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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Fanzines sergipanos

Fanzines são publicações amadoras e artesanais dirigidas, geralmente, a um público especifico: são produzidas por fãs para fãs – de rock, quadrinhos, ficção científica, etc. A palavra, em si, é um neologismo oriundo da união das palavras Fan(atic) e magazine, ou revista de fã(nático). O termo foi cunhado nos Estados Unidos no início do século passado e popularizado, a princípio, entre os fãs de ficção científica, mas tomou um novo impulso no final da década de 1970 com o advento do punk rock e sua filosofia “Do It Yourself”, “Faça você mesmo”. A partir daí se tornou o principal veículo de divulgação da cena do rock independente e “underground” em todo o mundo .

No Brasil os primeiros fanzines de que se tem registro datam da década de 1960 e também circulavam entre fãs de ficção científica. A partir dos anos 1980 começou a se formar uma grande rede de circulação de informações subterrâneas voltada principalmente para os universos do rock e das histórias em quadrinhos, fenômeno que perdurou até a popularização da internet, no final da década seguinte.

Em Aracaju os pioneiro deste tipo de publicação na seara do então nascente rock "alternativo" foram Silvio Campos, Helder "Podre", Luiz Eduardo, Wilton e Tarcisio. O primeiro ao que tudo indica foi o "Submundo", de 1984, que teve duas edições. Era editado por uma galera mais intelectualizada e ligada ao pós punk. Já Silvio, que partiu para uma militancia anarquista mais radical, produzia o “Arakarock” – todo feito a mão, de próprio punho – que chegou anunciando a formação da Karne Krua em 1985, além do nascimento do Heavy Metal sergipano, com a banda "Massacre", do "Alice", mais soturna, da experimental "Fome Africana", de Vicente Coda, e da entrada do hoje lendário baterista Marcos Odara na formação da "Crove Horrorshow ". Esse envolvimento mais próximo de Silvio com o movimento punk fez com que iniciasse em 1986 a publicação do “Buracaju” – já datilografado e sempre muito bem diagramado -, certamente a mais importante publicação do estilo. Era voltado à divulgação de bandas e de ideias anarquistas e teve grande circulação nacional, via correios, sendo o maior responsável pela divulgação da embrionária cena roqueira local.

Circulava também na época o “Seduções ecológicas”, publicado por Ana Iuna, formada em biologia pela UFS; o “Centauro sem cabeça”, do poeta e capoeirista Nagir Macaô; e o “Boca Quente”, de Luiz Eduardo e Roberto Aquino, com participação de Tarcisio e Helder. A primeira edição registra a mudança na formação da banda THE M.E.R.D.A devido à ida de Helder para o Recife, onde viria a ser conhecido como DJ Dolores. Na segunda edição publicaram uma carta de Silvio "Samarony", depois "Suburbano" , do Bugio - sim, ele mesmo. Em 1986 surgiu o "Clube do òdio", mais criativo e provocativo, que também teve apenas duas edições. Já em 1987 Luiz Eduardo partiu para uma "carreira solo", digamos assim, com um fanzine próprio, "O Espectro", de caráter mais literário que musical, mas com uma sessão dedicada aos discos independentes e alternativos que começavam a aparecer na cidade com a primeira loja especializada no gênero, a "Disturbios Sonoros".

Esta movimentação acabou chegando até mim em Itabaiana, onde eu nasci e ainda morava e onde criei meu primeiro fanzine, o “Napalm”, cuja primeira edição data de 1988, sem ter consciência disso. Eu comecei a me interessar por rock a partir do primeiro rock in rio e da leitura da revista Bizz e resolvi fazer minha própria publicação – porque tinha ciúme de emprestar minhas revistas! Como não conhecia o termo, chamava de “apostilha”.

Na década de 1990 meu fanzine passou a se chamar “Escarro Napalm”. Era xerocado e teve seis edições, com periodicidade mais ou menos semestral e tiragem de 100 a 150 exemplares distribuídos pelo correio. O número 2 foi publicado em conjunto com o “Buracaju” de Silvio. O formato era meio oficio, com as páginas dobradas e grampeadas, simulando uma revistinha mesmo. Foi o formato que Silvio também passou a adotar para seu Buracaju. Ele também publicou, na época, um fanzine maior, tamanho A4, chamado Microfonia. Silvio era um exímio diagramador autodidata: gostava de experimentar com texturas de fundo e colagens decorativas, além de usar muito bem os novos recursos que as copiadoras disponibilizavam na época, com edições em cores diferenciadas, como azul ou vermelho – às vezes duas cores numa mesma página, o que encarecia o produto, mas produzia efeitos diferenciados. Ele publicou também o fanzine “Ultralibido”, mais erótico e escrachado, e o informativo “A Bomba”, que consistia de uma única página impressa dos dois lados e dobrada em formato de folder. Este formato, mais barato tanto para copiar quanto para mandar pelo correio, foi adotado por um grupo de punks anarquistas em seu informativo “Humanismo”, que teve circulação expressiva, com numeração alta e periodicidade regular – fato raro.

Outros punks seguiram o exemplo de Silvio e passaram a publicar seus próprios fanzines no início da década de 1990. Os que mais se destacaram foram o “Brigada de resgate”, de Jall Chaves, um baiano de Alagoinhas radicado na cidade, e o “Zoada”, de Cícero “Mago”. “Mago” publicou também o “Muda Expressão”, que não tinha texto, era feito só com colagens de frases e imagens recortadas. Cícero é irmão de Jamson Madureira, notório artista gráfico que colaborava com capas de fitas demo e ilustrações para diversos fanzines – chegou, inclusive, a ilustrar dois livros, do poeta Araripe Coutinho e do depois ministro do Supremo Carlos Ayres de Brito. No final da década de 1990 Madureira costumava aparecer esporadicamente pelas ruas da cidade com mais uma edição das histórias em quadrinho de seu personagem fixo, “Automazzo”. “A Amante do mutante”, a primeira, é antológica, marcou época.

A primeira metade da década de 1990 foi a mais rica para os fanzines em Aracaju. A partir da troca de idéias entre malucos das mais diversas tribos urbanas que freqüentavam as escadarias da Catedral e as lojas “Lókaos” e “BR Records”, especializadas em rock underground, foram surgindo publicaçãoe como “Furúnculo no cérebro” - uma publicação da “Zé Guiaba produções artísticas”, de Teleu; “Entropia indiscreta” e “Acatalepsia”, de Furia; “Sinagoga´s Butterfly” - mais “cabeção”, voltado para a filosofia e a literatura, publicado a seis mãos por Dani Maya, Sérgio “Dedão” e Clarck Bruno; “Mouth Stranger”, de Estranho e Carlos “Mouth” - que focava no Heavy Metal; e o maior e mais célebre de todos, aquele que alcançou visibilidade nacional e é considerado até hoje um dos melhores fanzines já publicados no Brasil: o “Cabrunco”.


O “Cabrunco” era o que se chamava na época de “pro-zine” – mais profissional, com cara de revista. Era editado, principalmente, por Adolfo Sá, que posteriormente se formou em jornalismo pela UFS – seu TCC foi sobre fanzines -, com a ajuda de Rafael Jr., baterista da Snooze, nas sessões dedicadas à musica, e de Marcio “de Dona Litinha” – hoje vocalista da Naurêa – falando de literatura. Foi xerocado até o número 6. O número 7 teve capa colorida e foi impresso na Gráfica Digital. O 8 na Gráfica da UFS. Era bancado, principalmente, por anunciantes, por isso tinha uma tiragem bem maior que o usual. Chegou a chamar a atenção da imprensa nacional, sendo eleito, ao lado do “Papakapika”, do Paraná, um dos dois melhores fanzines do Brasil. Não se prendia a um tema específico, mas dava grande destaque à cena roqueira local, com resenhas de shows, discos e fitas “demo”. Publicou entrevistas antológicas com Mundo livre S/A e Zenilton, que eles encontraram por acaso, de “rolê” na rua – ele morava em Aracaju. Em pleno auge de sua redescoberta via Raimundos, o forrozeiro veterano, rei do duplo sentido, foi emparedado pelos “cabrunquentos” e se saiu com pelo menos uma declaração bombástica – e antológica: “Eu tô achando é bom que esses minino novo me descobriram. Agora quero aproveitar o sucesso, quero mais é morrer emaconhado e com AIDS, comendo essas minina novinha”. Todas as edições do “Cabrunco” estão disponíveis para download em pdf no blog de Adolfo, http://blog.vivalabrasa.com

Surgiu também, nesta época, um fanzine no interior, o “Putrefy”, publicado em Estância por Alberto “Pereba” – que hoje, atente o estimado leitor para as voltas que o mundo dá, é padre! Era escrotíssimo, com sátiras engraçadíssimas, algumas “impublicáveis” em qualquer veículo minimamente respeitador da moral e dos bons costumes. Sua personagem “Jezebel, a puta”, era antológica! Já na primeira década do século XXI aconteceu uma interessante movimentação “fanzinística” em Itabaiana, com títulos como “Xibiu”, “100Palavras”, “Rosebud”, “Vitrola de papel”, “The Cool Megafun Zine”, “Fun Zine” e “Tico Tico no Fullbach”, que iam da poesia – Samara era a musa local desta seara – ao rock de garagem, passando por muita polêmica e fofoca. Foi uma época intensa na cidade serrana, com toda uma movimentação roqueira underground gravitando ao redor dos shows que aconteciam no Bar “Casagrande”, uma espécia de CBGB “ceboleiro”, com bandas como Karranca, Dr. Garage, Urublues e Carburadores.

