Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Snooze is not dead.

Foto por Hugo Daniel
Não se apresentavam em público desde a última Festa da Antevéspera, no final de 2014. Resolveram voltar, ironicamente, justamente no dia de Finados, 02 de novembro do ano que tentaremos esquecer. E voltaram em grande estilo, se apresentando pela primeira vez no já tradicional “Clandestino”, evento kamikaze que acontece na rua, “na tora”, esporadicamente. Já está na décima sétima edição, o que prova que nem tudo está perdido, afinal ...

Foi ótimo, claro. Estávamos com saudade. Tocaram com a Renegades, os “anfitriões”, e com uma banda nova chamada Amandinho, que saiu do Recife com destino ao mundo numa “cruzada contra o rock de arena” – seja lá o que isso queira dizer. Banda nova, “instigada”, fez um bom show, energético – mas meio chato nas partes mais “viajantes”.

Adolfo Sá ficou sabendo da novidade e, num timing perfeito, fez uma excelente – e necessária -  entrevista com a snooze que eu, preguiçosamente, reproduzo abaixo – a postagem original está em http://blog.vivalabrasa.com/

Quando começaram a tocar juntos, os irmãos Fábio Oliveira e Rafael Júnior eram apenas moleques que curtiam Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü. Fabinho tinha 14 anos na gravação da primeira fita demo e Rafael divulgava a banda através de cartas. Mesmo vivendo numa cidade pequena e distante dos grandes centros como a Aracaju dos anos 90, quebraram barreiras: emplacaram clipe na MTV, participaram de coletâneas nacionais e foram trilha sonora em comercial de surf.

Mais de duas décadas, três álbuns e inúmeras formações depois, a Snooze tá saindo de um longo período de hibernação. O último show foi em 30 de dezembro de 2014, na Festa da Antevéspera. O motivo é que seus integrantes são músicos requisitadíssimos. Rafael é baterista do Ferraro Trio, Maria Scombona, Classex Brothers, toca em bares acompanhando Julico dos Baggios e ainda participa de algumas apresentações da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Fábio já foi professor de contrabaixo no Conservatório, volta e meia acompanha nomes como Patricia Polayne, Nino Karvan, Deilson Pessoa e Paulinho Araújo. O guitarrista Luiz Oliva, caçula do grupo, é engenheiro de som, produz discos e faz mesa em shows e festivais.

VIVA LA BRASA - A demo que vocês lançaram em 95 abriu muitas portas numa era em que a internet ainda não tava tão disseminada e as informações não eram tão disponíveis…
RAFAEL JÚNIOR - Sim, a gente utilizava correios e telefone, não tinha internet. Fizemos de forma despretensiosa, não sabíamos onde ia dar, mas eu acompanhava o movimento dos zines e sabia que a qualidade da demo era muito boa. Mesmo assim foi surpresa ver tantas resenhas positivas em jornais e revistas como Folha de SP, Estadão, Rock Brigade etc.

VLB - Quando lançaram o primeiro álbum em 98 vocês fizeram uma turnê pelo sudeste. Como foi gravar o disco de estreia por um selo paulista e fazer esse rolê?
RJ - Marcelo Viegas, do selo Short Records que hoje é editor de livros pela Ideal, desenvolveu uma empatia com a banda logo no início e ficamos bem amigos. Ele foi o canal pra coletâneas, matérias, além de ter lançado os dois primeiros discos. Articulou parte da tour no sudeste também, hospedou a gente e tal. Mas antes dessa viagem já tínhamos viajado o nordeste inteiro por 3 anos seguidos. Só não visitamos São Luís no Maranhão. Fomos pro Piauí de carro, fazíamos 4 cidades de quinta a domingo, show em Salvador direto… Então a gente já tinha uma estradinha. No lançamento do disco em 98 passamos por Niterói no Rio e tocamos em São Paulo, São Bernardo do Campo e Jundiaí. Anos depois também fizemos Sorocaba e fomos em Goiânia duas vezes, através do pessoal da Monstro Discos.

VLB - Lembranças especiais, já que Daniel, guitarrista da banda falecido em 2010, também tava com vocês?
RJ - Daniel cativava a todos com seu jeito tímido e na dele, mas soltava os cachorros com as guitarradas no palco… Era bem brincalhão nas viagens.

VLB - Fabinho, como foi crescer na Snooze?
FÁBIO OLIVEIRA - Dá uma sensação boa olhar pra trás e a história da banda se confundir com minha própria história pessoal. Isso também é refletido no decréscimo da produção, na medida em que fui envelhecendo, o que é a parte chata mas, enfim, faz parte quando a premissa foi sempre ser um hobby levado a sério, e não meio de vida.

VLB - Luiz, como você entrou na banda?
LUIZ OLIVA - Em 2004, eu tocava na Triste Fim de Rosilene e fizemos uma minitour por São Paulo. Fabinho tava morando lá e foi ver o show, fomos apresentados e no dia seguinte nos encontramos por acaso numa loja de discos. Eu tinha 18 anos e tava imerso no circuito hardcore. Fabinho era o cara da Snooze e foi massa conhecê-lo naquela situação, já que eu tinha o maior carinho e respeito pela banda que conheci por causa da minha irmã Kika, que me apresentou a demotape quando eu era guri. Tempos depois, de volta a Aracaju, Fabinho apresentava o Programa de Rock junto com Adelvan Kenobi, eu tava no quarteto instrumental Perdeu a Língua e fomos convidados pra uma entrevista. Durante a conversa, surgiu o convite pra tirar um som com a Snooze. Isso aconteceu em 2007 e entrei na banda logo no primeiro ensaio.

VLB - O EP "Empty Star" é a única gravação com você na banda?
LO - Gravamos tributos pro Second Come e Pastel de Miolos. Poucos registros em estúdio, mas temos novas ideias e composições. Nunca conseguimos nos organizar pra gravar um novo disco, mas o ímpeto existe e penso que isso pode acontecer a qualquer momento.
FO - Eu tenho um quarto disco na cabeça há uns bons anos, e parei de me preocupar. Quando chegar a hora a gente vai gravá-lo e vai ser bem diferente de tudo que a banda fez até hoje.

VLB - Como cada disco marcou vocês, já que foram gravados entre grandes intervalos de tempo e com diversas formações?
FO - À medida que convive com pessoas diferentes, que se tornam próximas, sua personalidade também vai mudando. Com certeza existe um Fabinho em cada um dos trabalhos…
RJ - Todos os músicos que passaram deram sua influência, isso é um processo bem natural. A única formação meio criticada pelos fãs mais antigos foi sem a presença de Fabinho, ele continuava na banda mas tava morando em SP e era importante manter a atividade naquele momento específico em que lançamos o terceiro álbum.

VLB - Rafael, voce sempre foi um cara muito ativo: é bombeiro, surfista fissurado, pai de 3 filhos e toca com meio mundo de gente. Como arruma tempo e disposição pra tanta coisa?
RJ - Sou músico full time e é o que sei fazer na vida. Encontrei remuneração fixa na área através de concursos públicos, em 1995 pra Orquestra e em 2002 pra Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Sempre conciliei essas atividades com o surf e a criação dos filhos, tocando com artistas que me chamam e em casas noturnas e bares. Paralelamente, também dou aulas. Entre 2007 e 2013 ainda encontrei tempo pra fazer graduação em Música pela UFS.

VLB - Fabinho também tem formação musical, além de Psicologia, confere?
FO - Confere, mas ainda sou formando em licenciatura em Música. Também dei aulas de inglês e atualmente sou coordenador musical no Sesc.

VLB - E Luiz se especializou em engenharia de som…
LO - Eu já brincava com áudio desde moleque, quando comecei a tocar aos 13 e gravar minhas idéias em K7 num microsystem Aiwa que tinha uma entrada de microfone e num gravador de jornalista que me permitia gravar ambientes na rua. Logo depois chegou o computador e pude implementar a danação. Em 2009 me candidatei a uma vaga de estágio na Fundação Aperipê, logo após ter feito o curso de desenho de som e captação de som direto no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, e foi aí que a parada ficou mais séria. Fui selecionado e depois de um ano de trampo meu ex-chefe saiu e fui convidado a assumir o lugar dele. Fiquei lá até 2012, tive a chance de aprofundar meus conhecimentos em diversos segmentos da produção de áudio e aproveitava todas as férias e folgas pra fazer cursos dentro e fora do estado. Entre o som ao vivo, estúdio e audiovisual, pude trabalhar com orquestra sinfônica, grupos folclóricos, bandas do pé-de-serra ao thrash metal, documentários e longas-metragens.

VLB - O clip de "704", cover do Second Come, foi gravado no seu estúdio em casa?
LO - Eu tinha acabado de me mudar pra um apartamento e o registro aconteceu nesse fluxo. Tudo muito simples, filmamos com uma condição: os takes que constam no vídeo deveriam ser os mesmos da faixa gravada. Sem dublagem. Elialdo Galdino, grande comparsa e editor deveras competente, foi o responsável por tornar a ideia possível. O Second Come é uma banda histórica e o tributo saiu pela Midsummer Madness, do Rodrigo Lariú.

VLB - A clássica pergunta: por que cantar em inglês? Sei que vocês não gostam dela e que a Snooze surgiu num período em que as guitar bands brasileiras procuravam mesmo se distanciar do "Rock Brasil" dos anos 80. Mas nunca surgiu a inspiração pra uma letra em português?
FO - O que posso dizer é que, apesar de não ser minha língua mãe e eu nem sequer ter morado na gringa, as letras em inglês soam pra mim naturais, descobri esse universo através dos discos. O rock brasileiro eu já havia esgotado na pré-adolescência, então tudo o que soava e eu internalizava era em inglês. Então é meio fazer algo que você já tem prática. Compor em português seria começar do zero e, não, não estou interessado.

