sábado, 12 de março de 2016

Viva La Brasa, Ano 2

Necro "Na Brasa"
“Viva La Brasa”, o livro, foi lançado há pouco mais de um ano em uma festa “de arromba” na finada Caverna do Jimmi Lennon, com apresentações de alguns dos melhores nomes do cenário “undeground” local. Na seqüência, Adolfo Sá caiu na estrada pra promover sua “cria” e com a ajuda de amigos – sempre! – marcou presença em Maceió, Recife e João Pessoa. No último sábado, dia 05 de março, ele retribuiu a gentileza convidando algumas das bandas que o ajudaram para uma nova celebração, desta vez com uma produção mais bem cuidada. Pena que o público não correspondeu à altura: pouca gente foi ao “Rancho”, simpática casa de praia localizada na Aruana, para conferir a pernambucana Catarina Dee Jah, os alagoanos da Necro e os renegados do punk sergipano. Azar de quem não foi! Foi tudo feito no capricho: som, iluminação, bar, cantina e até redes estendidas entre os cajueiros ...

Renegades abriu a noite no palco depois de uma discotecagem bacana de Inês Reis, “a garota da capa”. Matando a pau, como sempre. Na seqüência a Necro, que é, provavelmente, a banda “de fora” que mais bate ponto por aqui – e isso é ótimo! Apresentaram mais uma vez para um público diminuto o impressionante repertório de seu novo disco, já gravado mas ainda não lançado. Como com eles não tem tempo ruim, foi um show épico, acachapante e chapante, dividido em duas partes: na primeira, com Lillian na guitarra e Pedrinho no baixo, mandaram um set já conhecido de todos, com músicas dois dois primeiros álbuns lançados em glorioso vinil pela gravadora norteamericana Hydrophonic Records e em CD pela Baratos Afins, de São Paulo. Foi bom, mas meio desleixado – dá pra notar que eles já não estão mais muito a fim de tocar aquele material.

O bicho pega pra valer quando Pedrinho empunha a guitarra e começa a debulhar as novas composições, absolutamente sensacionais! A pegada é outra, mais ágil, menos “doom” e arrastada, mas ainda exalando um delicioso cheiro de mofo oriundo dos confins do que de melhor foi feito no rock “brazuca” das décadas de 1960 e 70 por nomes como Mutantes, O Peso, Módulo 1000 e O Som Nosso de Cada dia. Opção estética “retrô” vitaminada por uma energia contagiante, coroada pelo imenso talento do trio – Lillian segue destruindo nas 4 cordas enquanto divide os vocais com Pedrinho e ambos são conduzidos pela percussão poderosa de Thiago Allef. Sério: eu sinto até pena de quem ainda não os viu ao vivo, nesta nova fase. É impressionante – e difícil de descrever ...

Ficou difícil também pra Catarina Dee Jah segurar a onda, mas ela não se fez de rogada e, metida num figurino “colante” e estiloso, mandou ver numa outra “vibe”, bem mais dançante e flertando com ritmos populares. Aos poucos, foi conquistando os que sobreviveram ao massacre sonoro das bandas de abertura, com a ajuda de sua competente banda, os ”Radicais Livres”, que ela mesma informou nunca ter visto tocar com tanto “punch”. Encerrou com um inusitado “pout-pourri” de músicas dos Garotos Podres recriadas no seu estilo “guerrilheira cultural”, sem medo de ser feliz.

“Eu tento, mas Aracaju não facilita”, foi a resposta de Adolfo à minha admiração pelo capricho da produção – em parceria com a “Então Pronto”. Por isso mesmo é preciso louvar quem, como ele, não se deixa abater pelas dificuldades e corre atrás dos seus sonhos. Na raça, com a cara e a coragem.

“Viva La Brasa”, o livro, é uma coletânea de textos publicados originalmente no blog de mesmo nome, na revista Cumbuca e no Cabrunco, um fanzine da década de 1990. A edição é caprichada, em papel de qualidade e com uma diagramação que, de tão boa, pode ser considerada, por si só, uma obra de arte – de Gabi Ettinger, também responsável pela capa e pelo projeto gráfico. Fala de tudo, ou do que der na telha do autor: do surf, uma de suas paixões, ao rock, passando por acidentes de moto, mordidas de cachorro – “caiu da moto?” -, terrorismo editorial “Tarja preta”, sua amizade com Allan Sieber - com quem já dividiu um muquifo na cidade “maravilhosa”; Bezerra da Silva, Joacy jamys, Pitty (“porra, Adolfo, “menina dos olhos do rock baiano”?”); fanzines, B-Negão, Planet Hemp e Marcelo D-2, Mundo Livre S/A e Zenilton (“Eu quero mais é morrer de AIDS e emaconhado, comendo essas menininhas novas”); Luiz Eduardo; Lauro; as conturbadas passagens do Ratos de Porão por Aracaju; Mônica Mattos – “produto nacional tipo exportação”; Grande Hotel – “Nostalgia turva e futurismo estridente”; Nação Zumbi “na hora da zona morta”; puteiros e putarias do centro da cidade; Jaguar; Merda, Leptospirose e ossos quebrados e Joana Côrtes ...

E Mudhoney no Pelourinho, Plástico Lunar no Abril pro rock, Eddie na Sessão Notívagos; Lacertae; Fúria – CARALHO!; SHA-LA-LA (Snooze); Thiago Neumman “Cachorrão”; Jamson Madureira; Rick Griffin; Ellen Roche & The Black Keys; Reação reggae roots; Música Popular Brasileira, Adelvan Barbosa (eu!) e o programa de rock; Condomínio Jardim Imperial (Ofício no. 02/2000, 04 de janeiro); Michael Menezes e os Ramones; Flavio Flock; Marcos “Meleka” e o Plano B da Lapa; Marcha da maconha; Scarlett Johansson nua; punk indonésio; Cabaret dos Insensatos; Marcha das Vadias; “Buceta Treta”(Pussy Riot); Leptospirose no Clandestino; The Baggios na estrada; Adilson Lima e os quadrinhos sergipanos; a Avenida Oceânica da Barra dos Coqueiros; passagens de sua vida pessoal, como o emocionante texto em que conta sua relação com o irmão, falecido, e as peças plásticas com formato de cruz que assustam os donos das motos CG 150 Titan.

Há também muitas – e boas – Histórias em quadrinhos – algumas delas escritas e desenhadas por ele mesmo! – e muitas – algumas muito boas – entrevistas: com Schiavon – o cartunista, não o o tecladista do RPM -; Binho Nunes, o “corvo surfista”; com a Gangrena Gasosa (por Marcio Sno); Stephan Figueiredo – outro surfista; Adão Iturrusgarai, Daniela Rodrigues, Gabriel Thomaz, Júlio Adler – mais um surfista; Eduk, do DeFalla – a mais insana, claro; Leonardo Panço, Julico da The Baggios, Silvio da Karne Krua (e da Máquina Blues, Logorréia, Casca Grossa, Cruz da Donzela, Words Guerrilla e ETC), Pablo Carranza e Catarina Dee Jah – “Conhece Aracaju?” “Ainda não. É uma pena que seja tão difícil tocar nos estados vizinhos com estrutura profissional e equipe. Mas a noite é curta e a vara é longa. Se você me perguntar se aquela pirralha que atravessava as pontes do Recife sozinha para ver Chico e sua gangue tocando imaginava aonde a música a levaria, eu digo com certeza que ela não fazia idéia. Viva a música feita de coração e fúria!”

“Viva La Brasa”, o livro, pode ser encontrado por aí, nas melhores lojas e banquinhas de material alternativo de shows underground. Nas piores também, talvez, mas só quando Adolfo resolver queimar o estoque. Em Itabaiana na TNT, no fundo do Murilo Braga. Em Aracaju na Freedom – Rua Santa Luzia, 151 – centro, próximo à Catedral.

Ou em http://vivalabrasa.com/

A.

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TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

Patricia Piccinini "Com Ciência"
O melhor filme do ano passado foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas o favorito para levar o oscar era “O Regresso”. Ganhou “Spotlight”, que joga luz sobre os casos de pedofilia envolvendo padres católicos. Menos mal: nem um, nem outro. Fez-se a justiça de Salomão. /////////////// Em todo caso, Mad Max sagrou-se como o grande vencedor em números absolutos, com a conquista de seis estatuetas, em sua maioria nos quesitos técnicos, como som e montagem. Justíssimo! Só acho que deveria ter levado também, pelo menos, o prêmio de direção: George Miller, aos 71 anos, deu uma verdadeira aula. Seu filme é cinema de ação como há muito tempo não se via – nunca mais tinha tido aquela curiosa sensação de satisfação e desconforto por perceber que a projeção estava chegando ao fim. Queria mais! Tomara que tenha continuação.

