Foi
lançada finalmente no Brasil a nova biografia de nossa maior banda: “Relentless
– 30 Anos de Sepultura”, do escritor norteamericano (de origem polonesa) Jason
Korolenko. Impossível não comparar com o já célebre – e há anos fora de
catálogo – “Sepultura – Toda a História”, de André Barcinski e Silvio Gomes. O
novo relato perde no texto – porque Barcinski é foda – mas ganha na abrangência,
já que o primeiro saiu há mais de 15 anos, em 1999, quando eles ainda estavam
se firmando em uma nova formação, com Derrick Green substituindo Max Cavalera
nos vocais.
Mas perde também na parte iconográfica: a maioria das fotos do novo
livro é bem ruinzinha. Fotos banais, do baixista Paulo fumando um cigarro fora
do estúdio durante um intervalo nas gravações, por exemplo. O autor deve ter
pretendido apresentar imagens inéditas, mas isso pouco importa se as mesmas são
esteticamente ruins e/ou de pouca ou nenhuma relevância, nem um pouco merecedoras de figurar num
registro histórico de tal envergadura.
Jason é um fã
confesso e isso
transparece na narrativa, que apresenta, em certos momentos, aquela
reverencia exagerada típica de uma resenha de fanzine, o que deixa o
livro com
cara de “chapa branca”, apesar de não ser - não é uma "biografia
autorizada", até onde eu saiba. Em todo caso, há de se reconhecer o
esforço de
contextualização do autor, especialmente na abertura, quando ele faz um
apanhado da história do Brasil do século XX desde a ascensão de Vargas
até o
ocaso da ditadura militar, só pra explicar o clima político e social do
país na
época em que a banda surgiu, na metade da década de 1980. Suas análises e
opiniões sobre cada disco, faixa a faixa, também são interessantes,
apesar do evidente deslumbramento e falta de senso crítico. Faltou,
também, um maior aprofundamento: muitos fatos importantes foram
esquecidos ou tratados
superficialmente. Por um lado, dá pra entender - é muita história pra
contar, o livro teria que ter pelo menos
umas 500 páginas para que fosse realmente abrangente - mas não deixa de
ser uma pena.
Vale, no entanto, a leitura,
especialmente se você é fã da banda. Recomendo, entretanto, que não se deixe de ler também o primeiro, que pode
ser encontrado com relativa facilidade em sebos. É mais saboroso, porque Barcinski é mestre na narração de "causos" pitorescos e porque trata da fase que REALMENTE interessa,
com Max. Sepultura
com Derrick nunca
conseguiu deixar de ser "apenas" uma banda extremamente profissional,
dedicada e
cheia de boas idéias, mas com resultados artísticos e comerciais aquém
de
seu potencial. Falta aquela química intangível, aquele fogo que se
acendeu
quando os irmãos Cavalera recrutaram o guitarrista Andreas Kisser e
pariram seu
primeiro grande disco, “Schizophrenia”, e que se extinguiu
definitivamente, ao que tudo indica, quando eles se separaram logo após
seu maior triunfo, o álbum
“Roots”, um verdadeiro divisor de águas na história da música pesada
mundial.
O lançamento tem passado estranhamente em branco,
sendo pouco divulgado e/ou mencionado na mídia em geral. Nem o próprio
Andreas fez qualquer comentário a respeito em seu programa de rádio, o
"pegadas". Nunca o vi em nenhuma prateleira de livraria. Caso tenha
interesse, há um exemplar a venda na Freedom, em Aracaju - Rua Santa
Luzia, 151, centro. O meu. Comprei pela internet, e estou passando
adiante.
A.
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segunda-feira, 5 de setembro de 2016
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
O Mestre Perguntador morre desencantado com o jornalismo
por Luiz Cláudio Cunha, jornalista, autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. L&PM, 2008). Do Blog do Juca Kfouri
O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago.
O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago.
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| Com você sabe quem. |
Perdemos o Geneton.
Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos,
vencido pelas complicações de um aneurisma na aorta sofrido três meses antes.
Na autoapresentação de seu blog, criado em 2004, ele já avisava: “Nasci numa
sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul:
Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei”.
Bela mentira. Em quatro décadas de jornalismo, o Geneton do
beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos nós, um exemplo de
sucesso e uma referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao
compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à
história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.
Ele começou como repórter em sua terra, no Diário de
Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo¸ nos duros anos do
Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou
como camareiro do Hotel Mônaco e motorista de uma família rica enquanto
estudava Cinema na Sorbonne.
Voltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo
Globo a partir de 1985. Ali, o repórter que se dizia fracassado foi chefe e
mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal
da Globo e do Jornal Nacional, correspondente em Londres da GloboNews e do
jornal O Globo, repórter e editor-chefe do Fantástico.
Nenhuma mesa poderosa da burocracia da redação, porém,
deslumbrou o ex-fracassado do beco: “Não troco por nada o exercício da
reportagem — a única função realmente importante no jornalismo”, definia
Geneton no seu blog. E foi na função seminal de repórter, não como executivo de
redação, que Geneton imprimiu sua marca indelével na imprensa brasileira. As
provas estão guardadas para sempre no seu blog, geneton.com.br, que devia ser
tombado como patrimônio cultural e leitura obrigatória para estudantes,
repórteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a inteligência e o
conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu ofício de
repórter exemplar e humilde diante da notícia e de gente que, como ele, fez
História. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e
cineastas, atletas e poetas, astronautas e políticos, cantores e compositores,
jornalistas e repórteres, grandes repórteres como ele, passaram pelo crivo de
sua inteligência e argúcia.
Os bastardos
As duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de
Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o
promotor britânico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar
Hitler, os três astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas
montanhas de Bora-Bora, o professor do líder dos terroristas do 11 de Setembro,
o homem que encarou o ‘Setembro Negro’ nas Olimpíadas de Munique, o filho do
carrasco nazista de Auschwitz que ataca o próprio pai, o guerrilheiro
brasileiro que recrutou a mãe para a luta armada, o repórter de Watergate que
derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da
derrota na final da Copa de 1950 num Maracanã estufado com 10% da população do
Rio de Janeiro na época, mais de 200 mil torcedores.
Todos fazem parte deste universo mágico que Geneton
esquadrinhou e trouxe para perto de nós, para nos recontar, com detalhes
inéditos, a saga da espécie humana, nos seus bons e maus momentos. “Que se faça
a louvação da reportagem. O papel de todo repórter é produzir informação a
curto prazo. E memória, a longo prazo – de preferência, nas páginas de um
livro, hoje transformado em espaço nobre a reportagem no Brasil”, escreveu
Geneton na orelha do penúltimo de seus onze livros, Dossiê História (2007).
Ali, Geneton se define modestamente como um “pequeno
tarefeiro da memória porque, em última instância, a memória é a grande
matéria-prima do jornalismo”. Nessa tarefa, ele seguia com devoção o mandamento
de um velho jornalista do inglês The Times, que ensinava:
Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou
famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a
seguinte pergunta:
‘Por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?’
