segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

De onde menos se espera ...

Nunca esperei nada de interessante vindo de um participante do Big Brother Brasil, mas até que o Jean Willys, lá de Alagoinhas, Bahia, tem surpreendido positivamente. Quanto ao energúmeno do Jair Bolsonaro, sem comentários ...

A frente gay no paredão do Congresso

Vencedor do programa BBB, o deputado Jean Wyllys tenta criar uma bancada em defesa dos direitos dos homossexuais, mas esbarra na resistência dos parlamentares com aversão ao tema.

por ANA ARANHA, para a Revista Época

A chegada do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), primeiro gay assumido a levantar a bandeira do movimento, provocou agitação no Congresso. Liderado pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), um grupo começa a se alinhar em uma bancada informal antigay. Ela é formada por deputados da Frente Evangélica, somados aos da Frente da Família e a outros que compartilham a contrariedade em ver a discussão sobre direitos homossexuais avançar.
Wyllys começou seu mandato na ofensiva. Ele vai propor um projeto de lei que institui o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, em vez de insistir apenas na regulamentação da “união civil” – termo adotado por alguns integrantes do movimento gay, para evitar a discussão no campo religioso. “Tem de ser casamento civil porque é o mesmo direito para todos”, afirma. “Quando um cônjuge morre, o parceiro da união estável só tem direito a herança se não houver nenhum herdeiro direto. Já no casamento, ele é herdeiro direto.” Sua primeira ação, como deputado, foi recolher assinaturas para a Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).
Na semana passada, Wyllys sentiu uma pequena demonstração do incômodo gerado por sua movimentação. Menos de 24 horas depois de ter começado a percorrer a Câmara pedindo assinaturas para a Frente, sua página no Facebook foi bloqueada. Isso ocorreu porque uma série de usuários da rede fez uma ação coordenada para denunciar a página como falsa. Wyllys diz que sabia que sua presença iria provocar reação e que está preparado para o embate. Jornalista e professor universitário, ele demonstrou habilidade para o debate público quando ganhou o programa Big Brother, em 2005, contra um grupo de participantes que tinham em comum o orgulho da masculinidade. Na arena política, porém, vai enfrentar opositores mais experientes.
A principal voz na Câmara contra a discussão sobre direitos dos homossexuais é a de Bolsonaro, deputado no sexto mandato e capitão do Exército. Enquanto os representantes da Frente Evangélica e os da Família medem as palavras ao tecer críticas aos projetos que combatem a homofobia, Bolsonaro é desabrido e promete enterrar os projetos do colega (leia as entrevistas de Wyllys e Bolsonaro abaixo).
Segundo João Campos (PSDB-GO), líder da bancada evangélica, o grupo respeitará as posições de Wyllys e de sua Frente. Um dos pontos de atrito entre eles é o material contra a homofobia, a ser distribuído pelo Ministério da Educação nas escolas. “Somos contra discriminação, mas não queremos que o governo faça apologia da homossexualidade”, diz Campos.
No Senado, a Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT é liderada pela senadora Marta Suplicy (PT-SP), que desarquivou o projeto de lei que torna a homofobia crime. Marta e Wyllys começam a procurar parlamentares simpáticos a seus projetos. “Vamos atrás dos que se inclinam a nos apoiar, mas não têm coragem por questões eleitorais”, diz Marta. Não foi difícil mapear o inimigo. Wyllys precisa, agora, encontrar os aliados para o dia do paredão.

Jean Wyllys: "O movimento GLBT chegou"
O deputado estreante pretende propor o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, uma evolução da união civil
ÉPOCA – Qual é a pauta da Frente GLBT?
Jean Wyllys – Primeiro, a defesa do projeto Escola Sem Homofobia. Depois, também vou protocolar o projeto de casamento civil [entre pessoas do mesmo sexo]. Vou propor e protocolar no dia do lançamento da frente. Existe um projeto tramitando de união estável, nós vamos propor outro. Não é “casamento gay”. Quando a imprensa coloca assim, provoca um equívoco quanto à noção do sacramento do casamento. Não estamos tratando disso, mas de um direito civil. O Estado é laico e o casamento é um direito civil, ele tem que ser estendido ao conjunto da população, independente da orientação sexual e identidade de gênero. Se os homossexuais têm todos os deveres civis, então têm que ter todos os direitos. É assim que funciona uma república democrática de verdade.
ÉPOCA – E o projeto que criminaliza a homofobia?
Jean Wyllys – O projeto que criminaliza a homofobia foi desarquivado agora pela senadora Marta Suplicy, que faz parte da Frente no Senado. Esse projeto altera a lei do racismo e inclui discriminações por identidade de gênero e orientação sexual. Essa lei não vai proibir ninguém de continuar odiando homossexual, para aqueles que odeiam. Quem quiser que continue alimentando seus ódios, privadamente. É um direito. Agora, publicamente ela não pode impedir um homossexual de acessar um direito e nem de expressar publicamente a sua sexualidade. E quase sempre o homossexual é impedido de acessar um direito e expressar sua homossexualidade de maneira violenta.

ÉPOCA – Como é a reação a suas ideias?
Wyllys – Meu Facebook foi tirado do ar em uma ação orquestrada. É natural que minha presença na Câmara provoque uma reação. O movimento GLBT chegou ao Congresso. Por enquanto, não tive muito contato com os deputados da bancada evangélica e cristã. Vou ter esse contato porque estou reestruturando a Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT. Ela existiu com o nome Frente Parlamentar pela Livre Expressão Sexual, mas como a maioria das frentes aqui, não tinha uma agenda de atividades e ação concreta. A primeira decisão que tive, depois de uma conversa com a Associação GLBT, é que a frente vai funcionar de verdade. Acho que há condições de criar um ambiente propício. Mesmo no contato com a bancada evangélica, embora muitos deputados tenham se colocado publicamente. Eu acredito no meu papel pedagógico, de sentar e explicar as questões que merecem ser explicadas para que os preconceitos sejam derrubados. Eu não sei se vai haver terreno fértil do outro lado. Mas para mim o exercício da política é esse.

ÉPOCA – Como vê a reação contra o programa que combate a homofobia na escola?
Wyllys – É uma ignorância que persiste por má-fé. O material não ameaça os valores cristãos. Pelo contrário, ele assegura algo que é valoroso para os verdadeiros cristãos: o valor da vida e o respeito ao outro. Quem fala o contrário fala por má-fé, porque não quer ver seus espaços de poder ameaçados.

ÉPOCA – O deputado Bolsonaro diz que o material incentiva a homossexualidade.
Wyllys – Bolsonaro é a caricatura de um deputado nostálgico de tempos sombrios de ditadura e repressão às liberdades. Às vezes penso que nem ele acredita no que diz. É mais para produzir um efeito midiático e despertar o que há de pior nas pessoas para ter ganho eleitoral. Ele faz uso da ignorância popular e dos preconceitos que são reproduzidos e dos quais as pessoas não se livram exatamente porque não há um projeto sério que radicalize na defesa dos direitos humanos no país.

ÉPOCA – Como avaliou o material do kit Escola Sem Homofobia?
Wyllys – O material cumpre a função a que se propõe. Ao contrário do que alguns deputados de orientação evangélica têm falado, cumpre muito bem o que se propõe sem ferir brios, sem ferir a moral. É um material muito bem elaborado que contribui para construir uma cultura livre de direitos humanos e diversidade na orientação sexual nas escolas, que é hoje o espaço privilegiado de reprodução da homofobia.

ÉPOCA – Como o material vai mudar essa realidade?
Wyllys – Ele é destinado aos formadores de opinião dos alunos, aos monitores e professores. Hoje o bullying e a homofobia são praticados largamente pelos alunos, mas também pelos professores que não reconhecem outras sexualidades que a heterossexualidade. Quando reconhecem, é sempre numa perspectiva de discriminação, de algo menor. Por exemplo, os professores de ensino médio tem uma dificuldade enorme de lidar com as transexuais e travestis. Não deixam que usem o nome social e, quando usam, transformam em objeto de injúria – o que faz essas alunas abandonar a escola. Os professores não sabem lidar com os alunos afeminados, que fogem dos papéis de gênero definidos pela sociedade.
Eu fui um menino que fugia das normas. Não curtia futebol, das brincadeiras de briga. Eu gostava de desenhar e de ler e por isso eu sofria muito e não era protegido pelos meus professores. Muito pelo contrário, eu era constrangido a me enquadrar naquele modelo ali.

ÉPOCA – Alguma vez o senhor sofreu violência por parte dos professores?
Wyllys – Violência física não, mas simbólica constantemente. Os professores sempre me constrangeram. Eles diziam ‘tome jeito de menino’. Só não sofria mais porque era um excelente aluno. O material do projeto Escola sem Homofobia incide no imaginário desses professores, sensibiliza-os para outras realidades. Principalmente os vídeos que dramatizam as histórias de vida. Em um país como o nosso, em que a telenovela tem papel preponderante na formação das mentalidades, a dramatização das histórias das vítimas da homofobia é fundamental para sensibilizar o professor para essa outra existência violentada permanentemente.
Além disso, tem um material escrito que explica o que é identidade de gênero de maneira didática. Para que as pessoas compreendam, por exemplo, que existem pessoas como as transexuais e que a maneira delas se perceberem não está de acordo com o que a natureza lhes deu. A saúde psíquica dessas pessoas depende da aceitação do outro. O professor tem que entender que existem diferentes orientações sexuais e que o papel de gênero do menino pode ser dilatado. Quem foi que recebeu um fax dos céus dizendo que menino se comporta dessa e não daquela maneira? Que tem que gostar dessa ou daquela cor? A escola tem que ser um campo aberto para a pluralidade de comportamentos e existências.

Jair Bolsonaro: "Vamos fazer de tudo para enterrar"
Capitão do Exército, o deputado não reconhece a legitimidade da discussão sobre direitos dos homossexuais
ÉPOCA – Como vê a criação da Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT?

Jair Bolsonaro – O primeiro passo para desgraçar um país é mexer na célula da família. Eles vão atacar agora o ensino fundamental, com o “kit gay”, que estimula o “homossexualismo” e a promiscuidade. Tem muito mais violência no país contra o professor do que contra homossexuais. Quando eles falam em agressões, é em horário avançado, quando as pessoas que têm vergonha na cara estão dormindo. A regra deles é a porrada e querem acusar nós, os normais, os héteros.

ÉPOCA – O senhor não teme estimular a violência com essa retórica?
Bolsonaro – Negativo. Só quero que a opção sexual se revele na intimidade do quarto, não obrigar um padre a casar um gay. O bigodudo vai dar um beijo na boca do careca, na frente dos convidados, e isso é legal?

ÉPOCA – Como vai ser o diálogo com o deputado Jean Wyllys?
Bolsonaro – Vou ter atrito com ele no campo das ideias e dos projetos, que vamos fazer de tudo para enterrar nas comissões. Se depender de mim, e de muitos outros, não vai para a frente. Em nome da família e dos bons costumes. Eles vão querer o quê? Vamos colocar um espanador na orelha? Vão vender os serviços de “homossexualismo” deles, é isso?

ÉPOCA – Se a homofobia virar crime, o senhor vai parar de criticar os gays?
Bolsonaro – Tenho imunidade para falar. Não vou medir palavras. Eu defendo a pena de morte, que é mais grave que criticar homossexual. O pessoal me chama de retrógrado, dinossauro, mas a verdade é que o Brasil está piorando desde o fim do regime militar.

ÉPOCA – O kit contra homofobia nas escolas não é importante para reduzir a violência contra os alunos gays?
Bolsonaro – Não tem nada a ver. Ele está é estimulando o homossexualismo e a promiscuidade. Dependendo do público que você permite a informação, vai deturpar. Nesse kit, consta três filmetes, um deles é o “Encontrando Bianca”. A história é esquisita. É um menino, que pinta as unhas, que quer ser chamado de Bianca, que quer frequentar o banheiro feminino. E no final ele passa a ser uma referência na escola. Eles alegam que é da 5ª série em diante, mas não tem como você botar uma linha porque os prédios são de 1ª à 9ª série, como vai dizer que aqui só pode ver quem está na 5ª série para cima?

