Leonel Brizola deixou a vida para entrar para
história em 21 de junho de 2004, quinze anos atrás. Seu nome é o sino de
bronze da luta anti-imperialista que a partir do Brasil abalou o século
anterior – o punho erguido de uma Pátria que diz para História: “eis-me
aqui”.
Nascido em 22 de janeiro de 1922 em uma família de pobres camponeses
em Cruzinha, distrito de Carazinho no Rio Grande do Sul, Leonel de Moura
Brizola era o caçula de uma tradição guerreira. Seu pai, José Brizola
lutou ao lado do caudilho Leonel Rocha nos conflitos entre maragatos e
chimangos que ensoparam a campanha gaúcha com o sangue da peonada. Ao
regressar da guerra, José foi sequestrado e assassinado por soldados
inimigos em ato criminoso, praticado depois da assinatura do tratado de
paz. Conta Moniz Bandeira que o filho mais jovem de José ganhou seu nome
quando, aos dois anos de idade, brandindo uma espada de madeira, disse
“eu sou Leonel Rocha!”
Com muita dificuldade, Brizola ingressa em um curso de engenharia em
Porto Alegre, trabalhando para se manter na capital gaúcha. É no ocaso
do Estado Novo que inicia sua atuação política, no meio da campanha do
queremismo, quando Brizola se vê requisitado por vários dos nascentes
partidos. Na época ainda sem uma clara definição política, Brizola conta
que simpatizava com Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes. Mas não
conseguiu se identificar com a petulância dos militantes do PCB, que em
suas palavras se “achavam os donos da verdade” e eram extremamente
sectários. Igualmente, o PSD, organizado pelos interventores do Estado
Novo e representante dos interesses da oligarquia rural e urbana, não o
atraiu devido a seu “instinto de classe”.
Na estrutura do PSD, criou-se um Departamento Trabalhista, que
deveria acomodar o movimento sindical. No entanto, com aval do ministro
do Trabalho Marcondes Filho e do próprio Vargas, os sindicalistas se
rebelaram contra essa tentativa e fundaram seu próprio partido, o PTB.
Com o PTB em oposição ao governo Dutra do PSD, Brizola a duras penas
organizou o partido no Rio Grande do Sul, chegando a conciliar um
mandato como deputado estadual com os estudos em engenharia.
O suicídio de Vargas é o episódio-chave na formação de Brizola. O
líder trabalhista dizia que seu norte político era a Carta-Testamento de
Getúlio, denunciando o íntima ligação da penúria do povo brasileiro com
a espoliação internacional do país.
Como governador do Rio Grande do Sul, Brizola enfrentou os monopólio
norte-americano da Bond & Share, que controlava o fornecimento de
energia elétrica em seu estado. A transnacional se recusava a fazer a
expansão que a rede elétrica, imprescindível para o desenvolvimento do
estado. Brizola então encampou o serviço público, pagando um cruzeiro
pela empresa – valor que correspondia exatamente ao seu valor uma vez
computado seu passivo. Também enfrentou a toda poderosa ITT na luta
infraestrutura gaúcha, empresa notória por seu patrocínio ao golpe no
Chile em 1973. Devido a esses episódios, ficou conhecido “Castro
brasileiro” pela mídia estadunidense, atemorizada pela possibilidade do
levante de um titã como o Brasil em seu hemisfério.
Ainda como governador, Brizola protagonizou a Campanha da Legalidade
em 1961, quando alguns militares tentaram impedir a posse de João
Goulart, que se encontrava em missão oficial a China quando Jânio
Quadros renuncia. Por meio de apaixonadas transmissões pela Rádio
Guaíba, organiza o povo gaúcho, inclusive com a distribuição de armas no
que foi a maior e mais intensa mobilização popular da história
brasileira. Assim, o povo organizado debela o golpe que se desenhava,
embora o Congresso aprove uma emenda instituindo o parlamentarismo,
somente para esvaziar a presidência de seus poderes.
Brizola fica até o final de seu mandato em 1963 como governador em
vez de se candidatar para algum cargo pelo Rio Grande do Sul, como
senador ou deputado federal. Se se candidatasse, seria obrigado a
renunciar para se descompatibilizar, como mandava a legislação da época.
Permaneceu no cargo para oferecer sustentação ao governo Goulart e à
campanha para voltar ao presidencialismo. A organização popular mais uma
vez rende frutos e o Congresso Nacional se vê forçado a convocar um
plebiscito em janeiro de 1963 a respeito da emenda do parlamentarismo,
prontamente derrotada. Neste mesmo ano, Brizola é eleito deputado
federal pelo estado da Guanabara – seu último mandato antes do golpe de
1964.
No segundo semestre de 1963, os Estados Unidos apertam o cerco
imperialista ao Brasil. O presidente Kennedy restringe o acesso do
Brasil a linhas de crédito e adotas outras medidas agressivas para
obrigar o país a derrubar a Lei de Remessa de Lucros – projeto de lei do
próprio Vargas promulgado por Goulart. Mas a balança de pagamentos
brasileira naquela época estava extremamente comprometida pela escassez
de dólares, principalmente pela remessa de lucros, que consumia as
divisas estrangeiras em posse do Brasil. Por essa razão, o fantasma da
inflação assolava o país. Goulart via-se entre a cruz e a espada: ou
lutava pelo Brasil ou capitulava para os estadunidenses. Sua opção marca
a história brasileira.
Progressivamente isolado ao longo dos primeiros meses de 64 –
principalmente depois de propor e em seguida retirar um pedido de estado
de sítio em função de uma entrevista de Lacerda para um jornal
norte-americano – Goulart faz o famoso comício da Central do Brasil em
março daquele ano. O discurso precipita a ala conservadora das Forças
Armadas e das montanhas das Minas Gerais desce a tropa de Olympio Mourão
Filho para tomar o Rio de Janeiro e depor o governo democrático e
popular dos trabalhistas.
Brizola permanece no Rio Grande do Sul para assegurar a posse do
general Ladário Pereira Teles como comandante do III Exército. Quando o
Presidente da República chega ao estado sulista depois de uma passagem
infrutífera por Brasília, o general chega a oferecer o Exército para a
defesa do país e da constituição. Não querendo manchar o Brasil com o
sangue de tantos filhos em uma luta quase sem chances de vitória,
Goulart declina a oferta. Ele e Brizola então fogem para o Uruguai. No
exílio, as articulações de resistência de Goulart e Brizola acabam
fracassando e os dois ficam por anos sem se falar.
Temido pelas forças antinacionais que haviam se apossado do país em
1964, Brizola ficou 15 anos exilado, um dos maiores períodos de
afastamento compulsório registrados. Com o início da abertura “lenta,
gradual e segura” do Regime Militar em 1979, os trabalhistas no exílio e
no Brasil se encontram em Lisboa, onde assinam uma Carta objetivando a
reconstrução do PTB.
Mesmo após tantos anos de exílio, a ditadura não deu trégua a Brizola
– o regime moribundo fez de tudo para obstaculizar a campanha de
Brizola ao governo do Rio de Janeiro em 1982. Golbery em conluio com o
TSE entrega a sigla PTB para Ivete Vargas, somente para atrapalhar a
reorganização dos trabalhistas. Aos prantos na Associação Brasileira dos
Jornalistas, Brizola rasga um pedaço de papel escrito PTB e rascunha em
outro a nova sigla para o velho partido, herdeiro da tradição
patriótica de Vargas: PDT.
Ainda na campanha de 1982, Brizola enfrenta a Globo no famoso
escândalo da Proconsult, quando a emissora foi cúmplice de uma tentativa
de fraude eleitoral para entregar o governo do Rio de Janeiro para
Moreira Franco. Os mandatos de Brizola como governador do Rio de Janeiro
serão marcados por um forte cunho popular. Junto com Darcy Ribeiro,
promove uma revolução na educação do estado com os CIEPs, até hoje
referência em política educacional no Terceiro Mundo. Como governador,
Brizola teria um papel destacada na campanha pelas Diretas Já em 1984.
A relação com entre o PT e o PDT foi de distância desde as primeiras
tentativas de aproximação ainda em 1979. Orientados pelo uspianismo que
condenava a tradição varguista e por uma visão pós-moderna da classe
trabalhadora, as lideranças do Novo Sindicalismo jamais se aproximaram
dos trabalhistas. Mesmo assim, num gesto de grandeza patriótica, Brizola
apoia Lula no segundo turno das eleições de 1989, para tentar evitar o
desastre que seria o governo Collor – gesto que o próprio Lula foi
incapaz de repetir 29 anos depois em 2018, quando sacrificou o país
sabotando a campanha de Ciro Gomes para manter a hegemonia petista sobre
a esquerda.
O veterano Brizola ainda disputou eleições presidenciais ao longo dos
anos 90, depois de um segundo mandato como governador do Rio de
Janeiro, sempre condenando o neoliberalismo. Na última eleição, apoiou
Ciro Gomes e ao longo do primeiro mandato de Lula, denunciou o caráter
neoliberal da gestão petista. Faleceu em 2004, deixando, junto de
Vargas, o legado do patriotismo popular brasileiro.
Em todas as suas falas, Brizola denunciava a contradição central do
Brasil, que determina o país como um todo: a dependência. Assim como
está escrito na Carta-Testamento de Getúlio Vargas, a condição de
precariedade do povo brasileiro não pode ser separada da espoliação
pelos monopólios internacionais. Brizola era herdeiro da luta de Vargas
pela siderurgia em Volta Redonda, a criação da Vale, da Eletrobras, da
Petrobras, da Justiça do Trabalho e a estrutura sindical que permitiria a
organização de nosso povo.
