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sábado, 24 de julho de 2021

"Suicídio", da Karne Krua

Karne Krua é uma banda pioneira do punk rock hard core do nordeste do Brasil. Surgiu em Aracaju, capital de Sergipe, o menor estado da região , em 1985. Depois de um breve período inicial instável estabilizou-se com Silvio “suburbano” no vocal, Marcelo “Inseto” na guitarra, Marlio no baixo e Antonio “Almada” na bateria - uma formação considerada “clássica” por ter composto e gravado musicas que definiram sua identidade sonora e são tocadas até hoje em shows. Essa primeira fase está registrada nas três primeiras demo-tapes, todas gravadas de forma tosca e absolutamente improvisada: “As merdas do sistema”, de 1987, “Cenas de ódio e revolta”, de 1988 e “Labor operário”, de 1990.

 

Na virada da década bateu um cansaço e dois integrantes, Marcelo e Almada, resolveram sair, mas a banda acabou se renovando com a entrada de Fabio na guitarra e Valdeleno na bateria. Por essa época Silvio, um incansável agitador cultural “underground”, estava às voltas com o projeto “Cooperativa do caos”, que visava à produção de uma LP em vinil reunindo algumas das principais bandas do estilo das regiões norte e nordeste: Discarga Violenta, de Natal(RN);  Delinquentes, de Belém do Pará; C.U.S.P.E, de Campina Grande(PB) e Devotos do ódio, de Recife – além da própria Karne Krua. O projeto, infelizmente, acabou não vingando, mas o que foi gravado acabou sendo aproveitado no clássico primeiro EP/compacto em vinil de 7 polegadas “Cosmopolita”, da Discarga Violenta, e na primeira demo-tape com gravação profissional da Karne Krua, “suicídio”.  

 

“Suicidio” foi gravada em janeiro de 1991 no Estudio DB-3, de Recife, com mixagem dos amigos Nino e Pesado, da banda pernambucana Câmbio Negro HC. O repertório é composto basicamente de musicas já lançadas anteriormente, como “Rumores de guerra” e “America Latina now”(aqui com a participação de Pesado no refrão), ou já conhecidas de quem freqüentava os shows. A grande novidade, que surpreendeu a todos, foi a faixa título, que fugia um pouco da ortodoxia punk anarquista então em voga com uma letra de temática mais intimista e arranjos com solos de guitarra melódicos e minimalistas. Com suas 8 faixas distribuídas em menos de 10 minutos, na demo a banda ainda soava punk, mas com uma nítida preocupação em expandir seus horizontes. Este material está sendo agora, 30 anos depois de seu lançamento original, relançado em vinil, num EP/Compacto de 7 polegadas, pela No Gods No Masters Distro.

 

Essa nova fase se consolidou com o lançamento, em 1994, do primeiro LP, auto intitulado, já com Marcelo e Almada de volta a seus postos. A semente lançada em “Suicidio” frutificou num repertório impecável, que incluía dois poemas musicados de autoria do poeta, fanzineiro e capoeirista Nagir Macaô, “O vinho da história” e “A noite do deus morto”, e letras enigmáticas, beirando a abstração, como “Mancha de sangue”, além de uma notável evolução lírica e musical mesmo em faixas mais panfletárias, como “Hienas na carcaça”, “Brasil Heróico”(com seu tom épico), “Filhos do medo” e “Política da seca” – que tem frases dignas da melhor literatura, a meu ver (“pessoas castigadas pelo sol e pela fome lamentam a dor de mais um ano que passou”).

 

Karne Krua passou por várias outras fases, com trocas de integrantes e influências as mais diversas, do hard Core novaiorquino à musica regional do sertão nordestino, mas sempre preservando sua identidade, capitaneada pela figura de Silvio, único membro fundador remanescente. Segue viva e ativa até hoje! São 35 anos de atividade ininterrupta, fazendo shows e lançando novas demos, EPs e álbuns nos mais diversos formatos, em CD, k7, vinil e streaming, sempre fazendo musica radical e independente em um ambiente inóspito, periférico. Um feito e tanto!

