quarta-feira, 15 de junho de 2011

O último suspiro de um cadáver ...

Sempre quis ver um show no Centro Cultural São Paulo – a configuração do palco é bem diferente, com parte do público vendo o espetáculo do alto, como se a apresentação acontecesse em um buraco. A oportunidade apareceu no último sábado, com o primeiro show de lançamento do último disco (último mesmo, finito, segundo ele divulga a anos) de Rogério Skylab, o Volume X.
Cheguei em cima da hora mas minha amiga (e ídola) Deborah já havia comprado meu ingresso e me esperava na fila com uma outra amiga (dela) muito simpática. Legal: show do maluco-mor do cenário independente brasileiro e em boa companhia, a noite prometia. E as promessas se cumpriram ...
Vimos a apresentação lá do alto. A banda entrou primeiro – três jovens (baixo, guitarra e bateria) e um coroa tocando violão. Grande banda, por sinal. Não tarda muito e lá vem ele, com seus trejeitos amalucados, ovacionado pelo público, especialmente por um maluco lá que encheu o saco de tanto pedir “câncer no cu”. Se posta no microfone e começa a emitir espasmos “poéticos” escatológicos acompanhados por uma dança MUITO esquisita. Canta uma estrofe, dança um pouco, sai do palco e dá uma volta pelo recinto. Volta ao palco e repete tudo de novo.
A primeira música é Corpo e membro sem cabeça. “O dedo mindinho do lula, o olho de Luís de Camões...”, ele canta. Em “tem um cigarro aí?”, cuja letra se resume a este apelo repetido das mais variadas formas, sempre imitando um tipo em especial, seja um mendigo de rua ou mesmo INRI Cristo (foi muito engraçado ver o cara perguntando isso imitando o INRI olhando pra mim!), o público joga cigarros no palco. Normal. Menos normal foi a perfomance de O Corvo, onde ele aparece com um objeto fálico enorme e vermelho, senta na borda do palco e coloca-o na boca. Juro que pensei o que vocês provavelmente estão pensando, mas era uma cenoura, que ele mastiga e cospe os pedaços no microfone durante o “refrão” que se limita a dizer o nome de um remédio para enjôo e vômito, “plasil”. Ao final, contemplando a meleca laranja espalhada pelo chão preto, ele comenta: “até que ficou plasticamente bonito, não?”. Risos. “Boa noite, repararam que eu não gosto de falar muito com a platéia, né?” sim, reparamos – era a primeira vez que ele se dirigia diretamente ao público.
As músicas vão se repetindo, todas com letras minimalistas e totalmente desconhecidas para mim e para minhas companheiras de show, mas ainda assim nos divertíamos muito com as sacadas geniais e, principalmente, com as perfomances esquizofrenicas do cara. A força de Rogerio Skylab reside, afinal, na forma absolutamente visceral com que ele recita os versos mais absurdos, que no final das contas, se reparamos bem, nem são tão absurdos assim: ele apenas ressalta, geralmente, um lado mais bizarro da vida que faz parte do cotidiano mas para o qual geralmente não damos tanta atenção.
Fiquei sabendo depois, via internet, que as participações especiais de karine Alexandrino e Astronauta pingüim estavam sendo gravadas para um clipe! Que massa, eu estava presente na gravação de um clipe de Rogerio Skylab! As perfomances, especialmente a de Karine, foram, como direi ... esquizofrênicas: ao final de uma simulação de ataque epiléptico (lembrou a morte de Pris, a personagem de Daryl Hannah, em "Blade Runner") ela saudou o já cinqüentão músico carioca como seu mestre e guru. O publico não esboçou muita reação não, mas eu achei legal. A música escolhida foi “Eu roubei a gravata?” – fraquinha, por sinal.
Já perto do final do show, enfim, alguns “hits”. A que mais agitou a platéia foi “Carrocinha de cachorro-quente”, cuja letra inteira foi cantada por todos e faço questão de reproduzir, veja lá no final da resenha. Absolutamente genial. Outro grande momento foi “Fátima Bernardes experiência” e seu explosivo refrão: “Glóóória mariiiiiaaaaa”. Letra devidamente reproduzida também, vê lá.
Faltou “Matador de passarinho”, que para nós seria importante mas que ele deve estar, compreensivelmente, cansado de cantar (é a “Ana Julia” de Rogerio Sylab), mas não faltou “Música para paralítico”, “Herbert Viana” nem “Matadouro das almas”, o que deixou a “coisa” de bom tamanho. O grand finale foi com “Eu e minha ex” (“queremos amizade/Mas acho que eu não superei/Talvez ainda goste dela”), para o constrangimento dos casais presentes. Sensacional. Detalhe: ele se despediu secamente e nem sequer se deu ao trabalho de apresentar a banda.
Para mim, foi uma grande despedida (ia viajar na manhã seguinte) e um excelente “bônus”, já que eu havia ido a São Paulo, originalmente, “apenas” para ver o show do Slayer. Muito obrigado, Deborah Fernandes, por ter me dado o toque sobre este show (“enquanto Freud explica as coisas o diabo fica dando os toques”), por ter me ligado perguntando se eu queria que você comprasse o ingresso antecipadamente, pela companhia, sua e de sua amiga, pela atenção, enfim.
Ah, Jô Soares? Tava lá. Deu inclusive um “mosh” no final da apresentação e morreu empalado no pedestal do microfone. Aquilo que vocês estão vendo todas as noites na tela da Globo não passa de um efeito especial ...
Veja AQUI a última entrevista de Rogerio no programa do jô.
AQUI toda a discografia, com a reprodução das letras.
por Adelvan K.
“Fátima Bernardes Experiência”
Fátima Bernardes fugiu de casa
Fátima Bernardes mandou um beijo
Fátima Bernardes foi baleada
Fátima Bernardes chupando dedo
Glória Maria
Fátima Bernardes pra presidente
Fátima Bernardes em carne e osso
Fátima Bernardes tem corrimento
Fátima Bernardes, William Bonner
Glória Maria
Fátima Bernardes investe tudo
Fátima Bernardes com arroz 'la grega'
Fátima Bernardes é vagabunda
Fátima Bernardes tem caderneta
Glória Maria
Fátima Bernardes cheirando cola
Fátima Bernardes com a pica dura
Fátima Bernardes experiência
Fátima Bernardes também é cultura
Glória Maria
“O corvo”
Entro numa farmácia,
O farmacêutico é fanho,
Pânico na madrugada.
Minha cabeça rodando,
Tomo mais um comprimido,
Se parar eu vomito.
Minha pílula dourada,
Egito que resplandece.
Vício, minha pátria amada.
Plasil, Plasil, Plasil.
Dentro das minhas entranhas
O câncer se desenvolvendo.
Ânsia, vômito, espasmo.
Os nervos à flor da pele,
Sinto um cheiro de ópio
Que bate e me conecta.
Olha só minha glande,
O pensamento é glande,
O meu desejo é glande.
Plasil, Plasil, Plasil.
Mais um pico na veia.
De noite eu quase não durmo,
Lexotan na cabeça.
Todo dia Prosac,
Um barulho no quarto,
Um susto, um rato.
Da minha cama eu avisto,
Livros, teias, traças,
O canto negro de um pássaro.
Plasil, Plasil, Plasil.
“Carrocinha de Cachorro quente”
Uma carrocinha de cachorro quente
Espia só o vendedor
Olha prum lado, olha pro outro,
Disfarça, não vem ninguém
A lá
Ele tá enfiando a mão dentro da calça
Aquela mão que segura o cachorro-quente
A lá
Ele tá coçando o cu com a mão
Moça, ô moça, num compra cachorro-quente não!
Nome: clarice
Altura: 1,80m
Esguia, magérrima, olhos de esfinge, pés pequenininhos
Mas tem uma trolha!
O elefante pergunta pra vaquinha:
Tomou?
No cu?
A colombina pergunta pro pierrot:
Tomou?
No cu?
A enfermeira pergunta pro defunto:
Tomou?
No cu?
E todo mundo começa a perguntar:
Tomou?
No cu?!
Calma
Se deve ter tomado alguma coisa
Relaxa
Respira fundo
Isso
Agora me fala:
-qual seu nome?
-buceta!
-de onde você vem?
-buceta!
-o nome da tua mãe.
-buceta!
-o que que você quer.
-buceta!
Desculpa
Esse meu jeito
Meio desesperado
De dizer as coisas
Mas o problema
É que nesse momento
Nesse exato momento
Um marimbondo
Tá dentro da minha calça
E tá picando
A minha bunda!
Eu bem que fiz tudo
Pra ser o que mamãe queria
Mas o tempo foi passando
O tempo foi passando
E tudo foi ficando
Meio escalafobético
"ele era tão quetinho"
Um idiota comentou
E tudo seria patético
Se não fosse
Pateta!

terça-feira, 7 de junho de 2011

SLAYER !