Com a popularização da internet a circulação de fanzines xerocados pelo correio foi minguando até praticamente desaparecer. No limiar do novo século poucos nomes surgiram por aqui – lembro apenas do “Cartão Postal”, que era publicado por Duardo Costa e Carol. Até Silvio, incansável, parou de “fanzinar” - sua última publicação, "Boogie Hooker", era dedicada ao blues e distribuída nos shows de uma de suas bandas, a Máquina Blues. Mas há resistência: um jovem franzino e entusiasmado chamado Aquino Neto tomou gosto pela coisa através da “fanzinoteca” improvisada que o “velho guerreiro” manteve por algum tempo em sua loja, a “Freedom”, e passou a publicar um novo fanzine chamado “Guerrilha”, todo feito à mão. Recentemente lançou o “Linhas Tortas”, muito melhor elaborado, e segue na atividade com uma distribuidora de publicações alternaticas chamada “Café com veneno”, onde publica, dentre outros, os desenhos do talentoso itabaianense Maicon Rodrigues. Também em Itabaiana temos Adilson Lima, que produz quadrinhos divertidos e ilustrou a capa do novo disco da banda de Thrash metal sergipana Berzerkers. 

É importante dizer, no entanto, que a movimentação "fanzineira" diminuiu mas não acabou de vez: "vira e mexe" me deparo, na Freedom, com alguns fanzine novos produzidos no velho esquema, xerocados, como “O Velho punk”, do veterano Robério “Nininho”, "Páginas Sujas", de Alécio, e "Kaos Universal", do casal Kelly(que também é de Itabaana) e Renan - moram em São Cristóvão, cidade histórica que faz parte da região metropolitana de Aracaju. Em shows de rock eles também costumam dar as caras, eventualmente - alguns muito caprichadinhos, como o "Ouija", de Marcio Tiago, outros rápidos, rasteiros e panfletários, geralmente pequenas publicações punks e feministas.

Recentemente estive numa feira de publicações alternativas no Museu da Imagem e do som de São Paulo, a “Feira Plana”. Nem sabia que existia, mas existe, e é impressionante: muita gente! Cheguei atrasado para uma palestra sobre a série “Zine é compromisso”, da revista Vice, que havia me entrevistado. Ao me ver por lá, o camarada Marcio Sno – maior pesquisador e divulgador do universo “fanzinistico” no Brasil – passou a me apresentar aos amigos como “uma lenda viva, o cara que foi mencionado no auditório, que fazia fanzine sem saber o que era fanzine no interior de Sergipe na década de 1980”.

O mundo, realmente, dá voltas.

Da revista "Cumbuca"

A.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Mestre Perguntador morre desencantado com o jornalismo

por Luiz Cláudio Cunha, jornalista, autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. L&PM, 2008). Do Blog do Juca Kfouri

O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago.

Com você sabe quem.
Perdemos o Geneton.

Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complicações de um aneurisma na aorta sofrido três meses antes. Na autoapresentação de seu blog, criado em 2004, ele já avisava: “Nasci numa sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul: Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei”.

Bela mentira. Em quatro décadas de jornalismo, o Geneton do beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos nós, um exemplo de sucesso e uma referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.

Ele começou como repórter em sua terra, no Diário de Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo¸ nos duros anos do Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou como camareiro do Hotel Mônaco e motorista de uma família rica enquanto estudava Cinema na Sorbonne.

Voltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo Globo a partir de 1985. Ali, o repórter que se dizia fracassado foi chefe e mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente em Londres da GloboNews e do jornal O Globo, repórter e editor-chefe do Fantástico.

Nenhuma mesa poderosa da burocracia da redação, porém, deslumbrou o ex-fracassado do beco: “Não troco por nada o exercício da reportagem — a única função realmente importante no jornalismo”, definia Geneton no seu blog. E foi na função seminal de repórter, não como executivo de redação, que Geneton imprimiu sua marca indelével na imprensa brasileira. As provas estão guardadas para sempre no seu blog, geneton.com.br, que devia ser tombado como patrimônio cultural e leitura obrigatória para estudantes, repórteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a inteligência e o conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu ofício de repórter exemplar e humilde diante da notícia e de gente que, como ele, fez História. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e cineastas, atletas e poetas, astronautas e políticos, cantores e compositores, jornalistas e repórteres, grandes repórteres como ele, passaram pelo crivo de sua inteligência e argúcia.

Os bastardos

As duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o promotor britânico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar Hitler, os três astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas montanhas de Bora-Bora, o professor do líder dos terroristas do 11 de Setembro, o homem que encarou o ‘Setembro Negro’ nas Olimpíadas de Munique, o filho do carrasco nazista de Auschwitz que ataca o próprio pai, o guerrilheiro brasileiro que recrutou a mãe para a luta armada, o repórter de Watergate que derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da derrota na final da Copa de 1950 num Maracanã estufado com 10% da população do Rio de Janeiro na época, mais de 200 mil torcedores.

Todos fazem parte deste universo mágico que Geneton esquadrinhou e trouxe para perto de nós, para nos recontar, com detalhes inéditos, a saga da espécie humana, nos seus bons e maus momentos. “Que se faça a louvação da reportagem. O papel de todo repórter é produzir informação a curto prazo. E memória, a longo prazo – de preferência, nas páginas de um livro, hoje transformado em espaço nobre a reportagem no Brasil”, escreveu Geneton na orelha do penúltimo de seus onze livros, Dossiê História (2007).

Ali, Geneton se define modestamente como um “pequeno tarefeiro da memória porque, em última instância, a memória é a grande matéria-prima do jornalismo”. Nessa tarefa, ele seguia com devoção o mandamento de um velho jornalista do inglês The Times, que ensinava:

Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta:

‘Por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?’

O blog de Geneton se define como ‘jornal de um repórter’ e tem até uma padroeira, uma tal de ‘Nossa Senhora do Perpétuo Espanto’. Ele explicava:

Para que possam contribuir com esse ‘mundo real’, os jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser ‘levantadores’, não ‘derrubadores’ de matéria.

É aí que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do Perpétuo Espanto. Quando criou esta ‘entidade’, Kurt Vonnegut [1922-2007, escritor, EUA] não estava se referindo ao jornalismo, mas essa ‘santa’ deveria ser proclamada padroeira plenipotenciária da nossa profissão.

O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas florestas interiores, aquela chama, aquela faísca, aquele espanto que se vê no brilho dos olhos de um estagiário – ou de uma criança.

Quando você se guia pelo entusiasmo das pessoas que estão fora da redação, o resultado do trabalho é melhor do que se você se guiasse pelo tédio dos que estão dentro.

Geneton ensinava que o mundo real é mais interessante do que o mundo dos jornalistas: “Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. Não estou falando de algo abstrato, mas de uma situação real, palpável, comprovável no dia a dia dos jornais. Cansei de ver em redações um clima de tédio total entre os jornalistas. Se você atravessar a rua, for à padaria e comentar que entrevistou uma velhinha que foi passageira do Titanic, provavelmente os ‘ouvintes’ farão perguntas e se interessarão pelo assunto, enquanto muitos jornalistas dirão, com os olhos semicerrados de tédio: ‘Ah, mas já faz 100 anos que o Titanic afundou…’.”

Esse diagnóstico levou Geneton à descoberta de uma terrível doença que ataca as principais redações brasileiras: a SFG, a ‘Síndrome da Frigidez Editorial’, que ele batizou e, com ar divertido, ameaçava registrar na Organização Mundial da Saúde. Definição da síndrome, segundo Geneton: “É a doença do jornalista que, depois de anos de profissão, perde a capacidade de se espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de profissão”.

E jornalista que não se espanta, é claro, nem pergunta mais.

O crédito do general

Perguntar é o que Geneton sabia fazer como ninguém na imprensa brasileira. Como já se disse, “o jornalismo é a atividade humana que depende essencialmente da pergunta, não da resposta. O bom jornalismo se faz e se constrói com boas perguntas”.

Inimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro blusão de gola rolê que fazia contraste com o branco da barba branca e dos cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabeça, Geneton não se intimidava diante das luzes e câmeras da GloboNews, muito menos diante de seus entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele não descuidava nunca do conteúdo, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em letras grandes, em folhas de papel almaço que brandia e consultava sem constrangimentos em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que preservou até o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas — rápidas, incisivas, cirúrgicas —, repelindo as mentiras com outras perguntas que conduziam à verdade.

Quando o notório Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador, Geneton disparou:

— O sr. nega então que este Paulo Maluf, aqui, seja o senhor?

— Nego.

— Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?

— Nego.

— Então, existe outro Paulo Maluf?

O Maluf à sua frente ficou em silêncio.

Como todo bom repórter, Geneton era teimoso. Tentou uma, duas, três vezes, até convencer o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015), ministro do Exército do Governo Sarney, a lhe dar uma histórica entrevista em 2010. Nos créditos da telinha, supreendentemente, o general não aparece identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe da repressão da finada ditadura, a quem Leônidas serviu com espartana e rígida fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general é creditado apenas como ‘chefe do DOI-CODI, 1974-1977′.

O general falou com uma fluência inédita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a arrogância. Ironizou as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura”) e duvidou até do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”.

Leônidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do Estado-Maior durante quase três anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. ‘Não houve tortura na minha área’, garantiu Leônidas.

Devia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I Exército, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e março de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo. Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da afamada rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Exército, comandado pelo notório major Adyr Fiúza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, fantasiava o general Leônidas, e a paz dos anjos se instalou.

Sem arrogância, Geneton enfrentou o general Leônidas com perguntas precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a história e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repressão política que se orgulhava de seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edição do programa na TV, Leônidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:

— Que minhas ideias não sejam suprimidas na edição. Se houver um corte, você me deixa mal — avisou o general, esquecido de que o regime de força que ele defendeu se esmerava em cortes sistemáticos pela censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras. Geneton não cortou, e ainda assim o general Leônidas ficou muito mal pelas ideias que exprimiu, livremente.

Sempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a exótica versão do general de que líderes do regime deposto – como Arraes, Brizola, Jango, Prestes – saíram do Brasil, a partir de 1964, ‘porque quiseram’. Leônidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterrâneo de Geneton, pregando:

– Ele [Arraes] podia ter ficado em casa…

– Deposto – emendou Geneton.

– E qual é o problema? – admirou-se o general.

– Todo – encerrou Geneton, com a sintética sabedoria que o general, já nos seus 90 anos, ainda não apreendera. – Não havia condições de exercer a política no Brasil, naquela época, general.

O ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arbítrio e violência, dizendo que o país não teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas ‘fugitivos’.

– Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justiça – pregou Leônidas.

– General, num regime de exceção, a justiça não é confiável – replicou o repórter, com a altivez e a dignidade devidas.

Eu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Leônidas num texto — A arte de perguntar —, publicado pelo site Observatório da Imprensa em 7 de abril de 2010, quatro dias após a exibição do programa pela GloboNews, num sábado.

Geneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo carinhoso título de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto com o bom humor de sempre:

Olá. Com um cabo eleitoral como você aí, considero-me eleito para o Comitê

Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil. Obrigado!

No dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma mensagem do diretor da GloboNews, César Seabra, que redistribuiu pelo correio interno o meu texto do Observatório a toda a equipe da TV, com a seguinte determinação:



Caros,

o texto do link abaixo faz elogios merecidíssimos ao nosso Geneton.

Mas também nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir uma entrevista.

É leitura obrigatória para todos – apresentadores, repórteres, editores, produtores, chefes… Aproveitem. Beijo e bom dia,

César



Bolt da garotada

O incansável Geneton não desistiu do general, que ficou satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas, como cabe numa democracia. “Devo ter recebido uns 400 telefonemas…”, disse o eufórico Leônidas a Geneton, num encontro casual num final de manhã de junho de 2014 num shopping do Leblon. Em março de 2015 Geneton pensava num lance mais ousado. Colocar o general da repressão no estúdio diante de um guerrilheiro da luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. “Vou dizer uma coisa que você não sabe: o Cid foi prisioneiro meu”. O encontro épico sonhado por Geneton nunca aconteceu: Leônidas morreu três meses depois, aos 94 anos, exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.

Geneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta é a missão central do repórter: “Não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público”, repetia ele ao público, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universitário promovido pela Famecos (Comunicação Social) da PUC de Porto Alegre. É o mais longevo (29 anos em 2016) evento de comunicação do sul do país, atraindo gente da Argentina, Uruguai e outros países. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.

Mesmo diante da crise econômica que vive a indústria da comunicação e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princípios. Fidelidade absoluta à reportagem e ao seu ídolo maior, Joel Silveira (1918-2007), “o maior repórter brasileiro”, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia, até a sua morte, com a reverência de um fã.

Joel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Diários Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:

— O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor, senhor Silveira: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!

Joel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de Chateaubriand, morreu um pouco.

— Fui para a Itália com 27 anos, passei dez meses e voltei com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos — confessou o ídolo Joel ao fã Geneton, que a partir desses 20 anos de convivência e confidências, juntando fitas K7 e imagens amadoras, acabaria produzindo um documentário fundamental de 90 minutos sobre o maior repórter brasileiro: Garrafas ao mar — A víbora manda lembranças, exibido pela GloboNews em 2013.

Geneton se divertia contando as relações de seu ídolo com os magnatas da mídia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de ‘víbora’. De Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, onde Joel publicou suas últimas reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu repórter a Jerusalém e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradição judaica, numa das frestas do Muro das Lamentações, acompanhado de um pedido. Joel cumpriu a pauta do patrão, que lhe perguntou na volta:

— E aí, Joel, fez o pedido?

— Fiz, Adolpho. Pedi para você me dar um aumento de salário…

O porta-estandarte

Um dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira — “Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda” — reproduz bem a visão que seu fã pernambucano tinha de boa parte da mídia atual, em que o jornalismo cede espaço ao partidarismo, a razão é acuada pela paixão, a isenção é atropelada pela facção. Geneton também deplorava o engajamento até de jornalistas experientes em uma ou em outra banda partidária, no calor de uma luta político-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e mútuo xingamento, tão estridente que nem dava para ouvir a banda passar.

Geneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar nessas bandas, definia:

— Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulha ideológica.

Geneton via em Joel o seu ideal cada vez mais romântico do repórter que sobreviveu à ‘ditadura da objetividade’, imposta para combater pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu à maldição dos tempos atuais, com textos áridos, chatos, anêmicos, soporíferos, iguais. “Lástima, lástima, lástima”, lamentava Geneton.

Geneton sonhava com alguém pichando os muros da cidade, proclamando: “Chega de objetividade! As notícias eu já vi na internet e na TV! Quero vivacidade, imaginação, arrebatamento, ousadia!”. No seu devaneio, Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de jornalismo, segundo ele exilado para a Sibéria.

— A luta por um jornalismo mais vívido, mais atraente, mais iluminado faz parte da luta por um Brasil menos medíocre. Por que não? — perguntava-se Geneton, mais uma vez.

Para sustentar sua teoria, ele usava a prática inigualável de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Colômbia de 1948 que se seguiu ao assassinato de um candidato liberal da oposição, Jorge Gaitán, abatido na rua com três tiros. Os protestos, desordens e a repressão desatada em Bogotá, num único dia, deixaram um saldo de 500 mortos só na capital. Trecho do texto de Joel:

Estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de repórter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela explosão popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos tão mortos. Somente aquele menino – não mais de oito anos – morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os olhos vazios fixavam o céu de chumbo. As mãos de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de um pequeno barco. Um funcionário qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.

Geneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:

— Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: ‘Onde escondeste o verde clarão dos dias?’. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clarão?

Geneton, sempre amigo e solidário, acompanhou solitário o final de vida dos últimos 20 anos da víbora da reportagem. Ninguém mais frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembranças, história e Joel Silveira.

— Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! — suspirava o velho repórter, que já não saía de casa e já não tinha amigos. Só Geneton. Joel desprezou o tratamento de um câncer na próstata para morrer em casa em 2007, na amarga mansidão de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu último amigo.

Um dissidente

O fim melancólico de Joel Silveira, que Geneton definia como precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay Talese e Truman Capote, explica um pouco a visão cada vez mais pessimista que Geneton tinha do próprio jornalismo na atualidade.

Geneton criava, produzia, executava, editava e apresentava suas próprias reportagens na GloboNews, com a doída convicção de que, como Joel, ele se tornava uma avis rara do jornalismo, um exemplar de dinossauro condenado à extinção imposta pelo cometa brilhante da inevitável modernidade tecnológica. Geneton parecia, agora, uma víbora que já não confiava nem na peçonha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.

Aqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua melancolia, fazia vazar sua desilusão.

Na véspera do réveillon de 2010, ele publicou em seu blog uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um ‘Teste para Seleção de Jornalistas’. Era uma azeda reflexão sobre o jornalismo:

Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos a vagas nas redações.