VLB - As letras da Snooze são existenciais e sentimentais. Como é tocar num evento mais engajado e combativo como o Clandestino? Onde essas linhas se cruzam?
FO - Nossa linha de combate é o rock, quer mais? 20 anos de suicídio comercial e você quer mais? Brincadeiras à parte, nós fomos convidados pra tocar na última edição com o Wry, mas a data chocou com minhas atividades no Sesc. Ficamos felizes com a insistência e o convite pra esse agora.
LO - Toquei a primeira vez no Clandestino em 2014, numa edição especial da Triste Fim de Rosilene e Karne Krua. Aconteceu no half pipe do conjunto Inácio Barbosa e foi surreal! Chego junto com o projeto sempre que posso, realizei um minidocumentário da décima edição, gravei o áudio de outras tantas e só de comparecer e ocupar os espaços já sei da importância que isso confere. O hardcore exerceu uma influência brutal na minha vida. Aos 17, quando recebi o convite do Ivo pra entrar na TFR, eu era o típico moleque que não tinha família com condições pra me bancar e tocar guitarra era a melhor coisa que eu sabia fazer. De cara, me vi inserido num circuito articulado, que se nutria do faça-você-mesmo e que prezava por uma vida mais simples e autônoma. Conservo essas posturas até hoje e entendo a capacidade de articulação que só os coletivos podem exercer. É massa perceber que estamos na ativa e podemos contar uns com os outros até hoje.
RJ - Adorei o convite pro Clandestino, é um evento autêntico e honesto, feito por pessoas que confiamos e também admiramos. Acho que vai ser bem legal e é uma oportunidade pro pessoal mais novo que nunca viu a banda, já que a gente tem tocado tão pouco.

VLB - Vocês imaginavam que aquela banda de irmãos que ensaiavam no quarto se tornaria cult 20 anos depois?
FO - Era tão espontâneo que a gente nem pensava. Fazer planos era mais no nível do fantástico do que realidade.
RJ - Às vezes acho até graça e penso que é supervalorizada, sei lá. Nossos fãs acabam se tornando amigos. Por outro lado, tem uma galera nova que não faz ideia de nada, o que já fizemos e por onde andamos. Pra mim o meio termo tá bom. Fizemos nossa parte e de alguma forma abrimos caminho pra uma galera que tá aí.

VLB - O que vem pela frente pra Snooze?
LO - A Rússia invadindo ou não o Brasil, vamos fazer um show irado no Clandestino!
RJ - Espero que venha mais material novo e não apenas shows saudosistas. Aviso que tá confirmada a Festa da Antevéspera dia 30/12, nos encontramos lá!

DISCOGRAFIA
Snooze (demotape) - 1995
Waking Up… Waking Down (álbum) - 1998
Let My Head Blow Up (álbum) - 2002
Snooze (álbum) - 2006
Empty Star (EP) - 201

#
 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Adriano Stevenson is a punk rocker

Adriano Stevenson é gente que faz! Guitarrista e compositor de punk rocks desde meados da década de 80 do século passado – sim, somos pessoas do século passado – segue firme com a Rotten Flies, da Paraíba, compondo e tocando e viajando e “fanzinando”. E irradiando som e fúria pelas ondas do rádio. Às quintas feiras, a partir das 20:00, via Tabajara FM, de João Pessoa. Ou em sua caixa postal, via correios, através do jornal “Microfonia”. Ou num palco precário de algum clube imundo, nas quebradas do “underground”. Ou não – às vezes rolam umas produções “decentes” ...

"Saco de Gilete", o mais recente lançamento da Rotten Flies, parece ter funcionado - a julgar pelo conteúdo de algumas letras e pelas entrevistas e declarações que li sobre o disco - como uma espécie de "volta por cima" da banda depois de uma fase conturbada. Fale um pouco sobre isso, a nova formação e a gestação do álbum.
Sabe aquela máxima: "Passaria por tudo novamente". Nem fudendo passaria por tudo novamente! Foi a gestação mais complicada, até porque o nome não era Saco de Gilete, era outra concepção, outra visão, e na real, todo mundo da banda já tava de saco cheio. Eis que, num mar revolto, aparece o cara que entra no barco pra somar. Falo de Francisquinho, vocal que veio com idéias e atitudes. Deu no que deu!  Francisquinho é o cara que tem a frase certa na hora certa, foi a tampa e a panela, o cocô e a privada.

Satisfeitos com o resultado final, em termos técnicos e artísticos? E a repercussão, como tem sido? 
Quando estávamos terminando a mix e master, comentamos: “Caralho, isso ta foda!” Não posso esquecer o nome de Marcelinho Macêdo, produtor local que entendeu a parada e fez acontecer. Saquei que o negócio pegou , quando fui pro Ugra Fest em São Paulo e lá passei alguns CDs pro pessoal do Ódio Social, então os caras ficaram nossos amigos desde criancinha. Recentemente, em São Paulo e Curitiba, tivemos uma repercussão muito boa! Mas a pergunta inicial era "Satisfeitos com o resultado final?" Sim, totalmente.

Estou acompanhando e vejo que vocês têm feito shows para além das fronteiras paraibanas, inclusive no sudeste do país. Está mais fácil fazer isso? Com base em sua experiência ao longo dos anos, consegue fazer um paralelo entre as dificuldades de uma banda "underground" para viajar ontem e hoje? A internet facilita? Até que ponto? Porque se por um lado agiliza os contatos, por outro deixa tudo ainda mais disperso e confuso, fora de foco...

Está mais fácil sim, a internet ajuda, não preciso mais colocar cola na superfície do selo (os caras que manuseavam cartas entenderão), a resposta é instantânea. Quanto às dificuldades, são mais de logística do que financeira, se tiver um integrante na banda que não quer, não pode ou que não está nem ai (o que chamamos aqui em Jampa de “empatafoda”) não vai virar. Isso independe de período, tanto ontem como hoje, o que tem que haver é vontade, o resto é correr atrás. Nesse rolê que demos no sudeste do país, por sorte, tudo foi amarrado e os caras que nos recepcionaram deram 110% de atenção, não houve roubada. A gente sabe que isso pode acontecer, mas a diferença é que hoje a roubada é compartilhada nas redes sociais, o nome do cidadão vira poleiro de galinheiro.

Já têm planos para o futuro? Já têm músicas novas compostas? Planejam lançá-las de que forma? O que pensam do dilema pelo qual passam muitas bandas hoje em dia, sobre lançar seu trabalho em CD, vinil ou apenas de forma "virtual", na internet? E como lidam com as novas estratégias para a divulgação de sua musica neste "admirável mundo novo" de comunicação instantânea e digital em que vivemos?
Não dou crédito para bandas que lançam virtualmente, hoje tá mais fácil lançar o material físico. Foda era nos anos 90 lançar um LP ou EP (vide Cambio Negro/Karne Krua/Discarga Violenta)! O negócio era trabalho de estivador, agora tá bem mais fácil. Atualmente usamos a mídia digital (principalmente para divulgação e comunicação), mas continuamos a enviar material físico. A Rotten Flies grava esse ano um LP, na realidade começou com a idéia de um EP, mas apareceu mais músicas e mais selos pra segurar a parada, vamos cair pra dentro.

Aproveitando o gancho: tem vendido bem, o disco? E os outros lançamentos do selo Microfonia, têm se pagado?
O Saco de Gilete tá sendo bem distribuído, tem quem pense que a gente é uma banda nova (acho isso ótimo). Os outros lançamentos, alguns sim, eles se pagam, outros não, mas quero deixar claro que a coisa funciona se a banda estiver tocando. Banda tem que gravar, lançar e pegar a estrada, aí a coisa gira.

Conte-nos um pouco sobre a história da Rotten Flies: quantos anos, quantas fases, quantos "perrengues", quantos prazeres. Fale-nos sobre "a dor e a delícia" (ui, Caetano!) de ser o que é - uma banda de Hard Core UNDERGROUND em atividade no nordeste do Brasil...
Vamos la ... Rotten Flies - completa esse ano 25 anos de atividades, muitos perrengues e bota perrengues nisso, prazeres, vixe... um bocado, se não tivesse essa parte , eu parava. Dia desses estava ai em “Buracaju” assistindo a Karne Krua, pensei comigo: Ah, o Silvio tá ali com 59 anos (NOTA DO BLOG: Ô EXAGERO, ele tá com 51. Olha aí, “sub”, ta querendo te dar mais anos do que já tem) e pula que nem uma criança. Se ele pode, eu posso também! Na frente de Silvio “Suburbano” (NOTA DO BLOG: este era o pseudônimo que Silvio usava nos primórdios da Karne Krua) eu sou um bebê (risos). Tenho só 43. Mas falando sério (ui, Roberto!) (NOTA DO BLOG: ui, gostei.) o combustível da banda é um pouco daqueles pirralhos de 16 anos que ainda permanecem putos e desconfiados de tudo.

Além da banda você tem outros projetos em plena atividade, notadamente um programa de rádio, o "Jardim Elétrico", e o jornal/selo "Microfonia",  ambos tocados em parceria com Olga Costa. Como se deu esse encontro de vocês dois? E como tem se desenvolvido, está dentro do que vocês planejaram? Ou não planejaram nada, apenas "aconteceu"?
Olga é jornalista e figura conhecida aqui em Jampa. Ela tinha uma loja de CDs chamada Paralelos Records, na qual eu não ia, pois o atendimento dela era péssimo, tão ruim que a loja fechou! (risos). Anos depois, a encontrei na Música Urbana, loja do nosso parceiro Robério Rodrigues, equivalente à Freedom de Aracaju. Conversávamos muito sobre zines, da falta que o mesmo fazia devido à migração de muitos zineiros para o mundo digital e como a gente tem em comum a vontade de nadar contra a corrente, surgiu o  Microfonia (periódico bimestral), que foi planejado, sim. O restante veio acontecendo sem muito planejamento. Nos anos 90 eu tive um selo chamado Cactus Discos. Em 1995 parei com essa atividade. Quando criamos o jornal/zine, resolvemos incorporar o selo ao jornal. O programa Jardim Elétrico já era pilotado por Everaldo Pontes e Olga desde 84.