Eu já era fã de metal e do Slayer quando ouvi pela primeira vez "Reign in Blood", na época de seu lançamento. Mesmo assim, o impacto foi tremendo: nada, até aquele momento, havia sido feito com aquele nível de peso e velocidade. Pouco tempo depois a disputa foi finalmente vencida (e encerrada) pelo Napalm Death e seu "From slavemevment to obliteration", mas "Reign in Blood" permanece supremo no posto de obra-prima do thrash. É rápido, pesado E preciso. Une tudo isso ao virtuosismo, além de contar com a produção impecável do mestre Rick Rubin.

Ontem Tom Araya fez 50 anos. Este ano o Slayer faz 30, e "reign in blood" 25 anos de lançamento. Depois de amanhã eu verei o Slayer Ao Vivo pela primeira vez em minha vida - mais um sonho de adolescencia realizado. Abaixo, uma matéria publicada ontem no site NOISECREEP em tradução de Nathália Plá para o http://whiplash.net.

# # #

Quando ele ficou sabendo que o Noisecreep estava planejando prestar tributo ao Slayer hoje, 6/6, Scott Ian do Anthrax concordou plenamente. "Por que não? Todo dia é um bom dia para o Slayer", disse ele. Sim, qualquer dia é um bom dia para celebrar uma das bandas de metal mais influentes de todos os tempos. Contudo o Slayer Day esse ano é especial porque marca os aniversários de duas marcas distintas do Slayer.

A primeira marca do Slayer ocorreu há 30 anos em 1981, quando Jeff Hanneman e Kerry King formaram o gurpo em Huntington Beach, uma cidade costeira no sul da Califórnia. O duo então convidou Tom Araya, que tinha trabalhando previamente com King no Quits, para se juntar a eles. O resto, é claro, é história do metal.

A outra marca veio em 1985, há 25 anos, com o lançamento do 'Reign In Blood.' A maior estréia da banda em um selo levou o Slayer do estado de heróis ocultos no Metal Blade para o de verdadeiros ícones internacionais do metal.

"Eu vi o Slayer a primeira vez em um pequeno local em Orange County, Califórnia, em 1983", disse Brian Slagel, o presidente e CEO do Metal Blade, primeiro selo do Slayer. "O set deles consistia em sua maioria de músicas cover, mas os poucos originais que eles tocavam eram realmente bons. Além disso, eles fizeram o melhor cover da 'Phantom of the Opera' do Iron Maiden. Eles eram uma banda realmente boa e eu sabia que queria trabalhar com eles."

"Eu me atrasei um pouco em relação ao Slayer," disse o frontman do GWAR Dave Brockie, a.k.a. Oderus Urungus. "Eu ainda estava naquela de curtir hardcore e dizer que o metal não prestava há muito tempo. Foi só quando veio o 'Reign in Blood' que eu realmente os escutei. E aquilo foi provavelmente bom porque seus primeiros discos eram realmente ruins. Eu lembro do momento em que virei devoto do Slayer com clareza. Eu estava ouvindo o 'Reign in Blood' e estava sendo esmagado. Eu não conseguia acreditar que o metal podia ser tão bom, tão rápido ou ter tanta agressividade. E quando eu cheguei ao 'Altar of Sacrifice' com a famosa 'Satan'... Bem, eu me perdi totalmente. Dali para adiante, o Slayer era formado por deuses para mim."

Essa revelação foi feita por garotos em todas partes do mundo. "A primeira vez que eu vi o Slayer foi em 1986 logo depois que o 'Reign In Blood' saiu, no Warner Theater em Washington, DC", disse Dave Grohl à Killing Time Productions em seu vídeo no YouTube. "Foi o último show no Warner porque era o Overkill e o Slayer. E depois que o Overkill terminou o Slayer veio e a platéia destruiu as dez primeiras fileiras de assentos."

Pela crítica, o álbum também obteve tremendo respeito ao longo dos anos. Kerrang classificou 'Reign In Blood' de "o álbum mais pesado de todos os tempos" e a Metal Hammer declarou ele em 2006 como o melhor álbum de metal dos últimos 20 anos. Em apenas 30 minutos de uma energia frenética, o 'Reign In Blood' misturou a ferocidade do Iron Maiden com a batida dos Ramones e Stooges para criar um álbum que desde então foi reverenciado por muitos como o definitivo álbum de thrash metal.

Parte do legado do 'Reign in Blood' e sua massiva evolução dos dois álbuns anteriores da banda foi a produção de Rick Rubin, que assinou com o grupo pelo seu selo Def Jam. "Foi como, 'Uau – você pode ouvir tudo, e aqueles caras não estão apenas tocando rápido; aquelas notas estão no tempo certo'", Kerry King disse à revista Decibel sobre a produção.

O estilo de gravação mais precisa permitiu que as pessoas vissem que o Slayer trouxe a musicalidade de virtuosos renomados como o Rush ao thrash metal. "A primeira vez que ouvi o preenchimento da bateria de bumbo duplo na 'Angel of Death' eu soube que eu realmente queria fazer melhor. Inúmeros músicos tem de agradecer a (Dave) Lombardo e ao Slayer por sua influência", disse Dave Titte, do Municipal Waste.

Ao longo do último quarto de século, o impacto do Slayer continuou a crescer, como evidenciado pelos diversos artistas que fizeram cover da banda, tais como Korn, Deftones, Cradle Of Filth, e Hatebreed. Sem esquecer que Tori Amos, Less Than Jake, Modest Mouse, e Califone prestaram tributo ao Slayer.

Para realmente entender o impacto do Slayer, é necessário apenas ter ido ao Empire Polo Fields em Indio, California em april desse ano quando mais de 50.000 metaleiros foram ao deserto para ver o grupo dividir o palco com Metallica, Megadeth, e Anthrax para o show do Big 4. O fato de que o metal ainda enche estádios e sites como o Noisecreep existirem é devido grande parte ao Slayer e seus irmãos. Então sim, concordamos com Scott Ian: qualquer dia é um bom dia para o Slayer.

1. O Caminho da extinção

I. NOITE PRIMITIVA - 1. O Caminho da extinção - Há dez milhões de anos que a seca perdurava e fazia já muito tempo que terminara o reino dos terríveis lagartos. Aqui, no Equador, no continente que um dia seria denominado África, a luta pela vida atingira um novo clímax de ferocidade, não havendo ainda vencedor à vista. Na terra seca e desolada, apenas os pequenos, ou os ágeis, ou os valentes, podiam desenvolver-se ou mesmo ter esperança de sobrevivência.

Os homens-macaco da savana não eram assim e, portanto, não se desenvolviam. A verdade era que a sua raça estava a caminho da extinção. Uns cinqüenta desse tipo de homens ocupavam algumas cavernas que dominavam o vale pequeno e ressecado, cortado por modesto riacho cujas águas provinham da neve das montanhas situadas a trezentos quilômetros do norte. Havia ocasiões em que o riacho se evaporava completamente e a tribo vivia então sob o espectro da sede.