O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três minutos, diante de um fiscal da empresa.

Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão jornalística.

Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado.

Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo.

Cinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa definição de Winston Churchill para a União Soviética de Stálin (“É uma charada envolvida num mistério dentro de um enigma”), Geneton voltou a filosofar com amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o título ‘Entrevista de Emprego’, que seria cômica, se não fosse trágica:

Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com toda sinceridade:

‘Depois de décadas na estrada, tenho a nítida, nitidíssima sensação de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi um equívoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora é tarde para voltar atrás. Bola pra frente, então! Faz de conta que é a melhor profissão do mundo!

E é – para os que se descobrem tecnicamente incapazes de fazer alguma coisa que seja de fato útil ao avanço da humanidade!”.

Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os candidatos.

Eu ouviria o aviso de dispensa sumária, me levantaria, cumprimentaria o dispensador e diria: ‘Parabéns! Você nunca tomou uma decisão tão acertada!’.

Cinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em que me agradecia pela louvação à sua ‘arte de perguntar’, o e-mail privado de Geneton traía sua desilusão já na linha seguinte, com uma inesperada autodefinição em tom de confissão:

Pode parecer pretensão, mas acho que realmente o jornalismo se mediocrizou.

O exibicionismo toma o lugar da substância, especialmente na TV.

Modestamente, considero-me um dissidente.

O dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker, nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto diáfano de desencanto, deixando no ar uma última pergunta, que cabe a todos nós responder:

— Por quê?

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sábado, 12 de março de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

Patricia Piccinini "Com Ciência"
O melhor filme do ano passado foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas o favorito para levar o oscar era “O Regresso”. Ganhou “Spotlight”, que joga luz sobre os casos de pedofilia envolvendo padres católicos. Menos mal: nem um, nem outro. Fez-se a justiça de Salomão. /////////////// Em todo caso, Mad Max sagrou-se como o grande vencedor em números absolutos, com a conquista de seis estatuetas, em sua maioria nos quesitos técnicos, como som e montagem. Justíssimo! Só acho que deveria ter levado também, pelo menos, o prêmio de direção: George Miller, aos 71 anos, deu uma verdadeira aula. Seu filme é cinema de ação como há muito tempo não se via – nunca mais tinha tido aquela curiosa sensação de satisfação e desconforto por perceber que a projeção estava chegando ao fim. Queria mais! Tomara que tenha continuação.

Fury road
“O Regresso” mereceu muito o prêmio pela fotografia, realmente primorosa. E só. O filme é bom, tem um bom ritmo, mas convenhamos: é “clicheroso” e, em termos de roteiro, praticamente se resume a mostrar DiCaprio correndo, arfando, sendo atacado e fugindo por duas horas e cacetada. Se bem que o ataque do urso é realmente um espetáculo, daquelas cenas que ficarão marcadas nas retinas dos olhos de quem viu no cinema, em tela grande - como deve ser – para sempre. /////////// O que não quer dizer que eu ache que a academia tenha sido injusta ao dar o oscar de melhor atuação para Leo, só acho que demorou. Ele devia ter recebido por “O Lobo de Wall Street”. /////// Foi muito bom também ver a belíssima animação brasileira “O Menino e o mundo” no páreo. Uma grande vitória. Ganhar, mesmo, era uma missão praticamente impossível, já que “Divertida Mente” é uma obra-prima. Mais uma, da Pixar. Que andava patinando. Tomara que tenha voltado aos trilhos.

O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...

Renegades of punk "na brasa", por David Doria
Ainda há público para shows de rock em Aracaju? Fecharam dois espaços que abriam para o estilo, a Caverna e a Casa Rua da Cultura. Sábado passado apenas alguns gatos pingados foram ao Rancho da Aruana ver a segunda festa Viva La Brasa, enquanto um samba no CHE tava lotado, com tanta gente que a rua em frente ficou praticamente interditada. Nada contra o samba, evidentemente. Só acho uma pena que uma banda como a Necro tenha tido tão pouco público nas duas últimas vezes que vieram tocar por aqui. Em todo caso, o rock segue em frente, porque é teimoso: ontem, dia 11/03/2016, rolou o lançamento do novo disco da excelente Penny Mocks. Próxima sexta tem Punk rock e Hard Core na pista de skate Cara de Sapo, com os paulistas da Mar Morto, os pernambucanos da Johnny 13 e os sergipanos Ideal e The Renegades of punk. Amanhã, dia 13, tem o SOS UNDERGROUND 2 no Conj. Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, com Rasga Mortalha, Mophinum, Anhan e outra que não consegui ler o nome no cartaz. Já dia 20/03, em São Cristóvão – terra da The Baggios, que acabou de tocar no Lollapalooza, em sp – rola Executor, Casca Grossa, Suicídio Coletivo, Pôdi pa caraio, Toxofobia e Enterrados de Forma Banal. Por fim, dia 16/04 tem UNDEGROUND ATTACK no parque dos cajueiros, com Cruz da Donzela, Executor, Serial, Eyeless e Mentes suicidas.

Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.

Shine on, you crazy diamond
A passagem dos anos de 2015 para 2016 vai ficar na história do rock and roll - de forma negativa, infelizmente. O baixo astral por aqui, nas terras do Cacique, começou com a notícia do falecimento de Levi Marques, que desistiu da vida no fim do ano passado e deixou sem chão uma legião de amigos. Era um jovem talentoso, cantor e compositor, “performer” de primeira. E, acima de tudo, um cara “do bem”. Faz muita falta e nunca será esquecido. O mal-estar prossegue com a passagem “desta para melhor” (???!!!) de Flavio Basso, o eterno Júpiter Maçã, astro do rock underground tupiniquim que fez história em carreira solo e com a seminal banda gaúcha Os Cascavelletes e parecia ter chegado ao auge com o falecimento de Lemmy, do Motorhed, quando nos chega a notícia, nos primeiros dias do mês de janeiro do ano corrente, de que David Bowie não era, afinal, um ser imortal! Pelo menos não no plano físico, biológico. Já era difícil imaginar um mundo sem Lemmy. Sem David Bowie, é tarefa quase impossível. Seguimos vivendo, claro, mas não é mais a mesma coisa. Não mesmo.

Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.

* publicado originalmente no jornal Folha da Praia

A.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Adolfo Sá, uma entrevista ...

Fanzines - de Fan(atic) + magazine(revista, em inglês) – são publicações amadoras, geralmente produzidas de forma artesanal e sem fins lucrativos, por (e para) fãs de determinado segmento cultural. Circulam, principalmente, entres os aficcionados por ficção cientìfica, Histórias em quadrinhos e pelo mundo do rock “underground”. A cultura punk, que explodiu na Inglaterra no final da década de 1970, foi a principal responsável por sua disseminação mundo afora, através do lema “Do It yourself”, ou “faça você mesmo”.

Havia uma cena forte de fanzines em Aracaju entre as décadas de 80 e 90 do século passado. Do “Centauro sem cabeça” e “Seduções ecológicas”, que circulavam nos meios universitários, ao “Clube do ódio” e “Buracaju”, nascidos nos porões “roqueiros” da cidade. A eles se juntaram, posteriormente, nomes como “Escarro Napalm” (deste que vos escreve) e o “Cabrunco”, editado por Rafael Jr., baterista da banda Snooze, e por Adolfo Sá – na época, um ilustre desconhecido ...

O “Cabrunco” chegou “chegando”, com uma proposta mais profissional e bem acabada, com editoração eletrônica e com cara de revista, e acabou se destacando não somente no cenário local, como por todo o país. Repercutiu, inclusive, na grande mídia, o que fez com que Adolfo passasse a circular pelos principais circuitos de festivais independentes Brasil afora, sempre emprestando sua verve ao mesmo tempo “bruta” – porque brutalmente sincera e direta – e inteligente à narração do que via acontecer por aí – e por aqui.

Marcou época, mas um dia acabou, porque nada, afinal, dura para sempre. Adolfo, no entanto, manteve o espírito e migrou para internet, onde criou um blog, o Viva La Brasa, que segue mais ou menos a mesma linha: jornalismo “gonzo”, 100% independente, sem o rabo preso e feito direto das ruas, com enfoque no cenário cultural “alternativo” mas se aventurando por temas dos mais variados – do surf, uma de suas paixões, à política, sua principal aflição.

Agora um apanhado de toda essa produção está disponível num formato mais nobre, para ser lido e guardado com todo o carinho nas estantes dos mais “antenados”: acabou de sair “Viva La Brasa”, o livro! Uma produção, como não poderia deixar de ser, totalmente independente, bancada pelo autor na cara e na coragem. Um verdadeiro marco no cenário editorial local, pois serve como registro impresso, para as atuais e futuras gerações – mesmo que no futuro não exista mais energia elétrica! – do trabalho desenvolvido não apenas por Adolfo, mas por todo um grupo de pessoas que atuam informalmente, como ele, longe dos holofotes e dos esquemas viciados da grande mídia comercial e dos apadrinhamentos políticos que engessam nossa produção cultural.