O blog de Geneton se define como ‘jornal de um repórter’ e
tem até uma padroeira, uma tal de ‘Nossa Senhora do Perpétuo Espanto’. Ele
explicava:
Para que possam contribuir com esse ‘mundo real’, os
jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser
‘levantadores’, não ‘derrubadores’ de matéria.
É aí que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do
Perpétuo Espanto. Quando criou esta ‘entidade’, Kurt Vonnegut [1922-2007,
escritor, EUA] não estava se referindo ao jornalismo, mas essa ‘santa’ deveria
ser proclamada padroeira plenipotenciária da nossa profissão.
O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas
florestas interiores, aquela chama, aquela faísca, aquele espanto que se vê no
brilho dos olhos de um estagiário – ou de uma criança.
Quando você se guia pelo entusiasmo das pessoas que estão
fora da redação, o resultado do trabalho é melhor do que se você se guiasse
pelo tédio dos que estão dentro.
Geneton ensinava que o mundo real é mais interessante do que
o mundo dos jornalistas: “Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e
telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. Não estou
falando de algo abstrato, mas de uma situação real, palpável, comprovável no
dia a dia dos jornais. Cansei de ver em redações um clima de tédio total entre
os jornalistas. Se você atravessar a rua, for à padaria e comentar que
entrevistou uma velhinha que foi passageira do Titanic, provavelmente os
‘ouvintes’ farão perguntas e se interessarão pelo assunto, enquanto muitos
jornalistas dirão, com os olhos semicerrados de tédio: ‘Ah, mas já faz 100 anos
que o Titanic afundou…’.”
Esse diagnóstico levou Geneton à descoberta de uma terrível
doença que ataca as principais redações brasileiras: a SFG, a ‘Síndrome da
Frigidez Editorial’, que ele batizou e, com ar divertido, ameaçava registrar na
Organização Mundial da Saúde. Definição da síndrome, segundo Geneton: “É a
doença do jornalista que, depois de anos de profissão, perde a capacidade de se
espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de
profissão”.
E jornalista que não se espanta, é claro, nem pergunta mais.
O crédito do general
Perguntar é o que Geneton sabia fazer como ninguém na
imprensa brasileira. Como já se disse, “o jornalismo é a atividade humana que
depende essencialmente da pergunta, não da resposta. O bom jornalismo se faz e
se constrói com boas perguntas”.
Inimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro
blusão de gola rolê que fazia contraste com o branco da barba branca e dos
cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabeça, Geneton não se
intimidava diante das luzes e câmeras da GloboNews, muito menos diante de seus
entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele não
descuidava nunca do conteúdo, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em
letras grandes, em folhas de papel almaço que brandia e consultava sem constrangimentos
em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que
preservou até o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas
— rápidas, incisivas, cirúrgicas —, repelindo as mentiras com outras perguntas
que conduziam à verdade.
Quando o notório Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de
uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador,
Geneton disparou:
— O sr. nega então que este Paulo Maluf, aqui, seja o
senhor?
— Nego.
— Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?
— Nego.
— Então, existe outro Paulo Maluf?
O Maluf à sua frente ficou em silêncio.
Como todo bom repórter, Geneton era teimoso. Tentou uma,
duas, três vezes, até convencer o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015),
ministro do Exército do Governo Sarney, a lhe dar uma histórica entrevista em
2010. Nos créditos da telinha, supreendentemente, o general não aparece
identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe
da repressão da finada ditadura, a quem Leônidas serviu com espartana e rígida
fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general é creditado apenas
como ‘chefe do DOI-CODI, 1974-1977′.
O general falou com uma fluência inédita e uma sinceridade
desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a
arrogância. Ironizou as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para
receber a bolsa-ditadura”) e duvidou até do assassinato do jornalista Vladimir
Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção
de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer
coisa. Até se mata”.
Leônidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no
DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do
Estado-Maior durante quase três anos, na fase mais turbulenta do governo
Geisel. ‘Não houve tortura na minha área’, garantiu Leônidas.
Devia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I
Exército, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e março de
1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo.
Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras
da afamada rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do
Exército, comandado pelo notório major Adyr Fiúza de Castro, um dos radicais
mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca,
fantasiava o general Leônidas, e a paz dos anjos se instalou.
Sem arrogância, Geneton enfrentou o general Leônidas com perguntas
precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a história e conseguiram
arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repressão política que se orgulhava de
seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edição do programa na TV, Leônidas
se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:
— Que minhas ideias não sejam suprimidas na edição. Se
houver um corte, você me deixa mal — avisou o general, esquecido de que o
regime de força que ele defendeu se esmerava em cortes sistemáticos pela
censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras.
Geneton não cortou, e ainda assim o general Leônidas ficou muito mal pelas
ideias que exprimiu, livremente.
Sempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton
questionou a exótica versão do general de que líderes do regime deposto – como
Arraes, Brizola, Jango, Prestes – saíram do Brasil, a partir de 1964, ‘porque
quiseram’. Leônidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterrâneo de
Geneton, pregando:
– Ele [Arraes] podia ter ficado em casa…
– Deposto – emendou Geneton.
– E qual é o problema? – admirou-se o general.
– Todo – encerrou Geneton, com a sintética sabedoria que o
general, já nos seus 90 anos, ainda não apreendera. – Não havia condições de
exercer a política no Brasil, naquela época, general.
O ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arbítrio e
violência, dizendo que o país não teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas
‘fugitivos’.
– Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justiça – pregou
Leônidas.
– General, num regime de exceção, a justiça não é confiável
– replicou o repórter, com a altivez e a dignidade devidas.
Eu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Leônidas
num texto — A arte de perguntar —, publicado pelo site Observatório da Imprensa
em 7 de abril de 2010, quatro dias após a exibição do programa pela GloboNews,
num sábado.
Geneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo
carinhoso título de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto
com o bom humor de sempre:
Olá. Com um cabo eleitoral como você aí, considero-me eleito
para o Comitê
Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil.
Obrigado!
No dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma
mensagem do diretor da GloboNews, César Seabra, que redistribuiu pelo correio
interno o meu texto do Observatório a toda a equipe da TV, com a seguinte
determinação:
Caros,
o texto do link abaixo faz elogios merecidíssimos ao nosso
Geneton.
Mas também nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir
uma entrevista.
É leitura obrigatória para todos – apresentadores,
repórteres, editores, produtores, chefes… Aproveitem. Beijo e bom dia,
César
Bolt da garotada
O incansável Geneton não desistiu do general, que ficou
satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas,
como cabe numa democracia. “Devo ter recebido uns 400 telefonemas…”, disse o
eufórico Leônidas a Geneton, num encontro casual num final de manhã de junho de
2014 num shopping do Leblon. Em março de 2015 Geneton pensava num lance mais
ousado. Colocar o general da repressão no estúdio diante de um guerrilheiro da
luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton
pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que
sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. “Vou dizer uma coisa
que você não sabe: o Cid foi prisioneiro meu”. O encontro épico sonhado por
Geneton nunca aconteceu: Leônidas morreu três meses depois, aos 94 anos,
exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.
Geneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta é a
missão central do repórter: “Não faça jornalismo para jornalista. Faça para o
público”, repetia ele ao público, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos
encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universitário promovido pela
Famecos (Comunicação Social) da PUC de Porto Alegre. É o mais longevo (29 anos
em 2016) evento de comunicação do sul do país, atraindo gente da Argentina,
Uruguai e outros países. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele
conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.
Mesmo diante da crise econômica que vive a indústria da
comunicação e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo
desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princípios. Fidelidade
absoluta à reportagem e ao seu ídolo maior, Joel Silveira (1918-2007), “o maior
repórter brasileiro”, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia,
até a sua morte, com a reverência de um fã.
Joel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II
Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Diários
Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:
— O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor,
senhor Silveira: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para
mandar notícia!
Joel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de
Chateaubriand, morreu um pouco.
— Fui para a Itália com 27 anos, passei dez meses e voltei
com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos — confessou o ídolo Joel ao fã Geneton,
que a partir desses 20 anos de convivência e confidências, juntando fitas K7 e
imagens amadoras, acabaria produzindo um documentário fundamental de 90 minutos
sobre o maior repórter brasileiro: Garrafas ao mar — A víbora manda lembranças,
exibido pela GloboNews em 2013.
Geneton se divertia contando as relações de seu ídolo com os
magnatas da mídia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de ‘víbora’. De
Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, onde Joel publicou suas últimas
reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu repórter
a Jerusalém e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradição judaica,
numa das frestas do Muro das Lamentações, acompanhado de um pedido. Joel
cumpriu a pauta do patrão, que lhe perguntou na volta:
— E aí, Joel, fez o pedido?
— Fiz, Adolpho. Pedi para você me dar um aumento de salário…
O porta-estandarte
Um dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira —
“Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda” — reproduz bem a
visão que seu fã pernambucano tinha de boa parte da mídia atual, em que o
jornalismo cede espaço ao partidarismo, a razão é acuada pela paixão, a isenção
é atropelada pela facção. Geneton também deplorava o engajamento até de
jornalistas experientes em uma ou em outra banda partidária, no calor de uma
luta político-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao
jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e mútuo xingamento, tão estridente
que nem dava para ouvir a banda passar.
Geneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar
nessas bandas, definia:
— Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob
hipótese alguma, a patrulha ideológica.
Geneton via em Joel o seu ideal cada vez mais romântico do
repórter que sobreviveu à ‘ditadura da objetividade’, imposta para combater
pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu à maldição dos
tempos atuais, com textos áridos, chatos, anêmicos, soporíferos, iguais.
“Lástima, lástima, lástima”, lamentava Geneton.
Geneton sonhava com alguém pichando os muros da cidade,
proclamando: “Chega de objetividade! As notícias eu já vi na internet e na TV!
Quero vivacidade, imaginação, arrebatamento, ousadia!”. No seu devaneio,
Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de
jornalismo, segundo ele exilado para a Sibéria.
— A luta por um jornalismo mais vívido, mais atraente, mais
iluminado faz parte da luta por um Brasil menos medíocre. Por que não? —
perguntava-se Geneton, mais uma vez.
Para sustentar sua teoria, ele usava a prática inigualável
de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um
menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Colômbia de 1948 que se seguiu
ao assassinato de um candidato liberal da oposição, Jorge Gaitán, abatido na
rua com três tiros. Os protestos, desordens e a repressão desatada em Bogotá,
num único dia, deixaram um saldo de 500 mortos só na capital. Trecho do texto
de Joel:
Estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de
repórter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela
explosão popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra,
estive diante de mortos tão mortos. Somente aquele menino – não mais de oito
anos – morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os
olhos vazios fixavam o céu de chumbo. As mãos de unhas sujas e compridas
pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de um pequeno barco. Um
funcionário qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto,
procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em
seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e
limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles
viam, com o que queriam ver para sempre.
Geneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:
— Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande
poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que
poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: ‘Onde escondeste o verde clarão
dos dias?’. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clarão?
Geneton, sempre amigo e solidário, acompanhou solitário o
final de vida dos últimos 20 anos da víbora da reportagem. Ninguém mais
frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um prédio da rua
Francisco Sá, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembranças, história e
Joel Silveira.
— Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! — suspirava o
velho repórter, que já não saía de casa e já não tinha amigos. Só Geneton. Joel
desprezou o tratamento de um câncer na próstata para morrer em casa em 2007, na
amarga mansidão de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu último amigo.
Um dissidente
O fim melancólico de Joel Silveira, que Geneton definia como
precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay
Talese e Truman Capote, explica um pouco a visão cada vez mais pessimista que
Geneton tinha do próprio jornalismo na atualidade.
Geneton criava, produzia, executava, editava e apresentava
suas próprias reportagens na GloboNews, com a doída convicção de que, como
Joel, ele se tornava uma avis rara do jornalismo, um exemplar de dinossauro
condenado à extinção imposta pelo cometa brilhante da inevitável modernidade
tecnológica. Geneton parecia, agora, uma víbora que já não confiava nem na
peçonha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.
Aqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua
melancolia, fazia vazar sua desilusão.
Na véspera do réveillon de 2010, ele publicou em seu blog
uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um ‘Teste para Seleção de
Jornalistas’. Era uma azeda reflexão sobre o jornalismo:
Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal
das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os
especialistas conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos
a vagas nas redações.
O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três
minutos, diante de um fiscal da empresa.
Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem
relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão
jornalística.
Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá
provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado.
Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações
brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do
mundo.
Cinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa
definição de Winston Churchill para a União Soviética de Stálin (“É uma charada
envolvida num mistério dentro de um enigma”), Geneton voltou a filosofar com
amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o título ‘Entrevista de Emprego’,
que seria cômica, se não fosse trágica:
Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me
pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com
toda sinceridade:
‘Depois de décadas na estrada, tenho a nítida, nitidíssima
sensação de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi
um equívoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora é tarde
para voltar atrás. Bola pra frente, então! Faz de conta que é a melhor
profissão do mundo!
E é – para os que se descobrem tecnicamente incapazes de
fazer alguma coisa que seja de fato útil ao avanço da humanidade!”.
Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo
burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os
candidatos.
Eu ouviria o aviso de dispensa sumária, me levantaria,
cumprimentaria o dispensador e diria: ‘Parabéns! Você nunca tomou uma decisão
tão acertada!’.
Cinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em
que me agradecia pela louvação à sua ‘arte de perguntar’, o e-mail privado de
Geneton traía sua desilusão já na linha seguinte, com uma inesperada autodefinição
em tom de confissão:
Pode parecer pretensão, mas acho que realmente o jornalismo
se mediocrizou.
O exibicionismo toma o lugar da substância, especialmente na
TV.
Modestamente, considero-me um dissidente.
O dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker,
nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto
diáfano de desencanto, deixando no ar uma última pergunta, que cabe a todos nós
responder:
— Por quê?