A fome era constante, estando todos agora famintos. Quando a primeira claridade da aurora esgueirou-se para o interior da caverna, Amigo da Lua viu que seu pai morrera durante a noite. Não sabia que o ancião era seu pai, pois tal relacionamento estava muito além da sua capacidade de compreensão. Ao olhar, porém, para aquele corpo magro sentiu certo desassossego, que é o ancestral da tristeza.

Os dois bebês choramingavam de fome, mas calaram-se quando Amigo da Lua rosnou para eles. Uma das mães, defendendo a criança que não podia ser convenientemente alimentada, também rosnou ferozmente à sua volta e ele não teve forças para dar-lhe um bofetão pelo seu atrevimento.

A claridade tinha aumentado e podia-se sair agora da caverna. Amigo da Lua pegou o cadáver encarquilhado e o arrastou ao atravessar o teto baixo da entrada. Chegando ao lado de fora, arremessou o corpo sobre os ombros e endireitou-se. Era o único animal do mundo que podia manter-se ereto.

Amigo da Lua parecia um gigante junto de seus companheiros. Tinha mais de um metro e meio de altura, e, apesar de subnutrido, pesava mais de quatrocentos quilos. Seu corpo peludo e musculoso colocava-o entre o macaco e o homem. Sua cabeça, porém, parecia mais com a do homem do que com a do macaco. Tinha uma testa estreita, com saliência acima da cavidade ocular. Possuía, indubitavelmente, em seu gene característica de humanidade. Ao contemplar o mundo hostil da era plistocena, havia em seu olhar algo que superava a capacidade de qualquer macaco. Os seus olhos fundos e escuros continham uma percepção incipiente — o primeiro estímulo de uma inteligência que ainda levaria séculos para se manifestar e que poderia dentro em breve extinguir-se para sempre.

Não vendo qualquer sinal de perigo, Amigo da Lua precipitou-se pela encosta quase vertical, sem se incomodar com sua carga. Como se estivesse à espera de uma senha, o resto da tribo surgiu de suas cavernas, situadas mais abaixo, e apressou-se em direção às águas lamacentas do riacho para o gole matinal. Amigo da Lua examinou o vale para ver se os Outros estavam por perto. Não havia sinal deles. Talvez ainda não tivessem deixado suas cavernas, ou então já haviam começado a procurar alimentos nas colinas. Como não estivessem à vista, Amigo da Lua esqueceu-se deles, pois era incapaz de ocupar-se com duas coisas ao mesmo tempo.

Ele precisava antes de mais nada livrar-se do ancião. Isso, porém, não era problema difícil. Houve muitas mortes durante a estação, uma delas em sua própria caverna. Bastaria colocar o cadáver no mesmo local em que deixara o recém-nascido, na lua minguante, e as hienas fariam o resto.

Estavam já à espera, no lugar em que o vale se transformava em savana, como se soubessem que Amigo da Lua ali viria. Realmente, ele deixou o cadáver sob um pequeno arbusto — não havia mais sinal de quaisquer outros ossos — e apressou-se em voltar para junto da tribo. Nunca mais pensou em seu pai.

Suas duas companheiras, bem como os adultos das outras cavernas e a maioria dos jovens, procuravam alimentos entre as árvores mirradas e secas do vale, na tentativa de encontrar frutos, folhas e raízes suculentas, ou talvez alguma dádiva do céu, como pequenos lagartos e roedores. Apenas os bebês e os velhos, enfraquecidos, permaneciam nas cavernas. Se sobrasse algum alimento no fim da busca, poderiam comer. Senão, as hienas teriam mais um dia de sorte.

Mas este era, de fato, um dia bom, se bem que Amigo da Lua, incapaz de fixar na memória fatos passados, não pudesse comparar um dia com outro. Encontrara uma colméia de abelhas no oco de uma árvore morta e deleitara-se com o maior prazer que a sua gente conhecia. No fim da tarde, ao guiar o grupo de volta para casa, lambia os dedos de vez em quando. Levara naturalmente um bom número de picadas, mal se apercebendo disso. Fora este o momento mais feliz que tivera durante toda a sua vida. Se bem que ainda tivesse fome, não se sentia fraco. Significava isso o máximo a que um homem-macaco podia aspirar.

Sua alegria desapareceu ao chegar ao riacho. Os Outros estavam lá. Permaneciam aí todos os dias, mas isso não deixava de ser sempre algo desagradável.

Eram uns trinta. Não podiam ser distinguidos dos membros da tribo de Amigo da Lua. Ao vê-los se aproximarem, começaram a agitar os braços, dançar e gritar do outro lado do rio onde se encontravam, enquanto os de cá respondiam da mesma maneira.

Foi só o que aconteceu. Ainda que os homens-macaco freqüentemente brigassem e lutassem entre si, eram raras as vezes em que se feriam gravemente. Não possuindo garras ou caninos salientes e estando bem protegidos por grossos pêlos, não podiam machucar muito o adversário. De qualquer maneira, sua energia não lhes permitia comportamento tão improdutivo. Rosnados e ameaças eram o seu modo bem mais eficiente de afirmarem as suas opiniões. O confronto durou cerca de cinco minutos. A exibição terminou tão depressa como havia começado. Depois, cada um bebeu a sua porção de água lamacenta. A honra estava salva. Cada grupo havia garantido a posse de seu respectivo território. Resolvida essa importante questão, a tribo seguiu para frente pelo mesmo lado do riacho.

O campo mais próximo estava a mais de dois quilômetros das cavernas. Era necessário dividi-lo com um bando de grandes animais, parecidos com antílopes, que não suportavam a presença de quaisquer outros grupos. Não podiam ser afugentados, pois tinham na testa uma espada ameaçadora — arma natural que os homens-macaco não possuíam.

Amigo da Lua e seus companheiros mastigavam folhas e frutos, aliviando, assim, a fome, enquanto em torno deles, todos competindo pela mesma comida, havia uma quantidade de alimento muito maior do que jamais haviam sonhado. Mas os milhares de toneladas de carne suculenta, que galopavam pela savana e entre os arbustos, estavam não só fora de seu alcance como, também, além de sua imaginação. Em meio à fartura, caminhavam, todavia, lentamente para a morte por inanição.

Ao pôr-do-sol, a tribo voltou para as cavernas sem novos incidentes. A fêmea machucada, que fora deixada sozinha, grunhiu de satisfação quando Amigo da Lua lhe deu o ramo coberto de pequenos frutos que trouxera. Devorou-o com voracidade. O alimento era pouco, mas poderia ajudá-la a sobreviver, até que a ferida causada pelo leopardo estivesse curada. Então, poderia cuidar de si mesma.

A lua cheia surgia acima do vale. Um vento frio soprava, vindo das montanhas distantes. A noite seria muito fria, mas o frio e a fome não seriam motivo de preocupação. Ambos faziam parte da vida. Os guinchos e os gritos que ecoaram pela encosta, vindos de uma das cavernas, não incomodaram Amigo da Lua. Não havia necessidade de ouvir os rugidos do leopardo para saber exatamente o que estava acontecendo. Mais abaixo, na escuridão, o velho Cabeça Branca e sua família lutavam e morriam. A idéia de ajudá-los nem passou pela cabeça de Amigo da Lua. A dura luta pela sobrevivência não permitia tais fantasias e assim, na encosta vigilante, nenhuma
voz se ergueu em sinal de protesto. Todas as cavernas, com medo de atrair a desgraça, permaneciam em silêncio.

O alarde terminou. Então, Amigo da Lua podia ouvir o barulho de um corpo arrastado pelas pedras. Depois de alguns segundos, o leopardo agarrou com mais firmeza sua vítima. Não fez mais qualquer ruído. Ao partir, em silenciosas passadas, carregava a presa entre as mandíbulas, sem o menor esforço.

O perigo estava afastado por um ou dois dias, mas outros inimigos poderiam surgir, aproveitando-se do Pequeno Sol frio que só brilhava à noite. Os animais menores, se houvesse vigilância, podiam, às vezes, ser afugentados por meio de gritos e berros.

