uma edição das histórias em quadrinho de seu personagem fixo, “Automazzo”. “A Amante do mutante”, a primeira, é antológica, marcou época.

A primeira metade da década de 1990 foi a mais rica para os fanzines em Aracaju. A partir da troca de idéias entre malucos das mais diversas tribos urbanas que freqüentavam as escadarias da Catedral e as lojas “Lókaos” e “BR Records”, especializadas em rock underground, foram surgindo publicaçãoe como “Furúnculo no cérebro” - uma publicação da “Zé Guiaba produções artísticas”, de Teleu; “Entropia indiscreta” e “Acatalepsia”, de Furia; “Sinagoga´s Butterfly” - mais “cabeção”, voltado para a filosofia e a literatura, publicado a seis mãos por Dani Maya, Sérgio “Dedão” e Clarck Bruno; “Mouth Stranger”, de Estranho e Carlos “Mouth” - que focava no Heavy Metal; e o maior e mais célebre de todos, aquele que alcançou visibilidade nacional e é considerado até hoje um dos melhores fanzines já publicados no Brasil: o “Cabrunco”.


O “Cabrunco” era o que se chamava na época de “pro-zine” – mais profissional, com cara de revista. Era editado, principalmente, por Adolfo Sá, que posteriormente se formou em jornalismo pela UFS – seu TCC foi sobre fanzines -, com a ajuda de Rafael Jr., baterista da Snooze, nas sessões dedicadas à musica, e de Marcio “de Dona Litinha” – hoje vocalista da Naurêa – falando de literatura. Foi xerocado até o número 6. O número 7 teve capa colorida e foi impresso na Gráfica Digital. O 8 na Gráfica da UFS. Era bancado, principalmente, por anunciantes, por isso tinha uma tiragem bem maior que o usual. Chegou a chamar a atenção da imprensa nacional, sendo eleito, ao lado do “Papakapika”, do Paraná, um dos dois melhores fanzines do Brasil. Não se prendia a um tema específico, mas dava grande destaque à cena roqueira local, com resenhas de shows, discos e fitas “demo”. Publicou entrevistas antológicas com Mundo livre S/A e Zenilton, que eles encontraram por acaso, de “rolê” na rua – ele morava em Aracaju. Em pleno auge de sua redescoberta via Raimundos, o forrozeiro veterano, rei do duplo sentido, foi emparedado pelos “cabrunquentos” e se saiu com pelo menos uma declaração bombástica – e antológica: “Eu tô achando é bom que esses minino novo me descobriram. Agora quero aproveitar o sucesso, quero mais é morrer emaconhado e com AIDS, comendo essas minina novinha”. Todas as edições do “Cabrunco” estão disponíveis para download em pdf no blog de Adolfo, http://blog.vivalabrasa.com

Surgiu também, nesta época, um fanzine no interior, o “Putrefy”, publicado em Estância por Alberto “Pereba” – que hoje, atente o estimado leitor para as voltas que o mundo dá, é padre! Era escrotíssimo, com sátiras engraçadíssimas, algumas “impublicáveis” em qualquer veículo minimamente respeitador da moral e dos bons costumes. Sua personagem “Jezebel, a puta”, era antológica! Já na primeira década do século XXI aconteceu uma interessante movimentação “fanzinística” em Itabaiana, com títulos como “Xibiu”, “100Palavras”, “Rosebud”, “Vitrola de papel”, “The Cool Megafun Zine”, “Fun Zine” e “Tico Tico no Fullbach”, que iam da poesia – Samara era a musa local desta seara – ao rock de garagem, passando por muita polêmica e fofoca. Foi uma época intensa na cidade serrana, com toda uma movimentação roqueira underground gravitando ao redor dos shows que aconteciam no Bar “Casagrande”, uma espécia de CBGB “ceboleiro”, com bandas como Karranca, Dr. Garage, Urublues e Carburadores.

Com a popularização da internet a circulação de fanzines xerocados pelo correio foi minguando até praticamente desaparecer. No limiar do novo século poucos nomes surgiram por aqui – lembro apenas do “Cartão Postal”, que era publicado por Duardo Costa e Carol. Até Silvio, incansável, parou de “fanzinar” - sua última publicação, "Boogie Hooker", era dedicada ao blues e distribuída nos shows de uma de suas bandas, a Máquina Blues. Mas há resistência: um jovem franzino e entusiasmado chamado Aquino Neto tomou gosto pela coisa através da “fanzinoteca” improvisada que o “velho guerreiro” manteve por algum tempo em sua loja, a “Freedom”, e passou a publicar um novo fanzine chamado “Guerrilha”, todo feito à mão. Recentemente lançou o “Linhas Tortas”, muito melhor elaborado, e segue na atividade com uma distribuidora de publicações alternaticas chamada “Café com veneno”, onde publica, dentre outros, os desenhos do talentoso itabaianense Maicon Rodrigues. Também em Itabaiana temos Adilson Lima, que produz quadrinhos divertidos e ilustrou a capa do novo disco da banda de Thrash metal sergipana Berzerkers. 

É importante dizer, no entanto, que a movimentação "fanzineira" diminuiu mas não acabou de vez: "vira e mexe" me deparo, na Freedom, com alguns fanzine novos produzidos no velho esquema, xerocados, como “O Velho punk”, do veterano Robério “Nininho”, "Páginas Sujas", de Alécio, e "Kaos Universal", do casal Kelly(que também é de Itabaana) e Renan - moram em São Cristóvão, cidade histórica que faz parte da região metropolitana de Aracaju. Em shows de rock eles também costumam dar as caras, eventualmente - alguns muito caprichadinhos, como o "Ouija", de Marcio Tiago, outros rápidos, rasteiros e panfletários, geralmente pequenas publicações punks e feministas.

Recentemente estive numa feira de publicações alternativas no Museu da Imagem e do som de São Paulo, a “Feira Plana”. Nem sabia que existia, mas existe, e é impressionante: muita gente! Cheguei atrasado para uma palestra sobre a série “Zine é compromisso”, da revista Vice, que havia me entrevistado. Ao me ver por lá, o camarada Marcio Sno – maior pesquisador e divulgador do universo “fanzinistico” no Brasil – passou a me apresentar aos amigos como “uma lenda viva, o cara que foi mencionado no auditório, que fazia fanzine sem saber o que era fanzine no interior de Sergipe na década de 1980”.

O mundo, realmente, dá voltas.

Da revista "Cumbuca"

A.

#

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

200 Anos de "Frankenstein" - Em 1 de janeiro de 1818 foi publicada uma modesta edição do mítico romance em que uma precoce Mary W. Shelley moldou os dilemas e avanços de sua época

Frankenstein nasceu de algo mais do que o desafio de Lord Byron ao lado de uma chaminé com vista para o lago Léman no verão mais frio do século XIX. Tudo o que foi depositado por Mary Wollstonecraft Shelley na narração que deu à luz um mito universal – inspirador de quase mil obras entre o cinema, o teatro e os quadrinhos – tem relação com as circunstâncias extraordinárias que a cercaram desde que nasceu em 30 de agosto de 1797 em Londres. Ao seu redor o velho mundo havia se fragmentado após várias revoluções. A industrial se encontrava em plena excitação graças ao aperfeiçoamento da máquina a vapor de James Watt. A política digeria a overdose de guilhotina de Robespierre e companhia abraçando a volta da ordem. As ideias e a ciência (ainda chamada filosofia natural) estavam igualmente agitadas, com as teorias de Lavoisier que inauguram a química moderna e as expedições aos polos para se aprofundar no magnetismo. E todas aquelas revoluções tomavam chá em sua casa atraídas por seu pai, o romancista e filósofo radical William Godwin (1756-1836), partidário da abolição da propriedade e contrário a toda forma de governo. O primeiro anarquista.

O próprio entorno doméstico é forjado contrário à convenção. Godwin vivia com sua segunda esposa, Mary Jane Clairmont, e cinco filhos de diferentes origens biológicas no que hoje seria uma moderna família reconstituída. Mary W. Shelley cresce marcada pelo pensamento de sua mãe, a escritora e filósofa Mary Wollstonecraft (1759-1797), que a convida a formar-se como uma cidadã consciente em vez de uma esposa submissa. Uma mãe ausente, cujo túmulo era um local frequente de leitura. A autora transportará sua experiência de orfandade à criatura literária, que espalha dor e morte porque não tem quem a queira.

Em 1792, após o sucesso de um ensaio em defesa da Revolução Francesa, Mary Wollstonecraft publicou Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, onde exigia a educação às meninas: “Para fazer o contrato social verdadeiramente equitativo, e com a finalidade de estender aqueles princípios esclarecedores que só podem melhorar o destino do homem, deve permitir-se às mulheres encontrar sua virtude no conhecimento, o que é praticamente impossível a menos que sejam educadas mediante as mesmas atividades que os homens”. É considerado o primeiro tratado feminista, paralelamente à Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã escrita pela francesa Olympe de Gouges, decapitada em Paris por querer levar os direitos humanos longe demais.

