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sábado, 12 de março de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

Patricia Piccinini "Com Ciência"
O melhor filme do ano passado foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas o favorito para levar o oscar era “O Regresso”. Ganhou “Spotlight”, que joga luz sobre os casos de pedofilia envolvendo padres católicos. Menos mal: nem um, nem outro. Fez-se a justiça de Salomão. /////////////// Em todo caso, Mad Max sagrou-se como o grande vencedor em números absolutos, com a conquista de seis estatuetas, em sua maioria nos quesitos técnicos, como som e montagem. Justíssimo! Só acho que deveria ter levado também, pelo menos, o prêmio de direção: George Miller, aos 71 anos, deu uma verdadeira aula. Seu filme é cinema de ação como há muito tempo não se via – nunca mais tinha tido aquela curiosa sensação de satisfação e desconforto por perceber que a projeção estava chegando ao fim. Queria mais! Tomara que tenha continuação.

Fury road
“O Regresso” mereceu muito o prêmio pela fotografia, realmente primorosa. E só. O filme é bom, tem um bom ritmo, mas convenhamos: é “clicheroso” e, em termos de roteiro, praticamente se resume a mostrar DiCaprio correndo, arfando, sendo atacado e fugindo por duas horas e cacetada. Se bem que o ataque do urso é realmente um espetáculo, daquelas cenas que ficarão marcadas nas retinas dos olhos de quem viu no cinema, em tela grande - como deve ser – para sempre. /////////// O que não quer dizer que eu ache que a academia tenha sido injusta ao dar o oscar de melhor atuação para Leo, só acho que demorou. Ele devia ter recebido por “O Lobo de Wall Street”. /////// Foi muito bom também ver a belíssima animação brasileira “O Menino e o mundo” no páreo. Uma grande vitória. Ganhar, mesmo, era uma missão praticamente impossível, já que “Divertida Mente” é uma obra-prima. Mais uma, da Pixar. Que andava patinando. Tomara que tenha voltado aos trilhos.

O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...

Renegades of punk "na brasa", por David Doria
Ainda há público para shows de rock em Aracaju? Fecharam dois espaços que abriam para o estilo, a Caverna e a Casa Rua da Cultura. Sábado passado apenas alguns gatos pingados foram ao Rancho da Aruana ver a segunda festa Viva La Brasa, enquanto um samba no CHE tava lotado, com tanta gente que a rua em frente ficou praticamente interditada. Nada contra o samba, evidentemente. Só acho uma pena que uma banda como a Necro tenha tido tão pouco público nas duas últimas vezes que vieram tocar por aqui. Em todo caso, o rock segue em frente, porque é teimoso: ontem, dia 11/03/2016, rolou o lançamento do novo disco da excelente Penny Mocks. Próxima sexta tem Punk rock e Hard Core na pista de skate Cara de Sapo, com os paulistas da Mar Morto, os pernambucanos da Johnny 13 e os sergipanos Ideal e The Renegades of punk. Amanhã, dia 13, tem o SOS UNDERGROUND 2 no Conj. Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, com Rasga Mortalha, Mophinum, Anhan e outra que não consegui ler o nome no cartaz. Já dia 20/03, em São Cristóvão – terra da The Baggios, que acabou de tocar no Lollapalooza, em sp – rola Executor, Casca Grossa, Suicídio Coletivo, Pôdi pa caraio, Toxofobia e Enterrados de Forma Banal. Por fim, dia 16/04 tem UNDEGROUND ATTACK no parque dos cajueiros, com Cruz da Donzela, Executor, Serial, Eyeless e Mentes suicidas.

Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.