Fury road
“O Regresso” mereceu muito o prêmio pela fotografia, realmente primorosa. E só. O filme é bom, tem um bom ritmo, mas convenhamos: é “clicheroso” e, em termos de roteiro, praticamente se resume a mostrar DiCaprio correndo, arfando, sendo atacado e fugindo por duas horas e cacetada. Se bem que o ataque do urso é realmente um espetáculo, daquelas cenas que ficarão marcadas nas retinas dos olhos de quem viu no cinema, em tela grande - como deve ser – para sempre. /////////// O que não quer dizer que eu ache que a academia tenha sido injusta ao dar o oscar de melhor atuação para Leo, só acho que demorou. Ele devia ter recebido por “O Lobo de Wall Street”. /////// Foi muito bom também ver a belíssima animação brasileira “O Menino e o mundo” no páreo. Uma grande vitória. Ganhar, mesmo, era uma missão praticamente impossível, já que “Divertida Mente” é uma obra-prima. Mais uma, da Pixar. Que andava patinando. Tomara que tenha voltado aos trilhos.

O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...

Renegades of punk "na brasa", por David Doria
Ainda há público para shows de rock em Aracaju? Fecharam dois espaços que abriam para o estilo, a Caverna e a Casa Rua da Cultura. Sábado passado apenas alguns gatos pingados foram ao Rancho da Aruana ver a segunda festa Viva La Brasa, enquanto um samba no CHE tava lotado, com tanta gente que a rua em frente ficou praticamente interditada. Nada contra o samba, evidentemente. Só acho uma pena que uma banda como a Necro tenha tido tão pouco público nas duas últimas vezes que vieram tocar por aqui. Em todo caso, o rock segue em frente, porque é teimoso: ontem, dia 11/03/2016, rolou o lançamento do novo disco da excelente Penny Mocks. Próxima sexta tem Punk rock e Hard Core na pista de skate Cara de Sapo, com os paulistas da Mar Morto, os pernambucanos da Johnny 13 e os sergipanos Ideal e The Renegades of punk. Amanhã, dia 13, tem o SOS UNDERGROUND 2 no Conj. Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, com Rasga Mortalha, Mophinum, Anhan e outra que não consegui ler o nome no cartaz. Já dia 20/03, em São Cristóvão – terra da The Baggios, que acabou de tocar no Lollapalooza, em sp – rola Executor, Casca Grossa, Suicídio Coletivo, Pôdi pa caraio, Toxofobia e Enterrados de Forma Banal. Por fim, dia 16/04 tem UNDEGROUND ATTACK no parque dos cajueiros, com Cruz da Donzela, Executor, Serial, Eyeless e Mentes suicidas.

Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.

Shine on, you crazy diamond
A passagem dos anos de 2015 para 2016 vai ficar na história do rock and roll - de forma negativa, infelizmente. O baixo astral por aqui, nas terras do Cacique, começou com a notícia do falecimento de Levi Marques, que desistiu da vida no fim do ano passado e deixou sem chão uma legião de amigos. Era um jovem talentoso, cantor e compositor, “performer” de primeira. E, acima de tudo, um cara “do bem”. Faz muita falta e nunca será esquecido. O mal-estar prossegue com a passagem “desta para melhor” (???!!!) de Flavio Basso, o eterno Júpiter Maçã, astro do rock underground tupiniquim que fez história em carreira solo e com a seminal banda gaúcha Os Cascavelletes e parecia ter chegado ao auge com o falecimento de Lemmy, do Motorhed, quando nos chega a notícia, nos primeiros dias do mês de janeiro do ano corrente, de que David Bowie não era, afinal, um ser imortal! Pelo menos não no plano físico, biológico. Já era difícil imaginar um mundo sem Lemmy. Sem David Bowie, é tarefa quase impossível. Seguimos vivendo, claro, mas não é mais a mesma coisa. Não mesmo.

Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.

* publicado originalmente no jornal Folha da Praia

A.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Uma Nova Esperança ...

Que estranho fenômeno político leva Bernie Sanders a reunir multidões e avançar nas pesquisas, resgatando heróis revolucionários e defendendo ideias opostas às do establishment

Por Bhaskar Sunkara, em Jacobin | Tradução: Vinícius Gomes Melo

“Eu não sou um soldado do capitalismo. Eu sou um revolucionário proletário… Eu sou contra todas as guerras, exceto uma”. Foi o que disse o senador Bernie Sanders, em 1979, ao citar, para uma coletânea da Folkways Records, o discurso do famoso candidato presidencial pelo Partido Socialista norte-americano Eugene V. Debs.

A linguagem estava deslocada, em um país prestes a viver a era Reagan, onde até mesmo as mais modestas conquistas do Estado de bem estar social norte-americano estariam sob ameaça. Ainda assim, dois anos depois, Sanders tornou-se o prefeito da maior cidade do estado de Vermont. O Vermont Vanguard Press celebrou a “República Popular de Burlington” com uma edição especial. Sanders pendurou um quadro de Debs em seu novo escritório. O quadro hoje está na parede do seu escritório no Capitólio, o Legislativo dos EUA.

Tecnicamente, Sanders é um independente que disputa as convenções partidárias junto ao Partido Democrata. E sua própria variedade de socialismo é mais semelhante à do ex-primeiro-ministro sueco Olof Palme, também um social democrata, do que à de Debs, um simpatizante dos bolcheviques. Sanders gosta de comparar o sucesso dos países escandinavos, com seus Estados de bem estar social, com a desigualdade no interior da sociedade norte-americana, destacando a miséria infantil e falta a assistência médica acessível nos EUA. Suas soluções – cobrança progressiva de impostos e serviços públicos robustos – não estão muito distantes daquelas que seus colegas mais à esquerda no Senado, como a senadora Elizabeth Warren – propõem.

Para Sanders, o manto de socialista é acima de tudo um aceno à rica história norte-americana de radicais e reformadores, aqueles que foram amplamente apagados pelo da história do progresso nacional pelo conservadorismo doméstico, assim como pela Guerra Fria no exterior. O próprio padrão de Sanders em suas votações, alinha-se muito com os progressistas no Partido Democrata. Como Howard Dean afirmou em Meet the Press, em 2005, “ele é basicamente um democrata liberal… A verdade é que Bernie Sanders vota 98% das vezes com os democratas”.

A base democrata concorda. Por anos, eles evitaram que o partido colocasse candidatos para concorrer contra ele em Vermont – mais um sinal de que o rótulo de socialista já não evoca imagens de filas para o pão e gulags.

Sanders não oferece aquela visão emancipatória, ou com princípios políticos anti-imperialistas, que devemos reivindicar da esquerda, mas sua defesa incondicional do Estado de bem estar social contrasta fortemente com as políticas, favoráveis às corporações, de sua concorrente Hillary Clinton. E como Elizabeth Warren provavelmente não concorrerá em 2016, apenas Sanders pode empurrar as primárias para a esquerda, obrigando Hillary a assumir uma série de compromissos audaciosos para apaziguar (e depois afastar, quando eles não forem cumpridos) uma descontente base progressista.

Ao contrário da maior parte da Europa, os Estados Unidos nunca tiveram um forte partido trabalhista que disputasse o poder e construísse um generoso Estado de bem estar social. Porém, durante boa parte do século passado, muitos no Partido Democrata foram capazes de construir alguns fragmentos disso, dentro de certos limites.

Os movimentos que exerceram esse papel – sindicatos, organizações de direitos civis e grupos comunitários – ainda estão por aí. Mas por não terem controle estrutural algum sobre um partido que, fundamentalmente, representa os interesses do capital, são facilmente colocados de lado. À medida em que a distância entre eles e as políticas perseguidas por líderes do partido, como Barack Obama, torna-se mais evidente, não surpreende que comecem a erguer suas vozes.

Hillary Clinton está profundamente enraizada na tradição Novos Democratas, e teve um papel na criação das políticas que se tornaram o senso comum dentro do partido. Os Novos Democratas juntaram-se sob o auspícios do já falecido Conselho da Liderança Democrática (DLC, sigla em inglês), no final dos anos 1980. Quando o “tribute-e-gaste” tornou-se eleitoralmente inviável, os democratas supostamente deveriam promover um governo cada vez mais reduzido e menos atuante (ainda que brincassem com uma política social progressista, nas margens)

É inegável o papel dos Clintons na transformação do Partido Democrata em plano nacional, ao longo dos anos 1990 (no processo, obtiveram recompensas eleitorais de curto prazo). Afinal de contas, foi o presidente Bill Clinton – e não Ronald Reagan – que equilibrou o orçamento e colocou um fim ao “bem estar social como o conhecemos”. E foi Hillary Clinton, então primeira-dama, que apoiou de maneira forte as mudanças promovidas pelo DLC, como a emenda de reforma no Estado de bem-estar social de 1996. O presidente Obama, apesar de suas promessas de mudanças na batalha das primárias em 2008 contra Hillary, não se desviou da agenda de interesses do DLC. Os liberais mais tradicionais opuseram-se às políticas dos Novos Democratas, à falta de ação de Hillary quanto às mudanças climáticas e à agressiva política externa que incluiu o apoio à invasão do Iraque.

Nos últimos anos, a maré política continuou a se mover contra os Clintons, especialmente quando começou a crise financeira de 2008. À direita, o movimento Tea Party, politicamente engajado e ativo, ganhou a maior parte das manchetes. Porém, o movimento Occupy, as insurgências trabalhistas como a greve do Sindicato dos Professores de Chicago, as ações dos trabalhadores de fast-food, os protestos contra a violência policial e a maior atenção dada a desigualdade de renda – tudo isso aponta para a incipiente reemergência da esquerda nos EUA.

