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sábado, 10 de julho de 2021

Algumas dicas de quadrinhos produzidos por mulheres

Aproveito a pandemia para colocar a leitura em dia e tenho algumas dicas de quadrinhos escritos, desenhados e publicados por mulheres para apresentar aos poucos e bons leitores deste humilde blog que se recusa a deixar de existir ...

Começo com Alisson Bechdel e seu Fun Home: uma tragicomédia em família. Obra-prima! Sucesso de público e crítica. Ficou duas semanas na lista dos mais vendidos do New York Times. Um livro de memórias centrado numa controvertida figura paterna e em questões de identidade e repressão sexual. Ao contar a história de sua infância e adolescência, vivida na zona rural da Pensilvânia da década de 1970, marcada pelo mistério que ronda a verdadeira natureza da personalidade complexa e contraditória de seu pai, ela fala também do momento de transição entre o final de um período marcado pela revolução sexual e pela liberalização dos costumes e o revés provocado pelo surgimento da AIDS. A narrativa é fluida, sem tropeços, ilustrada por um traço elegante e rebuscado, todo desenhado a partir do estudo de fotos de referencia tiradas por ela mesmo. Brilhante.

Dela, li também Você é minha mãe?, uma espécie de continuação de Fun Home que avança por sua idade adulta e discute, de forma bastante profunda e analítica, sua relação com a mãe, ao mesmo tempo em que vai narrando o desabrochar de sua sexualidade. É uma leitura bem mais densa e auto centrada que a anterior. Tive bastante dificuldade com alguns trechos longos que discorrem detalhadamente sobre questões teóricas ligadas à psicologia, mas recomendo a leitura mesmo assim.

Rosa Luxemburgo é uma das personagens mais fascinantes da história do movimento socialista. Teórica brilhante e contestadora, mulher à frente de seu tempo, inclusive na vida pessoal e amorosa, além de pensadora independente e ousada. Teve embates antológicos com verdadeiros ícones do marxismo, como Lenin e Kautski. Sua vida é contada de forma poética e vibrante pela cartunista e ativista britânica Kate Evans em Rosa Vermelha,  lançado aqui pela editora Martins Fontes.

Apesar de ter sido produzida a convite da Fundação Rosa Luxemburgo, essa biografia quadrinizada passa longe do chapabranquismo e oferece um panorama bastante amplo de sua obra e de seu tempo a partir da escolha acertada de reproduzir integralmente diversos trechos de seus livros e cartas, sem descuidar do ritmo narrativo. Dá ao leitor menos apressado, inclusive, a oportunidade de se aprofundar ainda mais sobre o assunto ao disponibilizar um rico apêndice, em que diversas situações são melhor explicadas e contextualizadas e os trechos reproduzidos na história são novamente apresentados de forma ampliada.

De Kate Evans li também Refugiados: a última fronteira, editado com o capricho típico da editora Darkside – com direito a um marcador de páginas de tecido feito de renda, referência ao principal produto fabricado na cidade de Calais, na França, onde se passa a trama. Uma trama real e dramática, reproduzida a partir da experiência pessoal da autora com as ONGS que se dedicam a tentar aliviar a via crucis dos que ficam ilhados por lá, à espera de uma oportunidade de cruzar o canal da mancha. É uma história dura e revoltante, repleta de injustiça, que nos faz lembrar, inevitavelmente, os relatos de Joe Sacco sobre a Palestina e a guerra na Bósnia. O traço aqui é mais rabiscado e cartunesco, bem diferente do da biografia de Rosa, mas igualmente competente.

Por fim, recomendo Hoje é o último dia do resto de sua vida, um calhamaço de 464 páginas também lançado pela Martins Fontes e escrito pela austríaca Ulli Lust a partir das memórias que guardou de uma viagem punk e clandestina que fez à Itália na adolescência, na década de 1980. Literalmente punk, já que a autora freqüentava o submundo do movimento na época e foi com aquele espírito radical, arrojado e libertário que encarou a empreitada, acompanhada de uma nova melhor amiga que encontrou pelo caminho. Edi, a amiga, é uma daquelas figuras perigosamente sem noção que todo mundo que não se fecha no casulo falsamente protetor de uma vida regrada e careta acaba conhecendo, e que pode te meter em algumas roubadas caso você não esteja atento às armadilhas que fatalmente se armarão pelo caminho. Principalmente se for desenvolvido entre vocês o tipo de fidelidade e camaradagem que só a vida na estrada, sem eira nem beira, sem lenço e sem documento, pode proporcionar.

É o que acontece com Ulli, que é levada por Edi a enfrentar situações dignas de um filme de máfia dirigido por Martin Scorcese ou Quentin Tarantino. Máfia, aqui, também no sentido literal: elas vão parar na Sicilia, terra da organização “cujo nome você não deve mencionar”, e sentem na pele o preço pago por garotas que não conseguem se por no seu lugar: são repetidamente abusadas e violentadas. Edi, porra louca ao extremo, não tem muita noção disso, mas Ulli passa a ter, principalmente, a partir de um evento pra lá de traumático. A obra adquire, então, um tom mais sombrio, retratando uma certa perda de inocência da autora. Na verdade, uma ingenuidade bruta, inconseqüente, típica de quem está amadurecendo e não sabe ainda o preço que terá que pagar pela liberdade que já pensa ter, mas que na verdade precisa ser conquistada. O evento, divisor de águas da trama, a faz repensar suas atitudes frente a um mundo que é, com muito mais frequência e intensidade do que ela parecia pensar, hostil e implacável com quem não se enquadra nos moldes desejados por sociedades quase sempre são, em maior ou menor grau, machistas, violentas e castradoras. Ela, enfim, amadurece. Mas da melhor forma, a meu ver: sem se render aos que querem domar seu espírito.

Ao contrário do que se possa imaginar, no entanto, a narrativa passa longe do panfletarismo. É apenas a história honesta – de uma honestidade muitas vezes desconcertante, aliás – de uma viagem com momentos tensos e tragicômicos, mas também cheia de diversão regada a muito sexo, muita droga e algum rock and roll – há o registro de um megashow do The Clash ao qual elas têm acesso de forma clandestina, evidentemente. Uma história que valeu a pena ser vivida, com certeza. Tanto que rendeu um delicioso relato para ser degustado tanto tempo depois.