Shine on, you crazy diamond
A passagem dos anos de 2015 para 2016 vai ficar na história do rock and roll - de forma negativa, infelizmente. O baixo astral por aqui, nas terras do Cacique, começou com a notícia do falecimento de Levi Marques, que desistiu da vida no fim do ano passado e deixou sem chão uma legião de amigos. Era um jovem talentoso, cantor e compositor, “performer” de primeira. E, acima de tudo, um cara “do bem”. Faz muita falta e nunca será esquecido. O mal-estar prossegue com a passagem “desta para melhor” (???!!!) de Flavio Basso, o eterno Júpiter Maçã, astro do rock underground tupiniquim que fez história em carreira solo e com a seminal banda gaúcha Os Cascavelletes e parecia ter chegado ao auge com o falecimento de Lemmy, do Motorhed, quando nos chega a notícia, nos primeiros dias do mês de janeiro do ano corrente, de que David Bowie não era, afinal, um ser imortal! Pelo menos não no plano físico, biológico. Já era difícil imaginar um mundo sem Lemmy. Sem David Bowie, é tarefa quase impossível. Seguimos vivendo, claro, mas não é mais a mesma coisa. Não mesmo.

Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.

* publicado originalmente no jornal Folha da Praia

A.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

NEM TODOS ESQUECEM

Always Look on the Bright Side of Life
“A vida de Brian”, clássica comédia cinematográfica do grupo de humor inglês Monty Python, acompanha as desventuras de um pobre coitado cuja vida é infernizada por ter nascido na manjedoura ao lado da do menino Jesus e ter sido, por isso, confundido com o messias. Numa das cenas mais antológicas do filme ele perde uma sandália ao fugir, pela enésima vez, de uma turba de seguidores fanáticos, o que causa um cisma na “religião”: parte acha que aquilo foi um sinal e começa a se auto-denominar de “facção dos seguidores da sandália”, parte prefere seguir “puro” na doutrina e continuar a perseguição. Lembrei disso ao saber que não existe nenhum trecho do alcorão em que seja explicitamente clara a proibição da representação do profeta em imagens. Fica tudo por conta da interpretação de cada um, com as devidas variações, de acordo com as tradições – há, inclusive, os que proíbem a representação de qualquer ser vivo! Ou seja: tanto barulho - e morte!!! - por, praticamente, nada!

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por Gessy Kelly
“Clandestino” é um projeto itinerante no qual uma juventude que vive à margem do calendário cultural “oficial” e/ou “comercial” ousa tomar o espaço público e produzir, de forma absolutamente independente e alternativa, sua própria música. Divulgam a data e o local das apresentações via facebook e geralmente aproveitam a passagem pela cidade de alguma turnê “subterrânea” de grupos amigos ou com os quais tenham alguma afinidade. É capitaneado pelo pessoal da “The Renegades of punk” e contou em sua décima edição, ocorrida no última dia 11 de janeiro, um domingo, com apresentações, além dos anfitriões, da Karne Krua, veterana banda punk Hard Core local – completando 30 anos de atividades ininterruptas! – e da NTE (Nem Todos Esquecem), do Rio Grande do Norte.

por Gessy Kelly
Os potiguares surpreenderam positivamente com um show visceral onde se destacou a presença de palco de seu vocalista que, não por acaso, se apresenta sob a alcunha de “Falante”. Ele falou, muito, e com uma convicção assombrosa, que se via estampada em sua face. Algo raro de se ver nos dias de hoje, dominados pelo cinismo e pela apatia. Falou e pintou e bordou, numa perfomance impressionante – e espontânea, o que é muito importante. Tudo o que é dito nas letras das músicas é interpretado com gestos teatrais – reverenciar uma bicicleta, por exemplo – e expressões faciais que dão uma nova dimensão ao som da banda, um punk rock bastante básico, simplório, até. O que não é, em absoluto, um demérito: menos é mais, já ensinaram os Ramones em pleno auge dos excessos do rock progressivo. O punk rock não morreu, nem morrerá, enquanto existirem bandas com esse tipo de atitude – percorrer cerca de 800 km para tocar na praça, na raça, não é pra qualquer um! E, de quebra, na passagem pela Paraíba ainda trouxeram a tira-colo a dupla dinâmica Adriano e Olga, responsável pelo programa de rádio Jardim Elétrico e pelo jornal/sêlo Microfonia. Grandes figuras ,,,

por Gessy Kelly
Em tempo: “presença de palco” é força de expressão, já que não há palco no clandestino. É tudo feito no mesmo nível, em perfeita simbiose com o publico – que compareceu em bom numero, especialmente para um domingo. E foi bastante participativo, principalmente durante a apresentação da Karne Krua. Que foi, como sempre, sensacional, transbordando energia e, acima de tudo, VERDADE. Muito bom ver gerações de “rockers” permanecerem unidas em torno do bom e velho lema do “faça você mesmo” - e na rua, ao ar livre. Vida real! Sem porta, sem muros e com a presença de várias crianças. E de cachorros.