#
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
No sertão, em karne viva ...
![]() |
| JUVENTUDE DE SOUSA, PB |
Precisavam de alguém que dirigisse para ajudar na empreitada
– 644km de ida, 189 entre as duas cidades e 730 de volta – então me chamaram.
De carro alugado, saímos de casa às 3 da manhã da sexta-feira, 23 de julho, e
aportamos na terra do Padre Cícero depois do meio-dia. Cidade bonita, situada
num vale circundada por montanhas. Crescendo, com cerca de 260.000 habitantes,
já apresenta um embrião de “skyline” com arranha-céus impressionantes.
No centro, a praça Pe. Cícero (tinha que ser, né) já estava
sendo preparada para o evento. A banda passou o som – instalado num palco em
frente a uma estátua do ... padre Cícero! - e resolveu adiar o descanso da
longa viagem diante da insistencia das simpáticas moças da produção para que
visitassem os camarins, devidamente abastecidos com suquinhos e frutinhas, mas
sem camas, que era do que precisávamos naquele momento. Em todo caso, nada a
reclamar, tratamento impecável ...
O show (veja AQUI) começou cedo, por volta das 20H. Por ser numa praça
pública e num dia de feriado na cidade, acabou atraindo um bom público, boa
parte de curiosos “não iniciados”. Na linha de frente, a juventude “roqueira”
ensandecida foi à loucura, agitando muito, circundada por uma miríade de rostos
com os olhos fixos no palco, impressionados com a verdadeira catarse sonora que
saia dos altos falantes. Silvio, o vocalista, estava doente, gripado e com a
garganta inflamada, mas mesmo assim entregou uma perfomance avassaladora. Aos
poucos foram conquistando a platéia com uma apresentação explosiva, emendando uma
música atrás da outra, sem pausa para descanso. No final, depois de um bis
insistentemente pedido, foram ovacionados e muito comprimentados.
O show terminou cedo e a noite do Cariri nos esperava: comemoramos, eu e Alexandre Gandhi, os
insones, o sucesso até ali da empreitada num simpático bar “roqueiro” chamado
“Cangaço”, que ficava a três quadras da praça. Pra lá de simpático, eu diria:
impressionante! Instalado numa ampla casa residencial adaptada, dispunha de
vários ambientes muito bem decorados e aconchegantes, com música de excelente
qualidade saindo dos auto-falantes. Nos fundos, no que seria originalmente um
quintal, um “voz e violão” tocado por um musico competente, com excelente
perfomance vocal. Animou o público – bastante despojado, aliás, na base da
camiseta, bermuda e chinelo, bem diferente do povo hipster chique
“empiriquitado” que tinha visto uma semana antes na Reciclaria de Aracaju – ao
ponto de provocar uma cena inusitada, quando algumas garotas dançaram funk ao
som de Legião Urbana(!!!), requebrando lascivamente até o chão ...
No dia seguinte, um sábado, demos um “rolê” pelo comércio e
pudemos ver o impacto da apresentação: os caras foram reconhecidos, abordados e
parabenizados várias vezes na rua. Impressionante, um verdadeiro dia de “rock
star”. Visitamos uns sebos e uma loja especializada em rock, além de
constatarmos que praticamente todos os estabelecimentos do centro comercial de
Juazeiro ostentavam em suas portas uma estátua do padre Cícero, o onipresente.
Nas ruas, um carro de som anunciava uma promoção da òtica Padre Cícero, que
fica na Rua pe. Cícero, esquina com a Praça Pe. Cícero. Por volta do meio dia
retomamos a estrada, passando antes pela Aveninda Padre Cícero e vendo ao longe
a célebre estátua do Padre Cícero ...
O caminho até a próxima parada foi tranquilo, apesar de
sinuoso nas imediações de Juazeiro. Sousa é menor – população estimada de
68.000 habitantes – e menos marcada pela religiosidade. Mas tem pegadas de
dinossauros! Fica lá um dos mais importantes sitios paleontológicos existentes,
com a maior incidência de pegadas de dinossauros
do mundo! Mas infelizmente, por causa da passagem de som, não pudemos visitar o
vale. Tivemos que nos contentar em tirar fotos com algumas das muitas estátuas
dos dinos espalhadas pela cidade, além de comprar biscoitos no Supermercado
Dinossauro, que fica ao lado da pousada Dinossauro – não ficamos lá, fomos
gentilmente hospedados por um amigo. E lá os dinossauros, no caso, éramos nós,
já que ele é novinho ...
O show, que começou por volta das 22H, aconteceu num
calçadão que fica ao lado do Centro Cultural Banco do Nordeste, o promotor do
evento – bem bacana, aliás, seria interessante ter um destes aqui em Aracaju. Tinha
menos publico que em Juazeiro, mas foi igualmente devastador, com um set list
conciso dividido em blocos temáticos, dentre eles um que reunia músicas que
falavam do sertão nordestino, como “O vaqueiro e a boiada”, “O guerreiro”,
“Terra Morte”, “Sêco” e “Inanição” – esta última uma obra-prima, provavelmente
a melhor música da karne Krua. O público, especialmente a juventude sedenta por
rock selvagem, agitou muito e ovacionou a banda.
Na volta pra casa, nos arredores de Campina Grande, um
susto: paramos o carro numa ruela paralela á rodovia para ajustar o GPS. De
cara já chamamos a atenção de um casal de transeuntes, que pareceu bastante
assustado com a nossa presença. Normal, tempos de violência urbana desenfreada, tem que ter medo mesmo. Enquanto
Ivo mexia nas coordenadas notei que logo à frente, num descampado, se avistava
um presídio. Ok. Os sinais de alerta mentais começaram a piscar quando uma
viatura da polícia tenha passou por nós em marcha lenta, olhando fixamente para
o interior do veículo. Voltou minutos depois com uma escolta impressionate, de
mais uns três ou quatro veículos, de onde saltaram homens armados com fuzis de
grosso calibre se dirigindo em nossa direção. Mantivemos a calma e saltamos do
carro a pedido do comandante da operação, enquanto os que faziam a cobertura
verificavam se havia alguém por trás do muro ao lado do qual estávamos
estacionados. Mãos na parede, fomos revistados. Nada foi encontrado e o
comandante pediu pediu para que abrissimos o porta-malas do carro. Ao constatar
que se tratavam de musicos – Blitz! Documentos! “Só temos instrumentos” - explicou
de maneira educada que estavam fazendo a segurança do presídio, já que era dia
de visitas, e haviam nos abordado por estarmos no lugar errado na hora errada,
em atitude suspeita. Desculpou-se pelo incômodo e ainda nos deu dicas de rotas.
E foi isso! Vida longa ao Rock Cordel, que proporciona a
bandas independentes com trabalho autoral a circulação por cidades onde
dificilmente chegariam por conta própria, com uma estrutura relativamente boa e
um cachê relativamente decente. Que não sucumba aos tempos sombrios em que
vivemos – ouvi relatos de que era o último projeto cultural ainda de pé dentre
vários que o banco mantinha.
FORA TEMER!
A.
