sexta-feira, 18 de junho de 2010

D. E. P. José Saramago

Eu certamento leio mais que a média do brasileiro comum, mas é também certo que leio muito menos do que gostaria. De José Saramago, pelo qual tinha uma extrema admiração por sua inteligência e convicção, li muito pouco. De livro, mesmo, apenas “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Ao lado do que ele tem dito na imprensa e me chegou aos olhos e ouvidos, foi-me suficiente para me tornar fã. O “Evangelho” me marcou muito – considero-o uma das melhores obras literárias que já li em toda a minha vida. Trata-se de uma “fantasia realista”, algo do tipo “o que aconteceria se” Cristo tivesse realmente existido (há controvérsias) e fosse, de fato, filho de Deus - no caso, Jeovah, ou Javé, o “Deus de Israel”. A imolação de seu filho na cruz seria, então, parte de uma espécie de “trama política” celestial com o objetivo de sobrepujar a “concorrência”, os demais deuses do infindável panteão adorado pelos humanos. Um plano de expansão do monoteísmo. Causou furor na igreja católica de Portugal, ao ponto de ter sido preterido pelo governo numa indicação para um prêmio literário por pressão do clero, fato que desgostou tanto o autor que o fez se auto-exilar na ilha vulcânica de Lanzarote. Fora isso, conheço apenas o filme de Fernando Meireles baseado em “O Ensaio sobre a cegueira”. Gostei, mas dizem que o livro é bem melhor. Espero tomar vergonha um dia e conferir com meus próprios olhos.

José Saramago morreu hoje.

Que descanse em paz.

A.

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José Saramago morreu. O Dossiê Geral pede licença para republicar o relato de um encontro com o homem.

Por Geneton Moraes Neto - 2000-2010 globo.com Todos os direitos reservados.

A ficha que a gente preenche quando chega a um hotel sempre pergunta qual é a nossa profissão. Se dependesse de mim, eu escreveria : “agente provocador”.

Imagino a cena de um filme B de décima-oitava categoria: o gerente da espelunca - com camiseta branca, barriga estufada e um lápis encaixado atrás da orelha - tiraria o cigarro de palha da boca, cuspiria de lado e me perguntaria, com voz fanhosa e entonação de personagem mal dublado de filme de TV : “Quer fazer o favor de dizer o que diabo significa “agente provocador” ? Alguma piadinha de mau gosto, por acaso ? Sinto muito, forasteiro, mas não temos vaga. É melhor você ir andando, se ainda estiver pensando em salvar a própria pele ! O último agente provocador que passou por aqui virou banquete para as águias daquela montanha. Get out of here, coiote!”.
Vou. Sem tiroteio, sem cenas de ação, sem pancadaria no saloon, sem cavalos em fuga, o filme B termina sob as vaias da plateia. Não poderia ser de outra maneira.
Mas, como todo filme deve ter uma ponta de verdade, o locutor-que-vos-fala declara que sim, se pudesse, escreveria as palavras “agente provocador” no espaço destinado à profissão. Afinal de contas, que outras coisas úteis um repórter pode fazer na vida, além de cumprir o papel de agente provocador diante dos entrevistados ? Poucas. Pouquíssimas.

De vez em quando, a tática da provocação pode dar resultado. Ou seja: pode levar o entrevistado a produzir declarações interessantes.

Dou um exemplo aos senhores jurados. Quando fui entrevistar José Saramago, o escritor que permaneceu fiel ao Partido Comunista Português independentemente das mudanças da paisagem política, comuniquei ao meu demônio-da-guarda: “Vou dar uma cutucada no bicho. Vou insinuar que ele é um dinossauro político. Quero ver o que ele diz”. Meu demônio-da-guarda se limitou a expelir um daqueles suspiros com cheiro de enxofre e a rir uma risada de bruxa de desenho animado, como se dissesse: “Você vai levar uma patada. Quero ver!” (a bem da verdade, diga-se que, tempos depois, o “dinossauro político” e “comunista de carteirinha” Saramago escreveu um artigo criticando pela primeira vez a rigidez de penas impostas pelo regime cubano a dissidentes. A lembrança do encontro com Saramago me veio quando li, neste fim de outubro, a notícia de que o homem acaba de lançar um novo romance – “Caim”, uma espécie de acerto de contas com Deus).

De fato, Saramago reagiu com alguma irritação à nossa provocação. A entrevista estava salva. Num gesto de cortesia, o português laureado com o Nobel de literatura ainda citaria o nome de três escritores brasileiros a quem ele concederia – de bom grado – o prêmio. Levada ao ar na Globonews, a entrevista com José Saramago foi publicada, na íntegra, no livro “As Grandes Entrevistas do Milênio”, lançado pela Editora Glob.

Ei-la:

O senhor é até hoje filiado ao Partido Comunista Português. Não tem medo de ser visto como um animal político em vias de extinção?
(O espírito de porco que quiser irritar o Prêmio Nobel de Literatura José Saramago já sabe o que fazer: basta chamar o homem de dinossauro político. Quando ouve a insinuação político-zoológica, o cordato Saramago imprime um tom incisivo à resposta)
Saramago: “Há muitas coisas em vias de extinção que deveriam preocupá-lo mais : profissões que se acabam, culturas que desaparecem, línguas que perdem sentido porque já não têm ninguém que as fale, um planeta que estamos destruindo. Deixemos lá os dinossauros políticos. Porque acontece uma coisa curiosa : é preciso ter cuidado com a expressão “dinossauro político”. Pode chegar o momento em que, tal como acontece com os dinossauros autênticos, os estudiosos andem à procura dos ossos dos dinossauros políticos, para tentar reconstituí-los tal como eles teriam sido. Talvez um dia se venha a necessitar dos ossos dos dinossauros políticos que nós somos para que se entenda o que acontecia no mundo”.
(Minha tática de agente provocador funcionou : quando se sente confrontado, o dinossauro Saramago reage com um punhado de frases afiadas,o que não deve ser difícil para quem se notabilizou como exímio esgrimista das palavras)
Usa-se no Brasil a expressão “comunista de carteirinha”. O senhor anda com a carteirinha do Partido Comunista Português ?
Saramago: “Não ando com ela. Tenho cartões e carteirinhas de várias e várias instituições com quem mantenho relações. Não ando com as carteirinhas de todos. Mas pago a minha cota ao PC”.
O dirigente comunista Álvaro Cunhal entregou ao senhor uma carta que não deveria ser aberta. Que segredo era esse ?
Saramago : “Álvaro Cunhal na verdade escreveu uma carta que nunca li, porque a carta só me seria entregue se ele não tivesse sobrevivido a uma intervenção cirúrgica a que foi submetido na União Soviética. O que sei é que ele escreveu cartas que seriam entregues a vários destinatários se ele não tivesse sobrevivido. Não é o Terceiro Segredo de Fátima : ele próprio me comunicou, depois, ter dito, na carta, que esperava que eu nunca saísse do Partido Comunista Português. Não saí. Não sairei. Em todo caso, a carta nunca me foi entregue”.
Independentemente do apelo que seria feito nessa carta, jamais lhe passou pela cabeça a idéia de largar o Partido Comunista ?
Saramago: “Não tenciono efetivamente – para usar a expressão que você usou – “largar” o Partido Comunista, a não ser que ele me largue. Quero dizer : se amanhã o Partido se transformar em outra coisa, como aconteceu com a maioria dos partidos comunistas europeus, posso não reconhecer o Partido a que aderi. Nesse caso,é possível que eu saia. Mas espero que não aconteça”.
Por que é que o Prêmio Nobel de Literatura não gosta de falar de literatura ?
Saramago : “…Mas eu nunca disse que não gosto de falar de literatura! O que disse foi que cada vez menos me interessa falar no assunto.Não é que não goste.Se é meu trabalho,como é que não iria gostar ? Quando se publica um livro, ou por qualquer outro motivo, ligado ou não ligado a mim, falo de literatura, evidentemente. O que acontece é que considero que os problemas do mundo não se esgotam na literatura. São tão graves e tão importantes que, se tenho a oportunidade, até quando trato de literatura trato de abordá-los. Não é dizer que não gosto de falar de literatura”.
O senhor já disse que o Brasil é um país de luzes e sombras. Aos olhos do mais famoso escritor português de hoje, qual é a grande luz e qual é a grande sombra que o Brasil projeta ?
Saramago: “Uma pergunta dessas não é fácil de responder. Países de luzes e sombras de uma maneira ou de outra todos o são. O que digo em relação ao Brasil é que o país poderia ser, pelas riquezas naturais e pelas características do povo, um país em que as luzes predominassem. Não digo que as sombras é que predominam. O que quero dizer é que as sombras poderiam ser menores e menos graves”.
Se o senhor fosse fazer hoje o papel do escrivão Pero Vaz Caminha,quinhentos anos depois, qual seria a primeira frase que escreveria sobre o Brasil ?
Saramago : “Depende do lugar onde eu desembarcasse. Se desembarcasse em Copacabana, quando se arrebentaram os esgotos nas praias no Rio de Janeiro, diria ao rei Dom Manuel que aqui não poderia viver ninguém, porque o lugar cheira mal .Se, pelo contrário, desembarcasse numa praia limpa, coberta não de índias despidas, mas de lindas moças quase despidas, diria que aqui é um sítio para viver, uma terra linda. Se, no entanto, começasse a encontrar as favelas, diria : “Mas o que é que se passa aqui ? Eu julgava que os índios viviam de outra maneira!”.
O senhor ainda se sente “como uma Miss Universo”, com a agenda atolada de compromissos depois do Prêmio Nobel ?
Saramago : “Fiquei com a sensação de que as agendas de uma Miss Universo e a de um escritor premiado eram bastante parecidas. Mas hoje posso dizer que não se parecem em nada. As obrigações e responsabilidades de uma Miss Universo duram um ano. Haverá, então, outra Miss Universo, não só com a coroa na cabeça, mas também com o dever de fazer tudo aquilo que a predecessora fez. Mas, no meu caso – eu, que, não sei se feliz ou infelizmente, não pareço em nada com a Miss Universo – as obrigações não cessaram pelo fato de em 1999 Gunter Grass ter ganho o Prêmio Nobel.
Diga-se que o Prêmio Nobel não impõe rigorosamente nenhuma obrigação. O sujeito chega lá, recebe o Prêmio e vai para casa. Depende da vontade do escritor o uso que ele fará do tempo – o emprego que fará de suas possibilidades de comunicação, se vai continuar a escrever, se vai ter contatos com os leitores. Como o Prêmio Nobel foi atribuído a um escritor de língua portuguesa, é claro que minhas obrigações e responsabilidades se multiplicaram. Eu entendi que deveria assumi-las”.
Qual é o maior incômodo que um Prêmio Nobel enfrenta, além do fato de ser sempre importunado por jornalistas, como o senhor agora ?
Saramago: “Poderia responder que o outro maior incômodo é ser importunado por fotógrafos. Mas não. Incômodo não há nenhum. O que acontece é que se perde a invisibilidade depois que se ganha o Prêmio! É o pior. Evidentemente que é agradável ser reconhecido na rua e em qualquer parte, no aeroporto ou no restaurante. É agradável ver um leitor se aproximar para nos dizer uma palavra amável sobre o que leu. Em todo caso, não é que eu preferisse voltar ao anonimato, mas não há dúvida de que há momentos em que gostaria de me tornar invisível. Só não quero ser ingrato. Todos me tratam com tanto carinho e tanta atenção que qualquer palavra minha nesse sentido poderia parecer de algum modo uma ingratidão. Não é. Apenas que vez em quando sinto a necessidade de recolher-me à minha própria privacidade – que, enfim, já se perdeu”.
A que escritor brasileiro vivo ou morto o senhor concederia o Prêmio Nobel de Literatura ?
Saramago: “Não me importaria nada dar a eles o Prêmio, se fosse membro da Academia Sueca: Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sem nenhuma dúvida, eu, membro da Academia Sueca, atribuiria o Prêmio a qualquer um dos três. Mas não foi assim que aconteceu”.
O senhor tem uma visão essencialmente pessimista diante do mundo. O pessimismo é bom para a literatura ?
Saramago : O pessimista não é bom nem mau para a literatura, mas não tenho uma visão pessimista do mundo. Num momento como esse, pareceria, a mim, um pouco surpreendente que alguém se atrevesse a ser um otimista.Quem, diante do espetáculo oferecido pelo mundo em que vivemos, veja razões para ser otimista é uma pessoa que ou não percebe aquilo que se passa ou então faz de conta que não entende.O melhor, então, é deixarmos de falar em otimistas e pessimistas. Os fatos são os fatos. Não há otimismo ou pessimismo que faça com o que um fato deixe de ser um fato .A interpretação do fato é que pode variar. Mas o fato continua lá. Penso que os fatos desse mundo, dessa vida, desse planeta, dessa sociedade humana são fatos suficientemente sérios e graves.Temos de enfrentá-los não para divagar sobre o otimismo e o pessimismo com que poderíamos considerá-los mas para pelo menos compreendê-los e, se possível, tentar resolvê-los”.
Mas há dois fatos que são aparentemente indiscutíveis no mundo de hoje. Primeiro : o fato “otimista” de que nunca tantas pessoas em todo o mundo viveram tão bem e tiveram acesso a tanta riqueza. O fato “pessimista” é que nunca foi tão grande a diferença entre pobres e ricos. Diante desse quadro, o senhor não tiraria nenhum motivo para enxergar o futuro com algum otimismo ?
Saramago : “Não. Se a parte negativa não existisse, então eu diria : uma vez que nunca houve tanta gente vivendo tão bem, pode-se presumir que, no futuro, haja ainda mais gente que vai viver igualmente bem. Mas, como você mesmo acaba de dizer, nunca foi tão grande a diferença entre os que têm e os que não têm .Tudo indica que a diferença vai ampliar-se. Não vem se reduzindo.
É evidente que há mais pessoas que estão vivendo bem. Mas também há mais pessoas vivendo mal. Como a população da terra vem se multiplicando, pode-se dizer que, se alguma parte vai se integrar à minoria que vive bem ou razoavelmente bem, muito mais gente vai se incorporar à parcela dos que vivem mal. Além de tudo, não se deve esquecer que há uma tendência para a pauperização das classes médias. Há uma parte mínima da classe média que ascende – e passa para o outro grupo. Mas há uma parte da classe média que vai se aproximando cada vez mais da parte desfavorecida.
Volto a dizer que não há pessimismo nem otimismo. Repito : os fatos são os fatos. Noto também que o problema já não é ter ou não ter. O problema – não menos importante – é saber ou não saber. É cada vez maior o número de pessoas que não sabem. Ou sabem mal aquilo que julgam saber. É cada vez menor o grupo de pessoas que detém todo o conhecimento – e de certa forma usa-o para levar o mundo para onde o mundo vai”.
Por que os escritores brasileiros são tão ausentes de Portugal e os escritores de Portugal tão ausentes do Brasil ?
Saramago : Pode-se pensar, por exemplo, que leitores de um país não dêem atenção suficiente àquilo que se publica no outro. Pode-se pensar que os temas que tratam os escritores de um país não interessam aos leitores de outro. Mas também se pode pensar que não há um trabalho de fundo para aproximar os dois. É certo que os escritores portugueses vêm aqui. É certo que os escritores brasileiros vão a Portugal. Mas há algo que se passa que não sei explicar. Temos de pensar no seguinte : o leitor também tem suas razões para preferir ou não preferir. Quero crer, no entanto, que seria bom se houvesse um trabalho contínuo de ajuda à edição – evidentemente, é preciso ver até que ponto tal ajuda é economicamente viável .O que é lamentável é que seja assim. Sou uma exceção. Eu próprio me pergunto por quê. Não sou capaz de dar uma explicação.
Talvez o que se devesse fazer seria perguntar aos leitores: por que não os interessa a literatura portuguesa? Por que não os interessa a literatura brasileira ? Como é que poderiam se interessar ? Por que os interessa um determinado autor – e não outro ? Fernando Pessoa é muito lido no Brasil. Cem anos depois, Eça de Queiroz também o é. Já Machado de Assis não é tão lido em Portugal como Eça de Queiroz é no Brasil. Faça-se um inquérito para que se chegue a alguma conclusão”.
O primeiro escritor brasileiro com quem o senhor teve contato deixou alguma influência na formação do senhor ?
Saramago: “Não posso jurar, porque foi há muitos e muitos anos. Mas o primeiro pode ter sido Raul Pompéia, com esse livro extraordinário que é O Ateneu. Você me pergunta se ficou alguma influência da leitura. Claro que não, porque eu era muito novo. Ainda não pegava essas coisas. O resto foi a aprendizagem. Uso essa palavra propositadamente , porque o que houve comigo foi a aprendizagem de uma literatura escrita em minha própria língua, mas criada e imaginada em outro lugar – o Brasil, com tudo o que para mim representou a descoberta não só dessa literatura, mas também das realidades sociais e culturais que estavam por trás dos livros”.
Uma crítica publicada numa revista brasileira sobre o livro “A Caverna” diz que “a literatura refinada de Saramago dessa vez dá lugar a um sermão”. O senhor acha que a denúncia das mazelas do mundo pode eventualmente comprometer a qualidade literária ?
Saramago : “Tenho que dizer que nunca comento qualquer crítica. É um princípio meu. Eu escrevo o que entendo, o crítico escreve o que entende. Comentários meus sobre uma crítica ninguém encontrará, em toda minha vida”.
Uma velha pergunta : o senhor escreve para fugir da morte ?
Saramago : “Não, porque ninguém foge da morte. É uma ilusão. O que pode acontecer é pensarmos – e devo ter pensado – que se escreve porque não se quer morrer. Parte-se do princípio de que a obra vai ficar, não se sabe por quanto tempo. Hoje, não sou tão ambicioso. Eu me limito a dizer que escrevo para tentar compreender as coisas”.
O senhor escreveu, no livro “A Caverna”, que as frases de efeito são “uma praga maligna”.Qual é a frase de efeito predileta de José Saramago?
Saramago : “Tento evitar, o mais que posso, as frases de efeito. Mas nem sempre consigo fugir à tentação de escrever uma. Só espero é que, se elas são só frases de efeito, as pessoas que as leiam ou as ouvem não as tomem demasiado a sério”.
Se o senhor fosse definir o Brasil numa só palavra, que palavra o senhor usaria ?
Saramago: “Como é que se pode definir numa só palavra ? Se pudesse usar nem que fossem duas palavras, talvez eu conseguisse. Dê-me três palavras…..”
Quais seriam, então, as três palavras ?
Saramago: “Eu definiria assim o Brasil: “Quando se decidem?”.
Qual é a grande pergunta que o escritor José Saramago não conseguiu responder até hoje ?
Saramago : “A pergunta que não consigo responder é muito simples : para quê ? Para que tudo isso ? Vou morrer sem encontrar a resposta. Creio que ninguém nunca encontrou”.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Noite das "guitarradas"