 

por Adelvan Kenobi

 

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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

No sertão, em karne viva ...

JUVENTUDE DE SOUSA, PB
“Pessoas castigadas pelo sol e pela fome lamentam a dor de mais um ano que passou”, diziam eles em “Política da sêca” já no primeiro álbum, lançado em vinil em 1994. Karne Krua, apesar de ser uma banda originalmente urbana – nasceu no Conjunto Bugio, periferia de Aracaju, em 1985 – sempre cantou as mazelas do povo sofrido do sertão nordestino. Foi com muito gosto que recebeu, portanto, o convite do Centro Cultural Banco do Nordeste para que participasse da edição deste ano do projeto “Rock Cordel”, em juazeiro do Norte, Ceará, e Sousa, na Paraíba.

Precisavam de alguém que dirigisse para ajudar na empreitada – 644km de ida, 189 entre as duas cidades e 730 de volta – então me chamaram. De carro alugado, saímos de casa às 3 da manhã da sexta-feira, 23 de julho, e aportamos na terra do Padre Cícero depois do meio-dia. Cidade bonita, situada num vale circundada por montanhas. Crescendo, com cerca de 260.000 habitantes, já apresenta um embrião de “skyline” com arranha-céus impressionantes.

No centro, a praça Pe. Cícero (tinha que ser, né) já estava sendo preparada para o evento. A banda passou o som – instalado num palco em frente a uma estátua do ... padre Cícero! - e resolveu adiar o descanso da longa viagem diante da insistencia das simpáticas moças da produção para que visitassem os camarins, devidamente abastecidos com suquinhos e frutinhas, mas sem camas, que era do que precisávamos naquele momento. Em todo caso, nada a reclamar, tratamento impecável ...

O show (veja AQUI) começou cedo, por volta das 20H. Por ser numa praça pública e num dia de feriado na cidade, acabou atraindo um bom público, boa parte de curiosos “não iniciados”. Na linha de frente, a juventude “roqueira” ensandecida foi à loucura, agitando muito, circundada por uma miríade de rostos com os olhos fixos no palco, impressionados com a verdadeira catarse sonora que saia dos altos falantes. Silvio, o vocalista, estava doente, gripado e com a garganta inflamada, mas mesmo assim entregou uma perfomance avassaladora. Aos poucos foram conquistando a platéia com uma apresentação explosiva, emendando uma música atrás da outra, sem pausa para descanso. No final, depois de um bis insistentemente pedido, foram ovacionados e muito comprimentados.

O show terminou cedo e a noite do Cariri nos esperava:  comemoramos, eu e Alexandre Gandhi, os insones, o sucesso até ali da empreitada num simpático bar “roqueiro” chamado “Cangaço”, que ficava a três quadras da praça. Pra lá de simpático, eu diria: impressionante! Instalado numa ampla casa residencial adaptada, dispunha de vários ambientes muito bem decorados e aconchegantes, com música de excelente qualidade saindo dos auto-falantes. Nos fundos, no que seria originalmente um quintal, um “voz e violão” tocado por um musico competente, com excelente perfomance vocal. Animou o público – bastante despojado, aliás, na base da camiseta, bermuda e chinelo, bem diferente do povo hipster chique “empiriquitado” que tinha visto uma semana antes na Reciclaria de Aracaju – ao ponto de provocar uma cena inusitada, quando algumas garotas dançaram funk ao som de Legião Urbana(!!!), requebrando lascivamente até o chão ...

No dia seguinte, um sábado, demos um “rolê” pelo comércio e pudemos ver o impacto da apresentação: os caras foram reconhecidos, abordados e parabenizados várias vezes na rua. Impressionante, um verdadeiro dia de “rock star”. Visitamos uns sebos e uma loja especializada em rock, além de constatarmos que praticamente todos os estabelecimentos do centro comercial de Juazeiro ostentavam em suas portas uma estátua do padre Cícero, o onipresente. Nas ruas, um carro de som anunciava uma promoção da òtica Padre Cícero, que fica na Rua pe. Cícero, esquina com a Praça Pe. Cícero. Por volta do meio dia retomamos a estrada, passando antes pela Aveninda Padre Cícero e vendo ao longe a célebre estátua do Padre Cícero ...