Em uma fala na UNE em 1961, Brizola disse que “se nada temos com a
União Soviética, devemos ter coragem de dizer que nada temos com os
Estados Unidos”. O então governador do Rio Grande do Sul se posiciona
contra a importação de modelos estrangeiros para o país, tanto a
esquerda como a direita. Buscava uma solução brasileira para os
problemas brasileiros – ainda que tal solução não prescindisse de um
socialismo, mas um socialismo com caráter brasileiro. Neste mesmo
discurso, mesmo dizendo que não era inimigo dos Estados Unidos, não
deixou de reconhecer que as reformas que o Brasil tanto necessitava
obrigatoriamente implicaria em uma modificação nas relações com os EUA.
Ao longo de sua vida, Brizola fez jus a seu sangue guerreiro. Até seu
último suspiro, batalhou contra o caráter colonial do Brasil e lutou
por sua emancipação. Deixará em todos os brasileiros a eterna dúvida do
que poderia ter sido o país se o herdeiro de Vargas tivesse chegado à
presidência. Chegou a colocar medo nas grandes corporações
estadunidenses, que sabem a ameaça estratégica que o Brasil representa
como uma superpotência no hemisfério ocidental. Brizola foi o punho
erguido do Brasil ameaçando o domínio dos EUA sobre as Américas.
por
sexta-feira, 28 de junho de 2019
quarta-feira, 12 de junho de 2019
70 Anos de Mil novecentos e oitenta e quatro
Embora seja um long-seller continuamente republicado, recentemente as vendas de Mil novecentos e oitenta e quatro - intitulado assim no original, embora geralmente citado em números -, a distopia de Orwell publicada pela primeira vez há 70 anos, dispararam nos Estados Unidos, onde, segundo o The New York Times,
a editora Penguin enviou várias centenas de milhares de exemplares
pouco depois de Kellyanne Conway, conselheira do Gabinete do presidente Donald Trump,
ter repreendido a imprensa por insistir que a Administração
reconhecesse que o número de participantes da cerimônia de posse de
Trump era uma informação falsa que sua equipe tinha feito circular.
Afinal, disse Conway, não se tratava nem de uma mentira nem de um erro,
mas do que definiu como “fatos alternativos”. Ao ouvir suas palavras,
muitos cidadãos relembraram algumas previsões do romance de Orwell: a
“novilíngua”, um vocabulário sintético e reduzido, cuja pobreza visa
também reduzir a capacidade de pensar; e o “Ministério da Verdade”, no
qual funcionários no livro se aplicam a corrigir os testemunhos do
passado recente e a reescrever a história para que ela se encaixe
perfeitamente no discurso oficial. Ou seja, o que muitos viram em Conway
era uma implantação sem complexos da mentira institucionalizada,
presente em maior ou menor medida não só em Trump, mas em geral nos
discursos da política, do comércio, da religião... do jornalismo...
Caminhamos mansamente em direção a uma sociedade de vigilância em massa na qual a informação é manipulada para manter as pessoas sob controle, como o romance reflete? Orwell imaginou um mundo pós-revolucionário onde tudo o que aconteceu antes da Revolução fundadora de1984 (valores humanísticos, formas de relacionamento, debate público, liberdade de expressão, cultura...) foi abolido e esquecido. A nova sociedade materialista que o romance descreve é dividida em três classes: os membros do partido, os “proles” e os “escravos”. O aparato de repressão, onipotente e implacável, vigia cada movimento dos súditos por meio de um sistema de telas instaladas no espaço público e no doméstico. Não existe privacidade. O poder é encarnado em um tirano inacessível cuja imagem é exibida em todos os lugares com o slogan “O Grande Irmão zela por ti”.
Em uma Londres sinistra, o protagonista, Winston Smith, modesto mas inquieto funcionário do departamento de História do Ministério da Verdade, conhece Julia, empregada do departamento de Ficção do mesmo ministério. Ela opera uma “máquina de escrever romances”: histórias com argumentos simples e personagens estereotipados, semelhantes àquelas que em nosso mundo real hoje são escritas por computadores que usam inteligência artificial. Winston e Julia se apaixonam e tentam se juntar a uma fantasmagórica organização clandestina de dissidentes que, no fundo, sabem estar condenada ao fracasso, porque o poder é invencível. Essa tensão entre o poder esmagador, por um lado, e, por outro, o amor e a liberdade, é a substância do romance.
Deixando de lado notáveis exceções, como o controle exercido pelo Governo chinês sobre sua população e satrapias várias, o onipresente Estado policial todo-poderoso e controlador que Orwell fabulou... não existe. Paradoxalmente, um dos maiores problemas em grande parte do mundo é a fraqueza ou a falência dos Estados. Mas os monopólios todo-poderosos da tecnologia, com seu controle da verdade e sua avidez vampírica por informação, podem ser um substituto plausível para esse Estado fictício. Nesse sentido, também na realidade, O Grande Irmão está te vigiando e te espionando – sim, com uma interface agradável e com a aquiescência e a entusiástica cooperação da massa – por meio das telas, do telefone celular que cada um carrega no bolso, do indelével rastro digital deixado por cada usuário.
Na sociedade ocidental de hoje, o sexo tampouco é reprimido e severamente controlado como em 1984, mas encorajado e exposto. E, no entanto, sua prática na juventude é substancialmente atrasada e reduzida, de acordo com estatísticas oficiais de uma dezena de países do primeiro mundo citadas pela revista cultural norte-americana The Atlantic. Essa demora pode ser a primeira indicação da recessão sexual, sinal de “uma retirada mais ampla da intimidade física que se estende até a entrada na maturidade”. (As causas dessa queda da libido podem ser pressões econômicas, ansiedade, fragilidade psicológica, uso generalizado de antidepressivos, televisão em streaming, estrógenos dispersados pelo plástico no meio ambiente, smartphones, falta de sono, obesidade, excesso de informação... ou o que ocorrer a qualquer analista).
No inferno cartografado por Orwell em seu livro, escrito no pós-guerra, a miséria é generalizada, as pessoas caminham cabisbaixas e tolhidas, os bens de consumo são escassos, a aparência das coisas é cinza, o trabalho é embrutecedor e os horários abusivos. Hoje o mundo real não é assim, pensam os membros do partido. Mas proles e os escravos certamente reconhecem essas paisagens.
Em um dos mais famosos, tétricos e patéticos cenários de 1984, os chamados “dois minutos de ódio”, as massas se reúnem diante de uma grande tela para vaiar e execrar o inimigo em um paroxismo demente. Ao lê-lo, é inevitável lembrar das redes sociais, onde hoje qualquer um que coloque o focinho fora do bando se expõe a ser linchado virtualmente.
Outros artefatos e termos usados para descrever o mundo de 1984 foram incorporados à paisagem e à linguagem comum. Orwell concebeu suas profecias como uma admoestação, uma advertência contra um futuro totalitário, seja soviético, seja fascista, e contra o cultivo sistemático da mentira que observou pela primeira vez na Espanha, em Barcelona, durante a Guerra Civil, que lhe deixou surpreso e pensativo ao constatar “com que facilidade a propaganda totalitária pode controlar a opinião das pessoas cultas nos países democráticos”.
O estilo de Orwell é direto e tem uma formidável capacidade de criar empatia com o leitor, que ao lê-lo ouve a voz de um personagem simpático, honesto, próximo, bom. Essa proximidade, é claro, é uma grande virtude literária. Como Camus, escrevia impulsionado por uma obrigação moral. Tinha que expiar seu trabalho como oficial de polícia do império na Birmânia, onde passou cinco anos depois de ter estudado em Eton, e de onde voltou com uma forte consciência política anti-imperialista.
Escreveu com o máximo verismo reportagens sobre os londrinos pobres e se reduziu voluntariamente à condição de vagabundo. Frequentou mendigos em pé de igualdade por um longo tempo. Daí surgiu seu primeiro livro, Na Pior em Paris e em Londres.
Com o mesmo espírito de coerência e sacrifício, quando Franco se levantou contra a República espanhola foi para Barcelona e imediatamente se apresentou como voluntário para lutar na frente. Desta aventura ficou o testemunho de sua Homenagem à Catalunha e o rastro de uma experiência e conhecimentos sobre a lógica do totalitarismo que se refletiria em sua famosa fábula Revolução dos Bichos, e que cristalizou em 1984.
Este romance foi seu legado: ele o escreveu tendo em mente Nós, de Yevgeny Zamyatin, com muito trabalho, dúvidas e correções em uma ilha escocesa ventosa e fria, onde se retirou com esse objetivo, logo depois de ter ficado viúvo de uma esposa muito querida, sozinho, doente de tuberculose – na época muitas vezes letal –, como um longo testamento político. De fato, morreu no ano seguinte à publicação.
O escritor britânico John Lanchester aponta que o mundo de hoje é mais parecido com a distopia daquele que foi professor de Orwell, Aldous Huxley: Admirável Mundo Novo (1932). Esse livro descreve uma sociedade marcada pela ciência e pela tecnologia e entregue a uma “narcotizante promiscuidade sexual”, tranquilizada pelo prazer e pelas drogas (o soma milagroso) e imersa em uma infantilização geral; e coerentemente com isso, narrado em um tom mais leve do que 1984. Para entender o presente, Lanchester propõe uma síntese entre Admirável Mundo Novo e 1984.