A noite prometia: Seria o primeiro grande “encontro de trios” de Aracaju, um deles vindo diretamente de Salvador, “a cidade do axé/a cidade do amor”. E no Cinemark do shopping jardins, o que é mais inusitado. Não, senhoras e senhores, não é o que vocês estão imaginando. Nenhum trio elétrico invadiu as dependências do shopping Center para embalar a massa ao som de música pasteurizada para foliões acéfalos. Os trios em questão eram de rock – e dos bons.

Como bem observou minha amiga Maíra Ezequiel, esta foi a mais bem amarrada das Sessões Notívagos, em termos de conceito. No filme, o trio formado por Jack White, The Edge e Deus (também conhecido como Jimmy Page) conta sua história – e todos eles, inclusive White, o mais jovem, têm muita história pra contar. No saguão do cinema, logo depois, duas das mais importantes e destacadas bandas do cenário independente brasileiro da atualidade, os Retrofoguetes e a Pata de Elefante. Guitarras, guitarras e mais guitarras. E no final, um pouco mais de guitarras – tudo regado a cerveja, finalmente gelada (a Notívagos tinha uma má fama de vender cerveja quente), segundo os degustadores de plantão. Foi lindo, maravilhoso, emocionante: uma das melhores noites de rock and roll que eu já vi por aqui, e olha que há mais de 20 anos eu vejo noites de rock and roll por aqui.