Se o pensamento de Mary Wollstonecraft era transgressor em si mesmo, sua vida encarnou vários mitos românticos por seus desamores e suas duas tentativas de suicídio. Entre o episódio do láudano e o do rio Tâmisa viajou pela Escandinávia com sua primeira filha, Fanny, e uma babá. Da experiência sairia um livro de viagens que entusiasmou William Godwin: “Se alguma vez foi escrita uma obra com a intenção de que um homem se apaixonasse pelo autor, acho que é essa”. Os dois escritores se tornam amigos, amantes e, por último, cônjuges entre chacotas da imprensa conservadora (Godwin havia se manifestado contra o casamento em escritos públicos). Na quarta-feira 30 de agosto de 1797 nasce a única filha do casal, Mary. A filósofa passou as contrações lendo em voz alta Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, com seu marido. O mesmo livro que no futuro será apreciado por uma criatura de dois metros e meio de altura e lábios negros.

Mary talvez não tenha sido educada como teria desejado sua mãe, que faleceu 11 dias após o parto, mas seu pai estimulou seu intelecto desde o começo. Os biógrafos sugerem que cresceu com mais pensadores do que afetos. “Ela frequentemente sentia-se sozinha e carente de um sentimento de identidade familiar”, diz James Lynn, “as relações com a segunda esposa de seu pai eram pobres, e mesmo que Godwin tenha lhe dado uma boa educação, não deu atenção às suas necessidades emocionais”.

Mary podia ouvir em sua casa o poete Samuel Taylor Coleridge, o inventor William Nicholson e o químico Humphry Davy. Seu pai a levava em conferências sobre eletricidade e para tomar chá com o divulgador do vegetarianismo John Frank Newton. Todo esse magma individual e criativo deixou marcas em Frankenstein: o capitão Walton faz referência a um poema de Coleridge (‘A Balada do Velho Marinheiro’) e o gigante mata, mas é vegetariano. Um velho amigo de Godwin é apresentado no começo do romance: “Na opinião do doutor Darwin, e de alguns fisiologistas da Alemanha, os acontecimentos em que a presente ficção é baseada não são inteiramente impossíveis”.

O médico e naturalista Erasmus Darwin, defensor de uma teoria sobre a origem única da vida e avô do autor de A Origem das Espécies, também será evocado em Villa Diodati no frio verão de 1816. Horas antes de Mary ter a visão que alimenta Frankenstein, os poetas Lord Byron e Shelley recordam um de seus supostos testes, como relata a própria escritora: “Ao que parece havia conservado um pouco de massa em um pote de vidro, até que, por algum extraordinário processo, aquilo começou a se agitar com um movimento autônomo. (...) Talvez um cadáver pudesse reviver, o galvanismo deu provas de coisas semelhantes: talvez as partes que compõem uma criatura possam ser construídas, e depois possam ser reunidas e dotadas de calor vital”. A grande pergunta que se faz Victor Frankenstein – “Onde estará o princípio da vida?” – era a grande pergunta da época.

Diante da falta de respostas precisas, os substitutos triunfam. A eletricidade vive seu momento de glória desde meados do século XVIII. As descobertas científicas de Benjamin Franklin, Luigi Galvani e Alessandro Volta convivem com a prestidigitação ambulante. Em seu ensaio Mulheres e Livros, o editor Stefan Bollman recria um popular espetáculo de “aparelhos elétricos”: “Colocavam em funcionamento as rodas de suas máquinas eletrostáticas e enviavam descargas elétricas através das mãos de uma cadeia humana. Suspendiam uma pessoa de tal forma que levitava e faziam com que sua cabeça brilhasse”.

Até mesmo Percy Bysshe Shelley entrou na onda da eletricidade em Oxford, como detalha Charles E. Robinson, principal especialista na obra de Mary W. Shelley, em sua introdução a uma edição anotada para cientistas e inventores publicada em comemoração ao bicentenário da criação da obra: “Construiu sua própria pipa elétrica, fez faíscas saltarem de um aparelho elétrico e até armazenou o fluido da eletricidade em garrafas de Leyden: esses testes servem de base às experiências elétricas do pai de Victor, Alphonse, em Frankenstein”.

O poeta Shelley também acabaria frequentando a ágora doméstica de William Godwin, atraído pelo pensamento de um filósofo quase mais célebre por controvérsias públicas como a que manteve com Malthus do que por seus densos tratados políticos. Percy também era especialista em controvérsias: casou-se apesar da oposição de sua influente família e acabava de ser expulso de Oxford por fazer propaganda do ateísmo. Mary tinha 16 anos quando foge com ele, mas voltam logo por falta de dinheiro. A partir daí suas biografias alimentam o mito do casal perfeito do romantismo, com uma sucessão de sucessos literários e cadáveres jovens: só um de seus quatro filhos sobrevive e, aos 29 anos, Percy B. Shelley se afoga na Itália. No futuro a escritora se afastará da condição de maldita e se preocupará em obter a aprovação social para ela, seu único filho e o poeta morto.

Mas quando Mary W. Shelley escreve seu relato em 1816 para a competição sobre histórias de fantasmas, convocada por Lord Byron no verão mais frio do século, tem somente 18 anos, um bebê vivo e outro morto, e uma relação escandalosa que acabará com o suicídio da primeira esposa de Shelley. Ignora que está forjando um mito universal e que, naquela família onde só contavam os que tinham méritos literários, ultrapassará a popularidade de todos eles.

Em 1 de janeiro de 1818, quase dois anos depois da estadia no lago Léman, é publicado Frankenstein ou o Prometeu Moderno com uma tiragem de 500 exemplares. Não tem assinatura. A mão de Percy B. Shelley (que fornece correções ao manuscrito) chega a ser especulada. Mas se algum incrédulo sobreviveu nesses 200 anos, perdeu a última esperança em 2013. Nesse ano foi leiloado por 477.422 euros (1,9 milhão de reais) um exemplar da primeira edição dedicada a Lord Byron “pelo autor”. A letra foi autentificada como a de Mary W. Shelley.

Na segunda edição de 1823 (de tiragem semelhante à anterior), a escritora se identifica. Em apenas três anos são feitas 10 adaptações teatrais diferentes, incluindo finais paródicos sobre a morte da criatura, que irá se afastando-se de seu cultivado espírito original – lia Plutarco, Milton e Goethe – para transformar-se no imaginário coletivo em um monstro de parafuso na cabeça e um tanto bobalhão. A obra se emancipa da autora. Seus leitores encontram em Frankenstein o que precisam: terror gótico, antecipação da ficção científica e um dilema ético sobre os limites da ciência.

No dia de Halloween de 1831 é lançada uma terceira edição de 4.020 exemplares. A escritora introduz mudanças e cala os céticos: “Certamente, não devo ao meu marido a sugestão de nenhum episódio, nem sequer de um guia nas emoções e, entretanto, se não fosse por seu estímulo, essa história nunca teria adquirido o formato com o qual se apresentou ao mundo”. Assina sua introdução como M.W.S., mas a história da literatura prescindirá do sobrenome materno.

Mas somente rastreando suas origens familiares e as circunstâncias dos primeiros anos de sua vida pode-se responder à pergunta que tantas vezes fizeram a Mary W. Shelley: “Como é possível que eu, à época uma jovenzinha, pudesse conceber e desenvolver uma ideia tão horrorosa?”.







quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

jão(do ratos, citando rui barbosa): "não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem"

Foto: Gibran Mendes
“Foi um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobre tem que andar de ônibus, tem que se foder, engraxar o sapato deles e servir a comida deles. Rui Barbosa dizia não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

Com essa frase João Carlos Molina Esteves, 55 anos, ou simplesmente Jão, guitarrista do Ratos de Porão e do Periferia SA, resume o cenário político do Brasil após o golpe que colocou Michel Temer na presidência da república. Fundador da lendária banda criada em 1981 em meio a explosão do movimento punk no Brasil, Jão atendeu a reportagem do Porém.net horas antes de um show do RDP no Jokers Pub, em Curitiba.

A formação atual com Jão na guitarra, João Gordo no vocal, Boka na bateria e Juninho no baixo é a com mais longevidade ao longo dos 36 anos de carreira do Ratos. Depois de tantas mudanças de integrantes (13 no total), Jão diz que a tolerância e o respeito as individualidades de cada um tem sido a fórmula. “São três veganos e eu sou o açougueiro da banda”, brinca o guitarrista, que é um dos sócios do Underdog, um bar-restaurante em São Paulo especializado em carnes. O prato principal é a parrilla argentina.