Eleitoralmente, um mix eclético de personalidades lutou para preencher os espaços que as ações populares abriram – desde o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, até populistas no Senado como Elisabeth Warren. Mas exceto Sanders, nenhuma dessas figuras está preparada para disputar em 2016.

Sanders descreveu sua possível candidatura como uma tentativa de construir organização e pressão a partir da esquerda: “Se eu concorrer, meu trabalho será ajudar reunir gente para um tipo de coalizão capaz de vencer e transformar a política”. Isso seria a mais profunda tentativa de fazer algo do tipo entre o Partido Democrata desde a eletrizantes campanhas de Jesse Jackson na década de 1980.

Sanders pode apenas sonhar em reunir as forças políticas que Jackson conseguiu, e as razões para que os liberais mais convencionais queiram que Hillary vença as primárias são fáceis de entender. Na esfera nacional, ela é figura mais conhecida e popular na corrida do Partido Democrata; e pode sustentar a popularidade do partido entre as mulheres. Ela é dura de ser batida, e uma grande vitória em 2016 pode pavimentar o caminho para um Congresso de maioria democrata.

Mas as pesquisas indicam que, assim como o Partido Republicano despenca para a direita, o eleitorado que se declara democrata está tendendo de maneira coerente e uniforme para posições progressistas. No núcleo de uma potencial base para a campanha de Sanders, está a divisão cada vez maior entre a liderança centrista do partido e os eleitores que ainda mantêm a visão dos democratas como o partido do New Deal e da Grande Sociedade1.

Talvez como resposta ao renovado fervor na direita, mais democratas afirmam ser a favor de um governo ativo, capaz de regular as corporações e garantir serviços sociais. Esse grupo de liberais enxerga os poucos êxitos de Obama – a reforma na assistência médica, por exemplo – como insuficientes, considerando as concessões oferecidas por seu governo às corporações. A ausência de uma organização como um Tea Party, para articular politicamente esses sentimentos, abre espaço para que Sanders consolide os progressistas em um bloco eleitoral coerente.

Enquanto isso, como o site Politico reportou, Hillary é vista, por alguns grandes doadores liberais, como alguém muito centrista para merecer apoio. Até mesmo aqueles que não compartilham das políticas social-democratas de Sanders querem que ela seja desafiada pela esquerda e veem o candidato como uma potencial alavanca para tirar o Partido Democrata da posição de centro-direita.

É mais provável que seja Sanders quem altere o tom e o conteúdo do debate, do que alguém como Dennis Kucinich, o congressita de Ohio que atuou com a voz progressista solitária nas recentes primárias presidenciais, mas jamais conseguiu conquistar um apoio maciço. Sanders é levado a sério pelos eleitores. Ele tem a credibilidade, e a bagagem, de alguém que é um senador, e é uma voz poderosa na defesa da redistribuição de riqueza.

Em uma era de estagnação econômica, as frustrações que outrora foram caladas podem ferver, em descontentamento aberto. Há um número suficiente de pessoas à esquerda, da coalizão democrata, para dar dor de cabeça à campanha de Hillary. Seus planos de se descolar para o centro, para turbinar o mais rápido as perspectivas para as eleições gerais, saíram sem dúvidas dos trilhos, por conta do crescimento de Sanders.

Não será, é claro, suficiente para vencer desta vez; mas, se vista como uma oportunidade para a construção de um movimento, a candidatura de Sanders pode fortalecer a esquerda no longo prazo. As tensões entre os democratas são sérias e podem aumentar a possibilidade para o realinhamento das forças progressistas em bases totalmente diferentes.

Este é um projeto diferente das tentativas de Michael Harrington (e outros) para conveter os democratas em um partido social-democrata mais tradicional, ao forçá-lo para a esquerda. Nosso objetivo deve transcender por completo o partido.

Está longe de ser um plano à prova de falhas, mas nesse momento a melhor aposta para a esquerda na arena eleitoral é apoiar tanto as campanhas políticas eleitorais independentes, e as candidaturas primárias de socialistas insurgentes, como as de outros radicais. Ter Sanders defendendo abertamente o socialismo, e contestando o histórico dos Novos Democratas perante uma audiência nacional é um pequeno passo na direção certa.

Certamente há perigos em uma candidatura presidencial de Sanders. Em ocasiões anteriores, tentativas de fortalecer movimentos sociais através de “alguém de fora” nas primárias – como as campanhas de Jesse Jackson – acabam em becos sem saída. Levaram, possivelmente, ao enfraquecimento dos esforços políticos independentes.

Mas a candidatura de Sanders não precisa ser apenas uma convergência das forças de esquerda contra uma nomeação quase certa de Hillary. Ao invés disso, pode ser um caminho para que os socialistas reagrupem-se, organizem-se e articularem o tipo de política que se comunique com as necessidades e aspirações da ampla maioria das pessoas. E poderia começar a legitimar a palavra “socialista”, servindo como estopim para deflagrar conversas a respeito – mesmo que o socialismo de bem estar social de Sanders não vá tão longe.

Uma vibrante campanha de Sanders seria um sinal de que as perspectivas sombrias quanto ao emprego, e a pressão cada vez maior sobre os trabalhadores norte-americanos, estão criando um espaço político para a mudança. Há grande razão para acreditar que, se ele falhar, que vozes radicais poderão tomar seu lugar, levando de volta, ao palco principal da política, a memória de Eugene Debs.

1 Great Society, conjunto de políticas sociais lançadas pelo presidente Lyndon Johnson (democrata, 1964-65) com objetivo de combater a pobreza e a desigualdade social. Veja mais na Wikipedia.



Para a esquerda norte-americana, esta parece ser a melhor e a pior das épocas. Nunca antes, na história do país, um socialista declarado como o senador Bernie Sanders teve autênticas possibilidades de ser o candidato presidencial de um dos grandes partidos. Um século atrás, o Partido Socialista da América tinha mais de 100.000 membros e grande influência no movimento operário. Mas ninguém com as ideias de Sanders jamais apresentou uma candidatura com o potencial de chegar à Casa Branca.

Os jovens, especialmente, estão seguindo o senador de 74 anos de Vermont (embora nascido no Brooklyn, Nova York) que ataca os “milionários de Wall Street” com um tom cru e sincero. Também aplaudem suas promessas se for eleito: fazer com que universidade seja gratuita, criar um sistema de saúde financiado pelo Estado que chegue a todos os cidadãos e eliminar a influência do dinheiro na política. Desde a grande recessão de 2008-2009, as desigualdades econômicas são uma questão central para os eleitores democratas, e as denúncias de Sanders são mais apaixonadas e críveis que as de Hillary Clinton, que recebeu milhões de dólares como conferencista no mundo empresarial, e até poucos meses, tinha praticamente garantida as primárias democratas.

Agora, a crescente popularidade de Sanders é também reflexo da profunda decepção da esquerda depois do mandato de Barack Obama. Quando tomou posse o primeiro presidente negro em 2009, tanto liberais quanto radicais esperavam – e, em muitos casos, previam – que ele ia lançar uma onda de reformas similares ao New Deal de Franklin D. Roosevelt nos anos trinta e à Grande Sociedade de Lyndon B. Johnson, em meados dos anos sessenta.

Mas a reforma de saúde, a conquista legislativa mais importante de Obama, não conseguiu o apoio da maioria da população. E desde que os republicanos ganharam o controle da Câmara dos Deputados em 2010, o presidente teve que recorrer aos decretos – que têm alcance limitado e podem ser revogados nos tribunais – para conseguir muitos dos seus objetivos.

Enquanto isso, os republicanos tomaram o poder na maioria dos estados, em parte por assustarem os cidadãos brancos de renda modesta com a ideia de que o presidente vai tirar suas armas e anistiar os imigrantes ilegais. A ausência quase total de sindicatos no setor privado deixou os trabalhadores brancos de esquerda sem uma instituição que possa mobilizá-los para lutar por seus interesses.

Obama chegou à Casa Branca prometendo “restaurar a confiança vital entre o povo e seu governo” e sublinhando que “o país não pode prosperar por muito tempo se apenas favorece os prósperos”. No entanto, dentro de um ano ele vai voltar à vida privada com a tristeza de que a maioria dos norte-americanos, de todas as ideologias e que não estão de acordo em nada mais, acredita que não se pode confiar no Governo para satisfazer suas necessidades.

Ainda assim, os norte-americanos de esquerda tiveram algumas vitórias significativas com ajuda de Obama, e deveriam comemorar. O casamento gay já é lei, quando há menos de 10 anos foi proibido em todos os estados. Os fundos de investimento estão sujeitos, agora, a normas destinadas a tentar evitar que possam levar de novo o sistema financeiro ao caos. No ano passado, os EUA encabeçaram as negociações em Paris que possibilitaram um acordo promissor para combater a mudança climática.

A frustração com o ritmo lento das reformas ajudou a inspirar novos movimentos sociais de esquerda, de BlackLivesMatter a campanhas estudantis para que as universidades se dissociem de empresas que produzem combustíveis fósseis. Os funcionários do McDonalds e outras redes de fast food que fizeram greves de um dia por um salário mínimo de 15 dólares por hora (o dobro do atual) mostraram que se os trabalhadores quiserem, podem conseguir melhorias, mesmo quando os sindicatos são, na maior parte, fracos. Enquanto as Câmaras de Deputados dos estados controlados pelos republicanos aprovaram leis que restringem o aborto, em todo o país as mulheres universitárias carregam em suas mochilas e laptops adesivos que dizem “É claro que sou feminista”.