CHEGOU!
O livro foi lançado com grande sucesso numa festa concorridíssima na Caverna do Jimmy Lennon, no centro da cidade, com direito a exposição de ilustrações de Thiago Neumman, apresentações de “pole dance” e de alguns dos nomes mais importantes do cenário musical local: Plástico Lunar, Mamutes, Ferdinando Blues Trio, Karne Krua e The Renegades of punk. A correria foi grande, eu sei, mas resolvemos não dar descanso ao “Homem Brasa” e o intimamos para uma entrevista. O resultado segue abaixo – ainda incandescente ...

# De onde você veio, Adolfo? Conte-nos um pouco de sua infância, do que você lembra de mais marcante e pode ter te influenciado ...

ADOLFO SÁ: Nasci em Salvador em 1975 e morei lá até 88. Minha infância foi normal, fui campeão mirim de judô mas larguei quando quebrei o braço e comecei a pegar onda. Eu e meus amigos costumávamos pular o muro da escola pra curtir o dia lá fora. A rua sempre foi mais atraente do que a academia. Em 86 comecei a surfar e no ano seguinte entrei de cabeça no rock, ouvindo discos e fitas do Camisa de Vênus e Titãs. O álbum "Cabeça Dinossauro" me fisgou, e o Camisa era uma lenda por lá. As revistas Geraldão e Chiclete com Banana também fazem parte da formação nessa época.

# Qual era sua relação com Aracaju? E como você começou a desenvolver essa vocação para o jornalismo? Foi um processo perceptível, em sua cabeça, ou simplesmente “aconteceu”?

ADOLFO SÁ: Desde criança passava as férias de verão em Aracaju, na casa dos meus tios no conjunto Dom Pedro I. Eu e meus primos fazíamos o que todo moleque faz: jogar bola de gude e empinar pipa. Nunca gostei de futebol, nunca gostei de correr nem de ficar debaixo do sol. Em 89 meu pai tava falido e mudou pra cá tentando melhorar a vida; foi o começo de um inferno pessoal pra minha família, porque o coroa despirocou e dá trabalho até hoje. Entrei no Colégio de Aplicação aos 14 e tive que me virar sozinho desde então, até os livros pra estudar eu tinha que arrumar por conta própria. Eu competia em eventos de surf, mas dos 15 aos 17 passei por 3 cirurgias no joelho, o que me fez abandonar a ilusão de ser surfista profissional (risos). Mas eu perdia mais do que ganhava, nunca fui competitivo, nunca quis ser melhor do que ninguém. Na escola, me juntei aos piores alunos porque eram os caras mais espertos e divertidos, mesmo assim volta e meia tirava 10 em redação. No vestibular, sabia que não teria a opção de fazer faculdade particular e não via nenhuma profissão que me empolgasse. Pensei em fazer pra Artes, mas na UFS só rolava de se formar professor e eu nunca quis dar aula. Não gosto de falar muito.

# Seu envolvimento com os fanzines e com o meio alternativo, em geral – como você travou contato, primordialmente? O que o levou a começar um fanzine? Você já pensava, na época, em se profissionalizar, virar um jornalista “de fato”, formado, com diploma? Aliás, você vive de jornalismo?

ADOLFO SÁ: Não vivo de jornalismo. Escolhi o curso mais por falta de opção do que por qualquer outra coisa. Trabalho há 12 anos com audiovisual, editando e dirigindo. É daí que tiro o meu sustento. Comecei fazendo zines por puro instinto, nem sabia o que era isso direito, mas comecei a ser publicado num jornalzinho chamado Zona Sul, não gostava do layout nem do perfil da parada e decidi começar a fazer meu próprio jornalzinho. Atitude sempre tive, o que falta às vezes é grana e incentivo.

# O “Cabrunco”, seu primeiro fanzine, era um projeto pessoal ou coletivo? Lembro que ele foi um dos primeiros, senão O primeiro, na cidade, a usar a editoração eletrônica na confecção – antes era tudo sempre na base da colagem, do improviso autodidata, mesmo. Havia custos com isso, e com a impressão? Em caso afirmativo, havia retorno do investimento financeiro?

ADOLFO SÁ: Meus projetos sempre foram coletivos, nunca tive a arrogância de fazer algo sozinho, apesar de sempre ter corrido atrás dos meus objetivos por conta própria. Rafael Jr., que fazia o zine junto comigo, já era meu amigo das gigs e do surf. Chamei ele, sugeri o nome "Cabrunco" e o resto é história. Sempre tirei grana do bolso pra tocar meus projetos, nunca esperei pelo sistema e jamais tive retorno financeiro. Pelo menos vou morrer realizado sabendo que fiz tudo na medida do impossível.

# Qual era a tiragem, em média, do Cabrunco, e onde e de que forma ele era distribuído? Como se deu o diálogo e a inserção de vocês dentro da cena, que já existia, com bandas e fanzines pioneiros como o Buracaju e a Karne Krua, na ativa desde a década de 80? Foram bem recebidos, de cara, ou houve uma certa desconfiança inicial?

ADOLFO SÁ: A tiragem foi aumentando ao longo do tempo, o zine era distribuído pelo correio. Nos últimos números já rolavam 1000 cópias por edição, sempre independente. Como eu era um moleque, muita gente não botava fé, você mesmo foi um dos mais duros críticos no início e me fez evoluir por causa disso. A real é que a gente tinha a vontade de fazer, mas ainda tava se desenvolvendo e descobrindo o mundo. Sem tantas referências nem facilidades como hoje em dia, onde a internet entrega tudo de mão beijada pra molecada.

# O jornalismo é, pelo menos quando exercido de forma independente, sem o rabo preso com nada, realmente uma atividade de risco? Você já sentiu isso na pele? Já sofreu represálias por conta do escreveu? Lembro de pelo menos um caso de embate físico entre você e um membro de uma banda que não havia gostado de uma critica negativa publicada no fanzine ...

ADOLFO SÁ: Total. Já tive que sair na mão com um otário. As pessoas não gostam de quem fala a verdade, e o esquema em Aracaju é um lamber o rabo do outro. Mas sempre fui verdadeiro comigo mesmo, foda-se o que os outros vão pensar.


# O “Cabrunco” acabou se tornando um marco na cena local, com substancial projeção nacional. Quais foram os momentos mais marcantes, pra você, na trajetória do fanzine? E o que isto te proporcionou, em termos pessoais, sentimentais ou mesmo financeiros?

ADOLFO SÁ: Pra começar, o CABRUNCO tinha um nome que até então era um palavrão no dialeto local, ninguém jamais havia usado pra batizar nada. Por causa dele, conheci o Brasil indo pra festivais, morei durante semanas ou meses em outras cidades, o que não seria possível pra um jovem pobre como eu numa outra circunstância. Fiz amigos pra vida toda, um deles é você. E também arrumei umas namoradas em outros estados, essa foi a melhor parte. Fácil.

# Porque o Cabrunco acabou?

ADOLFO SÁ: Porque, quando você tá fazendo algo, o que não falta é gente pra te criticar, policiar e botar pra baixo. Depois que passa, todo mundo fica falando "ah, como era legal", "saudade" etc.

# Finado o “Cabrunco” você deu uma sumida, o que aconteceu neste hiato em que você, pelo menos aparentemente, ficou de fora da atividade “jornalística”?

ADOLFO SÁ: Eu nunca sumi, quem sumiu foram os amigos. A velha fuleiragem de Aracaju, gente interesseira etc. No mesmo ano que acabei com o Cabrunco, formei uma produtora com uns chapas, a Marginal, que promovia festas no Cultart e fez o 1º festival nacional de rock do estado, o Rock-SE. Trouxemos um monte de bandas do país todo, incluindo os standards Marcelo D2 e O Rappa, mas tivemos um prejuízo monstro e eu saí com uma mão na frente e outra atrás. Mais uma vez, nenhum amigo ofereceu ajuda na hora difícil e eu tive que me virar sozinho pra sobreviver. Entre um bico fodido e outro, me formei em jornalismo. Apesar da minha experiência com autopublicação e colaboração em revistas como Rock Press e Música Brasileira, nenhum jornal local me ofereceu emprego, sequer um estágio. Filhos da puta.

# Como se deu a “retomada”, se é que podemos chamar assim? Via blog? Porque essa opção?

ADOLFO SÁ: Em 2003, arrumei estágio numa produtora e em 2 meses me tornei editor de vídeo. No início de 2004 rolou um passaralho, geral foi demitida, e com a grana do seguro-desemprego me joguei pro Rio de Janeiro, onde morei na casa de Allan Sieber e aprendi um monte de coisa na Toscographics. Quando retornei a Aracaju, tava na pilha de voltar a produzir minhas coisas e criei o blog VIVA LA BRASA, utilizando a tecnologia mais barata disponível. Aí as pessoas começaram a lembrar que eu existo.