Veia operária que permanece ativa no RDP, Jão falou da ascensão do fascismo, da extrema direita e personagens caricatos como Jair Bolsonaro, ao qual classifica como uma ‘toupeira’. “Tem um monte de filha da puta que tem orgulho de um cara deste. Devem se identificar pela toupeirice. Discuto nas redes sociais com esses babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. Os Bolsominions da vida, esses escrotos que seguem MBL. Tem até punk que gosta de Bolsonaro. Um cara deste não está entendendo porra nenhuma”.

Esse cenário político atual deve inspirar o próximo projeto do Ratos de Porão, como antecipa o guitarrista. “Estamos terminando de compor, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem”. O último álbum lançado pela banda foi Século Sinistro, em 2014. Confira a entrevista na íntegra:

São 36 anos de carreira. Como manter a mesma pegada, atravessando gerações de fãs?
O Ratos de Porão nunca criou expectativa de sucesso, de exposição em mídia. A própria correria foi mantendo a coisa viva. Não somos uma banda popular nem dentro do rock, mas temos um público fiel no mundo inteiro. Isso é gratificante. É legal você ver um cara da Sérvia, por exemplo, que vai no seu show e diz: escuto sua banda faz tempo. Tem isso e tem o fato da gente gostar do que faz, isso é o que mantém a banda viva. A gente vê muita banda que pinta e depois de um ano some. Vamos pegar um exemplo daquela época das bandas emo, o Restart. Os caras fizeram sucesso, talvez ganharam em um ano mais do que eu ganhei na vida inteira, mas os caras não conseguem viver sem aquilo, sem grana e as facilidades que o sucesso traz. A gente já teve exposição em mídia, o Gordo já foi apresentador da MTV, mas isso para o Ratos nunca foi um retorno positivo. Somos uma banda que veio do punk, então o fato do vocalista trabalhar na TV não trouxe sucesso, pelo contrário, trouxe cobrança ideológica. A banda sempre tentou manter-se a parte disso, inclusive o Gordo.

O Ratos passou por mudanças de integrantes e do som da banda. Fale dessas transformações e cobranças que receberam.
O lance da cobrança do estilo musical já foi pior, pois às vezes é difícil para algumas pessoas assimilarem. Queira ou não, o Ratos deu a cara para bater, deu um passo a frente, ninguém estava misturando punk com metal quando a gente começou. Da parte do punk sempre teve aquele lance dos caras torcerem o bico. O Ratos sempre fez discos diferentes um dos outros, sempre mantendo o estilo da banda. Óbvio que teve outros ingredientes que foram somados a nossa música, influências diversas também. Tem banda como ACDC, Motorhead, Ramones, Cólera, que podem ficar tocando a mesma coisa a vida inteira e se sentir bem com isso. Não é meu caso. Gosto de fazer coisas que sejam relevantes para mim em primeiro lugar.

E o que tem escutado?
Tem uns estilos que meio que doem no saco, bandas nessa linha tipo Slipknot, tem umas guitarronas e tal, maior visual maneiro, mas eu não consigo parar para ouvir. Não sei se estou ficando um velho chato. Quando eu pego coisa nova para ouvir é banda tipo Slayer, que lança sempre disco bom, Napalm Death, Testament, Exodus. Não são bandas novas, são discos novos. Citei o new metal, que o cara vai cantando meio ‘amorosozinho’ e depois vai ficando ‘raivosão’. Sei lá, prefiro ouvir um Johnny Cash.

Como é a relação com os demais integrantes do RDP?
Bem boa, viajamos junto para caralho. Viajamos mais juntos entre nós do que com as nossas famílias. Respeitamos as individualidades. Sou o único que não sou vegano. A gente tem nossa vida fora da banda e ninguém fica andando junto para lá e para cá. Fora do lance do Ratos, cada um tem sua vida e é bem diferente a vida de cada um. Isso é bom, pois na época lá de atrás, quando a gente do Ratos andava toda hora junto, tinha mais treta. Na época do Jabá [ex-baixista e um dos fundadores 1981-1993], do Spaghetti [ex-baterista 1981 a 1991]. A gente era jovem, louco para caralho, a banda tinha mais exposição. Quando a gente fez o Brasil [álbum lançado em 1989], a gente estava em gravadora grande, saía em revista, éramos um bando de punk louco sem noção. Era mais complicado, pois isso acaba desgastando.

Seu pai tinha uma oficina de pintura de carros, você trabalhou de motoboy, com Kombi em transportadora. Podemos considerar o Jão, a veia operária do Ratos?
Pode se dizer que sim. Hoje eu tenho um bar, que a especialidade é carne, a parrilla argentina. Isso criou uma piada dentro da banda de que o Ratos criou um açougue. Três são veganos e eu sou o açougueiro da banda. Venho de família operária, o rock me deu muita coisa, mas nunca me deu luxo. Consegui criar minhas filhas, viver e criá-las honestamente. Criar filho com rock no Brasil é meio foda, ainda mais com um som do tipo do Ratos.

Qual a diferença dos projetos e dos públicos do Ratos de Porão e do Periferia SA.?
O público do Ratos é mais eclético. Vai desde o pessoal do punk, do hardcore, do metal, até uns perdidos que falam que é a banda do João Gordo. Já o Periferia é algo mais direcionado musicalmente, não é tão eclético. Fazemos um punk de protesto, hardcore old school. Essa é a nossa pegada. Muita gente que não vai no show do Periferia, vai no show do Ratos. E tem gente que vai no Periferia e não gosta do Ratos.

Vocês foram precursores do punk no Brasil e na época havia rivalidade entre os punks de São Paulo (capital) e do ABC. Fale desse período.
Era uma treta de gangue bairrista, uns se achavam mais punk que os outros. Quando entrei no punk eu nunca tinha ido para o ABC. Pelo fato do ABC ter as empresas multinacionais, as indústrias, tinha muito punk working class, mais tinha muito skinhead, aquele lance nacionalista. E isso também era motivo de briga. No fundo acho que todo mundo gostava de brigar e de ter uma treta. Eu particularmente, o Jão, nunca tive nada com os caras. Eu até achava que tinha umas bandas do ABC bem mais fodas que as de São Paulo, tipo o Áustria. Quando teve o Começo do Fim do Mundo [festival punk em 1982], no Sesc Pompéia, foi tenso, pois juntou todo mundo, juntou punks de São Paulo e do ABC pela primeira vez. O clima era de que iria dar merda. Os caras do ABC achavam que a gente era playboy, mas não tinha playboy, a gente era da periferia de São Paulo. Subúrbio e periferia é tudo a mesma coisa, gente excluída da sociedade. Hoje já tem o lance ideológico, do tipo: sou vegano e não ando com você, sou anarcopunk e não ando com você, sou crust e não ando contigo.

Quais as histórias mais bizarras que lembra nestes 36 anos?
Coisas bizarras acontecem sempre. Mas tem umas coisas que são bem loucas, se puxar no Youtube vai achar lá “Ratos: bolt of love”, a gente tocando em um barco do amor em um lago na Finlândia. A gente tocando e o barquinho chacoalhando. Esse ano fizemos uma turnê latino-americana em lugares que nunca tínhamos ido. Costa Rica, El Salvador. É louco ver que a gente tem público lá. Na Bolívia, por exemplo, teve um show com uns moleques que tinham umas camisetas escritas Ratos de Porão a mão, pois os moleques não tinham dinheiro para comprar e acho que nem chegava nosso material lá. Isso é louco, pois remete a minha adolescência. Tinha umas camisetas escritas “vida ruim”, “Ratos de Porão”. Me identifiquei para caralho. Hoje, mesmo com esse mundo globalizado, tem um monte de excluído. Se marcar está pior. A evolução é relativa.

Em 1989 vocês lançaram Brasil, com clássicos como Amazônia Nunca Mais, Farsa Nacionalista, Máquina Militar, Crianças Sem Futuro. Trace o Brasil de 1989 e o Brasil atual?
O momento atual do Brasil como sociedade está bem estranho. Não sei até que ponto as redes sociais influenciaram nisso. Hoje em dia tem um monte de filha da puta eleitor do Bolsonaro que tem orgulho disso, orgulho de um cara que é a maior toupeira. Se identificam pela toupeirice entre o candidato e o eleitor. Discuto nas redes sociais com uns babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. O mundo tem muita informação hoje, na minha época você tinha que correr atrás da informação. Era através de livros, livro te salvava. Hoje os idiotas compram ideias prontas. A política no Brasil está bizarra, a eleição do ano que vem é um negócio temeroso. As opções são brutas, até Luciano Huck tentaram lançar. Depois do golpe, pois isso foi um golpe, um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobres tem que andar de ônibus, tem que se foder,  engraxar o sapato deles, servir a comida deles. Olha o Temer, eu desejo muito mal para esse verme filho da puta. Onde está aquela galera que estava fazendo dancinha na Paulista pintado? Onde está essa gente? Essa galera não está se sentindo enganada? Não é possível, o preço da gasolina para mim é o mesmo que para eles. Olha esse lance trabalhista [reforma trabalhista], eu não sou empregado, mas no meu bar eu tenho várias pessoas registradas. Eu não concordo com isso ai e não vou fazer isso com os caras que trabalham para mim. O bagulho foi um crime, um roubo, uma exploração.