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quinta-feira, 11 de agosto de 2016
TUDO AO MESMO TEMPO AGORA
As
Histórias em quadrinhos brasileiras seguem conquistando o mundo: os irmãos
gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, de 40 anos, venceram pela segunda
vez o prêmio Eisner, considerado por muitos o oscar dos quadrinhos. Agora na
categoria “Melhor adaptação de outra mídia”, por Dois Irmãos (Quadrinhos na
Cia., 2015), baseado no romance homônimo do manauara Milton Hatoum. A primeira
foi em 2007, pela aclamada “Daytripper”, na categoria “série limitada”. “Dois
irmãos”, que foi lançado nos Estados Unidos pela influente editora Dark Horse,
a quarta maior do mercado – perde apenas pra Marvel, DC e Image - narra uma
tumultuada relação de ódio entre dois irmãos gêmeos nascidos numa família de
origem libanesa que vive em uma Manaus decadente, muito distante da
efervescência econômica e cultural do ciclo da borracha, no início do século
XX. O livro foi lançado no ano 2000 e se tornou uma espécie de clássico moderno
da literatura brasileira. A adaptação para os quadrinhos segue o mesmo destino. ++++++++++++++++Em se tratando de Histórias em quadrinhos, aqui em Aracaju temos o enorme talento de Eduardo Cardenas, que pode ser comprovado com a leitura de seu “Mórbido, maléfico e maldito gibi”. São contos curtos de horror decentemente roteirizados, magnificamente ilustrados e distribuídos em 32 páginas impressas aqui mesmo, no estado, com um resultado pra lá de satisfatório em termos de qualidade gráfica. Produção do autor, independente, pode ser adquirida no site http://lostcomics.com.br/ . Lá estão disponíveis para venda, também, “The Noir Samurai Tango – O Boêmio”, do professor e quadrinista sergipano Rodrigo Seixas; “Somner”, da baiana Dimítria Elefthérios, e “Boiuna – o guardião das esmeraldas”, uma HQ no estilo do horror clássico com temas tipicamente brasileiros - seu autor, o veterano Elmano Silva, é egresso da escola revelada nos anos 1970 e 80 pelas revistas Spektro, Calafrio e Mestres do Terror. //////
“O que é roubar um banco se comparado a fundar um?” Os personagens principais da HQ “Criminosos do sexo” parecem concordar com a tese de Bertold Brecht, pois é o que resolvem fazer assim que pensam numa função prática – e lucrativa - para o misterioso poder que descobrem ter: parar o tempo ao seu redor quando atingem um orgasmo. Escrita pelo premiado Matt Fraction e belamente ilustrada por Chip Zdarsky,”Criminosos do Sexo” está sendo publicada nos EUA pela Image Comics desde setembro de 2013 e é uma das séries em quadrinhos mais cultuadas da atualidade. Além de frequentar com assiduidade o primeiro lugar no ranking dos mais vendidos do New York Times, foi indicada a dois Eisner Awards em 2014, incluindo Melhor Série Contínua, e venceu na categoria de Melhor Nova Série. Em fevereiro do ano passado seu autor assinou contrato com a Universal TV para uma versão nas telinhas. No Brasil, já tem dois volumes belíssimamente encadernados em capa dura lançados pela Editora Devir. Fique de olho, também pra poder dizer, quando se tornar um estrondoso sucesso mundial a la “Walking Dead”, que já conhecia. E que nos quadrinhos é muito melhor. \\\\\\\\\\\\
Muhammad Ali morreu no dia 03 de junho de 2016 e eu finalmente peguei pra ler o gibizão de capa dura com miolo em papel couchê que a panini lançou faz algum tempo com uma história publicada originalmente pela DC Comics em 1978 em que ele enfrenta ninguém menos que o Superman! A idéia esdrúxula acabou rendendo uma HQ criativa e divertidíssima, desenhada pelo legendário Neal Adams. Vale uma conferida. #############
Em 2015 o prêmio Nobel de literatura foi entregue a uma jornalista, a bielorussa Svetlana Aleksièvitch, de quem pouco ou nada se tinha ouvido falar, até aquele momento, por aqui. Por conta disso, sua obra singular, composta por depoimentos colhidos entre sobreviventes da guerra, do totalitarismo e de desastres nucleares e lapidados numa prosa que a Academia sueca qualificou de “Literatura polifônica” passou a ser , finalmente, publicada no Brasil. Já saíram até agora, pela Companhia das letras, Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear e A guerra não tem rosto de mulher. Este ano ela foi a grande atração da Flip, a Feira de Litaratura de Paraty, onde fez declarações como esta: “Prefiro o trabalho das mulheres ao dos homens. Quando morei na Suécia, a ministra da Defesa era uma mulher. Lembro uma foto dela grávida, passando em revista as tropas. Se todos os ministros da Defesa fossem mulheres, teríamos menos guerra no mundo. Trabalhei 30 anos sobre a história do comunismo russo e entrevistei centenas de homens e mulheres. Sempre as histórias delas eram mais interessantes. O mundo feminino é mais colorido, mais na base do emocional, mas ainda não chegamos ao ponto de igualdade entre gêneros no mercado de trabalho. Na minha terra há muito poucas mulheres na política e em outras áreas expressivas. Há também poucas autoras, que na opinião de muitos só deviam escrever sobre flores, amores e cozinha. Eu mesma quando comecei a escrever sofri questionamentos por abordar temas tão pesados.” ////
Quem também esteve na Flip, trazido talvez pelo anuncio da continuação do filme baseado em seu livro mais famoso, “Trainspotting”, foi o escocês Irvine Welsh. “Pornô”, a continuação de Trainspotting na literatura, servirá como ponto de partida, mas a nova história seguirá novos rumos, porque a indústria pornográfica mudou muito desde que o livro foi lançado, em 2002. Em todo caso, a volta do elenco original, inclusive de Ewan McGregor, que havia rompido com o diretor Danny Boyle ao ser preterido por ele em favor de Leonardo DiCaprio como protagonista de “A Praia”, tem causado frisson nos fãs – que não são poucos, e dentre os quais me incluo. Welsh escreveu ainda “Skagboys”, uma espécie de “prequel” de “Trainspotting”, em 2012, mas veio ao Brasil este ano para lançar seu novo livro, “A vida sexual das gêmeas siamesas”, que é ambientado em Miami Beach – bem longe da Escócia, portanto – e discorre sobre outro tipo de vício: o consumismo. Viciado ele mesmo em exercícios físicos, principalmente porque lhe permitem comer o que quiser, ele mora já há sete anos nos EUA, a maior parte do tempo em Chicago, cidade natal de sua mulher. Sobre as diferenças entre a América e sua terra natal, declarou: “Miami é muito diferente de onde eu venho. Na Escócia a cultura é mais verbal, em Miami as coisas são mais visuais. Lá as pessoas têm mais consciência do corpo e têm um vício no consumismo americano. É tudo mais físico, você fica mais preocupado com a forma do que em Edimburgo e até Chicago, em que as pessoas acabam ficando presas atrás de laptops. Você sai na rua e vê as modelos da Condé Nast e os artistas. Acho que o clima quente ajuda a criar esse comportamento de rua que não há em outras cidades. Há muitos brasileiros lá. E vocês gostam de festas.”