Nessa síntese talvez se devam incluir algumas das tendências e inovações que inundam o nosso mundo. Como as chamadas “capacidades aumentadas”– drogas, próteses, implantes cerebrais–, os novos órgãos obtidos com impressoras 3D; os robôs que controlam nossas casas, aprendem e transmitem nossos dados; a realidade virtual que entretém e anestesia...
Orwell não se estendeu em descrições de novas tecnologias e máquinas: colocou o foco em um estado mental e social. É por isso que seus augúrios conectam com os leitores. Como Dorian Lynskey afirma em uma recente biografia de Orwell – In the Shadow of Big Brother (Na Sombra do Big Brother) –, o britânico “estava muito mais interessado na psicologia do que nos sistemas”. Aí reside a chave do poder e dos mecanismos de controle da massa através da mentira e do medo. Isso dificilmente muda.
por Ignacio Vidal-Folch
El País
#
Caminhamos mansamente em direção a uma sociedade de vigilância em massa na qual a informação é manipulada para manter as pessoas sob controle, como o romance reflete? Orwell imaginou um mundo pós-revolucionário onde tudo o que aconteceu antes da Revolução fundadora de1984 (valores humanísticos, formas de relacionamento, debate público, liberdade de expressão, cultura...) foi abolido e esquecido. A nova sociedade materialista que o romance descreve é dividida em três classes: os membros do partido, os “proles” e os “escravos”. O aparato de repressão, onipotente e implacável, vigia cada movimento dos súditos por meio de um sistema de telas instaladas no espaço público e no doméstico. Não existe privacidade. O poder é encarnado em um tirano inacessível cuja imagem é exibida em todos os lugares com o slogan “O Grande Irmão zela por ti”.
Em uma Londres sinistra, o protagonista, Winston Smith, modesto mas inquieto funcionário do departamento de História do Ministério da Verdade, conhece Julia, empregada do departamento de Ficção do mesmo ministério. Ela opera uma “máquina de escrever romances”: histórias com argumentos simples e personagens estereotipados, semelhantes àquelas que em nosso mundo real hoje são escritas por computadores que usam inteligência artificial. Winston e Julia se apaixonam e tentam se juntar a uma fantasmagórica organização clandestina de dissidentes que, no fundo, sabem estar condenada ao fracasso, porque o poder é invencível. Essa tensão entre o poder esmagador, por um lado, e, por outro, o amor e a liberdade, é a substância do romance.
Deixando de lado notáveis exceções, como o controle exercido pelo Governo chinês sobre sua população e satrapias várias, o onipresente Estado policial todo-poderoso e controlador que Orwell fabulou... não existe. Paradoxalmente, um dos maiores problemas em grande parte do mundo é a fraqueza ou a falência dos Estados. Mas os monopólios todo-poderosos da tecnologia, com seu controle da verdade e sua avidez vampírica por informação, podem ser um substituto plausível para esse Estado fictício. Nesse sentido, também na realidade, O Grande Irmão está te vigiando e te espionando – sim, com uma interface agradável e com a aquiescência e a entusiástica cooperação da massa – por meio das telas, do telefone celular que cada um carrega no bolso, do indelével rastro digital deixado por cada usuário.
Na sociedade ocidental de hoje, o sexo tampouco é reprimido e severamente controlado como em 1984, mas encorajado e exposto. E, no entanto, sua prática na juventude é substancialmente atrasada e reduzida, de acordo com estatísticas oficiais de uma dezena de países do primeiro mundo citadas pela revista cultural norte-americana The Atlantic. Essa demora pode ser a primeira indicação da recessão sexual, sinal de “uma retirada mais ampla da intimidade física que se estende até a entrada na maturidade”. (As causas dessa queda da libido podem ser pressões econômicas, ansiedade, fragilidade psicológica, uso generalizado de antidepressivos, televisão em streaming, estrógenos dispersados pelo plástico no meio ambiente, smartphones, falta de sono, obesidade, excesso de informação... ou o que ocorrer a qualquer analista).
No inferno cartografado por Orwell em seu livro, escrito no pós-guerra, a miséria é generalizada, as pessoas caminham cabisbaixas e tolhidas, os bens de consumo são escassos, a aparência das coisas é cinza, o trabalho é embrutecedor e os horários abusivos. Hoje o mundo real não é assim, pensam os membros do partido. Mas proles e os escravos certamente reconhecem essas paisagens.
Em um dos mais famosos, tétricos e patéticos cenários de 1984, os chamados “dois minutos de ódio”, as massas se reúnem diante de uma grande tela para vaiar e execrar o inimigo em um paroxismo demente. Ao lê-lo, é inevitável lembrar das redes sociais, onde hoje qualquer um que coloque o focinho fora do bando se expõe a ser linchado virtualmente.
Outros artefatos e termos usados para descrever o mundo de 1984 foram incorporados à paisagem e à linguagem comum. Orwell concebeu suas profecias como uma admoestação, uma advertência contra um futuro totalitário, seja soviético, seja fascista, e contra o cultivo sistemático da mentira que observou pela primeira vez na Espanha, em Barcelona, durante a Guerra Civil, que lhe deixou surpreso e pensativo ao constatar “com que facilidade a propaganda totalitária pode controlar a opinião das pessoas cultas nos países democráticos”.
O estilo de Orwell é direto e tem uma formidável capacidade de criar empatia com o leitor, que ao lê-lo ouve a voz de um personagem simpático, honesto, próximo, bom. Essa proximidade, é claro, é uma grande virtude literária. Como Camus, escrevia impulsionado por uma obrigação moral. Tinha que expiar seu trabalho como oficial de polícia do império na Birmânia, onde passou cinco anos depois de ter estudado em Eton, e de onde voltou com uma forte consciência política anti-imperialista.
Escreveu com o máximo verismo reportagens sobre os londrinos pobres e se reduziu voluntariamente à condição de vagabundo. Frequentou mendigos em pé de igualdade por um longo tempo. Daí surgiu seu primeiro livro, Na Pior em Paris e em Londres.
Com o mesmo espírito de coerência e sacrifício, quando Franco se levantou contra a República espanhola foi para Barcelona e imediatamente se apresentou como voluntário para lutar na frente. Desta aventura ficou o testemunho de sua Homenagem à Catalunha e o rastro de uma experiência e conhecimentos sobre a lógica do totalitarismo que se refletiria em sua famosa fábula Revolução dos Bichos, e que cristalizou em 1984.
Este romance foi seu legado: ele o escreveu tendo em mente Nós, de Yevgeny Zamyatin, com muito trabalho, dúvidas e correções em uma ilha escocesa ventosa e fria, onde se retirou com esse objetivo, logo depois de ter ficado viúvo de uma esposa muito querida, sozinho, doente de tuberculose – na época muitas vezes letal –, como um longo testamento político. De fato, morreu no ano seguinte à publicação.
O escritor britânico John Lanchester aponta que o mundo de hoje é mais parecido com a distopia daquele que foi professor de Orwell, Aldous Huxley: Admirável Mundo Novo (1932). Esse livro descreve uma sociedade marcada pela ciência e pela tecnologia e entregue a uma “narcotizante promiscuidade sexual”, tranquilizada pelo prazer e pelas drogas (o soma milagroso) e imersa em uma infantilização geral; e coerentemente com isso, narrado em um tom mais leve do que 1984. Para entender o presente, Lanchester propõe uma síntese entre Admirável Mundo Novo e 1984.
Nessa síntese talvez se devam incluir algumas das tendências e inovações que inundam o nosso mundo. Como as chamadas “capacidades aumentadas”– drogas, próteses, implantes cerebrais–, os novos órgãos obtidos com impressoras 3D; os robôs que controlam nossas casas, aprendem e transmitem nossos dados; a realidade virtual que entretém e anestesia...
Orwell não se estendeu em descrições de novas tecnologias e máquinas: colocou o foco em um estado mental e social. É por isso que seus augúrios conectam com os leitores. Como Dorian Lynskey afirma em uma recente biografia de Orwell – In the Shadow of Big Brother (Na Sombra do Big Brother) –, o britânico “estava muito mais interessado na psicologia do que nos sistemas”. Aí reside a chave do poder e dos mecanismos de controle da massa através da mentira e do medo. Isso dificilmente muda.
por Ignacio Vidal-Folch
El País
#
quarta-feira, 13 de junho de 2018
50 Anos de 2001 - Uma odisséia no espaço
No fim de março de 1968, as primeiras cópias de 2001: Uma Odisseia no Espaço começaram a ser projetadas para integrantes das elites do cinema de Hollywood e do jornalismo cultural dos Estados Unidos, e produziram um retumbante fracasso.
Ninguém tolerou a visão de futuro do
nova-iorquino de ascendência judia Stanley Kubrick, nem mesmo o
cientista e escritor inglês Arthur C. Clarke, que trabalhava havia
quatro anos, em parceria com o cineasta, na versão literária do filme,
que seria lançada logo a seguir.
No livro recém-lançado 2001: Uma Odisseia no Espaço – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a Criação de uma Obra-Prima,
o escritor e cineasta Michael Benson, nascido seis anos antes da
estreia, narra com gozo as circunstâncias agudas daqueles dias de 50
anos atrás.
Nas pré-estreias, Clarke, executivos do
estúdio MGM e críticos de cinema se irmanaram naquilo que a viúva de
Stanley, Christiane Kubrick, descreve no livro como o “prazer em ver a
dor alheia” estampada no rosto do cineasta.