O caminho até a próxima parada foi tranquilo, apesar de sinuoso nas imediações de Juazeiro. Sousa é menor – população estimada de 68.000 habitantes – e menos marcada pela religiosidade. Mas tem pegadas de dinossauros! Fica lá um dos mais importantes sitios paleontológicos existentes, com a maior incidência de pegadas de dinossauros do mundo! Mas infelizmente, por causa da passagem de som, não pudemos visitar o vale. Tivemos que nos contentar em tirar fotos com algumas das muitas estátuas dos dinos espalhadas pela cidade, além de comprar biscoitos no Supermercado Dinossauro, que fica ao lado da pousada Dinossauro – não ficamos lá, fomos gentilmente hospedados por um amigo. E lá os dinossauros, no caso, éramos nós, já que ele é novinho ...

O show, que começou por volta das 22H, aconteceu num calçadão que fica ao lado do Centro Cultural Banco do Nordeste, o promotor do evento – bem bacana, aliás, seria interessante ter um destes aqui em Aracaju. Tinha menos publico que em Juazeiro, mas foi igualmente devastador, com um set list conciso dividido em blocos temáticos, dentre eles um que reunia músicas que falavam do sertão nordestino, como “O vaqueiro e a boiada”, “O guerreiro”, “Terra Morte”, “Sêco” e “Inanição” – esta última uma obra-prima, provavelmente a melhor música da karne Krua. O público, especialmente a juventude sedenta por rock selvagem, agitou muito e ovacionou a banda.

Na volta pra casa, nos arredores de Campina Grande, um susto: paramos o carro numa ruela paralela á rodovia para ajustar o GPS. De cara já chamamos a atenção de um casal de transeuntes, que pareceu bastante assustado com a nossa presença. Normal, tempos de violência urbana  desenfreada, tem que ter medo mesmo. Enquanto Ivo mexia nas coordenadas notei que logo à frente, num descampado, se avistava um presídio. Ok. Os sinais de alerta mentais começaram a piscar quando uma viatura da polícia tenha passou por nós em marcha lenta, olhando fixamente para o interior do veículo. Voltou minutos depois com uma escolta impressionate, de mais uns três ou quatro veículos, de onde saltaram homens armados com fuzis de grosso calibre se dirigindo em nossa direção. Mantivemos a calma e saltamos do carro a pedido do comandante da operação, enquanto os que faziam a cobertura verificavam se havia alguém por trás do muro ao lado do qual estávamos estacionados. Mãos na parede, fomos revistados. Nada foi encontrado e o comandante pediu pediu para que abrissimos o porta-malas do carro. Ao constatar que se tratavam de musicos – Blitz! Documentos! “Só temos instrumentos” - explicou de maneira educada que estavam fazendo a segurança do presídio, já que era dia de visitas, e haviam nos abordado por estarmos no lugar errado na hora errada, em atitude suspeita. Desculpou-se pelo incômodo e ainda nos deu dicas de rotas.

E foi isso! Vida longa ao Rock Cordel, que proporciona a bandas independentes com trabalho autoral a circulação por cidades onde dificilmente chegariam por conta própria, com uma estrutura relativamente boa e um cachê relativamente decente. Que não sucumba aos tempos sombrios em que vivemos – ouvi relatos de que era o último projeto cultural ainda de pé dentre vários que o banco mantinha.

FORA TEMER!

A.