A

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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

As Histórias em quadrinhos brasileiras seguem conquistando o mundo: os irmãos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, de 40 anos, venceram pela segunda vez o prêmio Eisner, considerado por muitos o oscar dos quadrinhos. Agora na categoria “Melhor adaptação de outra mídia”, por Dois Irmãos (Quadrinhos na Cia., 2015), baseado no romance homônimo do manauara Milton Hatoum. A primeira foi em 2007, pela aclamada “Daytripper”, na categoria “série limitada”. “Dois irmãos”, que foi lançado nos Estados Unidos pela influente editora Dark Horse, a quarta maior do mercado – perde apenas pra Marvel, DC e Image - narra uma tumultuada relação de ódio entre dois irmãos gêmeos nascidos numa família de origem libanesa que vive em uma Manaus decadente, muito distante da efervescência econômica e cultural do ciclo da borracha, no início do século XX. O livro foi lançado no ano 2000 e se tornou uma espécie de clássico moderno da literatura brasileira. A adaptação para os quadrinhos segue o mesmo destino. ++++++++++++++++

Em se tratando de Histórias em quadrinhos, aqui em Aracaju temos o enorme talento de Eduardo Cardenas, que pode ser comprovado com a leitura de seu “Mórbido, maléfico e maldito gibi”. São contos curtos de horror decentemente roteirizados, magnificamente ilustrados e distribuídos em 32 páginas impressas aqui mesmo, no estado, com um resultado pra lá de satisfatório em termos de qualidade gráfica. Produção do autor, independente, pode ser adquirida no site http://lostcomics.com.br/ . Lá estão disponíveis para venda, também, “The Noir Samurai Tango – O Boêmio”, do professor e quadrinista sergipano Rodrigo Seixas; “Somner”, da baiana Dimítria Elefthérios, e “Boiuna – o guardião das esmeraldas”, uma HQ no estilo do horror clássico com temas tipicamente brasileiros - seu autor, o veterano Elmano Silva, é egresso da escola revelada nos anos 1970 e 80 pelas revistas Spektro, Calafrio e Mestres do Terror. //////

“O que é roubar um banco se comparado a fundar um?” Os personagens principais da HQ “Criminosos do sexo” parecem concordar com a tese de Bertold Brecht, pois é o que resolvem fazer assim que pensam numa função prática – e lucrativa - para o misterioso poder que descobrem ter: parar o tempo ao seu redor quando atingem um orgasmo. Escrita pelo premiado Matt Fraction e belamente ilustrada por Chip Zdarsky,”Criminosos do Sexo” está sendo publicada nos EUA pela Image Comics desde setembro de 2013 e é uma das séries em quadrinhos mais cultuadas da atualidade. Além de frequentar com assiduidade o primeiro lugar no ranking dos mais vendidos do New York Times, foi indicada a dois Eisner Awards em 2014, incluindo Melhor Série Contínua, e venceu na categoria de Melhor Nova Série. Em fevereiro do ano passado seu autor assinou contrato com a Universal TV para uma versão nas telinhas. No Brasil, já tem dois volumes belíssimamente encadernados em capa dura lançados pela Editora Devir. Fique de olho, também pra poder dizer, quando se tornar um estrondoso sucesso mundial a la “Walking Dead”, que já conhecia. E que nos quadrinhos é muito melhor. \\\\\\\\\\\\

Muhammad Ali morreu no dia 03 de junho de 2016 e eu finalmente peguei pra ler o gibizão de capa dura com miolo em papel couchê que a panini lançou faz algum tempo com uma história publicada originalmente pela DC Comics em 1978 em que ele enfrenta ninguém menos que o Superman! A idéia esdrúxula acabou rendendo uma HQ criativa e divertidíssima, desenhada pelo legendário Neal Adams. Vale uma conferida.  #############

Em 2015 o prêmio Nobel de literatura foi entregue a uma jornalista, a bielorussa Svetlana Aleksièvitch, de quem pouco ou nada se tinha ouvido falar, até aquele momento, por aqui. Por conta disso, sua obra singular, composta por depoimentos colhidos entre sobreviventes da guerra, do totalitarismo e de desastres nucleares e lapidados numa prosa que a Academia sueca qualificou de “Literatura polifônica” passou a ser , finalmente, publicada no Brasil. Já saíram até agora, pela Companhia das letras, Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear e A guerra não tem rosto de mulher. Este ano ela foi a grande atração da Flip, a Feira de Litaratura de Paraty, onde fez declarações como esta: “Prefiro o trabalho das mulheres ao dos homens. Quando morei na Suécia, a ministra da Defesa era uma mulher. Lembro uma foto dela grávida, passando em revista as tropas. Se todos os ministros da Defesa fossem mulheres, teríamos menos guerra no mundo. Trabalhei 30 anos sobre a história do comunismo russo e entrevistei centenas de homens e mulheres. Sempre as histórias delas eram mais interessantes. O mundo feminino é mais colorido, mais na base do emocional, mas ainda não chegamos ao ponto de igualdade entre gêneros no mercado de trabalho. Na minha terra há muito poucas mulheres na política e em outras áreas expressivas. Há também poucas autoras, que na opinião de muitos só deviam escrever sobre flores, amores e cozinha. Eu mesma quando comecei a escrever sofri questionamentos por abordar temas tão pesados.” ////

Quem também esteve na Flip, trazido talvez pelo anuncio da continuação do filme baseado em seu livro mais famoso, “Trainspotting”, foi o escocês Irvine Welsh. “Pornô”, a continuação de Trainspotting na literatura, servirá como ponto de partida, mas a nova história seguirá novos rumos, porque a indústria pornográfica mudou muito desde que o livro foi lançado, em 2002. Em todo caso, a volta do elenco original, inclusive de Ewan McGregor, que havia rompido com o diretor Danny Boyle ao ser preterido por ele em favor de Leonardo DiCaprio como protagonista de “A Praia”, tem causado frisson nos fãs – que não são poucos, e dentre os quais me incluo. Welsh escreveu ainda “Skagboys”, uma espécie de “prequel” de “Trainspotting”, em 2012, mas veio ao Brasil este ano para lançar seu novo livro, “A vida sexual das gêmeas siamesas”, que é ambientado em Miami Beach – bem longe da Escócia, portanto – e discorre sobre outro tipo de vício: o consumismo. Viciado ele mesmo em exercícios físicos, principalmente porque lhe permitem comer o que quiser, ele mora já há sete anos nos EUA, a maior parte do tempo em Chicago, cidade natal de sua mulher. Sobre as diferenças entre a América e sua terra natal, declarou: “Miami é muito diferente de onde eu venho. Na Escócia a cultura é mais verbal, em Miami as coisas são mais visuais. Lá as pessoas têm mais consciência do corpo e têm um vício no consumismo americano. É tudo mais físico, você fica mais preocupado com a forma do que em Edimburgo e até Chicago, em que as pessoas acabam ficando presas atrás de laptops. Você sai na rua e vê as modelos da Condé Nast e os artistas. Acho que o clima quente ajuda a criar esse comportamento de rua que não há em outras cidades. Há muitos brasileiros lá. E vocês gostam de festas.”