Acontecia ali um daqueles fenômenos em
que as elites de um determinado tempo se divorciam completamente da
realidade e entendem um fato pelo contrário simétrico do que ele
significa. Desesperado pela rejeição inicial, Kubrick encurtou 19
minutos do filme (restaram 139 minutos para a posteridade).
Em lépidos 16 dias, um dos inúmeros críticos que apontaram os “erros” de 2001 produziu a primeira reavaliação, de mea-culpa, sobre o filme, e o apontou como “obra-prima”. Amparado pelas plateias mais jovens, 2001 se transformaria no filme mais lucrativo de 1968 e num dos épicos cinematográficos indeléveis do século passado.
Estima-se que a MGM, que embolsara algo como 12 milhões de dólares com 2001, foi recompensada com uma bilheteria de até 190 milhões de dólares. Antes que 1968
terminasse, a nave Apollo 8 fez o primeiro voo ao redor da Lua; em
julho de 1969, a vida imitou Kubrick e fez um terráqueo pisar pela
primeira e única vez o solo do satélite artificial do planeta que 2001 gostaria de suplantar.
De modo análogo ao que Kubrick fez ao
explorar por dentro as espaçonaves e o robô com (maus) sentimentos
humanos HAL 9000, o livro de Benson penetra as entranhas da produção de
1964-68 para explorar minuciosamente o futuro do pretérito que é a
substância de 2001.
O que emerge é a colisão criativa sem
tréguas entre passado e futuro, memória e invenção, o peso do tempo e a
leveza do vento. É flagrante o desespero financeiro de Arthur Clarke
diante da relutância de Kubrick em liberar o lançamento da versão
literária de 2001.Ao longo da produção, o diretor vai extirpando as palavras da versão audiovisual.
Quando o livro vem à tona, o texto passa a
servir de guia auxiliar de decifração para os enigmas não verbais do
filme – o monólito alienígena que atravessa milhões de anos entre a
Terra e a Lua e Júpiter e além, o salto humano entre o berço terrestre e
o infinito intergaláctico, o astronauta que envelhece e volta ao útero
materno ao percorrer o Portal das Estrelas imaginado por Clarke, e assim
por diante.
Na tensão entre opostos
complementares, é como se Kubrick compusesse a melodia da sinfonia que
adornaria (ou melhor, ocultaria) as letras de Clarke para um épico folk-rock
de Bob Dylan (a certa altura, o diretor cogita, não se sabe se a sério
ou zombeteiramente, entregar a encomenda da trilha sonora para os
Beatles).
Na contramão das trilhas especialmente
compostas para filmes de grande orçamento, Kubrick queria impor à MGM o
uso de peças eruditas – do ribombante e nietz-schiano Also Sprach Zarathustra (1896), do alemão Richard Strauss, ao manjado e “cafona” Danúbio Azul (1867), do austríaco Johann Strauss.
Ao vencer a peleja, o diretor impôs à
indústria canibal um paradoxal balé futurista banhado por sons compostos
mais de um século antes de 2001. Contraste ainda mais chocante era
produzido pela cena de envelhecimento do astronauta, ambientado num
quarto de hotel interestelar decorado à moda Luís XV.
O arco de ambição da odisseia homérica e joyciana de Kubrick para longe da ave-mãe
Terra ajuda a explicar a repulsa da elite que primeiro teve acesso ao
filme, e faz o diretor retroceder a hominídeos de milhões de anos atrás,
no prólogo A Aurora do Homem.
Combustível fóssil abastece e incendeia a
narrativa de Benson sobre o processo de caracterização dos neandertais
coreografados pelo mímico Daniel Richter. Ele também acabaria por
interpretar Moonwatcher, o homem-macaco namorado da Lua que, após
vislumbrar o monólito, aprendia a usar ossos como armas e tornava a
espécie carnívora e ereta.
Ao atirar aos céus o fêmur animal que, na
montagem, se convertia numa espaçonave em forma de espermatozoide capaz
de furar a Via Láctea, Moonwatcher metaforizava o raio de alcance
almejado por 2001.
Richter só foi creditado
como ator, porque Kubrick não admitia que ninguém, além dele,
acumulasse mais de um crédito nos letreiros. De olho nas estatuetas
danúbias do Oscar, o diretor engoliu a equipe de efeitos visuais e
assinou a autoria desse setor que era um dos monólitos de inovação do
filme.
Os efeitos visuais renderam o único Oscar para 2001 e para Kubrick, diretor também de outros clássicos pop-rock do cinema mundial, como Dr. Fantástico (1964), Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980). Idealizador de epopeias de época, guerra, terror e thriller sexual, Kubrick jamais dirigiu um faroeste.
Para Benson, 2001 marca o encerramento do ciclo do cinema de Velho Oeste e a substituição dos épicos sertanejos e caipiras pelo breu interestelar. Psicodélico na travessia do Portal das Estrelas, 2001 o filme saiu da mente de um diretor que evitava religiosamente as drogas, por medo de que lhe sabotassem o fluxo criativo.
Embora um semideus se consolide na narrativa de Benson, biógrafo não perdoa os traços mui humanos do mito que brinca de deus. Em diversas passagens, Kubrick é retratado como limítrofe à ética, e 2001 assoma
como resultado da predação do artista que, à maneira das personagens,
aprendeu a usar ossos e espaçonaves como armas de destruição em massa
(não seria Hollywood se assim não fosse).
Kubrick exigiu da equipe o transplante de
árvores africanas em extinção para cenário mais adequado, e depois do
uso as silhuetas vegetais pré-históricas extraídas clandestinamente
foram serradas e destruídas, simples assim.
Trabalhadores acidentados no exercício da
filmagem foram sumariamente demitidos. Além do estúdio
hipercapitalista, também o cineasta aparece como obcecado por planilhas,
cálculos, lucros, luxo. Ele, afinal, também pertencia à vanguarda que
inicialmente rejeitou sua obra-prima.
Kubrick não quis esperar para ver a
realidade concretizar (em tablets e internets) e desmentir (na conquista humana tímida do espaço) sua projeção de 2001. O homem que, entre os 36 e os 40 anos, orquestrou uma visão transcendental de futuro morreu de infarto, em 1999, aos 71 anos.
por Pedro Alexandre Sanches
#
quinta-feira, 17 de maio de 2018
o processo
Compareci no último sábado à pré-estréia do filme "O Processo"
em Aracaju. É sempre bom ver o pequeno e charmoso Cinema Vitória lotado - e
neste caso não se trata de força de expressão, quem chegou atrasado teve imensa
dificuldade de achar onde sentar. Trata-se, como todos já devem saber, do
documentário que Maria Augusta Ramos , conhecida por seus filmes sobre o
sistema de (in)justiça, fez sobre o processo de impeachment da presidentA Dilma
Rousseff - não entendi porque no filme ela á tratada como presidentE ...
O filme começa com um sobrevoo sobre uma Brasília literalmente dividida
entre vermelhos e verdeamarelos, mortadelas e coxinhas. Aquele tipo de imagem
que ficará para a história e será vista e revista provavelmente para sempre nos
anos que virão. Todo o filme, aliás, se presta a isso: ser um registro precioso
para a história. Segue mostrando a igualmente já célebre votação na câmara dos
deputados, aquela cena dantesca onde o Brasil mostrou sua cara de forma nunca
antes vista - escancarada, despudorada. Daí parte para "o processo"
propriamente dito, supostamente judicial mas, por acontecer no senado,
eminentemente político - e farsesco.
A diretora teve acesso aos bastidores das reuniões e do dia-a-dia da
minoria, que defendia a presidentA. Faz falta o mesmo olhar para o outro lado,
mas não há nada que se possa fazer a respeito já que o acesso lhe foi negado.
Intercala, então, imagens públicas e já conhecidas dos debates transmitidos
pela TV Senado com discussões a principio privadas. Não há entrevistas, apenas
o registro e a edição de imagens. Toda edição, evidentemente, revela o olhar do
autor e se converte num comentário, numa opinião. A diretora tem consciência
disso, já vi declarações suas afirmando que nunca teve a intenção - que na
verdade seria uma ilusão - de fazer um filme "imparcial". Mas há
sempre, também, a possibilidade da acusação de manipulação, e foi o que parece
ter acontecido no debate que se seguiu à exibição do filme naquela tarde,
quando um dos espectadores afirmou ter achado de mal gosto uma edição que
mostra a Dra. Janaína Paschoal tomando um Toddinho logo após cenas em que
destila sua costumeira fanfarronice. Disse que não gostou porque foi uma piada
"fácil" que o fez ficar com um "pé atrás" com relação ao
filme. Eu, particularmente, não tenho nada contra piadas "fáceis" e
ri bastante com a cena. Pra mim funcionou como um alívio cômico necessário
diante do tema pra lá de árido e espinhoso. Há pelo menos outras duas que se
prestam ao mesmo serviço, a cena da troca da campainha e a da troca de ironias
e sorrisos nervosos entre a presidentA Dilma e o senador Cássio Cunha Lima, um
dos diversos CANALHAS, CANALHAS, CANALHAS - palavras de Tancredo Neves durante
o golpe de 1964 oportunamente lembradas pelo senador Requião em 2016 - que
atuaram de forma cínica e dissimulada naquela verdadeira ópera-bufa.