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segunda-feira, 2 de março de 2015

BEM-VINDOS AO FIM DO MUNDO

O que faz o conceito de “álbum” tão caro à cultura pop é o fato de que o projeto é geralmente pensado como um todo, desde a concepção da arte da capa, do lay-out do encarte, da contracapa e do selo, até a posição em que as músicas são dispostas ao longo do disco. O novo disco da Karne Krua, “Bem-vidos ao fim do mundo”, é um álbum, na melhor acepção da palavra, com conceitos, no geral – há apenas uma exceção, sobre a qual discorreremos mais detalhadamente adiante - muito bem desenvolvidos e definidos. E o que é melhor: tudo realizado pelos próprios componentes da banda, como manda a tradição do “faça você mesmo”. “With a little help from their friends”, na produção – musical e executiva.

A capa é belíssima. Obra de Alexandre Gandhi, o guitarrista – que é também artista plástico. Nela, num círculo em que o centro é a morte, gravitam os males do mundo, das crianças famintas à repressão dos “pigs”, das favelas aos horrores da guerra. A capa é dupla, e dentro temos uma bela foto de Silvio, vocalista e único membro fundador remanescente. No encarte, uma foto tirada nos corredores da Aperipê FM na noite antológica – para mim, pelo menos – em que eles lançaram o disco anterior, “Inanição”, ao vivo no programa de rock. Tudo perfeitamente organizado numa diagramação elegante e de muito bom gosto, cortesia de Ivo Delmondes, o baixista.

Aí partimos para o que realmente importa – mentira, tudo é importante. Mas a música é a razão de tudo, então é nela que devemos nos ater. Começa de sopetão, numa “vibe” “Tudo ao mesmo tempo agora”, assim que os sulcos encontram as primeiras freqüências gravadas: é “Horrores humanos”, curtinha, simples e direta, perfeita como faixa de abertura. Na seqüência temos “Por enquanto sem coisas belas”, e aí já nos deparamos com outra característica marcante da Karne Krua: a construção coletiva. Letra e música de Alexandre Gandhi.

Na faixa seguimos quem dá as caras de forma vigorosa, com uma marcação poderosa e perfeitamente integrada ao arranjo, é o baixo de Ivo Delmondes. Segue assim em “Usinas de mortos”. A esta altura fica evidente o entrosamento dos músicos e a qualidade da gravação. Tudo feito aqui mesmo, em Aracaju. Gravado nos estúdios Rikeza e mixado e masterizado por Alex Prado, com o auxílio da própria banda. Impossível não comparar com o primeiro disco, de 1994, que teve que ser gravado em Recife, com um resultado infinitamente inferior. Outros tempos ...

Seguindo a audição chegamos à faixa título, que, a exemplo do que aconteceu com o álbum anterior, é uma pequena obra-prima! Tem uma estrutura muito bem pensada, com a letra perfeitamente encaixada na melodia nos levando por um cenário apocalíptico com imagens mais aterrorizantes que as que constam no último livro da Bíblia. Porque são reais! Estão lá, no dia a dia, pairando ao nosso redor e estampadas nas manchetes dos jornais. Terremotos, tsunamis, meteoros e “grandes balas de aço e pólvora com urânio enriquecido” causando morte e destruição generalizada – Sejam bem-vindos ao fim do mundo! O lado A poderia terminar alí, mas ainda tem mais: “O anti-herói”, de Ivo Delmondes (letra e música) e, fechando com chave de ouro, outra pequena pepita, já bastante executada ao vivo: “Terrorismo XXI”, de Alexandre Gandhi – letra e música – que nos alerta para o perigo real e imediato de que um desses grupos de fanáticos ensandecidos ponha as mãos num artefato atômico. Assustador, para dizer o mínimo ...

O inventário de desgraças prossegue de forma catártica já na abertura do lado B com outro grande momento: “Quando o homem vira um animal”. Perfeita. Hard Core na veia! A pancadaria prossegue sem descanso com “Grandes corporações”, dá uma pequena tropeçada na fraca “Direito à vida” – que, por sua letra, merecerá um parágrafo à parte – e volta a tomar fôlego com “Auto destruição” e “Pequena Sofia”, já conhecida do split 7 polegadas com a Besthoven. O disco se encerra com um belíssimo poema de Charles Bukowski musicado de forma primorosa, com destaque especial para os arranjos de guitarra, nos quais Alexandre Gandhi viaja nas melodias – ainda distorcidas – depois de nos bombardear com uma seqüência memorável de riffs matadores ao longo de todo o play ...