ÉPOCA – Qual é o problema do filme?
Bolsonaro – É um estímulo ao homossexualismo. É uma porta aberta para a pedofilia. Você vai aguçar a curiosidade dessa molecada numa idade muito precoce. Acho que a garotada vai para escola para aprender matemática, língua portuguesa, história e, se possível, um pouquinho de educação moral e cívica, que hoje não existe mais.

ÉPOCA – Em discurso, o senhor disse que “se um garoto tem um desvio de conduta (de orientação sexual), ele tem que ser direcionado para o caminho certo. Nem que seja pelas palmadas”. O senhor não teme estimular casos de violência dentro de casa, que podem levar a agressões físicas graves e até a morte?
Bolsonaro – Essa política de defender o coitadinho já está aí desde que o Figueiredo saiu e olha como está a situação da educação no país hoje em dia. O professor tem preocupação de dar nota baixa porque ele pode apanhar do aluno. No meu tempo, os meus colegas tinham medo de comentar nota baixa com os pais. Eu não quero abrir mão de dar umas palmadas na minha filha se preciso for. Tem um projeto de lei criminalizando isso aí. O espancamento, que é uma lesão física, está previsto em lei que você não pode, é crime. Mas, quando um filho nosso começa a ter desvios, ter comportamento violento, você pega uma cinta, dá três lambadas e ele se endireita. E se você pode direcionar o comportamento agressivo, porque não o comportamento delicado demais? Eu tenho pavor, Deus me livre um filho meu começar a entrar para esse lado de ser delicado demais.

ÉPOCA – O senhor acha que falar mal de gays publicamente é um direito?
Bolsonaro – Qual o problema? Eu vou continuar criticando porque eles querem ser uma classe de primeira categoria. É o plano do Projeto de Lei 122 [que criminaliza a homofobia] que está no Senado. Se aprovar aquele projeto e um dia eu tiver que aprovar alguém comissionado, eu já nem pego o funcionário se perceber que joga no outro time. Isso porque, na hora de ser mandado embora, você nunca sabe o que ele vai alegar. Olha que absurdo, numa escola, dois moleques de 16 anos começam a trocar beijos e, se o diretor advertir, começa com três anos de detenção. Quer dizer, começa com “kit gay” na escola, uma proibição como do PL 122, mais a lei da palmada, esse país vai virar terra de ninguém.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

gangrena gasosa por eles mesmos ...

Não, eles não são uma lenda urbana. Eles existem. E não, não acabou. A Gangrena Gasosa, primeira e única banda de Saravá Metal do universo, está viva e ativa, e acaba de lançar seu terceiro disco. Abaixo, uma geral na carreira deste originalíssimo "combo" de rock "pauleira" suburbano através de algumas entrevistas feitas em épocas diferentes, a começar pela mais recente, deste ano de 2011, publicada originalmente no Blog do programa de rock:

programa de rock - Finalmente foi lançado o terceiro disco “cheio” e “oficial” da Gangrena Gasosa. Conte-nos como foi todo o processo de concepção e gravação do mesmo – o repertório já estava pronto ou vocês compuseram músicas novas que nunca haviam sido antes gravadas, além das que já constavam do EP 666 ?

gangrena gasosa - “Se Deus é 10 SATANÁS é 666” é o primeiro disco que nos deixou realmente satisfeitos com o resultado. Pra mim esse disco foi premiado pelo nível dos profissionais que colaboraram. Tuta e Diogo Macedo do EME Studios, do Rio. Dupla foda de Barra Mansa que tinha gravado muita banda underground com resultados sensacionais e coisas diferentes como o grupo Strike e a Banda Revelação. Participaram das nossas percussões Elijan Rodrigues e Anjo Caldas, percussionista da Elba Ramalho e da Catapulta. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Rodrigão Duarte. No final das contas ainda recebemos uma ajuda inacreditável do Frejat. Mixamos e masterizamos no estúdio dele, o DuBrou’. O disco começou a ser produzido em 2004 quando eu, o Vladimir e depois o Chorão fomos apresentados pelo Rodrigão Duarte ao Anjo. Ele é um cara que agregou muito aos conceitos rítmicos e percussivos da banda. Seu entusiasmo em relação ao projeto nos fez acreditar novamente que o conceito funcionava, aí decidimos retomar as atividades. De cara nasceram músicas como “Chuta que é Macumba” e “Quem gosta de Iron Meiden também gosta de KLB”. Também já tínhamos uns esboços como a música-título, que tinha sido feita sob influência da turnê, com uma pegada muito rítmica e pesada. Depois de lançarmos o EP 6|6|6 no dia 6/6/06 com vendas somente pela internet, começamos a trabalhar músicas como “A SuperVia deseja a todos uma boa viagem” e “Black Velho”. Algumas ficaram pelo caminho como “Engodo We Trust”, “Você analisa muito (no sentido ANAL da palavra)” e “Trabalho pra 20 comer”. Entraram também músicas que não tinham registro oficial como “Artimanhas do Catiço” e “Cambonos from Hell”, que mudaram muito com a pegada atual. Esse disco ao mesmo tempo em que fecha um ciclo inicia outro que retoma as origens da Gangrena com uma pegada que nessa formação conseguimos alcançar. Tem muita raiva e muita vontade nele. É tipo uma madeirada na palhaça.

pdrock - E pra lançar o disco, muita dificuldade? Como foi o processo de escolha da gravadora, e qual foi o selo, afinal, escolhido ?

Gg - Tenho até que fazer uma força pra não ficar chorando pitangas, mas foi foda sim.
Não tem gravadora, foi produção independente. Tivemos muita dificuldade com prazos nesse disco por termos contado com a ajuda de vários amigos que nos ajudaram no tempo que foi possível e não no que seria ideal. Isso causou certa demora no lançamento da bagaça. Íamos até lançar por uma gravadora, mas acabou não dando certo e tratamos de tudo por nós mesmos. A distribuição é da TAMBORETE ENTERTAINMENT no Brasil, e KARASU KILLER no Japão.

pdrock - Ficaram satisfeitos com o resultado final do disco? Como pretendem divulgá-lo e distribuí-lo – isso fica por conta da gravadora ou a banda pretende “colocar a mão na massa”?

Gg - E como! Mesmo sabendo que podia demorar mais, fazermos o disco com os melhores recursos que tivemos acesso foi importante pro resultado final. É uma proposta musical muito filha da puta pra qualquer técnico acertar a percussão com a porrada comendo entre 2 guitarras, 2 vocalistas mais bateria e baixo. Imagine pra gravar? Percussão pra nós não pode ser figura decorativa. Pela primeira vez na história desse país, a Gangrena conseguiu gravar um disco exatamente do jeito que queria. Tudo aparecendo como queríamos. Quem ouvir o disco pode saber que é isso que os espera ao vivo. A distribuição fica a nosso cargo e dos selos. É parceria, na verdade.

pdrock - Ainda vale a pena, financeiramente falando, lançar um disco “físico”? Caso a resposta seja não, porque lançar, então? O resultado artístico, o prazer em ver as idéias literalmente postas no papel, como nos velhos tempos, compensa eventuais prejuízos?

Gg - Financeiramente falando não, tudo mudou nesse lance de música. Mas vale muito pelo lado de dar um material de qualidade pro fã ouvir, ver, tocar. Pode ser muito mais prático você baixar uma música, mas nada substitui a sensação de ter um material físico da banda que você curte. Vale muito mais a pena pelo lado artístico mesmo.

pdrock - Chorão 3, membro-fundador, deixou a banda mais uma vez. É definitivo? Foi tudo numa boa ou foi um processo “traumático”?

Gg - É definitivo sim. Tudo numa boa, sem estresse. Ele continua como colaborador, assim como muitos outros que passaram pela banda. É nosso amigo e eu falo com ele sempre. O peso das dificuldades de se tocar uma banda independente infelizmente não era mais compatível com seus compromissos pessoais.

pdrock - Existe ainda algum membro da formação original da banda ou vocês são nosso “Napalm Death tupiniquim”? (nenhuma conotação depreciativa na pergunta, já que gosto de todas as fases do Napalm Death)

Gg - O Vladimir (Exu Caveira) é da formação que gravou o Welcome to Terreiro, mas não gravou a 1ª demo, por exemplo. O Napalm deve ser diferente nesse aspecto porque mesmo quem não está mais tocando conosco é colaborador. O próprio Vladimir retornou depois de sair num período pós EP. Somos mais um coletivo de esporro do subúrbio do Rio que uma banda comum de Metal ou Hardcore. Temos ex-integrantes que por vezes ‘tocam’ como roadies, técnicos de som, letristas, compositores, desenhistas etc. Pra nós, o Anjo Caldas é da Gangrena, assim como o Rodrigão Duarte, o Elijan, o Wagner (baixista da turnê europeia), o Magrão (que ajuda na concepção gráfica, tocou bateria várias vezes na banda e é um puta letrista), o Adelson (ex-The Endoparasites) que tocou bateria com a gente depois do EP, o Léo Dias (artista plástico sensacional que fez a HQ do disco, que acabou não entrando nele por motivos técnicos) e mais uma porrada de gente. Todos eles são integrantes da Gangrena Gasosa.

pdrock - Qual é a formação atual da banda? – quem são os membros, quais os mais antigos, quem chegou depois, de onde vieram...

Gg - O Exu Caveira (Vladimir) é da formação do Welcome to Terreiro e sempre foi guitarrista da banda. Eu (Zé Pelintra) sou da formação da demo “Cambonos From Hell”, toquei numa banda de Splatter chamada Erosive Exhumation, entrei pra Gangrena tocando baixo, toquei na Dorsal Atlântica e depois voltei pra casa como vocalista. O Exu Mirim (Renzo) entrou logo após o EP e foi baterista do DFC e do Zumbi do Mato. O Exu Tranca Rua (Moreno) compôs boa parte do baixo do Smells, tocou no Allegro e voltou pra banda junto com o Exu Mirim. O Exu Capa Preta (Minoru) entrou pouco depois e tinha tocado no Violator e no Allegro. Omulú (Cristiano) entrou no lugar do Chorão³ logo depois da gravação do disco e pegou tudo muito rápido, entrando num rabo-de-foguete danado, pois tínhamos alguns compromissos pendentes e ele assumiu de boa. Ele tocou na banda The true Blend e na banda Spell. A Pomba-Gira (Gê) entrou depois da gravação também e tocava no projeto Musikfabrik. O Mutley estava tocando de freelance com a gente até arrumarmos um integrante definitivo, coisa muito difícil de achar. Percussionista normalmente toca em esquemas diferentes do esquema rock independente. Posso ter me enganado no nome de uma ou duas bandas, mas acho que é isso. Essa é a formação atual. Gente pra caralho, né? E nem é o ideal. A percussão merecia mais uns 2 ou 4 braços.

pdrock - Os membros mais novos estão se adaptando bem ao ritmo da banda? Tem dado certo?

Gg - Tudo em paz no reino de Satanás.

pdrock - Como está o ritmo de atividade de vocês? Fale-nos dos últimos e mais marcantes shows e acontecimentos em geral na vida da banda.

Gg - O ritmo está bom, mas vai melhorar. Tocamos regularmente no Rio, mas esperamos que com o lançamento possamos tocar mais pelo Brasil. Recentemente tocamos no Porão do Rock e foi muito bom, evento bem organizado que respeita o músico e dá condições técnicas de se fazer um bom show, coisa rara no underground. Quando se trata de 7 músicos, mais ainda. O Goiânia Noise Fest foi há mais tempo, mas foi muito importante também, pelos mesmos motivos. Mas o que recentemente me deixou bolado mesmo foi quando tocamos em Curitiba e quase sofremos um acidente na Van, o motorista chegou a sair da estrada. Depois que percebi que o traçado da van estava meio estranho, passei a ficar de olho na estrada. Dito e feito! Quando ele cochilou e começou a sair da estrada eu dei um grito de desespero tão alto nos tímpanos dele que ele deve estar dormindo mal até hoje. Geral trancadinho o resto da viagem toda, com os olhos arregalados, prontos pra gritar no ouvido do motorista, foi tenso.

pdrock - Planos para o futuro ?