Tudo isso aconteceu há mais de um mês, o que desencoraja a publicação. Resenhas tão tardias, nestes tempos de velocidade supersônica e informação instantânea, correm o sério risco de parecerem textos datados discorrendo sobre assuntos agora irrelevantes, porque “já passou” e a grande maioria já esqueceu – e pior, ninguém tem mais interesse em lembrar.

FODA-SE! NEM TODOS ESQUECEM!

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Mais tempo ainda tem a última Festa da Antevéspera, que aconteceu no apagar das luzes do ano passado. Trata-se de um evento criado por fãs “auto-exilados” – leia-se “que moram fora” - da banda Snooze com o intuito de aproveitar a presença da maioria deles na cidade para as festas de fim de ano e promover um encontro para matar a saudade. Esta última edição contou com as participações especiais de Arthur Matos, Dani “renegades” – fazendo uma apresentação recheada de clássicos alternativos acompanhada pelos “snoozers” – Julio, da The Baggios, e Patrícia Polayne, que acabou de vez com qualquer dúvida que porventura existisse de que ela é uma grande cantora ao interpretar a belíssima “Ivo”, do Cocteau Twins. Inesquecível!

Muito bom, também, ter assistido à volta do rock ao palco do Cultart, espaço cultural mantido no centro de Aracaju pela Universidade Federal de Sergipe que já abrigou noites insanas e antológicas, como os show da Mundo Livre S/A, do No Rest e do Jason – com direito a tiros de bacamarteiros! – além, é claro, da inesquecível Boate do porão. Tinha esperança de que tivesse sido uma volta “pra ficar”, mas a julgar pelo estresse que rolou no final da noite, com a apresentação da snooze tendo que ser encurtada por conta das restrições de horário, não vai rolar ...

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Vale o registro, também, de mais uma passagem do grande bardo “punk brega” Wander Wildner pela terra dos cajueiros e dos papagaios(sqn). Foi de surpresa, aproveitando uma visita dele à cidade acompanhando a namorada, cuja irmã mora aqui. Foi acompanhado por uma excelente banda formada por músicos locais que, ao final, nos brindaram com uma sensacional sessão de covers de rocks clássicos, tipo Beatles, Bowie, Led Zeppelin, Deep Puble, Black Sabbath, The Jam e The Kinks.

O show de Wander foi muito bom, metade acústico, metade elétrico. Altos clássicos cantados a plenos pulmões pelos empolgadíssimos fãs locais. O local, também, ajudou – apesar de, por ser pequeno, ter deixado a mesma quantidade de gente que entrou do lado de fora. Foi na simpática Dogueria do Artista, no Inácio Barbosa.

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Richard Linklater é o cara! Versátil como poucos, vai da comédia mais “pop” – “Escola do rock”, que tava passando na tradicional Sessão da tarde da globo dia desses – ao mais rebuscado manifesto existencialista – “Waking life” – com uma desenvoltura admirável. Em “Boyhood” ele volta suas lentes para a vida, em si. A vida das pessoas simples, que não tem nenhum papel excepcionalmente importante nos destinos da humanidade. E nos ajuda a refletir sobre a mágica que é simplesmente viver – e conviver. A mágica de ser. Ser humano, ser nós mesmos. Ser o que somos. Ser importante na vida de alguém sem ao menos se dar conta disso. Ou se dar conta disso e estar constantemente à beira de um colapso por conta das pressões decorrentes ...

Magistrais interpretações de todo o elenco, ajudado pelos excelentes diálogos e por uma direção segura – o que é especialmente admirável quando nos damos conta que o cara levou mais de uma década, acompanhando a ação do tempo sobre os personagens, para filmar tudo! Difícil escolher um destaque, mas devo dizer que adorei a versão "mirim" da personagem Samantha, vivida pela filha do diretor, Lorelei Linklater. Divertida, espirituosa e IRRITANTE, como só as irmãs pequenas conseguem ser. Depois ela cresce e se transforma numa pessoa ... normal. Tudo aqui é "normal", mas se agiganta pelo olhar aguçado da lente do realizador. Tudo muito humano - demasiado humano ...