Mas peraí, não acaba não! Temos ainda três “bônus tracks”, com regravações músicas de fases distintas da banda. Dos primórdios temos “Rumors of wars”, na versão em inglês – não gosto, prefiro a original em português mesmo -, depois “Manchas de sangue”, um clássico de uma fase intermediária, início dos anos 1990, gravada no primeiro disco, e encerrando tudo, de vez, “As Crianças da usina nuclear”.

Mencionei bastante o primeiro disco, lançado, também em vinil – numa época em que o formato digital, em CD, começava a dominar o mercado – há exatos 20 anos, em 1994. Não foi por acaso. Muito bom terminar a audição deste verdadeiro petardo e poder guardá-lo em minha coleção, ao lado do primeiro. Com “Bem-Vindos ao fim do mundo” a Karne Krua fecha um ciclo, voltando às origens com um som cru, curto e grosso, registrado nos bons e velhos – e ravalorizados! - sulcos negros de um bolachão. A banda já está com uma nova formação – trocaram de baterista – e pronta para o futuro. Aos 30 anos, parece estar apenas começando ...

Dito isto, para encerrar, preciso falar sobre o “tropeço”: “Direito à vida” é uma música fraca, perfeitamente dispensável. Especialmente pela letra: ouvi a primeira vez com um assombro! Custava a acreditar no que estava sendo dito pelo meu velho camarada Silvio! Tanto que, a princípio, achei que se tratava de uma crítica ao nosso combalido sistema de saúde, de uma forma geral. Até que veio a terceira estrofe, que soou como um verdadeiro tapa na cara da luta pela emancipação feminina: “Vidas humanas em perfeita condição/Condenadas ao extermínio/Sentem dor e rejeição/E têm suas vidas decepadas/pelos médicos e suas mães”. Era uma música contra o aborto, não tinha mais dúvidas! E pior: dá a impressão de culpar as mulheres que se submetem ao procedimento de forma precária e clandestina, e que na verdade são vítimas, não apenas de assassinato, mas de um verdadeiro genocídio ...

Sou amigo de Silvio há quase 30 anos e não poderia deixar de questioná-lo sobre o conteúdo desta letra, agora imortalizada, já que consta de um disco lançado em vinil! Fui na Freedom e tivemos uma conversa franca na qual ele me explicou que a intenção não era esta. O que ele queria, na verdade, era denunciar a ganância de profissionais da medicina que se aproveitam da fragilidade e da ignorância de mulheres desesperadas para alimentar uma verdadeiro rede de açougues humanos clandestinos. Argumentei que o problema está, na verdade, na proibição legal, que alimenta a clandestinidade. Ele concordou, e se disse a favor da legalização do aborto nos termos propostos pelo Conselho Federal de Medicina, ou seja, que seja feito o procedimento de forma assistida e respaldada pela lei até a décima segunda semana de gestação, quando os riscos para a saúde da mulher são minimizados e o feto ainda não tem o seu sistema nervoso central formado, ou seja: NÃO SENTE DOR! É ainda, na verdade, um projeto de ser humano! Virá a se tornar um ser humano caso a gestação não seja interrompida. A interrupção da gravidez nestas condições não pode, portanto, ser considerada assassinato, e é cruel acusar de um crime tão grave as mulheres que passam por este drama.