Especificamente sobre o programa de rádio, ainda vale a pena fazer, em tempos de internet? Não seria o radio uma "midia morta"? Creio que não, mas gostaria de saber sua opinião...
Eu não tenho a dimensão exata do quanto a gente é ouvido em rádio. Eu caí nessa meio que de pára-quedas. Fui fazer uma participação, (nesse dia Everaldo faltou ao programa), gostaram do resultado e acabei ficando. O próprio Everaldo disse pra mim: Vai lá e se diverte. Eu respondi: Mermão, eu não tenho know-how pra coisa. Ele respondeu na bucha: "Tem sim!". Teve um dia que rolou o maior cacete entre eu e Olga no programa, foi ai que eu saquei que essa mídia funciona, a audiência subiu igual foguete. Não que eu me importe com audiência.

Antes da Rotten Flies você fez parte da formação de pelo menos duas outras bandas importantes para o cenário punk/hard core do nordeste, mais especificamente do Rio Grande do Norte - aliás, você é de lá ou é paraibano? - a Discarga Violenta e a Devastação. Fale um pouco de sua passagem por estes dois grupos.
Sou potiguar, “papa-jerimum”, como dizia minha mãe! Eu sempre fui o guitarrista reserva (só tem tu, vai tu mesmo), na Devastação foi assim, na Rotten Flies também. No Discarga Violenta foi diferente, a gente começou junto. Jean, vocalista da Devastação, me convidou para substituir Rômulo, que chegou a tocar no Festcore (Festival Punk de Aracaju). (NOTA DO BLOG: primeiro festival exclusivamente dedicado ao punk e ao Hard Core da cidade, que aconteceu na metade da década de 1980, produzido pelo pessoal da Karne Krua com bandas de várias partes do país, incluindo a Delinquentes, de Belém do Pará – que é longe pra cacete! Ok, Natal também não é ali na esquina ...). Ainda peguei o III Encontro Anti-Nuclear, produzido por Nino (Cambio Negro). Ele ainda tem o vídeo da Devastação comigo na guitarra, preciso pegá-lo. Devastação foi um puta aprendizado! Hoje o trabalho que faço com a Rotten Flies é muito calcado nessa época. Vendo em retrospecto, entendo a escolha de Jean em ser professor, naquela época o cara já chegava no point com zines, fitas e outras publicações para a alegria da punkarada. O cara já tinha na veia o didatismo. No Discarga Violenta, eram três pirralhos que queriam fazer muito barulho... conseguimos, fizemos muito barulho em todos os sentidos.

Por fim, nos fale sobre os primórdios: como começou seu interesse pela cultura punk underground e seus derivados? O que te levou por este caminho? Imagino que tinha, por aí, as mesmas dificuldades que nós, por aqui, em termos, principalmente, de informação, naqueles tempos "analógicos" em que tudo tinha que ser resolvido por telefone ou por carta...
Estamos falando de 1985, quando o rock nacional estava a toda. Correndo por fora, a New Face, Wob Bop, Baratos Afins, o subterrâneo sempre me chamou a atenção. No ano seguinte o RDP lançou Descanse em Paz, consigo uns Coléras, e outras coisas, conheci uns malucos no colégio que gostavam de punk/HC, não deu outra, vida entortada. Me apresentaram Sopa D'osso(NOTA DO BLOG: ativista punk e anarquista, uma figura importante – e lendária – do cenário local), que depois de vinte anos entrevistei pro Jornal Microfonia. Correspondências, muitas correspondências com o Brasil todo. Cartas, zines, fitas, LPs, a era de ouro. O que mudou? Só a perspectiva.

Uma última pergunta: "Stevenson" é pseudônimo ou sobrenome?
Mainha adora Robert Louis Stevenson, portanto me deu o nome em homenagem ao escritor de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Meus filhos também levam o Stevenson. Eu particularmente sou um pouco médico e monstro, quando sou bom, sou bom, quando sou ruim, sou ótimo.

Adelvan perguntou.
Adriano respondeu.

#

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Michael Moore, uma entrevista ...

Em 18 de janeiro, dois dias depois do lançamento de Sniper Americano, de Clint Eastwood, Michael Moore tuitou: "Meu tio foi morto por um sniper na Segunda Guerra Mundial. Aprendemos que snipers eram covardes. Atiram pelas costas. Snipers não são heróis. E invasores são piores"; em seguida, continuou: "Mas, se você estiver no teto da sua casa se defendendo de invasores que vieram de 11 mil km de distância, você não é sniper – você é corajoso, é um vizinho". A repercussão negativa da direita foi rápida e barulhenta. Breitbart chamou os tuítes de "trolagem patética", John McCain disse que essas colocações foram "idiotas" e "ultrajantes" e Kid Rock escreveu no seu site: "Vai se foder, Michael Moore, você é um bosta e seu tio teria vergonha de você". Mas a reação mais dramática aos tuítes veio de Sarah Palin, que posou ao lado do sargento Dakota Meyer, condecorado com a Medalha de Honra, com um cartaz escrito"Vai se foder, Michael Moore". Os dois Os do nome do cineasta foram substituídos por duas miras.

Depois de atrair críticas da direita e da esquerda, Palin defendeu a foto durante um discurso bizarro e incoerente na Cúpula pela Liberdade de Iowa, no sábado seguinte, afirmando: "O que o cartaz disse é o que todos nós estamos pensando". Moore, de sua parte, não apareceu na TV nem reagiu à polêmica para além de alguns posts no Twitter e no Facebook, mas aceitou falar longamente com Eddy Moretti, da VICE, sobre sua opinião a respeito de Sniper Americano, franco-atiradores em geral, Sarah Palin, transtorno de estresse pós-traumático, a vez em que Clint Eastwood o ameaçou de morte e um monte de outras questões que estão circulando no circo da mídia no momento.

VICE: Oi, Michael. Vamos começar com os seus tuítes: antes de falar sobre a reação que eles desencadearam e te dar a oportunidade de esclarecer o que você quis dizer, o que te inspirou a escrevê-los e como você se sentia emocionalmente quando postou?

Michael Moore:Bom, a primeira coisa que eu diria é que não sinto nenhuma necessidade de esclarecer ou defender o que escrevi. Tenho orgulho do que escrevi. Não volto atrás em nada e, aliás, só acrescentei mais coisas. Não me assusto com essas pessoas que aterrorizaram uma nação inteira para entrar em uma guerra ilegal e sem sentido. Então, mesmo, em termos de impacto, isso não tem nenhum em mim. Eu disse o que disse. Claro, se estivesse errado ou tivesse cometido um erro, com certeza corrigiria, mas não é o caso. E fico meio mal quando vejo na TV ou escuto outras pessoas falando, tipo: "O Michael Moore voltou atrás". Bom, isso não aconteceu. Não me desculpo pelas minhas opiniões fortes no sentido de como quero que o belicismo neste país acabe.

E acho que o motivo pelo qual estamos tendo esta conversa também – e não falei sobre isso com mais ninguém, recusei todos os pedidos de programas de TV – é que o problema do Twitter e por que você precisa... vamos usar a palavra esclarecer: é porque 140 caracteres não conseguem expressar coisas que têm uma profundidade enorme. Então, postar no Facebook e falar com você me dá uma boa oportunidade de acrescentar ao que eu disse no Twitter.

O que me chamou atenção é que tem duas coisas que você está discutindo em mídias diferentes. No Twitter, você fala sobre a questão dos snipers, que é um assunto fascinante e que merece um pouco mais de discussão, e aí tem o filme chamado Sniper Americano.E parece que você está falando de duas coisas diferentes. Estou certo? 

Correto. Intencionalmente, não falei nada sobre Sniper Americano nos primeiros tuítes. Com certeza, escrevi o que escrevi, porque,naquele fim de semana, estava se falando muito sobre snipers por causa do filme, mas também porque era o fim de semana do dia de Martin Luther King e achei indelicado que uma coisa chamada Sniper Americano, um filme sobre um franco-atirador, fosse lançado no fim de semana em que homenageamos um grande americano que foi morto por um. E, se ninguém vê nada de errado com isso, como você se sentiria se anunciassem amanhã que o Sniper Americano 2 vai ser lançado no dia 22 de novembro (dia da morte de John F. Kennedy)?

É, não fariam um filme sobre algum tipo de ataque catastrófico e lançariam no dia 11 de setembro, por exemplo.

Exatamente. Uma loja de eletrodomésticos não vai fazer um anúncio no Dia da Memória do Holocausto do tipo: "Hoje, promoção de fornos". Quer dizer, esse seria o exemplo mais extremo e bizarro, mas mostra um pouco de falta de sensibilidade. Ou será que mostra? Vai ver que o plano era: "Bom, acabaram de lançar Selma. Será que os brancos vão assistir a esse filme? Vamos oferecer alguma coisa para os brancos assistirem no fim de semana de Martin Luther King". Sei lá, foi muito desconfortável. Isso me fez pensar em snipers, e se precisa ter crescido na minha família para entender a indignação intensa que a ideia do franco-atirador criou.

O nome do meu tio era Lawrence Moore, mas chamavam ele de Lornie. O tio Lornie foi uma pessoa que não conheci, porque nasci nove anos depois da guerra, mas, desde muito cedo, estava claro para mim que a morte dele tinha afetado muito a família. O impacto na minha avó foi muito intenso. Quando finalmente mandaram o corpo dele de volta e enterraram no cemitério católico de Flint, ela convenceu o marido a saírem da casa deles. Eles se mudaram para uma casa a duas portas do cemitério. E ela ia lá todo dia visitar o túmulo dele. E, para piorar ainda mais, a placa militar enviada para o túmulo pelo Departamento da Guerra – era assim que chamava antes de virar Pentágono – não tinha o nome do Lornie, nem Lawrence Moore, mas Herbert Moore, que era o marido dela, meu avô, Herbert (eles também tinham um filho, outro dos meus tios, chamado Herbert). Então, não tem nem o nome dele na lápide.