Amigo da Lua arrastou-se para fora da caverna, subiu numa grande pedra que estava ao lado da entrada e acocorou-se para observar o vale. De todas as criaturas que haviam pisado a Terra, os homens-macaco eram os primeiros a olhar constantemente para a Lua. E, apesar de não se lembrar disso, Amigo da Lua costumava, quando era criança, espichar-se na tentativa de tocar aquele rosto fantasmagórico que surgia acima das colinas.

Jamais conseguira. Agora, tinha idade suficiente para compreender por que não obtivera êxito. Era evidente que precisava, antes de mais nada, subir numa árvore bem alta.

Sempre à escuta, olhava alternadamente para o vale e para a Lua. Cochilou uma ou duas vezes. Mas, tendo sono leve, o menor ruído o despertava. Na avançada idade de vinte e cinco anos, estava em plena posse de todas as suas faculdades. Se continuasse a ter sorte e escapasse de acidentes, doenças, animais ferozes ou da inanição, ainda poderia viver mais uns dez anos.

A noite foi passando, clara e fria, sem novos alarmas, e a Lua seguia lentamente o seu caminho entre constelações equatoriais que jamais olhos humanos chegariam a contemplar. Entre cochilos ocasionais e medrosa expectativa nasciam, dentro das cavernas, os pesadelos de gerações que ainda estavam por vir. Por duas vezes, surgindo no zênite e desaparecendo a leste, um ofuscante ponto de luz, mais brilhante que qualquer estrela, passou vagarosamente pelo céu.

Tradução de Stella Alves de Souza

NO PRIMEIRO ANO DO SÉCULO XXI

Você é o comandante do Discovery, uma imensa nave espacial viajando a milhares de quilômetros por hora. Seu destino é um planeta nos limites mais longínquos do sistema solar. Seus companheiros de viagem são um navegador, três hibernautas congelados, e HAL, um computador muito falante, que está guiando o curso da nave e também de sua vida. A missão a cumprir — através do abismo do espaço — começou com o encontro de uma estranha formação monolítica numa das crateras lunares. Não há a menor possibilidade de ser este monólito uma formação natural, principalmente porque ele emite sinais inexplicáveis.

Seria um cartão de visitas deliberadamente enterrado na Lua, deixado por uma Inteligência alienígena há milhões e milhões de anos?

E você deve descobrir QUEM, QUAL A MENSAGEM, AONDE e POR QUE...

Prólogo

Erguem-se trinta fantasmas atrás de cada homem vivo. É esta precisamente a proporção entre os que ainda vivem e os que já morreram. Cerca de cem bilhões de criaturas humanas já pisaram o planeta Terra desde que o mundo existe.

É uma cifra interessante, pois, por coincidência, há aproximadamente cem bilhões de estrelas nesse universo particular, a via-láctea. Portanto, para cada homem que viveu corresponde uma estrela em pleno brilho.

Mas cada uma dessas estrelas é um sol, freqüentemente muito mais brilhante e resplandecente do que a pequenina e vizinha estrela a que chamamos Sol. É em torno de muitos deles, da maioria, talvez, desses sóis desconhecidos, que giram os planetas. É quase certo assim haver no céu terra suficiente para proporcionar a cada membro da espécie humana, incluindo o homem-macaco, o seu paraíso — ou inferno — particular, do tamanho do mundo.

É impossível saber quantos desses paraísos ou infernos em potencial são habitados e por que espécie de criaturas o são. O mais próximo deles está situado um milhão de vezes mais longe que Marte ou Vênus, essas metas ainda remotas para a próxima geração. Mas as barreiras dessa distância desmoronam. Chegará o dia em que haveremos de encontrar entre as estrelas os nossos semelhantes — ou os nossos mestres.

Os homens custaram a enfrentar essa perspectiva. Alguns ainda continuam esperando que ela nunca se torne realidade. Entretanto, cada vez é mais freqüente a pergunta: Não será possível que já tenham acontecido tais encontros, visto nós mesmos estarmos prestes a aventurar-nos ao espaço?

Por que não? Este livro bem pode ser uma resposta para pergunta tão razoável. Mas, por favor, lembrem-se de que é ele apenas ficção.

A verdade, como sempre, será muitíssimo mais estranha.

A.C.C.

S.K.

domingo, 5 de junho de 2011

"1" - "A Laranja Mecânica", de Anthony Burgess

− Qual vai ser o programa, hein?

Tinha eu, quer dizer, Alex e meus três drugues, quer dizer, Pete, Georgie e o Tapado, o Tapado sendo realmente tapado, e nós estávamos sentados no Leite−bar Korova, rassudocando o que fazer da noite, num inverno agitado, preto e gelado, uma merda, se bem que seco. O Leite−bar Korova era um méssito de tomar leite−com, e vós, ó meus irmãos, já podem ter se esquecido como eram aqueles méssitos, com as coisas mudando tão escorre hoje em dia e todo mundo muito rápido pra esquecer, os jornais também não muito lidos. Bom, o que vendiam lá era leite com alguma coisa. Não tinham licença pra vender bebida, mas também ainda não tinha nenhuma lei contra prodar algumas das novas véssiches que eles costumavam botar no moloco, de modo que a gente podia pitar ele com velocete, ou sintemesque, ou drencrom, ou uma ou duas outras véssiches que deixavam a gente uns bons e tranqüilos quinze minutos horrorshow admirando Bog e Todos os Seus Bem Aventurados Anjos e Santos no sapato esquerdo, e com luzes pipocando dentro do mosgue. Ou se podia pitar leite com facas, como a gente costumava dizer, e isso deixava a gente afiado e pronto pra uma sujeira de vinte−contra−um, e era isso que a gente estava pitando naquela noite com que eu estou começando a história.

Nossos bolsos estavam cheios de dengue, portanto, não havia realmente necessidade, do ponto de vista de crastar mais tutu, de toltchocar um veque velho qualquer num beco e videar ele nadando no próprio sangue, enquanto a gente contava a féria e dividia por quatro, nem de fazer ultraviolência com alguma trêmula ptitsa estarre de cabelo branco numa loja e aí sair esmecando com o recheio da caixa. Mas, como diz o outro, o dinheiro não é tudo.

Nós quatro estávamos vestidos no rigor da moda que, naquele tempo, eram umas malhas pretas muito justas, com um acolchoado preso as virilhas por baixo da malha, sendo isso pra proteger e também uma espécie de desenho que ficasse visível, havendo uma certa luz, de modo que eu tinha um com formato de aranha, Pete tinha um rúquer (quer dizer, mão), Georgie tinha uma flor muito bacaninha e o coitado do Tapado, um cretino dum litso (rosto, quer dizer) de palhaço, porque o Tapado não tinha muita noção das coisas e era, sem sombra da menor duvida, o mais tapado de nós quatro. Depois, a gente estava usando jaquetas cintadas sem lapelas, mas com aqueles enchimentos enormes nos ombros (a gente dizia pletchos) e que eram uma espécie de arremedo de quem tinha os ombros realmente assim. Depois, meus irmãos, a gente estava usando aqueles gravatões largos, feito lenços, esbranquiçados, que pareciam purê de cartófel, ou batata, com uma espécie de desenho marcado em cima do tecido com um garfo. A gente usava o cabelo não muito longo e calçava botas pesadas horrorshow pra chutar.

− Qual vai ser o programa, hein?

Tinha três devótchecas sentadas juntas no balcão, mas nós, os maltchiques éramos quatro e geralmente o negócio era um por todos e todos por um. As tais gurias também estavam no rigor da moda, de perucas roxas, verdes e cor−de−laranja nos respectivos gúlivers, cada peruca não custando menos do que três ou quatro semanas de trabalho de cada uma delas, pelos meus cálculos, e usavam pintura combinando (quer dizer, arco−íris em volta dos glazes e a rote muito pintada). Depois, elas estavam de vestidos longos pretos, muito lisos e, na altura dos grudes,tinham plaquetas de prata com diversos nomes de maltchiques escritos − Joe, Mike e outros mais. Era pra ter Os nomes dos diversos maltchiques com quem elas tinham espatado antes dos catorze anos. Olhavam muito na nossa direção e eu estava com vontade de dizer que nós três (isso seria com o canto da boca, é claro) devíamos dar uma saída pra fazer um pouco de pol e deixar o coitado do Tapado pra trás, porque era só questão de cupetar pra ele um meio litro de branco, mas dessa vez com uma bombada de sintemesque dentro, mas isso não ia ser da regra do jogo. O Tapado era muito feio, que nem o nome dele, mas numa briga suja ele era muito horrorshow e muito bom de bota.