Gg - Tocarmos esse disco o máximo possível no maior numero de locais que pudermos. Estamos iniciando um projeto de vídeo ao vivo com o Fernando Rick, que fez o ‘Guidable’ do Ratos de Porão e só posso adiantar que eu não ouvi falar de nada parecido até hoje. E começamos a alimentar o projeto de fazer outra turnê europeia e uma sul-americana, mas isso é mais pra frente. Nesse ano pretendemos arriar o despacho desse disco em todos os lugares possíveis. Se não for ao vivo, que pelo menos seja destilando o puro suco da maldade no fone de ouvido ou nas caixas de som desse povo metaleiro sofrido que tem aturado umas coisas que vou te contar.

pdrock - Espaço aberto para considerações finais.

Gg - Saravá, mizinfio... fica de olho nas novidades da Gangrena, vem muita coisa por aí e o ritmo vai ficar frenético.

Visite o Terreiro Virtual da Gangrena Gasosa.
Contato: despachos@gangrenagasosa.com.br
(21)9184-2972 c/ Lana Ramôa
Foto: Divulgação
Arte: Leo Dias

Adelvan k. perguntou
Angelo respondeu

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MINHA HISTÓRIA COM A GANGRENA GASOSA

Uma vez, há muito tempo atrás, numa galáxia não muito distante (Itabaiana), eu abri uma revista Casseta Popular (ainda não eram globais) e me deparei com uma entrevista bizarra com uma banda pra lá de tosca chamada Gangrena Gasosa. Eram do Rio de janeiro e, na tal entrevista, faziam uma apologia explícita a um tal de movimento “Homo Core”. Assumiam-se todos como viados e macumbeiros convictos e só vomitavam absurdos e loucuras, era impossível saber se falavam sério ou estavam apenas zoando, ainda mais porque a entrevista era para uma revista de Humor e eu era leitor assíduo do Rock Brigade, ou seja, ainda levava o rock a sério, vejam só.

Encarei na brincadeira mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. Depois virei zineiro e a tal banda ficou mais ou menos famosa. Começaram a chamar a atenção com seu metal tosco misturado com pontos de macumba ao ponto de serem chamados para uma entrevista no programa do Jô Soares !!!! Conheci o som dos caras através de uma fita que Panço do Jason (na época Soutien Xiita) me mandou gravada no lado B da demo da banda dele. Era soutien, poindexter e Gangrena Gasosa, o "creme de la creme" do rock underground carioca da época. Muito ruim, mas curti a idéia. Cheguei inclusive a entrevista-los para o Escarro Napalm, meu zine (abaixo, a entrevista na íntegra) e a manter um contato meio precário por cartas com o Ronaldo Chorão, o vocalista - depois de alguns meses esperando a confirmação do recebimento de um pacote que eu mandei com uma fita da minha banda – ETC - , uma carta e um zine, ele me escreveu pedindo desculpa porque sua mãe (ou teria sido o pai?) teria queimado todas as coisas dele na fogueira santa de Israel da Igreja Universal do Reino de Deus.

Depois disso, passamos um bom tempo sem contato. Mas o mundo (especialmente o mundo rock) é pequeno e acabamos nos encontrando pessoalmente por um acaso em Recife. Eu tinha ido visitar um amigo, passear e aproveitar para ver um show do Jason. Ele também estava por lá, de férias, foi no show e deu uma canja num cover da Gangrena. Ao final da noite, sou surpreendido por um convite do mesmo para que eu o acompanhasse à casa de um tio em Boa Viagem que tava desocupada e ele iria dormir por lá. Confesso que nessa hora a pulga despertou lá do fundo da minha orelha e eu me lembrei da pré-Histórica entrevista na revista dos Cassetas. Aceitei o convite porque o cara era muito gente boa e divertido e desconfiei que iria gostar de conhece-lo melhor, mas um leve temor martelava insistente em minha cabeça: Será que esse negão vai querer me estuprar? Analisei a estampa do indivíduo e cheguei à conclusão de que seria possível resistir a uma abordagem mais agressiva, então fui com ele na casa do tal tio. Quando entramos ele já me leva direto pro quarto do cara e caralho, o quarto parecia um motel, tinha espelho no teto e cama redonda! Antes que meu coração gelasse ele ressalta que tinha me levado lá apenas pra me mostrar uns vídeos do Aeon Flux que ele tinha gravado porque só tinha vídeo-cassete no quarto. Quanto à decoração excêntrica, que eu não ligasse que era viagem do tio dele, um solteirão convicto metido a conquistador. Ufa, temores aliviados, passamos uma noite divertida conversando sobre historinhas do underground e esse foi o inicio de uma grande amizade, que já rendeu uma visita mutua dele à minha casa e minha à casa dele no distante bairro de Campo Grande.

por Adelvan Kenobi

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Entrevista para o Fanzine Escarro Napalm, publicada na Edição Especial DELIRIUM, de 1995:

ESCARRO NAPALM PARA GANGRENA GASOSA, CAMBIO...

1. FALE-NOS UM POUCO SOBRE O INICIO DA BANDA – SERIA O GANGRENA UM BANDO DE PUNKS TIRANDO ONDA COM O METAL OU VOCÊS REALMENTE GOSTAM DESDE ESTILO?
GANGRENA GASOSA: Quando começamos eu ainda era punk, e realmente tinha muito esse lance de tirar onda com metaleiro, porque naquela época tinha a moda do thrash, ta ligado? Era um puta estereótipo de se vestir com camisa preta, tênis Reebock importado e calça de moletom. Aí a gente era feio pra caralho, duro, e tocava mal a beça, tudo o que a gente queria era ser anti tudo. Com o tempo a gente aprendeu a tocar e fomos colocando mais macumba no som e nas letras. Ainda assim eu acho que o pessoal mais mauricinho não curte muito a gente pessoalmente, por a gente ser meio grosso na parada.

2. APROVEITANDO A PERGUNTA ANTERIOR, O QUE VOCÊS OUVEM E O QUE INFLUENCIA O SOM DE VOCÊS?
GxGx: A Gangrena é uma banda que tinha tudo para dar errado, porque tudo mundo curtia uns lances bem desiguais tipo rockabilly, death, industrial, eletrônico... Cada um, um troço. Mas aí veio essa onda ridícula de voltar ao tempo dos dinossauros, da musica perder peso e velocidade. Então agora todos estamos ouvindo violência direto, para o som ficar o contrario dessa viadagem toda de musica com influência de coisas setentistas. O TOP 10 entre a gente atualmente é BRUTAL TRUTH, FEAR FACTORY, BRUJERIA, MYSTIFIER, SEPULTURA, RATOS DE PORÃO, NAILBOMB, SOD, HELMET e SLAYER (“Reing in Blood”). Só bandas sem educação mesmo, espero que isso se reflita no nosso som.

3. VI EM ALGUMAS REVISTAS QUE VOCÊS AS VEZES LEVAM FRANGOS PEGOS EM DESPACHOS PARA OS SHOW, E A GALERA SABOREIA LEGAL... É VERDADE? E QUE ONDA É ESSA DE VOCÊS FICAREM MASTURBANDO UNS AOS OUTROS EM PÚBLICO? VOCÊS SÃO GAYS? (NADA CONTRA, CLARO, SÓ PRA ESCLARECER!)
GxGx: A gente toca vestido de entidade, cada um tem a sua: Marcos (guitarra) é a Pomba Gira, o Paulão(voz) é o Exu Caveira, o Vladimir (guitarra) é o Cabloco Sete Frexa, o Cid (bateria) é o Exu Tranca Rua, o Jorge Doente (baixo) é o Zé Pilintra e eu (vocal) sou o Omulu na parada. No palco arriamos um despacho com velas, fubá, farofa, cebolas, cachaça, pipoca, e uma galinha assada que a gente compra limpinha num restaurante pro pessoal comer na hora de “Despacho from Hell”. É todo mundo gay na banda, mas nós somos HOMO CORE, não esses gays afeminados e desmunhequentos. Como vocês foram saber da viadagem aí em Aracaju ???!!

4. VOCES FREQÜENTAM TERREIROS DE MACUMBA? ACREDITAM EM SINCRETISMO RELIGIOSO, OU É SÓ NA SACANAGEM MESMO?
GxGx: Eu quero que o sincretismo e o religioso se fodam!! Terreiro de macumba de cú é rôla!! Eu falo por mim, mas acho que na banda ninguém acredita em macumba mesmo. É claro que sempre tem um ou outro dizendo pra gente tomar cuidado, pra não mexer com estas coisas, mas a gente caga pra isso. Não acreditamos nem em macumba nem em historias da carochinha. Quem ainda tinha um pouco de receio ou respeito pela religião cantou pneu da banda faz tempo, né, meu?

5. VOCÊS NUNCA RECEBERAM AMEAÇAS DE MORTE DE NENHUM METALEIRO “FROM HELL” NÃO?OS BANGERS DAQUI ODEIAM VOCÊS, SEGUNDO ELES, “É POR ISSO QUE METAL NÃO É LEVADO A SERIO”.
GxGx: Pra começar esse papo de ser “from hell” é falta de buceta. Pergunte a algum desses babacas adoradores do capeta há quanto tempo eles não comem ninguém pra você ver. O pau desses ótarios tá cheio de lodo, cara!! Já a galera Death eu não esperava que eles nos odiassem, porque quando a gente começou aqui no Rio foi justamente contra esses modismos de ser bonitinho, de se vestir todo metalzinho, sacou? E daí a gente também é feio pra caralho e gosta de som porrada. Pô, a letra de “Thraxangô” fala disso, ta ligado? Ser levado a serio? O que é ser levado a serio? Vestir uma fantasia preta pra dar porrada nos outros? Que venha me falar de seriedade o movimento punk, ou qualquer outro com objetivos político-sociais, agora este papo de radicalismo comigo não tem vez. Fico decepcionado dos “death’s” não gostarem da gente, de qualquer forma respeito a opinião deles, ok? Espero que quem não curta o Gangrena também não vá aos shows só pra detonar...

6. COMO ANDA A REPERCUSSÃO DE “WELCOME TO TERREIRO”, COMO FOI GRAVADO, ENFIM, COMO FOI O PROCESSO DE CRIAÇÃO DO DISCO?
GxGx: As músicas do “Welcome...” estavam sendo lapidadas há uns dois anos antes da gente grava - las. Quer dizer, quase todas, porque “welcome to terreiro”, “Thraxângo” e “Fist Fuck Agrédi” nós fizemos mais perto da gravação, quando Vladimir entrou para o Gangrena, falô? O desenho da capa é do Cid , eu só diagramei e coloquei os pontos de macumba em volta, a intenção era que a capa parecesse com a de um disco de macumba, não de metal, ta ligado? A contracapa é uma merda, mudaram a minha concepção original e ficou uma bosta! Inclusive o cd da gente é o único no mundo com lados A e B. O imbecil que reeditou os meus originais fez uma puta cagada em tudo! Já o encarte foi tipo um numero especial do “Amputação”, um fanzine meu e uma homenagem ao encarte MAU da falecida ANIMAL, lembram?

7. PLANOS PARA TOCAR NO NORTE/NORDESTE? VOCÊS JÁ SE APRESENTARAM EM ALGUM TERREIRO DE VERDADE? SERIA INTERESSANTE!! SABIA QUE UM DOS SONHOS DO ExTxCx É TOCAR COM O GANGRENA GASOSA?
GxGx: Planos para tocar no nordeste até a gente tem. Estamos tentando alguma coisa com o pessoal do KARNE KRUA, AVOID e REALIDADE ENCOBERTA há meses para fazer três shows, um em Recife, outro em Aracaju e o ultimo em Maceió. Acho que o sonho de toda banda daqui é tocar no nordeste, porque o pessoal do Dorsal Atlântica sempre elogiou o publico, dizem que são bem recebidos e que o pessoal agita pra caralho ... a gente fica só imaginando! Com uma inveja danada!