Esses exemplos indicam que a cultura norte-americana está se inclinando mais para ideias nascidas na esquerda que as defendidas pelos conservadores. Este não é um fenômeno novo. Sempre houve esquerdistas de várias tendências que exigiram que os direitos individuais e as oportunidades fossem promessas que todos pudessem alcançar, independentemente de sua raça, seu sexo ou qualquer outro traço de identificação. Foi o esforço para tornar realidade esse objetivo que impulsionou os movimentos para abolir a escravidão, para obter o voto para as mulheres e os direitos civis e de voto para os afro-americanos, e o direito de casamento e adoção para os homossexuais. E são eles que também defenderam a ideia progressista de que homens e mulheres devem ser livres para buscar a felicidade, independentemente das hierarquias e dos preconceitos herdados.

Mas sempre foi mais difícil construir o tipo de sociedade que quer Bernie Sanders, levar os Estados Unidos do culto à liberdade individual para um lugar no qual os cidadãos possam adotar o evangelho da solidariedade proposto pelos partidos da social-democracia da Europa, tão poderosos no passado. Que milhões de norte-americanos agora aplaudam a tentativa de Sanders de imitar essas organizações talvez seja o elemento mais chamativo em uma eleição que tem desafiado as previsões dos especialistas bem pagos do país.

por Michael Kazin

"Meus caros amigos,

Quando eu era criança, eles disseram que não havia nenhuma maneira deste nosso país de maioria protestante eleger um católico como presidente. Em seguida, John Fitzgerald Kennedy foi eleito presidente.

Na década seguinte, disseram que a América não elegeria um presidente do "Sul profundo"(¹). O último a conseguir isso por si mesmo (e não como vice-presidente) foi Zachary Taylor em 1849. E então nós elegemos Jimmy Carter presidente.

Em 1980, eles disseram que os eleitores nunca escolheriam um presidente divorciado que casou novamente. O país tinha modos muito religiosos para isso, disseram. Bem-vindo, presidente Ronald Reagan, 1981-1989.

Eles diziam que você não poderia ser eleito presidente se não tivesse servido nas Forças Armadas. Ninguém conseguia se lembrar de alguém que não servira eleito Comandante-em-chefe. Ou quem tinha confessado fumar (mas não tragar!) drogas ilegais. Presidente Bill Clinton, 1993-2001.

E, por fim, "eles" disseram que não havia maneira de os democratas ganharem se um homem negro fosse o indicado para a Presidência – e um homem negro cujo nome do meio era Hussein! Os Estados Unidos da América seriam ainda muito racistas pra isso. "Não faça isso!", pessoas se advertiam discretamente entre si.

Boom!

Você já se perguntou por que os especialistas, a classe política, sempre afirmam que o povo americano "simplesmente não está preparado" para alguma coisa – e eles estão sempre tão errados? Dizem o que dizem para proteger o status quo. Eles não querem distúrbios.

Tentam assustar as pessoas comuns para que elas votem contra o seu melhor julgamento.

Agora, neste ano, "eles" estão alegando que não há como um "socialista democrático" ser eleito presidente Estados Unidos. Essa é a principal afirmação que chega agora da campanha de Hillary Clinton.

Mas todas as pesquisas mostram Bernie Sanders realmente batendo Donald Trump por duas vezes mais votos do que se Hillary Clinton fosse a candidata.

Embora as pesquisas mostrem nacionalmente Hillary batendo Bernie entre os democratas, quando o pesquisador inclui todos os independentes, então Sanders bate Trump com vantagem de 2 por 1 sobre o resultado de Hillary.

A forma como a campanha de Clinton tem atacado Sanders de "socialista" é lamentável – e surda. De acordo com a NBC, 43% dos democratas de Iowa identificam-se mais estreitamente com o socialismo (partilha, ajuda) do que com o capitalismo (ganância, desigualdade). A maioria das pesquisas apontam que os jovens adultos (18-35) em toda a América preferem o socialismo (justiça social) ao capitalismo (egoísmo).

Então, o que é o socialismo democrático? É ter uma verdadeira democracia onde todo mundo tem um lugar à mesa, onde todos têm voz, não apenas os ricos.

O dicionário Merriam-Webster anunciou recentemente que a palavra mais buscada em sua versão on-line em 2015 foi "socialismo". Se você tiver menos de 49 anos (o maior bloco de eleitores), os dias da Guerra Fria & Commie Pinkos(²) & a Ameaça Vermelha parecem tão estúpidos como o filme "Reefer Madness".(³)

Se o maior argumento de Hillary a respeito de porque você deve votar nela é "Bernie é um socialista!" ou "Um socialista não pode vencer!", então ela está perdida.

O New York Times, que admitiu ter criado histórias de armas de destruição em massa no Iraque e nos empurrou para invadir aquele país, já adotou Hillary Clinton – a candidata que votou a favor da Guerra do Iraque. Eu pensei que o Times tinha pedido desculpas e se reformado. O que está havendo?

Bem, o Times gosta que seus candidatos sejam realistas e pragmáticos. E para eles, isso significa Hillary Clinton. Ela não quer acabar com os bancos, não quer trazer de volta a lei Glass-Steagall(4), não quer aumentar o salário mínimo para US$ 15 por hora, não quer o sistema de saúde gratuito como o da Dinamarca. Que é apenas não realista, acho eu.

Claro, houve um tempo em que a mídia dizia que não era "realista" aprovar uma emenda constitucional dando às mulheres o direito de votar. Eles disseram que nunca passaria porque só legisladores homens votariam na emenda no Congresso e nas legislaturas estaduais. Isso, obviamente, significava que nunca passaria. Eles estavam errados.

Disseram uma vez que não era "realista" aprovar uma Lei de Direitos Civis e uma Lei do Direito ao Voto uma depois da outra. A América simplesmente não estava "pronta para isso". Ambas passaram, em 1964 e 1965.

Há dez anos fomos informados que o casamento gay nunca seria lei do país. Que coisa boa que não demos ouvidos àqueles que nos diziam para sermos "pragmáticos".

Hillary diz que os planos de Bernie apenas não são "realistas" ou "pragmáticos". Esta semana, ela afirmou que "um sistema público de saúde nunca, jamais, vai acontecer".(5) Nunca? Jamais? Uau. Por que não desistir assim?
Hillary também diz que não é prático oferecer universidade gratuita para todos. Você não pode ficar mais prático do que os alemães – e eles são capazes de fazê-lo. Assim como muitos outros países.

Clinton encontrará maneiras de pagar pela guerra e por benefícios fiscais para os ricos. Hillary Clinton foi a favor da guerra no Iraque, foi contra o casamento gay, a favor do Patriot Act(6), a favor do Nafta , e quer colocar Ed Snowden na prisão. Isso é o bastante para embrulhar sua cabeça, especialmente quando você tem Bernie Sanders como uma alternativa. Ele será o oposto de tudo isso.
Há muitas coisas boas sobre Hillary. Mas é claro que ela está à direita de Obama e vai nos mover para trás, não para frente. Isso seria triste. Muito triste.

Oitenta e um por cento do eleitorado é feminino, de cor ou jovem (18-35). E os republicanos perderam a vasta maioria de 81% do país. Quem quer que seja o democrata na disputa em novembro próximo vai ganhar. Ninguém deve votar por medo. Você deve votar em quem você acha que melhor representa o que você acredita.

Eles querem assustá-lo com a ideia de que vamos perder com Sanders. Os fatos, as pesquisas, gritam exatamente o oposto: nós temos uma chance melhor com Bernie!

Trump é alto e assustador – e os liberais se assustam fácil. Mas liberais também gostam de fatos. Aqui está um: menos de 19% dos EUA são caras brancos acima de 35 anos. Então acalme-se!

Finalmente, confira este gráfico – ele diz tudo. (Nota: Hillary agora mudou sua posição e é contra TPP – Trans-Pacific Partnership.)

Eu apoiei pela primeira vez Bernie Sanders a um cargo público em 1990, quando ele, como prefeito de Burlington, me pediu para ir até um comício na sua corrida eleitoral para se tornar congressista de Vermont. Eu acho que muitos não estavam dispostos a discursar por um declarado socialista democrático naquele momento.

Provavelmente alguém de seu escritório de campanha cheio de hippies disse: "Eu aposto que Michael Moore vai topar". Eles estavam certos. Fiz o meu melhor para explicar por que precisávamos Bernie Sanders no Congresso dos EUA. Ele ganhou e eu tenho sido um defensor seu desde então – e ele nunca me deu razão para não continuar com esse apoio. Sinceramente, pensei que nunca escreveria começando com as palavras: "Por favor, vote no senador Bernie Sanders para ser o nosso próximo Presidente dos Estados Unidos da América".

Eu não pediria isso para vocês se não achasse que nós real e verdadeiramente precisamos dele. E nós precisamos. Talvez mais do que imaginamos.

Atenciosamente,

Michael Moore

Tradução: Henri Figueiredo no blog Tempus Fugit

Notas do tradutor

1) Deep South. Extremo Sul ou Sul Profundo.