Vale notar, também, a ausência de maniqueísmo na narrativa: todos são mostrados com seus defeitos e suas virtudes, sem resquícios da vilania rasteira típica dos “blockbusters”. A cena emblemática, neste sentido, é a que mostra a visita do pai, com seus filhos, à casa dos novos sogros, típicos representantes do chamado “cinturão bíblico” da “américa profunda”, onde o livro sagrado convive em perfeita harmonia com as armas de fogo. Num dado momento, à beira de um lago, ele é questionado sobre uma possível conversão, em tom jocoso. “Eu estou ouvindo vocês”, diz a nova esposa, sentada à distância, em tom de galhofa. As diferenças são mostradas, portanto, de forma respeitosa, amorosa, e sem julgamentos – se há algum, fica por conta do olhar do expectador. Uma cena simples, mas tocante.  

Até a duração exagerada do filme serve pra nos lembrar de que a vida, às vezes, parece durar demais. Só nos damos conta do quanto ela é, na verdade, breve, quando nos deparamos com as situações pelas quais sabíamos que iríamos passar mas que parece que esperávamos que não chegassem nunca, como a que provoca uma crise de choro na mãe, interpretada por Patricia Arquete. Nessa hora ela diz a frase-chave para entender o longa: "eu esperava mais". A gente sempre espera mais ...

Não foi o meu caso, com relação ao filme. Achei perfeito.

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Esqueça a “bomba” que os irmãos Wachovsky (de Matrix!.) soltaram nos cinemas neste início de ano: a verdadeira redenção da “space opera” está nos quadrinhos! Acabou de ser lançada no Brasil, pela Devir, a sensacional série “Saga”, de Brian K. Vaughan (Ex- Machina e Y: the last man). É uma espécie de Romeu e Julieta intergaláctico, a história do amor impossível de um casal de espécies diferentes – e beligerantes – em meio a muito sexo, fantasia, violência e intrigas políticas.

Edição primorosa, em capa dura e papel couchê.

Imperdível!

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As bancas nos trouxeram recentemente, também, duas grandes e agradáveis surpresas: os relançamentos de dois verdadeiros clássicos dos quadrinhos, “Miracleman” e “A Tumba de Drácula”, via Panini. O primeiro é uma obra-prima do mestre Alan Moore que estava perdida num verdadeiro labirinto burocrático por conta de um gigantesco imbróglio com os direitos autorais. Já o segundo é uma pérola “pulp” que vale, especialmente, pelos desenhos de Gene Colan e pelo clima típico do terror cometido pela produtora Hammer durante a década de 1970, quando trouxe a figura do conde vampiro da Transilvãnia aos dias atuais. Pra mim é especialmente digno de comemoração, este lançamento, pois tenho uma ligação afetiva muito forte com estas histórias, que eu acompanhava antes mesmo de aprender a ler, fascinado com os desenhos e curiosíssimo pra saber o que estava escrito. São tramas um tanto quanto esdrúxulas e “rasteiras”, mas que resultam numa leitura, no mínimo, interessante – e divertida. Tá valendo.

Vivemos um grande momento em termos de lançamentos de quadrinhos no Brasil.

Que venha mais! O bolso reclama, mas a satisfação é garantida.

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Por conta da efeméride dos 50 anos do golpe militar resolvi tomar vergonha e começar a ler, finalmente, a monumental série "As Ilusões Armadas", de Elio Gaspari. Lançada originalmente em 2002 e relançada recentemente em edição revista e ampliada pela editora Intrínseca, é considerada por muitos a obra definitiva sobre o período - até o fim do governo Geiseil, no caso. Figueiredo, de acordo com sua própria vontade, foi relegado a um solene esquecimento. Trata-se de uma obra-prima absoluta, um primor de reportagem escrita de forma impecável que esmiúça em detalhes todas as tramas sórdidas que mergulharam o Brasil em mais de 20 anos de escuridão - um verdadeiro apagão ético e moral. Essencial, especialmente nos tempos que vivemos, onde o excesso de informação parece estar produzindo, como efeito colateral, a desinformação, com vivandeiras do retrocesso encontrando, surpreendentemente, eco para suas malcheirosas tentativas de revisionismo histórico ao vomitar asneiras do tipo "o golpe foi uma reação ao terrorismo de esquerda" - não foi! A luta armada surgiu como legítima defesa à brutalidade do regime. Ou a idéia de que os militares estavam empenhados, efetivamente, no combate à corrupção - não estavam! O foco era na repressão. A corrupção progrediu na mesma medida do "milagre econômico", com direito, inclusive, à existência de  verdadeiras gangues gestadas no seio das forças armadas e empenhadas na delinquencia pura e simples, para muito além do espectro ideológico.