“A Todo volume” (It might get loud) começa com o garoto-prodigio do White Stripes mostrando que é possível fazer uma guitarra elétrica com apenas um arame preso a um barbante e ligado a um captador. A partir daí, presenciamos uma verdadeira ode ao instrumento que é uma espécie de símbolo do rock and roll pelo ponto de vista de três dos maiores representantes de sua geração. O filme mescla com precisão cenas de arquivo com depoimentos apaixonados, tudo pontuado pelo encontro dos três num grande galpão onde trocam impressões e promovem interessantes Jam-sessions onde executam alguns riffs uns dos outros. Às vezes enveredando por um tom exageradamente solene e com um ritmo um tanto quanto arrastado, o documentário é, admitamos, mais recomendado aos fãs dos guitarristas e de rock em geral, o que não chega a ser exatamente um problema, já que os protagonistas são líderes de bandas seminais que atraem (ou atraíram) milhares de pessoas aos seus shows, cada uma em sua época, fator que certamente pesou na viabilidade comercial do projeto. Não sei se fez sucesso nos cinemas mas eu, particularmente, sou um ardoroso defensor da experiência de se ver filmes em telas grandes e salas escuras, por isso há tempos venho enchendo o saco do produtor Roberto Nunes com a idéia dessa sessão, e só tenho a agradecer a oportunidade de poder desfrutar dessa experiência aqui, em nossa província, tão carente de programações culturais alternativas.

Devo aqui abrir um gigantesco “parêntesis” para defender a participação de The Edge, insistentemente criticada por muitos (inclusive Morotó da Retrofoguetes) ao final da sessão – implicaram até com a touca dele, coitado. Quer dizer, coitado não, o cara é milionário e “chegou lá” fazendo o que gosta do jeito que quis, portanto de coitado não tem nada. Mas ok, The Edge é, sem a mínima sombra de dúvidas, o menos virtuoso dos três, egresso da escola punk (mais precisamente do pós-punk), mas soube criar um estilo próprio e marcante a partir de suas limitações, experimentando climas e efeitos sonoros como compensação para a falta de virtuosismo técnico no instrumento propriamente dito, com muito sucesso – tanto artística como comercialmente. Até admito que Johnny Marr, dos Smiths, representaria melhor os anos 80, mas teria menor apelo comercial, o que imagino que tenha sido um fator decisivo para a escolha. Em todo caso, acho a escolha de The Edge acertadíssima. Ele é o grande arquiteto do som do U2, uma banda que, quer você goste, quer não (eu sou fã), tem que admitir que tem uma sonoridade própria, esculpida justamente em cima da empolgação ingênua e idealista de seus componentes, pelo menos no início da carreira. São, acima de tudo, grandes compositores, autores de alguns dos maiores clássicos da história recente do rock. “Nem sempre se pode ser Deus”, mas já é um grande passo fazer com competência, sinceridade e dignidade o que se propõe a fazer, e o U2 faz.

Deus mesmo, ali, só Jimmy Page. Dele, acompanhamos imagens, pelo menos para mim, inéditas, de seu início de carreira numa banda de “skiffle”, uma espécie de pré-rock inglês, e desde cedo o garoto já sonhava alto e perseguia seus sonhos. Torna-se um músico de estúdio requisitado com várias lendas em torno de si - uma delas diz que teria participado da gravação de “you really got me” do Kinks e que teria sido dele a idéia de deixar o som da guitarra distorcida, devido a um problema no amplificador, no que seria, para alguns, o embrião do Heavy Metal. Depois, cansado de apenas executar partituras de forma mecânica, embarca de vez na nau da “swinging London” via Yardbirds, para só então fundar a maior banda de rock de todos os tempos (perdão, Beatles e Stones), o ... vocês sabem do que eu estou falando.

Jack White ? É o cara. O mais gatinho dos três, e talentosíssimo. Até estranhei a surpresa de alguns com sua perfomance – comentários típicos de pessoas (compreensivelmente) avessas ao “hype”, essa cria maldita dessa sociedade baseada em informação abundante, rápida e rasteira. Sempre gostei dele, inclusive do White Stripes, apesar de achar o Racounters ainda melhor (ainda preciso ouvir Dead Weather, baixei ontem, ouvirei). O cara dá uma verdadeira aula de amor à música de raiz, e de quebra nos apresenta a uma sensacional banda garageira cujo nome não me vem à memória agora mas que aparece em cenas sensacionais de uma apresentação ao vivo devastadora. Segundo White, foi a maior inspiração para que ele montasse o White Stripes, já que a referida banda era formada apenas por um guitarrista/vocalista e um baterista.

Terminado o filme, vamos aos shows, no saguão do cinema. Quinta vez dos Retrofoguetes em Aracaju, então nem há muito o que comentar porque foi, como sempre, sensacional. O som não era a sétima maravilha do mundo mas estava ok, bem melhor do que na noite do Cidadão Instigado. Não havia palco, e não fez a menor falta. Iluminação especial, gelo seco, efeitos pirotécnicos ? Porra nenhuma, o povo queria era música de qualidade, e teve. Alto astral total - CH e Rex fornecendo o colchão pra lá de competente para a perfomance costumeiramente arrasadora de Morotó Slim, e com direito a sacadas geniais ao microfone – o mote do “encontro de trios” que usei no início desse texto, por exemplo, foi idéia de Rex, sempre com algo inteligente e bem humorado a dizer. A melhor da noite, no entanto, foi a que dizia que banda instrumental queria dizer muita nota (musical), pouca nota (dinheiro) e ninguém nota. Impossível não notar os Retrofoguetes. Ao final da apresentação dos caras Fabinho da Snooze me fala que “ficou difícil pra Pata de Elefante superar isso”, no que eu concordei em parte, já que botava fé no talento dos caras.

E o talento dos caras é algo sobrenatural. É o tipo de coisa que não tem jeito, a pessoa nasce com o dom, não é possível aquele nível de qualidade vir só do aprendizado acadêmico. Simplesmente destruíram tudo, deixaram o público de quatro com seu som ao mesmo tempo “duro”, “hard rock”, e melódico, com uma sonoridade totalmente calcada nos anos 60 e 70 porém sem soar datado. Retrô, mas dialogando com o que de melhor se faz hoje em dia. Pesado porém suingado. Rock clássico sem vocal, ou melhor, cantado pelas guitarras, magistralmente domadas e debulhadas por uma dupla de guitarristas fenomenal. Não, não são duas guitarras: no meio do show eles, baixista e guitarrista, apenas trocam de posição, e a apresentação não perde absolutamente nada em qualidade, muito pelo contrário: é enriquecida pela diferença de estilos, já que um se baseia mais nos solos e o outro mais na levada, nos riffs. Matador. Ouvi de muita gente que aquele tinha sido o melhor show de sua vida, e os entendo perfeitamente, pois foi exatamente esta a impressão com a qual saí do cinemark naquela madrugada, com o dia prestes a amanhecer.