![]() |
| por Fernando Correia |
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A vida é feita de escolhas. Tinha prometido a mim mesmo que
assistiria a um show completo do Napalm Death assim que eles voltassem ao país
depois da relativa frustração de vê-los como banda de abertura para o Hatebreed
no Circo Voador, em 2014, mas decidi também que não poderia perder a
apresentação do Suicidal Tendencies com Dave Lombardo na bateria, que
aconteceria uma semana depois. Como tive que escolher, já que dinheiro não é
capim nem dá em árvore, escolhi o segundo, que nunca tinha visto ao vivo ...
Comparecemos, eu e minha amiga Luana, do Rio, ao Audio
Clube, na Barra Funda, a tempo de ver as bandas de abertura, Tolerancia Zero e
Oitão. Chatos pra cacete, ambos. Hard Core “testosteronado” e cheio de
“atitude”, com muita pose e pouco conteúdo. Fomos salvos pelos Ratos de Porão,
que detonaram, como sempre, tocando na íntegra o pior disco de sua melhor fase,
“Anarkophobia”. Mas o grande show foi mesmo do Suicidal, que fez uma entrada
triunfal após ser anunciado por uma
garotinha de uns 4, 5 anos, trajada como fã - com direito à clássica bandana
azul, evidentemente. Começaram com “You can´t bring me down” e emendaram um hit
atrás do outro, sem piedade. Lombardo foi anunciado com pompa e aclamado pelo
público, mas fez uma apresentação contida, sem nenhum estrelismo. Era penas um
grande – e bote grande nisso – baterista dando uma força aos amigos, sem
interferir nos arranjos e andamentos das músicas. Quem brilhou e se destacou mesmo
foi Mike Muir, que ainda está em forma e segue sendo um grande frontman,
conduzindo a platéia num frenesi insano que acabou em cima do palco, a seu convite.
Antológico! --------------------------------------------------
Antes tarde do que nunca, quero falar também do maravilhoso
show de David Gilmour que vi, também em São Paulo, no final do ano passado. Foi
no estádio do Palmeiras, reformado e tinindo. Fiquei na pista e muito pra trás,
o que foi uma pena: pode-se dizer que vi Gilmour apenas pelo telão, pois de onde
eu estava ele era apenas um ponto minúsculo no palco. Em todo caso, e apesar do
blah blah blah sem noção do público coxinha que parecia estar ali apenas pelos
velhos sucessos do Pink Floyd e pelo “status” conferido pelo preço exorbitante
do ingresso, foi lindo poder ver – na
medida do possível, em meio ao mar de celulares posicionados à minha frente –
finalmente ao vivo o legendário guitarrista interpretar pérolas do cancioneiro
psicodélico circundado por uma banda pra lá de competente e pelo já tradicional
show de luzes e feixes de raio laser. Um momento especialmente emocionante, pra
mim, foi a volta do intervalo – sim, o show é tão longo que tem intervalo – com
uma homenagem a Syd Barret, já que eu havia recebido um inesperado telefonema
da namorada de Levi Marques, NOSSO diamente louco, que havia partido deste vale
de lágrimas por livre e espontânea vontade alguns dias antes. SHINE ON, you
crazy diamond!
Na saída, a platéia dá novo show de deselegancia, mandando em
coro a presidenta tomar no cu. Bizarro. Contraste total com o clima intimista
do evento.
Quero registrar também a extrema dificuldade que tive para
conseguir um táxi depois do show. Foi tenso, pensei que ia ter que dormir na
rua ...
A.
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A.
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sábado, 12 de março de 2016
Viva La Brasa, Ano 2
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| Necro "Na Brasa" |
Renegades abriu a noite no palco depois de uma discotecagem bacana de Inês Reis, “a garota da capa”. Matando a pau, como sempre. Na seqüência a Necro, que é, provavelmente, a banda “de fora” que mais bate ponto por aqui – e isso é ótimo! Apresentaram mais uma vez para um público diminuto o impressionante repertório de seu novo disco, já gravado mas ainda não lançado. Como com eles não tem tempo ruim, foi um show épico, acachapante e chapante, dividido em duas partes: na primeira, com Lillian na guitarra e Pedrinho no baixo, mandaram um set já conhecido de todos, com músicas dois dois primeiros álbuns lançados em glorioso vinil pela gravadora norteamericana Hydrophonic Records e em CD pela Baratos Afins, de São Paulo. Foi bom, mas meio desleixado – dá pra notar que eles já não estão mais muito a fim de tocar aquele material.
O bicho pega pra valer quando Pedrinho empunha a guitarra e começa a debulhar as novas composições, absolutamente sensacionais! A pegada é outra, mais ágil, menos “doom” e arrastada, mas ainda exalando um delicioso cheiro de mofo oriundo dos confins do que de melhor foi feito no rock “brazuca” das décadas de 1960 e 70 por nomes como Mutantes, O Peso, Módulo 1000 e O Som Nosso de Cada dia. Opção estética “retrô” vitaminada por uma energia contagiante, coroada pelo imenso talento do trio – Lillian segue destruindo nas 4 cordas enquanto divide os vocais com Pedrinho e ambos são conduzidos pela percussão poderosa de Thiago Allef. Sério: eu sinto até pena de quem ainda não os viu ao vivo, nesta nova fase. É impressionante – e difícil de descrever ...
Ficou difícil também pra Catarina Dee Jah segurar a onda, mas ela não se fez de rogada e, metida num figurino “colante” e estiloso, mandou ver numa outra “vibe”, bem mais dançante e flertando com ritmos populares. Aos poucos, foi conquistando os que sobreviveram ao massacre sonoro das bandas de abertura, com a ajuda de sua competente banda, os ”Radicais Livres”, que ela mesma informou nunca ter visto tocar com tanto “punch”. Encerrou com um inusitado “pout-pourri” de músicas dos Garotos Podres recriadas no seu estilo “guerrilheira cultural”, sem medo de ser feliz.
“Eu tento, mas Aracaju não facilita”, foi a resposta de Adolfo à minha admiração pelo capricho da produção – em parceria com a “Então Pronto”. Por isso mesmo é preciso louvar quem, como ele, não se deixa abater pelas dificuldades e corre atrás dos seus sonhos. Na raça, com a cara e a coragem.