Ele admitiu que, na busca por um minimalismo primal, típico dos primórdios do estilo no Brasil – volta às origens, como mencionei acima - deixou a mensagem muito em aberto e caiu na mesma armadilha de bandas como Ira!, Olho Seco e Garotos Podres, que têm letras que ainda hoje são questionadas e/ou mal interpretadas, tendo que se explicar eternamente sobre o seu conteúdo. Concordou, então, em fazer um texto de próprio punho detalhando melhor o que quis realmente dizer com esta letra. Reproduzo-os, texto e letra, abaixo ...

por Adelvan

“Eu, Silvio Campos, vocalista da banda Karne Krua, não sou contra a prática do aborto. Na letra da musica “Direito à Vida”, inserida no nosso último álbum, “Bem-Vindos ao Fim do Mundo”, o que quis enfatizar e evidenciar foi a forma fragilizada e os riscos em que as mulheres de forma geral, sejam elas com um nível de escolaridade alta ou não, se colocam diante da clandestinidade desse sistema e ato . Quando refiro- me a clinicas clandestinas não estou me referindo a nenhum centro de saúde com estruturas corretas e que possa passar segurança e confiança para a pratica do aborto, refiro-me a salas, quartos, pessoas sem condições estruturais e psicológicas de apoio às mulheres que buscam essa pratica. Também quando me refiro a médicos que decepam vidas estou falando de um tipo de profissional que, nesse caso, só esta interessado nos lucros que a clandestinidade do ato oferece, colocando sempre a mulher em situação de total  vulnerabilidade em relação a sua saúde. Mesmo que seja uma opção dela passar por isso, esse tipo de medico ou profissional (às vezes nem medico é) não está preocupado em salvar vidas, além do fato de ter que matar fetos em estado avançado de desenvolvimento - o que, às vistas da lei, seria caracterizado como crime, mesmo que o aborto saísse da clandestinidade, nos termos do que propõe o Conselho Federal de Medicina. Dai também a frase que digo “Medicina pra matar, carnificina eficaz, contradiz os princípios dessa profissão que se fez para salvar”, nesse caso (quando praticado por um medico) não sinto-me culpado pela frase.

Mais uma vez: quando falo que vidas humanas são decepadas pelas mães é pela opção que muitas vezes as próprias mulheres tem e cometem o aborto sem uma  informação mais concreta sobre o que isso pode gerar, algumas presas aos dogmas religiosos. Muitas também se arrependem, mas insisto no que diz respeito a direito e ética: o direito é das mulheres sobre seu corpo, o respeito sobre as vidas delas e do que elas podem ou não querer gerar ou ter, a ética em todo o processo, a regulamentação de tudo para o avanço na sociedade.

Sou casado há 30 anos e minha mulher passou por isso. Toda opção da pratica do aborto ficou por decisão dela mesma, naquele momento era o que ela achava melhor para ela. Ela decidiu pelo aborto, hoje ela não é favor do aborto (somente em situações diferenciadas é que ela concorda) e eu sou a favor do aborto. Desejo que os órgãos responsáveis regulamentem essa pratica para que não tenhamos de presenciar verdadeiros açougues humanos.

Me desculpo pelas falhas e brechas na minha fala que possam ter dado uma impressão equivocada do meu posicionamento.

Silvio Campos

Direito à vida

Letra: Silvio Campos/Música: Karne Krua

Clínicas clandestinas
Entidades assassinas
Interesses financeiros
Promovem um genocídio
Puro horror e desespero

Direito, respeito e ética
Falta de informação
Controvérsia e discussão
Reforça toda a idéia
Contra essa degradação

Vidas humana em perfeitas condições
Condenadas ao extermínio
Sentem dor e rejeição
E tem suas vidas decepadas
Pelos médicos e suas mães

Medicina pra matar
Carnificina eficaz
Contradiz um dos princípios
Desta velha profissão
Que se fez para salvar


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sábado, 24 de janeiro de 2015

Tirem as crianças da sala ...

Adofo Sá - Jornalismo é vocação. Uma vocação de merda, por sinal, que não dá grana e ainda pode levar a uma decapitação pelas mãos de um Estado Islâmico da vida. Veja o caso recente do Charlie Hebdo e contextualize a profissão em Sergipe e o Nordeste, onde ainda reina o coronelismo e os meios de comunicação pertencem a duas ou três famílias. Mesmo que eu tivesse juntado todo dinheiro que ganhei publicando matérias ao longo de 20 anos, não daria nem pra pagar a impressão do livro.