Era um ritual que acontecia duas ou três vezes por ano com todas as crianças: ir lá e colocar bandeiras no túmulo. Ele era um irmão querido. Para todas as tias e tios, ele era querido, o gentil, aquele que todos procuravam, e isso impactou muito a família. Sabe? A batalha já tinha acabado nas Filipinas e eles tinham ganhado, essencialmente. Eles estavam na província de Luzon marchando para a base por uma estrada. Os soldados japoneses eram conhecidos por não desistir, e um franco-atirador em cima de uma árvore atirou por trás na cabeça dele e o matou na hora. Eles simplesmente não entendiam que tinha acabado, por que é que... que ato absolutamente covarde.

Postei também um segundo tuíte imediatamente, porque quis esclarecer o que eu queria dizer com "sniper". Um sniper, para mim, é a pessoa da força invasora. É o soldado e as pessoas que estão fazendo errado, que sobem nos prédios ou em árvores, e se escondem, e derrubam pessoas sem elas saberem, sem sequer terem a chance de contra-atacar. Se as tropas de outro país estivessem marchando pela Broadway e alguém subisse num prédio para tentar pará-los, de jeito nenhum, isso não é um sniper. É um defensor ou defensora da sua casa. Assim como a pessoa que era o sniper, o franco-atirador árabe em Sniper Americano: o que ele estava fazendo? Estava tentando impedir a força invasora.

Antigamente, os snipers eram chamados de "sharpshooters" ou "marksmen" (atiradores de elite). Só foram começar a ser chamados de snipers na Primeira Guerra Mundial – e foram os alemães nessa época que aperfeiçoaram o conceito de sniper, não os aliados. E aí isso continuou. Na Segunda Guerra –acho que dá para procurar isso –, dois terços de todas as mortes provocadas por franco-atiradores foram por soldados alemães e japoneses. E, com o desenrolar da guerra, os russos descobriram como fazer isso. O que o Eisenhower fez em 1956, 1957: tinha a escola americana de snipers no Campo Perry em Ohio, e ele fechou.

Por quê?

Não sei. Quer dizer, fiz umas pesquisas nesta semana. Ele ficou fechado 30 anos, até que o Reagan reabriu em 1987 no Forte Benning. Depois da guerra da Coreia, se falava muito – um veterano me contou essa história – que isso não tinha muito a cara dos americanos. Os franco-atiradores são muito necessários para a força invasora. Com o lado que se defende, a caça acontece de muitas formas. Tipo, se fôssemos atacados, todos nos tornaríamos, como tal, snipers, se você quisesse usar essa palavra. Mas, quando chegam os libertadores, são os snipers que matam os libertadores. E essa é a confusão, obviamente, quando você assiste à FOX News. Quer dizer: falando sobre Sniper Americano, eles falam dos soldados americanos como libertadores do Iraque! Não libertamos nada. Aliás, pioramos a situação e perdemos a guerra! Coloca isso aí na coluna das perdas. E as pessoas deviam treinar dizer isso. Será melhor no futuro se conseguirmos dizer que perdemos no Vietnã, perdemos no Iraque, perdemos no Afeganistão. Por que inventamos esse conto de fadas sobre nós mesmos? Não ajuda em nada e só vai fazer a gente ter mais problema no futuro.

A direita no país está defendendo esse filme e ele vem tendo muito sucesso. Se você presumir que um filme faz sucesso porque as pessoas amam o personagem principal, poderia-se dizer que os americanos estão adorando esse atirador, certo? Por que você acha que isso acontece? Você está certo: em geral, os snipers sempre foram uma ameaça. É sempre o coitado pego na praça que leva o tiro e o franco-atirador está sempre escondido, numa atitude sorrateira. Mas o que esse sniper está fazendo para a consciência coletiva norte-americana que tanto satisfaz as pessoas e estimula a ida ao cinema? Tem um psicodrama incrível acontecendo em torno desse filme no nível psicológico nacional. 

Sim, e tem a ver com o fato de que, psicologicamente, sabemos que estamos errados. Sabemos que não havia armas de destruição em massa. Sabemos que 4.400 jovens americanos perderam suas vidas e inúmeras dezenas de milhares de iraquianos. Sabemos disso tudo – e sério, no fundo, é uma culpa muito arraigada.

Além disso, muitos republicanos órfãos da Guerra Fria que também vão ao cinema não vivem numa bolha. Eles têm familiares ou vizinhos, pessoas que voltaram dessa guerra transtornadas. Temos um problema enorme de transtorno de estresse pós-traumático. Temos um problema psicológico enorme aqui com os soldados que voltaram dessa guerra. E vou te dizer: nas duas vezes a que assisti, no final fica um silêncio. Ninguém comemora. Mesmo quando o Bradley Cooper mata o Mustafa, o sniper árabe, não rolou um "uhuu". E acredite: assisti com um público que não está do meu lado do muro político. E eles ficaram muito abalados, muito tristes. Todo personagem principal do filme acaba ficando perturbado pela guerra ou morre. E não é uma celebração disso. As pessoas podem entrar no cinema pensando "Ha ha!", mas não saem dizendo "Ha ha!".

A última coisa que vou dizer é que muita gente quer assistir agora por causa da polêmica e também porque foi indicado a Melhor Filme, e as pessoas querem ver o melhor filme. Além disso, é o Clint Eastwood: ele já fez alguns dos melhores filmes. Então, tem muitos motivos para as pessoas assistirem, mas vou te dizer: assisti na segunda noite na Union Square, e não tinha uma pessoa sequer que morasse no Village naquele cinema. Só tinha gente que pegou o trem de Nova Jersey ou de Long Island. E a pesquisa foi feita: o estúdio quer saber quem vai ao cinema. E o público desse filme é formado por pessoas que vão ao cinema uma vez por ano ou [por] gente que nunca vai ao cinema. É o público de A Paixão de Cristo que está nessas salas.

Vamos voltar um pouco à questão do sniper e à distinção que você faz entre comentários sobre snipers e sobre o filme Sniper Americano. Você tem uma conexão muito pessoal com o franco-atirador e seus efeitos, e não existem muitas histórias modernas sobre snipers que ecoem na consciência americana – tirando, talvez, se você voltar à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, como você estava dizendo.

Só que, mesmo nessa época, se você tentar lembrar, não tem um sniper que, com o tempo, a sociedade aceitou como herói americano. Não faz parte da nossa cultura. Tem uma história famosa do Jesse James e do covarde que atirou nele pelas costas. Ele estava pendurando um quadro na parede da casa dele quando um cara chegou na janela, atirou e o matou. O Jesse James não é lembrado como o canalha. Ele era ladrão e assassino, mas o cara que o matou é o canalha na história que se contou.

Crescemos ouvindo histórias assim. Nossos pais contam, pelo menos para os meninos, que atacar alguém pelas costas é uma atitude covarde. Acertar alguém sem a pessoa te ver, vir por trás, isso é considerado errado. A própria palavra sniper: já ouviu a palavra sniping (tocaia, emboscada) ser usada de um jeito positivo?

Não, nunca.

Tem um contexto negativo. Não fui eu que inventei isso outro dia no Twitter. É uma crença comum, e é por isso que nunca fomos conhecidos pelos nossos chamados snipers. Nas guerras das quais participamos, sempre é o outro lado que tem snipers. E não é que a gente nunca tenha tido atiradores de elite. Pelo amor de Deus, eu já ganhei um prêmio de atirador de elite da NRA [Associação Nacional do Rifle americana] quando era criança. Mas acho que o sniper normalmente é associado com o lado do mal, o que está lesando, sejam os alemães nas duas guerras ou os japoneses no caso do meu tio.

Saiu outro filme agora chamado Corações de Ferro. Você já viu?

Já, já vi.

Também tem um franco-atirador no filme e, no fim, ele mata o herói americano. Então, parece que o valor do sniper está nos olhos de quem vê. É o sniper malvado camuflado que mata o Brad Pitt, que estava destruindo um batalhão de soldados da SS.

Eu gostei desse filme. É um filme de guerra bem feito e me deixou nervoso mesmo na cadeira do cinema. E antes, no filme, quando eles chegam na cidade onde tem outro sniper alemão, que era o problema de todos os americanos que chegavam nessas cidades. A força invasora, os alemães, estavam ocupando a cidade e tentando deter os libertadores. Eles não poderiam ganhar numa briga justa, e pode-se dizer que os americanos tinham mais tropas, mais dinheiro e mais poder de fogo. Mas também faço uma análise mais zen: [a de] que o opressor, o invasor, o agressor basicamente – não sempre, mas muitas vezes – em toda a História é derrotado. Em outras palavras, o bem triunfa sobre o mal. Com algumas exceções – os povos indígenas sendo, claro, uma óbvia.

Recebo um monte de e-mails de gente dizendo:"O Chris Kyle protegeu nossas tropas e salvou vidas". Bom, o que quer dizer isso: "salvou vidas"? As vidas dos nossos soldados não deveriam estar em risco para começo de conversa. Nós é que estávamos errados. Nós éramos a força invasora e acabamos perdendo. Fomos até lá com falsos pretextos e deixamos o lugar muito pior do que estava quando chegamos.

Considerando sua história e seus sentimentos pessoais a respeito do conceito de sniper, você pode descrever como se sentiu quando entrou na sala de cinema e também quando saiu?

Bom, fui na segunda noite da estreia. Só estava passando em quatro cinemas no país. Gosto do Clint Eastwood e queria ver esse filme. Sinceramente, o trailer e as propagandas na TV dele são melhores do que qualquer outro filme do ano. Mas, quando cheguei lá, da fila da pipoca até entrar no cinema, falei: "Nossa. Olha aí, estamos no Village e não tem ninguém do Village aqui". Daí umas pessoas me viram, e uma falou "Opa, que bom que você está aqui" e agradeceu pelo meu trabalho.