por Fernando Correia
No ano e mês da copa do mundo, em 2014, a Renegades of punk, banda sergipana de punk rock, decidiu aproveitar o refluxo e dar seu primeiro giro pela Europa. Consta que ninguém, além dos que já estão acostumados a circular na contramão, como eles, entendeu nada por lá: “Vocês são brasileiros, seu país está sediando a copa do mundo, o que estão fazendo aqui?” Rock, ora. Dos bons. Só agora, em 2016, o registro do feito apareceu na rede em um documentário de 41 minutos produzido com o capricho que é a marca registrada de tudo o que eles fazem. Chama-se “O som da selva” e pode ser visto no youtube. Veja! //// Quem também acaba de postar o registro de uma miniturnê pela “gringa”, no México, foi a The Baggios. Que está produzindo seu terceiro álbum, “Brutown”, com a ajuda dos fãs – R$ 31.340,00 captados via plataforma de financiamento coletivo “Catarse”. Um dos prêmios para quem colaborou foi o acesso a um show de pré-lançamento que aconteceu no dia 16/07/2016 na Reciclaria. Fui. Me senti um peixe fora dagua com minha bermuda surrada e camiseta do napalm death em meio a um público hipster e arrumadíssimo. “Empiriquitado”, como diz a minha mãe. No rigor do que ditam os blogs de moda. Mas curti. As músicas novas são, no mínimo, interessantes, e nem a participação insossa da chatíssima – e aclamadíssima - Sandy Alê conseguiu estragar a noite – que foi aberta por um combo montado com os novos nomes de uma nova cena independente que germina na cidade, numa “vibe” igualmente “hipster”, emulando a já não tão nova MPB indie das Tiês, Tulipas e Jenecis da vida, ou, pior ainda, aquele roquinho insosso que na verdade não é – e nem faz questão de ser, imagino – rock. O “supergrupo” era composta por Vitória Nogueira e Nicole Donato – não vi, cheguei atrasado; Lau e eu – interessante; Casco – muito ruim – e Cidade Dormitório – a mais promissora, com boas composições, apesar do vocal afetado, que me lembrou o irritante Helio Flanders, do Vanguart. Em todo caso, foi interessante ver amigos egressos das fileiras do Hard Core underground e periférico se aventurando por outras sonoridades – ficou na minha cabêça a imagem do guitarrista, Heder Nascimento – também da Cessar Fogo – dedilhando suavemente a guitarra com uma tatuagem gigante do Motorhead no braço. Adoro esses contrastes ...

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A vida é feita de escolhas. Tinha prometido a mim mesmo que assistiria a um show completo do Napalm Death assim que eles voltassem ao país depois da relativa frustração de vê-los como banda de abertura para o Hatebreed no Circo Voador, em 2014, mas decidi também que não poderia perder a apresentação do Suicidal Tendencies com Dave Lombardo na bateria, que aconteceria uma semana depois. Como tive que escolher, já que dinheiro não é capim nem dá em árvore, escolhi o segundo, que nunca tinha visto ao vivo ...

Comparecemos, eu e minha amiga Luana, do Rio, ao Audio Clube, na Barra Funda, a tempo de ver as bandas de abertura, Tolerancia Zero e Oitão. Chatos pra cacete, ambos. Hard Core “testosteronado” e cheio de “atitude”, com muita pose e pouco conteúdo. Fomos salvos pelos Ratos de Porão, que detonaram, como sempre, tocando na íntegra o pior disco de sua melhor fase, “Anarkophobia”. Mas o grande show foi mesmo do Suicidal, que fez uma entrada triunfal  após ser anunciado por uma garotinha de uns 4, 5 anos, trajada como fã - com direito à clássica bandana azul, evidentemente. Começaram com “You can´t bring me down” e emendaram um hit atrás do outro, sem piedade. Lombardo foi anunciado com pompa e aclamado pelo público, mas fez uma apresentação contida, sem nenhum estrelismo. Era penas um grande – e bote grande nisso – baterista dando uma força aos amigos, sem interferir nos arranjos e andamentos das músicas. Quem brilhou e se destacou mesmo foi Mike Muir, que ainda está em forma e segue sendo um grande frontman, conduzindo a platéia num frenesi insano que acabou em cima do palco, a seu convite.

Antológico! --------------------------------------------------

Antes tarde do que nunca, quero falar também do maravilhoso show de David Gilmour que vi, também em São Paulo, no final do ano passado. Foi no estádio do Palmeiras, reformado e tinindo. Fiquei na pista e muito pra trás, o que foi uma pena: pode-se dizer que vi Gilmour apenas pelo telão, pois de onde eu estava ele era apenas um ponto minúsculo no palco. Em todo caso, e apesar do blah blah blah sem noção do público coxinha que parecia estar ali apenas pelos velhos sucessos do Pink Floyd e pelo “status” conferido pelo preço exorbitante do ingresso, foi lindo poder ver  – na medida do possível, em meio ao mar de celulares posicionados à minha frente – finalmente ao vivo o legendário guitarrista interpretar pérolas do cancioneiro psicodélico circundado por uma banda pra lá de competente e pelo já tradicional show de luzes e feixes de raio laser. Um momento especialmente emocionante, pra mim, foi a volta do intervalo – sim, o show é tão longo que tem intervalo – com uma homenagem a Syd Barret, já que eu havia recebido um inesperado telefonema da namorada de Levi Marques, NOSSO diamente louco, que havia partido deste vale de lágrimas por livre e espontânea vontade alguns dias antes. SHINE ON, you crazy diamond!

Na saída, a platéia dá novo show de deselegancia, mandando em coro a presidenta tomar no cu. Bizarro. Contraste total com o clima intimista do evento.

Quero registrar também a extrema dificuldade que tive para conseguir um táxi depois do show. Foi tenso, pensei que ia ter que dormir na rua ... 

A.

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sábado, 12 de março de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

Patricia Piccinini "Com Ciência"
O melhor filme do ano passado foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas o favorito para levar o oscar era “O Regresso”. Ganhou “Spotlight”, que joga luz sobre os casos de pedofilia envolvendo padres católicos. Menos mal: nem um, nem outro. Fez-se a justiça de Salomão. /////////////// Em todo caso, Mad Max sagrou-se como o grande vencedor em números absolutos, com a conquista de seis estatuetas, em sua maioria nos quesitos técnicos, como som e montagem. Justíssimo! Só acho que deveria ter levado também, pelo menos, o prêmio de direção: George Miller, aos 71 anos, deu uma verdadeira aula. Seu filme é cinema de ação como há muito tempo não se via – nunca mais tinha tido aquela curiosa sensação de satisfação e desconforto por perceber que a projeção estava chegando ao fim. Queria mais! Tomara que tenha continuação.

Fury road
“O Regresso” mereceu muito o prêmio pela fotografia, realmente primorosa. E só. O filme é bom, tem um bom ritmo, mas convenhamos: é “clicheroso” e, em termos de roteiro, praticamente se resume a mostrar DiCaprio correndo, arfando, sendo atacado e fugindo por duas horas e cacetada. Se bem que o ataque do urso é realmente um espetáculo, daquelas cenas que ficarão marcadas nas retinas dos olhos de quem viu no cinema, em tela grande - como deve ser – para sempre. /////////// O que não quer dizer que eu ache que a academia tenha sido injusta ao dar o oscar de melhor atuação para Leo, só acho que demorou. Ele devia ter recebido por “O Lobo de Wall Street”. /////// Foi muito bom também ver a belíssima animação brasileira “O Menino e o mundo” no páreo. Uma grande vitória. Ganhar, mesmo, era uma missão praticamente impossível, já que “Divertida Mente” é uma obra-prima. Mais uma, da Pixar. Que andava patinando. Tomara que tenha voltado aos trilhos.