Está tudo lá, nos quatro volumes - de cinco, o quinto nunca viu a luz do dia mas segue prometido, para este ano. Narrado de forma honesta e equilibrada, mas sem se furtar a emitir opiniões e juízos de valor – a reunião que aprovou o AI-5, por exemplo, é chamada de “Missa Negra”, e os combatentes da luta armada são chamados de “terroristas” – com isso não sei se concordo, certamente não da forma generalizada como é apresentada, mas a opção semântica, a meu ver, não compromete a narrativa, que segue honesta até o fim do segundo volume – onde parei, num magnífico capítulo inteiramente dedicado à luta no Araguaia.

Uma curiosidade: na primeira edição, a que tenho - e li - não é feita nenhuma menção à então ministra das minas e energia Dilma Roussef, cuja história nos porões da repressão só adquiriu notoriedade após seu lançamento como candidata à presidência da república. Somente na nova edição, revista e ampliada, ela está presente.



Essencial!

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Aproveitei uma promoção de passagens aéreas, dessas que pipocam inesperadamente na tela de nossos computadores via publicidade na net, para conferir, em São Paulo, as exposições de Salvador Dali, no Instituto Tomie Ohtake, e de Ron Mueck, na Pinacoteca. O primeiro dispensa apresentações, já que é um verdadeiro ícone pop. A mostra, a maior dedicada ao artista até o momento, no Brasil, contou com um conjunto de obras formado por 24 pinturas, 135 trabalhos entre desenhos e gravuras, 40 documentos, 15 fotografias e quatro filmes. De encher os olhos e atiçar os sentidos.

Mueck é um escultor australiano radicado na Inglaterra. Ele trabalha com imagens hiper-realistas feitas de fibra de vidro e silicone que, por suas dimensões desencontradas da realidade, causam uma sensação de estranheza, flertando com o surrealismo. A mostra – ao contrário da de Dali - segue em cartaz até o dia 22 de fevereiro. A partir das 5 da tarde, às quintas, a entrada é gratuita. Peguei uma fila relativamente grande no dia em que fui, mas nada desesperador. Vale muito a pena, também, uma visita adicional ao acervo da pinacoteca, repleto de esculturas e quadros antológicos, daqueles que você passou a vida inteira vendo ilustrando livros didáticos. Se chegar cedo, a dica é um passeio pelo Parque Jardim da Luz, nos arredores da estação. É repleto de esculturas, algumas assinadas por nomes ilustres, como Lasar Segall e Victor Brecheret.

Desnecessário dizer que há várias outras opções de diversão e entretenimento cultural na grande metrópole. Sugiro uma conferida na programação do Cinesesc, o mais charmoso da cidade - conta, inclusive, como um serviço de bar dentro da sala de projeção! Lá revi o clássico "O Franco Atirador", dentro de uma Mostra retrospectiva do diretor Michael Cimino. E vi também, gravado nas paredes do cinema, o nome de um amigo, o ilustre jornalista e poeta sergipano Amaral Cavalcante, como parte integrante do elenco de "Sargento Getulio", de Hermano Penna - trata-se de um painel que homenageia grandes nomes do cinema nacional. Fica na Rua Augusta, número 2.075.