Para mim, particularmente, o filme teve um efeito parecido com o dos
"Dois minutos de ódio" que era exibido aos cidadãos da Oceania em “1984”
de George Orwell: impossível evitar o asco diante de tantos CANALHAS expostos
em tela grande. Isso porque a diretora fez questão de mostrar - corretamente,
evidentemente - todos os argumentos, contra ou a favor do impeachment,
utilizando imagens publicas de discursos proferidos em plenário e nas sempre
tensas e tumultuadas comissões. Janaína, felizmente, se permitiu ser filmada, o
que nos proporcionou algumas deliciosas cenas "extras" - dela se
alongando ou se congraçando com seus admiradores da direita hidrófoba - além dos muitos momentos patéticos já mostrados na televisão, como o episódio em que ela arma um verdadeiro barraco numa sessão do Senado para tirar satisfações pessoais. Não se
pode "culpar" a diretora por nada disso, evidentemente: com relação ao ódio gerado pela situação absurda cujas consequencias estamos todos sentindo na pele trata-se de uma percepção totalmente pessoal, baseada em minhas convicções - sim, tenho
algumas. Boa parte dos presentes à sessão de pré-estreia parece ter sentido
pudor de se entregar a este sentimento - catártico, purificador, recomendo - a
julgar por alguns comentários proferidos
durante o já citado "debate" - confuso, pouco produtivo - que se
seguiu à exibição. Me deu a impressão de que alguns dos que se manifestaram
ainda estão empenhados em perseguir aquele ideal jornalístico inalcançável de
isenção e imparcialidade. A meu ver, o ideal a ser perseguido é o da
honestidade intelectual, e isso a diretora demonstrou ter de sobra, a julgar
pelo que foi visto na tela.
Gostei bastante do filme. E tenho certeza que gostarei ainda mais ao
longo do tempo, com o distanciamento histórico. Será muito bom relembrar,
especialmente, a figura patética da "Doutora" Jana e suas caras e
bocas e discursos involuntariamente cômicos, e o verdadeiro "tapa na
cara" em forma de autocrítica registrado na fala de Gilberto Carvalho em
uma das reuniões petistas. Só espero que isso aconteça numa situação ideal, no
momento utópica, em um Brasil que superou a crise pela esquerda e se tornou um
país mais justo, e não distópica, num país destroçado pelo avanço implacável da
insensatez. Quem viver, verá.
Em tempo: o final é sensacional, avançando no tempo para registrar imagens da gigantesca manifestação contra a reforma da previdência um ano depois do impeachment. O filme, que havia começado com a imagem do sobrevoo sobre a cidade dividida, termina com a fumaça do incêndio de um dos ministérios tomando conta da tela ...
Em tempo: o final é sensacional, avançando no tempo para registrar imagens da gigantesca manifestação contra a reforma da previdência um ano depois do impeachment. O filme, que havia começado com a imagem do sobrevoo sobre a cidade dividida, termina com a fumaça do incêndio de um dos ministérios tomando conta da tela ...
“O Processo” está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.
Em Aracaju, no Cine Vitória.
Vá e veja.
A.
#
terça-feira, 17 de abril de 2018
A VERDADE VENCERÁ
Costumo dizer que Lula foi o segundo melhor presidente da História do
Brasil. Juscelino, que costuma ocupar este posto, a meu ver seria o terceiro -
tenho sérias críticas ao modelo de desenvolvimento por ele implantado,
principalmente no que toca à priorização do transporte rodoviário em detrimento
do ferroviário, e também à construção de Brasilia, uma idéia megalomaniaca e
despropositada.
O primeiro seria Getulio, mas confesso que ando revendo meus conceitos.
A favor de Vargas temos o fato dele ter institucionalizado as conquistas
populares - a Petrobras até hoje se tenta mas ainda não conseguiram privatizar,
e a CLT só com o golpe de 2016 foi desmontada. Já o “legado” do PT desmoronou
quase que completamente assim que o partido foi apeado do poder. Lula, no
entanto, conseguiu o que conseguiu - e não foi pouco - num ambiente
democrático, ao contrário de Vargas, que governou na maior parte do tempo com
mão de ferro, usando e abusando de poderes ditatoriais. É uma disputa acirrada,
portanto. Mas uma coisa é certa: o metalúrgico que se tornou presidente entrará
para a História pela porta da frente, ao contrário da maioria de seus atuais
algozes.
Ivana Jinkins, filha de um livreiro comunista, tem feito um belíssimo
trabalho com sua editora Boitempo, que acaba de lançar um livro para ficar na
história: "A Verdade vencerá". Trata-se da transcrição de uma longa
entrevista com Lula conduzida por ela mesma e por Gilberto Maringoni, Juca
Kfouri e Maria Inês Nassif, com textos adicionais de Luis Fernando Veríssimo,
Luis Felipe Miguel, Eric Nepomuceno e Camilo Vanuchi. A edição, feita a toque
de caixa e no calor de momentos dramáticos(quando todos esperavam o resultado
do julgamento do habeas Corpus no STF), é pra lá de caprichada e recheada de
notas explicativas que serão de grande utilidade em leituras futuras, além de
ricamente ilustrada com fotos de arquivo e de Ricardo Stuckert.
Na entrevista temos um Lula em grande forma falando com sinceridade
raramente vista de temas espinhosos, como sua relação com Dilma Roussef e as
acusações que levaram à sua condenação. Sobre estas últimas, diz que se fossem
verdadeiras ele seria “o chefe de quadrilha mais burro da face da terra”, por
se contentar com um apartamento no Guarujá e reformas num sítio em Atibaia enquanto
seus subordinados se locupletavam com rios de dinheiro. Faz sentido. Sobre
Dilma, fala o que todo mundo já sabia mas nunca tinha ouvido - pelo menos não
eu - saindo de sua boca: que não tem paciência para o jogo político e cometeu
equívocos mortais na condução da economia. Ressalta, no entanto, sua lealdade.
Critica duramente, mas demonstra sempre, também, imenso respeito.
A linguagem, como de praxe, é pra lá de informal - vários
"porras" são ditos durante as falas, que revelam curiosidades que eu,
particularmente, não conhecia, como o fato de que seu irmão, Frei Chico, nunca
foi frei. A alcunha é apenas um apelido de infância. Ou de seu radicalismo (melhor
seria chamar de sectarismo) nos primórdios da militância sindical, quando
achava que o dono de um boteco era patrão e que a sogra, que apenas gostava de
se vestir bem, era burguesa. Destaque para a saborosa história do dia em que
Brizola o levou para visitar o túmulo de Getúlio - na verdade o líder
trabalhista o havia conduzido até lá para apresentá-lo ao defunto, com quem
ficou conversando por um bom tempo.
A vida de Lula foi muito dura. Seu pai, por exemplo, proibia os filhos
de estudar. Ele só conseguiu entrar para a escola escondido,
"acoitado" pela mãe, Dona Lindu, por quem tem uma devoção comovente.
As enormes dificuldades que enfrentou, no entanto, não o endureceram nem
fizeram com que perdesse a ternura: trata a todos como "meu querido",
até as altas autoridades internacionais. É curiosa, por exemplo, a forma como
ele conta o episódio do pagamento da dívida externa com o FMI, como se fosse
uma negociação no balcão de uma mercearia de bairro: diz que chamou o
presidente do fundo e perguntou: "meu querido, quanto eu te devo? Quero
pagar". Vale dizer que o "eu", no caso, não é um termo muito
apropriado e revela um certo personalismo, sempre apontado como um dos calcanhares
de aquiles do lulismo. É preciso que se diga, também, que o pagamento da dívida
foi muito mais um brilhante golpe de marketing que um triunfo verdaeiro, pois
na verdade o que se fez foi uma substituição da dívida externa pela interna,
regada a juros pra lá de generosos para o mercado financeiro.
Lula é um personagem complexo e cheio de contradições: critica o excesso
de partidos mas quando vai elogiar a candidatura de Boulos lamenta que ele
tenha escolhido o PSOL e diz que esperava que ele fundasse uma nova agremiação.
Num dado momento, diz que Jader Barbalho era "de esquerda" ! Nunca
foi! Era do MDB e militava na oposição à ditadura na época por ele referida,
mas dizer que era de esquerda, é um pouco demais. Ele também dilui o charmoso
termo “companheiro” que o PT adotou em seus primórdios para emular o “camarada”
dos comunistas, ao se referir assim até a personalidades como o do ex-presidente
norteamericana George W. Bush ...
Questionado sobre o desleixo com a formação de quadros e as mobilizações
populares de massa, diz que nem sempre isso resolve, e dá como exemplo a
campanha pelas diretas já, que levou milhões às ruas mas não conseguiu a
aprovação da emenda Dante de Oliveira no congresso. Justifica, na sequencia, a
opção pelos acordos de gabinete, que implicam em concessões de alto custo.
Sobre isso, vale a pena a transcrição literal de sua fala:
"Fiz as concessões que o momento exigia. Fui eleito presidente com
10 senadores e 91 deputados, num colégio de 513. E, mesmo com esse balanço
desfavorável, promovi a ascensão social dos mais humildes. Tirei 36 milhões de
brasileiros da miséria, disponibilizei 47 milhões de hectares para assentamento
de pequenos produtores (quase 50% do que foi feito em quinhentos anos de
história deste país), levei outros 40 milhões a um padrão de vida de classe
média baixa, instalei luz elétrica para mais de 15 milhões de pessoas, dei
início à transposição do rio São Francisco, coisa que dom Pedro tentou fazer
nos tempos em que era imperador ... Conciliação é quando você pode e não faz.
Se eu tivesse a força que teve o PMDB em 1988, com 23 governadores e 306
constituintes, teria concedido menos e realizado muito mais. Nós demos um
padrão de vida para o povo que muitas revoluções armadas não conseguiram - e em
apenas oito anos."