8. E AQUELE TAL PROJETO “MACUMBA” COM MIKE PATTON E MAX, É VERDADE OU SÓ BOATOS?
GxGx: Acho que é só boato, mesmo que chegue a se realizar, agora fica difícil, o Sepultura ta viajando na tour de “Chaos A.D.”, depois acho que o Max vai dar mais atenção ao NAILBOMB, que já gravou e tudo mais. Pra ser sincero o que eu esperava fazer no MACUMBA era um troço tipo BRUJERIA, mais grindcore e umas partes macumbadas. Adoro as letras do BRUJERIA!

9. SE QUISEREM MANDAR ALGUÉM TOMAR NO CÚ, O ESPAÇO ESTÁ ABERTO!!
GxGx: A maldição de Omulú é meu pau no teu cú!!! (N.R.: Ops! Logo no meu? Ôô cara!!!) Axé a todos os leitores do Escarro Napalm!!

(Agradecimentos a Andreia pela digitação)

LÁ: Ronaldo Chorão
AQUI: Adelvan

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Entrevista publicada por volta de 2005 no webzine Orangenoise

Chorão 3 – Gangrena Gasosa

1. Quando e como os integrantes da banda se conheceram e como surgiu a idéia da inusitada mistura de metal com candomblé?
Quando começamos em 1990, a cena era Trash Metal Bay Área (alguém lembra disso?): Testament, Anthrax, Over Kill, Suicidal Tendencies, Metallica, DRI, sem falr no sucesso do Sepultura, acho q era a época do Beneath ou do Schizophrenia, não lembro... enfim, cabeludos brancos e bonitos fazendo aquelas poses de ROCK BRIGADE: todo mundo em pé um do lado do outro de braços cruzados, usando tênis branco da Reebook e calça de moleton ou jeans rasgado, hahahahahah! Eu gostava desse som mas a gente não tinha nada a ver com esse visual. Metaleiro preto era um troço fora do contexto pra caralho! E é muito ruim bater cabeça sendo careca, hahahahahaha, na época eu nem era tão careca! Conheci o Cid através do Felipe, no primeiro ARENA DO HEAVY. Porra, o Cid era ROCKABILLY, odiava metal pra caralho, odiava mesmo! Começamos a andar juntos, o Cid me apresentou meu primeiro baseado e ficou sendo meu melhor amigo (é até hoje!). Daí houve o clássico show de lançamento do Brasil (Ratos de Porão) no Circo Voador...eu e o Cid nos olhamos e fizemos uma promessa: um dia a gente vai ter uma banda e abrir pro Ratos de Porão no Circo Voador!!! Daí foi juntar a fome com a vontade de comer por q ele tinha visto o nome GANGRENA GASOSA (uma doença sinistra, tem site sobre isso!) no Comando da Madrugada do Goulart de Andrade e disse assim, Chorão, isso é um ótimo nome pra banda...tu bota tuas letras de saravá metal (era o conceito da parada: metal pra criolo e gente feia q nem a gente) e eu boto o nome da banda e toco vestido de Exu Tranca Rua na bateria! Era uma proposta irrecusável... Um ano depois realizamos nosso sonho de tocar com o Ratos no Circo! Maluco, aquele dia (porra, me arrepio até hoje!) tinha muuuuuuuuita gente batendo no palco do circo gritando GANGRENA GANGRENA GANGRENA!!! Maluco, q show! Quando olhei pro lado e vi o Gordo no palco com fiá de Omulu na cabelça assistindo o show pensei assim: caralho! Nossa banda é foda!

2. A classificação "Saravá Metal", foi algum rótulo criado por jornalistas, ou a própria banda se definiu assim?
A própria banda, a gente tocava muito mal e nunca ia chamar a atenção de ninguém, fazendo essas paradas de macumba a gente chamaria a atenção pelo lado ridículo e ninguém ia se ligar q a gente era uma banda merda pra caralho! Fala sério, escute a primeira demo sem os pontos de macumba e sem as letras...A Gangrena Gasosa é a prova cabal de qualquer imbecil pode fazer Heavy Metal!

3. No início dos anos 90, o Gangrena Gasosa foi a banda underground que mais chamou atenção da grande imprensa musical, fato inusitado até então, como foi isso?
A verdade é a gente também deu muita sorte. Sorte de conhecer muita gente legal pra caralho que sabia do q se tratava a proposta da banda e gostava da gente por isso, e torcia sinceramente pelo sucesso da escrotice q a gente representava: Rolinha do Circo Voador, o Miranda, hoje na Trama, na época na Bizz, o Marcel Plasse da coletânea No Major Babes, o RH Jackson, o Pedro Só, o Tom leão, porra, tinha também o Fernando Souza Filho da Rock Brigade, esse era foda! Sempre atendia minhas ligações pessoalmente! Qdo a Gangrena lançava Demo ou CD ele sempre falava, Chorão, manda q eu publico! Porra, na época q ele colocou a letra de HEADBANGER VOICE na Brigade, ficamos com uma puta moral. Porra, é claro, também não podia esquecer NUNCA o padrinho e torturador da banda: Fábio do Garage! Esse foi foda pra gente! Sempre foi nosso pedreiro de som!

4. Como foi a produção do primeiro álbum, que contou com o Dado Villa Lobos da Legião Urbana, em que ponto entrou interesse do Lulu Santos em produzir vocês?
O Lulu Santos precisava de ibope pra vender disco e queria colar com a gente, abrir uns shows pra Gangrena, tal... mas eu pensei assim, pô q palha tocar com o Lulu Santos meu! Melhor não...na época ele tirou um cover de Pegue Santo or Die! Mas a gente não autorizou ele gravar nem tocar ao vivo pra não queimar nosso filme. O Dado ficou de mal comigo quando pedi pra entrar no Legião Umbanda pra cantar no lugar no Renato (que tinha morrido um dia antes). Eu liguei pra ele e uma voz atendeu: -Quem gostaria? É o Chorão!, falei... daí ele atendeu pensando q era o Chorão do Charlie Brown Junior q tinha ligado pra dar os pêsames. Então eu fiz minha proposta e comecei a cantar Que país é esse? no orelhão...tu tu tu tu tu tu tu tuuuuuuu....

5. Com o assédio de pessoas conhecidas como Dado e Lulu Santos, chegou a rolar alguma proposta de grande gravadora?
Cara, muita especulação por q muita gente achava q a gente era a próxima banda underground a estourar no Brasil, tipo um Chico Science, mas a gente zoava muito o barraco, alopravamos pra caralho nas entrevistas, uma vez quase destruímos a Dr Smith na zona sul, zoamos o barraco no Super Demo da Elza Cohen (tadinha, ela pediu pra caralho pra gente não jogar farinha na galera dentro da boate, até parece q adiantou...) aí era foda, a gente era maluco, moleque novo, cheio de fama e velocidade, a gente só queria fumar maconha e comer o quanto pudesse de mulher q pintasse no camarim...Quando a gente tocou no Canecão e apareceu no Jô, tinha gente q me reconhecia no trabalho! Era foda tiramos muita onda mas foi muita maluquice q a gente não soube aproveitar pra profissionalizar a parada! A gente chingava o Iron Meidem, o Bleck Sábado, o Merd Zépelin, era foda! Neguinho falava –Manera Chorão! E o Cid, muito filho da puta falava –
Zoa mais Chorão, foda-se! Eu só escutava o Cid...

6. Em algum momento vocês pensaram em compor em inglês, como o Sepultura, ou nunca houve essa preocupação com mercado?
Há hahahahahahahah, como ia falar de macumba em Inglês? Exu Street Closer? Exu Skull? Bat Exu? Não dava, veja as letras traduzidas q saíam no Amputação. O Márcio Sno ainda tem algumas cópias do Amputação.

7. Existe uma lenda que diz que o primeiro álbum de vocês influenciou o Sepultura na composição do disco "Roots Bloody Roots", você já ouviu algo sobre o assunto, até que ponto você acredita que isso é verdade ou mito?
Rola essa história por causa do clip de ROOTS, eu acho q tem haver um pouco, mas imagine se a gente ia ser dono de toda macumbaria no Brasil, se eu falar isso agora ia parecer recalque, sabe qual é? Tipo chutar cachorro morto, o Sepultura se deu bem, a gente não... mas foda-se, é uma puta banda o Sepultura mesmo, acho q ficou outra banda depois q o Max saiu, acho o Soul Fly uma merda, mas imagine, se a gente achar q o Sepultura se influenciou na gente, imagine os caras do Korn quando ouviram o Roots! Imagine o Slayer quando ouviu o Beneath, por aí vai... O Sepultura era uma puta banda, pra mim sempre vai ser, se foram influenciados pela gente E ELES falarem isso, porra, ficaria orgulhoso pra caralho! Uma banda q eu acho foda, e disse q ouvia o som da gente era o Catapulta, e eles fizeram um puta disco, com uma puta percussão, falar q nós influenciamos eles de alguma forma é uma generosidade muito grande por parte deles! O primeiro disco do Catapulta pra mim é uma cartilha de crossover de guitarras com percussão! O jeito q o Moisés canta, irmão, eu tiro o chapéu pra ele, ninguém divide uma letra como o Moisés do Catapulta. Eu admiro muito esse cara cantando!

8. Qual foi sua reação quando ouviu pela primeira vez "Roots Bloody Roots", notou alguma coisa em comum com o som de vocês?
Pensei assim, caralho, o Max ficou maluco! Q voz é essa? E o Igor estava ignorante pra caralho nesse disco, descendo a marreta sem piedade, o Andréas também fazia um esporro do caralho com a guitarra.O clip de ATITUDE pra mim, aliás essa música pra mim vale o disco todo! Acho o encarte muito apelativo, mas a capa é foda! RATA AMARRADA pra mim é o TROOPS OF OLODUM do inferno! Gosto muito desse clip também! Porra, bem diferente do Max falando Boi tatá, zumbi, pororoca, caiapó...caiapó...caiapó...no Soul Fly, cantando Umbabarauma, q baixaria meu! O Max perdeu a linha...apelou pra caralho! Mas o ROOTS é foda! Pra mim o ROOTS e o BENEATH THE REMAINS são os melhores discos do Sepultura, escuto os dois até hoje, mas o Roots só chego até a 5ª ou 6ª música... as outras depois não têm diferença pra mim, bem diferente do Beneath nesse sentido. O Beneath é cocaína, o ROOTS é crack com LSD.

9. Chegou a ser lançado material do Gangrena Gasosa no exterior?
Não, o Jello recebeu material do Smells mas nunca tivemos resposta, tentamos a Century Media, tentamos a Road Runner, mas não rolou nada. A proposta mais séria era lançar o SMELLS em casteliano na alemanha em vinil, mas não rolou também.

10. Quando e como foi a turnê da banda pela Europa?
Foi em maio de 2001, EXPLICIT GROSNESS TOUR (algo como toscaria explícita).Juntamos dinheiro e fomos no peito e na raça! Foi foda! Maconha, cerveja e hardcore durante um mês inteiro, vivendo, viajando e comendo por causa da nossa música, um troço impossível e inviável no Brasil! Na Alemanha, o pagode é grind core! É um orgulho agradar um povo q só ouve esporro O DIA INTEIRO! Lá, num squat de 3 andares, acordamos um punk q veio ver o show e disse isso: -Eles são loucos como o Prodigy, agressivos como o Slayer e pesados como o Venom! Cara, eu senti q era Deus nesse dia! Foi a 2ª vez q pensei, Porra, essa banda é foda! Quero ser o Chorão 3 pra sempre nesse mundo!

11. No livro "Jason 2001 uma odisséia na europa", de Leonardo Panço, tem uma parte que um gringo comenta o show que assistiu de vocês, e diz que parece uma mistura de Ratos de Porão com Sepultura, provavelmente a parte do Sepultura refere-se a fase "Roots Bloody Roots". Vocês tiveram alguma oportunidade de explicar o som de vocês durante a tour pela europa?
Hahahahaha, nego via o encarte e achava q a gente era machista por causa história em quadrinhos do AllanSieber, hahahahah, tivemos q arrancar o encarte do Smells em alguns squats mais sérios! Daí, sempre q vinha alguém perguntar qual era a temática da banda, como o Fábio Lessa e o ângelo falavam inglês muito bem, eu falava pra eles traduzirem as letras do Sociedade Armada, DFC, Racionais, essas paradas q falam mais sério e neguinho comprava o disco amarradão pensando q era música de protesto com enganjamento político social! Hahahahahahaha!!!