E o Dória?
Putz, o Doriana é triste hein malandro! Os caras pensaram que ele iria colocar todo mundo de camisa polo Ralph Lauren na escola, caviar na merenda, vai vendo. O cara é um patife, um marqueteiro. Nunca cuidou nem da conta corrente dele, não sabe administrar nada. É capaz de um bosta deste tentar ser candidato. Quem votou no cara lá em São Paulo não quer dar o braço a torcer, assim como a galera que apoiou o golpe. Os caras tem tipo orgulho, jamais vão admitir que estão errados. O cara burro não admite nunca, ele vê que a gasolina está mais de quatro contos, vê os direitos trabalhistas roubados, vê professor não ganhando salário, mas não admite a merda toda. Pega o Alckmin, outro patife da pior espécie. Já dizia Rui Barbosa, “não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

A repressão, a violência policial, sempre estiveram nas letras do Ratos. Diante do atual cenário, para onde podemos caminhar?
Acho preocupante todo esse lance de repressão. Eu sempre posto lá [Facebook], a polícia militar tem que acabar, porque esse formato aí é da ditadura. Estamos no mesmo nível daquela época, vai professor protestar porque não está ganhando salário e leva bala de borracha, spray de pimenta no olho. Quando eu posto isso sempre vem os Bolsominions dizer: “quem tem medo de polícia é bandido (sic)”. Essas frases prontas. Não sou bandido, mas sou cabreiro com a polícia sim.

Quando o Ratos estava prestes a completar 30 anos foi lançado o documentário Guidable. Recentemente vocês fizeram um show com outras bandas, como Resto de Nada, Mercenárias, AI-5, em comemoração aos 40 anos do punk rock. E para os 40 anos do RDP, o que vislumbrar?
Quando o Ratos fez 30 anos eu juntei quase todo mundo que tocou no Ratos, faltou só o Pica Pau [ex-baixista 1995 a 1999]. Era para ter saído um DVD disso ai. Contamos a história da banda através da discografia com as formações da época. Mas deu merda no áudio e desistimos de lançar. Sobre os 40 anos têm quatro anos para gente pensar, mas vamos comemorar de alguma forma sim.

Vocês estão no estúdio compondo?
Estamos terminando de compor, mas cada um tem sua vida, seus projetos paralelos, mas estamos querendo fazer disco novo por aí, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem. O Ratos sempre foi chato com a gente mesmo neste lance de composição. A gente vai gravar o disco na certeza que tem que estar legal. A gente prefere demorar um pouco mais para lançar um disco ao invés de fazer um bagulho nas coxas.

Nestes 36 anos de banda, se pudesse voltar no tempo, o que faria diferente?
Não fumaria crack. Isso atrasou meu lado, perdi amigos. Vida pessoal ficou na merda, devendo para traficante. Mandamos o Jabá embora da banda, que era o fundador junto comigo. Esse tipo de coisas. Essas cagadas se eu não pudesse fazer seria bem melhor. Foi uma fase bem crítica, não sei como a banda não acabou e até conseguiu produzir coisas.

por Júlio Carignano

porém.net







segunda-feira, 30 de outubro de 2017

China Miéville e o "romance sem ficção" da revolução russa

China Miéville é quase um Maiakóvski inglês. Assim como o poeta que revolucionou o verso russo e cantou a insurreição comunista de outubro de 1917, Miéville se divide entre a literatura e a militância política. Ele é um premiado autor de ficção científica. Seus volumosos romances são apinhados de monstros, alienígenas, seres mitológicos e luta de classes. Também é um estudioso do marxismo, doutor em Direito Internacional pela London School of Economics e militante do Partido Trabalhista britânico. Em seu livro mais recente, Miéville combina suas duas paixões: Outubro (Boitempo, 384 páginas, R$ 59), recém-­publicado no Brasil, narra, mês a mês, os eventos que culminaram na Revolução Russa. Ao contrário dos outros livros de Miéville, Outubro não tem uma linha sequer de ficção nem um único personagem inventado. Em entrevista a ÉPOCA, Miéville contou como foi escrever um romance sem ficção e refletiu sobre os dilemas da esquerda contemporânea, que não sabe direito como olhar para a revolução bolchevique.


ÉPOCA – Como foi para um autor de literatura fantástica escrever um livro de não ficção?
China Miéville
Difícil. Eu estava muito nervoso. Segui uma regra bastante rigorosa: não podia inventar nada. Estava ansioso pela recepção das pessoas que conhecem o assunto muito bem. Outubro foi escrito principalmente para quem não conhece a história, mas eu não queria que especialistas pensassem que eu não tinha feito meu dever de casa quando lessem. A recepção foi muito simpática. Valeu a pena. De tudo o que eu já escrevi, esse é o livro que me causou mais ansiedade, porque, embora seja uma história, e não uma discussão política, as questões políticas estão ali, tácitas.

ÉPOCA – Em Outubro, o senhor diz que não aborda essa história com neutralidade, que tem seus heróis e seus vilões. Como fez para não deixar que seus sentimentos pela Revolução Russa interferissem demais no texto?
Miéville –
Os escritores não são neutros, mas podem tentar ser justos. Há alguns personagens no livro de quem eu discordo politicamente ou que representam ideias às quais me oponho, mas que, ainda assim, são personagens fascinantes. Por outro lado, tentei não ser muito compassivo com figuras de quem estou próximo politicamente. O final do livro, por exemplo, é uma longa discussão sobre os erros da revolução. Não sou eu quem deve julgar quão bem-sucedido eu fui, mas posso afirmar que sempre estive muito consciente do problema e me esforcei muito para não ser injusto.

ÉPOCA – Sempre que o assunto é a Revolução Russa, surge a pergunta: como a revolução popular se transformou num Estado totalitário? O senhor tem alguma resposta?
Miéville –
Para mim, não há uma causa única que explique o que deu errado, mas uma complexidade de causas. A revolução foi cercada por todos os lados e houve tentativas deliberadas de destruí-la. Naquele contexto, algumas decisões tomadas pelos revolucionários não ajudaram as coisas a avançar. Por exemplo: em 1924, os bolcheviques desistiram de insistir que uma revolução socialista não pode ser bem-­sucedida em um só país, devido à integração da economia mundial. Naquele ano, ao perceber que a possibilidade da revolução internacionalista recuava, eles viraram esse argumento de ponta-cabeça e concluíram que, sim, o socialismo em um só país era possível. Para mim, isso foi uma catástrofe absoluta! Naquele momento de desespero, em vez de identificar com clareza o problema, eles preferiram se enganar, minimizando o problema.

ÉPOCA – Aqui no Brasil, depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff, debate-se muito a reconstrução da esquerda. Recentemente, o filósofo Ruy Fausto, um renomado estudioso do marxismo, publicou o livro Caminhos da esquerda, no qual ele argumenta ser urgente a esquerda abandonar suas velhas patologias: populismo e tendências totalitárias e antidemocráticas. O senhor acredita que a esquerda deva se livrar de algumas patologias?
Miéville –
Com certeza há patologias. Só um sectário acharia que a esquerda não tem patologias para se livrar. Precisamos nos livrar de nossas patologias e discutir como seguir em frente, como criar o que chamo de “esquerda habitável”. Isso é crucial. Por meio de minha experiência, percebo na esquerda um certo sectarismo, uma brutalidade indesejada. É claro que há muita gente que não compactua com isso, mas são patologias que percebo, e acho que a esquerda não se esforçou o suficiente para se livrar delas. Eu mesmo já me envolvi em brigas feias no interior da esquerda britânica. Essas brigas sempre nos deixam absolutamente exaustos. É claro que vamos discordar, mas não precisamos conduzir nossa política sempre dessa maneira. Aliás, há bastante gente na esquerda, especialmente os mais jovens, que diz isso com seriedade, o que me dá muita esperança.

ÉPOCA – Atualmente, a esquerda discute muito a situação venezuelana. No Brasil, o PT apoia o governo antidemocrático de Nicolás Maduro. Recentemente, o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, disse que a violência é praticada tanto pelo governo quanto pela oposição. Qual deveria ser a postura da esquerda diante da crise venezuelana?
Miéville –
A esquerda pode começar não se aliando com os bastiões da direita que tentam proclamar a morte do chavismo e dos projetos populares na América Latina. Dito isso, acredito que nós, de esquerda, devemos enfrentar com pragmatismo e seriedade os problemas de Maduro e seu regime, que vêm cerceando a democracia. A esquerda não pode dizer que não há problemas ali. Há, no entanto, grupos na Venezuela que não se aliam de modo algum com Maduro e recusam esse tipo de chantagem política que diz que, se você não apoia o regime, você está dançando no ritmo do capital ou é um fascista. Esse tipo de chantagem deve ser rejeitada. Não posso, em sã consciência, alinhar-me com o regime de Maduro, mas isso não quer dizer que eu apoio a oposição. Precisamos fortalecer as tendências minoritárias da esquerda venezuelana que estão comprometidas, acima de tudo, com a democracia popular.