Lula é um gênio político. A forma como ele transformou sua prisão num
ato que ficará para a história foi brilhante. Prisão injusta, uma infâmia que
põe em cheque o futuro deste nosso colosso sulamericano. Mas precisamos seguir em
frente! Uma vitória da direita nas eleições de outubro seria uma tragédia, a
consolidação final do golpe. A esquerda precisa urgentemente se unir em torno
de uma candidatura viável, e o único nome que vejo como capaz de tal proeza, na
atual conjuntura, é o de Ciro Gomes. Apoiado por Lula e com Haddad como vice
acredito que formaria uma chapa fortíssima. Mas a marcha da insensatez segue
firme nos dois lados do front, infelizmente, e o mais provável é que esta união não aconteça. Fragmentada, a esquerda corre o
sério risco de ficar de fora e ter que assistir horrorizada a uma disputa entre
Alckimin e Bolsonaro no segundo turno. Isso tem que ser evitado, a qualquer
custo.
A.
#
segunda-feira, 2 de abril de 2018
O PUNK NÃO MORREU
Adolfo Sá no Viva La Brasa: Luiz Moraes Santos chegou em Aracaju vindo de Garanhus
nos anos 90 e virou uma das figuras mais emblemáticas da cena punk local.
Cabelo de espeto e jaqueta com patches, o vocalista da Cessar Fogo morreu em
fevereiro durante o carnaval mais combativo dos últimos tempos.
Blocos de rua e palavras de ordem, vampiro
neoliberal e intervenção federal, que tiro foi esse. Enquanto o mundo frevia,
Luiz era preso e morria em condições nada festivas. Até hoje não conhecemos os
culpados, autorizados, máquinas de matar. Indefesos, os amigos se mobilizaram
para liberar seu corpo no IML e chegaram junto no enterro.
Kakuseisha Punx viveu na contramão, fez seus corres
e mandou o recado nos 2 álbuns da sua banda. Convidei uns camaradas pra contar
algumas das suas melhores histórias, começando pelo baixista Lauro Francis, que
gravou com ele o disco ‘Conflitos Mundanos’ e hoje toca na Cidade Dormitório:
“Luiz teve uma vida difícil, veio com a mãe e o
irmão porque tinha um tio aqui que poderia ajudar eles – o pai, que já era
idoso, morreu quando ele era pequeno. Nessa de vir pra Aracaju ele foi ajudar o
tio, tipo aquelas coisas que rolam de pegar jovens do interior pra
trabalhar/morar em troca de comida e casa. Rola muito com meninas, né,
trabalhar como empregadas em casa. No caso ele trabalhava na empresa, que é no
centro, onde teve contato com os primeiros punks da cidade quando era garotão.
E foi nessa época que começou a trampar como locutor de porta de loja. E depois
que saiu da casa dos tios continuou trampando pelo centro, vendendo óculos
pirata e como locutor. Locutor que foi seu trampo a vida toda. Ele era bom
nisso.
Existem várias histórias engraçadas com Luiz,
quando o conheci na adolescência lá no Marcos Freire/João Alves o apelido dele
era Nirvana. Haha. Ele tinha um lance de quando tava com uma pessoa e tinha que
ir embora, ia se despedindo andando pra trás e acenando por uns 2, 3 metros
como se não quisesse dar as costas, saca?
Tem uma que eu acho foda: Um conhecido o encontrou trabalhando como locutor no
Extra, todo arrumado, de farda da empresa, cabelinho penteado e tal. Viu ele lá
no trampo todo almofadinha, falou: - Porra, nem tinha reconhecido! Quando acaba
o horário de serviço você coloca a fantasia punk, né? Ele respondeu: - Não, na
verdade eu tô fantasiado agora.”
Tem uma que eu acho foda: Um conhecido o encontrou trabalhando como locutor no
Extra, todo arrumado, de farda da empresa, cabelinho penteado e tal. Viu ele lá
no trampo todo almofadinha, falou: - Porra, nem tinha reconhecido! Quando acaba
o horário de serviço você coloca a fantasia punk, né? Ele respondeu: - Não, na
verdade eu tô fantasiado agora.”
Maicon Rodrigues, guitarrista da Psicosônicos e Dr.
Garage Experience, já produziu uma festa punk com a Cessar Fogo em Itabaiana:
“Eu vivia meus dias de
aventura como organizador de um projeto cultural quando Luiz veio com a banda
tocar. Foi tudo muito tranquilo, desde os primeiros contatos até o dia do show,
quando os conheci pessoalmente. Todos muito simpáticos, pareciam músicos
empolgados, porém contidos, mas Luiz se destacava pelo visual punk levado ao
extremo, sempre com um sorriso no rosto e atento a tudo ao seu redor. Parecia
estar pronto pra tudo que pudesse acontecer. Lembro de sua jaqueta recheada de
patches, bottons e uma crosta de sujeira acumulada ...
O show foi foda como tinha que ser, após a gig foram todos jogar seus esqueletos maltrapilhos na residência dos meus pais como era costume com todas as bandas que eu recebia no projeto, e logo cedo se picaram pra casa após um café. Até aí tudo bem, ‘falou valeu, até a próxima’...
O show foi foda como tinha que ser, após a gig foram todos jogar seus esqueletos maltrapilhos na residência dos meus pais como era costume com todas as bandas que eu recebia no projeto, e logo cedo se picaram pra casa após um café. Até aí tudo bem, ‘falou valeu, até a próxima’...
Dias depois eu percebo um trapo estranho e vermelho
entre os panos de chão da minha mãe e saquei que era a jaqueta do Luiz. Fiz
contato com o bicho e marquei de entregá-la em Aracaju. Ao encontrá-lo ele
parecia aliviado pois nem lembrava onde tinha deixado. Parece que tinha muito
apreço pela velha jaqueta de guerra, ficou muito feliz por tê-la encontrado,
mas vi que ficou também um pouco contrariado, meio puto, e quando eu perguntei
‘qual foi man’ ele me responde:
- Pô, velho, sua mãe lavou a jaqueta...”
Rás de Sá é uma criatura das noites undegrounds
aracajuanas e conheceu Luiz quando o punk cantava numa banda thrash metal chamada
Epidemic:
“Vivemos em um país que juízes falam que não dá pra viver sem auxílio-moradia, pessoas tomam antidepressivo porque não podem trocar o carro 2017 por um 2018 e outros tratam mal os amigos quando falta grana pra cerveja ou o celular novo. O meu amigo Luiz dormiu na rua muitas vezes e era sempre simpático e amigável, por mais problemas que tivesse. Sempre aparecia sorrindo e falava: - Eu dormi debaixo daquele toldo, almocei no Padre Pedro e mais tarde vou a um evento underground. Tá massa! Protestou a vida inteira contra as Injustiças dessa merda de país e ao mesmo tempo foi um exemplo pelo que escrevi acima.”
E por fim Adelvan Kenobi, testemunha ocular da escória:
“Os frequentadores habituais da praça Roosevelt,
conhecida como ‘praça da mini ramp’ do Bairro América, periferia de Aracaju, se
depararam no domingo 11 de março último com uma movimentação diferente e
inesperada: um grupo de punks, skatistas e aficionados da cena rock da cidade
se reuniram por lá para celebrar a vida de Luiz.
Foi uma noite bacana, com apresentações ao ar livre, na quadra, de bandas como Casca Grossa, Iconoclastia e Putrefação Humana. Bem “rueiro”, do jeito que Luiz curtia. Não fosse ele próprio o homenageado póstumo, certamente estaria lá liderando alguma nova formação da Cessar Fogo, banda que ele se recusava a deixar morrer ...
Foi uma noite bacana, com apresentações ao ar livre, na quadra, de bandas como Casca Grossa, Iconoclastia e Putrefação Humana. Bem “rueiro”, do jeito que Luiz curtia. Não fosse ele próprio o homenageado póstumo, certamente estaria lá liderando alguma nova formação da Cessar Fogo, banda que ele se recusava a deixar morrer ...
Era um cara boa praça, sempre gentil com todos, e
também um punk de corpo e alma, daqueles que simplesmente não conseguem se
adaptar às vicissitudes do sistema. Por conta disso, passou os últimos dias de sua vida à deriva, morando nas ruas.
Somente com a notícia da sua morte os amigos souberam que morreu na cadeia,
para onde provavelmente foi levado por conta de um furto banal – foi portanto
mais uma vítima do encarceramento em massa que nosso país reserva como destino
aos “perdedores”, os que não se enquadram nos moldes do conformismo e da
subserviência exigidos pelos donos das casas grandes. Corria o risco,
inclusive, de ser sepultado como indigente. Não foi o caso, felizmente: uma
galera se mobilizou e conseguiu providenciar uma despedida decente.
Luiz morreu como viveu: como um punk.
Crucificado pelo sistema.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Fanzines sergipanos
No Brasil os primeiros fanzines de que se tem registro datam
da década de 1960 e também circulavam entre fãs de ficção científica. A partir
dos anos 1980 começou a se formar uma grande rede de circulação de informações
subterrâneas voltada principalmente para os universos do rock e das histórias
em quadrinhos, fenômeno que perdurou até a popularização da internet, no final
da década seguinte.