JD - Você pegou a contramão da história, concorda comigo? Justamente quando meio mundo se apressa em decretar o fim dos suportes analógicos e a morte do impresso, em plena era do streaming, o cara me aparece com um livro "de carne e osso". Ainda dá pra botar fé nessa entidade misteriosa, o leitor?

Adofo Sá - Não tenho um pingo de fé na humanidade, e boto menos fé ainda no leitor. Mas discordo, em termos.  Hoje em dia se publicam mais livros do que nunca, a tecnologia barateou os custos de produção e até fanzines são feitos em gráfica. A internet quebrou as pernas dos grandes mercados culturais estabelecidos em alicerces corporativos, mas acabou ajudando muito a produção independente ao facilitar o acesso à informação e à divulgação do trabalho. Comecei com o blog como uma alternativa barata à autopublicação, processo que eu abracei nos anos 90 com os zines. Ao longo dos anos 2000, blogs perderam espaço pra redes sociais e a informação imediata se sobrepôs ao texto, à pesquisa e até mesmo à credibilidade - a notícia que você lê no Facebook muitas vezes não é verdadeira. Mas o incômodo só existe pros jornais, revistas e TVs, da mesma forma que as gravadoras se foderam com o livre compartilhamento de MP3. No underground a coisa vai muito bem, obrigado.

120 Dias de Sodoma, quinze anos depois ...
O leitor sempre existirá. Mesmo que role uma guerra atômica e não haja mais fornecimento de água, eletricidade e internet, os livros que não forem queimados nas explosões continuarão aí, prontos para ser lidos. Não precisa ligar em nenhuma tomada, nem ter senha de conexão wi-fi.

Agora, é verdade que as pessoas lêem cada vez menos, estão aí os zeros na redação do Enem pra comprovar. Ler é poder, quem não lê tem mais é que se foder.

JD - O Viva La Brasa se detém sobre um universo muito específico, habitado por tudo quanto é tipo de freak. Os papocos do underground interessam a quem, além de seus próprios habitantes?

Adofo Sá - O livro não foi feito pra agradar. Não tenho a ilusão de falar a todas as pessoas, até porque eu conheço muita gente com quem não quero nem falar. O público-alvo são pessoas que entendem a viagem e curtem o universo retratado ali: cena independente, histórias em quadrinhos e estados alterados da mente. Não é pra toda a família. Se quiserem usar como livro de mesa, tirem as crianças da sala.

JD - O lançamento do Viva La Brasa tem tudo para se transformar numa grande congregação de malucos e afins. O livro leva a sua assinatura, naturalmente, mas as quase 300 páginas do volume celebram os feitos de uma geração inteira. O barato é coletivo?

Adofo Sá - O barato é louco, o sistema é bruto e o projeto é coletivo como um ônibus lotado. Banquei todo o livro com grana do próprio bolso, quanta gente você conhece que faz isso? Vivemos num estado onde grande parte da arte é subsidiada com verba pública, nisso eu tô indo na contramão. Sempre gostei de trabalhar com colaboradores, desde os zines nos anos 90. Ganho a vida com audiovisual e sei da importância do trabalho em conjunto. Por isso, fiz questão de assinar o livro "Adolfo Sá & amigos".