2) Pinko é uma gíria cunhada em 1925 nos Estados Unidos para descrever uma pessoa considerada simpatizante do comunismo, embora não necessariamente um membro do Partido Comunista. Tem conotação pejorativa e serve para descrever qualquer um percebido como esquerdista ou socialista.

3) "Reefer Madness", também conhecido como "Tell Your Children", é um filme-propaganda de 1936 feito para exibição nas escolas contra o uso da maconha e relacionando-a com loucura e violência. Foi dirigido por Louis J. Gasnier.

4) A lei Glass-Steagall, ou ato Glass Steagall de 1933, estabeleceu a Federal Deposit Insurance Corporation, ou agência garantidora de créditos. A lei foi promulgada pela administração de Franklin D. Roosevelt para, basicamente, evitar um colapso financeiro sistêmico (como aquele ocorrido em 1929) e foi fundamental para o New Deal. Em novembro de 1999 foi revogada devido ao lobby do setor financeiro junto ao Congresso dos EUA. O documentário vencedor do Oscar "Inside Job" mostra como a derrubada da lei Glass-Steagall ajudou na grande crise do sistema em 2008. O cancelamento da Glass-Stegall removeu a separação que antes existia entre os bancos comerciais e os de inversão (que, fundamentalmente, especulam com ativos mobiliários de natureza não-exigível).

5) A frase original é "(…) single payer health care will NEVER, EVER, happen." – O pagamento único de saúde (Single payer healthcare) é um sistema em que o governo, ao invés de as seguradoras privadas, paga por todos os custos de saúde. Sistemas de pagamento único podem contratar os serviços de saúde de organizações privadas (como é o caso no Canadá) ou podem ter e empregar recursos de saúde e pessoal (como é o caso no Reino Unido). O termo "pagador único" descreve apenas o mecanismo de financiamento referente aos cuidados de saúde financiado por um único organismo público a partir de um único fundo.

6) USA PATRIOT Act, a "Lei Patriótica" ou "Ato Patriota" é o decreto assinado por George W. Bush logo depois do 11 de Setembro de 2001, em 26 de outubro de 2001. Permite, entre outras medidas, que órgãos de segurança e de inteligência dos EUA interceptem ligações telefônicas e e-mails de organizações e pessoas supostamente envolvidas com o terrorismo, sem necessidade de qualquer autorização da Justiça, sejam elas estrangeiras ou americanas. Após várias prorrogações durante o governo de George Bush, em 27 de julho de 2011, o presidente Barack Obama sancionou a extensão do USA PATRIOT Act contrariando sua promessa de campanha." 

(A principal fonte da maioria das notas foi a Wikipedia em inglês. Todas passaram por edição e checagem em ao menos uma segunda fonte)

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

BOWIE

Uma semana se passou desde a morte de David Bowie e ainda pesa o vazio causado por uma notícia dessa magnitude anunciada de forma tão retumbante. O dia 11 de janeiro de 2016 transformou-se numa missa global de luto multicolorido, em que milhões de fãs saíram em público para escancarar sua paixão, quase sempre escolhendo fases e faces do inglês que se relacionassem às suas próprias vidas. O compartilhamento compulsivo de sentimentos, frases, fotos, vídeos, músicas, letras, links e gifs animados nas redes sociais foi apenas a materialização de uma tristeza planetária, que transformou a segunda-feira em uma estranha celebração. Ela ao mesmo tempo fazia as pessoas desatar em tristeza interminável enquanto celebravam a plenos pulmões a importância de um artista que fez tudo do jeito que quis – até morrer.

A morte de um artista famoso, influente ou querido (Bowie era os três) inevitavelmente faz multidões de fãs e admiradores lamentar em público, provocando ondas de saudade, luto e tristeza que aumentam com a proporção da popularidade e intensidade da produção do falecido. O simples anúncio da morte de David Bowie já seria suficiente para causar abalos emocionais coletivos de proporções geológicas (uma variação ainda maior do que ocorrera semanas antes com o vocalista do Motörhead, Lemmy, ou dias depois com o ator inglês Alan Rickman). Mas ficamos sabendo da morte de David Bowie um fim de semana após o lançamento de seu novo álbum, data marcada para coincidir com seu aniversário de 69 anos.

Blackstar – ou como ele preferia escrever, ★ – surgiu imponente, com longa duração e poucas faixas, indubitavelmente o disco mais ousado de Bowie em décadas – precisamente desde o disco Low, de 1977. O lançamento anterior, o disco The Next Day, lançado em 2013 após um hiato de quase dez anos desaparecido do público -, atualizava o velho Bowie para a segunda década do século 21, com suas belas canções e o alívio por sua reaparição, vinda de súbito anos após o surgimento de boatos que cogitavam que seu desaparecimento estivesse relacionado a um estado de saúde debilitado ou talvez de sua própria morte. O disco de 2013 mostrava que Bowie estava vivo e bem o suficiente para gravar um disco inteiro e clipes, fazendo ambos longe do olho público, anunciando-os sem criar nenhuma expectativa.

★ no entanto é mais do que “o disco que David Bowie lançou no ano ____'', algo que ele vem fazendo desde os anos 80, e ele fez questão de nos avisar disso. Apresentou o disco no início de novembro do ano passado ao mostrar a impressionante faixa-título, um épico de dez minutos (cravados) dividido em duas partes. Na primeira, torta e conflituosa, é ao mesmo tempo jazzy e eletrônica, e cria uma atmosfera tensa com letras enigmáticas. A faixa foi lançada junto com um clipe que vaga entre a ficção científica e o surrealismo, e nesta primeira parte vemos o esqueleto de um astronauta – seu crânio cravejado de pedras preciosas – sendo descoberto e transformado em objeto de culto, enquanto Bowie canta a música vendado, com porcas de parafuso no lugar dos olhos. Na segunda parte, uma balada mais tradicional ao estilo do compositor, Bowie surge de olhos abertos, segurando um livro surrado como uma Bíblia gasta, com a estrela negra em sua capa. “Algo aconteceu no dia em que ele morreu'', começa a cantar na parte mais dramática da canção, em que Bowie nega a quase todo verso ser algo (“não sou uma estrela de filmes'', “não sou uma estrela maravilhosa'' – marvel star, no inglês original -, “não sou uma estrela branca'', “não sou um estrela gangster'' – gangstar, em inglês -, “não sou uma estrela pornô''), para insistir em ser “a star's star'' (“uma estrela das estrelas'', e é fato que ele inspirou milhares de outros artistas) e, principalmente, “uma estrela negra''.

O que Bowie queria dizer com aquilo? Como aquele novo imaginário conversava com sua carreira? Curioso por natureza, David Bowie passou seus anos 70 lendo e flertando com o ocultismo. Será que a ★ do título do disco – o primeiro de sua carreira que não trazia o astro na capa, exibindo apenas a estrela negra sob um fundo branco – teria a ver com a volta àquele período? Os dez minutos de duração da faixa que batiza um álbum também era uma outra referência àquela época, quando introduziu o disco Station to Station, de 1976, com um faixa gigantesca. A estrela negra também era representada no clipe como um sol escuro, uma referência que os povos americanos pré-colombianos associavam ao fim do mundo. O que Bowie queria dizer com aquilo?

Quando o disco foi lançado em seu último aniversário viu-se que aquele tom estava porr todo o disco, entre o experimental e o melódico, repleto de letras cifradas e referências herméticas. O clipe de uma segunda música – “Lazarus'' – surgia no dia do lançamento do disco, na sexta 8 de janeiro, e alimentava ainda mais especulações. Desde o personagem mítico que batiza a canção – a única pessoa, além de Jesus Cristo, a voltar do mundo dos mortos na Bíblia -, até a própria atuação de Bowie num leito de hospital, novamente usando a venda com porcas de parafuso no lugar dos olhos. “Olhe para mim aqui em cima, estou no céu'', cantava, para falar mais adiante que “não tenho mais nada a perder''.

Outra faixa (“Girls Love Me'') foi composta no dialeto Nadsat que Anthony Burgess criou para os marginais que protagonizam seu clássico Laranja Mecânica, e canta “estou aqui na castanheira/ quem é que vai mexer comigo?''. Mas Bowie não se refere a uma árvore – e sim ao Chestnut Tree Coffee em que o protagonista de 1984, de George Orwell (um dos livros favoritos de Bowie, que inspirou diretamente algumas de suas canções), encerra sua participação no livro (leia o livro!). “I Can't Give Everything Away'' encerra o disco sampleando a gaita que Bowie usou em uma faixa do disco Low (“A New Career in a New Town“) e começando a canção falando que “sei que algo está muito errado.''

Todo o simbolismo e o hermetismo que Bowie havia colocado em seu vigésimo quinto álbum foi revelado com a notícia de sua morte na manhã da segunda-feira passada. Soubemos que Bowie já vinha se tratando em relação a um câncer por dezoito meses e que gravou o disco como um testamento para os fãs. Daí a ausência da capa. Eis a estrela negra – a própria morte. Encenada e transformada em arte. O produtor do disco, Tony Visconti, que trabalhava com Bowie desde o início de sua carreira, postou em sua conta no Facebook que “ele sempre fez o que queria fazer. E ele queria fazer da sua forma e queria fazer da melhor forma. Sua morte não foi diferente de sua vida – uma obra de Arte. Ele fez Blackstar para nós, seu presente de despedida. Eu soube por um ano que essa era a forma que deveria ser.''