Fiquei muito feliz de estar lá com esse público, porque eles ficaram muito abalados. As pessoas choravam. Ficou claro que estávamos em um cinema com 800 veteranos, militares, familiares ou amigos, e pessoas que nunca vão no cinema. Aliás, a pessoa com quem eu estava ria porque eu meio que fiz as vias de lanterninha. Ir no cinema em Nova York é diferente de outros lugares, e as pessoas entravam, olhavam, não encontravam lugares para sentar juntas e entendiam como o sistema funciona. Elas estavam muito fora do seu habitat. Nem sei dizer, eu devo ter dito umas doze vezes: "Olha, tem ali em cima". E eles olhavam impressionados, porque não sacaram sozinhos. E eu perguntava para as pessoas: "Você pode tirar esses casacos daqui? Pode deixar esse casal sentar?" Parecia que eles estavam muito confusos, com uma cara que eu provavelmente faria se estivesse tentando achar um lugar para sentar na sociedade de debates de Oxford.

Enfim, fiquei muito feliz de estar lá com esse público, porque eles ficaram muito abalados. As pessoas choravam. Elas estavam reagindo àquilo. Nos créditos finais, não tinha música, foi muito sombrio. Todo personagem principal do filme acaba transtornado pela guerra, se volta contra a guerra ou morre. Não tem uma vitória norte-americana a se comemorar no final e não tem ocasião de olha só o que fizemos, ou como no fim de O Resgate do Soldado Ryan, em que você vê o Tom Hanks morrendo, mas no fundo você pensa: Bom, ele não morreu em vão. Não tem nada disso nesse filme. Não tem catarse. Conversei com a Deb, que organiza meu festival de cinema em Traverse City, e ela disse a mesma coisa. Ela foi assistir no shopping. E disse que foi triste do começo ao fim. Disse que tinha muita gente conversando durante o filme, a maioria fazendo perguntas porque não entendia a política, não entendiam a coisa xiita-sunita, e perguntavam: De que lado ele está? Tinha muita ignorância na plateia.

Mas é interessante. Vi hoje que ele vai quebrar o recorde de bilheteria de filme recomendado para maiores de 17 anos, que até agora era de A Paixão de Cristo. E acho que estão descobrindo que o público é muito parecido. Não são pessoas que normalmente vão ao cinema, e se vão, não vão com muita frequência. Cinquenta por cento do público norte-americano nunca vai ao cinema. E outros 25% que vão só vão uma vez por ano. O público que frequenta o cinema são esses últimos 25%. Parecia mesmo o público de A Paixão de Cristo. Gente que normalmente esperaria sair em vídeo ou veria na TV, mas queria esse sentimento coletivo de sentar lá com os outros.

Deixando de lado suas questões com snipers e a política da guerra, seria justo dizer que você não tem nenhuma questão com o filme enquanto produção?

O filme em si não comento normalmente, se você segue meu Twitter. Eu, como muitos cineastas e diretores, tem meio que um código informal implícito de que não criticamos os filmes uns dos outros. Se não gostamos de um filme de outro diretor, não dizemos nada. Se gostamos, aí falamos aos quatro ventos e incentivamos as pessoas a assistirem. É por isso que é raro encontrar um cineasta atacando outro por um filme. Porque todos nós sabemos como é difícil fazer um bom filme. A única vez que fiz isso no passado foi quando me senti muito mal por tanta gente, principalmente trabalhadores, que estava pagando para ver uma coisa que disseram que era uma coisa e não era, e aí eles ficariam péssimos. Eles dão duro a semana toda, e hoje é muito caro ir ao cinema, comprar um doce e coisas para as crianças. É o que acho. Então, sobre o filme, eu não disse nada nos primeiros dois tuítes. E depois, quando finalmente escrevi mais do que 140 caracteres, quando fui no Facebook e disse: "Bom, não vou dizer nada sobre Sniper Americano, mas vou dizer o seguinte: Bradley Cooper, uma das melhores atuações do ano". Sem dúvida. Como ele se transforma... você nem pensa que é o Bradley Cooper.

Steve Carell fez a mesma coisa em Fox Catcher. Muito rapidamente, aquele cara "Steve Carell" some e no lugar aparece um monstro.

Exatamente. Esse é o sinal de um bom ator; então, esse é o meu primeiro comentário positivo sobre o filme. A segunda coisa é que, tecnicamente, é um filme bem feito. Acho que houve algumas boas escolhas em termos de... foi muito ousado não colocar uma música no final, só os créditos subindo no escuro. Preto e silencioso. Como história, acho que é aí que o filme fica um pouco complicado para mim, porque o Clint basicamente quer fazer um faroeste das antigas – tudo muito simples e sem complicar as coisas. Por exemplo: as Torres Gêmeas foram atacadas, eles são chamados e, de repente, estão no Iraque.

Se você não presta atenção em nada, basicamente o filme diz: "Fomos atacados e aí contra-atacamos no Iraque". Claro, sabemos que o Iraque não teve nada a ver com o 11 de setembro, mas o filme deixa implícito que tem e que essa é a missão em que ele está para defender nosso país. Mas não estamos sendo defendidos por ele estar no Iraque. Você pode defender que ir ao Afeganistão para detê-los, e tentar pegar o Bin Laden e tudo isso, que teve alguma legitimidade. Mas, antes, estava tudo nas mãos de um comandante-chefe incompetente, e o novo chefe levou 13 meses – se tanto – para fazer o trabalho que o Bush teve oito anos para fazer: pegar o assassino em massa. Então, tem problemas de narrativa no filme, e acho que é por isso que as pessoas na plateia ficavam falando, porque estavam confusas. Sniper Americano cobre o que parece cerca de cinco ou seis anos, ou três ou quatro incursões no Iraque, e é tipo: "Como é que ele sempre acaba na mesma cidade com aquele mesmo cara?". É meio bobo nesse jeito faroeste das antigas. Foi meio filme B nesse sentido. E, claro, tem todas as coisas históricas que estão erradas, mas não queremos entrar nisso. É um filme. Não estou assistindo como documentário.

Mas acho que as pessoas ficam muito abaladas com o que fizemos e continuaremos a nos abalar com isso. Onde eu moro, em Traverse City, criei programas de apoio a veteranos com transtorno de estresse pós-traumático. Faço conferências para encontrar empregos, montei o primeiro programa de ação afirmativa para contratar especificamente veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, e qualquer militar da ativa e familiares pode entrar nos meus cinemas de graça todos os dias do ano: eles não pagam um centavo. Não são muitas empresas que oferecem coisas de graça todo dia do ano para militares da ativa. E tem três cinemas que restaurei, são todos sem fins lucrativos. Montei para que sejam das comunidades onde estão localizados.

O filme está passando no seu próprio cinema, né?

É, estou exibindo o filme em um dos três cinemas. E isso é porque acho que faz parte do debate americano e as pessoas devem assistir. Não dá para falar sobre ele sem ter visto. Vi o John McCain me criticando ontem pelo que eu disse sobre os snipers em geral, e um repórter perguntou para ele se ele tinha visto o filme, e ele disse: "Não, ainda não vi". Isso me fez lembrar de quando ele foi no Lettermane criticou o 9/11,e o Letterman falou: "O senhor viu o filme?". E ele disse: "Não, ainda não vi". E o Letterman disse: "Senador, o senhor acha que é certo criticar coisas que o senhor não viu?". E ele respondeu: "Não, você deve estar certo. Preciso assistir".

Eu não passaria Transformers 5, porque é uma merda. Mas esse não é uma merda de filme. E, aliás, o Clint Eastwood até disse que tem um sentimento muito forte contrário à guerra no filme. Me diga, Eddy: quando você saiu do cinema depois de assistir, você pensou: "Que ótimo filme para recrutar jovens para o serviço militar?".

Acho que eu meio que me preparei para uma propaganda de direita quando fui ver o filme. Quando assisti, fiquei assustado, porque parecia um jogo de FPS. Pensei que isso tem um potencial muito perigoso. Se as pessoas achassem emocionante e pensassem: "Nossa, o Iraque é uma versão na vida real de um jogo de videogame que estou jogando. Legal". Então, foi um momento alarmante. Mas fiquei vidrado o filme todo. Não tirei os olhos da tela em nenhum momento. Então, é: fui preocupado e achei que o filme justificou, sim, a preocupação, mas agora, falando com você, talvez tenha uma mensagem contrária à guerra ali.

Tá, primeiro ele encontra o irmão na pista. Ele fica muito feliz de ver o irmão, que vai pegar um avião para ir embora de lá. Você vê que o coitado está completamente traumatizado. O sniper americano, Chris Kyle, está todo animado de vê-lo, e aí o irmão finalmente conta a verdade para ele: "Que se foda este lugar". Quantas vezes já ouvi isso dito por caras que voltam de lá? "Que se foda esse lugar". E aí o melhor amigo dele é morto: ele vai ao velório com a esposa, e a viúva do amigo lê a última carta que ele mandou, uma carta contra a guerra. Entende? A guerra é um erro.

Clint Eastwood não é um ideólogo da direita. Ele é uma miscelânea maluca politicamente. E, na verdade, ele é um libertário. Se quiser rotulá-lo, deve ser provavelmente nisso que ele acredita politicamente. Não acho que ele acredite que os Estados Unidos deveriam ser a polícia do mundo. Já é muita coisa mostrar que o irmão é contra a guerra, o melhor amigo é contra guerra. Parece que o Chris é o único que está tipo "Uhuu!". Todo mundo olha para ele do tipo: "Está louco? Vamos abaixar a cabeça e cair fora daqui o mais rápido possível, porra."

Todo mundo sabe da mentira que o Chris fica dizendo para si mesmo: de que vale a pena. Ele tem de repetir isso, porque provavelmente sabe, no fundo do coração, que não vale nada a pena. Não tem nada a ver com defender os Estados Unidos da América, que é o único trabalho deles. É para isso que pagamos nossos impostos. Para que, se formos atacados ou alguma coisa nos ameaçar, sejamos protegidos. Isso não estava nos ameaçando. O Iraque não estava nos atacando e não estava planejando nos atacar.