Logo abaixo, na mesma rua - número 2.389- temos a Sensorial Discos, simpático e aconchegante espaço dividido entre cervejas especiais e discos de vinil. É de propriedade de um grande amigo dos tempos de "fanzinagem", Carlos Rodrigues Costa - que vem a ser, também, baixista da banda Continental Combo. Lá encontrei, por puro acaso, o baterista sergipano Thiago "Babalu" - ex-Karne Krua, Sem Freio na Lingua, Fluster, etc. Ele estava em êxtase pois havia sido convidado de surpresa, na noite anterior, para substituir uma verdadeira lenda viva do rock, Steve Shelley, no show do igualmente lendário Thurston Moore - ambos membros-fundadores do Sonic Youth. Show ao qual não fui por ter considerado o preço extorsivo - 180 reais por uma apresentação de cerca de uma hora, convenhamos, é um pouco demais. Teria ido, se soubesse que um amigo de longa data estaria presente, no palco. Mas ok, nem ele mesmo sabia. Pior: me disse que teria deixado meu nome na porta, caso soubesse que eu estava por lá. Hora de respirar fundo e mentalizar, para se conformar com o azar ...

A

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terça-feira, 13 de maio de 2014

RIP HR Giger

Hans Ruedi Gieger, o mestre HR Giger, morreu ontem na Suíça, aos 74 anos. Toda uma geração o conhece, mesmo sem querer, pela concepção visual da criatura em "Alien", de Ridley Scott, que lhe valeu um Oscar. Giger havia ganhado fama com "Necronomicon", uma coleção de imagens inspiradas em H.P. Lovecraft. Sua participação em Alien começou em 1975, quando chamou a atenção do roteirista Dan O'Bannon enquanto trabalhava com o cineasta chileno Alejandro Jodorowski numa versão de Duna jamais concretizada. O'Bannon mostrou a Scott o livro "Necronomicon" e o diretor decidiu adaptar literalmente as pinturas fálicas do suíço para criar o alienígena do filme de 1979.

Ficaram célebres também suas capas de discos, como a de "Brain Salad Surgery", do Emerson, Lake & Palmer, e as imagens que licenciou para álbuns do Danzig, Celtic Frost, Dabbie Harry e companhia. Pra não falar do sensacional pedestal de microfone que esculpiu para Jonathan Davis, do Korn.


Mas Giger criou também um mundo próprio, com uma estética absolutamente singular e recheada de símbolos fálicos, biomecanóides e com provocações à religião. A casa de Jello Biafra foi invadida numa madrugada dos anos 80 por agentes que queriam confiscar o pôster "Penis Landscape", criado por Giger, e encartado no disco "Frankenchrist", do Dead Kennedys.

No livro "ARh+", editado em Portugal pela Taschen, ele dizia ter escapado da morte à bala em pelo menos cinco ocasiões de sua vida. Morreu em decorrência de ferimentos causados por uma queda ...

por Eduardo Abreu

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

A Arte de Luis Quiles

Nascido em 11 de maio de 1978, o espanhol Luis Quiles, morador de Barcelona, começou a desenhar desde cedo como um hobby. Fã assumido de cultura pop e rock — o que nota-se em seu trabalho — acredita que a arte não deve ser censurada pois mata a ideia artística. Por suas convicções , seus desenhos considerados mais pesados foram retirados do Deviantart. A censura sempre é uma forma de ocultar aquilo que sociedade tem medo de debater.

Luis ama desenhar. E com sua arte, choca, provoca, irrita e nos mostra aquilo que muitas vezes não queremos abordar ou enxergar por outro ponto de vista. Abaixo, uma entrevista conduzida por Jefferson Correia publicada na Obvious Magazine. E alguns desenhos deste fantástico artista.

© obvious: http://lounge.obviousmag.org/manifesto_da_artes/2014/01/conhecendo-luis-quiles-o-artista-que-quer-nos-provocar-com-seu-trabalho.html#ixzz2z7cKYVD2
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MANIFESTO DAS ARTES: Como começou a desenhar?
Luis Quiles: Desde muito pequeno.
MANIFESTO DAS ARTES: Quais são as mensagens do seu desenho?
Luis Quiles: Perturbar as pessoas. Fazendo odiar o meu trabalho, se necessário. Há muito tempo eu percebi que a imagem não muda as pessoas, nem mesmo muda uma pessoa. É o que eu penso. Ela não vai fazer uma pessoa racista, por exemplo, então eu não faço para mudar isso, eu faço isso para irritar. Muitas vezes pareço insultar as pessoas na internet com um pouco do meu trabalho, e é divertido.
MANIFESTO DAS ARTES: Quais são suas influências e o que você mais gosta na cultura pop?
Luis Quiles: Nirvana, Hayao Miyazaki, Leiji Matsumoto, Alphonse Mucha,Mitsuru Adachi, contos clássicos (Branca de Neve, Peter Pan, Alice ...), Akira Kurosawa, Alfred Hitchcock ...