− Qual vai ser o programa, hein?

( ... )

Tradução: Nelson Dantas

NOTA: O filme "A Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, baseado na obra Anthony Burgess, faz 40 anos de lançamento em 2011. Para comemorar a data, uma cópia restaurada foi exibida no último Festival de Cannes e um Box comemorativo foi lançado em Blu-ray. O pacote traz dois discos com material inédito sobre a produção, o documentário “Turning Like Clockwork” (25 min.), um longo depoimento do ator Malcom McDowell, protagonista do filme no papel do perturbado Alex DeLarge, o documentário “Still Tickin’: The Return of Clockwork Orange” e um making of.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

1 semana ...

Aconteceu ontem, na Movistar Arena, em Santiago, no Chile, o primeiro show da turnê sulamericana do Slayer que passa pelo Brasil na semana que vem. Conforme noticiado antes, o guitarrista do Exodus, Gary Holt, está substituindo Jeff Hanneman, que se recupera de uma operação realizada no braço direito. Ao todo, o grupo tocou 21 músicas, incluindo “Stain of Mind”, que há muito tempo não era incluída nos shows, e “Not Of This God”, anunciada como “uma das novas”. O Slayer volta ao Brasil na próxima semana, depois cinco anos, para dois shows, um em Curitiba (dia 8) e outro em São Paulo (dia 9, veja os detalhes aqui).

Fonte: Rock Em Geral

Slayer !!!!!!!!!!!!!!!!!




No Cine Cult, a partir de amanhã ...

O Cine Cult, neste final de semana, traz para a plateia sergipana dois títulos imperdíveis: “Vincere” de Marco Bellocchio e “127 Horas” de Danny Boyle. O primeiro, que será exibido no Cinemark Riomar, e concorreu à Palma de Ouro em Cannes no ano passado, foca um aspecto da vida do fascista Benito Mussolini (Filippo Timi) pouco conhecido: o de que ele seria pai de um garoto, fruto de seu envolvimento com Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), antes de se tornar um líder político.

Na verdade, quando Ida conhece Mussolini em Milão, ele era apenas um jovem socialista, com extremo talento em orientar as massas contra o poder da Igreja e da Monarquia vigente. Encantada com sua postura de líder, ela financia o jornal Il Popolo d’Itália, que Mussolini funda para disseminar seus ideais fascistas e tamanha é a dedicação da mulher, que ela mina seu patrimônio em favor do futuro Il Duce.

Enquanto Ida ama, incondicionalmente, Mussolini parece só se preocupar em ascender politicamente e se afasta da mulher, ao voltar da I Grande Guerra, onde serviu ao seu país. Agora, com um filho pequeno, fruto de seu envolvimento com o fascista, Ida se vê rejeitada e trocada pela “oficial” esposa Rachele Guidi (Michela Cescon). Passional ao extremo, ela não desistirá de provar que foi a primeira mulher de Mussolini, mesmo que tenha que enfrentar o próprio ditador.

A partir daí, o que acompanhamos é um sórdido plano colocado em ação, contra Ida Dalser, a fim de que a imagem de Mussolini como líder, não seja maculada. Com tom operístico, Bellocchio conduz o drama de forma a mostrar num primeiro momento, o teste de honra de Mussolini, para depois contrapô-lo ao de Ida Dalser. Além disso, mostra as relações de conveniência entre a Igreja e Mussolini, que se num primeiro momento, nega a existência de Deus, depois chega a fazer as pazes com a própria Igreja.

O resultado é uma obra-prima em que se sobressaem a atuação de Giovana Mezzogiorno, o roteiro assinado a quatro mãos por Marco Bellocchio e Daniela Caseli, a direção de arte de Briseide Siciliano, e a fotografia de Danieli Cipri explorando os contrastes entre claro e escuro.

Já para quem preferir emoções fortes de outra natureza, a boa pedida é assistir ao filme “127 Horas” que entra em cartaz no Cinemark Jardins. Baseado em fatos reais, a película se detém nas 127 horas de agonia que o alpinista Aron Ralston (James Franco) passou no Parque Nacional de Canyonlands, em Utah, quando se viu preso em uma fenda profunda e estreita de um cânion.

Com pouca água e comida, sem uma jaqueta para enfrentar as noites geladas, ele lembrou que não havia avisado ninguém para onde estava indo, e essa demora em se soltar poderia ser fatal, já que poderia morrer desidratado ou afogado em uma inundação – ele estava 30 metros abaixo do nível do solo.

Usando sua câmera de vídeo, Aron começou a gravar mensagens de despedida para sua família e amigos, agradecendo a vida cheia de aventuras, esperando que alguém achasse essa gravação com seus últimos dias de vida. Mas na manhã de quinta-feira ele teve uma inspiração divina que poderia resolver o “enigma” da rocha, um extremo e desesperado ato de bravura que salvaria a sua vida.

É impressionante a atuação de James Franco que ganhou uma indicação este ano ao Oscar de Melhor Ator. Ele convence o espectador da transformação física e psíquica que o personagem sofre ao longo de cinco dias em situação crítica (com uma grande pedra esmagando o seu braço direito).

O diretor Danny Boyle também não decepciona, imprimindo uma narrativa bastante ágil, em que mistura imagens captadas da câmera de Aron, com flashbacks de sua infância e os delírios do alpinista. O mosaico imagético é bem editado, o que favorece à produção não se tornar algo maçante para aqueles que escolheram ficar durante 100 minutos sentados numa poltrona de cinema, acompanhando o martírio do alpinista solitário.

O filmes do Cine Cult são exibidos diariamente, às 14h, no Cinemark, com ingressos a preços populares R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Texto: Suyene Correia

Fonte: Bangalô Cult

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dica de rádio ...

Eu gosto de rádio, mas rádio em Aracaju é osso ...

Por sorte, neste admirável mundo novo em que vivemos nós podemos fazer qualquer atividade ao som que quiser, na hora que quiser. Inclusive ao som de quase todas as radio de quase todo o mundo ao vivo, em streaming, via internet. Para ouvir trabalhando eu prefiro ouvir alguma radio comercial porém decente, que não ofenda meus ouvidos mas ao mesmo tempo não fique me chamando a atenção para algo que eu nunca tinha ouvido. Mais do mesmo, mas coisa boa. Costumo ouvir a Kiss FM de São Paulo, mas já estava ligeiramente enjoado e em busca de uma opção "palatável" - e baseada no rock, evidentemente. Descobri um programa bem bacana que rola todo dia das 15 às 17 horas na Ipanema FM, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Chama-se "Programa Dinâmico" e é uma salada musical deliciosamente digestiva feita com a participação dos ouvintes, via Facebook - hoje eu pedi "Hurt", do Nine Inch Nails, na versão de Johnny Cash, e rolou.

Para ouvir vá ao site da radio e clique no link Ao Vivo.