O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...

Renegades of punk "na brasa", por David Doria
Ainda há público para shows de rock em Aracaju? Fecharam dois espaços que abriam para o estilo, a Caverna e a Casa Rua da Cultura. Sábado passado apenas alguns gatos pingados foram ao Rancho da Aruana ver a segunda festa Viva La Brasa, enquanto um samba no CHE tava lotado, com tanta gente que a rua em frente ficou praticamente interditada. Nada contra o samba, evidentemente. Só acho uma pena que uma banda como a Necro tenha tido tão pouco público nas duas últimas vezes que vieram tocar por aqui. Em todo caso, o rock segue em frente, porque é teimoso: ontem, dia 11/03/2016, rolou o lançamento do novo disco da excelente Penny Mocks. Próxima sexta tem Punk rock e Hard Core na pista de skate Cara de Sapo, com os paulistas da Mar Morto, os pernambucanos da Johnny 13 e os sergipanos Ideal e The Renegades of punk. Amanhã, dia 13, tem o SOS UNDERGROUND 2 no Conj. Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, com Rasga Mortalha, Mophinum, Anhan e outra que não consegui ler o nome no cartaz. Já dia 20/03, em São Cristóvão – terra da The Baggios, que acabou de tocar no Lollapalooza, em sp – rola Executor, Casca Grossa, Suicídio Coletivo, Pôdi pa caraio, Toxofobia e Enterrados de Forma Banal. Por fim, dia 16/04 tem UNDEGROUND ATTACK no parque dos cajueiros, com Cruz da Donzela, Executor, Serial, Eyeless e Mentes suicidas.

Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.

Shine on, you crazy diamond
A passagem dos anos de 2015 para 2016 vai ficar na história do rock and roll - de forma negativa, infelizmente. O baixo astral por aqui, nas terras do Cacique, começou com a notícia do falecimento de Levi Marques, que desistiu da vida no fim do ano passado e deixou sem chão uma legião de amigos. Era um jovem talentoso, cantor e compositor, “performer” de primeira. E, acima de tudo, um cara “do bem”. Faz muita falta e nunca será esquecido. O mal-estar prossegue com a passagem “desta para melhor” (???!!!) de Flavio Basso, o eterno Júpiter Maçã, astro do rock underground tupiniquim que fez história em carreira solo e com a seminal banda gaúcha Os Cascavelletes e parecia ter chegado ao auge com o falecimento de Lemmy, do Motorhed, quando nos chega a notícia, nos primeiros dias do mês de janeiro do ano corrente, de que David Bowie não era, afinal, um ser imortal! Pelo menos não no plano físico, biológico. Já era difícil imaginar um mundo sem Lemmy. Sem David Bowie, é tarefa quase impossível. Seguimos vivendo, claro, mas não é mais a mesma coisa. Não mesmo.

Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.

* publicado originalmente no jornal Folha da Praia

A.

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terça-feira, 9 de junho de 2015

A MORTE DE STÁLIN

A Editora Três Estrelas, selo do grupo Folha de São Paulo, que já havia nos presenteado com a quadrinização da história da criação da primeira bomba atômica, agora lança “A Morte de Stálin”, graphic novel francesa com roteiro de Fabien Nury e desenhos de Thierry Robin. Uma tragicomédia de erros baseada em fatos reais que narra, de forma romantizada, a luta pelo poder iniciada com a morte do tirano que governou a União Soviética com mãos de ferro por cerca de 30 anos. Vale especialmente pelo preciosismo da edição e pelo talento do desenhista, que reproduz pessoas e acontecimentos de forma rebuscada, com atenção para os mínimos detalhes – destaque para as cenas da grandiosa cerimônia de sepultamento do líder, habilmente reproduzidas a partir de imagens de arquivo.

Quanto ao roteiro, começa bem, com uma boa dosagem de fatos reais e fictícios. Utiliza como ponto de partida uma história divertida e inventiva que gira em torno de um suposto telefonema do “generalíssimo” à rádio estatal solicitando a gravação de uma peça clássica que acabara de ser executada ao vivo. O caos se instala, já que a perfomance não havia sido registrada. Tudo teria que ser refeito! Os músicos, apavorados, conseguem se reunir para uma nova execução. Temem, no entanto, que “Koba” perceba o improviso, fruto dos percalços da empreitada. Mas são “salvos pelo gongo”: o Camarada Stalin, “guia genial dos povos”, tem um derrame cerebral, do qual não se recuperará. Naquela mesma noite começam as conspirações para sucedê-lo, encabeçadas por Lavrenti Béria e Nikita Kruschev – muito bem caracterizados, diga-se de passagem. A caracterização dos personagens, reais ou fictícios, é um dos pontos fortes da obra. 

É lamentável, no entanto, que o roteirista, a partir de determinado momento da trama, tenha errado a mão e enveredado por delírios fantasiosos desnecessariamente exagerados e dignos de uma comédia “pastelão” da pior espécie, extrapolando o necessário e justo romanceamento da narrativa para resvalar na falsificação histórica pura e simples. É o caso, por exemplo, da cena em que o filho de Stálin, bêbado, confunde a autópsia com um suposto flagrante do assassinato de seu pai! Ou a transposição para a época retratada de um episódio terrível e dramático que realmente aconteceu, mas nos tempos do czar, o que leva os que fazem uma leitura apressada, sem conhecimento dos fatos, a crer que o governo soviético havia mandado abrir fogo contra a turba descontrolada que invadiu Moscou para prestar suas homenagens.

O autor tenta se explicar, num posfácio: diz que utilizou-se de metáforas para emular a peculiar noção de “verdade” dos soviéticos. As mortes decorrentes dos tumultos gerados pelas trapalhadas burocráticas da "nomenklatura" atordoada com a súbita ausência de seu líder seriam equivalentes, portanto, às que aconteceram durante o "Domingo Sangrento", quando as tropas do czar dispararam covardemente sobre uma multidão desarmada. E o que Vassili, o filho bêbado e fanfarrão, não fez - como atirar nos médicos e convocar a imprensa estrangeira para denunciar um complô para matar seu pai - poderia ter feito - não saberíamos, em todo o caso, pois seus atos seriam certamente encobertos pelo véu da censura.

A mim não convenceu, esta explicação. Achei a abordagem absolutamente desnecessária. Porque, neste caso, a realidade dos fatos que é pública e notória e faz parte da História já é mais do que suficientemente cheia de tragédias e situações farsescas. Desnecessária e inconveniente – pra não dizer desonesta – em se tratando, também, de uma publicação de um selo que se propõe a publicar apenas livros de não ficção, segundo consta no release do site da editora. Em nome de uma suposta liberdade artística e de um perseguido - sem sucesso, a meu ver - tom farsesco - a ironia começa pelo subtítulo, "Uma História Soviética Real - o que temos é uma verdadeira falsificação da história. Típica, aliás, das práticas abomináveis do personagem - e do regime - retratado.