ÉPOCA – Nos últimos tempos, o eleitorado de centro-­esquerda tem se voltado para candidatos populistas e de extrema-direita. Recentemente, o ex-chefe estrategista da Casa Branca Steve Bannon disse: “Se a esquerda estiver focada em raça e identidade, nós avançamos com o nacionalismo econômico e, assim, esmagamos os democratas”. Focar em questões raciais e de gênero em vez do antigo programa econômico estatizante é um erro das esquerdas?
Miéville –
É perigoso comprar essa narrativa que afirma que toda essa conversa sobre racismo alienou os pobres brancos. É um erro. Ignorar opressões estruturais e históricas, como o racismo americano ou o brasileiro, para não alienar a classe trabalhadora branca, é covardia política e falta de senso estratégico. Ignorar o racismo significa não lidar seriamente com a questão das classes sociais, porque classe social, raça e gênero estão imbricados. Seria um insulto ignorar um movimento como o Black Lives Matter, que provocou um impacto extraordinário na política americana. Mas, é claro, há maneiras melhores e piores de lidar com as políticas identitárias. Há muita gente na internet, uma esquerda de Twitter, que impõe essas plataformas de uma maneira que não ajuda ninguém.

ÉPOCA – Na eleição britânica, a esquerda radical conseguiu resultados surpreendentes, mas Jeremy Corbyn não foi eleito. Apostar no radicalismo pode ajudar a esquerda a voltar ao poder?
Miéville –
No mundo todo estamos assistindo a um colapso do liberalismo. Um programa radical pode, sim, vencer. É verdade que estamos nos estágios iniciais – se tivermos sorte – de um ressurgimento da esquerda. E não surpreende que a nova esquerda ainda não tenha conseguido superar décadas de desencanto popular com os políticos. Há uma montanha a escalar. Nos últimos meses, aprendemos que essa montanha pode, sim, ser escalada.

ÉPOCA – Na época do Brexit, o senhor afirmou que era difícil para a esquerda se posicionar sobre a saída dos britânicos da União Europeia, porque o voto anti-UE estava sendo patrocinado por uma onda de preconceito e xenofobia. Agora, parece haver muita ansiedade quanto aos impactos do Brexit na economia britânica. Como o senhor avalia a saída britânica do mercado comum um ano após o referendo?
Miéville –
O governo britânico está lidando com o Brexit sem nenhum programa ou tática. Os sonhos econômicos da direita anti-UE – uma espécie de parque de diversões no Atlântico – são mais que absurdos. E a direita xenófoba saiu fortalecida do referendo. O desejo nostálgico de muitos liberais de novo referendo, ou de simplesmente ignorar o resultado, é ridículo. A tarefa agora é – usando a fraseologia da esquerda do Partido Trabalhista – fazer um Brexit para muitos, não para poucos, contra o Brexit dos reacionários. É uma tarefa muito difícil, que acarretará muita dor e dificuldades, mas não é impossível. Vale a pena lutar.

por RUAN DE SOUSA GABRIEL

Época

#


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Margareth Tatcher sorri no inferno ...

Superestimamos as possibilidades com as vitórias de Hugo Chávez, Nestor Kirchner, Jose Mujica, Lula e tantos outros. Nosso segundo engano veio com a crise financeira norte-americana de 2008. Esses eventos políticos, econômicos e sociais transmitiram a sensação de que as ideias formuladas e propagandeadas desde Washington para o mundo estavam mortas.

Ledo engano, apesar das conquistas sociais e da exuberância do ciclo político de tentativas de distribuição de renda, riqueza e oportunidades na América latina. As ideias de Washington nunca morreram e nunca morrerão enquanto o capitalismo existir.

Nos últimos 20 anos, entretanto, as vitórias na América Latina de candidatos democratas e progressistas (com influência e participação da esquerda) foram reações políticas bem-sucedidas. Demostraram alguma capacidade de resistência ao rolo compressor reorganizado no programa chamando de Consenso de Washington de 1989.

Por outro lado, o terremoto financeiro de 2008 representou apenas dores de crescimento do projeto de Washington. A crise ocorreu (e ainda permanece) porque os capitais financeiros abundantes buscavam novos mercados para dar continuidade ao seu processo de acumulação continuada e acelerada.
A turbulência iniciada em 2008 não foi uma crise do projeto de Washington que demonstrou uma fraqueza teórica ou econômica do seu pilar. Muito ao contrário, era uma crise que revelava quão forte era o seu pilar. O poderio econômico monstruoso é o pilar do projeto de Washington.

Começamos uma nova era do capitalismo nos anos 1980, com as reformas propostas por Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Tais propostas de mudanças foram consagradas no programa batizado por John Williamson de Consenso de Washington. Essa é uma agenda alternativa ao programa socialdemocrata que havia vigorado de forma mais intensa a partir dos anos 1940. A socialdemocracia havia organizado um sistema de harmonia entre o capital e o trabalho.

No pós-segunda Guerra, os capitais foram regulados e, portanto, foi contida a busca voraz pela maximização de lucros. Em linhas gerais, houve a socialização dos ganhos do sistema via esquemas de tributação e geração de pleno emprego, o que resultou na ampliação de oportunidades sociais. Era marca da socialdemocracia a geração de empregos com condições dignas e salários generosos. A socialdemocracia é um programa político de contenção dos instintos capitalistas de concentração de renda, riqueza e oportunidades.

Oposição teórica e política à socialdemocracia e ao socialismo existia há décadas. Contudo, não existiam condições objetivas para uma reação do capital. Somente nos anos 1970 é que houve a desorganização econômica no Reino Unido e nos Estados Unidos. Houve desaceleração econômica, recessão e inflação. As condições objetivas econômicas degradadas, então, abriram espaço para a reação política do capital.

O movimento iniciado por Reagan-Thatcher sugeria a superação do modelo que propunha a regulação do capital, que distribuía renda e riqueza e multiplicava oportunidades para todos. Nos anos 1980, foi idealizado uma reorganização do capitalismo onde foram escolhidos os atores que seriam os campeões mundiais da reação e da dominação do capital. Foram escolhidos os mais fortes para que ficassem mais fortes ainda. Os candidatos naturais eram as megacorporações financeiras e produtivas, ou seja, os grandes bancos e multinacionais.

A consequência dessa opção política e econômica é uma opção de classe, pois o capitalismo organiza a sociedade em classes. Os donos do capital seriam favorecidos, os trabalhadores seriam empobrecidos e os pobres se tornariam miseráveis.

O programa estabelecido no Consenso de Washington é essencialmente econômico. É, no entanto, reconhecido na apresentação do consenso por Wiliamson um desejo maior de Washington. Desejavam a democracia, direitos humanos e preservação do meio ambiente em outros países.

Essa é uma das partes mais importantes do artigo de Williamson. O autor claramente indica que embora existam esses objetivos mais amplos, “...(eles) jogam diminuto papel na determinação das atitudes de Washington em relação às (formulações das) políticas econômicas...”  e que as políticas estabelecidas no programa não teriam “...implicações importantes para quaisquer daqueles objetivos”.

A mensagem é que o Consenso de Washington é um programa que pode ser implantado com democracia ou sem democracia, com preservação do meio ambiente ou com a sua destruição e com direitos humanos ou sem eles.

Na primeira onda de aplicação desse programa, chamada de onda neoliberal dos anos 1990, houve as primeiras entregas aos campeões mundiais: desregulamentação financeira, privatizações e redução de carga tributária para o grande capital e seus proprietários. Embora bem-sucedido na realização de entregas aos de cima, o efeito colateral daquela onda neoliberal foi uma enorme insatisfação popular. Seus executores prometeram prosperidade aos trabalhadores e pobres, mas somente entregaram realizações aos rentistas, às multinacionais e aos bancos.

O projeto de Thatcher, Reagan e do Consenso de Washington foi derrotado nas eleições presidenciais no Brasil nos anos 2000 e em diversos países da América Latina onde tinha sido aplicado. Apesar dos fracassos eleitorais, continuou seu movimento por diversas vias. Penetravam nos governos que faziam oposição, apoiavam movimentos de desestabilização desses governos, conquistaram as mídias locais, o Judiciário, a burocracia estatal e financiavam movimentos para ampliar a base política de oposição nas casas legislativas e na sociedade.