Em Aracaju os pioneiro deste tipo de publicação na seara do então nascente rock "alternativo" foram Silvio
Campos, Helder "Podre", Luiz Eduardo, Wilton e Tarcisio. O primeiro ao que tudo indica foi o "Submundo", de 1984, que teve duas edições. Era editado por uma galera mais intelectualizada e ligada ao pós punk. Já Silvio, que partiu para uma militancia anarquista mais radical, produzia o “Arakarock” – todo feito a mão, de próprio punho – que chegou anunciando a formação da Karne Krua em 1985, além do nascimento do Heavy Metal sergipano, com a banda "Massacre", do "Alice", mais soturna, da experimental "Fome Africana", de Vicente Coda, e da entrada do hoje lendário baterista Marcos Odara na formação da "Crove Horrorshow ". Esse envolvimento mais próximo de Silvio com o movimento punk fez com que
iniciasse em 1986 a publicação do “Buracaju” – já datilografado e sempre muito bem diagramado -,
certamente a mais importante publicação do estilo. Era voltado à
divulgação de bandas e de ideias anarquistas e teve grande circulação
nacional, via correios, sendo o maior responsável pela divulgação da
embrionária cena roqueira local.Circulava também na época o “Seduções ecológicas”, publicado por Ana Iuna, formada em biologia pela UFS; o “Centauro sem cabeça”, do poeta e capoeirista Nagir Macaô; e o “Boca Quente”, de Luiz Eduardo e Roberto Aquino, com participação de Tarcisio e Helder. A primeira edição registra a mudança na formação da banda THE M.E.R.D.A devido à ida de Helder para o Recife, onde viria a ser conhecido como DJ Dolores. Na segunda edição publicaram uma carta de Silvio "Samarony", depois "Suburbano" , do Bugio - sim, ele mesmo. Em 1986 surgiu o "Clube do òdio", mais criativo e provocativo, que também teve apenas duas edições. Já em 1987 Luiz Eduardo partiu para uma "carreira solo", digamos assim, com um fanzine próprio, "O Espectro", de caráter mais literário que musical, mas com uma sessão dedicada aos discos independentes e alternativos que começavam a aparecer na cidade com a primeira loja especializada no gênero, a "Disturbios Sonoros".
Esta movimentação
acabou chegando até mim em Itabaiana, onde eu nasci e ainda morava e onde criei meu primeiro fanzine, o “Napalm”, cuja primeira edição data de 1988, sem ter consciência disso. Eu comecei a me
interessar por rock a partir do primeiro rock in rio e da leitura da revista
Bizz e resolvi fazer minha própria publicação – porque tinha ciúme de emprestar
minhas revistas! Como não conhecia o termo, chamava de “apostilha”.
A primeira metade da década de 1990 foi a mais rica para os
fanzines em Aracaju. A partir da troca de idéias entre malucos das mais
diversas tribos urbanas que freqüentavam as escadarias da Catedral e as lojas
“Lókaos” e “BR Records”, especializadas em rock underground, foram surgindo
publicaçãoe como “Furúnculo no cérebro” - uma publicação da “Zé Guiaba
produções artísticas”, de Teleu; “Entropia indiscreta” e “Acatalepsia”, de
Furia; “Sinagoga´s Butterfly” - mais “cabeção”, voltado para a filosofia e a
literatura, publicado a seis mãos por Dani Maya, Sérgio “Dedão” e Clarck Bruno;
“Mouth Stranger”, de Estranho e Carlos “Mouth” - que focava no Heavy Metal; e o
maior e mais célebre de todos, aquele que alcançou visibilidade nacional e é
considerado até hoje um dos melhores fanzines já publicados no Brasil: o
“Cabrunco”.
O “Cabrunco” era o que se chamava na época de “pro-zine” – mais profissional, com cara de revista. Era editado, principalmente, por Adolfo Sá, que posteriormente se formou em jornalismo pela UFS – seu TCC foi sobre fanzines -, com a ajuda de Rafael Jr., baterista da Snooze, nas sessões dedicadas à musica, e de Marcio “de Dona Litinha” – hoje vocalista da Naurêa – falando de literatura. Foi xerocado até o número 6. O número 7 teve capa colorida e foi impresso na Gráfica Digital. O 8 na Gráfica da UFS. Era bancado, principalmente, por anunciantes, por isso tinha uma tiragem bem maior que o usual. Chegou a chamar a atenção da imprensa nacional, sendo eleito, ao lado do “Papakapika”, do Paraná, um dos dois melhores fanzines do Brasil. Não se prendia a um tema específico, mas dava grande destaque à cena roqueira local, com resenhas de shows, discos e fitas “demo”. Publicou entrevistas antológicas com Mundo livre S/A e Zenilton, que eles encontraram por acaso, de “rolê” na rua – ele morava em Aracaju. Em pleno auge de sua redescoberta via Raimundos, o forrozeiro veterano, rei do duplo sentido, foi emparedado pelos “cabrunquentos” e se saiu com pelo menos uma declaração bombástica – e antológica: “Eu tô achando é bom que esses minino novo me descobriram. Agora quero aproveitar o sucesso, quero mais é morrer emaconhado e com AIDS, comendo essas minina novinha”. Todas as edições do “Cabrunco” estão disponíveis para download em pdf no blog de Adolfo, http://blog.vivalabrasa.com
Surgiu também, nesta época, um fanzine no interior, o
“Putrefy”, publicado em Estância por Alberto “Pereba” – que hoje, atente o
estimado leitor para as voltas que o mundo dá, é padre! Era escrotíssimo, com
sátiras engraçadíssimas, algumas “impublicáveis” em qualquer veículo
minimamente respeitador da moral e dos bons costumes. Sua personagem “Jezebel,
a puta”, era antológica! Já na primeira década do século XXI aconteceu uma
interessante movimentação “fanzinística” em Itabaiana, com títulos como “Xibiu”,
“100Palavras”, “Rosebud”, “Vitrola de papel”, “The Cool Megafun Zine”, “Fun
Zine” e “Tico Tico no Fullbach”, que iam da poesia – Samara era a musa local
desta seara – ao rock de garagem, passando por muita polêmica e fofoca. Foi uma
época intensa na cidade serrana, com toda uma movimentação roqueira underground
gravitando ao redor dos shows que aconteciam no Bar “Casagrande”, uma espécia
de CBGB “ceboleiro”, com bandas como Karranca, Dr. Garage, Urublues e
Carburadores.
Com a popularização da internet a circulação de fanzines
xerocados pelo correio foi minguando até praticamente desaparecer. No limiar do
novo século poucos nomes surgiram por aqui – lembro apenas do “Cartão Postal”,
que era publicado por Duardo Costa e Carol. Até Silvio, incansável, parou de
“fanzinar” - sua última publicação, "Boogie Hooker", era dedicada ao blues e distribuída nos shows de uma de suas bandas, a Máquina Blues. Mas há resistência: um jovem franzino e entusiasmado chamado Aquino
Neto tomou gosto pela coisa através da “fanzinoteca” improvisada que o “velho
guerreiro” manteve por algum tempo em sua loja, a “Freedom”, e passou a
publicar um novo fanzine chamado “Guerrilha”, todo feito à mão. Recentemente
lançou o “Linhas Tortas”, muito melhor elaborado, e segue na atividade com uma
distribuidora de publicações alternaticas chamada “Café com veneno”, onde
publica, dentre outros, os desenhos do talentoso itabaianense Maicon Rodrigues.
Também em Itabaiana temos Adilson Lima, que produz quadrinhos divertidos e
ilustrou a capa do novo disco da banda de Thrash metal sergipana Berzerkers.
É importante dizer, no entanto, que a movimentação "fanzineira" diminuiu mas não acabou de vez: "vira e mexe" me deparo, na Freedom, com alguns fanzine novos produzidos no velho esquema, xerocados, como “O Velho punk”, do veterano Robério “Nininho”, "Páginas Sujas", de Alécio, e "Kaos Universal", do casal Kelly(que também é de Itabaana) e Renan - moram em São Cristóvão, cidade histórica que faz parte da região metropolitana de Aracaju. Em shows de rock eles também costumam dar as caras, eventualmente - alguns muito caprichadinhos, como o "Ouija", de Marcio Tiago, outros rápidos, rasteiros e panfletários, geralmente pequenas publicações punks e feministas.
Recentemente estive numa feira de publicações alternativas
no Museu da Imagem e do som de São Paulo, a “Feira Plana”. Nem sabia que
existia, mas existe, e é impressionante: muita gente! Cheguei atrasado para uma
palestra sobre a série “Zine é compromisso”, da revista Vice, que havia me
entrevistado. Ao me ver por lá, o camarada Marcio Sno – maior pesquisador e
divulgador do universo “fanzinistico” no Brasil – passou a me apresentar aos
amigos como “uma lenda viva, o cara que foi mencionado no auditório, que fazia
fanzine sem saber o que era fanzine no interior de Sergipe na década de 1980”.
O mundo, realmente, dá voltas.
O mundo, realmente, dá voltas.
Da revista "Cumbuca"
A.
#
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
200 Anos de "Frankenstein" - Em 1 de janeiro de 1818 foi publicada uma modesta edição do mítico romance em que uma precoce Mary W. Shelley moldou os dilemas e avanços de sua época
Frankenstein nasceu de algo mais do que o desafio de Lord Byron
ao lado de uma chaminé com vista para o lago Léman no verão mais frio
do século XIX. Tudo o que foi depositado por Mary Wollstonecraft Shelley
na narração que deu à luz um mito universal – inspirador de quase mil
obras entre o cinema,
o teatro e os quadrinhos – tem relação com as circunstâncias
extraordinárias que a cercaram desde que nasceu em 30 de agosto de 1797
em Londres. Ao seu redor o velho mundo havia se fragmentado após várias
revoluções. A industrial se encontrava em plena excitação graças ao
aperfeiçoamento da máquina a vapor de James Watt. A política digeria a
overdose de guilhotina de Robespierre e companhia abraçando a volta da
ordem. As ideias e a ciência (ainda chamada filosofia natural) estavam
igualmente agitadas, com as teorias de Lavoisier que inauguram a química
moderna e as expedições aos polos para se aprofundar no magnetismo. E
todas aquelas revoluções tomavam chá em sua casa atraídas por seu pai, o
romancista e filósofo radical William Godwin (1756-1836), partidário da
abolição da propriedade e contrário a toda forma de governo. O primeiro
anarquista.