MANIFESTO DAS ARTES: Você foi censurado no Deviantart. Gostaria de saber O que você acha da censura na arte?
Luis Quiles: Simples: a censura mata a arte. E se você está pronto pra isso, deve procurar uma maneira de dar nova vida e enganar a censura, isso é o que eu tento fazer.

MANIFESTO DAS ARTES: O que te motiva a criar?
Luis Quiles: O mesmo de quando eu era pequeno, eu gosto. Não preciso de uma motivação profunda.
MANIFESTO DAS ARTES: Seus desenhos tem alguma posição politica? Você é libertário, progressista ou conservador?
Luis Quiles: Eu não me importo com as idéias políticas, sejam boas ou ruins. Ou mais relacionado a mim ou fora, no final todos eles têm o mesmo problema. Foda-se a moralidade das pessoas. Todos passam pelo mesmo filtro que suga: os seres humanos! Vivem com a sua ideia do mundo em um nível pessoal, sem perceber que todos são como você ou devem ser, mas não é. Eu me considero de esquerda, mas não me reconheço quando eu ouço falar da esquerda política.

MANIFESTO DAS ARTES: O que você acha dos seus fãs estrangeiros?
Luis Quiles: Eu não gosto da palavra fã. Sou um admirador do trabalho de muitas pessoas, mas não fã. Não é uma descoberta que a palavra fã vem de fanático. Então, eu prefiro vê-los como pessoas que gostam do meu trabalho. Eu gosto de conhecer pessoas de outros países para o nível pessoal ou humano assim o mesmo com o meu trabalho
MANIFESTO DAS ARTES: Qual conselho você pode dar pra quem quer criar arte?
Luis Quiles: Que goste do que faça. Se você trabalhar duro, conseguirá aprender.
MANIFESTO DAS ARTES: Você pretende fazer algum mangá ou história em quadrinho?
Luis Quiles: Quadrinhos. Publiquei há alguns anos e agora eu começo a trabalhar de novo. Mangás não. Eu gosto como leitor, mas já pensei em fazer um mangá.

MANIFESTO DAS ARTES: Sobre as mulheres: Você gosta mais de desenhá-las? Como você acha que as mulheres enxergam sua arte? Você se considera machista?
Luis Quiles: Algumas raramente me disseram que meus desenhos são misóginos. Simplesmente é o que eu quero falar.Eu prefiro desenhar o que as mulheres fazem. Muitos dos meus fiéis seguidores do meu trabalho são as mulheres.Espero que não entendam mal meu trabalho.
MANIFESTO DAS ARTES: Como é o mercado de trabalho para desenhistas na Espanha?
Luis Quiles: Pobre. Pela crise econômica, como na maioria dos trabalhos.
MANIFESTO DAS ARTES Você acha que seus desenhos podem ser usados como arma contra a opressão religiosa ou contra a política?
Luis Quiles: Talvez, mas isso não vai mudar nada. Eles não mudarão por causa de alguns desenhos.
MANIFESTO DAS ARTES: E sobre seus desenhos em apoio a Pussy Riot e contra os padres pedófilos?
Luis Quiles: Eles não mudaram por causa de alguns desenhos. Com a pressão social que você pode obter uma mudança. Um desenho é apenas um pouco mais.

MANIFESTO DAS ARTES: Conhece algum desenhista brasileiro?
Luis Quiles: Desenhista ou design não. Não que eu me lembre.
MANIFESTO DAS ARTES: E de outras artes?
Luis Quiles: Da música, Sepultura e filmes, Cidade de Deus.
MANIFESTO DAS ARTES: Pra finalizar, quais são seus projetos futuros?
Luis Quiles: Escrever e desenhar histórias em quadrinhos.

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