No Facebook, procure Dinamico Ipanema

O que rolou no programa de Hoje:

Dinâmico - 01/06/2011
15h
LIVE Operation Spirit (The Tyranny Of Tradition)
RYAN ADAMS Burning Photographs
WHO A Quick One While He's Away (ao vivo no RS Rock N Roll Circus)
TARANATIRIÇA Rockinho
PAIN OF SALVATION Morning On Earth
SMITHS Heaven Knows I'm Miserable Now
KAISER CHIEFS Little Schocks
15:30
PEDRO LUIS & A PAREDE Rap Do Real
MEGADETH No More Mr. Nice Guy
ALICE COOPER Only Women Bleed
16h
SHUGGIE OTIS Inspiration Information
EDNARDO Pavão Misterioso
BEASTIE BOYS Jimmy James
YARDBIRDS I'm A Man
PRODIGY Out Of Space
GUETO Emoção
AC/DC Hells Bells
16:30
THURSTON MOORE This Train Is Bound For Glory (de Woodie Guthrie)
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JOHNNY CASH Hurt
FRANK SINATRA New York New York
CAMISA DE VÊNUS O Adventista
ESQUADRILHA DA FUMAÇA Música Secreta

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Clique nas imagens para ampliar.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Maconheiros de todo o mundo, uni-vos

Eu não fumo. Nada - sou um asmático fodido. Mas defendo qualquer causa libertária, mesmo que não tenha nada a ver comigo diretamente. Defendo a causa gay, o direito à escolha das mulheres com relação ao aborto e, porque não, a discriminalização da maconha. Não fumo maconha mas vivo rodeado de maconheiros (e consumidores de outras substancias bem menos inofensivas) há mil anos, e nenhum deles nunca tentou me matar, assaltar ou muito menos estuprar (graças a Deus!). Portanto, foda-se: tem mesmo é que liberar mesmo essa porra. Até Fernando Henrique Cardoso já descobriu isso - muito embora de maneira oportunista, já que eleitoralmente ele já é mesmo carta fora do baralho e portanto pode tranquilamente se dedicar a uma causa, a princípio, anti-popular que lhe renda ibope.

E a idéia parece estar mesmo começando a deixar de ser um tabu, já que até aqui, na provinciana capital do menor estado do país, foi realizada uma Marcha da Maconha relativamente bem sucedida, com cerca de 400 participantes. Cortesia da repercussão negativa da repressão brutal e sem sentido patrocinada pelos trogloditas da policia paulista, comandada pelo proto-fascista Geraldo Alckimin, da Opus Dei, e da Guarda Civil Metropolitana do incolor e inodoro Gilberto Kassab, cujo novo partido não é "nem de direita, nem de esquerda, nem do centro".

Mas a maior surpresa mesmo foi ver no Fantástico, da ainda toda-poderosa Rede Globo, uma materia correta e sem alarmismos xenófobos sobre o tema. Abaixo, reproduzo a reportagem de Rian Santos, do jornal do Dia, sobre a marcha em Aracaju, e a íntegra do texto da reportagem da revista semanal dominical.

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Marcha afronta a caretice de Aracaju

Quem marcha sai de um lugar na esperança de alcançar outro. Na tarde do último domingo, cerca de quatrocentos jovens – chute do próprio escrevinhador dessas palavras rasteiras. Uma estimativa deliberada, de quem estava no meio da muvuca e tentava mensurar o sucesso do movimento de alguma maneira – caminharam pela orla de Atalaia exercendo o maior de todos os direitos garantidos pela nossa Constituição. As câmeras da TV Sergipe não deram as caras. Não vi sequer um repórter com crachá pendurado no pescoço acompanhando a galera. Não faz mal. O que importa é que a gente estava lá.

Liberdade de expressão não é brincadeira e a saúde de qualquer democracia está sujeita a seu exercício. Quase nenhuma fumaça, muita alegria. Na concentração, os organizadores da marcha deixaram claro. Embora o corpo seja uma festa, ninguém ali estava promovendo um carnaval. O objetivo era chamar atenção para a causa, provocar o debate. A única motivação da Marcha da Maconha realizada em Aracaju foi a provocação de uma discussão franca a respeito das políticas públicas sobre drogas no Brasil.
Os argumentos que embasam a luta são, além de muito conhecidos, abundantes. Não é preciso o conhecimento de um cientista social para deduzir a relação entre uma legislação que criminaliza, além do tráfico, o cultivo e o consumo de uma planta, e a violência vivenciada pela população no cotidiano das cidades. As palavras de ordem entoadas durante a caminhada, entretanto, resumiam a peleja de maneira mais sucinta e direta. “Dilma Rousseff, legalize o beck!”; “U-hu Aracaju! Todo mundo fuma um!”; “Polícia é pra ladrão, pra maconheiro não!”; “Pula, sai do chão, quem é contra a repressão!” e, a menos politizada, e talvez por isso mesmo a que mais emocionou os maconheiros presentes, “Eu sou maconheiro, com muito orgulho, com muito amor”.

Quando a coisa bate – Antes da dispersão, a marcha passou pela Passarela do Caranguejo, onde a manifestação pacífica ganhou forte conotação política. Ali, distraídos pelo barulho dos bares, nossos familiares, nossos vizinhos, foram obrigados a nos reconhecer entre os maconheiros a quem sempre consideraram marginais. Pense no susto!

O pior é que não somos apenas os quatrocentos que saíram de casa e caminharam alguns metros para afrontar a caretice de uma cidade provinciana. Nos prédios mais altos de Aracaju, residem maconheiros. Nas melhores escolas da cidade, estudam maconheiros. Na fila do pão, na academia, no cinema, entre os amigos de sua filha, pode estar um maconheiro. Você quer mesmo que esse povo todo – um pessoal educado, que lhe dá bom dia ao entrar no elevador e cede a vez no supermercado para os idosos serem atendidos primeiro – vá em cana por causa de um pedaço de mato?

por Rian Santos - riansantos@jornaldodiase.com.br

Foto: Igor Andrade




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Um ex-presidente da república roda o mundo, grava um documentário e levanta uma bandeira bem polêmica. Segundo ele, o consumo de maconha deveria ser regulamentado.

Sábado, 21 de maio, Centro de São Paulo. A Marcha da Maconha, proibida pela Justiça, vai às ruas e é reprimida pela polícia.

“Não adianta querer tratar um debate de ideias com porrada. A gente não vai aceitar, a gente vai continuar”, argumenta o jornalista Júlio Delmanto.

As vozes pela descriminalização, ou até pela liberação da maconha, estão ganhando apoio de peso. O líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Teixeira, já defendeu publicamente até a formação de cooperativas para o plantio de maconha.
E agora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, prestes a completar 80 anos, conduz um documentário que defende a descriminalização do uso de drogas e a regulação do uso da maconha.

Por que o presidente resolveu meter a mão nesse vespeiro? “Porque é um vespeiro. As pessoas não tem coragem de quebrar o tabu e dizer: vamos discutir a questão”, diz Fernando Henrique Cardoso.

No filme "Quebrando o tabu", que estreia nesta semana, Fernando Henrique Cardoso e ex-presidentes do México, Ernesto Zedillo; da Colômbia, César Gaviria; e dos Estados Unidos, Jimmy Carter e Bill Clinton reconhecem: falharam em suas políticas de combate às drogas.

Perguntado sobre o motivo pelo qual não foi implementado em seu governo, Fernando Henrique Cardos responde: “Primeiro porque eu não tinha a consciência que tenho hoje. Segundo que eu também achava que a repressão era o caminho”.

Todos concluem que a guerra mundial contra as drogas, iniciada há 40 anos, é uma guerra fracassada. Bilhões de dólares são gastos no mundo inteiro, mas o consumo cresce, e cresce o poder do tráfico, espalhando a violência. As armas constantemente recolhidas dos traficantes no Rio de Janeiro são a prova de que a polícia trabalha enxugando gelo. É preciso ir além das apreensões de drogas e do combate aos traficantes.

“Um ponto central é questionar a lógica de guerra, não é defender o uso da droga. É apenas dizer: ‘vamos ver, vamos pensar se não existem jeitos mais inteligentes e mais eficientes de lidar com esse assunto’”, diz o diretor do filme Fernando Gronstein Andrade.

No Brasil, a maconha é a droga mais difundida. Consumida por 80% dos usuários de drogas; 5% da população adulta. Mas é inofensiva a ponto de ser legalizada?