Embora pareça um pleonasmo, vale dizer que o principal motor do capital é o seu poderio econômico. Isso facilita a sua atividade em uma sociedade capitalista: é peixe na água. O capital utilizou o seu poderio econômico para se valer das táticas elaboradas por seus opositores. Foi e tem sido bem-sucedido. Trabalhou incessantemente para conquistar a hegemonia cultural dos seus valores à Antonio Gramsci. Fez estudos, agitação e propaganda tal como descrito no “O Que Fazer?” de Vladimir Lenin. São 30 anos de atividade militante diária do capital apoiada por trilhões de dólares.

A ideologia e a política do capital se infiltraram por todos os cantos, por todos os lados. Penetraram na consciência e nos sonhos de lideranças políticas e do cidadão comum. Os grandes bancos passaram, por exemplo, a comandar os resultados de pesquisas nos departamentos de economia das principais universidades norte-americanas (cenas constrangedoras foram registradas no documentário Inside Job, de Charles Ferguson).

Mais: mundo afora, partidos progressistas e de esquerda abandonaram a luta de classes e suas políticas de desconcentração da renda e da riqueza para abraçar pautas identitárias (mas continuam se autovalorizando e arrogantemente se autointitulando de esquerda pura).

A força do capital é tão grande nos dias de hoje que ela neutralizou ou anulou o campo político no qual a esquerda pode atuar. A democracia e os processos eleitorais serão utilizados se o candidato representante do capital tiver vitória garantida. A democracia e os processos eleitorais serão controlados, deformados ou suprimidos se houver chance de vitória de um candidato que não seja de confiança do capital.

A corrupção será combatida em nome da vitória eleitoral do candidato do capital. A corrupção será praticada se for para garantir a vitória do candidato do capital. O capital necessita apenas controlar os orçamentos governamentais e os recursos naturais. A política, as organizações partidárias, a democracia, as instituições, os Estados nacionais não são necessários ao capital para que os seus fins (descritos em dez pontos do Consenso de Washington) sejam alcançados.

O erro inicial dos estrategistas do Consenso de Washington foi pensar que poderiam conviver com a política e a democracia sem restrições. As derrotas que sofreram em quatro eleições presidenciais no Brasil e em vários outros países colocaram fim nessa ilusão. Desfeita a ilusão, viraram a mesa. Tal virada somente foi possível porque conquistaram corações e mentes (ou seja, obtiveram hegemonia cultural e política).

O capital, por meio da atuação das multinacionais e grandes bancos, estava invertendo há anos a curva de desconcentração de renda e riqueza do período 1945-1975. Não era fácil fazer tal interpretação à época (ao longo dos anos 1990 e 2000). E mais: ainda que fosse feita, a força do capital é avassaladora. Talvez, a trajetória fosse de maior resistência, mas não necessariamente de vitória sobre o capital.

Na segunda década do XXI, o capital avançou ainda mais sobre a América Latina e busca a sua consolidação política e ideológica. Em Honduras, Manuel Zelaya foi golpeado. Fernando Lugo foi derrubado no Paraguai. No Brasil, Dilma Rousseff também sofreu um golpe. Na Argentina, Cristina Kirchner foi derrotada nas eleições e é perseguida pelo Judiciário. No Uruguai, Jose Mujica teve que dar ênfase nas pautas de identidade.

No Equador, Rafael Correa não conseguiu reintroduzir o sucre, a moeda nacional. Na Venezuela, Hugo Chávez politizou as forças armadas e as massas e reorganizou o Judiciário. Os Estados Unidos reagiram e derrubaram o preço internacional do petróleo por meio do aumento da produção (interna e com uma aliança com a Arábia Saudita). Assim, deixaram o país em crise e aumentam o cerco. Nicolas Maduro resiste como pode.

E, no Brasil, a perseguição continua incessante: Lula é caçado por todos os lados.

Na nova era do capitalismo, o capital não aceita mais a política de conciliação com o trabalho. Nenhuma concessão é feita. A socialdemocracia não é mais aceita, nem a genuína, a europeia, nem a latino-americana do século XXI. O rolo compressor avança. O jogo é jogado sem regras. É vale tudo. É luta de classes cristalina pela concentração da renda e da riqueza por meio do controle de orçamentos públicos e dos recursos naturais.

por João Sicsú

#carta 


quinta-feira, 13 de julho de 2017

rock e conservadorismo

O impacto do rock desde sua criação vem da transgressão, da subversão, do desafio ao status quo e da intensidade emocional de misturar realidades e expectativas. A ambiguidade sexual, a revolta política e a mistura de raças e nacionalidades transformavam o que poderia ser apenas um novo gênero musical – com raízes idênticas em realidades distintas (o blues e o country, as duas metades que até hoje simbolizam os Estados Unidos) – em uma febre global. Baixo, guitarra e bateria equilibrando frases elétricas e refrões em forma de hino fizeram esta novidade norte-americana se espalhar pelo planeta à medida que a adolescência ganhava voz pela primeira vez na história.
Mas ao tornar-se clássico, o gênero passou a cultuar símbolos e uma mitologia que aos poucos engessou suas principais qualidades para firmar seus holofotes apenas no ego dos artistas. Logo o astro do rock era mais importante que sua mensagem e aos poucos as premissas que metamorfosearam o gênero musical numa transformação comportamental foram envelhecendo com seus primeiros protagonistas, que perderam o viço da juventude e tudo de bom e de ruim que os relacionava àquela faixa etária. Aos poucos a música eletrônica, o hip hop e uma nova vanguarda foram suprindo aquela necessidade de extravasar que antes era proporcionada pelo gênero. O rock foi se transformando em algo reacionário, reativo e eminentemente conservador – autocelebratório e machista, indulgente e preconceituoso, intolerante e caricato. Até o indie rock – versão alternativa para esse rock dito clássico – repete tais erros.
Este retrato, no entanto, é impreciso. Talvez pelo excesso de atenção em alguns dos grandes vendedores de discos do passado, o gênero passe por esse envelhecimento grotesco, mas ele não mostra as transformações que eventualmente vão sendo propostas por artistas mais novos* ao longo do tempo. Pelo menos até a ultima década do século passado o rock se renovou e se reinventou, se dividindo numa impressionante miríade de subgêneros que prestaram maior ou menor tributo à tradição que os antecedeu, mas garantiram ao gênero o frescor da novidade - o grunge, por exemplo, é um herdeiro direto do punk, com influencias do metal e do chamado "indie rock', mas foi também um sopro renovador que varreu das paradas de sucesso o rock de arena ndas bandas de metal “farofa”. Já o Black metal norueguês não parece ter nenhuma conexão com a musica de Chuck Berry - embora tenha. O Punk que, por sua vez, foi uma reação à acomodação e à pompa progressiva da década de 1970, um retorno visceral às raízes primordiais numa nova linguagem, visceral e radicalmente contestadora – muito embora um de seus artífices, o guitarrista Johnny Ramone, fosse um conservador assumido.  
Ao longo do tempo tivemos novas gerações desconstruindo o formato estabelecido entre os anos 50 e 60 e reinventando um rock que muitas vezes transcende sonoridades estabelecidas e desafia as expectativas. Acho, portanto, extremamente reducionista a afirmação que muitos fazem hoje em dia nas redes sociais de que o rock é “conservador”. Que rock? Para cada Ted Nugent, Lobão ou Roger do Ultraje a Rigor sempre tivemos e quero crer que ainda temos um Ian McKaye, um Tom Morello ou um Rodrigo do Dead Fish. Para cada encontro de Elvis com Nixon, um show arrebatador dos Stooges ou do MC5.
Na cacofonia das redes sociais, "o rock é conservador" é apenas mais uma sentença de impacto imprecisa e equivocada. Em sua essência, nunca foi. Foi o gênero que fez cair as barreiras raciais, ao mesclar a musica dos brancos e dos pretos numa coisa só, se desdobrando e se reinventando infinitamente ao longo do tempo e servindo de trilha sonora para levantes culturais revolucionários, como o hippie e o punk, dentre outros. Algumas correntes, como a do Heavy Metal, talvez sejam realmente mais fechadas em si mesmas, avessas a novidades, mas isso acontece muito mais por um instinto de preservação “tribal” que por reacionarismo político e/ou comportamental. Mesmo assim o contato com a diversidade cultural do mundo real acaba acontecendo e também ele, o Heavy Metal, evolui e se torna mais dinâmico e multifacetado, se desdobrando numa infinidade de subgêneros – Death, thrash, grind, doom, gothic, etc.
Em vez de “reacionarismo” o que eu noto, atualmente, é uma grande estagnação estética e criativa: na primeira década do século XXI o mundo do rock nada fez além de se autocanibalizar em novas bandas com sonoridades datadas e derivativas. De uns dez anos pra cá, nem isso. Um verdadeiro deserto. Mas isso se deve, a meu ver, à própria característica fragmentária do mundo em que vivemos, eternamente imerso num oceano infinito de distração do qual é necessário um esforço tremendo para submergir.
Criar algo realmente novo, este é o grande desafio.
*Até aqui por Alexandre Matias
A.
#

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Fim está chegando ...