Em todo o caso, é sempre muito bom ver publicadas no Brasil histórias em quadrinhos que fogem do esquema comercial viciado dos super-heróis norteamericanos ...

Título: A Morte de Stálin
Subtítulo: Uma História Soviética Real
Autor: Fabien Nury, Thierry Robin
Tradução: Paulo Werneck
Especificações: Brochura | 152 páginas
ISBN: 978-85-6849-307-6
Dimensões: 310mm x 230mm
Editora: Três Estrelas
Idioma: Português
Peso: 710g



sexta-feira, 5 de junho de 2015

SERES URBANOS

Temos assistido, nos últimos anos, a um precioso resgate da produção alternativa da década de noventa do século passado, com o relançamento, agora em edições mais caprichadas, de trabalhos de gente como Alberto Monteiro, Joacy Jamys, Henry Jaepelt e Law Tissot. Todos publicados, originalmente, em fanzines xerocados e distribuídos de mão em mão ou via correios.

Estes “fanzineiros” eram, na sua maioria, artistas “solo”, encarando de forma solitária a tarefa de produzir, reproduzir e distribuir suas publicações para o Brasil e o mundo. Haviam, no entanto, os que preferiam se unir em grupos, muito antes do termo “coletivo” entrar – e sair – da moda. No nordeste brasileiro destacavam-se dois, ambos dedicados, principalmente, à produção de Histórias em quadrinhos: o “Grupo de risco”, do Maranhão, que editava a revista “Singularplural”, e os “Seres Urbanos”, de Fortaleza, Ceará, que colocaram na praça, entre os anos de 1991 e 1998, uma série de publicações antológicas, em edições caprichadas, muito acima do padrão vigente.

Uma boa parte desta produção está agora compilada no livro que leva o nome do grupo e que foi lançado com o apoio da Secretaria Estadual da Cultura do Governo do Ceará. São 100 páginas de quadrinhos existencialistas impressos de forma impecável em papel de primeira qualidade, apresentando uma produção com uma impressionante diversidade de estilos, além da diagramação e experimentação gráfica primorosa e ousada – numa das páginas, por exemplo, um personagem de quadrinhos é esfaqueado pela perna de um balão de diálogo! Noutra, vemos o resultado de um projeto de arte postal coletiva em que Lupin, um dos “Seres” – que na verdade já produzia antes mesmo da criação do grupo - enviou cópias de uma imagem aleatoriamente para várias partes do mundo solicitando que quem as recebesse enviasse de volta com algum tipo de intervenção. Trabalho de gente extremamente talentosa, que merece muito este resgate ...

O espanto começa pela capa, com um belíssimo desenho de Weaver, e prossegue à medida que vamos avançando nas páginas e mergulhando no universo dos caras, repleto de reflexões e angustias que mesclam de forma perfeita o quotidiano das pessoas mais comuns com o dos “outsiders”, dos “rockers” ao típico cidadão trabalhador, do “underground” ao senhor que se ressente da falta da esposa que preferiu ficar em casa assistindo televisão a acompanha-lo numa trivial ida ao centro da cidade para levar um relógio para consertar. Das tiras tirando sarro do jeito cearense de ser aos tipinhos presentes nas festinhas do submundo, sempre com textos afiados e cheios de grandes sacadas. Angustia e bom humor de mãos dadas. Celebração e decepção, lado a lado.

É o que vemos, também, na grande “autoentrevista” reproduzida no final, onde os caras passam a limpo sua trajetória e explicam – ou não – suas motivações e as circunstancias que fizeram com que as coisas tivessem acontecido da forma que acontecerem – a qualidade das cópias, por exemplo, se explica pela oportunidade oferecida por uma copiadora, que cedeu uma sala para o grupo em troca de parte de sua força de trabalho. Nada “de graça”, portanto. Nada “de mão beijada”: o que conseguiram, foi porque foram atrás – até porque não tinha ninguém nascido em berço de ouro ali, eram todos oriundos da periferia da cidade, que crescia – e cresce! – verticalmente e vertiginosamente.

Para o que não conseguiram, paciência. Ou um grande “foda-se” – com a consciência de que parte dos motivos foi sua própria falta de noção, como da vez em que tentaram vender para uma campanha antidrogas uma “cartilha” totalmente politicamente incorreta que se chamava LSD – Leitura Sobre Drogas. A outra parte vai pra conta da dificuldade natural que uma empreitada desse porte encontra numa cidade “solar”, centrada na indústria do turismo, que tende sempre a dourar a pílula da realidade e fechar os olhos para a diversidade cultural, punindo com o ostracismo aqueles que teimam em ir além do sonho tropical.

Os “Seres Urbanos” são Weaver, Marcílio, Elvis, Lupin, Kaos (in memoriam), Galba e Mychel. Estão na rede, aqui. O livro é fundamental, imperdível, e pode ser adquirido AQUI. AQUI, uma matéria sobre o lançamento, em vídeo. Abaixo, uma pequena seleção pessoal de trechos dos textos, sempre ácidos e certeiros. Só pra que vocês tenham uma idéia do que eu estou falando ...

“Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram”

“Sempre que sinto falta de algum conforto eu me lembro dos golfinhos: se eles possuem um cérebro desenvolvido e passam a vida brincando, então nós humanos estamos fazendo algo errado”

“Estou ansiosa para crescer e sair da escola” “Crescer? A verdade é que sua geração terá que trabalhar em tempo integral e fazer cursos de atualização de computação, um após o outro, durante toda a vida, pra não se tornar um profissional defasado. O único contato de sua geração com o mundo será de forma artificial, através da TV.” “Em compensação, a TV terá milhares de canais.”

“O que nos preocupa no mundo não é ele ser tão grande, e sim a natureza humana ser tão pequena”

“Lili voltou dos states magérrima. “Que são esses xis nas suas mãos, Lili?”, perguntou Rita. – Mulher, agora eu sou straight edge.  – istrei o que ???!! Perguntou Wanda fazendo careta e levando todas a gargalhar. Lili deu um pequeno sorriso sem graça e se sentiu mais uma vez solitária entre suas amigas de infância.”

“Ed acordou e sua esposa havia partido. Vários pedaços dela estavam espalhados pela casa. “Devia ao menos ter deixado meu café feito”

“No início da noite do dia 29 de agosto de 1995, após um dia como outro qualquer de trabalho, Juvêncio Colares parou estático no meio da rua. E ficou lá parado pelo resto de sua vida.”

“Qualquer idiota é capaz de pintar um quadro. Mas só um gênio é capaz de vendê-lo.”

“Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar”

A.


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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Carranza é do caralho ...