Uma renegada ...
A grande congregação de malucos e afins aconteceu ontem - com direito, inclusive, a presenças ilustres, como as de Anastácio "Tchescobody Happy Blusk Thogheter´s night", vulgo "Tacinho", da Sublevação, e Gabbirin Nagal Gibborin AKA Villas Parakas, vulgo "Bilal, o rei do metal" - que achou tudo uma porralouquice e na real nem sabia o que estava acontecendo. Mas o fato é que a rua de Lagarto, no centro, onde fica a Caverna do Jimmy Lennon, quase ficou interditada, de tanta gente que se aglomerou na porta. A todo momento Chapolin (apelido do proprietário do estabelecimento) passava com seus asseclas com mais levas de cerveja e gelo. Lá dentro, no inferninho - literalmente falando, já que os ventiladores e ar-condicionados da casa não dão conta da refrigeração - algumas das melhores bandas da cidade se revezavam no palco. Karne Krua fez um ótimo show, como sempre, a despeito do publico ainda um tanto quanto morno. Idem para a Renegades. O público só começou a se animar pra valer na terceira apresentação, de Ferdinando Blues Trio. Deve ter sido o álcool fazendo efeito. Foi nessa hora, também, que aconteceu o pole dance da musa da noite, Inês, a modelo que estampa o material publicitário do livro. E que eu, veja só, perdi! Vi apenas nas fotos que Gil, mulher de Adolfo, me mostrou no celular. Mas foi bom, pelo que vi ...

Já tá aqui em casa ...
O capeta parece ter despertado de vez e incorporado na massa que se acotovelava para ver os Mamutes, que fez uma apresentação sensacional. Hard rock "setentista" de primeira, cheio de suingue e malemolência, feito pra chacoalhar o esqueleto, só que no ritmo do rock and roll. Que, em sua origem, era musica pra dançar, lembremos sempre disso. A noite foi encerrada com outra paulada, desta vez por conta da melhor banda de rock em atividade no Brasil - pena que o Brasil ainda não saiba disso -, a Plástico Lunar. Não sei se foi impressão minha, mas parece que está se configurando o que eu já botava fé que iria acontecer: eles estão, finalmente, superando a falta que a saída de Julico, da The Baggios, fez. Me pareceram mais entrosados. Acima de tudo Leo Airplane, este verdadeiro monstro de talento a toda prova que tanto enriquece a nossa pequena mas orgulhosa cena, e que foi escalado para substituir o insubstituivel na outra guitarra, me pareceu bem mais à vontade em seu novo papel, sem esquecer o que já fazia, que era fornecer a cama de teclados psicodelicos com timbragens "vintage" tão característicos do som da banda. Digo mais: Daniel, por algum motivo que eu não sei precisar qual é, estava sem sua guitarra, o que a principio significaria mais um desfalque na formação. Mas que eles tiraram de letra. Foi a primeira vez, também, que eu ouvi "Banquete dos gafanhotos" sem Odara nos vocais, só que essa foi fácil, já que a Plástico (ou melhor, a prástico, como dizia o saudoso Roberto Nunes) sempre teve bons vocalistas de sobra. O publico respondeu à altura e, apesar do avançado da hora, já perto das 4 da manhã, praticamente os obrigou a finalizar com uma sequencia de clássicos. Sensacional!

Dito isto, não poderia encerrar este relato sem comentar o motivo primário da noite: O livro de Adolfo Sá, "Viva La Brasa", que estava finalmente sendo lançado, depois de mais de dois anos de "maturação". Está belíssimo! Mais um impecável trabalho de diagramação comandado por Gabi Ettinger. Uma verdadeira obra de arte, impressionante. A curadoria ficou por conta do Calango doido Rian Santos e, numa primeira olhada, me pareceu perfeita. Tem, inclusive, um texto meu sobre a Karne Krua, deliciosamente pomposo e dramático, do qual eu nem me lembrava mais, já que havia sido originalmente publicado na edição xerocada de meu fanzine, o Escarro Napalm, há exatos 20 anos!

Um grande registro não apenas do trabalho de Adolfo, do qual sempre fui fã, mas de todos nós, "fanzineiros" e demais militantes do "underground" alternativo de uma geração que começou a produzir em tempos ainda pré-digitais, por volta da segunda metade da década de oitenta e primeira da de noventa do século passado, e não parou mais. Nem vai parar.

"Viva La Brasa" me representa! Tenho orgulho de fazer parte dessa história.

Relato da festa de lançamento por Adelvan "Kenobi"

Entrevista por Ria Santos

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