Quando se joga o jogo dos tronos, você aprende a esperar o inesperado. Mesmo assim, a mais recente temporada de Game of Thrones fez algo totalmente sem precedentes na história da série da HBO: ela ficou menos complicada conforme foi passando, e não mais.
Sim, estamos perto do encerramento, o que significa que muitos dos jogadores mais importantes já foram empurrados para fora do tabuleiro no ano passado. Agora, o Rei do Norte Jon Snow, a Rainha dos Sete Reinos Cersei Lannister e a Mãe de Dragões Daenerys Targaryen estão no devido comando de seus respectivos reinos. Enquanto isso, ao norte da Muralha, a ameaça dos Caminhantes Brancos e o inverno infinito deles está cada vez mais perto. Esta é a verdadeira guerra, que tem sido apenas facilitada por todas as disputas entre diferentes grupos de humanos.

E se o verdadeiro inimigo está prestes a dar as caras, você não gostaria de ir à batalha sem estar bem informado, né? Foi por isso que preparamos este guia, organizado por região, sobre como tudo e todos estavam antes do pontapé inicial da nova temporada, que acontece no domingo, 16 de julho, pela HBO.

O Norte
Em uma das maiores reviravoltas da série, Jon Snow deixou o título de bastardo para trás e se tornou um monarca, assim como o meio-irmão. Depois de ter sido ressuscitado pela Sacerdotisa Vermelha Melisandre, ele rapidamente executou aqueles que haviam se voltado contra ele na Patrulha da Noite e restaurou sua posição como Senhor Comandante, antes de entregar as rédeas ao amigo “Dolorous” Edd Tollett.
Isso deixou Lord Snow livre para lutar a batalha pela libertação de Winterfell, sua casa, das garras de Ramsay Bolton, que matou o próprio pai para reivindicar o castelo para si. A subsequente “Batalha dos Bastardos” teve custo alto – entre as fatalidades, Rickon, jovem irmão de Jon, e Wun-Wun, o último dos gigantes – mas terminou em vitória para a Aliança do Norte. Deve-se dar crédito a Sansa pela vitória, já que ela conseguiu que os Cavaleiros do Vale, comandados pelo assustador guardião dela, Petyr “Littlefinger” Baelish, se juntassem aos esforços do meio-irmão. A Senhora Stark também se vingou do marido dela, Ramsay, fazendo com que ele fosse servido como jantar para os próprios cães.
Dessa forma, Jon acabou tendo controle sobre uma das maiores forças em Westeros, mas também a mais desorganizada. O grupo variado inclui os selvagens, liderados por Tormund Giantsbane; os nobres que são tradicionalmente leais à Casa Stark, com destaque para a jovem líder da Ilha dos Ursos, Lyanna Mormont; e os Lordes do Vale, encabeçados por Bronze Yohn Royce. Jon tem o apoio de Sansa também, ao menos por enquanto; Littlefinger já está procurando uma maneira de provocar a discórdia entre os irmãos.
Mas ele não pode mais contar com a mágica de Melisandre: o Rei Snow exilou a Mulher Vermelha, seguindo as sugestões do conselheiro Ser Davos Seaworth, que descobriu o papel que ela teve na morte da filha do Lord Stannis Baratheon na fogueira. Jon também não pode mais depender de Samwell Tarly: ele enviou o melhor amigo, Gilly, que é a namorada de Sam, e o filho dos dois para a Cidadela de Vilavelha, onde o patrulheiro da Patrulha da Noite vai estudar para se tornar um Meistre. Nossa aposta, no entanto, é que ele não terá uma vida tranquila de estudioso: Sam havia roubado do pai, Randyll, a espada de aço valiriano – uma das únicas armas que podem matar um Caminhante Branco.
De volta na Muralha, o Senhor Comandante Dolorous Edd tem poder sobre uma reduzida Patrulha da Noite. O grande defensor da construção pode muito bem ser Bran, o meio-irmão de Jon. Treinado para utilizar suas habilidades psíquicas pelo velho feiticeiro conhecido como o Corvo de Três Olhos, o jovem Stark por pouco não escapou dos Caminhantes Brancos e seu exército zumbi, liderado pelo nêmesis dele, o Rei da Noite. O ataque acabou com as vidas do mentor de Bran, seu lobo gigante e, tragicamente, o guardião dele, Hodor, que teve sua deficiência causada pela presença de Bran, cuja mente é capaz de viajar no tempo e gera esse tipo de dano a sua volta. O comando da amiga deles, Meera Reed, para segurar a porta (“hold the door”, em inglês) frente ao ataque dos zumbis ficou tão marcado na mente do guardião na juventude que uma versão encurtada, “ho-dor”, se tornou a única palavra que ele conseguia dizer.
Agora, Bran e Meera estão voltando à Muralha acompanhados do tio de Bran, Benjen Stark, um patrulheiro da Patrulha da Noite que desapareceu na primeira temporada da série; agora ele é um morto-vivo também, mas do tipo do bem, revivido pelos agora extintos Filhos da Floresta. Juntos, eles carregam o segredo, também revelado por meio da viagem no tempo, de que Jon Snow é, na verdade, o filho secreto da falecida Lyanna Stark e o herdeiro do Trono de Ferro de Rhaegar Targaryen. De fato, o Rei do Norte.

As Terras Fluviais
Se houver alguma surpresa na próxima temporada, ela virá dessa região central. Aqui está Arya, a mais mortal dos Stark sobreviventes. Após os ensinamentos dos assassinos mágicos Homens Sem Rosto na cidade livre de Bravos, ela decidiu que o estilo mercenário deles não era a praia dela. Depois de matar a rival Criança Abandonada (Waif), ela deixou a cidade com uma aparente bênção do mentor Jaqen H’ghar e retornou aos Sete Reinos. Lá, utilizando suas habilidades de disfarce, ela se infiltrou na fortaleza de Walder Frey, o velho grisalho que orquestrou o infame Casamento Vermelho. Primeiro, ela matou os filhos dele e os serviu ao pai dentro de uma torta. Depois, ela cortou a garganta dele.
Antigo companheiro de Arya, Sandor “Cão de Caça” Clegane também está vagando pela região. Após a jovem Stark deixá-lo para trás para morrer, ele se recuperou e se juntou a uma comunidade religiosa que, subsequentemente, foi assassinada por agentes da Irmandade Sem Bandeiras, a guerrilha liderada por Beric Dondarrion e Thoros de Myr, o Sacerdote Vermelho que o trouxe de volta à vida várias vezes. O Cão rastreou os assassinos dos amigos dele e ajudou enforcá-los pelos crimes, antes de concordar em se juntar aos ex-inimigos da Irmandade na batalha que está por vir.
Também perdida nessa região assolada pela guerra está a mulher que derrotou o Cão, Brienne de Tarth. Jurada a servir Sansa Stark, a Donzela de Tarth e o escudeiro Podrick Payne foram mandados ao sul em uma missão ordenada por Brynden "Peixe Negro" Tully, tio de Catelyn, a falecida mãe de Sansa. Ele havia saído ileso do Casamento Vermelho e comandou as forças restantes do falecido Robb Stark. Quando Brienne chegou lá, Jaime Lannister já havia chegado para acabar com o sítio da cidadela, utilizando o sobrinho refém de Peixe Negro, Edmure (o noivo de fato do Casamento Vermelho), para mediar a rendição. O Peixe Negro caiu na batalha, fazendo com que Brienne e o jovem escudeiro tivessem que fugir, deixando o Regicida para trás.
Finalmente, há um verdadeiro coringa no baralho. Euron Greyjoy. Na costa das Terras Fluviais estão as Ilhas de Ferro, governadas até a mais recente temporada pelo Rei Balon Greyjoy. Sem aviso, o jovem irmão pirata dele reapareceu, assassinando o velho monarca em meio a pronunciamentos pretensiosos como “Eu sou a tempestade”. O recém-chegado ganhou o chamado Trono de Sal em uma espécie de “votação” para escolher o novo líder, e logo depois declarou guerra contra a sobrinha e o sobrinho, Yara e Theon, que haviam acabado de se reunir. Os jovens escaparam das garras do mais velho, mas isso só deixa a nova frota de Euron livre para atacar, basicamente, quem ele quiser.