# E o blog, o que te proporcionou, em termos de satisfação pessoal, especificamente? Trace um paralelo das diferenças entre as duas épocas que você viveu, a dos fanzines, nos anos 1990, e a virtual/digital, no século XXI.

ADOLFO SÁ: As respostas estão no livro, é só folhear e ler pra entender.

# O blog parou para que você pudesse se dedicar à confecção do livro? Vai voltar?

ADOLFO SÁ: O blog já está de volta, parei porque dirigi a TV pública de Sergipe durante 2 anos e não tinha tempo pra porra nenhuma. Meu ex-patrão era um vampiro, que se foda aquele maldito. Dei um tempo nas postagens, selecionei as melhores e reuni uma equipe pra fazer o livro.

# Como foi e quanto tempo durou o processo de concepção do livro? Ficou satisfeito com o resultado final?

ADOLFO SÁ: Dois anos de muito trabalho e dor de cabeça, com um editor preguiçoso que eu mandei SE FUDER. Não fiquei 100% satisfeito porque tive que acumular funções que seriam de outros, como a revisão por exemplo, e há vários pequenos erros que poderiam ter sido evitados.

# Quais suas expectativas quanto à recepção do mesmo, agora que está nas ruas? Há alguma estratégia de distribuição?

ADOLFO SÁ: Expectativa nenhuma. Vendi 25 cópias na pré-venda e 10 na noite de lançamento - que por sinal foi um sucesso de público, com altas bandas e até pole dance. A maior parte dos exemplares vendidos até agora foram pra fora do estado, pra variar né. Só de custo de impressão foram R$ 8 mil, mais R$ 5 mil com a equipe. Jamais recuperarei essa grana. Como disse um amigo, "a galera aqui é miserável".

# Valeu/vale a pena?

ADOLFO SÁ: Vale a pena, sempre. O que importa é a satisfação pessoal. Fodam-se os cuzões.

publicado originalmente no jornal FOLHA DA PRAIA

por Adelvan “Kenobi”

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sábado, 24 de janeiro de 2015

Tirem as crianças da sala ...

Adofo Sá - Jornalismo é vocação. Uma vocação de merda, por sinal, que não dá grana e ainda pode levar a uma decapitação pelas mãos de um Estado Islâmico da vida. Veja o caso recente do Charlie Hebdo e contextualize a profissão em Sergipe e o Nordeste, onde ainda reina o coronelismo e os meios de comunicação pertencem a duas ou três famílias. Mesmo que eu tivesse juntado todo dinheiro que ganhei publicando matérias ao longo de 20 anos, não daria nem pra pagar a impressão do livro.

JD - Você pegou a contramão da história, concorda comigo? Justamente quando meio mundo se apressa em decretar o fim dos suportes analógicos e a morte do impresso, em plena era do streaming, o cara me aparece com um livro "de carne e osso". Ainda dá pra botar fé nessa entidade misteriosa, o leitor?

Adofo Sá - Não tenho um pingo de fé na humanidade, e boto menos fé ainda no leitor. Mas discordo, em termos.  Hoje em dia se publicam mais livros do que nunca, a tecnologia barateou os custos de produção e até fanzines são feitos em gráfica. A internet quebrou as pernas dos grandes mercados culturais estabelecidos em alicerces corporativos, mas acabou ajudando muito a produção independente ao facilitar o acesso à informação e à divulgação do trabalho. Comecei com o blog como uma alternativa barata à autopublicação, processo que eu abracei nos anos 90 com os zines. Ao longo dos anos 2000, blogs perderam espaço pra redes sociais e a informação imediata se sobrepôs ao texto, à pesquisa e até mesmo à credibilidade - a notícia que você lê no Facebook muitas vezes não é verdadeira. Mas o incômodo só existe pros jornais, revistas e TVs, da mesma forma que as gravadoras se foderam com o livre compartilhamento de MP3. No underground a coisa vai muito bem, obrigado.

120 Dias de Sodoma, quinze anos depois ...
O leitor sempre existirá. Mesmo que role uma guerra atômica e não haja mais fornecimento de água, eletricidade e internet, os livros que não forem queimados nas explosões continuarão aí, prontos para ser lidos. Não precisa ligar em nenhuma tomada, nem ter senha de conexão wi-fi.

Agora, é verdade que as pessoas lêem cada vez menos, estão aí os zeros na redação do Enem pra comprovar. Ler é poder, quem não lê tem mais é que se foder.

JD - O Viva La Brasa se detém sobre um universo muito específico, habitado por tudo quanto é tipo de freak. Os papocos do underground interessam a quem, além de seus próprios habitantes?

Adofo Sá - O livro não foi feito pra agradar. Não tenho a ilusão de falar a todas as pessoas, até porque eu conheço muita gente com quem não quero nem falar. O público-alvo são pessoas que entendem a viagem e curtem o universo retratado ali: cena independente, histórias em quadrinhos e estados alterados da mente. Não é pra toda a família. Se quiserem usar como livro de mesa, tirem as crianças da sala.

JD - O lançamento do Viva La Brasa tem tudo para se transformar numa grande congregação de malucos e afins. O livro leva a sua assinatura, naturalmente, mas as quase 300 páginas do volume celebram os feitos de uma geração inteira. O barato é coletivo?

Adofo Sá - O barato é louco, o sistema é bruto e o projeto é coletivo como um ônibus lotado. Banquei todo o livro com grana do próprio bolso, quanta gente você conhece que faz isso? Vivemos num estado onde grande parte da arte é subsidiada com verba pública, nisso eu tô indo na contramão. Sempre gostei de trabalhar com colaboradores, desde os zines nos anos 90. Ganho a vida com audiovisual e sei da importância do trabalho em conjunto. Por isso, fiz questão de assinar o livro "Adolfo Sá & amigos".

Uma renegada ...
A grande congregação de malucos e afins aconteceu ontem - com direito, inclusive, a presenças ilustres, como as de Anastácio "Tchescobody Happy Blusk Thogheter´s night", vulgo "Tacinho", da Sublevação, e Gabbirin Nagal Gibborin AKA Villas Parakas, vulgo "Bilal, o rei do metal" - que achou tudo uma porralouquice e na real nem sabia o que estava acontecendo. Mas o fato é que a rua de Lagarto, no centro, onde fica a Caverna do Jimmy Lennon, quase ficou interditada, de tanta gente que se aglomerou na porta. A todo momento Chapolin (apelido do proprietário do estabelecimento) passava com seus asseclas com mais levas de cerveja e gelo. Lá dentro, no inferninho - literalmente falando, já que os ventiladores e ar-condicionados da casa não dão conta da refrigeração - algumas das melhores bandas da cidade se revezavam no palco. Karne Krua fez um ótimo show, como sempre, a despeito do publico ainda um tanto quanto morno. Idem para a Renegades. O público só começou a se animar pra valer na terceira apresentação, de Ferdinando Blues Trio. Deve ter sido o álcool fazendo efeito. Foi nessa hora, também, que aconteceu o pole dance da musa da noite, Inês, a modelo que estampa o material publicitário do livro. E que eu, veja só, perdi! Vi apenas nas fotos que Gil, mulher de Adolfo, me mostrou no celular. Mas foi bom, pelo que vi ...

Já tá aqui em casa ...
O capeta parece ter despertado de vez e incorporado na massa que se acotovelava para ver os Mamutes, que fez uma apresentação sensacional. Hard rock "setentista" de primeira, cheio de suingue e malemolência, feito pra chacoalhar o esqueleto, só que no ritmo do rock and roll. Que, em sua origem, era musica pra dançar, lembremos sempre disso. A noite foi encerrada com outra paulada, desta vez por conta da melhor banda de rock em atividade no Brasil - pena que o Brasil ainda não saiba disso -, a Plástico Lunar. Não sei se foi impressão minha, mas parece que está se configurando o que eu já botava fé que iria acontecer: eles estão, finalmente, superando a falta que a saída de Julico, da The Baggios, fez. Me pareceram mais entrosados. Acima de tudo Leo Airplane, este verdadeiro monstro de talento a toda prova que tanto enriquece a nossa pequena mas orgulhosa cena, e que foi escalado para substituir o insubstituivel na outra guitarra, me pareceu bem mais à vontade em seu novo papel, sem esquecer o que já fazia, que era fornecer a cama de teclados psicodelicos com timbragens "vintage" tão característicos do som da banda. Digo mais: Daniel, por algum motivo que eu não sei precisar qual é, estava sem sua guitarra, o que a principio significaria mais um desfalque na formação. Mas que eles tiraram de letra. Foi a primeira vez, também, que eu ouvi "Banquete dos gafanhotos" sem Odara nos vocais, só que essa foi fácil, já que a Plástico (ou melhor, a prástico, como dizia o saudoso Roberto Nunes) sempre teve bons vocalistas de sobra. O publico respondeu à altura e, apesar do avançado da hora, já perto das 4 da manhã, praticamente os obrigou a finalizar com uma sequencia de clássicos. Sensacional!