O próprio entorno
doméstico é forjado contrário à convenção. Godwin vivia com sua segunda
esposa, Mary Jane Clairmont, e cinco filhos de diferentes origens
biológicas no que hoje seria uma moderna família reconstituída. Mary W. Shelley
cresce marcada pelo pensamento de sua mãe, a escritora e filósofa Mary
Wollstonecraft (1759-1797), que a convida a formar-se como uma cidadã
consciente em vez de uma esposa submissa. Uma mãe ausente, cujo túmulo
era um local frequente de leitura. A autora transportará sua experiência
de orfandade à criatura literária, que espalha dor e morte porque não
tem quem a queira.
Em 1792, após o sucesso de um ensaio em defesa da Revolução Francesa, Mary Wollstonecraft publicou Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher,
onde exigia a educação às meninas: “Para fazer o contrato social
verdadeiramente equitativo, e com a finalidade de estender aqueles
princípios esclarecedores que só podem melhorar o destino do homem, deve
permitir-se às mulheres encontrar sua virtude no conhecimento, o que é
praticamente impossível a menos que sejam educadas mediante as mesmas
atividades que os homens”. É considerado o primeiro tratado feminista,
paralelamente à Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã escrita pela francesa Olympe de Gouges, decapitada em Paris por querer levar os direitos humanos longe demais.
Se o pensamento de Mary
Wollstonecraft era transgressor em si mesmo, sua vida encarnou vários
mitos românticos por seus desamores e suas duas tentativas de suicídio.
Entre o episódio do láudano e o do rio Tâmisa viajou pela Escandinávia
com sua primeira filha, Fanny, e uma babá. Da experiência sairia um
livro de viagens que entusiasmou William Godwin: “Se alguma vez foi
escrita uma obra com a intenção de que um homem se apaixonasse pelo
autor, acho que é essa”. Os dois escritores se tornam amigos, amantes e,
por último, cônjuges entre chacotas da imprensa conservadora (Godwin
havia se manifestado contra o casamento em escritos públicos). Na
quarta-feira 30 de agosto de 1797 nasce a única filha do casal, Mary. A
filósofa passou as contrações lendo em voz alta Os Sofrimentos do Jovem Werther,
de Goethe, com seu marido. O mesmo livro que no futuro será apreciado
por uma criatura de dois metros e meio de altura e lábios negros.
Mary talvez não tenha
sido educada como teria desejado sua mãe, que faleceu 11 dias após o
parto, mas seu pai estimulou seu intelecto desde o começo. Os biógrafos
sugerem que cresceu com mais pensadores do que afetos. “Ela
frequentemente sentia-se sozinha e carente de um sentimento de
identidade familiar”, diz James Lynn, “as relações com a segunda esposa
de seu pai eram pobres, e mesmo que Godwin tenha lhe dado uma boa
educação, não deu atenção às suas necessidades emocionais”.
Mary podia ouvir em sua
casa o poete Samuel Taylor Coleridge, o inventor William Nicholson e o
químico Humphry Davy. Seu pai a levava em conferências sobre
eletricidade e para tomar chá com o divulgador do vegetarianismo John
Frank Newton. Todo esse magma individual e criativo deixou marcas em
Frankenstein: o capitão Walton faz referência a um poema de Coleridge
(‘A Balada do Velho Marinheiro’) e o gigante mata, mas é vegetariano. Um
velho amigo de Godwin é apresentado no começo do romance: “Na opinião
do doutor Darwin, e de alguns fisiologistas da Alemanha, os
acontecimentos em que a presente ficção é baseada não são inteiramente
impossíveis”.
O médico e naturalista Erasmus Darwin, defensor de uma teoria sobre a origem única da vida e avô do autor de A Origem das Espécies, também será evocado em Villa Diodati no frio verão de 1816. Horas antes de Mary ter a visão que alimenta Frankenstein,
os poetas Lord Byron e Shelley recordam um de seus supostos testes,
como relata a própria escritora: “Ao que parece havia conservado um
pouco de massa em um pote de vidro, até que, por algum extraordinário
processo, aquilo começou a se agitar com um movimento autônomo. (...)
Talvez um cadáver pudesse reviver, o galvanismo deu provas de coisas
semelhantes: talvez as partes que compõem uma criatura possam ser
construídas, e depois possam ser reunidas e dotadas de calor vital”. A
grande pergunta que se faz Victor Frankenstein – “Onde estará o
princípio da vida?” – era a grande pergunta da época.
Diante da falta de
respostas precisas, os substitutos triunfam. A eletricidade vive seu
momento de glória desde meados do século XVIII. As descobertas
científicas de Benjamin Franklin, Luigi Galvani e Alessandro Volta
convivem com a prestidigitação ambulante. Em seu ensaio Mulheres e Livros,
o editor Stefan Bollman recria um popular espetáculo de “aparelhos
elétricos”: “Colocavam em funcionamento as rodas de suas máquinas
eletrostáticas e enviavam descargas elétricas através das mãos de uma
cadeia humana. Suspendiam uma pessoa de tal forma que levitava e faziam
com que sua cabeça brilhasse”.
Até mesmo Percy Bysshe
Shelley entrou na onda da eletricidade em Oxford, como detalha Charles
E. Robinson, principal especialista na obra de Mary W. Shelley, em sua
introdução a uma edição anotada para cientistas e inventores publicada
em comemoração ao bicentenário da criação da obra: “Construiu sua
própria pipa elétrica, fez faíscas saltarem de um aparelho elétrico e
até armazenou o fluido da eletricidade em garrafas de Leyden: esses
testes servem de base às experiências elétricas do pai de Victor,
Alphonse, em Frankenstein”.
O poeta Shelley também
acabaria frequentando a ágora doméstica de William Godwin, atraído pelo
pensamento de um filósofo quase mais célebre por controvérsias públicas
como a que manteve com Malthus do que por seus densos tratados
políticos. Percy também era especialista em controvérsias: casou-se
apesar da oposição de sua influente família e acabava de ser expulso de
Oxford por fazer propaganda do ateísmo. Mary tinha 16 anos quando foge
com ele, mas voltam logo por falta de dinheiro. A partir daí suas
biografias alimentam o mito do casal perfeito do romantismo, com uma
sucessão de sucessos literários e cadáveres jovens: só um de seus quatro
filhos sobrevive e, aos 29 anos, Percy B. Shelley se afoga na Itália.
No futuro a escritora se afastará da condição de maldita e se preocupará
em obter a aprovação social para ela, seu único filho e o poeta morto.
Mas quando Mary W.
Shelley escreve seu relato em 1816 para a competição sobre histórias de
fantasmas, convocada por Lord Byron no verão mais frio do século, tem
somente 18 anos, um bebê vivo e outro morto, e uma relação escandalosa
que acabará com o suicídio da primeira esposa de Shelley. Ignora que
está forjando um mito universal e que, naquela família onde só contavam
os que tinham méritos literários, ultrapassará a popularidade de todos
eles.
Em 1 de janeiro de 1818, quase dois anos depois da estadia no lago Léman, é publicado Frankenstein ou o Prometeu Moderno
com uma tiragem de 500 exemplares. Não tem assinatura. A mão de Percy
B. Shelley (que fornece correções ao manuscrito) chega a ser especulada.
Mas se algum incrédulo sobreviveu nesses 200 anos, perdeu a última
esperança em 2013. Nesse ano foi leiloado por 477.422 euros (1,9 milhão
de reais) um exemplar da primeira edição dedicada a Lord Byron “pelo
autor”. A letra foi autentificada como a de Mary W. Shelley.
Na segunda edição de
1823 (de tiragem semelhante à anterior), a escritora se identifica. Em
apenas três anos são feitas 10 adaptações teatrais diferentes, incluindo
finais paródicos sobre a morte da criatura, que irá se afastando-se de
seu cultivado espírito original – lia Plutarco, Milton e Goethe – para
transformar-se no imaginário coletivo em um monstro de parafuso na
cabeça e um tanto bobalhão. A obra se emancipa da autora. Seus leitores
encontram em Frankenstein o que precisam: terror gótico, antecipação da ficção científica e um dilema ético sobre os limites da ciência.
No dia de Halloween de
1831 é lançada uma terceira edição de 4.020 exemplares. A escritora
introduz mudanças e cala os céticos: “Certamente, não devo ao meu marido
a sugestão de nenhum episódio, nem sequer de um guia nas emoções e,
entretanto, se não fosse por seu estímulo, essa história nunca teria
adquirido o formato com o qual se apresentou ao mundo”. Assina sua
introdução como M.W.S., mas a história da literatura prescindirá do
sobrenome materno.
Mas somente rastreando
suas origens familiares e as circunstâncias dos primeiros anos de sua
vida pode-se responder à pergunta que tantas vezes fizeram a Mary W.
Shelley: “Como é possível que eu, à época uma jovenzinha, pudesse
conceber e desenvolver uma ideia tão horrorosa?”.
#
Assinar:
Postagens (Atom)