Buceta do caralho
Pablo Carranza é um cartunista/quadrinhista sergipano radicado no Rio de Janeiro que vem publicando, em periodicidade pretensamente semestral – nunca dá pra saber, o mercado é cruel – a revista de humor assumidamente ofensivo “smegma” – não busque imagens com esta palavra no google, ele alerta. Está na segunda edição, que vem com três histórias e algumas tirinhas. A primeira, “estrelada” por um dos personagens que mais fizeram sucesso na primeira, o caipira bruto Rivalino, tira um sarro com as redes de fast food, sem deixar de zoar pesado, também, uma de suas vítimas preferenciais, os hipster macrobióticos vegetarianos “gourmet”. A segunda, “Cortando caminho”, é a história bizarra de um nerd que tem uma tara por sereias, e a terceira e melhor de todas, “Mad Hipster”, é uma sátira aos filmes de ação pós-apocalipticos que gira em torno da falta Dagua e do preconceito com os nordestinos em São Paulo. No final, uma tira sensacional do “Arrombadinho” ("papai, por que a mamãe não tem tempo pra mim?""porque ela é uma puta e tem muitos clientes") e outra onde é finalmente revelado o segredo por trás da série de animação “Caverna do dragão”.

A maldição de Omolu é a gangrena gasosa no seu ...
“Smegma Comix #2” foi lançada com grande sucesso no último dia 10 de março, na Caverna do Jimmi Lennon, em Aracaju. Na ocasião estavam à venda, além de souvenirs pouco recomendáveis para menores de idade ou moralistas de plantão, como a "Buceta do caralho" da foto, várias outras publicações independentes da EditoraBeleléu, selo carioca pelo qual o Pablo publica – muito embora a revista tenha sido impressa por aqui mesmo. Comprei um “space cake” – que, veja só, me rendeu a primeira “lombra” de maconha da minha vida! –, uma outra revistinha, “Menina Infinito”, de Fábio Lyra – um conto “indie rock” com argumento simples e desenhos elegantes, de muito bom gosto, o que não deixa de ser curioso pelo contraste com a obra de Carranza, infinitamente mais "chinelão" – e um livro do maranhense Bruno Azevedo. Chama-se “AIntrusa” e se auto-define, já na capa, como “uma envolvente história de amor da qual nenhuma leitora sairá sem um suspiro, um momento qualquer de elevação ou um fugaz sentimento de pertencimento”. Bruno é um fã assumido da música e da literatura romantica brega. Conheci ele no Abril pro rock em que o Placebo tocou. Uma amizade em comum, com o infelizmente já falecido fanzineiro e quadrinista punk Joacy Jamys, nos uniu. Algum tempo depois eu estava morgando num quarto de hotel em São Paulo assistindo Jô Soares enquanto esperava o sono chegar quando me deparo com ele, lá, dando entrevista! Falando, inclusive, do nosso encontro em Recife. Mundo pequeno ... 


A noite contou, ainda, com apresentações das bandas locais Nucleador – thrash metal “crossover” -  e Tody´s Trouble Band – rock/psychobilly ou algo parecido. Só o Carranza mesmo pra tirar Toddy e cia. do estado de hibernação em que parecem estar! Ótimo show, como sempre!

A caverna do Jimmi Lennon é uma sala comercial que à noite se transforma num “point” para a cena do rock alternativo local. Recebe também atrações nacionais – recentemente tivemos por lá a banda mineira de “gothic rock” Silent Cry e os paulistanos do Gritando HC - e internacionais, como os finlandeses do Blueintheface e os holandeses do Zibabu – na verdade uma trupe de malucos que pegou carona num iate com um casal de russos, atravessou o oceano até aportar em Belém do Pará e de lá resolveu percorrer o Brasil tocando onde desse, da forma que fosse possível. Em breve será o palco do lançamento do novo disco – em vinil! – da veterana Karne Krua, ao lado do Olho Seco - ícones do punk rock/Hard Core nacional. Fica na Rua de Lagarto, número 1.140. No centro de Aracaju.

Hoje, 08/05 do Ano da Graça de 2015, Carranza lança sua smegma (bleargh!) no Rio de Janeiro. Quer dizer, não sei mais se rola, pois o cara, que já é amaldiçoado de nascença pelo cacique Serigy por ter nascido sergipano, agora está "colado" com o povo da Gangrena Gasosa, notórios pés frios - no doc. "Desagradável" há impressionantes relatos que incluem um ônibus do Ratos de Porão pegando fogo, atropelamentos de trem e doenças terminais acometendo "chegados" ...

Boa sorte pra quem vai, então ...

A.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

NEM TODOS ESQUECEM

Always Look on the Bright Side of Life
“A vida de Brian”, clássica comédia cinematográfica do grupo de humor inglês Monty Python, acompanha as desventuras de um pobre coitado cuja vida é infernizada por ter nascido na manjedoura ao lado da do menino Jesus e ter sido, por isso, confundido com o messias. Numa das cenas mais antológicas do filme ele perde uma sandália ao fugir, pela enésima vez, de uma turba de seguidores fanáticos, o que causa um cisma na “religião”: parte acha que aquilo foi um sinal e começa a se auto-denominar de “facção dos seguidores da sandália”, parte prefere seguir “puro” na doutrina e continuar a perseguição. Lembrei disso ao saber que não existe nenhum trecho do alcorão em que seja explicitamente clara a proibição da representação do profeta em imagens. Fica tudo por conta da interpretação de cada um, com as devidas variações, de acordo com as tradições – há, inclusive, os que proíbem a representação de qualquer ser vivo! Ou seja: tanto barulho - e morte!!! - por, praticamente, nada!

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por Gessy Kelly
“Clandestino” é um projeto itinerante no qual uma juventude que vive à margem do calendário cultural “oficial” e/ou “comercial” ousa tomar o espaço público e produzir, de forma absolutamente independente e alternativa, sua própria música. Divulgam a data e o local das apresentações via facebook e geralmente aproveitam a passagem pela cidade de alguma turnê “subterrânea” de grupos amigos ou com os quais tenham alguma afinidade. É capitaneado pelo pessoal da “The Renegades of punk” e contou em sua décima edição, ocorrida no última dia 11 de janeiro, um domingo, com apresentações, além dos anfitriões, da Karne Krua, veterana banda punk Hard Core local – completando 30 anos de atividades ininterruptas! – e da NTE (Nem Todos Esquecem), do Rio Grande do Norte.

por Gessy Kelly
Os potiguares surpreenderam positivamente com um show visceral onde se destacou a presença de palco de seu vocalista que, não por acaso, se apresenta sob a alcunha de “Falante”. Ele falou, muito, e com uma convicção assombrosa, que se via estampada em sua face. Algo raro de se ver nos dias de hoje, dominados pelo cinismo e pela apatia. Falou e pintou e bordou, numa perfomance impressionante – e espontânea, o que é muito importante. Tudo o que é dito nas letras das músicas é interpretado com gestos teatrais – reverenciar uma bicicleta, por exemplo – e expressões faciais que dão uma nova dimensão ao som da banda, um punk rock bastante básico, simplório, até. O que não é, em absoluto, um demérito: menos é mais, já ensinaram os Ramones em pleno auge dos excessos do rock progressivo. O punk rock não morreu, nem morrerá, enquanto existirem bandas com esse tipo de atitude – percorrer cerca de 800 km para tocar na praça, na raça, não é pra qualquer um! E, de quebra, na passagem pela Paraíba ainda trouxeram a tira-colo a dupla dinâmica Adriano e Olga, responsável pelo programa de rádio Jardim Elétrico e pelo jornal/sêlo Microfonia. Grandes figuras ,,,

por Gessy Kelly
Em tempo: “presença de palco” é força de expressão, já que não há palco no clandestino. É tudo feito no mesmo nível, em perfeita simbiose com o publico – que compareceu em bom numero, especialmente para um domingo. E foi bastante participativo, principalmente durante a apresentação da Karne Krua. Que foi, como sempre, sensacional, transbordando energia e, acima de tudo, VERDADE. Muito bom ver gerações de “rockers” permanecerem unidas em torno do bom e velho lema do “faça você mesmo” - e na rua, ao ar livre. Vida real! Sem porta, sem muros e com a presença de várias crianças. E de cachorros.