Dito isto, não poderia encerrar este relato sem comentar o motivo primário da noite: O livro de Adolfo Sá, "Viva La Brasa", que estava finalmente sendo lançado, depois de mais de dois anos de "maturação". Está belíssimo! Mais um impecável trabalho de diagramação comandado por Gabi Ettinger. Uma verdadeira obra de arte, impressionante. A curadoria ficou por conta do Calango doido Rian Santos e, numa primeira olhada, me pareceu perfeita. Tem, inclusive, um texto meu sobre a Karne Krua, deliciosamente pomposo e dramático, do qual eu nem me lembrava mais, já que havia sido originalmente publicado na edição xerocada de meu fanzine, o Escarro Napalm, há exatos 20 anos!

Um grande registro não apenas do trabalho de Adolfo, do qual sempre fui fã, mas de todos nós, "fanzineiros" e demais militantes do "underground" alternativo de uma geração que começou a produzir em tempos ainda pré-digitais, por volta da segunda metade da década de oitenta e primeira da de noventa do século passado, e não parou mais. Nem vai parar.

"Viva La Brasa" me representa! Tenho orgulho de fazer parte dessa história.

Relato da festa de lançamento por Adelvan "Kenobi"

Entrevista por Ria Santos

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

je suis Charlie, pero no mucho

O  mundo ainda está em choque com o massacre na redação da Charlie Hebdo e o assassinato de quatro pessoas em um mercado kosher em Paris, pelo mesmo grupo terrorista. O choque talvez seja não pelo número de mortos ou por ter sido na Europa, como querem alguns, mas por ter se operado muito mais como um assassinato em massa, objetivo e frio, do que como um atentado terrorista “aleatório”, como o que matou 191 pessoas em Madrid em 2004. E, também, justamente por mirar diretamente membros da imprensa, este atentado tenha chocado mais do que outros e foi imediatamente considerado um ataque a um valor “fundamental do ocidente”, como a maior parte da imprensa coloca.

Independentemente da razão do choque, por conta dele quase quatro milhões de pessoas foram às ruas francesas em “protesto contra o terrorismo”, número semelhante ao dos que comemoraram a derrota dos nazistas e a desocupação da mesma França em 1944. É de se esperar, já que este foi o maior ataque terrorista contra civis naquele país desde que o governo francês matou pelo menos 70 manifestantes pacíficos pró-Argélia em outubro de 1961, crime desumano apenas reconhecido em 1999. E é um dos maiores ataques diretos a jornais desde que os nazistas fecharam sistematicamente todos os jornais opositores nos anos 1930.

Por essas e outras razões, o massacre na Charlie acirrou um debate muito complexo que envolve questões que vão desde o colonialismo europeu e a liberdade de expressão, até a causa Palestina, o ISIS, a exclusão social e a imigração. Como em qualquer debate complexo, a busca por soluções rápidas e respostas fáceis, resumíveis em infográficos de telejornais diários, não encontrará nada além de arbitrariedades e complicações para as questões que tenta solucionar. Assim, se faz necessário observar e pensar nos principais argumentos que norteiam o debate, para tentar buscar respostas sem cair nas armadilhas da xenofobia belicosa ou do multiculturalismo apaziguador.

Por um lado, a extrema direita, como se imagina, procura demonizar o Islão e, fazendo uso de todo tipo de generalização barata, procura argumentar que o fanatismo remonta à essência do Islamismo, que seus seguidores são “incivilizados” e outros tantos predicados preconceituosos. Este argumento tão comum desde o 11 de setembro e tão identificável com os mais radicais entre a extrema direita é tão torpe que se torna praticamente desnecessário aprofundar uma crítica neste sentido que já não tenha sido feita.

O mundo islâmico é tão ou mais variado que o próprio mundo cristão, e tomar o islamismo como um todo homogêneo, unificado e coeso é tão equivocado quanto fazer o mesmo com o cristianismo. Ainda mais se o ponto de vista de terroristas radicais for tomado como ponto de referência nesta análise. Seria como tomar a Klu Klux Klan como uma amostra relevante do cristianismo ocidental, por mais que essa organização agisse de forma terrorista na primeira metade do século XX e ainda arregimente simpatizantes radicais até os dias atuais (como Frazier Glenn, que matou três pessoas numa comunidade judaica em 2014). Ou como se Anders Breivik, cristão radical e neonazista, que matou 72 pessoas da esquerda norueguesa em 2011, fosse, também, um paradigma sério para analisar o cristianismo ocidental como um todo. Tentar traçar um perfil generalizante de islâmicos a partir da ação de terroristas seria, pois, igualmente forçado. Há mais de um bilhão de islâmicos do mundo e eles não podem ser demonizados pela ação de minoritários grupos radicais. Essa generalização surge muito mais como um argumento que busca encaixar a realidade em uma narrativa pré-concebida, etnocêntrica e simplista de “Oriente atrasado versus Ocidente avançado”, usada apenas como meio de deslegitimação do inimigo, para justificar sua dominação.

Por sua vez, surgem argumentos – em geral à esquerda – que apontam a hipocrisia das potencias ocidentais: pela manhã matam, saqueiam e patrocinam ditadores no Terceiro Mundo, mas à noite choram inconformados quando lunáticos revidam matando e vilipendiando em nome de seus próprios ditadores. Tentam, nesta corrente, classificar como islamofóbica toda a crítica que se faz ao terrorismo e ao islamismo, como se uma crítica ao extremismo violento, exceção da exceção, que mais vitimiza muçulmanos do que membros de qualquer outra religião, fosse uma generalizada crítica à religião islâmica. Ou, pior, como se a separação entre o Estado e a Igreja, inexistente em partes relevantes do mundo islâmico (Arábia Saudita e Irã, por exemplo), não fosse uma luta antiquíssima da esquerda mundial e criticar esse excesso de religiosidade no Estado fosse algo preconceituoso, islamofóbico e “supremacista ocidental”.

Há, de fato, uma hipocrisia latente em certa parcela das lideranças e proeminentes jornais ocidentais. Como se não fosse o cúmulo da cretinice ver lideranças mundiais, alguns campeões da perseguição a jornalistas e minorias, como os líderes da Turquia, EUA, Argélia, Egito, Rússia, Israel e Espanha, entre outros, desfilando pela “liberdade de expressão” e “contra o terrorismo” nas ruas de Paris no dia 11 de janeiro. Em alguns casos a hipocrisia é realmente incrível.


Não tem nem dois meses que a Espanha proibiu protestos “não autorizados”, na chamada Lei da Mordaça; a própria França, em 2014, proibiu protestos pró-Palestina, como se “ameaçassem a ordem pública”, e é o único país europeu – por enquanto – a adotar tal medida; a Inglaterra mantém, há quase quatro anos, o fundador da Wikileaks preso na embaixada do Equador. Os EUA mantém preso por traição máxima Chelsea Manning justamente por denunciar terrorismo de Estado praticado pelo governo. Israel, além dos muitas-vezes-condenados crimes pela ONU, acabou de propor que não-judeus – 20% de sua população – sejam cidadãos de segunda classe e tem perseguido jornalistas pró-Palestina incessantemente. Outras fontes da mídia apontaram que talvez por isso Netanyahu não fora convidado para a marcha dos líderes, mas que, ao saber que ele iria, o presidente francês convidou também o líder Palestino. Além disso, entre as lideranças hipócritas, havia “surpresas” como o líder da Turquia, campeã de prisões de jornalistas e perseguição a manifestantes; o do Egito, que figura em 160° lugar de 180 países com liberdade para jornalistas, que executou em massa religiosos opositores do regime e , pior, que absolveu o ditador derrubado Mubarak de seus crimes. Já o líder palestino Abbas, convidado de última hora, prendeu alguns jornalistas que supostamente o ofenderam em caso recente. No entanto, por alguma razão, todos se acharam dignos de marchar pela liberdade de expressão e contra o terrorismo nesta semana que passou, escondendo seus próprios problemas numa nova marcha contra o terrorismo que só não remonta a escalada do 11 de setembro porque nenhum país foi invadido ainda. Ainda.

Por sua vez, os jornais mainstream são acusados pela hipocrisia de suas narrativas. Wade Michael Page, que matou seis religiosos Sikh em Wisconsin em 2012; o citado Frazier Glenn, que matou três judeus em 2014 nos EUA; e, por fim, o também citado Anders Breivik, todos supremacistas brancos, anti-semitas e anti-islamicos, nas narrativas dos jornais mainstream são tratados como indivíduos, classificados como loucos e atiradores solitários e desajustados “perdedores”, enfim, outcasts do mundo ocidental. Já os igualmente lunáticos fundamentalistas islâmicos, que cometem crimes por motivos extremamente semelhantes, são terroristas natos, forjados pela “ideologia do Islã” e a generalização vexatória e xenófoba ganha ares de análise científica e “séria”.