E saí porque estava a fim de bater o velho rango regado a gorduras e bactérias e dormir, porque se quisesse ficar ainda tinha mais rock rolando. Depois do show da Pata (que teve bis, por insistência do público), começou uma grande jam envolvendo eles, integrantes do Retrofoguetes e nosso “blues hero” Julico, da Baggios, que precisou ser praticamente arrastado ao palco para vencer a timidez mas, como sempre, arrasou. “24 Hour party people”, “A Festa nunca termina”. Só terminou quando a cerveja, finalmente, acabou – e foram cerca de 800 latinhas, segundo o produtor Roberto Nunes.

Roberto Nunes que, aliás, está de passagem comprada, só de ida, para São Paulo. Diz ele que pretende seguir tocando a Sessão Notívagos e a Virada Cinematográfica de lá, mas eu particularmente acho difícil. Hora de dizer que o único ponto fraco da noite foi o público aquém do esperado, em termos de quantidade (porque em qualidade estava ok, vibrante e participativo). A verdade é que a Sessão Notívagos é uma idéia sensacional porém muito difícil de se sustentar financeiramente sem patrocínio, no formato em que se apresenta.

Se acabar, vai fazer muita falta.

por Adelvan Kenobi

Ao som da Rádio Lagrima Psicodélica ...


Recentemente o blog LÁGRIMA PSICODÉLICA, provavelmente o mais movimentado em termos de quantidade (e qualidade, o que é mais importante) de postagens com links para download gratuito do Brasil, havia sido tirado do ar. Com isso um grande acervo se perdeu, mas os pirateiros não desistem nunca, e o blog já voltou ao ar em um novo enderêço - este: http://lagrimapsicodelica1.blogspot.com - De quebra você ouve a Rádio web do blog, com uma programação de qualidade e calcada no "classic rock" - um tanto quanto "hipponga" e com rock progressivo demais pro meu gosto, mas ok. É o que eu estou ouvindo nesse exato momento aliás, confira abaixo o que rolou ...

10:09:37 Richie Havens - Woodstock Festival (1 of 4) - Freedom Current Song
09:58:17 Renaissance - Ashes Are Burning - Ashes Are Burning
09:53:47 REM - Out Of Time - Losing My Religion
09:53:37 # Vinheta 01 - Radio WULP - Radio WULP
09:50:15 Red Hot Chilli Peppers - Wayne`s World: Music From The - Sikamikanico
09:46:13 Ramones - Mondo Bizarro - Poison Heart
09:42:17 Ram Jam - Classics In Rock 2008 - Black Betty
09:38:07 Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn - Astronomy Domine
09:33:56 Peter Frampton - Greatest Hits - I`m In You
09:29:27 Rainbow - The Very Best Of Rainbow - Kill The King

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ETC - Nora Kuzma - 120 Dias de sodoma

No DCE da Camerino, com Flock do Jason no baixo
Nossa história começa em março de 1992. O Logorréia, uma antiga banda de Hard Core fundada no final dos anos 80 em Aracaju, havia acabado e Sylvio, que também era vocalista da Karne Krua, ficou com a guitarra encostada.

A Logorréia, pode-se dizer, foi a primeira banda “grind” de Aracaju. Eu vi meu primeiro show deles no II Festcore de Aracaju, e fiquei horrorizado: Não passava de um cara urrando e se jogando ao chão, acompanhado de uma banda que só fazia barulho. Entre uma “música” e outra Sylvio, que não tocava porra nenhuma e ficava só arranhando as cordas da guitarra, gritava: “Logorréia canta o lixo”. Não podia dar em outra: a nova banda só poderia ser mesmo ultra-barulhenta. Ele bolou o logotipo e começou a recrutar parceiros para a empreitada. Астматичен заебана chegou a ensaiar, mas tinha uma namorada no interior e ficou entre a cruz e a espada. Preferiu a cruz (“pussy Power”, diria Iggy Pop). O vocal foi ocupado por Fúria, que também “cantava” no Camboja. O primeiro show foi um desastre, pois Fúria cismou em ficar gritando como um porco no abate o tempo inteiro e acabou embolando tudo. Foi no primeiro Festival underground do interior do estado, em Itabaiana, a 52km de Aracaju.

No extinto "Tequila Café"
Passado o susto inicial, eles estabilizam pela primeira vez uma formação: Sylvio na guitarra, “Grelinho” na bateria, Pereira no baixo e Sandoval “quaresma”, “a voz de ouro do Bugio”, no vocal. Fizeram seu primeiro show, digamos, “decente” (leia-se seguindo o que havia sido combinado no ensaio) na praça Camerino. Foi um evento bem underground, as bandas se reuniram, puxaram uma gambiarra de energia clandestinamente e fizeram o “gig”. A cada camburão que passava, corria um frio na espinha, mas no final deu tudo certo. Bastante gente, álcool, amassos e maconha pelos cantos, como é de praxe. Nessa época saiu o clássico primeiro registro gravado, a demo “THE BEST OF ETC”. Revelarei aqui alguns segredos com relação à gravação desta fita: “Um mini blues” Sylvio gravou em cima da cama, com a porta do quarto trancada e coberto por um lençol, pra abafar o barulho. Não adiantou nada, ainda dá pra ouvir as mulheres gritando com os filhos na rua e coisas do tipo. E em “pau nas coxas” ninguém estava comendo Fúria, ele gemia de mentirinha.

A Rock Brigade achou a banda ridícula, o que os animou mais ainda. Saiu Sandoval e Астматичен voltou correndo e babando “de volta ao lar”. Mais alguns shows, sempre em espeluncas, e Pereira pendura as quatro cordas. Motivo: só sabia tocar “parabéns pra você”. Não que isso tivesse grande importância pra banda em si, mas é que ele enchia o saco nos ensaios, entre um som e outro. Entrou Chris, que pelo menos tirava “come as you are” do Nirvana. Na verdade ele tocava bem, o que também era ruim – O ETC é barulho. Mas ele começou a ser perseguido por visões terríveis: havia sempre um enorme monte de bosta preta seguindo-o pelas ruas, o que o fez voltar pra Paulo Afonso, Bahia, sua cidade natal. Não sem antes participar do segundo demo-tape, gravado ao vivo na abertura de um show da Karne Krua. A banda passa então para sua segunda formação estável: Астматичен “cadê o ar?” no vocal, Grelinho na bateria, Sylvio I (e único), Imperador do Hard Core, na guitarra, e Xavier “venta de bom bom” acariciando o “bass”.