12. Outro lance engraçado e o lance do seu nome; "Chorão", antes você era o único, agora você já é o 3, quem são os outros dois?
O Chorão máster, o n° 1, meu ídolo depois do João Gordo, é o Chorão do Charlie Brown Jr. O 2° Chorão na nossa escala evolutiva é o urso da Corrida Maluca, e o 3° e mais fodido da espécie, soy yo! Um dia chego lá, e também direi, “Hoje eu vou de limusine mas eu já andei de trem...” Um dia eu chego lá!

13. Essas ironias chegam a deixar vocês perplexos, ou apenas servem como motivo de diversão?
Essas ironias são o rebote do destino, sabe aqui se faz aqui se paga, a gente já fodeu a paciência de muita gente! Imagine q até a TAMBORETE renegou a Gangrena no começo! A gente era muito filho da puta mesmo! Coitado do Panço! Olha, o Panço rapaz é um cara gente fina honesto e batalhador da porra! Não merecia a Gangrena na vida dele... O Panço é a Tamborete e a Tamborete é o Panço. Graças a deus vendeu legal o Smells pra compensar o tanto q a gente infernizava a cabeça do Panço! Eu gosto dele pra caralho, mas não sei se ele gosta de mim...Eu te amo Panço! Obrigado por lançar o Smells!

14. Voltando ao início dos anos 90, como era a reação do público diante de uma banda tocando e atirando "despachos" em todo mundo?
As minas choravam por q eu mirava nos cabelos mais bonitinho e enfarofava elas pra caralho! Mano, era inveja por q eu era careca e as minas tinham tanto cabelo e eu sem nenhum cabelão e perdendo os poucos q eu tinha (até hoje!). Daí eu fazia um creme de massagem especial pra elas: ovo cru, couro de ghalinha, farofa e cachaça, imagina! Q prazer insano aquilo me dava!

15. Houve alguma manifestação dos adeptos do candomblé contra vocês?
Uma vez a Universal disse q ia panfletar na frente do nosso show e saiu uma nota no jornal deles, A Folha Universal. Imagina q meu pai pensava q a minha banda era “rock revoltado” q nem Titãs, quando ele tava na Igreja e viu a matéria na Folha Universal “banda de saravá metal pega despacho nas esquinas e atira no público” grandão na primeira página, hahahahahahah, pegou todas as cartas do Terreiro FC q iam pra minha casa antes da caixa postal e queimou tudo na Fogueira Santa de Israel. O meu nome ficou na corrente de oração da Igreja Universal um tempão.

16. Chegou a sair matéria em revistas e jornais, dizendo que um "terreiro" próximo a uma casa de shows onde vocês de apresentavam, recebia espíritos ruins quando vocês se apresentavam. Alguém na banda chegou a se preocupar com isso?
Era um Terreiro na rua Ceará, a rua do Garage. O pai de Santo do Terreiro dizia pro Fábio q tinha uma banda q tocava lá e sempre deixava as sessões muito agitadas, só baixavam as paradas mais toscas nesses dias. Um dia depois q a gente tocou no Garage o Fábio foi lá perguntar como foi a sessão do dia anterior e constatou q a banda q agitava as kurimbas era a Gangrena! Saravá mizifio!

17. Agora em 2005, você anunciou sua saída da banda. Qual o motivo dessa decisão, e como fica o Gangrena Gasosa agora?
Eu depois de tanto tempo na Gangrena acabei adotando uma postura muito arrogante em relação aos vocais, achava q era só chegar no dia da gravação, cantar e pá, ia ficar bom de qualquer jeito. Não tinha percebido q o som da banda mudou, evoluiu e precisava mais do q eu imitando o João Gordo pra sempre. Foi um choque pra mim a gravação, os vocais não casavam, eu atravessei pra caralho, enfim, uma puta lambança. Em parte babaquice minha q me achava o tal, “a pica q matou Cazuza”, como diria o Adelvan de Aracajú. Mas em parte foi o momento foda q estou vivendo atualmente. Moro em Campo Grande, trabalho em Botafogo, acordo 4:00 Hs, chego em casa TODIA DIA às 22:oo Hs. Acho q só não sou corno por q minha mulher me ama...Eu só vejo meu filho a cada 15 dias, e por isso não vou ensaiar quando o moleque está comigo em casa... Não dá pra ensaiar a sério pra gravar um bom disco ensaiando um fim de semana sim outro não. A banda tem um objetivo sério q é fazer o disco, enquanto eu fico chorando meus problemas os caras estão encarando tudo isso pra fazer o trabalho. As músicas estão fodas, as letras idem (nem todas são minhas) e a banda agora precisa de dedicação integral no disco. E eu estou no momento tentando consertar minha ausência da família, dando um pouco mais atenção ao meu trabalho q paga minhas contas e ao meu filho q está com 8 anos e precisa de mim pra caralho. Eu amo a GANGRENA,de chorar sozinho quando escuto o SMELLS, quando vejo as fotos dos shows, da Tour na Alemanha...de chorar de saudade mesmo, as vezes isso acontece no ônibus ouvindo disc man...mas amo mais o meu filho e tive q escolher. Não deu, eu liguei e saí da banda por q estava transferindo responsabilidade de me tirar da banda pro Vladimir e pro Ângelo, q por amizade de anos e anos, mais a consideração, nunca fariam isso. Mas EU SEI que estava atrapalhando a GANGRENA, em tudo. Tive q sair, eles não iam me tirar, eu sabia disso, e não queria sair da banda, mas foi foda...Agora não sei, o disco vai sair, vou tentar fazer algumas vozes, mas a Gangrena agora, pra mim, é uma saudade boa e dolorosa pra caralho, vivi muita coisa boa com a banda. A falta de reconhecimento nunca me abalou muito, a não ser financeiramente por q tornou a banda inviável pra mim, mas eu gostava mesmo de agredir, de ser tosco, de me contradizer e causar confusão. Um dia, alguém me disse q o show da Gangrena transcendia o estilo musical (metal) por q era tipo uma grande festa, uma celebração em cima do palco onde o público também fazia parte do show, e eu tenho um orgulho fodido disso! De ter feito parte disso! De ter culpa no cartório com a Gangrena!E também tenho uma saudade do caralho! Sinto uma puta falta... choro até com o DVD do LInkin Park ao Vivo no Texas...

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Por fim, uma megaentrevista postada pelo paulista Márcio SNO em 2008 no portal Rock Press. As palavras saem como uma hemorragia. O negão abre o verbo sobre a trajetória da Gangrena, a fama de malditos, a responsa de ser pai e a paixão por Adelvan Kenobi - também conhecido como eu. C/ vocês, as simpatias, mandingas & quizumbas de Chorão 3, puro suco da maldade. Chuta que é macumba!


Quem ouve o som deve achar que vocês se vestem de demônio, moram em cemitério e tomam água de vala. Quem são vocês afinal?

Eu não bebo água de vala, não, mas não sei se alguém da banda bebe. Veja um caso verídico que aconteceu c/ a gente. A Lana Romero, nossa manager, fez contato c/ a produção de um evento que rolou em Cabo Frio, chamado Rock Humanitário. Daí o cara que organiza falou assim pra ela: “Eles mexem c/ coisas muito sérias e não quero nada negativo no meu evento”. E adivinha quem toca... Quem? Quem? Quem? O KRISIUN!!! É mole? Tem troço mais DEATH que o Krisiun? É fácil não ter medo de Satã, Beelzebuth, Astarot, Demon, que são diabos gringos. Mas ninguém quer mexer com Exu, Tranca Rua, Pomba Gira e Zé Pilintra.

Os nossos santos de casa são mais poderosos que os importados?

Eles são mais nervosos, metem mais medo, eles estão aqui, né, meu? Nas esquinas e encruzilhadas da(s) (nossas) vida(s). Se quiser ver Belzebu e Lúcifer que estão láááááááááááá na Noruega, ou Voldermort (esse é do Harry Potter, nem meu filho tem medo mais...) você compra um CD, aluga um filme, entra na internet, você tem essa opção... Agora c/ a macumba, não, Tranca Rua e Exu Caveira, tá amarrado, né, mano? Você pode trombar c/ um despacho em qualquer esquina. Cara, tem gente que se muda de casa por causa de tambor de terreiro de macumba. Falam que é porque o som incomoda, mas acho que é medo mesmo. Eu tinha uma bobeira quando era pequeno, que sempre achava que meu pirú ia cair se eu pisasse em despacho de macumba, ou que a minha perna ia secar. Porra, quando aquele livro do Bispo Macedo [‘Guias, Caboclos e Orixás - Deuses ou Demônios’] foi parar lá em casa, eu parei até de comer doce de São Cosme e São Damião c/ medo, porque o livro falava que esses doces são oferecidos ao diabo antes de dar pras crianças. Isso é sério! A minha mãe compra doce pro meu filho em dia de Cosme e Damião, mas ela não deixa ele comer do saquinho de jeito nenhum. E eu respeito essa atitude dela, sei lá, né, meu, vai saber...

C/ essas mensagens que abordam em suas letras, como vocês lidam c/ os seus lados espirituais? Vocês também pedem licença quando cruzam por um despacho?

Eu tenho medo de praga de madrinha, de olho grande, de inveja, de mau olhado, de espírito obsessor, tenho medo de macumba, tenho medo de ver O Grito e O Chamado sozinho, tenho medo de Poltergeist até hoje (“foram eles, mamãe...”), tenho medo até do Gasparzinho querendo ser meu amigo... Tenho medo de tudo que eu não posso agredir e nem meter a porrada. Acho que cada um da banda tem sua maneira de se benzer dessas zicas que a Gangrena mexe. Mas não peço licença pra passar no despacho, não... Eu passo pelo outro lado da rua!

E esse ‘trabalho’ de lançar 3 discos de 6 em 6 anos? Foi um pacto mesmo ou ironia do destino?

Ahahahahahaha, todo mundo sempre pergunta se a gente tem pacto c/ o ‘capira’, mas isso não rola. Tem horas até que eu penso: “antes tivesse...”

Mas então esse lance de 6 em 6 anos foi estratégia p/ promover o EP 6|6|6?

Em relação ao nome do EP, c/ certeza. Mas a data foi um ‘dead end’, um prazo pra gente botar o disco na rua. Trabalhar sem prazo é uma merda... Tira a meta e fica muito largado, faz quando pode, quando dá... Quando você estabelece uma meta, você põe o trabalho à prova, se é viável ou não é. Também você avalia o grau de interesse (até o meu próprio) de quem tá junto no projeto. Vai chegando a hora de lançar e os assuntos cabeludos vão voltando junto: grana, show, grana, divulgação, grana, ensaio, grana etc. Mas também acontecem verdadeiras ‘declarações de amor’ pela banda. Eu e o Ângelo conversamos coisas e trocamos impressões que eram de chorar, literalmente. Acabei ouvindo também coisas do Vladimir e do Moreno que eu não esperava, que me surpreenderam muito, de saber o PESO que a banda tem na vida de cada um. Isso foi na época do EP, ainda não tinha o Renzo nem o Dread na banda. Quando vimos as músicas prontas, pensamos: “porra, se isso ficasse bem gravado ia dar um show do caralho...”

As letras demonstram bons conhecimentos de entidades de umbanda e candomblé. Foi feito algum tipo de pesquisa?

As letras são um crossover do dia-a-dia do brasileiro tosco com temática de macumba. Você não precisa estudar pra falar disso, basta viver no Rio de Janeiro e ter o dom de rir das desgraças. Hoje em dia, quem diria! Zé Pelintra é adesivo de carro!!! Tem o adesivo da frase clássica ‘amigo do Zé’ e aquele outro c/ ele encostado no poste, e isso vende na banca de jornal. Um adesivo de recorte eletrônico em 4 cores vende que nem água, por 2 cruzeiros o pequeno de uma cor só, e por 3,50 o grande colorido. A gente podia usar como merchandising da Gangrena na cara de pau! Até São Jorge é pop, tem uma porrada de gente c/ tatuagem de São Jorge matando o dragão, quem nunca viu isso? Tem adesivo pra carro também, que nem o Zé Pelintra. O nome do disco novo – Se Deus É 10, Satanás É 666 – vem de um adesivo dos crentes: “Deus é dez”. Vamos fazer vários adesivos desses pra vender como merchandising da banda, uma versão ‘defona’ dos adesivos crentes: “Tudo boto naquele que me fortalece”, “Foi Satanás que me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Lúcifer”, “Deus é 10, Satanás é 666”, “Azazel Inside”, mas quero ver quem vai colar isso no carro.