“Não há droga inofensiva. Qualquer coisa depende da dose, da sensibilidade do indivíduo. Agora, entre as drogas usadas sem finalidade médica para fins de divertimento, para fins de recreação, a maconha é bastante segura”, afirma Elisaldo Carlini,médico da Unifesp especializado em drogas.

Palavra de quem há mais de 40 anos estuda a questão e trata dependentes. O professor Elisaldo Carlini representa o Brasil nas comissões de drogas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das Nações Unidas.

“Defendo totalmente a descriminalização”, diz Carlini.

“Eu sou contra porque quanto mais fácil você tornar a droga disponível na sociedade, maior será o consumo”, defende o psiquiatra da Unifesp Ronaldo Laranjeira.

O professor Ronaldo Laranjeira trata de dependentes químicos há 35 anos. “Ela é uma droga perigosa. Um dos principais exemplos é que 10% de todos os adolescentes menores de 15 anos que experimentam com a maconha vão ter um quadro psicótico”, afirma.

Na lista das drogas mais perigosas publicada na revista médica “Lancet”, respeitada no mundo inteiro, a maconha aparece em 11º lugar, bem atrás do álcool e até mesmo do cigarro, que são vendidos legalmente.

“Álcool é mais letal do que maconha. Não se diz isso, mas é. Pelo menos os dados mostram isso. Então, temos que discutir e diferenciar, regular o que pode e o que não pode”, defende o ex-presidente Fernando Henrique.

Regular não é o mesmo que legalizar. E foi isso que Fernando Henrique Cardoso descobriu indo para a Holanda. Lá a maconha é vendida em cafés. Mas o governo não legalizou o uso indiscriminado. Funciona assim: a regulamentação determina que você não pode consumir nas ruas, nem vender fora dos cafés; nos locais determinados, fuma-se maconha sem repressão policial.

“Na Holanda é muito interessante. Os meninos de colégio – eu conversei com eles - não têm curiosidade pela maconha, porque é livre”, garante Fernando Henrique Cardoso.

O consumo de maconha é tolerado e, mesmo assim, vem caindo. Desde 2006, a lei brasileira já trocou a prisão por penas alternativas para quem é pego com drogas e considerado usuário, não traficante. Mas que quantidade de drogas, que situação caracteriza o tráfico? Isso a lei deixa a critério do juiz.

É uma linha difícil de estabelecer. Como o doutor Drauzio Varella explica no documentário: “Como a droga é criminalizada, é um crime você possuir a droga, não vão dez pessoas comprar se uma pode comprar e dividir entre as dez. E o menino que usa droga percebe que, dessa maneira, também se ele vender um pouquinho mais caro, a dele sai de graça”, argumenta o médico no filme.

Nesse caso, o usuário vira traficante e acaba na prisão, onde, como se sabe, a droga circula facilmente.

Em Portugal, o consumo de entorpecentes não dá mais cadeia desde 2001. Mas há uma penalidade: o usuário tem que fazer tratamento médico e prestar serviço social.

“A maior parte dos que usam drogas quer sair dessa situação. E a existência de um caminho que não os leve à cadeia, mas que leve ao tratamento, é positiva”, ressalta Fernando Henrique.

O ministro da Saúde de Portugal explica que dez anos depois o tratamento é gratuito para dependência em todo tipo de droga – da maconha ao crack.

“Dez anos depois, o que nós vemos? Os nossos jovens consomem menos drogas ilícitas”, revela o ministro.

“Eu não vejo nenhum sentido em criminalizar o uso e a posse dessas drogas todas. É um caso de saúde, não é um caso de polícia”, avalia Elisaldo Carlini.

Mas qual é a estrutura que o Brasil tem hoje para tratar seus dependentes?

“Essas pessoas ficam perambulando pelo sistema de saúde ou perambulando, literalmente, pelas ruas, no caso dos usuários de crack. E você fica desassistindo ativamente essa população”, comenta Ronaldo Laranjeira.


O Ministério da Saúde já fez as contas do que falta para tratar dependentes químicos: 3,5 mil leitos hospitalares, 900 casas de acolhimento e 150 consultórios de rua, para chegar às cracolândias, por exemplo. Mas a previsão é atingir essa meta só em 2014.

“Como ministro da Saúde, tenho opinião como ministro. Exatamente isso: nós do Sistema Único de Saúde (SUS) precisamos reorganizar essa rede e ampliá-la rede para acolher usuários de drogas, sejam lícitas ou ilícitas”, afirma Alexandre Padilha.

Na Suíça e na Holanda, existem os projetos chamados de redução de danos: dependentes de drogas pesadas, como heroína, recebem do governo a droga e agulhas limpas.

“É terrível ver isso. Mas você vê também que ali está um doente, não um criminoso”, constata Fernando Henrique Cardoso.

Triste, mas é essa redução de danos que evita a transmissão de doenças infecciosas, mortes por overdose e a ligação dos usuários com o crime.

“Eu não estou pregando isso para o Brasil, porque a situação é diferente, o nível de cultura, riqueza e violência é diferente. Cada país tem que buscar seu caminho. É isso que eu acho fundamental. Quebrar o tabu, começar a discutir e ver o que nos fazemos com a droga”, diz Fernando Henrique Cardoso.

Ouvindo um ex-usuário famoso, o documentário dá uma pista: campanhas de prevenção abertas e honestas podem funcionar.

“O grande perigo da droga é que ela mata a coisa mais importante que você vai precisar na vida: o seu poder de decidir. A única coisa que você tem na sua vida é o seu poder de decisão. Você quer isso ou quer aquilo? Seja aberto, seja honesto. Realmente, a droga é fantástica, você vai gostar. Mas cuidado, porque você não vai poder decidir mais nada. Basta isso”, alerta o escritor Paulo Coelho.
Painel do Fantástico

O Fantástico abriu uma votação para saber a votação do público sobre a regulamentação do uso da maconha no Brasil. O resultado da pesquisa instantânea do nosso painel foi: 57% dos telespectadores que votaram defenderam que o consumo deve ser permitido e regulamentado.

domingo, 22 de maio de 2011

“PRIMEIRA ANOTAÇÃO” de “Nós”, de Evgueny Zamiatin

Eu simplesmente copio – palavra por palavra – o que foi publicado hoje no Jornal do Estado:

“Dentro de 120 dias termina a construção do integral. Está próxima a grande hora histórica, quando o primeiro integral subirá ao espaço cósmico. Há mil anos vossos heróis ancestrais submeteram todo o globo terrestre ao poder do Estado Unificado. Tendes pela frente uma façanha ainda mais gloriosa: com o integral vítreo, elétrico e ígneo integrar o nivelamento infinito do universo. Devereis submeter ao jugo benéfico da razão entes desconhecidos que habitam outros planetas – talvez ainda na condição selvagem da liberdade. Se eles não entenderem que nós lhes levamos a felicidade matematicamente infalível, nosso dever é obrigá-los a serem felizes. Mas antes das armas experimentaremos a palavra.

Em nome do Benfeitor anunciamos a todos os números do Estado Unificado:

Cada um, que se sentir com forças, é obrigado a compor tratados, poemas, manifestos e odes ou outras composições sobre a beleza e a grandeza do Estado Unificado.

Esta será a primeira carga que o integral levará.

Viva o Estado Unificado, vivam os números e Viva o Benfeitor”.

Eu escrevo isto e sinto que me ardem as faces. Sim: integrar o grandioso nivelamento universal. Sim: endireitar a curva selvagem, retificá-la pela tangente – assíntota – por uma reta. Porque a linha do Estado Unificado é uma reta. Grandiosa, divina, exata e sábia reta – a mais sábia das linhas.

Eu – D-503 – sou construtor do integral – eu sou apenas um dos matemáticos do Estado Unificado. Minha pena, habituada às cifras, não consegue criar a música de assonâncias e rimas. Eu apenas tento escrever aquilo que vejo, que penso – ou melhor, o que nós pensamos (exatamente isto – nós, e que “Nós” seja o título de minhas anotações). Mas isto será derivado de nossa vida, da vida matematicamente perfeita do Estado Unificado e se é assim, acaso não será, por si só, independentemente de minha vontade, um poema? Será – acredito e sei.