Lancei um livro de cartas de soldados, porque recebi muitas de pessoas que se alistaram depois do 11 de setembro. Queriam fazer a sua parte e, dois anos depois, foram mandadas para o Iraque e pensaram: "Mas que porra estou fazendo aqui? Não foi para isso que me alistei".

Parece que o que você está dizendo é que o filme é menos unidimensional do que o discurso em torno dele e a crítica contra você, que é quase mais míope do que o filme em si.

Sim, exatamente. E aí a pergunta precisa ser feita: por quê? Como foi que eu me tornei... por que virei o bode expiatório? Quer dizer, eu li o que o Noam Chomsky escreveu sobre o assunto. Li Matt Taibbi, li Chris Hedges... li o que os pensadores da extrema-esquerda disseram, e são todos muito cruéis e ferozes contra o filme. E concordo com muito do que eles dizem, mas não vão atrás deles. E o motivo pelo qual foram atrás do Seth Rogen é porque temos uma grande penetração no mainstream do norte-americano médio. Meus fãs, e obviamente a igreja da esquerda, adoram meu trabalho, compram meus livros e assistem aos meus filmes, mas, se fossem só eles, eu estaria condenado. Meus filmes passam em alguns shoppings e cinemas comerciais. E isso é muito incomum para uma pessoa da esquerda – nosso trabalho, nossa arte –, alcançar a massa dos Estados Unidos. Então, isso me torna perigoso para eles, porque sabem que eu tenho esse público. Acho ótimo que, às vezes, receba comentários do tipo: "Como foi que ele conseguiu dois milhões de seguidores no Twitter? Alguém pode me explicar? Em que mundo vivemos?".

Não tenho um programa diário na TV como a Rachel [Maddow], não tenho um programa semanal como o Bill [Maher]. Meu último filme foi feito há cinco anos e meu último livro, há uns dois. Não estou na mídia todo dia. Não apareço na TV. E, mesmo assim, tenho um número de fãs enorme que vai muito além da igreja da esquerda – e,obviamente, Seth Rogen também, até mais, porque ele não é uma pessoa política. Ele está muito, muito no mainstream, principalmente com a geração mais nova. E isso o torna perigoso, e eles precisam detê-lo imediatamente. Ele não pensou em nada muito político, achei que foi uma observação muito astuta e engraçada que ele fez. Mas agora tem um restaurante em Michigan onde Seth Rogen e eu não podemos comer. Criei a hashtag #tableforsethandmike ("mesa para Seth e Mike") para qualquer restaurante que aceitar nos servir, por favor, mandar o nome para nós. [risos]

Obviamente, você viu o cartaz que a Sarah Palin levantou: "Michael Moore", com miras nos dois Os.

Aquele que acabou com a carreira política dela no sábado?

É.

É, eu postei aqueles dois tuítes no domingo. E, na segunda-feira, percebi que era melhor fazer um post no Facebook, porque moro em uma nação onde muita gente não consegue compreender. Fora que 140 caracteres não é muita coisa. Então, fiz [um post] no Facebook e decidi que não ia mais falar nada até sexta-feira. Não postei nada no Twitter sobre o assunto, não falei nada, não fiz nada: simplesmente decidi deixar esses malucos cansarem e gritarem a semana toda. Não vão me ver contra-atacando, o que vai aumentar ainda mais a gritaria e maluquice, e essencialmente deixá-los socarem a própria cara. Era isso que eu esperava que fosse acontecer. Pensa: a grande maioria dos seguidores dela são evangélicos. Gente cristã de bem. Eles ficaram chocados ao vê-la segurando um cartaz escrito "Vai se foder".

Essa é uma pessoa que se coloca como uma respeitável mãe americana.

É. Valores da família. Muito exemplar, e ela fala coisas do tipo: "Valei-me, minha nossa senhora". Ela ficou tão irritada comigo que abaixou a guarda e mostrou quem é de verdade, e a direita cristã viu e ficou horrorizada. A repercussão negativa nas redes sociais foi imediata e também se repetiu no sábado antes do discurso dela. Minha teoria é que ela achou que seu próprio povo se voltou contra ela, e isso deixou-a aturdida. E aí acho que o teleprompter pifou, né? Ela não conseguiu [se] recuperar, e estava bem no meio. Preciso ver de novo, não lembro. Vi na C-Span. Mas, no começo, ela estava me criticando, estava sendo muito criticada pelo próprio povo, e aí começou [a ir] para cima de mim, e o teleprompter cai. Então, enfim. Gosto de imaginar que foi um bom ou uma boa sindicalista...

Que desligou o aparelho?

[risos] Que desligou o aparelho. Mas, seja como for, ela ficou atordoada. Se você acompanha as notícias sobre ela agora, nos últimos quatro dias, só se fala que ela acabou. Estão atacando-a na Fox: Bill Kristol, que era um grande apoiador dela. Todas essas pessoas a abandonaram por causa dessas duas coisas que ela disse: segurar um cartaz usando a palavra "foder" e o atordoamento dela quando ela foi me atacar, e se perder e não conseguir mais falar.

Com as miras e os Os, ela já não tinha tido problema? O site dela alguns anos atrás não tinha miras em alguns distritos no país?

Sim, e ela teve de tirar. E, no cartaz do "Vai se foder", ela colocou miras nos dois Os do meu nome. E isso também teve repercussão negativa, obrigado por me lembrar. Então, foi por usar o palavrão e voltar a colocar a mira em um ser humano.

De qualquer forma, estou olhando a foto agora e ela está fazendo um sinal com a mão que é bem "trasheira". Sabe quando você levanta o dedinho e o dedão? Não sei nem como chama. Tem um nome.

É, sei do que você está falando.

É tipo um sinal meio festeiro. É bem engraçado.

[risos] É mais tipo: "Vamos matar esse filho da puta e fazer FESTA!".

Tem uma coisa que é muito zoada e grosseira no que ela está fazendo com as mãos. Preciso te fazer uma última pergunta, porque não posso terminar uma entrevista falando sobre a Sarah Palin. Você permite que pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático usem seus cinemas como espaços de reunião. Como você acha que o filme lidou com a questão do transtorno, já que o assunto é tão próximo de você?

Bom, eu me identifico com ele através dos veteranos que ajudo, mas também me identifico pessoalmente. Não tive de passar pelo que eles passaram no Iraque, mas tive de lidar com as ameaças que sofri depois do meu discurso no Oscar; e, depois de Fahrenheit, houve meia dúzia de agressões contra mim. Tive de contratar segurança, essencialmente seis ex-Seals da Marinha e Boinas Verdes, e eles pegaram um cara que fez uma bomba de fertilizante para explodir a minha casa. Então, também tive problemas nesse sentido.

Fiquei feliz [pelo transtorno] estar no filme. Sabe, o Clint não tentou retratar nem os soldados nem os veteranos como uma operação monolítica de He-Man. Eram todos gentis. E acho que são. Sei que isso desencadeou coisas boas para pessoas que querem lidar com o problema do trauma e acho que o filme vai gerar uma vontade de ajudar os veteranos que retornam. Espero que promova coisas boas em níveis emocionais. Mas, no nível cognitivo, os americanos que assistem a esse filme precisam se comprometer a nunca mais: nunca mais vamos permitir que uma situação como essa se repita.

E se presta pouquíssima atenção a isso... o grande funeral que fazem no final com a caravana parece uma coisa que se faz para alguém que morreu na guerra. A guerra em que ele morreu foi a guerra em casa – a guerra do veterano que retorna, mas não recebe ajuda. Mas também é a guerra de uma cultura americana, especificamente a cultura texana, que diz: "Claro, dá uma arma para todo mundo. Vamos para o campo de tiro. Ah, ele tem transtorno de estresse pós-traumático? Não tem problema, toma uma arma". A arma americana, a cultura e a atitude americana com relação às armas mataram Chris Kyle. E isso é tratado de forma muito breve no filme. Só sabemos como ele morreu. O Clint não mostra a cena em que ele pega a arma e eles vão ao campo de tiro, e [não] mostra a cena no campo de tiro e [não] mostra que, depois de tudo que ele passou no Iraque, ele é morto desse jeito por um colega do exército. Não foi um liberal, nem um manifestante, mas um deles. A coisa toda é um erro, a guerra toda era um erro. Era imoral, era ilegal. O Papa disse que não é uma guerra justa, e é completamente... olhe as estatísticas dos caras que voltaram em termos de violência doméstica.

Abuso de remédios controlados...

Nossa. É muito... e tenho a impressão de que as pessoas acham que o que os olhos não veem, o coração não sente. "Não quero pensar nisso". Mas se o filme faz pensar sobre isso, terá feito uma coisa positiva; mas se saírem do filme pensando "Ansioso para a próxima guerra, para a gente pegar mais desses criminosos"...bom, desculpa, pessoal, mas não vamos aprender a lição até estarmos dispostos a dizer: "Nós fomos os criminosos, nós fomos os caras que erraram aqui". As pessoas estavam defendendo suas casas, e é por isso que estavam matando a gente. Assim como a gente os mataria! Se um grupo de iranianos ou iraquianos ou canadenses aparecesse na rua principal da sua cidade, me diz se você faria diferente.

É mais complicado que isso, porque eles não só estavam matando soldados americanos, mas estavam também se matando entre si. E, sinceramente, de certa forma, talvez seja perfeito que esse filme tenha sido lançado agora em um momento em que o ISIS trouxe a guerra do Iraque de volta para a consciência das pessoas e expôs a complexidade de lá que ninguém sabia que existia quando fomos ao Iraque, porque não se prestou atenção nem se aprendeu com isso. É interessante o filme sair agora, quando tudo está voltando a aparecer, porque nós que despedaçamos essa coisa. A confusão é agora e ainda está por vir.