Consciente de sua própria morte, Bowie a transformou em uma obra de arte. A consciência de sua morte pode ter começado até mesmo no disco anterior, The Next Day, quando retirou apenas seu rosto da capa, mantendo o resto da imagem da capa do disco “Heroes'', de 1977, intacta. Se nos debruçarmos em sua discografia, percebemos que essa consciência é onipresente – afinal, é uma das poucas coisas que realmente sabemos da vida, que dela não sairemos vivos. “Space Oddity'', seu primeiro hit, é sobre a morte de um astronauta no espaço e o primeiro personagem consciente de Bowie – o alienígena Ziggy Stardust – suicida-se no palco transformando sua morte em arte. Nesta mesma época gravou “La Mort'' do belga Jacques Brel como “My Death“, cantando que “não importa o que haja atrás daquela porta, não há muito a fazer / Anjo ou demônio, não me importa / Pois na frente daquela porta / Está você''. Em várias outras passagens de sua coleção de hits há tantas outras referências à morte – acenando que Bowie sabia que queria transformar a sua própria passagem em um grande gesto artístico.

★ não é apenas uma imagem forte, mas também, como descobriu o crítico e escritor Michael Azerrad, é também o nome de uma lesão cancerígena, batizada assim por seu formato. Então é possível até que a morte de Bowie tenha nomeado seu último trabalho, fazendo-o estampar uma versão estilizada de sua causa mortis na capa do disco. E assim, letras e significados ocultos do disco são revelados como um grande adeus. “Eu tenho o drama e isso não pode ser roubado'', canta Bowie em “Lazarus'', falando que a arte é maior do que a vida, antes de despedir-se na mesma canção: “Desta forma ou de nenhuma outra / Sabes que eu estarei livre''.

E não deixa de ser curioso que o Chesnut Tree Cafe que encerra 1984 (citado em “Girls Love Me'') seja batizado a partir da música “Chesnut Tree'', de Glenn Miller, que fala sobre a possibilidade de nos reencontrarmos todos mais uma vez. Mais uma vez, a única certeza que temos nessa vida.

por Alexandre Matias

UOL

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Despertar da Força

Comecei a freqüentar o cinema pra valer no início da década de 1980. Lembro bem de ter visto, na tela do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, Sergipe, onde nasci e “me criei” – morei lá até os 18 anos – clássicos e pequenas pérolas “cult” da época, como “Conan, o Bárbaro”, "Robocop", "Uma Noite Alucinante", “O Exterminador do Futuro”, “Guerreiros do Bronx” (uma espécie de mistura italiana de "Fuga de Nova York" com "Warriors - Os Selvagens da Noite"), "Piranha 2 - Assassinas voadoras", de James Cameron, e “Conquista Sangrenta”, de Paul Verhoeven. Um dia fiquei sabendo que ia passar a continuação do primeiríssimo filme que vi, há muito tempo atrás, mas naquela mesma galáxia e naquele mesmo cinema. Era “O Retorno do Jedi” (me recuso a falar DE). Fiquei animadíssimo, pois tinha ótimas lembranças de “Guerra nas Estrelas” – tinha visto ainda criança, não sabia nem ler, e naquele tempo não existia filme dublado no cinema.

Pois bem: fui ver “O Retorno” e só lá, na sala escura, me dei conta que aquela era, na verdade, a terceira parte! Sério, passei batido pelo “Império Contra-ataca”. Normal, eu era criança e vivia no interior de Sergipe, numa época em que internet não era nem coisa de ficção científica – nunca soube de nenhuma FC que tenha previsto a rede. Desnecessário dizer que fiquei mais perdido que cego em tiroteio. Como assim, Luke é filho de Darth Vader? E que diabos aconteceu com Han Solo? Em todo caso, adorei. O filme reacendeu a chama, e logo voltei a ser um fanático por Star Wars. “O império contra-ataca” vi primeiro em VHS, e depois no cinema, na época da restauração e do relançamento, no final da década seguinte.

Desde o fim da terceira – que na verdade era a sexta – parte ficamos todos na expectativa da seqüência daquela história, que pudemos ver finalmente hoje, 17/12/2015, 32 anos depois. Valeu a pena a espera ...

“O Despertar da Força” é basicamente uma recriação do primeiro filme. A história é praticamente a mesma: jovem que vive uma vida medíocre num planeta desértico da periferia da galáxia é pego(a) de sopetão numa encruzilhada do destino por uma guerra entre rebeldes e forças “oficiais”, se descobre herdeiro(a) de uma tradição mística poderosa e ajuda a derrotar o lado negro da “força”, personificado numa figura sinistra e mascarada em trajes pretos e numa superarma a serviço de uma organização totalitária e fascista.

Isso é ruim? Depende do seu tipo de expectativa. Se é pela volta da saga aos trilhos, depois dos escorregões da trilogia “prequel”, sairá do cinema plenamente satisfeito. É uma espécie de recomeço, que te pega pela emoção ao mesclar com perfeição a apresentação de novos personagens com o retorno de velhos conhecidos. Mais importante: gera muita expectativa pelo que vem por aí ...

Prós e contras: O ritmo do filme é perfeito, com cenas de ação absolutamente fantásticas, mas o roteiro, além de excessivamente derivativo, peca pelo subaproveitamento de pelo menos uma personagem nova, a Capitã dos Stormtroopers Phasma – isso mesmo, uma mulher - e outra "clássica", a Princesa Leia, que fala pouco e muito pouco aparece. Há que se dar também, para uma plena apreciação do conjunto da obra, vários descontos pela forçação de barra de algumas soluções dramáticas, como o fato de que o império, representado aqui por uma falange fascista sucessora, continua bastante carente de engenheiros competentes, já que suas estações armadas supostamente indestrutíveis continuam assustadoramente vulneráveis aos ataques dos rebeldes ...

Adorei o sotaque britânico acentuado da protagonista, aliás muito bem interpretada por Daisy Ridley – excelente atriz. Já o Finn de John Boyega eu achei um tanto quanto exagerado e caricato – mas nada que comprometa irremediavelmente a atuação. BB8, o dróide que emula RD-D2, é perfeito. E Han Solo continua o mesmo – só que BEM mais velho, evidentemente. Ele parece ter se divertido com a possibilidade de voltar ao personagem, apesar dos diálogos sofríveis e das cenas soporíficas com Carrie Fischer. Já a interação com Chewbacca, o parceiro velho de guerra, segue divertidíssima.

O vilão era meu grande temor. A primeira impressão que tive, ao ver as primeiras imagens, foi de uma “recauchutagem” vagabunda do visual do Darth Vader, o que não deixa de ser verdade. Só que a idéia era justamente esta, e é ótima: Kylo Ren é uma versão “vacilante” do grande ícone Sith. O desenvolvimento psicológico do personagem é primoroso, conferindo ao mal uma nova face, para além da dicotomia binária e maniqueísta. Sua fraqueza é, paradoxalmente, o que o torna, realmente, perigoso.

“O Despertar da Força” não é uma obra-prima, mas chega perto! Seus deslizes e imperfeições estão perfeitamente inseridos na tradição da própria saga, que nunca primou por atuações impecáveis ou diálogos rebuscados – é sempre bom lembrar que uma das principais fontes de inspiração de “Guerra nas Estrelas” são as séries cinematográficas de óperas espaciais populares do início do século passado, como Flash Gordon e Buck Rogers, igualmente charmosas, também, por seus exageros. O novo filme cumpre com louvor o que se propõe: nos trazer de volta aos primórdios. Nos fazer sentir mais uma vez, na medida do possível, descontada a passagem inexorável do tempo, como quando vimos e ouvimos pela primeiríssima vez aquela trilha sonora explosiva e aquelas imagens e personagens absolutamente fascinantes.

De Zero a dez, acho que cravo uns 8,5 de nota.

A

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dias Difíceis no Suriname ...

Plástico Lunar é uma banda sergipana, de Aracaju. E é uma das melhores bandas de rock em atividade no Brasil. Ponto.

Digo isso de forma absolutamente lúcida, pensada e repensada, e sem nenhum resquício de “bairrismo”. Pois bem: estabelecida esta verdade irrefutável, de fácil comprovação por qualquer um que se disponha a conhecer a música deles, devo dizer que acabaram de lançar o melhor disco já produzido por aqui. Ponto, de novo.

“Dias difícil no Suriname” teve uma longa gestação: começou a ser gravado em maio de 2012 e só foi finalizado dois anos depois. No processo, a banda perdeu um de seus principais componentes, o guitarrista Julio Andrade, que saiu para se dedicar a seu projeto principal, o duo The Baggios. Como fã, fiquei preocupado, pois era notória, nas apresentações que se seguiram, a dificuldade dos caras em se adaptar à uma nova formação, mais enxuta – normal, não deve ser fácil substituir um guitarrista como Julico. Mas sempre botei fé que iriam se ajustar. Só não sabia se a tempo de não prejudicar o novo álbum em gestação ...