Quando foi formado o Gangrena ninguém tocava nada e hoje a banda já conta com uma formação bacana (que tem até o Renzo do DFC), sem falar no monte de gente bacana que passou pela banda. Diante dessa referência, vocês poderiam imaginar que o som tosqueira da primeira demo iria ter esse formato de hoje?

Não, a gente não podia imaginar, mas a entrada do Vladimir na banda foi um divisor de águas pra essa mudança. Metaleiro do inferno, cabelão comprido e tudo... No primeiro ensaio foi logo tocando o riff de ‘Holly Wars’ do Megadeth, imagina! Meu cabeção pirou! Eu falei assim: “caralho, a palhetada desse cara é uma grosseria! Agora vai ser metal mêismo, mêu!”

Quando lançaram o disco Welcome to Terreiro, muita gente apostava que a Gangrena ia ‘acontecer’. No entanto, o que ocorreu foi o primeiro sumiço da banda. O que aconteceu por não ter rolado o sucesso em tempos de Mamonas Assassinas e Raimundos?

O que aconteceu é que a gente não era o Raimundos nem o Mamonas Assassinas. Neste último caso, graças a Deus, né, não? Aliás, graças a Deus nos dois casos, o Rodolfo virou crente... A Gangrena era underground mesmo. A gente mexe com macumba, a gente emporcalha de farofa todo lugar que a gente toca. Imagina se isso acontece no Gugu (eu ia adorar)! Velho, a gente é toscão à vera, não é firulinha, não. Não dá pra Gangrena tocar no Criança Esperança nunca, eu ia querer mandar o Didi calar a boca porque acho ele sem graça pra caralho. Como a Gangrena ia “acontecer” com uma letra tipo ‘Timbalada de Caveira’? Será que a gente ia ser chamado no programa da Hebe (gracinha) ou da Ana Maria Braga? Eu ia querer roubar o Louro José e dar pra minha mãe botar na estante da sala. Mas o beijinho da Hebe Camargo eu dispenso. Acho que ia me sentir como se estivesse beijando o Imotep da Múmia. Apesar de que essa mulher é coroa mas ela tem umas coxonas grossas, né, cara? Quem será o Escorpião Rei que sacode a Hebe Camargo?

Ah, bicho, se pegar as letras do Raimundos o que não falta é palavrão... Mas diante dessa declaração, então, não podemos esperar um lançamento de vocês nem num Pânico na TV?

Pode ser, no Pânico, pode ser, sim. Também tem o Hermes & Renato, os programas do Gordo, do Zé do Caixão... Tem espaço pra gente também. Já fomos no Gastão (Musikaos) e no Zeca Camargo quando era da TV Cultura. Mas o esquemão tipo Jô Soares de novo, Faustão, não sei, não... Isso sim tem mais espaço pro Raimundos (que eu gosto), pra Pitty (que eu gosto), pros Detonautas (que eu gosto), pro NX Zero (que eu odeio), essas paradas são rock também mas são menos nervosas. E têm um formato que dá pra rolar bem em playback se for preciso. Já fizemos playback no Caderno Teen da TVE e odiei isso, é muito fake, é muito escroto. Não nego que a TV é uma puta divulgação pra banda, em qualquer canal, fazendo qualquer programa, mas no nosso caso, acaba sendo um tiro no pé. Porque os fãs da banda não curtem playback, e quem não conhece não entende a proposta. Pra isso funcionar, tinha que rolar a gente tocando c/ a legenda das letras, que nem no clipe de ‘A SuperVia Deseja a Todos Uma Boa Viagem’, assim vale a pena até fazer playback mesmo. Assim eu iria amarradão, porque faria toda diferença entre ser ridículo e pagar um puta lelê, e ter a oportunidade de mais gente conhecer nosso trabalho.

Quais são as principais diferenças de ter uma banda na adolescência e depois dos 30 anos, com filho, família, essas coisas?

Você não ter mais disposição pra dar murro em ponta de faca... Não ficar mais aturando certas babaquices de gente que pensa que está te fazendo um favor não te cobrando venda de ingressos pra tocar... Não sei se é assim em São Paulo ou em outros estados porque estou muito por fora da cena, mas no Rio de Janeiro tá assim hoje... Mas acho que deve ser aqui mesmo, porque o que eu vi na produção do ETHS [banda de new metal da França] feito pela Sob Controle, de São Paulo, fiquei impressionado c/ a puta estrutura que a banda teve no evento. Não só estrutura, mas acho que a palavra certa mesmo é suporte, logística, achei foda. O ETHS sobe no palco c/ um puta equipamento, roadie pra caralho, uma bateria zerada, o cara conta 1,2,3,4... BRAMMMMMMM!!! Tá ligado? Já manda um MI bordão na guitarra que parece um VRÚ (se existisse essa nota musical), som limpinho, tudo alto pra caralho... Me dá motivação de voltar c/ a banda e batalhar p/ alcançar esse nível de estrutura num evento. Os caras da Sob Controle são foda mesmo, não sei se estou fazendo propaganda gratuita, só respondi no contexto da pergunta, mas pra mim, o efeito foi que nem pegar um iPhone pela primeira vez na mão: me impressionou. Principalmente num meio em que todo mundo choooooooooooora pra caralho que tá ruim, tá ruim, tá ruim... Será que o público também não está cansado de sair de casa, pegar três ônibus pra ver 500 bandas sem previsão de horário pra começar o evento? Será que não estão de saco cheio de ver o nome de várias bandas no cartaz e ouvir o som igual ao do Atari Teenage Riot p/ todas as bandas saindo dos amps? Não sei, é uma pergunta...

Em Barra Mansa/RJ tem a banda Miami Brothers, que bebe da água da Gangrena e faz um som que coloca Edir Macedo no alvo. O que vocês acham dessa disseminação? Há outras bandas que seguem o estilo de vocês?

Rapaz, eu acho que o Miami Brothers tem as letras mais toscas do mundo. A ‘Dança do Crucificado’ e a ‘Melô dos Três Pregos’ têm os refrões mais ‘defonildos’ que eu já vi. Aquele zine que o Xan faz, INFERNO PUB, é muito foda! E eles têm umas sacadas ótimas também: ‘Templo É Dinheiro’, ‘Umbanda Larga’ e ‘Paga que Eu Te Escuto’. Acho muito bom mesmo. As outras bandas, como disse na pergunta lá em cima, não têm como fazer um trabalho falando de macumba que não lembre a Gangrena. Tem tipo o Ocultan, mas o som é muito diferente do nosso, e a temática parece mais séria. O importante é que o pau ronca! E isso é muito legal, tem uma música deles que eu ouvi, ‘Poderoso Exu Sete Crâ-ni-ôssssss’... Defão mesmo! Também vi no MySpace uma banda de death chamada Gangrena Febrosa que tem um logotipo parecido c/ o nosso, se não acredita, vai lá ver: www.myspace.com/gangrenafebrosa. Essa banda tem temática de splatter, doenças e desgraças afins. Fora isso, meu sonho é ver uma banda tocando uma cover da Gangrena. Acho que eu ia me sentir ‘a pica que matou Cazuza’ se uma banda tocasse uma cover da Gangrena! Coisa de artista, maior bronca de famoso, né, não? Eu teria coragem até de juntar dinheiro e bancar um tributo pra Gangrena Gasosa – tipo o Phú fez c/ a coletânea TRAIDÔ!!, no qual a Gangrena participou c/ a versão de ‘Beber até Morrer’ e ‘Vida Ruim’, transformado em ‘Benzer até Morrer/ Kurimba Ruim’ – , só pra ouvir esse CD e ficar me masturbando...

Chorão, em outras entrevistas você fala de possíveis relações mais profundas c/ rapazes do rock como Phú (DFC) e Adelvan (Programa de Rock de Aracaju), por exemplo. Como você explica a música ‘Emboiolada’?

Não, sai fora, brincar disso c/ o Phú é furada! O Phú come travesti mesmo! E isso sairia do campo da aventura p/ o campo do amor, e eu não quero casar c/ o Phú nunca... O único amigo que comeria por amor seria o Adelvan de Aracaju, faço qualquer coisa por aquele nariz! Largo até minha mulher pra casar c/ o Adelvan se ele me quiser.

Uma vez seu pai queimou uma pilha de cartas suas na ‘Fogueira Santa de Israel’ e colocou o seu nome na corrente de oração da Igreja Universal. Me fala, o que mudou na sua vida nesse período?

Fiquei careca, casei, engordei 20 quilos (minha mulher cozinha bem pra caralho) e estou mandando melhor no sexo apesar da minha pança extreme noise terror. E o meu pai saiu da Universal e foi pra Quadrangular. Mas tem o seguinte, agora que sou pai, percebo que os pais erram querendo o melhor pros seus filhos, e c/ o meu não foi diferente.

Então, talvez seja o caso de você dar o seu testemunho... Ou seu testemunho você não dá?

Tipo o que Rodolfo dos Raimundos fez? Não, isso, não... Não dou meu testemunho porque acho que ele não seria sincero... Acho que quando você descobre que as coisas não são só átomos (também não estou dizendo que são Jesus, nem Satã, nem Buda, nem Maomé, nem Alan Kardec, não é isso...) bate uma chapação, tipo um ‘PLÁ!!!’ na sua mente, e tem pessoas que querem falar isso no microfone pra todo mundo ouvir. Acho que é uma mudança de conceito muito grande e as pessoas querem, sei lá, compartilhar isso, penso que seja isso... Mas eu não tenho essa piração, pra isso eu tenho a Gangrena, que eu posso subir no palco, grito pra caralho, mas as pessoas que estão ouvindo vão lá QUERENDO ouvir isso. Acho um saco essas pregações que os crentes querem te empurrar goela abaixo porque estão arrependidos de cheirar, de fumar maconha, de fazer macumba pra separar marido, pra aleijar os outros, de dar o cu, de ser piranha, de roubar... Acho isso caído. E vêm c/ essa postura de que estão te fazendo um puta favor de mostrar o caminho do céu, e você que é um ingrato, não quer escutar o que eles têm a dizer... Já vi testemunhos sinceros, já aceitei orações sinceras também, porque acho que boas intenções não têm religião. Dos meus avós, dos meus pais, dos fãs e amigos da banda, aceito de coração quem quiser desejar boas coisas pra mim. Não sou ‘defão’ de mandar crente tomar no cu, essas paradas. Mas sei que tem muita picaretagem no meio também (minha vó falava que era “crente do cu quente”) e meto o pé quando vêm na minha direção pra entregar papelzinho e dizer que Jesus Cristo tem uma grande obra pra fazer na minha vida, mas falta eu comprar o material...

Já rolou algum processo por parte de espíritas, crentes ou mesmo pelo Lulu Santos?

Não, somos café pequeno pra eles, crentes e espíritas. E o Lulu Santos gosta da gente, eu também acho muita coisa do Lulu Santos bem legal.

O Lulu curte a Gangrena mesmo depois da ‘homenagem’ que fizeram pra ele no encarte do Smells Like a Tenda Spirita?

O Lulu Santos é ‘diabo de mídia’ e ele sabe disso. Como disse, eu tenho vários discos do Lulu Santos, pediria autógrafo se o conhecesse pessoalmente – e se os CDs fossem originais... Sem nóia!

Existe uma especulação de que o disco Roots, do Sepultura, foi inspirado em vocês. Definitivamente: isso é fato ou lenda?