Despedaçamos mesmo. Não digo que o Saddam Hussein fosse um cara do bem, mas ele claramente entendia que a única forma do Iraque não se desintegrar era ser um país laico, não religioso. Se a religião fosse introduzida, haveria uma guerra civil. E ele estava certo. É isso que está acontecendo agora.

Será que passaríamos um filme que se referisse constantemente aos indígenas americanos como selvagens?

Preciso dizer, antes de encerrarmos, que o retrato dos iraquianos, árabes e muçulmanos nesse filme é muito ofensivo. Estamos discutindo isso aqui na nossa casa, em Michigan. Existem muitos povos indígenas aqui. E será que passaríamos um filme que se referisse constantemente aos indígenas americanos como selvagens? O termo é falado muitas vezes nesse filme. A primeira vez que ouvi, pensei: "Tá, entendi, os soldados falam assim". Mas aí continuou se repetindo, e aí ouvi o Clint Eastwood falando, não os soldados. Ele precisava muito afirmar essa ideia. Ele precisava afirmar, do ponto de vista da história, que os outros lados eram selvagens, que eles enfiariam uma furadeira na cabeça de um menino. Isso ele precisava muito.

A primeira coisa que escrevi sobre a confusão que ele faz entre Vietnã e Iraque foi que a coisa toda de mandar crianças ou mulheres com granadas, ou enfim, isso faz parte da mitologia do Vietnã. E aconteceu de fato no Vietnã algumas vezes, mas isso assustava todo mundo, fazia todo mundo achar que os vietnamitas eram animais. Bom, isso não aconteceu na guerra do Iraque. As crianças não eram pegas em armadilhas, não levavam granadas e essas coisas todas. Na Palestina, tinha mulheres que faziam atentados suicidas: teve a mulher que tentou um ataque suicida na Jordânia, mas estão tentando negociar a libertação agora. Mas isso não foi na guerra do Iraque. Não teve esse tipo de coisa.

Perdemos muitas pessoas e muitos membros por causa de celulares e bombas caseiras que plantavam na estrada e explodiam. E aí o Rumsfeld se recusou a trocar os veículos da General Motors; então, nos primeiros anos, o chão dos veículos era praticamente papel alumínio. O pessoal lá começou a adaptar: pegavam sucata e parafusavam na porra toda para poder viver, porque o Pentágono não queria dar veículos nos quais eles pudessem sobreviver. Então, é ofensivo ouvir essa palavra dita em todo o filme por... não por pessoas ruins, mas pessoas boas, o que faz parecer que tudo bem dizer essas palavras sobre os iraquianos "selvagens".

Isso também reforça um sentimento sobre os árabes e muçulmanos que me deixa desconfortável. Mas – sabe? – não estou dizendo para tentar esconder isso. Existem problemas sérios. Até o cara com a bomba de fertilizante, posso citar um exemplo em dez anos contra mim. Se eu morasse em outros países, seria um pouco mais frequente. Então, não quero comparar isso àquilo, mas postei uma coisa no Facebook , porque me pediram nos últimos dias, com o Clint Eastwood. Se ele me ameaçou de morte? O Snopes finalmente fez uma matéria sobre isso ontem e disse que sim: é verdade, aconteceu em 2005 no restaurante Tavern on the Green. Acho que todo mundo levou como piada ou meio piada, mas foi uma dessas situações esquisitas em que ele não esperava uma risada, e aí as pessoas riram, e ele não gostou e disse: "Aí, estou falando sério. Te meto bala". E aí ficou um silêncio, do tipo: "Qual é o problema dele, porra?". Não se brinca com certas coisas. Não se fala para uma mulher "Aí, vou te estuprar" e, depois de uma risada nervosa, "Não, estou falando sério! Vou te estuprar!". Não diga isso, por favor. Não é legal.

Vamos encerrar aqui. Uma última coisa: nenhum filme consegue contar toda a história. Com certeza, existem muitas histórias iraquianas que não estão sendo contadas nesse filme. Mas a última cena, em que o Chris vai até a porta e sabemos o que vai acontecer: e a história não contada desse assassino? Será que devemos saber sobre eles? Tem alguém contando essa história do veterano iraquiano que volta para casa destruído psicologicamente?

Não, não está sendo contada. Ninguém pensa nisso no dia a dia. As pessoas não querem pensar na seriedade que esse problema pode ter. Vamos pagar o preço por isso se não tratarmos do assunto. Já estamos pagando. É um grande problema e deveria ser prioridade máxima.

Onde as pessoas podem buscar saber mais? Você quer indicar algum lugar?

As linhas de apoio aos veteranos que foram criadas por grupos de veteranos. Tem um documentário em curta-metragem, que foi indicado ao Oscar neste ano, chamado Crisis Hotline: Veterans Press 1 ("Linha Direta da Crise: Veterano, Digite 1", em tradução livre). É muito forte. É baseado em uma linha direta de veteranos que funciona perto daqui. Então, acho que tudo que você puder fazer para apoiar e incentivar, localmente, psicólogos e psiquiatras a doarem o tempo que tiverem. Não dependa do governo para isso. E também tem grupos muito bons, como os Veteranos Americanos do Iraque e do Afeganistão, e outros que estão tentando ser bons defensores dos veteranos. E acho que as pessoas devem entrar para esse grupo. Devem apoiá-lo, e também acho que devemos forçar nossos representantes a fazerem disso uma prioridade. Nosso sistema de saúde tem um problema, porque não tratamos de saúde mental da mesma forma. Devemos nos preocupar igualmente com a saúde mental e física.

Quantos veteranos cometem suicídio por dia?

São 22 por dia.

Isso é assustador.

A porcentagem de veteranos em situação de rua é assustadora. Se fosse possível mostrar para jovens no ensino médio: "É assim que o seu país te agradece pelo seu serviço". Escrevi um blog no ano passado dizendo que quero que todo mundo pare de dizer para os soldados e veteranos: "Obrigado por servir o nosso país". Eles não querem ouvir isso: querem que você cale a porra da boca e faça alguma coisa. Garanta tratamento de saúde mental. Vote em políticos que não vão os mandar para a guerra por motivo nenhum. Sabe? Se quer agradecer, é assim que pode fazer.

Tradução: Aline Scátola

por Eddy Moretti


#


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Adolfo Sá, uma entrevista ...

Fanzines - de Fan(atic) + magazine(revista, em inglês) – são publicações amadoras, geralmente produzidas de forma artesanal e sem fins lucrativos, por (e para) fãs de determinado segmento cultural. Circulam, principalmente, entres os aficcionados por ficção cientìfica, Histórias em quadrinhos e pelo mundo do rock “underground”. A cultura punk, que explodiu na Inglaterra no final da década de 1970, foi a principal responsável por sua disseminação mundo afora, através do lema “Do It yourself”, ou “faça você mesmo”.

Havia uma cena forte de fanzines em Aracaju entre as décadas de 80 e 90 do século passado. Do “Centauro sem cabeça” e “Seduções ecológicas”, que circulavam nos meios universitários, ao “Clube do ódio” e “Buracaju”, nascidos nos porões “roqueiros” da cidade. A eles se juntaram, posteriormente, nomes como “Escarro Napalm” (deste que vos escreve) e o “Cabrunco”, editado por Rafael Jr., baterista da banda Snooze, e por Adolfo Sá – na época, um ilustre desconhecido ...

O “Cabrunco” chegou “chegando”, com uma proposta mais profissional e bem acabada, com editoração eletrônica e com cara de revista, e acabou se destacando não somente no cenário local, como por todo o país. Repercutiu, inclusive, na grande mídia, o que fez com que Adolfo passasse a circular pelos principais circuitos de festivais independentes Brasil afora, sempre emprestando sua verve ao mesmo tempo “bruta” – porque brutalmente sincera e direta – e inteligente à narração do que via acontecer por aí – e por aqui.

Marcou época, mas um dia acabou, porque nada, afinal, dura para sempre. Adolfo, no entanto, manteve o espírito e migrou para internet, onde criou um blog, o Viva La Brasa, que segue mais ou menos a mesma linha: jornalismo “gonzo”, 100% independente, sem o rabo preso e feito direto das ruas, com enfoque no cenário cultural “alternativo” mas se aventurando por temas dos mais variados – do surf, uma de suas paixões, à política, sua principal aflição.

Agora um apanhado de toda essa produção está disponível num formato mais nobre, para ser lido e guardado com todo o carinho nas estantes dos mais “antenados”: acabou de sair “Viva La Brasa”, o livro! Uma produção, como não poderia deixar de ser, totalmente independente, bancada pelo autor na cara e na coragem. Um verdadeiro marco no cenário editorial local, pois serve como registro impresso, para as atuais e futuras gerações – mesmo que no futuro não exista mais energia elétrica! – do trabalho desenvolvido não apenas por Adolfo, mas por todo um grupo de pessoas que atuam informalmente, como ele, longe dos holofotes e dos esquemas viciados da grande mídia comercial e dos apadrinhamentos políticos que engessam nossa produção cultural.

CHEGOU!
O livro foi lançado com grande sucesso numa festa concorridíssima na Caverna do Jimmy Lennon, no centro da cidade, com direito a exposição de ilustrações de Thiago Neumman, apresentações de “pole dance” e de alguns dos nomes mais importantes do cenário musical local: Plástico Lunar, Mamutes, Ferdinando Blues Trio, Karne Krua e The Renegades of punk. A correria foi grande, eu sei, mas resolvemos não dar descanso ao “Homem Brasa” e o intimamos para uma entrevista. O resultado segue abaixo – ainda incandescente ...

# De onde você veio, Adolfo? Conte-nos um pouco de sua infância, do que você lembra de mais marcante e pode ter te influenciado ...