No ano de 1993 tocaram pra caralho. Participaram inclusive de uma manifestação na campanha contra a fome no Parque da Sementeira com uma avassaladora apresentação de 15 minutos onde Астматичен заебана cunhou a célebre frase “pau no cu da fome”. Abriram para os alagoanos do Living In the shit em Aracaju e fizeram um “supershow” em Salvador ( não tinha som, não tinha onde dormir, não teve grana para passagem e ainda por cima deixaram escapar uns “brotinhos” que não paravam de acariciar seus longos cabelos). A Rock Brigade achou a segunda demo pior que a primeira, o que demonstrava claramente a evolução da banda. Mas veio o ano de 1994, e com eles, os problemas. Sylvio, um dos fundadores e principais compositores, sai pra se dedicar melhor ao karne krua, que acabava de lançar seu primeiro LP. Ficaram um tempo parados, com a formação indefinida e sem local pra ensaiar, mas não existe crise para a fuleiragem: Voltaram a ensair com uma nova formação, Xavier assumiu a guitarra, Robervan é incorporado no baixo e Grelinho e Астматичен continuam insistindo em suas posições de sempre.

por Астматичен заебана

PS: Esta formação não prosperou. Астматичен заебана teve uma crise de asma que quase o matou e resolveu sair também da banda, que acabou. Voltaram na virada do milênio, para um revival ainda mais tosco que você pode conferir aqui.

OPINIÕES SOB SUSPEITA DE AMIGOS DOS MEMBROS DA BANDA:

“Para tudo! Caralho, o ETC é muito bom”. Fellipe CDC, zineiro cabeludo, editor do Protectors of noise
“Merecia um compacto”. Dietmar Hille, zineiro, editor do DISTORÇÃO ALTERNATIVA.
“Esses lances de música regional no meio pegam muito bem no exterior”. Ângelo, do No Sense
“ETC é muito melhor que Raimundos, só falta mais produção”. Edgar S. Franco, desenhista e zineiro exagerado.
“Nota 10 pra “couro de buceta”. Ronaldo Chorão, da Gangrena Gasosa.
“Mostrei pra um amigo meu e ele ficou fã. Sergipe é a terra do barulho”. Oscar F., zineiro desaparecido.
“Há quanto tempo você ao ouve um grindcore criativo? Ouça o ETC”. Joacy jamys (RIP), desenhista, vocalista, fanzineiro e batalhador incansável.
“Desculpa, mas não deu pra ouvir nada da fita. A gravação é muito ruim”. Todos os outros.

“GREATEST HITS LIVE” faixa a faixa, por Edgar S. Franco:

MINI BLUES: Ficou interessante e mostra a grande gama de influências que rondam o ETC.
INSTRUMETENDO: pura porrada-core. O “duri-durá-durô” ficou interessante e a finalização é bela.
BULLSHOT & SUCK MY DICK: Ruído-core, as batidas me lembram os bons tempos do Olho Seco.
DEAD OR ALIVE: Valeu a brincadeira com o The Doors.
ELA SE FUDEU: Solo tribal. O vocal ficou abafado, mas é muito pau.
CANTIGA DE RODA: Podreira. Pena que a gravação não deixa entender a letra.
RAPADURA: Астматичен urrou como um louco e na segunda audição compreendi a letra, uma bela manifestação de bairrismo e amor à terra. Grande som.
COURO DE BUCETA: Essa tem influência de música nordestina e fala de uma iguaria que eu gosto muito. Tem o estilo ETC.
SPLATTER OR DIE: a mais fraquinha desse lado, mas não deixa de ser uma paulada.
PAU NAS COXAS: Tem uma introdução “blues core” muito interessante.
VAI SE FUDER: É puro hard core. FUCK OFF AND DIE !!!
PUTA ABASTADA: Queria entender a letra, mas gostei da homenagem a Rosane Collor.
ELE SE FUDEU: Tem uma intro interessante. A bateria ficou muito boa.
THE GRAVE: A cova. Primal, fodida.
A formação que não "vingou"
AMORE MIO: Mais paulada.
BORN TO BE CUZÃO: Tem tons noise e depois é pura podreira. Destaque para a guitarra.
RAPCORE: Mais uma sopa que deu certo.
A CAGADA: Meio lugar-comum no meio das outras.
RECEITA PARA FAZER DEATH METAL: Puta que pariu, que crítica maravilhosa, cara. Esa eu quero mostrar pra um bando de “death-metaleiros” dessas bandas. O riff de guitarra e o grito meio bleargh, é bem a receitinha usada pelos iniciantes.
MÃE NA ZONA: Grande hit.
VIOLENCE OF THE CITY: a melhor música da demo. É uma reflexão muito inteligente sobre a desunião no underground. Sem contar a belíssima influência do repente. Do caralho!
ENCURRALADO & BABYLOIDS: Bem ETC.

Fonte: Fanzine Escarro Napalm

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ETC (Esquizofrênicos Tarados por C*), também conhecida por 120 Dias de Sodoma, é (é?) uma banda formada em 1992 com a intenção de avacalhar de uma vez com a moral e os bons costumes que ainda insistem em vicejar em nosso meio dito "alternativo". Conta na sua formação com três sujeitos egressos das primeiras fileiras (no sentido cronológico de tempo mesmo) do rock sergipano, a saber Sylvio "kk" na guitarra, Астматичен nos berros e Lord Astovidato Villas Parakas AKA Kabbirim Nagal Gibborim Villas Parakas, vulgo Bilal, "A Base", na bateria e streap tease. A Banda por ela mesma:

Melhor entrevista de toda a minha vida
“Durante muito tempo o que víamos (e vemos) muito no dito “underground” foram pessoas que se dizem “alternativas” e “muito loucas” mas que se contradiziam completamente no comportamento do dia-a-dia. São punks que se dizem “libertários” e politizados mas que se revelam verdadeiros “caga-regras” com suas ridículas doutrinas vazias oriundas de leituras superficiais de panfletos. Acusam a todos de fascistas mas eles mesmos não hesitam em impor regras rígidas de comportamento aos que fazem parte de seu reduzido grupo de pseudo-revolucionários. Se dizem libertinos e não-moralistas mas à mínima menção de um “palavrão” ou de uma imagem pornográfica já te tacham de sexista. São Headbangers, black metal, que pregam a Babilônia, a luxuria, mas que não hesitam em chamar de vagabunda e/ou prostituta qualquer mulher que tenha um comportamento sexual libertino e/ou fora dos surrados padrões morais da doutrina cristã supostamente odiada por eles. A explicação para esse fato, para nós, é muito simples: ignorância aliada à necessidade de auto-afirmação com um fator determinante: falta de buceta (ou de sexo de uma forma geral, lembremos que muitos desses são homossexuais enrustidos).