Eu escrevo o que sinto: ardem-me as faces. Provavelmente isto se parece com o que a mulher experimenta, quando sente pela primeira vez em si a pulsação do novo ser ainda cego e minúsculo.Sou eu e ao mesmo tempo não sou eu. E longos meses terei de nutri-lo com minha própria seiva, com meu sangue e depois – arrancá-lo de mim entre dores e colocá-lo aos pés do Estado Unificado.

Mas eu estou pronto. Como cada um ou quase cada um de nós. Estou pronto.

Traduçao: Clarice Lima Averina

Considerações sobre "Nós":

A última edição de "Nós", de Zamiátin, publicada no Brasil, é tosca, com papel e tratamento editorial de péssima qualidade. O livro já havia sido editado duas vezes antes por aqui, a primeira pela Edições GRD, em 1962, sob o título "A Muralha Verde", traduzido do francês. A segunda edição brasileira foi pela extinta Editora Anima, em 1983, traduzida do inglês mantendo o título original. Aliás, um dos méritos da nova edição é que ela foi traduzida diretamente do russo, num excelente trabalho.

Evgueny Zamiatin, autor de Nós, era engenheiro. Isso explica a profissão do personagem principal, D503, matemático, o construtor do Integral. O Integral que levará a felicidade do Estado Unificado aos tantos mundos selvagens existentes no universo.

É aos habitantes desses mundos selvagens que D503 dirige suas anotações, para a glória do Benfeitor e do Estado Unificado. Eles devem receber a felicidade da vida racional nem que para isso seja necessário subjugá-los.

Assim D503 vai narrando as maravilhas da vida em seu mundo (o nosso, 1000 anos no futuro), a forma como cada número (pessoa) é peça de uma engrenagem maior e como cada um é perfeitamente substituível em prol do bem geral. Fala de suas casas com paredes de vidro, pois ninguém tem nada a esconder, da unanimidade do pensamento, da beleza das formas geométricas, de como o estado vem trabalhando arduamente para poder cancelar as horas pessoais de cada um e como isso seria bom.

A narrativa em primeira pessoa, a contradição entre o discurso matemático do protagonista e a confusão mental em que acaba se envolvendo tornam o livro bem mais intimista que 1984 e Admirável Mundo Novo. Chega a beirar o surrealismo, com as descrições fantásticas que faz das coisas e dos mecanismos de seu mundo.

D503 quer reduzir o comportamento humano a uma equação racional, com números inteiros. Na verdade é isso o que faz o Estado Unificado ao controlar e ocupar cada segundo da vida dos habitantes (mesmo relações sexuais acontecem mediante registro público prévio, com hora e local estabelecidos). Porém algo não se encaixa em sua própria equação, há um número irracional, uma raiz quadrada de -1 que insiste em aparecer como resultado.

O livro expõe de forma direta e concisa, a falácia do totalitarismo. Não se dirige especificamente ao stalinismo, facismo ou nazismo, embora seja possivel reconhecer facetas desses sistemas, mas a qualquer forma de poder excessivo sobre as pessoas.

Huxley elege o fordismo e suas linhas de produção como representação do mecanicismo de seu mundo imaginário, Zamiátin busca em Taylor e seus estudos de tempo e movimento a justificativa para o controle absoluto de todos os movimentos dos homens: "E que beleza exata: nem um gesto supérfluo, sem um desvio, nem uma viragem". O taylorismo aplicado à vida pessoal de cada um: Imagine se cada um se comportasse em casa, na rua e nas horas de folga como se estivesse trabalhando no Mc Donald!!!! Mas por sorte existe a raiz quadrada de -1, que impede D503 de agir conforme um relógio

ZAMIÁTIN, Evgueny. Nós. São Paulo: Alfa-Omega, 2004, 212 p.

Sobre o autor da resenha: Me batizaram Celvio Derbi Casal, quando no final da primavera de 1980 eu entrei nesse jogo. A partir daí o mundo nunca mais seria o mesmo, para mim. Inclusive tenho um papel, assinado por um desconhecido, comprovando a minha existência naquele momento. Terei também um para minha morte.

Vivi, de lá para cá, 26 anos que, acredito, tenham me habilitado de alguma forma ao convívio social. Não totalmente (esse blog é uma prova disso).

Pretendo viver mais alguns anos, apenas o suficiente. Por enquanto também pretendo continuar usando esse blog como catarse e válvula de escape das pressões constantes que acompanham, inevitavelmente, uma vida.

Comentários:

Duas observações:
a) “Nós” foi escrito em 1920, 1921. Portanto, é improvável que ele faça alusão ao fascismo, ao nazismo ou mesmo ao stalinismo. Simplesmente porque, à época, Hitler era apenas um obscuro agitador político de extrema direita e Mussolini e Stalin ainda não haviam chegado ao poder na Itália e URSS, respectivamente. A sociedade do Benfeitor foi inspirada na então jovem Rússia comunista (ainda com Lênin à frente) e nos preceitos da Administração Clássica (Taylor, Ford). Zamiatin escreveu “Nós” com um olho nas novas formas de organização social em voga no início do século XX e com outro na utopia do progresso.
b) D-503 se ferrou pelo mesmo motivo do Winston: uma buça…

por "pai do Mongol"

“Zamiatin, falecido em Paris em 1937, foi escritor e crítico russo, ele publicou uma série de livros tanto antes, como depois da revolução. “Nós” foi escrito por volta de 1923 e apesar de lá não se tratar absolutamente da Rússia e não ter ligação direta com a política contemporânea – é um quadro fantástico da vida no século XXVI dC – foi proibida a publicação da obra por motivos de caráter ideológico.”

Este é um trecho da crítica do romance “Nós” escrita por George Orwell, autor de “1984″ Aqui ele diz com razão que o livro não trata absolutamente da Rússia, quando ele foi escrito o país estava em plena guerra civil. Isto é, o livro foi escrito não em 1923, mas em 1920.

por Rosa Chiarelli

Rosa, tu e o Flávio (vulgo Pai do Mongol) tem razão, o livro não se refere diretamente aos regimes totalitaristas em questão, eu já tinha concordado com o Flávio, mas não aqui. Me fugiu o fato de o livro ter sido escrito antes disso, mas de qualquer forma, embriões dessas formas de poder já se desenvolviam pela europa, os motivos para a proibição da venda já indicam algo nesse sentido e certamente a comparação pode ser feita sem qualquer prejuízo do impacto da obra.

por The Derbi

“Aliás, um dos méritos da nova edição é que ela foi traduzida diretamente do russo, num excelente trabalho”
Agradeço pela parte que me toca. Fui eu quem traduziu o livro “Nós” do russo ao português.

por Clarice Lima Averina

+ aqui.

sábado, 21 de maio de 2011

Evil Empire

"No final de abril, o WikiLeaks divulgou as fichas dos 758 presos de Guantánamo. O vazamento mostrou que na prisão norte-americana instalada em solo cubano há menores de idade, pessoas sem ligação com grupos terroristas e até portadores de deficiência mental. O governo dos EUA reconheceu a autenticidade das fichas, mas disse que algumas delas estavam “desatualizadas”."

"O único suspeito de ter vazado essas informações secretas é um jovem militar chamado Bradley Manning, hoje confinado em uma solitária na base militar de Quantico, no estado da Virgínia. Mesmo sem provas, vive, há nove meses, sob condições classificadas como tortura por organizações internacionais. Julian (Assange) jamais confirmou a fonte. “Manning é atualmente o preso político número um dos Estados Unidos. Já encarou mais de 310 dias de confinamento em uma solitária de uma prisão militar, e ainda nem foi a julgamento. É uma situação muito sombria”, comenta.

Estas e outras informações estarrecedoras sobre a potência imperial que assombra o mundo posando de paladina da democracia estão na ótima entrevista com Julian Assange, do Wikileaks, publicada na revista Trip deste mês. Leia aqui.