Definitivamente o Roots é um crossover de Korn no som c/ Gangrena Gasosa no conceito. O clip de ‘Roots Bloody Roots’ é Gangrena até o caroço. Mas também, todo mundo que fala de macumba no Brasil vai remeter a alguma lembrança da gente, não tem jeito. Mas nós não somos donos de toda macumba do mundo e, além disso, o Roots é um disco foda (não, não é o melhor deles, prefiro Chaos A.D. e o Beneath the Remains). Ninguém tem a patente das boas idéias, e em contrapartida, esse brá lá lá que rolou c/ o Sepultura nos ajudou na época, na tour da Alemanha a gente sempre era relacionado c/ o Sepultura e o Ratos de Porão, era a melhor referência que eles tinham pra situar o nosso som. No problem! Sepultura é uma puta banda. Mas isso de fazer macumba não deu muito certo pra eles, porque a banda perdeu muito espaço depois disso e o Max virou mendigo... Meu Deus, que cabelo é aquele, né, velho? Tem uma foto dele na revista Rolling Stone que ele tá sem um dente... Cruz credo... Que onda errada... Ele acha que isso é bonito? Já pensou como ele vai falar pro Zyon escovar os dentes se ele não dá exemplo pro garoto?

E você, na Gangrena, depois que teve filho passou a rever algumas posturas suas para não dar esse anti-exemplo igual ao do Max?

Claro que sim, eu não fico dando mole, não, porque sei que sou referência e não vou colaborar ensinando mais merda do que as que ele já vai encontrar fora da escola e de casa. Eu não fico mostrando Playboy pra ele porque ele é homem, meu filho não tem nem 12 anos. A Playboy vai servir pra que? Pra ele sentir tesão? Ele não faz sexo c/ essa idade, pra que vou incentivar isso? Pra dizer pros amigos e vizinhos que ele não é viado? Acho isso babaquice... Você tira por uns pequenos lances que você observa (pra ser pai TEM QUE OBSERVAR SEMPRE), meu filho já veio me pedir cerveja em churrasco, tipo pra mostrar pros outros moleques que já era adulto que nem o pai. Não dei uma bifa nele mas dei um sabãozinho de leve no canto e ele bebeu foi Coca-Cola mesmo. Eu, hein, mano, não fode! Sinceramente, quando eu vejo essa molecada fumando maconha e bebendo até cair na sarjeta, sei lá... Me dá muito medo. Hoje em dia vejo filmes como Alpha Dog, Kids, Requiem for a Dream, Trainspotting, e isso agora é filme de terror pra mim. Fico na merda vários dias dormindo mal, cheio de paranóias... É foda... Além disso, tem as outras coisas que meu filho vai ter contato dentro de casa mesmo, pela internet, não me iludo quanto a isso, ele sempre vai dar um jeito, como eu dei o meu jeito quando tinha a idade dele... Tem muita putaria e maluquices rolando na internet... Não dou lição de moral pra ninguém, porque sei que ninguém quer ouvir lição de moral do Chorão 3, que agora só porque é pai de família virou moralista. Mas, respondendo a sua pergunta, ser pai mudou isso na MINHA cabeça e esses são meus medos hoje em dia, quem não entende vá ser pai e veja qual é a bronca... Isso vai passar quando meu filho tiver 20 anos, mas quando ele tiver 30 vou ser avô, e aí vai começar tudo de novo...

Tem alguma música da Gangrena que você se recusa a cantar? Por quê?

Não, me recusar a tocar, não, todas são músicas da banda, mas tem umas que acho chatiiiiinhas pra cacete, tipo ‘Pomba Gyra’ e ‘Pegue o Santo or Die!’... Tem outras também, mas o fato é que curto as músicas mais porradas e c/ mais percussão.

Em 2001 vocês se aventuraram na Alemanha e Áustria fazendo alguns shows. Como foi essa experiência e como eles receberam a proposta da Gangrena? Ou não entenderam nada e tudo bem?

Eu gosto de contar uma passagem em particular que me deu muito orgulho dessa tour. Um dia fomos tocar num squat de três andares e lá em cima tinha um punk dormindo que acordou com o som e desceu pra ver a gente. Ele disse pro dono do bar o seguinte sobre nosso show: “Eles são tão agressivos quanto o Slayer, tão pesados quanto o Venom e tão loucos quanto o Prodigy”. Pra mim que sou a minha pessoa pessoalmente isso valeu qualquer custo que tive pra viajar naquela tour. Considerando que o cara não falava português e não entendia nada das nossas letras, tenho muito orgulho de ser da Gangrena Gasosa por isso. Se eu não fosse da Gangrena, seria fã pra caralho da banda.

Notei em diversos momentos nessa entrevista que você cita Deus. Quem é Deus para você?

Deus p/ mim, atualmente, é um crossover de Stephen Hawking, doutor em Cosmologia, c/ todas as tradições místicas e ciências ainda não desenvolvidas e estudadas da face da Terra. Um conceito tipo o do físico Amit Goswami. Eu ainda estou sob efeito do filme Quem Somos Nós? e essa pergunta é complexa demais, porque eu mesmo já me fiz essa pergunta e juro por Deus que não sei a resposta... Acho que Deus é um conceito muito pessoal, e eu ainda estou correndo atrás dessa compreensão. Saí do materialismo mental que venho pregando (vociferando) grosseiramente (sem conhecimento de causa, quero dizer) desde a minha adolescência, e estou deslumbrado demais c/ os novos conceitos c/ os quais tenho tido contato. O bom desse momento que estou vivendo é que (ainda) não fiquei chato o bastante p/ ficar pregando meu ponto de vista pra ninguém. E espero permanecer assim por muito tempo, acreditando em Deus, mesmo que eu não saiba explicar quem ou o quê Ele é.

O que podemos esperar da Gangrena nessa nova fase?

Sinceramente, eu também gostaria de saber. Eu me faço essa mesma pergunta todo santo dia...

Fonte: PORTAL ROCK PRESS

Entrevista por Marcio SNO

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

ZINEIROS MALDITOS !!!

Tem gente que não desiste, né ? Ainda bem !!! Em plena segunda década do século XXI, cultura digital disseminada e funcionando a todo vapor, ainda tem uma galera que curte as boas e velhas publicações artesanais impressas ou fotocopiadas. Verdadeiros Heróis da Resistência, que se reuniram ontem em São Paulo. Marcio Sno (ele, pra variar) registrou tudo e postou suas impressões no Facebook. A Escarro Napalm Unauthorized reproductions inc. traz o texto até você, solitário leitor deste humilde blogue ...

Em tempo, na foto estão, da esquerda para a direita, Gazy Andraus, Hugo Leta, Renato Donisete, Sylvio Ayala, Fernanda Meireles, Leandro Márcio, Olga Defavari, Douglas Utescher, Rodrigo Okuyama e Márcio Sno.

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Acordei hoje às 7h e não consegui mais dormir. As imagens do dia anterior ainda saltitavam na minha cabeça. Não sei como cheguei em casa, pois minhas pernas meio que não respondiam mais por conta do dia intenso de muitas atividades que foi conduzida com um único tema: fanzines.

Sim, fanzines. Lembra aquele meio de comunicação que teve seus dias contados lá nos meados dos anos 1990 quando o computador começou a se popularizar e a internet estava começando a invadir os lares e os webzines e blogs eram os executores dessa morte declarada? Poisé, como Fellipe CDC já havia dito: "fanzine é que nem zumbi, pode tentar matar e enterrar, que ele sempre volta". E isso foi mais do que provado com a realização do 1º Ugra Zine Fest.

O evento que, a princípio, seria apenas o lançamento do 1º Anuário de Zines, culminou em um grande evento, repleto de atividades e que conseguiu reunir muitos fanzineiros de todos os cantos no Espaço Concreto, na badalada Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.

No espaço, foram disponibilizadas três salas para exposições de fanzines de várias gerações, de uma forma muito criativa: uma vez com capas espalhadas aleatoriamente numa parede, ora "caindo" do teto e também como literatura de cordel, como se fossem roupas no varal. Segundo Gazy Andraus, "a melhor exposição de zines" que ele já viu (e olha que o cara viaja Brasil afora para participar de eventos do tipo!). A instalação fica até 20/02.

Para começar as atividades do dia, Rodrigo Okuyama aplicou uma oficina de encadernação artesanal. Pude conferir alguns de seus trabalhos, e o cara é fera! Faz umas coisas lindas!

Na sequência, a Cooperativa Manjericão ensinou o pessoal a produzir serigrafia, de forma artesanal, feito com material reaproveitado.

Gazy Andraus e Elydio dos Santos Neto falaram sobre suas experiências com os "biographic zines", aplicados em turmas de mestrado, na qual o fanzine atuou como ferramenta pedagógica. Vale lembrar que ambos são doutores e utilizam o fanzine em diversas situações. Ou seja: vai pensando que fanzine é só diversão...

O pessoal da Cooperativa Manjericão e do Coletivo Você tem que Desisitr falaram sobre a bastante comentada "Tour de Zines" que percorreu diversas cidades do país, levando o fanzine e outras atividades ligadas ao veganismo, produção gráfica, serigrafia e tudo mais.

Olga Defavari falou sobre a sua experiência em escrever o livro "A imprensa alternativa no ABC", curiosamente, como ela mesma falou, era a única pessoa que estava palestrando que não havia feito fanzine, porém, acompanhou de perto o trabalho de fanzineiros da região pesquisada, que ajudaram a escrever a história da cena do ACB.

A próxima atividade foi um debate em que eu participei junto com Fernanda Meireles (que veio de Fortaleza/CE para esse evento), Renato Donisete, que há 20 anos edita o Aviso Final e também Gazy Andraus. Para mim, foi uma grande honra dividir a mesa com pessoas tão importantes para a fanzinato nacional. O tema foi "O futuro dos fanzines", mas é lógico que não falamos apenas disso! Sala cheia e apenas uma pessoa dormiu!

Na sequência, aconteceu um show surpresa. Embora eu goste muito de barulheira, os decibéis produzidos na experimentação foram um pouco além do meu limite.

Depois foi a tão esperada estreia do primeiro capítulo do documentário "Fanzineiros do Século Passado". Todos ficaram quietinhos para assistir. Alguns dos personagens do doc estavam lá: Kris Santos, Hugo Leta, Renato Donisete, Thina Curtis, Gazy Andraus e Adilson Ribeiro. Foi um sucesso! Fiquei muito feliz com a repercussão e a alegria dos presentes com o filme. Fechou com chave de ouro!

Quero, mais uma vez, publicamente parabenizar os organizadores desse evento, que é um marco no fanzinato nacional, muito bem organizado e "redondinho"! Merece aplausos de pé pela garra e a vontade de fazer algo em prol dessa nossa arte por muitos tachada como marginal, mas que é uma das grandes razões de nossa existência!

Que a força esteja sempre com você!

Sno

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quanto vale um sonho ...

R$ 300,00 + um monte de despesas adicionais, no meu caso. É uma grana, mas uma voz ainda forte vinda de "somewhere in time", mais precisamente de 20 anos atrás, não me perdoaria se perdesse mais essa oportunidade. A voz do moleque que se emocionou ao "descabaçar" o "Live after death" em vinil e abrir a capa dupla para ficar maravilhado com as fotos do show ao vivo, e que não parou mais de ouvir o tal disco por um bom tempo, aproveitando a disponibilidade do aparelho de som de sua casa para colocar o volume no talo sempre que se encontrava sozinho.

Eu vou nessa porra !!!!

A.




sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As coisas mudam para continuarem as mesmas

Recentemente, numa palestra de Plínio de Arruda Sampaio que assisti e documentei aqui neste blog, me surpreendi com uma defesa do ditador africano Robert Mugabe feita por ele. Apenas um dos muitos exageros cometidos por Plínio - gosto dele mas, evidentemente, não endosso nem compartilho de todas as suas opiniões. Hoje me caiu às mãos uma materia interessante sobre o assunto, vinda de fonte relativamente (já que totalmente não existe) isenta, a revista Fórum. Parece não haver dúvidas quanto ás boas intenções do hoje presidente praticamente vitalício em seu início de carreira política, mas este parece ser também um típico caso daqueles em que "as coisas mudam para continuarem as mesmas". Saber ao certo não sei, mas acho saudável desconfiar, sempre. Leia a matéria abaixo e tire suas próprias conclusões - ou não.

A.