Pois bem: o disco foi lançado há alguns meses, de forma virtual, e foi uma agradável surpresa. É magnífico! Já começa escancarando uma de suas principais influências, na “stoneana” “Todo pecado do mundo”, que abre com um excelente riff de guitarra. Julico toca nela e em mais quatro faixas. Em outras três, o auxílio vem de Rafael Costello, membro fundador, hoje morando em São Paulo. Little Mel, da Máquina Blues, aparece em “Labirinto”, e Fabrício Rossini em “A esperança”.

Foi assim, com uma ajuda providencial de amigos e ex-integrantes pra lá de talentosos, que a Plástico lapidou esta verdadeira obra-prima da música independente local. Que prossegue com uma velha conhecida, já lançada como single, a belíssima “Mar de leite azedo”. “Sentado no Arco-iris”, a terceira faixa, comprova, de certa forma, o talento dos caras, pois é uma composição de dois ícones do rock brazuca, Raul Seixas e Gileno Azevedo (da dupla “jovemguardista” Leno e Lillian), mas parece deles – e não sou só eu que tenho essa impressão: até hoje vejo gente se surpreender ao saber que se trata de um cover.  É, também, uma faixa bônus para quem comprar o disco físico, em CD, já que não havia feito parte do lançamento virtual por conta de imbróglios com a liberação dos direitos autorais.

O disco prossegue com “Cancioneiro”, uma robusta composição de Julico cantada por Marcos Odara, o baterista, que bate um bolão também como vocalista. É uma banda, aliás, que tem bons vocalistas de sobra – além de Daniel e Odara, Plástico Jr. também costuma entoar suas próprias composições.

“Quem diria”, que vem na sequencia, é uma emocionante ode ao aconchego do lar, com uma letra singela que Daniel compôs pensando em sua mãe. Emocionante. Daniel é um  compositor de mão cheia e excelente vocalista. Em parceria com Nara Loupe e Verlane Aragão, é o responsável por sete dos doze petardos que compõem o disco. O lado A – o disco foi pensado como um vinil – se encerra com outra dele – e dela, Nara – “Labirinto”, com uma letra psicodélica e surreal embalada por um ritmo cadenciado. Plástico Jr., baixo e voz, abre o que seria o lado B com a também psicodélica “Amanheceremos”, que tem uma perfomance marcante de Leo Airplane nos teclados. Leo Airplane que é, também, o produtor do disco, é bom que se diga...

“Algo forte” dá prosseguimento à viagem sonora de volta ao rock mais “hard”, com sensacionais riffs e solos de guitarra – quem? Ele, de novo. Julico. Mas a disputa é boa e Rafael Costello dá mais uma vez o ar de sua graça com mais uma levada tipicamente “stoneana” em “Persona non grata”. O solo é absolutamente sensacional, totalmente na tradição do melhor do rock “setentista”.

E então temos a mais pesada, “Quase desisto”, outra excelente composição de Julico, e “Nem aí”, mais uma de Junior – com uma letra totalmente “foda-se”, rock and roll! Encerrando tudo, a belíssima “A esperança”, levada no violão. Sintomático que o disco acabe com uma música com este nome. Temos esperança de que os dias passem a ser mais tranqüilos no Suriname e a banda siga em frente, apesar das dificuldades ...

Por fim, é preciso que se fale com um carinho especial sobre a concepção visual do projeto gráfico, com belíssimas artes conceituais produzidas por Thiago Neumann que valorizam muito o produto final. Salta aos olhos, também, a qualidade do material em que o digipack foi impresso. Impecável! Com direito, inclusive, a impressão na parte interna do envelope onde fica guardado o encarte. Um luxo! Bola dentro total da Rock Company, a gravadora paulistana que bancou o projeto.

“Dias Difíceis no Suriname”, o disco – físico, em CD - foi lançado em grande estilo no dia primeiro de novembro com uma apresentação concorrida no Teatro Atheneu. A gravadora promete para o início do ano que vem uma edição em vinil. Merece muito, tanta pela música, que soa sempre melhor quando ouvida através de uma agulha, quanto pela espetacular arte de “Cachorrão”.

Já tenho o CD, mas vou querer o LP! E se sair em k7, quero também ...

http://plasticolunar.com.br/

A.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

30 Anos de "Psychocandy"

Nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi “Psychocandy”, o primeiro disco do Jesus And Mary Chain. Foi mais ou menos na época do lançamento, ainda na década de 80 do século passado – acho que 1986. Eu tinha meus 15, 16 anos no máximo, e estava começando a mergulhar nesse universo vasto e, para mim, desconhecido, do rock and roll, pelo qual eu me interessei vendo o primeiro rock in rio na TV. A revista Bizz chegava lá na minha cidade – Itabaiana, 50 km de Aracaju, Sergipe – e serviu como guia. Foi em suas páginas que li sobre aquele grupo de escoceses malucos que só se vestiam de preto e estavam sempre com os cabelos desgrenhados. Causavam furor com um single apropriadamente intitulado "upside down" - que tinha no lado B uma versão para "Vegetable man", uma música de Syd Barret que havia sido gravada porém nunca lançada oficialmente pelo Pink Floyd - e com shows ensurdecedores de 15 minutos nos quais tocavam de costas para o público...

Um amigo tinha o tal disco, "Psychocandy", e eu fui lá na casa dele ouvir. Primeiro foi o estranhamento com a faixa de abertura, “Just like honey”: etérea, sussurrada, com uma gravação abafada e guitarras cortantes, mas nada demais, em termos de agressão sonora. A partir do momento em que a agulha chegou aos sulcos da musica seguinte, no entanto, foi um choque! Aquilo era algo realmente novo, mesmo para meus ouvidos já acostumados com Metallica, Slayer e Megadeth. Era muito, muito barulhento, mas ao mesmo tempo era doce, melódico. Pop, num certo sentido. Um doce psicótico – poucas vezes o título traduziu tão bem a sonoridade de um disco.

Não tinha, na época, bagagem musical suficiente para enquadrar mentalmente o que me entrava pelos ouvidos, mas hoje sei que se tratava de uma espécie de continuação do que vinha sido feito naquela década por bandas como The Cure e Echo And The Bunnymen, com seu pop "esquisitão", temperado com influências do radicalismo undeground do Velvet - especialmente do segundo álbum, "White Light/White Heat" - e do punk rock safra 77, de Sex Pistols e afins.

“Psychocandy” é, na verdade, uma daquelas obras que inauguram um novo estilo, para o qual os críticos têm que se desdobrar para criar um rótulo – “shoegaze”, no caso. Um rótulo que, na verdade, só foi criado algum tempo depois, quando a sonoridade daquele álbum seminal foi lapidada por bandas como My Bloody Valentine, Ride e Slowdive. Sua influência, no entanto, foi além:  transcendeu os guetos estilísticos e atravessou oceanos. A explosão do rock alternativo e das "guitar bands" da primeira metade da década de 1990 deve muito a "Psychocandy". No Brasil, essa influência se refletiu numa cena que gerou nomes como Pin Ups, Killing Chainsaw, Second Come, Mickey Junkies, brincando de deus e, aqui em Sergipe, Snooze. Bandas que lançaram discos e demos que até hoje são cultuados pelos apreciadores do "rock triste" com paredes sonoras erguidas em cima de pedais de distorção.

Eu virei fã de grindcore, mas “psychocandy” segue sendo o disco mais barulhento que eu conheço – sim, mais que “From slavement to obliteration” ou as “peel sessions” do Napalm Death! É o único que eu não consigo ouvir inteiro no volume ao qual estou acostumado: chega um momento em que os ouvidos começam a doer ... 

É tipo uma serra elétrica lubrificada com mel. 

E é lindo!

A

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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

DoSol 2015

Soubesse eu que meu ídolo e amado Adelvan Kenobi me concederia a honra de ocupar este nobre espaço com minhas impressões sobre o que vi no Festival DoSol no último fim de semana em Natal/RN, certamente eu teria ativado meu botão ‘repórter’ e teria pelo menos levado um bloquinho com caneta para facilitar essa tarefa hercúlea que tenho agora.

Porque é uma coisa de louco aquilo. Uma maratona inacreditável uma média de 30 bandas por dia se revezando, às vezes ao mesmo tempo, entre 4 palcos, espalhados por galpões em uma rua fechada na área portuária de Natal. O rock começa cedo, às 16h, e segue até a madrugada. No sábado, 07/11, terminou mais de 4h da manhã, com o show lotadaço do novo fenômeno “indie universitário” Figueiroas. Eu não sei de onde a galera tirou energia pra dançar lambada àquela hora naquele calor. Eu estava em frangalhos.

Skabong
Mas comecemos do começo...

Sábado – 07/11/2015 - Resolvi ir pro DoSol porque tive a chance de viajar junto com a galera da Skabong, aqui de Aracaju, que foi escalada pra tocar. Saímos na sexta à noite e chegamos no sábado. Portanto, perdemos a primeira noite do festival. Uma pena. Perdi o show do Cigarettes que eu posso dizer que há décadas que queria muito ver. Mas tudo bem.

No sábado, a maratona começava cedo e o Skabong(SE) era logo a segunda banda da programação. Tocaram ainda de tarde, pra uma plateia não muito numerosa, mas atenta, e fizeram o melhor show que puderam. Coeso, redondo e cheio de energia. A galera reagiu bem. Sou suspeita, mas gostei muito.