“Viva La Brasa”, o livro, é uma coletânea de textos publicados originalmente no blog de mesmo nome, na revista Cumbuca e no Cabrunco, um fanzine da década de 1990. A edição é caprichada, em papel de qualidade e com uma diagramação que, de tão boa, pode ser considerada, por si só, uma obra de arte – de Gabi Ettinger, também responsável pela capa e pelo projeto gráfico. Fala de tudo, ou do que der na telha do autor: do surf, uma de suas paixões, ao rock, passando por acidentes de moto, mordidas de cachorro – “caiu da moto?” -, terrorismo editorial “Tarja preta”, sua amizade com Allan Sieber - com quem já dividiu um muquifo na cidade “maravilhosa”; Bezerra da Silva, Joacy jamys, Pitty (“porra, Adolfo, “menina dos olhos do rock baiano”?”); fanzines, B-Negão, Planet Hemp e Marcelo D-2, Mundo Livre S/A e Zenilton (“Eu quero mais é morrer de AIDS e emaconhado, comendo essas menininhas novas”); Luiz Eduardo; Lauro; as conturbadas passagens do Ratos de Porão por Aracaju; Mônica Mattos – “produto nacional tipo exportação”; Grande Hotel – “Nostalgia turva e futurismo estridente”; Nação Zumbi “na hora da zona morta”; puteiros e putarias do centro da cidade; Jaguar; Merda, Leptospirose e ossos quebrados e Joana Côrtes ...
E Mudhoney no Pelourinho, Plástico Lunar no Abril pro rock, Eddie na Sessão Notívagos; Lacertae; Fúria – CARALHO!; SHA-LA-LA (Snooze); Thiago Neumman “Cachorrão”; Jamson Madureira; Rick Griffin; Ellen Roche & The Black Keys; Reação reggae roots; Música Popular Brasileira, Adelvan Barbosa (eu!) e o programa de rock; Condomínio Jardim Imperial (Ofício no. 02/2000, 04 de janeiro); Michael Menezes e os Ramones; Flavio Flock; Marcos “Meleka” e o Plano B da Lapa; Marcha da maconha; Scarlett Johansson nua; punk indonésio; Cabaret dos Insensatos; Marcha das Vadias; “Buceta Treta”(Pussy Riot); Leptospirose no Clandestino; The Baggios na estrada; Adilson Lima e os quadrinhos sergipanos; a Avenida Oceânica da Barra dos Coqueiros; passagens de sua vida pessoal, como o emocionante texto em que conta sua relação com o irmão, falecido, e as peças plásticas com formato de cruz que assustam os donos das motos CG 150 Titan.
Há também muitas – e boas – Histórias em quadrinhos – algumas delas escritas e desenhadas por ele mesmo! – e muitas – algumas muito boas – entrevistas: com Schiavon – o cartunista, não o o tecladista do RPM -; Binho Nunes, o “corvo surfista”; com a Gangrena Gasosa (por Marcio Sno); Stephan Figueiredo – outro surfista; Adão Iturrusgarai, Daniela Rodrigues, Gabriel Thomaz, Júlio Adler – mais um surfista; Eduk, do DeFalla – a mais insana, claro; Leonardo Panço, Julico da The Baggios, Silvio da Karne Krua (e da Máquina Blues, Logorréia, Casca Grossa, Cruz da Donzela, Words Guerrilla e ETC), Pablo Carranza e Catarina Dee Jah – “Conhece Aracaju?” “Ainda não. É uma pena que seja tão difícil tocar nos estados vizinhos com estrutura profissional e equipe. Mas a noite é curta e a vara é longa. Se você me perguntar se aquela pirralha que atravessava as pontes do Recife sozinha para ver Chico e sua gangue tocando imaginava aonde a música a levaria, eu digo com certeza que ela não fazia idéia. Viva a música feita de coração e fúria!”
O bicho pega pra valer quando Pedrinho empunha a guitarra e começa a debulhar as novas composições, absolutamente sensacionais! A pegada é outra, mais ágil, menos “doom” e arrastada, mas ainda exalando um delicioso cheiro de mofo oriundo dos confins do que de melhor foi feito no rock “brazuca” das décadas de 1960 e 70 por nomes como Mutantes, O Peso, Módulo 1000 e O Som Nosso de Cada dia. Opção estética “retrô” vitaminada por uma energia contagiante, coroada pelo imenso talento do trio – Lillian segue destruindo nas 4 cordas enquanto divide os vocais com Pedrinho e ambos são conduzidos pela percussão poderosa de Thiago Allef. Sério: eu sinto até pena de quem ainda não os viu ao vivo, nesta nova fase. É impressionante – e difícil de descrever ...
Ficou difícil também pra Catarina Dee Jah segurar a onda, mas ela não se fez de rogada e, metida num figurino “colante” e estiloso, mandou ver numa outra “vibe”, bem mais dançante e flertando com ritmos populares. Aos poucos, foi conquistando os que sobreviveram ao massacre sonoro das bandas de abertura, com a ajuda de sua competente banda, os ”Radicais Livres”, que ela mesma informou nunca ter visto tocar com tanto “punch”. Encerrou com um inusitado “pout-pourri” de músicas dos Garotos Podres recriadas no seu estilo “guerrilheira cultural”, sem medo de ser feliz.“Eu tento, mas Aracaju não facilita”, foi a resposta de Adolfo à minha admiração pelo capricho da produção – em parceria com a “Então Pronto”. Por isso mesmo é preciso louvar quem, como ele, não se deixa abater pelas dificuldades e corre atrás dos seus sonhos. Na raça, com a cara e a coragem.
“Viva La Brasa”, o livro, é uma coletânea de textos publicados originalmente no blog de mesmo nome, na revista Cumbuca e no Cabrunco, um fanzine da década de 1990. A edição é caprichada, em papel de qualidade e com uma diagramação que, de tão boa, pode ser considerada, por si só, uma obra de arte – de Gabi Ettinger, também responsável pela capa e pelo projeto gráfico. Fala de tudo, ou do que der na telha do autor: do surf, uma de suas paixões, ao rock, passando por acidentes de moto, mordidas de cachorro – “caiu da moto?” -, terrorismo editorial “Tarja preta”, sua amizade com Allan Sieber - com quem já dividiu um muquifo na cidade “maravilhosa”; Bezerra da Silva, Joacy jamys, Pitty (“porra, Adolfo, “menina dos olhos do rock baiano”?”); fanzines, B-Negão, Planet Hemp e Marcelo D-2, Mundo Livre S/A e Zenilton (“Eu quero mais é morrer de AIDS e emaconhado, comendo essas menininhas novas”); Luiz Eduardo; Lauro; as conturbadas passagens do Ratos de Porão por Aracaju; Mônica Mattos – “produto nacional tipo exportação”; Grande Hotel – “Nostalgia turva e futurismo estridente”; Nação Zumbi “na hora da zona morta”; puteiros e putarias do centro da cidade; Jaguar; Merda, Leptospirose e ossos quebrados e Joana Côrtes ...
E Mudhoney no Pelourinho, Plástico Lunar no Abril pro rock, Eddie na Sessão Notívagos; Lacertae; Fúria – CARALHO!; SHA-LA-LA (Snooze); Thiago Neumman “Cachorrão”; Jamson Madureira; Rick Griffin; Ellen Roche & The Black Keys; Reação reggae roots; Música Popular Brasileira, Adelvan Barbosa (eu!) e o programa de rock; Condomínio Jardim Imperial (Ofício no. 02/2000, 04 de janeiro); Michael Menezes e os Ramones; Flavio Flock; Marcos “Meleka” e o Plano B da Lapa; Marcha da maconha; Scarlett Johansson nua; punk indonésio; Cabaret dos Insensatos; Marcha das Vadias; “Buceta Treta”(Pussy Riot); Leptospirose no Clandestino; The Baggios na estrada; Adilson Lima e os quadrinhos sergipanos; a Avenida Oceânica da Barra dos Coqueiros; passagens de sua vida pessoal, como o emocionante texto em que conta sua relação com o irmão, falecido, e as peças plásticas com formato de cruz que assustam os donos das motos CG 150 Titan.