Pois bem, cansado de tanta babaquice, por volta de 1992 o ilustre batalhador do underground Sylvio “suburbano”, vocalista da Karne Krua e de um monte de outras bandas vivas e/ou mortas, resolveu montar uma banda que não seguisse nenhuma dessas regrinhas do underground. Os punks queriam seriedade, a banda seria escrachada. Ao invés de seguir uma linha rígida de som, a “musica” da banda poderia incluir à vontade o que quisesse pelo meio, rap, repente (vide a já clássica “couro de buceta”), metal, hardcore e grandes doses do bom e velo barulho, puro e simples. Falaríamos de sacanagem abertamente sem nos importarmos com a pecha de sexistas, até porque não éramos, pois haviam outros temas nas musicas, elas não se limitavam a falar de sexo (rapadura, the grave, a cagada – a não ser que sua mente doentia veja alguma conotação sexual o ato de cagar). (NOTA EM 24/08/2014 - Durante muito tempo eu interpretava o termo "sexista" como se referendo a alguém com fixação em sexo. Só recentemente fui ver que se refere, principalmente, a quem separa o mundo em papéis rígidos de acordo com o sexo, e a ofensa geralmente é dirigida a quem tem a tendência a transformar a mulher num objeto sexual. Em todo o caso, recuso o termo com essa definição, também, com relação à letras da banda) E assim a banda foi montada, capitaneada por Sylvio, teve uma “gloriosa” (ironia, entendem?) carreira no meio “underground”, gravou duas demos e acabou, porque toda piada perde a graça depois de um certo tempo e tudo o que causa impacto num dia causa enfado depois de ser repetido “n” vezes.

Por volta dos anos 2000, rolou aquele clima apocalíptico de fim de século e coisa e tal e uma conjunção astral tornou possível a volta da banda – algo parecido com o que ta acontecendo agora com os Mutantes. Nosso baterista “oficial”, Grelinho, estava em outra sintonia, então pra esculachar a parada de vez chamamos para as baquetas o mais autentico “rocker” de Aracaju, “A Base” de tudo aqui nessa porra, Bilal, Elite do Metal, eterno guerreiro das trevas. Voltamos a ensaiar, porque, por incrível que possa parecer, a banda ensaiava nos anos 90. Já no primeiro show, no antigo Barracão cultural, depois “forró do candeeiro”, na Aruana, num evento histórico á beira mar, o caos se instalou. Bilal ficou tão bêbado que não conseguia tocar direito, errou tudo, e nesse momento eu e Sylvio captamos que o espírito da banda seria ainda mais anárquico e sem rédeas que o anterior, que nossos shows teriam que ser uma afronta ao bom gosto e ao roquinho bem comportado mediano e de classe media que começava a florescer com rebeldia de shopping e coisas abjetas como o emo-core e o nu-metal. Os shows foram se sucedendo cada dia mais caóticos, culminando com mais quatro apresentações simbólicas: a do sindipetro, onde nós compramos o publico com 5 garrafões de vinho de 5 litros (só bebia quem agitasse na frente do palco), o do muquifo, onde Agapito e sua gaita protagonizaram um bizarro show de melodias desencontradas e de nudez, o show do jason no DCE, onde Bilal mostrou sua virilidade e de onde foi tirada nossa mais conhecida imagem e que ilustra esse artigo, e uma na rua da cultura, onde nosso estilo desbocado, bêbado e sem noção feriu egos inflados de alguns que se arvoram patronos da cultura sergipana e arrotam um bairrismo cultural burro e ridículo.

Hoje a banda ta parada. Além da velha historia do show de impacto, que só tem graça quando vira lenda, o mundo dá voltas e vejam só, nosso ilustre baterista arrumou um emprego !!!!!! Um emprego que o deixa distante da cidade por 30 dias, o que pra ele ta massa, já que ele vive dizendo que odeia Aracaju mesmo. Acabou? Quem sabe. Dependendo do cachê (pode ser simbólico, algumas latas de água que passarinho não bebe e algumas damas do baixo meretrício seriam bem vindas) quem sabe não comece tudo de novo? Porque, como diziam algumas musicas clássicas do metal, “evil has no boundaries”, e “only the good die young, all the evil since to live forever.

Texto por Астматичен (aprovado pelos demais membros)

Fonte: Orkut

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ENTREVISTA COM A BANDA 120 DIAS DE SODOMA
Fonte: Fanzine “Ultralibido”

1. VOCÊ ACHA QUE UM DIA ESSA BANDA TERÁ UM DIA O RECONHECIMENTO QUE MERECE?
ADELVAN – E você acha que essa banda merece algum reconhecimento? Eu acho que não. Não ensaiamos, não gravamos, não compomos nada de novo há tempos, não produzimos nada de relevante para a história do rock, somos apenas um bando de vagabundos. “The Great rock and roll swindle” do rock sergipano. Mas isso serve mais para mim mesmo, assumo essa carapuça, haja visto que trata-se na verdade um projeto, os outros dois componentes têm suas respectivas bandas, digamos, “oficiais”, e nelas fazem um trabalho mais consistente e bem acabado. 120 Dias de Sodoma é apenas uma celebração do rock, do sexo e da bebedeira, não está atrás de reconhecimento algum, quer apenas se divertir entre amigos ou não.

2. COMO VOCALISTA DA 120 DDS VOCÊ ACHA QUE AS PESSOAS ENTENDEM SUA PALAVRA, A SUA MENSAGEM?
ADELVAN – Acho que não. E não deveriam. Nem eu entendo porra!! E que mensagem, caralho? Já tem banda demais passando mensagens edificantes hoje em dia. Eu to fora dessa. No máximo, passo mensagens “desedificantes”, saca aquele lance “Destroy” dos Sex Pistols? É por aí. Nosso objetivo é mais de perverter a juventude e confundir as cabeças politicamente corretas. Mas na verdade me surpreendi com a recepção que tivemos com nessa volta aos palcos ( a banda nasceu em 1992 mas passou aproximadamente 5 anos parada, voltando apenas em 1999 com novo baterista e uma sonoridade e postura de palco ainda mais desleixada e degradante), as “pessoas de boa vontade”, digamos assim, captaram muito bem o espírito da coisa, tanto é que no dia do lançamento do site gambiarra.org, na cachaçaria, onde além de nós só tocaram bandas “sérias”, indie, guitar ou coisas do tipo, enfim, bandas com uma proposta artística “RESPEITAVEL”, fizemos o que eu considero o melhor show de nossa historia. Sei lá, acho que a “cena” tava precisando de um grande FODA-SE pra voltar a ser um pouco mais divertida. Ultimamente alguns idiotas andaram levando a serio demais algumas declarações sob efeito do vinho no palco mas por mim tudo bem, achem o que quiser de mim, e uma pessoa que leva uma banda como a nossa a serio tem mas é que se foder mesmo. Esses cara acham que todo mundo que pega num microfone tem que se comportar como um político e ficar medindo tudo que diz. Eu sou mais pelo que disse Glauber Rocha, “sou um artista, não exijam de mim coerência”. A diferença é que no meu caso, a palavra “artista” acaba se tornando uma ironia. Mais uma.