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Com eleições programadas para 2011, Robert Mugabe, aos 86 anos, se prepara mais uma vez para se reeleger presidente do Zimbábue. A pergunta é: será diferente dessa vez?

“Para o homem que eu uma vez admirei: Você se lembra da primeira vez em que nos encontramos, em 1974? Eu tinha 27 anos e você quase 50. Sintonizamo-nos imediatamente. Alguma coisa relacionada à minha juventude e avidez pela vida mexeu com você. Você se tornou meu herói adorado. Lembro como articulava sua visão sobre a liberdade da opressão colonial. Tinha certeza de que você era a pessoa certa para liderar nosso país para a liberdade. Estava preparado para lutar por aquilo em que você acreditava. Um verdadeiro homem de princípio... Quando nos encontramos há 34 anos Mugabe, eu te desejei uma vida longa, saúde e felicidade. Não imaginava que as coisas acabariam desse jeito... O Zimbábue merecia e merece muito mais.”

O trecho da carta acima, escrita pelo jornalista zimbabuano Wilf Mbanga a Robert Mugabe, expõe um sentimento presente entre muitos zimbabuanos: afinal, o que aconteceu com o líder da independência e com o país? Hoje com 63 anos, Wilf Mbanga vive desde 2004 na Inglaterra em auto-exílio e tenta entender essa mudança. Durante anos ele foi amigo e braço direito na área de comunicação de Robert Mugabe.

Os dois se conheceram na década de 70, durante o regime segregacionista de Ian Smith. Foi nessa década que a guerrilha organizada por grupos nacionalistas negros se intensificou, assim como as pressões internacionais da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, que contribuíram para acabar com o regime de minoria branca e reconhecer a independência do Zimbábue (ex-colônia inglesa) em 1980. Robert Mugabe , o principal líder dessa luta e seu partido Zanu-PF (União Nacional Africana do Zimbábue) ganharam as eleições democráticas daquele ano e têm governado o país desde então.

Assim, Mugabe se tornou o presidente da nação que ele ajudou a libertar. Os primeiros anos de seu governo foram bastante promissores, com crescimento econômico, aumento da alfabetização da população e ampliação do acesso à saúde pública. Foi nessa época, em 1981, que Wilf Mbanga foi nomeado diretor da agência de notícias do governo. “A partir daquele ano passei a acompanhar de perto o dia a dia de Mugabe. E por causa desta posição viajei com ele por todo o mundo. Isso acabou nos aproximando muito”, conta.

Porém, já no início da década de 80 a situação começou a mudar. Em 1983, Mbanga ouviu rumores de massacres no sudoeste do país. Ele não acreditou que Mugabe fosse o responsável. Anos mais tarde, entretanto, ele descobriu que o presidente tinha sido o mandante da morte de mais de 20 mil pessoas em Matabeleland. “Foi em 1987, quando participava de um projeto nacional de jornais para pequenas comunidades, que comecei a ficar desiludido. Vi como as coisas estavam sendo governadas no país e senti que não podia continuar trabalhando para o governo. Principalmente porque passei a ser crítico em relação ao que eles faziam e eles não admitiam isso”, explica Mbanga.

Questionado sobre o que teria mudado as atitudes de Mugabe, Wilf desabafa: “Foi o poder que mudou Mugabe. O poder e o medo de perdê-lo. O medo de tudo que pode vir pela frente se ele deixar de governar o país. Todo esse temor faz com que ele tome atitudes mais e mais autoritárias.”

A mídia contra o regime

A década de 1990 seguiu impulsionada por um crescente autoritarismo e declínio econômico. Isso levou à criação, em 1999, do partido de oposição Movimento para Mudança Democrática (MDC), uma aliança de sindicatos e outros grupos da sociedade civil, liderados por Morgan Tsvangirai, atual primeiro-ministro do país. No mesmo ano, cinco meses antes, Wilf Mbanga e outros amigos se juntaram e fundaram o The Daily News, o primeiro jornal diário independente do país, que rapidamente se tornou muito popular. Wallace Chuma, zimbabuano radicado na África do Sul e hoje professor de mídia na Universidade de Cape Town, fazia parte dessa equipe de jornalistas. Ele se lembra da criação do MDC e do jornal. “Era como se toda população estivesse à espera desse momento. O partido viu no nosso jornal um grande aliado. A maioria das nossas fontes e histórias políticas era sobre o MDC. Naquela época você podia telefonar ao Morgan Tsvangirai e ele imediatamente te convidaria para um café”, lembra Chuma.

Nessa mesma época, o Zanu-PF passava por muitas crises internas e tinha muitas facções. Para desmoralizar seus oponentes internos, as facções passavam as informações sobre o partido para o The Daily News. Entretanto, percebendo a real perda de poder que estava afetando o partido, os integrantes se reagruparam no início de 2000, ano que aconteceu o referendo constitucional para aprovar a nova Constituição.

O The Daily News cobriu extensivamente o referendo, em que o “Não” venceu com o voto de 53% da população, o que foi o gatilho para as invasões de terra dos brancos vivendo no Zimbábue. O jornal tomou a decisão editorial de condenar as invasões. “Por conta disso passamos a sofrer uma série de represálias. Pessoas pegas lendo o jornal eram torturadas – isso inclusive foi bem documentado, jornalistas foram presos e ameaçados, além das tentativas de literalmente explodir o jornal”, explica Chuma.

Em 2003, o jornal foi banido. Depois de ter seu telefone grampeado e ter que conviver com constantes ameaças, Wilf Mbanga decidiu deixar o país. “Passei um ano na Holanda e depois me mudei para a Inglaterra. Morando fora percebi que não tinha acesso a notícias do meu país, tanto eu quanto uma enorme quantidade de zimbabuanos vivendo no exílio. Por isso decidimos fundar o The Zimbabwean. Começamos distribuindo o jornal na Inglaterra e na África do Sul e depois passamos a levá-lo de caminhão também para o Zimbábue”, conta Mbanga.

O jornal se tornou um sucesso, mas a represália continuou. Numa ocasião, o caminhão que leva os jornais da África do Sul para o Zimbábue foi sequestrado e incendiado. Por conta disso, os 17 repórteres que compõem o jornal não têm seus nomes nos créditos e trabalham na clandestinidade, enviando seus trabalhos de lanhouses.

Os refugiados

Depois do referendo de 2000, a situação do país não melhorou. Aconteceram mais quatro eleições – duas presidenciais (em 2002 e 2008) e duas parlamentares (2000 e 2005), todas com denúncias de fraudes e forte intimidação do governo. A economia também não deu sinais de melhora. Em agosto de 2008 a inflação era de 11.200.000%, o que fazia o preço dos produtos dobrar a cada dia. Foi preciso criar a nota de um bilhão de dólares zimbabuanos. A solução encontrada foi dolarizar a economia em 2009.

Esses fatores – péssima situação econômica e política – levaram uma enorme quantidade de pessoas a deixar o país em busca de condições melhores. Só na Grã-Bretanha são cerca de um milhão. Além disso, há uma estimativa de mais dois milhões vivendo na África Austral (principalmente África do Sul e Botsuana), o que faz com que o número total de exilados seja de cerca de 20% da população do país.

O movimento migratório trouxe consigo outros problemas, como a xenofobia enfrentada por muitos deles, especialmente na África do Sul. Em 2008 houve uma onda de ataques aos zimbabuanos vivendo na Cidade do Cabo. Wallace Chuma, que vive lá, complementa: “O que você realmente sente é o racismo. Conheço centenas de imigrantes ilegais vivendo na África do Sul, alguns deles são até da minha família. Eles enfrentam dificuldade para conseguir documentos; logo, sem identidade ou passaporte não podem abrir conta no banco nem ter um emprego formal. Portanto o que lhes resta é o mercado informal de compra e venda de produtos e a marginalização da sociedade”.

Para o pesquisador do Departamento de Estudos Africanos do Instituto Alemão de Pesquisas Globais (GIGA), Christian von Soer, os principais problemas dos imigrantes são o fato de a África do Sul não ter uma política de migração para lidar com o problema, e o fato de os imigrantes ilegais oferecerem seus serviços pela metade do preço do mercado. Isso aumenta a competitividade com os sul-africanos e desvaloriza o valor do seu trabalho, que por sua vez leva a esse sentimento de ressentimento. “Apesar da pequena melhoria na economia zimbabuana, o fluxo de imigrantes ainda continua, e eles ainda têm problemas para encontrar moradia. Você os vê nas ruas, pedindo esmola, e percebe o ressentimento dos sul-africanos”.

Uma situação que talvez pudesse ter sido evitada. Segundo Christian von Soer, Mugabe deu sinais de que não era um líder tão democrático assim já na década de 1980. “Ele teve muitas atitudes autoritárias. Quando sentiu o seu poder inseguro ele passou a intimidar a população e a tornar seu o exército mais forte do que nunca. Houve sinais claros de que não era nada parecido com democracia o que estava acontecendo no Zimbábue, mas muitos atores da comunidade internacional ignoraram esses sinais”.

O que vem depois?

Em 2008, nas eleições presidenciais de maio o candidato da oposição (MDC) Tsvangirai conseguiu 47.9% e Mugabe 43.2% dos votos, o que os levou para um segundo turno, apesar dos apelos de Tsvangirai sobre fraudes ocorridas no primeiro turno. Uma semana antes da realização da votação decisiva, Tsvangirai se retirou da disputa alegando a forte violência contra as pessoas que o apoiavam. Mesmo assim o segundo turno aconteceu e deu a vitória a Mugabe com 85% dos votos. A comunidade internacional reagiu, pressionando o Zimbábue a achar uma solução mais democrática. Em 2009 Tsvangirai assumiu o posto de primeiro-ministro, passando a dividir o poder com Mugabe.

Ainda não há certeza se as eleições programadas para junho 2011 vão de fato acontecer, pois há muitas questões logísticas que ainda não foram resolvidas. A grande questão é se o pleito será diferente dos anteriores. Segundo Wilf Mbanga, atualmente existem muitos ao redor de Mugabe que se beneficiam do regime. “Essas pessoas não têm nenhum interesse em uma mudança para o país. Por isso eles estão começando uma campanha para ter Mugabe como presidente para o resto de sua vida. Ele é a cola deste partido. Se morrer amanhã, haverá muita disputa interna para ver quem irá sucedê-lo”, explica.

Wallace Chuma acredita que o sucessor de Mugabe será Emmerson Mnangagwa, também do Zanu-PF. “Não o vejo abrindo mão do seu poder tão cedo.” Para Christian von Soer, o partido tentará intimidar a campanha dos oponentes mais uma vez em 2011. “Cabe aos 15 países que constituem o SADC (Comunidade do Desenvolvimento da África Austral), liderados pelo presidente sul-africano Zuma, pressionar o Zimbábue por uma eleição limpa”.

Ainda esperançoso, Wilf Mbanga termina sua carta a Mugabe: “Não é tarde, Mukoma . Você ainda pode fazer a coisa certa. O povo pelo qual você lutou ainda está lá. Eles ainda querem a liberdade. Você uma vez os amou suficientemente para dar a sua vida pela sua liberdade. Abra mão do seu poder, Mukoma. Liberte seu povo. Deixe-os decidir quem eles querem que os governe. Essa é a única coisa que nos fará amá-lo de novo.”

BOX – O jornalismo nas universidades do Zimbábue

O Zimbábue tem cerca de seis cursos superiores e técnicos de jornalismo. Essas instituições ensinam teoria da mídia, produção de jornalismo, diagramação etc. Um acréscimo recente ao programa de jornalismo de uma das universidades é um curso chamado “Estudos Estratégicos”, que basicamente glorifica a liderança do Zanu-PF e seu papel na libertação do país. Outro fato que chama a atenção na área do jornalismo é a questão da “fuga de cérebros”. Segundo Wallace Chuma, “Quem podia deixar o país, deixou.” Ele ainda acrescenta que os professores podem expressar livremente suas opiniões, especialmente agora com um governo de coalizão. “Entretanto aqueles que o fazem não são promovidos, pois a maioria das instituições é politizada e Robert Mugabe é o chanceler de todas as instituições do país”, explica.

Por Caroline d’Essen

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