Há também muitas – e boas – Histórias em quadrinhos – algumas delas escritas e desenhadas por ele mesmo! – e muitas – algumas muito boas – entrevistas: com Schiavon – o cartunista, não o o tecladista do RPM -; Binho Nunes, o “corvo surfista”; com a Gangrena Gasosa (por Marcio Sno); Stephan Figueiredo – outro surfista; Adão Iturrusgarai, Daniela Rodrigues, Gabriel Thomaz, Júlio Adler – mais um surfista; Eduk, do DeFalla – a mais insana, claro; Leonardo Panço, Julico da The Baggios, Silvio da Karne Krua (e da Máquina Blues, Logorréia, Casca Grossa, Cruz da Donzela, Words Guerrilla e ETC), Pablo Carranza e Catarina Dee Jah – “Conhece Aracaju?” “Ainda não. É uma pena que seja tão difícil tocar nos estados vizinhos com estrutura profissional e equipe. Mas a noite é curta e a vara é longa. Se você me perguntar se aquela pirralha que atravessava as pontes do Recife sozinha para ver Chico e sua gangue tocando imaginava aonde a música a levaria, eu digo com certeza que ela não fazia idéia. Viva a música feita de coração e fúria!”
“Viva La Brasa”, o livro, pode ser encontrado por aí, nas melhores lojas e banquinhas de material alternativo de shows underground. Nas piores também, talvez, mas só quando Adolfo resolver queimar o estoque. Em Itabaiana na TNT, no fundo do Murilo Braga. Em Aracaju na Freedom – Rua Santa Luzia, 151 – centro, próximo à Catedral.Ou em http://vivalabrasa.com/
A.
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| Patricia Piccinini "Com Ciência" |
O melhor filme do ano passado foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas o favorito para levar o oscar era “O Regresso”. Ganhou “Spotlight”, que joga luz sobre os casos de pedofilia envolvendo padres católicos. Menos mal: nem um, nem outro. Fez-se a justiça de Salomão. /////////////// Em todo caso, Mad Max sagrou-se como o grande vencedor em números absolutos, com a conquista de seis estatuetas, em sua maioria nos quesitos técnicos, como som e montagem. Justíssimo! Só acho que deveria ter levado também, pelo menos, o prêmio de direção: George Miller, aos 71 anos, deu uma verdadeira aula. Seu filme é cinema de ação como há muito tempo não se via – nunca mais tinha tido aquela curiosa sensação de satisfação e desconforto por perceber que a projeção estava chegando ao fim. Queria mais! Tomara que tenha continuação.
“O Regresso” mereceu muito o prêmio pela fotografia, realmente primorosa. E só. O filme é bom, tem um bom ritmo, mas convenhamos: é “clicheroso” e, em termos de roteiro, praticamente se resume a mostrar DiCaprio correndo, arfando, sendo atacado e fugindo por duas horas e cacetada. Se bem que o ataque do urso é realmente um espetáculo, daquelas cenas que ficarão marcadas nas retinas dos olhos de quem viu no cinema, em tela grande - como deve ser – para sempre. /////////// O que não quer dizer que eu ache que a academia tenha sido injusta ao dar o oscar de melhor atuação para Leo, só acho que demorou. Ele devia ter recebido por “O Lobo de Wall Street”. /////// Foi muito bom também ver a belíssima animação brasileira “O Menino e o mundo” no páreo. Uma grande vitória. Ganhar, mesmo, era uma missão praticamente impossível, já que “Divertida Mente” é uma obra-prima. Mais uma, da Pixar. Que andava patinando. Tomara que tenha voltado aos trilhos.
O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...
Ainda há público para shows de rock em Aracaju? Fecharam dois espaços que abriam para o estilo, a Caverna e a Casa Rua da Cultura. Sábado passado apenas alguns gatos pingados foram ao Rancho da Aruana ver a segunda festa Viva La Brasa, enquanto um samba no CHE tava lotado, com tanta gente que a rua em frente ficou praticamente interditada. Nada contra o samba, evidentemente. Só acho uma pena que uma banda como a Necro tenha tido tão pouco público nas duas últimas vezes que vieram tocar por aqui. Em todo caso, o rock segue em frente, porque é teimoso: ontem, dia 11/03/2016, rolou o lançamento do novo disco da excelente Penny Mocks. Próxima sexta tem Punk rock e Hard Core na pista de skate Cara de Sapo, com os paulistas da Mar Morto, os pernambucanos da Johnny 13 e os sergipanos Ideal e The Renegades of punk. Amanhã, dia 13, tem o SOS UNDERGROUND 2 no Conj. Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, com Rasga Mortalha, Mophinum, Anhan e outra que não consegui ler o nome no cartaz. Já dia 20/03, em São Cristóvão – terra da The Baggios, que acabou de tocar no Lollapalooza, em sp – rola Executor, Casca Grossa, Suicídio Coletivo, Pôdi pa caraio, Toxofobia e Enterrados de Forma Banal. Por fim, dia 16/04 tem UNDEGROUND ATTACK no parque dos cajueiros, com Cruz da Donzela, Executor, Serial, Eyeless e Mentes suicidas.
Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.
A passagem dos anos de 2015 para 2016 vai ficar na história do rock and roll - de forma negativa, infelizmente. O baixo astral por aqui, nas terras do Cacique, começou com a notícia do falecimento de Levi Marques, que desistiu da vida no fim do ano passado e deixou sem chão uma legião de amigos. Era um jovem talentoso, cantor e compositor, “performer” de primeira. E, acima de tudo, um cara “do bem”. Faz muita falta e nunca será esquecido. O mal-estar prossegue com a passagem “desta para melhor” (???!!!) de Flavio Basso, o eterno Júpiter Maçã, astro do rock underground tupiniquim que fez história em carreira solo e com a seminal banda gaúcha Os Cascavelletes e parecia ter chegado ao auge com o falecimento de Lemmy, do Motorhed, quando nos chega a notícia, nos primeiros dias do mês de janeiro do ano corrente, de que David Bowie não era, afinal, um ser imortal! Pelo menos não no plano físico, biológico. Já era difícil imaginar um mundo sem Lemmy. Sem David Bowie, é tarefa quase impossível. Seguimos vivendo, claro, mas não é mais a mesma coisa. Não mesmo.
Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.
* publicado originalmente no jornal Folha da Praia
A.
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| Fury road |
O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...
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| Renegades of punk "na brasa", por David Doria |
Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.
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| Shine on, you crazy diamond |
Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.
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