Tudo isso aconteceu há mais de um mês, o que desencoraja a publicação. Resenhas tão tardias, nestes tempos de velocidade supersônica e informação instantânea, correm o sério risco de parecerem textos datados discorrendo sobre assuntos agora irrelevantes, porque “já passou” e a grande maioria já esqueceu – e pior, ninguém tem mais interesse em lembrar.

FODA-SE! NEM TODOS ESQUECEM!

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Mais tempo ainda tem a última Festa da Antevéspera, que aconteceu no apagar das luzes do ano passado. Trata-se de um evento criado por fãs “auto-exilados” – leia-se “que moram fora” - da banda Snooze com o intuito de aproveitar a presença da maioria deles na cidade para as festas de fim de ano e promover um encontro para matar a saudade. Esta última edição contou com as participações especiais de Arthur Matos, Dani “renegades” – fazendo uma apresentação recheada de clássicos alternativos acompanhada pelos “snoozers” – Julio, da The Baggios, e Patrícia Polayne, que acabou de vez com qualquer dúvida que porventura existisse de que ela é uma grande cantora ao interpretar a belíssima “Ivo”, do Cocteau Twins. Inesquecível!

Muito bom, também, ter assistido à volta do rock ao palco do Cultart, espaço cultural mantido no centro de Aracaju pela Universidade Federal de Sergipe que já abrigou noites insanas e antológicas, como os show da Mundo Livre S/A, do No Rest e do Jason – com direito a tiros de bacamarteiros! – além, é claro, da inesquecível Boate do porão. Tinha esperança de que tivesse sido uma volta “pra ficar”, mas a julgar pelo estresse que rolou no final da noite, com a apresentação da snooze tendo que ser encurtada por conta das restrições de horário, não vai rolar ...

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Vale o registro, também, de mais uma passagem do grande bardo “punk brega” Wander Wildner pela terra dos cajueiros e dos papagaios(sqn). Foi de surpresa, aproveitando uma visita dele à cidade acompanhando a namorada, cuja irmã mora aqui. Foi acompanhado por uma excelente banda formada por músicos locais que, ao final, nos brindaram com uma sensacional sessão de covers de rocks clássicos, tipo Beatles, Bowie, Led Zeppelin, Deep Puble, Black Sabbath, The Jam e The Kinks.

O show de Wander foi muito bom, metade acústico, metade elétrico. Altos clássicos cantados a plenos pulmões pelos empolgadíssimos fãs locais. O local, também, ajudou – apesar de, por ser pequeno, ter deixado a mesma quantidade de gente que entrou do lado de fora. Foi na simpática Dogueria do Artista, no Inácio Barbosa.

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Richard Linklater é o cara! Versátil como poucos, vai da comédia mais “pop” – “Escola do rock”, que tava passando na tradicional Sessão da tarde da globo dia desses – ao mais rebuscado manifesto existencialista – “Waking life” – com uma desenvoltura admirável. Em “Boyhood” ele volta suas lentes para a vida, em si. A vida das pessoas simples, que não tem nenhum papel excepcionalmente importante nos destinos da humanidade. E nos ajuda a refletir sobre a mágica que é simplesmente viver – e conviver. A mágica de ser. Ser humano, ser nós mesmos. Ser o que somos. Ser importante na vida de alguém sem ao menos se dar conta disso. Ou se dar conta disso e estar constantemente à beira de um colapso por conta das pressões decorrentes ...

Magistrais interpretações de todo o elenco, ajudado pelos excelentes diálogos e por uma direção segura – o que é especialmente admirável quando nos damos conta que o cara levou mais de uma década, acompanhando a ação do tempo sobre os personagens, para filmar tudo! Difícil escolher um destaque, mas devo dizer que adorei a versão "mirim" da personagem Samantha, vivida pela filha do diretor, Lorelei Linklater. Divertida, espirituosa e IRRITANTE, como só as irmãs pequenas conseguem ser. Depois ela cresce e se transforma numa pessoa ... normal. Tudo aqui é "normal", mas se agiganta pelo olhar aguçado da lente do realizador. Tudo muito humano - demasiado humano ...

Vale notar, também, a ausência de maniqueísmo na narrativa: todos são mostrados com seus defeitos e suas virtudes, sem resquícios da vilania rasteira típica dos “blockbusters”. A cena emblemática, neste sentido, é a que mostra a visita do pai, com seus filhos, à casa dos novos sogros, típicos representantes do chamado “cinturão bíblico” da “américa profunda”, onde o livro sagrado convive em perfeita harmonia com as armas de fogo. Num dado momento, à beira de um lago, ele é questionado sobre uma possível conversão, em tom jocoso. “Eu estou ouvindo vocês”, diz a nova esposa, sentada à distância, em tom de galhofa. As diferenças são mostradas, portanto, de forma respeitosa, amorosa, e sem julgamentos – se há algum, fica por conta do olhar do expectador. Uma cena simples, mas tocante.  

Até a duração exagerada do filme serve pra nos lembrar de que a vida, às vezes, parece durar demais. Só nos damos conta do quanto ela é, na verdade, breve, quando nos deparamos com as situações pelas quais sabíamos que iríamos passar mas que parece que esperávamos que não chegassem nunca, como a que provoca uma crise de choro na mãe, interpretada por Patricia Arquete. Nessa hora ela diz a frase-chave para entender o longa: "eu esperava mais". A gente sempre espera mais ...

Não foi o meu caso, com relação ao filme. Achei perfeito.

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Esqueça a “bomba” que os irmãos Wachovsky (de Matrix!.) soltaram nos cinemas neste início de ano: a verdadeira redenção da “space opera” está nos quadrinhos! Acabou de ser lançada no Brasil, pela Devir, a sensacional série “Saga”, de Brian K. Vaughan (Ex- Machina e Y: the last man). É uma espécie de Romeu e Julieta intergaláctico, a história do amor impossível de um casal de espécies diferentes – e beligerantes – em meio a muito sexo, fantasia, violência e intrigas políticas.

Edição primorosa, em capa dura e papel couchê.

Imperdível!