ADOLFO SÁ: Nasci em Salvador em 1975 e morei lá até 88. Minha infância foi normal, fui campeão mirim de judô mas larguei quando quebrei o braço e comecei a pegar onda. Eu e meus amigos costumávamos pular o muro da escola pra curtir o dia lá fora. A rua sempre foi mais atraente do que a academia. Em 86 comecei a surfar e no ano seguinte entrei de cabeça no rock, ouvindo discos e fitas do Camisa de Vênus e Titãs. O álbum "Cabeça Dinossauro" me fisgou, e o Camisa era uma lenda por lá. As revistas Geraldão e Chiclete com Banana também fazem parte da formação nessa época.

# Qual era sua relação com Aracaju? E como você começou a desenvolver essa vocação para o jornalismo? Foi um processo perceptível, em sua cabeça, ou simplesmente “aconteceu”?

ADOLFO SÁ: Desde criança passava as férias de verão em Aracaju, na casa dos meus tios no conjunto Dom Pedro I. Eu e meus primos fazíamos o que todo moleque faz: jogar bola de gude e empinar pipa. Nunca gostei de futebol, nunca gostei de correr nem de ficar debaixo do sol. Em 89 meu pai tava falido e mudou pra cá tentando melhorar a vida; foi o começo de um inferno pessoal pra minha família, porque o coroa despirocou e dá trabalho até hoje. Entrei no Colégio de Aplicação aos 14 e tive que me virar sozinho desde então, até os livros pra estudar eu tinha que arrumar por conta própria. Eu competia em eventos de surf, mas dos 15 aos 17 passei por 3 cirurgias no joelho, o que me fez abandonar a ilusão de ser surfista profissional (risos). Mas eu perdia mais do que ganhava, nunca fui competitivo, nunca quis ser melhor do que ninguém. Na escola, me juntei aos piores alunos porque eram os caras mais espertos e divertidos, mesmo assim volta e meia tirava 10 em redação. No vestibular, sabia que não teria a opção de fazer faculdade particular e não via nenhuma profissão que me empolgasse. Pensei em fazer pra Artes, mas na UFS só rolava de se formar professor e eu nunca quis dar aula. Não gosto de falar muito.

# Seu envolvimento com os fanzines e com o meio alternativo, em geral – como você travou contato, primordialmente? O que o levou a começar um fanzine? Você já pensava, na época, em se profissionalizar, virar um jornalista “de fato”, formado, com diploma? Aliás, você vive de jornalismo?

ADOLFO SÁ: Não vivo de jornalismo. Escolhi o curso mais por falta de opção do que por qualquer outra coisa. Trabalho há 12 anos com audiovisual, editando e dirigindo. É daí que tiro o meu sustento. Comecei fazendo zines por puro instinto, nem sabia o que era isso direito, mas comecei a ser publicado num jornalzinho chamado Zona Sul, não gostava do layout nem do perfil da parada e decidi começar a fazer meu próprio jornalzinho. Atitude sempre tive, o que falta às vezes é grana e incentivo.

# O “Cabrunco”, seu primeiro fanzine, era um projeto pessoal ou coletivo? Lembro que ele foi um dos primeiros, senão O primeiro, na cidade, a usar a editoração eletrônica na confecção – antes era tudo sempre na base da colagem, do improviso autodidata, mesmo. Havia custos com isso, e com a impressão? Em caso afirmativo, havia retorno do investimento financeiro?

ADOLFO SÁ: Meus projetos sempre foram coletivos, nunca tive a arrogância de fazer algo sozinho, apesar de sempre ter corrido atrás dos meus objetivos por conta própria. Rafael Jr., que fazia o zine junto comigo, já era meu amigo das gigs e do surf. Chamei ele, sugeri o nome "Cabrunco" e o resto é história. Sempre tirei grana do bolso pra tocar meus projetos, nunca esperei pelo sistema e jamais tive retorno financeiro. Pelo menos vou morrer realizado sabendo que fiz tudo na medida do impossível.

# Qual era a tiragem, em média, do Cabrunco, e onde e de que forma ele era distribuído? Como se deu o diálogo e a inserção de vocês dentro da cena, que já existia, com bandas e fanzines pioneiros como o Buracaju e a Karne Krua, na ativa desde a década de 80? Foram bem recebidos, de cara, ou houve uma certa desconfiança inicial?

ADOLFO SÁ: A tiragem foi aumentando ao longo do tempo, o zine era distribuído pelo correio. Nos últimos números já rolavam 1000 cópias por edição, sempre independente. Como eu era um moleque, muita gente não botava fé, você mesmo foi um dos mais duros críticos no início e me fez evoluir por causa disso. A real é que a gente tinha a vontade de fazer, mas ainda tava se desenvolvendo e descobrindo o mundo. Sem tantas referências nem facilidades como hoje em dia, onde a internet entrega tudo de mão beijada pra molecada.

# O jornalismo é, pelo menos quando exercido de forma independente, sem o rabo preso com nada, realmente uma atividade de risco? Você já sentiu isso na pele? Já sofreu represálias por conta do escreveu? Lembro de pelo menos um caso de embate físico entre você e um membro de uma banda que não havia gostado de uma critica negativa publicada no fanzine ...

ADOLFO SÁ: Total. Já tive que sair na mão com um otário. As pessoas não gostam de quem fala a verdade, e o esquema em Aracaju é um lamber o rabo do outro. Mas sempre fui verdadeiro comigo mesmo, foda-se o que os outros vão pensar.


# O “Cabrunco” acabou se tornando um marco na cena local, com substancial projeção nacional. Quais foram os momentos mais marcantes, pra você, na trajetória do fanzine? E o que isto te proporcionou, em termos pessoais, sentimentais ou mesmo financeiros?

ADOLFO SÁ: Pra começar, o CABRUNCO tinha um nome que até então era um palavrão no dialeto local, ninguém jamais havia usado pra batizar nada. Por causa dele, conheci o Brasil indo pra festivais, morei durante semanas ou meses em outras cidades, o que não seria possível pra um jovem pobre como eu numa outra circunstância. Fiz amigos pra vida toda, um deles é você. E também arrumei umas namoradas em outros estados, essa foi a melhor parte. Fácil.

# Porque o Cabrunco acabou?

ADOLFO SÁ: Porque, quando você tá fazendo algo, o que não falta é gente pra te criticar, policiar e botar pra baixo. Depois que passa, todo mundo fica falando "ah, como era legal", "saudade" etc.

# Finado o “Cabrunco” você deu uma sumida, o que aconteceu neste hiato em que você, pelo menos aparentemente, ficou de fora da atividade “jornalística”?

ADOLFO SÁ: Eu nunca sumi, quem sumiu foram os amigos. A velha fuleiragem de Aracaju, gente interesseira etc. No mesmo ano que acabei com o Cabrunco, formei uma produtora com uns chapas, a Marginal, que promovia festas no Cultart e fez o 1º festival nacional de rock do estado, o Rock-SE. Trouxemos um monte de bandas do país todo, incluindo os standards Marcelo D2 e O Rappa, mas tivemos um prejuízo monstro e eu saí com uma mão na frente e outra atrás. Mais uma vez, nenhum amigo ofereceu ajuda na hora difícil e eu tive que me virar sozinho pra sobreviver. Entre um bico fodido e outro, me formei em jornalismo. Apesar da minha experiência com autopublicação e colaboração em revistas como Rock Press e Música Brasileira, nenhum jornal local me ofereceu emprego, sequer um estágio. Filhos da puta.

# Como se deu a “retomada”, se é que podemos chamar assim? Via blog? Porque essa opção?

ADOLFO SÁ: Em 2003, arrumei estágio numa produtora e em 2 meses me tornei editor de vídeo. No início de 2004 rolou um passaralho, geral foi demitida, e com a grana do seguro-desemprego me joguei pro Rio de Janeiro, onde morei na casa de Allan Sieber e aprendi um monte de coisa na Toscographics. Quando retornei a Aracaju, tava na pilha de voltar a produzir minhas coisas e criei o blog VIVA LA BRASA, utilizando a tecnologia mais barata disponível. Aí as pessoas começaram a lembrar que eu existo.

# E o blog, o que te proporcionou, em termos de satisfação pessoal, especificamente? Trace um paralelo das diferenças entre as duas épocas que você viveu, a dos fanzines, nos anos 1990, e a virtual/digital, no século XXI.

ADOLFO SÁ: As respostas estão no livro, é só folhear e ler pra entender.

# O blog parou para que você pudesse se dedicar à confecção do livro? Vai voltar?

ADOLFO SÁ: O blog já está de volta, parei porque dirigi a TV pública de Sergipe durante 2 anos e não tinha tempo pra porra nenhuma. Meu ex-patrão era um vampiro, que se foda aquele maldito. Dei um tempo nas postagens, selecionei as melhores e reuni uma equipe pra fazer o livro.

# Como foi e quanto tempo durou o processo de concepção do livro? Ficou satisfeito com o resultado final?

ADOLFO SÁ: Dois anos de muito trabalho e dor de cabeça, com um editor preguiçoso que eu mandei SE FUDER. Não fiquei 100% satisfeito porque tive que acumular funções que seriam de outros, como a revisão por exemplo, e há vários pequenos erros que poderiam ter sido evitados.

# Quais suas expectativas quanto à recepção do mesmo, agora que está nas ruas? Há alguma estratégia de distribuição?

ADOLFO SÁ: Expectativa nenhuma. Vendi 25 cópias na pré-venda e 10 na noite de lançamento - que por sinal foi um sucesso de público, com altas bandas e até pole dance. A maior parte dos exemplares vendidos até agora foram pra fora do estado, pra variar né. Só de custo de impressão foram R$ 8 mil, mais R$ 5 mil com a equipe. Jamais recuperarei essa grana. Como disse um amigo, "a galera aqui é miserável".

# Valeu/vale a pena?

ADOLFO SÁ: Vale a pena, sempre. O que importa é a satisfação pessoal. Fodam-se os cuzões.

publicado originalmente no jornal FOLHA DA PRAIA

por Adelvan “Kenobi”

#