Moloko Drive
Depois disso, o que se segue é uma avalanche de shows que são um teste pra memória estética e pra dignidade física de uma roqueira desleixada e com problemas de saúde, como eu. Uma das primeiras bandas que eu lembro de ter chamado minha atenção foi o Moloko Drive(RN). Show bacana, maduro, composições instigantes. Impossível não relacionar o som deles ao estilo stoner do QOTSA, mas isso não chega a ser um problema. Gosto muito desse tipo de som. Me pegou de cheio. Acabaram de lançar disco pelo selo Mudernage.

Não vou listar os shows de um em um porque simplesmente não consigo me lembrar e/ou não prestei atenção. Então, faço a seguir uma seleção baseada na minha memória afetiva. Se lembro é porque curti. Ou quase isso.

Carne Doce
Próxima da lista que me capturou os sentidos foi uma banda de Goiânia chamada Carne Doce. Daquelas que você passa pra dar “um saque” e se pega dizendo “UAU”. Impossível não me conquistar a mistura de vocal feminino com um toque Elizabeth Frasier cantando em bom português e levadas viajantes a la Tortoise ou Hurtmold, pra ficar nas referências nacionais. Tudo muito bom, gostoso de ouvir, sem afetação, sincero. Certamente está no meu top 5.

Em seguida um show que eu há muito espero pra ver ao vivo. Acho que conheço o The Automatics(RN) há tanto tempo quanto conheço o Snooze (guitar band aqui de Aracaju que fez parte da minha vida por longos 13 anos), ou seja o tempo que devo ter nessa vida de indie rock. Como eu imaginava, não me decepcionaram. Guitar noise arrastado da melhor qualidade, fazendo jus a seus 14 anos de estrada. Showzaço.

The Automatics
Lembro de, ao menos, duas pessoas cantando no meu ouvido: ‘não perca o show da Marrero(SP)’. Fui lá conferir. Rock de macho, até nas caras e bocas do vocalista. Como diz na descrição do soundcloud deles: “Uma banda com raiva.” Hehehehe, deu pra perceber. Mais daquela pegada stoner, que apareceu muito pelo festival. Não estou reclamando. Gostei, só não entendi porque eles tocaram de novo no domingo.

Aláfia foi realmente um diferencial em meio a tanto rock raivoso. Outro daqueles momentos ‘UAU’. Fazem um groove sensacional, flertando com sonoridades da black music setentista, funk, rythm’n’blues, soul e por aí vai... A vocalista maravilhosa tem uma baita voz e ótima presença de palco. Me ganhou muito. Estão lançando o segundo CD, Corpura. Fodástico. Recomendo muito.

Thiago Petit
Do show do Thiago Pethit eu me lembro de ter tentando entrar pra dar aquele saque. Estava lotadaço e o público estava ensandecido. Bem na hora que eu chego, sobe um(a) fã no palco e tasca um beijo de língua na boca do cara. Nossa! Que susto. Já gostei. Nunca tinha sacado o som dele, mea culpa. Vou chover no molhado aqui se disser que o som do maluco é bacana. E o show? É insano. Prefiro me guardar pra outra vez que eu tiver visto só ele em outra oportunidade.

A essa altura eu já nem enxergava as pessoas direito e já tinha falado com umas três pessoas estranhas achando que eram gente conhecida. Estava perdida, tentando entender como eu tinha me perdido da minha carona quando me deparei com o show do novo “mito universitário”.

Figueroas "Lambada quente"
“Fofinha, fofinha, fofinha...” (Gosto de pensar que essa música é pra mim, hahaha). Figueiroas Lambada Quente! Mais de 3h da madrugada e aqueles roqueiros ainda tinha energia pra dançar lambada quente... não, infernal (calor da porra, hein, Natal?!).

O que eu entendo que rola ali é o seguinte: Dinho Zampier, meu brother alagoano de outros carnavais, é o talento musical que garante a precisão daquela estética que sai redonda, gorda, cheia de improvisos legais, enquanto isso o “Figueiroas” arrasa no personagem, dança mesmo, canta mesmo, se entrega. E a galera se entrega junto. Funciona demais. Fica constrangedor estar perto do palco e não se balançar ao menos. É sincero aquilo que rola ali. Não é apenas humor. Aquela música e aquela energia estão rolando ali de verdade. O público entende isso. Acho válido. Mas eu não sei dançar lambada.

Boys Bad News
Domingo – 08/11 - No domingo, uma outra banda tipo stoner sexy guitar rock fez um dos primeiros shows que eu consigo lembrar: Boys Bad News , do Maranhão. Nada muito inovador, mas foram bem no palco, pegada instigante, conquistaram o público, eu inclusa.

Provavelmente a que mais impressionou nesse dia, e não foi só a mim, foi a AK-47 (RN). O vocalista, Juão Nin, que também é ator, abriu o show com uma performance do lado de fora do galpão saindo de dentro de uma daquelas máquinas de fazer cimento em construção civil, gritando “índio viado, índio tóxico, índio trans”!

Dava pra entender uma sugestão de ativismo gay e ambiental aí, que logo se confirmou nas letras das músicas. Da betoneira ao palco, aquele homenzarrão imenso (e lindo!) soltou uma voz poderosíssima acompanhado por uma banda não menos de peso que deixou a mim e aos presentes de queixo no chão.

AK-47
O som da AK-47 é pesado, rasgado, gritado, ou “visceral”, como eles se descrevem na biografia do facebook. Aqui e acolá, há um flerte com batidas tribais. Bateria e percussão são bem pronunciadas, e as guitarras, óbvio, bem altas e com muita distorção. Difícil não associar ao que ficou conhecido como Nu Metal, mas o rótulo é pouco (como são todos) pra enquadrá-los. O disco novo, Anêmola, está disponível pra download na página da banda. Tem que conferir.

Seguem-se mais dois shows de rock de responsa altamente recomendáveis. Monster Coyote é uma banda nervosíssima de Mossoró, interior desértico do RN. Fazem uma mistura de metal stoner pesadíssimo. Cacete, porrada, pauleira. Basicamente isso. Gostei muito.

Water Rats
Os curitibanos do Water Rats mandam um punk de primeiríssima, meio setentão, ótimos vocais, ótimos riffs, impossível ficar parado. A galera tem bastante estrada e interage super bem com o público. Fizeram um show muito instigante.

Os gringos da DOT LEGACY parecem ter agradado geral. Eu devo ter escutado meio atravessada. Achei som de gringo fazendo gringuice. Franceses com cabelo crespo, pulando alto e fazendo careta devem fazer um sucesso por lá. Pra mim, de cara já é um ponto a menos. Ainda mais quando eu ouço, nem que seja um indício de tentativa, da famigerada experimentação, ou “mistura de ritmos”. Ah não! De novo isso? Quantos a gente num já viu desses por aqui né? Desculpaí. Curti não. Altamente esquecível.

Mad Monkees
Em um dado momento do domingo, Levi Marques (vocalista da Skabong) me chama pra ver o que tá rolando no palco “estúdio Petrobrás” – na verdade um container, do lado de fora dos galpões. Ele diz, meio chocado: “Você tem que ver isso!”

Era a banda Mad Monkees , do Ceará. E o que chamava a atenção era o baterista super mega feeling virtuose dando um show à parte. Comentei: “Lembrei do Babalu”. Entendedores entenderão. Banda foda e baterista mais ainda. Vale dar um saque no trabalho dos caras.

O show do DEAD FISH OFICIAL conseguiu provocar um fenômeno: esvaziou completamente todos os outros ambientes do festival. Estava TODO MUNDO lá. Hardcore nunca foi totalmente minha praia e eu nunca tinha animado pra ver um show desses caras, mas já que tava no bolo e pelo precinho fui lá conferir. Sim, um ótimo show, como eu imaginei. Público pirando, festival de mosh, bonito de ver e tal. Mas continua não sendo o tipo de som que me instiga. E em um festival como esse, eu, sinceramente, prefiro dar atenção às bandas que eu sei que não vou ter outra chance de ver. Me parece meio lógico.

Girlie Hell
Quase terminando a noite, sobem ao palco as roqueiras, super roqueiras, com muita pose de roqueiras, da Girlie Hell (GO). Não gosto da afetação que vejo em algumas bandas da safra goiana recente. Parecem, quase todas, muito preocupadas em ter a famosa “atitude roquenrol”. Torço um pouco o nariz quando vejo esse excesso (não são as primeiras), mas curti o som das meninas mesmo assim. Rockão clássico, composições legais, bom vocal. Se investirem mais na música e menos na pose tem futuro.

O ultimíssimo show que eu vi, esse eu lembro bem, foi dos cariocas da Confronto. Banda de metal hardcore respeitada, com 14 anos nas costas, suas letras de resistência dos oprimidos vieram bem a calhar pra encerrar essa imersão roquística nos lembrando bem de onde nós, roqueiros velhos e resistentes, viemos e porque continuamos fiéis a essa merda toda, mesmo sem ganhar nenhum tostão.

Texto: Maíra Ezequiel

Fotos: Rafael Passos

Juão Nin, vocalista do Ak-47, mitando no domingo