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As bancas nos trouxeram recentemente, também, duas grandes e agradáveis surpresas: os relançamentos de dois verdadeiros clássicos dos quadrinhos, “Miracleman” e “A Tumba de Drácula”, via Panini. O primeiro é uma obra-prima do mestre Alan Moore que estava perdida num verdadeiro labirinto burocrático por conta de um gigantesco imbróglio com os direitos autorais. Já o segundo é uma pérola “pulp” que vale, especialmente, pelos desenhos de Gene Colan e pelo clima típico do terror cometido pela produtora Hammer durante a década de 1970, quando trouxe a figura do conde vampiro da Transilvãnia aos dias atuais. Pra mim é especialmente digno de comemoração, este lançamento, pois tenho uma ligação afetiva muito forte com estas histórias, que eu acompanhava antes mesmo de aprender a ler, fascinado com os desenhos e curiosíssimo pra saber o que estava escrito. São tramas um tanto quanto esdrúxulas e “rasteiras”, mas que resultam numa leitura, no mínimo, interessante – e divertida. Tá valendo.

Vivemos um grande momento em termos de lançamentos de quadrinhos no Brasil.

Que venha mais! O bolso reclama, mas a satisfação é garantida.

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Por conta da efeméride dos 50 anos do golpe militar resolvi tomar vergonha e começar a ler, finalmente, a monumental série "As Ilusões Armadas", de Elio Gaspari. Lançada originalmente em 2002 e relançada recentemente em edição revista e ampliada pela editora Intrínseca, é considerada por muitos a obra definitiva sobre o período - até o fim do governo Geiseil, no caso. Figueiredo, de acordo com sua própria vontade, foi relegado a um solene esquecimento. Trata-se de uma obra-prima absoluta, um primor de reportagem escrita de forma impecável que esmiúça em detalhes todas as tramas sórdidas que mergulharam o Brasil em mais de 20 anos de escuridão - um verdadeiro apagão ético e moral. Essencial, especialmente nos tempos que vivemos, onde o excesso de informação parece estar produzindo, como efeito colateral, a desinformação, com vivandeiras do retrocesso encontrando, surpreendentemente, eco para suas malcheirosas tentativas de revisionismo histórico ao vomitar asneiras do tipo "o golpe foi uma reação ao terrorismo de esquerda" - não foi! A luta armada surgiu como legítima defesa à brutalidade do regime. Ou a idéia de que os militares estavam empenhados, efetivamente, no combate à corrupção - não estavam! O foco era na repressão. A corrupção progrediu na mesma medida do "milagre econômico", com direito, inclusive, à existência de  verdadeiras gangues gestadas no seio das forças armadas e empenhadas na delinquencia pura e simples, para muito além do espectro ideológico.

Está tudo lá, nos quatro volumes - de cinco, o quinto nunca viu a luz do dia mas segue prometido, para este ano. Narrado de forma honesta e equilibrada, mas sem se furtar a emitir opiniões e juízos de valor – a reunião que aprovou o AI-5, por exemplo, é chamada de “Missa Negra”, e os combatentes da luta armada são chamados de “terroristas” – com isso não sei se concordo, certamente não da forma generalizada como é apresentada, mas a opção semântica, a meu ver, não compromete a narrativa, que segue honesta até o fim do segundo volume – onde parei, num magnífico capítulo inteiramente dedicado à luta no Araguaia.

Uma curiosidade: na primeira edição, a que tenho - e li - não é feita nenhuma menção à então ministra das minas e energia Dilma Roussef, cuja história nos porões da repressão só adquiriu notoriedade após seu lançamento como candidata à presidência da república. Somente na nova edição, revista e ampliada, ela está presente.



Essencial!

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Aproveitei uma promoção de passagens aéreas, dessas que pipocam inesperadamente na tela de nossos computadores via publicidade na net, para conferir, em São Paulo, as exposições de Salvador Dali, no Instituto Tomie Ohtake, e de Ron Mueck, na Pinacoteca. O primeiro dispensa apresentações, já que é um verdadeiro ícone pop. A mostra, a maior dedicada ao artista até o momento, no Brasil, contou com um conjunto de obras formado por 24 pinturas, 135 trabalhos entre desenhos e gravuras, 40 documentos, 15 fotografias e quatro filmes. De encher os olhos e atiçar os sentidos.

Mueck é um escultor australiano radicado na Inglaterra. Ele trabalha com imagens hiper-realistas feitas de fibra de vidro e silicone que, por suas dimensões desencontradas da realidade, causam uma sensação de estranheza, flertando com o surrealismo. A mostra – ao contrário da de Dali - segue em cartaz até o dia 22 de fevereiro. A partir das 5 da tarde, às quintas, a entrada é gratuita. Peguei uma fila relativamente grande no dia em que fui, mas nada desesperador. Vale muito a pena, também, uma visita adicional ao acervo da pinacoteca, repleto de esculturas e quadros antológicos, daqueles que você passou a vida inteira vendo ilustrando livros didáticos. Se chegar cedo, a dica é um passeio pelo Parque Jardim da Luz, nos arredores da estação. É repleto de esculturas, algumas assinadas por nomes ilustres, como Lasar Segall e Victor Brecheret.

Desnecessário dizer que há várias outras opções de diversão e entretenimento cultural na grande metrópole. Sugiro uma conferida na programação do Cinesesc, o mais charmoso da cidade - conta, inclusive, como um serviço de bar dentro da sala de projeção! Lá revi o clássico "O Franco Atirador", dentro de uma Mostra retrospectiva do diretor Michael Cimino. E vi também, gravado nas paredes do cinema, o nome de um amigo, o ilustre jornalista e poeta sergipano Amaral Cavalcante, como parte integrante do elenco de "Sargento Getulio", de Hermano Penna - trata-se de um painel que homenageia grandes nomes do cinema nacional. Fica na Rua Augusta, número 2.075.

Logo abaixo, na mesma rua - número 2.389- temos a Sensorial Discos, simpático e aconchegante espaço dividido entre cervejas especiais e discos de vinil. É de propriedade de um grande amigo dos tempos de "fanzinagem", Carlos Rodrigues Costa - que vem a ser, também, baixista da banda Continental Combo. Lá encontrei, por puro acaso, o baterista sergipano Thiago "Babalu" - ex-Karne Krua, Sem Freio na Lingua, Fluster, etc. Ele estava em êxtase pois havia sido convidado de surpresa, na noite anterior, para substituir uma verdadeira lenda viva do rock, Steve Shelley, no show do igualmente lendário Thurston Moore - ambos membros-fundadores do Sonic Youth. Show ao qual não fui por ter considerado o preço extorsivo - 180 reais por uma apresentação de cerca de uma hora, convenhamos, é um pouco demais. Teria ido, se soubesse que um amigo de longa data estaria presente, no palco. Mas ok, nem ele mesmo sabia. Pior: me disse que teria deixado meu nome na porta, caso soubesse que eu estava por lá. Hora de respirar fundo e mentalizar, para se conformar com o azar ...

A

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