Porto Real
Na capital dos Sete Reinos, Cersei Lannister é o único nome que importa. Ela emergiu da sexta temporada como a inegável governante do centro de poder de Westeros, tudo o que foi preciso para fazer isso acontecer foi causar uma explosão apocalíptica de fogovivo. O caos que se seguiu matou o Alto Pardal, a rival dela, Rainha Margaery, o irmão de Margaery, Loras, o pai deles, Mace, o tio dela e Mão do Rei, Kevan Lannister, e o primo traidor dela, Lancel Lannister, de uma vez só. O subsequente suicídio do filho dela, Rei Tommen, foi uma tragédia, certamente. Mas fez com que Cersei finalmente reivindicasse o Trono de Ferro para ela mesma. Agora, está contando com o irmão/amante Jaime, o conselheiro em magia negra Qyburn e o segurança morto-vivo Gregor “A Montanha” Clegane, conhecido como Ser Robert Strong, para a ajudar a manter o controle.

O Leste
Depois de meia dúzia de anos, Daenerys Targaryen está seguindo em direção ao oeste para tomar os Sete Reinos. Um longo caminho foi percorrido desde o começo da temporada passada: sozinha e desesperada, uma prisioneira dos Senhores dos Cavalos e até abandonada pelo dragão que a havia salvado da insurgência em Meereen. Mas graças aos poderes dela, ela queimou todos os Khals que passaram por seu caminho e emergiu como a líder do povo Dothraki antes de retornar para completar a libertação da Baía dos Escravos.
Agora ela está navegando em direção a Westeros com uma aliança que envergonharia a equipe de Jon Snow. Há três dragões, Drogon, Viserion e Rhaegal – os dois últimos foram recentemente libertados do cativeiro em que ela os havia colocado. Há também o khalasar massivo de guerreiros à cavalo e as tropas terrestres deles, equivalentes aos Imaculados, liderados pelo capitão Grey Worm. Ela ainda tem três frotas de Westeros dando apoiando: os navios da Casa Greyjoy, encabeçados por Yara e Theon; aqueles da Casa Tyrell, comandados pela chamada Rainha dos Espinhos Senhora Olenna; e aqueles de Dorne, liderados por Ellaria Sand e suas três filhas guerreiras, conhecidas como as Serpentes de Areia.
Daenerys deixou dois aliados-chave fora da missão dela. O amante dela, o capitão Daario Naharis, foi deixado atrás para manter a paz em Meereen; e o conselheiro exilado dela, o apaixonado Ser Jorah Mormont, que foi mandado em busca de uma cura para Greyscale, a doença que ele contraiu enquanto navegava de volta à Meereen para oferecer seus serviços à Daenerys.
Mas o grupo reunido pela Mãe de Dragões é impressionante de qualquer forma. Em adição aos vários almirantes e comandantes militares dela, ela pode contar com sua intérprete e braço direito Missandei; o eunuco mestre dos espiões Lorde Varys; e, é claro, Tyrion Lannister, o homem mais astuto – e procurado – de Westeros. A hora do anão está chegando.

#



segunda-feira, 5 de junho de 2017

VERMES DO SISTEMA

Eu tinha vinte e poucos anos no início da década de 1990 e era muito fã dos Ratos de Porão, clássica banda de punk rock hard core paulistana. Nunca os tinha visto ao vivo, no entanto. Sonhava com isso. Quando soube que iriam tocar ali do lado, em Salvador, imediatamente me pus a postos para a empreitada. Mal sabia o que me esperava ...

O rock “underground” em Salvador não era para os fracos. Eu já tinha ouvido algumas histórias “cabulosas” a respeito, mas não dei importância – ou me considerava “um forte”, como os sertanejos de Euclides da Cunha. Eu iria àquele show, de qualquer jeito. Era questão de honra. Calhou que uma amiga também ia e me ofereceu companhia e estadia grátis, mas foi logo avisando: ela ia ficar com os punks, mais precisamente com os membros de uma “gangue” relativamente famosa na época, a VS – Vermes do sistema. Namorava um deles. A alcunha não soava alvissareira,  mas me enchi de coragem – sou de Itabaiana, porra! – e disse que sim, ia junto.

Fomos recebidos na rodoviária pelo referido consorte e nos deslocamos a um bairro periférico onde a turma iria se encontrar. E que turma! Eram todos chamados por apelidos “fofos”: Decadência,  Minério, Esgoto, Bebedeira e Olho Sêco. Foi nesse dia que eu conheci Morcego, um cara divertido com uma personalidade magnética, vocalista de uma banda chamada “Azucrinação”, que depois se tornaria a lendária “Bosta Rala” – por aí o nobre leitor pode ter uma idéia do “naipe” das criaturas. Mas tudo bem: os caras já me conheciam de um festival que eu havia ajudado Silvio da Karne Krua a organizar no qual a gente fez um acordo camarada para que eles pudessem entrar praticamente de graça – pegamos umas camisetas em troca dos ingressos. Não esqueço de uma cena inusitada, neste festival: a diretora do Teatro Lourival Batista servindo um cafezinho aos punks soteropolitanos – desconfio seriamente que tanta simpatia era mais por medo que por gentileza – quando um deles sentou-se no sofá e cruzou as pernas, mas sua calça estava tão detonada e rasgada que dava para ver seus “documentos”, os colhões “vazando” por um buraco entre os molambos. Tosco demais ...

Eu era o “brother de Aracaju”, portanto. Apesar de ser cabeludo, me consideravam. Chegou a hora do show e lá fomos nós – os punks iam apenas pra ficar na porta e tentar encontrar o Gordo do Ratos para chamá-lo de traidor. Se possível, espancá-lo, também. Ônibus lotadíssimo, um sufoco. Viagem longuíssima, pensei que não chegaria nunca. Estranhei terem todos passados pela catraca sem pagar, mas depois descobri que era o costume, no meio da viagem o cobrador saía circulando naquele aperto desgraçado cobrando de um por um. Mais tosqueira, portanto. Sério,foi uma viagem horrível – tava MUITO apertado, aquele “busu” ...

Finalmente chegamos ao que eu pensava que seria o destino final, mas para minha surpresa nossos companheiros de desventura começaram a se aboletar nas carrocerias de três carros de lixo! Sim, a segunda parte da viagem seria feita de carona com a limpeza pública! Lembro que fiquei paralisado, tentando entender o que estava acontecendo, até que ouvi um deles me alertar para subir logo, se não quisesse ficar pra trás. Fui, né. Fedor desgraçado, mas fazer o que ...

O local do evento era um clube na orla, a Danceteria “Krypton”. Acho que entrei sozinho – não me lembro bem. Minha amiga tinha ido só pelo “role” mesmo, também considerava os ratos traidores do movimento. Como eu não era do tal movimento, tava liberado da patrulha ideológica. Gostei do show, claro, apesar de fazer parte da turnê de um disco, “Anarkophobia”,  que eu não havia gostado tanto quanto o anterior, “Brasil”. Na época eu era um jovem “afoito” e costumava freqüentar as rodas de “pogo” de minha cidade, mas naquela noite descobri que em Salvador a coisa era bem diferente: me arrisquei e fui completamente moído de pancada, triturado e jogado de volta à parede onde havia me abrigado em questão de segundos. Me aquietei e me conformei em ficar só vendo de longe aquele verdadeiro clube da luta.

Saí todo feliz mas me perguntando se teria que dormir na rua. Felizmente meus cicerones  ainda estavam por lá, não haviam me abandonado. Teria, portanto, um teto para me abrigar. Assim esperava. A viagem de volta foi igualmente tosca: os caras foram o caminho inteiro abordando “metaleiros” e tomando suas camisetas na base da pancada, sempre com o cuidado de me acalmar, que eu não me preocupasse, pois eu era brother, de Aracaju. Saltamos do ônibus e foi mencionada a intenção de fazermos um lanche antes de dormir, o que muito me agradou, pois estava morrendo de fome, mas com medo de propor o “pit stop” e ser tachado de playboy. Pra variar, a coisa não era bem como eu esperava: o lanche dos caras eram restos de frutas do lixo de uma feira que havia acabado. Lembro que comi um pedaço de maçã meio apodrecido, mas ainda aproveitável. Nem passou pela minha cabeça recusar, nem fazer cara de “nojinho”. Já a casa onde ficaríamos era um barraco numa favela, quente, apertadíssimo e cheio de muriçocas. Dormi no chão de terra batida, não havia piso. Quer dizer, tentei dormir. Não consegui, tive uma crise de asma.

Voltei para a rodoviária todo sujo de terra, com medo de ser confundido com um mendigo e ter negada minha entrada no ônibus, mas consegui voltar pra casa são e salvo. Foi a primeira de muitas viagens que fiz a Salvador, sempre em busca de rock “doido”, e de onde voltava sempre com histórias toscas para contar. Porque, segundo os Retrofoguetes,  como dizia a Irmã Dulce, “quem tá no rock é pra se fuder”.

NOTA: Texto publicado originalmente no jornal Folha da Praia. Talvez seja o primeiro de uma série de relatos sobre minhas andanças no mundo do rock subterrâneo ...

A

#