Porém, por mais que seja evidente a hipocrisia dos jornais que seguem exatamente a agenda de seus governos e patrocinadores, o argumento de tentar amenizar os ataques por conta de um pano de fundo opressor, colonialista e “vingativo”, como se estes civis franceses ou qualquer outra vítima ocidental do terrorismo “fizessem por merecer”, é igualmente ridículo. Além de estabelecer uma relação desonesta entre as populações e as ações oficiais de seus governos em países estrangeiros, que estão longe de qualquer accountability popular, obscurece o fato de que a maior parte das vítimas do terrorismo são muçulmanos, que, tirando exatamente as lideranças fanáticas minoritárias que apoiam este tipo de ação, praticamente todo o resto dos mais de um bilhão de islâmicos condena esse tipo de ação e vive em medo muito maior do que qualquer cidadão ocidental médio: ora é o medo do terrorismo de seus compatriotas que os ameaça diariamente, ora é de alguma potência ocidental que se autoproclama sua defensora, bombardeando suas cabeças em nome da liberdade.

No mesmo dia do ataque à Charlie, por exemplo, 37 iemenitas morreram supostamente pela mesma facção da Al Qaeda que assumiu os ataques na França. Ao mesmo tempo, na Nigéria, o grupo terrorista fundamentalista islâmico Boko Haram dizimava a população inteira de uma vila, cristãos e muçulmanos: dois mil mortos. Justificar a morte dos franceses ou de qualquer ocidental seria também justificar a morte dos milhares de pessoas (muçulmanos inclusos) mortas aleatoriamente em mercados, praças e vilarejos isolados, em ataques terroristas em qualquer parte do mundo por terem ofendido os radicais de alguma forma. É igualmente desonesto e ignorante, um ataque contra as próprias vítimas.


A Charlie Hebdo era uma revista que se assumia abertamente “irresponsável”, na velha tradição iconoclasta da esquerda francesa. É verdade que ela “atirava para todos os lados”, especialmente, na extrema-direita francesa (os Le Pen e Frente Nacional). E, em geral, era uma revista pró-Palestina, com inúmeras capas contra a política racista de Israel. Porém, é verdade também que a distribuição dos insultos “para todos os lados” de fato não era exatamente proporcional, especialmente no caso da religião, e feita uma breve análise do histórico recente da revista, torna-se compreensível que parte de seus críticos a considerassem islamofóbica muito antes dos ataques terroristas.

Depois de vencer uma série de processos por ofensa a comunidades islâmicas francesas e ser alvo de uma bomba incendiária em 2011, a Charlie visivelmente passou a pegar mais no pé dos islâmicos do que nos adeptos de outras religiões (vide a maior proporção de capas ofensivas ao profeta Maomé), especialmente dado o número de islâmicos no país. O rancor destas minorias ainda se agrava ao constatar que as leis que regulamentam a mídia em casos de injúrias e “perigos a ordem pública”, foram efetivamente usadas e defendidas em tribunais, apenas no caso do comediante antissemita Dieudonne M’bala e para proibir manifestações pró-Palestina, nada de relevante foi feito para este tipo de ofensa as crenças islâmicas.

A assimetria é grande – não tão grande quanto revidar cartuns com assassinatos, mas relevante. Em caso emblemático envolvendo a própria Charlie Hebdo, um dos mais antigos cartunistas da revista foi demitido por se recusar a pedir desculpas por uma piada antissemita contra Sarkozy, então presidente francês que se casava com uma judia. Nada é sagrado, mas algumas coisas são menos não-sagradas do que outras.


A capa com as meninas estupradas grávidas, violentadas pelos lunáticos do Boko Haram, exigindo seguro social do governo francês, é altamente cretina, e distancia-se de qualquer militância sincera da esquerda ou do ateísmo, que a revista alega ser. O pior, reforça o estereótipo que a extrema-direita narra das francesas muçulmanas imigrantes argelinas: “parasitas da previdência social”. A charge parece muito mais algo saído de um panfleto racista do que qualquer outra coisa. É absolutamente desnecessário e improdutivo para a questão, muito menos para exaltar os valores republicanos fraternos franceses, libertar ou diminuir a opressão das minorias islâmicas na França. Como apontou Tariq Ali em recente coluna na Folha:

A secularidade francesa de hoje significa, essencialmente, qualquer coisa que não seja islâmica. Defender o direito de publicarem o que quiserem, independentemente das consequências, é uma coisa, sacralizar um jornal satírico que dirige ataques regulares àqueles que já são vítimas de uma islamofobia desenfreada nos EUA e na Europa é quase tão tolo quanto justificar os atos de terror contra a publicação. (Tariq Ali, 15/1/15)

Teria sido “libertador”, “republicano” ou irreverente e, ao menos, produtivo para a causa ateia e anti-religiosa, se, nos anos 1930, uma série de piadas e charges antissemitas fossem sistematicamente impressas na Europa? A resposta é óbvia. Aliás, há exemplo histórico semelhante.

Durante os anos 1920, a recém-formada URSS patrocinou uma revista chamada Bezbozhnik (Sem-Deus), um jornal ateu de propaganda anti-religiosa, com capas bastante agressivas contra cristãos, judeus e muçulmanos. Quando a direita anti-comunista tomou para si o discurso antissemita no meio da década seguinte, a “Sem-Deus” mudou o seu discurso, justamente por que os inimigos soviéticos haviam capitalizado o antissemitismo para o seu lado e não era “produtivo” alimentá-lo, focando a crítica na Igreja Ortodoxa da Rússia e em temas políticos mais gerais. O bom senso imperou, mesmo na cabeça de radicais iconoclastas como as ligas atéias da URSS.

Portanto, o objetivo é fugir das armadilhas e dicotomias simplistas que a questão traz.

Já está claro que, “em nome da segurança”, está se impondo gradativamente a agenda obscura da extrema-direita em toda a sociedade: vigilância estatal, restrições das liberdades civis, mais assédio policial, arbitrariedades legais, fechamento de fronteiras e perseguições a minorias (racial profiling). Além, é claro, de intervenções militares “democráticas” no mundo islâmico.

No entanto, é fato que a questão do terrorismo não pode simplesmente ficar em aberto, caindo num relativismo multicultural rasteiro “quem somos nós para julgar a cultura do outro” ou, pior, “eles fizeram por merecer”. Há um padrão que precisa ser debatido a serio.

Não se pode retirar da religião radicalizada, no caso a islâmica, o pano de fundo para a proliferação de fanáticos agressivos. Foi assim com o cristianismo até o século XVIII (com grupos como a KKK vindo até o meio do século XX) ou o judaísmo nacionalista e seus atentados no século XIX. Há radicais budistas sanguinários em alguns países da Indochina! Com o islão não seria diferente.

O contexto social temerário, a completa falta de representação social secular e a exclusão galopante dos pobres formam o terreno ideal para que as mais espúrias lideranças recrutem os seus seguidores. Como apontou Zizek: “A questão não é se os antecedentes, agravos e ressentimentos que condicionam atos terroristas são verdadeiros ou não, o importante é o projeto político-ideológico que emerge como reação contra injustiças”. Depois que as forças ocidentais passaram 60 anos a sabotar toda a esquerda progressista no mundo islãmico, com medo – real ou imaginário – da sovietização, é realmente surpreendente que os projetos políticos e o modus operandi que emerjam no mundo islâmico, sejam retrógrados, extremistas e islamo-fascistas?!

Por fim, é fundamental fugir da armadilha da censura prévia. É preciso honestamente observar quando a liberdade de expressão alimenta o discurso de ódio e opressão de minorias e quando ela realmente é valente, republicana e libertadora. Até hoje a propaganda nazista é proibida na França como em boa parte da Europa e há diversos aparatos legais para proteger quem é vítima de racismo e antissemitismo. A liberdade de expressão irresponsável, indiferente ao contexto e ao momento, isto é, sem o reconhecimento de que quem fala pode sofrer condenações judiciais a posteriori, é extremamente perigosa e já combatida nos casos que já sabemos a consequência (antissemitismo e racismo). É preciso caminhar entre a idiota relativização do terrorismo e a igualmente idiota sacralização do discurso opressor, apenas por ser discurso. Temos de ser Charlie Hebdo, mas nem tanto. Se o timing é fundamental numa piada, o da Charlie tem sido um tanto descompassado e um puxão de orelha de vez em quando, após alguma besteira dita, pode fazer o humor da revista evoluir e realmente descontrair uma população tão oprimida que mal consegue rir de um desenho bobo. Será preciso outra limpeza étnica para que o anti-islamismo gratuito seja tão inaceitável quanto o anti-semitismo ou o racismo?

por Leandro Dias


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