3. QUAL RELAÇÃO QUE VOCÊ TEM COM SEITAS SATÂNICAS, RITUAIS MACABROS, PORNOGRAFIA E OUTRAS FULEIRAGENS?
ADELVAN – Tenho poucas relações desse tipo, gostaria de ter mais, na verdade, se é que você me entende hehehe. Da pornografia sou um fã entusiástico, coleciono fitas de filmes pornôs e fotos da internet. Quanto aos rituais macabros e ou satanicos, a coisa mais próxima disso na qual estive presente foi um show da banda do nosso baterista, MYSTICAL FIRE, na qual uma cabeça de porco podre que ornamentava o palco foi avidamente beijada, lambida e degustada por um maluco lá. Foi do caralho. Tenho grande simpatia pelo diabo.

4. QUAL SUA MUSA INSPIRADORA?
ADELVAN – No plano pratico físico, sentimental e emocional, minha mulher. No plano abstrato, estético e platônico, nossa baixista, por ter aceitado tirar essa onda tocando com a gente. Claro que pra que ela subisse no palco tivemos primeiro que embebedá-la e chantageá-la, mas isso são detalhes. E além do mais, nem foi difícil assim, ela é bastante chegada na água que passarinho não bebe.

5. A QUE VOCÊ ATRIBUI ESSA QUALIDADE COMO VOCALISTA QUE TU TENS?
ADELVAN – Próxima pergunta, por favor.

6. VOCÊ NÃO PENSA EM UMA CARREIRA SOLO? TIPO, THE ADELVAN’S BAND, ALGO PSYCHOBILLY OU ALGO MAIS EXTREMO COMO ADELSATANS’S BAND?
ADELVAN – As vezes penso em virar ator de filme pornô, mas quando olho pra minha barriga e penso na quantidade de malhação necessária pra manter-me em forma física.

7. FILME INSPIRADOR? UM LIVRO? UMA BANDA?
ADELVAN – A Laranja Mecânica, Mate-me por favor e Sex Pistols.

8. QUAL A MELHOR HORA PARA SE FODER ALGUÉM?
ADELVAN – Se foder em que sentido? No bom sentido não tem hora certa, no mal... Sei lá, estando bêbado de bobeira no meio da rua de madrugada com o bolso cheio de dinheiro.

9. VOCÊ GOSTA DE OVOS? BATIDO OU MEXIDO?
ADELVAN – Gosto de ovo, mas não gosto de óvulo. Não quero ter filho e ajudar a perpetuar a desgraça humana.

10. FIQUE A VONTADE MAS CUIDADO PRA NÃO GOZAR NA ENTREVISTA.
ADELVAN – Faça o que tu queres, há de ser tudo da lei.

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CARTA CAPITAL Entrevista Dilma Rousseff

Um enorme painel da candidata ao lado de seu mentor, o presidente Lula, punhos cerrados no ar, emoldura o cenário da entrevista. Dilma Rousseff posta-se bem à frente da própria imagem. Desconfortável no início com perguntas pessoais, ela se solta aos poucos, enquanto defende as realizações do atual governo e explica o que pretende fazer se eleita. Basicamente, aprofundar o processo de inclusão social que, afirma, não se esgota em um ou dois mandatos. Talvez por isso, ao se referir a uma eventual gestão sua, prefira a palavra “período”. No centro desse “período”, promete, estará o compromisso de levar o País ao clube das nações desenvolvidas, com a erradicação da miséria, o foco na educação e na cultura. “Minha meta é levar nossa população à classe média, no mínimo.”

Dilma não é Lula. É uma discípula, uma aluna. Mas uma aluna aplicada, vê-se. Como nunca disputou eleição, a ex-ministra da Casa Civil replica o “mestre” ao usar o recurso de contar historinhas nas respostas por vezes pouco concisas. Também se percebe na candidata o cuidado de evitar certas polêmicas durante a campanha, o que não inclui fugir às perguntas sobre seu envolvimento na luta armada durante a ditadura. “Tenho muito orgulho de ter resistido do primeiro ao último dia.”

Alvo de seguidas denúncias, nunca comprovadas, desde que Lula anunciou ser ela a sua candidata ao governo, afirma não acreditar que a imprensa brasileira seguirá o exemplo da venezuelana e se tornar cada vez mais hostil diante da possibilidade crescente de permanência do PT no poder. Por ser contraproducente. “De que adianta? Mais do que somos criticados, e daí?” Na entrevista, a pré-candidata disse ser contra a descriminalização das drogas, defendeu a reconstrução do Estado e repeliu os estereótipos. “Nunca me senti uma pessoa infeliz. Não sou carente, sou alegre.”

CartaCapital: Neste ano, o Brasil pode escolher a primeira mulher presidente. Faz diferença?
Dilma Rousseff: Faz toda a diferença, porque tem uma história de poucos direitos para as mulheres. Até o direito de voto para as mulheres é muito recente no Brasil, menos de cem anos. E ainda têm grandes desigualdades, que vão desde – apesar de as mulheres terem maior nível de escolaridade – ganhar dois terços do salário dos homens até o fato de existir violência familiar contra a mulher. Outro dia aproximou-se de mim um casal jovem, o rapaz carregava um menino de uns 3 anos, e a mulher, uma moça loira, vinha com uma menina, de vestido comprido, bonitinha, cabelo encaracolado. Chamava Vitória. E a mãe falou assim: “Eu trouxe a Vitória para que você diga a ela que as mulheres podem, que mulher pode”. Eu olhei pra Vitória e perguntei: ‘mulher pode o quê?’ E ela: “ser presidente”. Eu disse: ‘Vitória, mulher pode ser presidente. Porque isso faz parte do sonho que toda criança tem: quero ser pirata, toureiro. Mas também pode querer ser presidente e mulher nunca quis. Uma menina que quer é sinal dos tempos. E ela se chama Vitória, achei simbólico’.

CC: Mas existe um modo feminino de governar?
DR: Tem um modo feminino inegável na vida privada. Nós cuidamos, providenciamos e incentivamos. É interessante levar isso para a vida pública. Vou contar outra historinha. Foi uma senhora, de seus 50 anos, a um sindicato, muito incomodada com a oposição homem e mulher. E ela sintetizou o problema da seguinte forma: “Somos 52% da população, mas os outros 48% são nossos filhos. De maneira que, se formos presidentes, fica tudo em casa. Ou seja, damos conta de cuidar das mulheres e dos homens, até porque a nossa relação com os homens não é de oposição. O olhar feminino não é excludente”.

CC: Já foi, nos primórdios do feminismo.
DR: Talvez no começo, porque, sempre que se afirma alguma coisa, torna a diferença muito forte. A mulher, para ter consciência de que era discriminada, teve de fazer esse movimento. Mas não acredito que, hoje, esse seja um processo que crie diferenciação, desigualdade. Nenhuma política feminina é uma política anti-homem.

CC: Curiosamente, a senhora tem avançado menos no eleitorado feminino. Por que acha que isso acontece?
DR: Acho que tem razão o (cientista político) Marcos Coimbra. Ele fez uma avaliação correta: há o fato de a mulher não ter tanto acesso à informação quanto o homem. Muitas ainda não me conhecem. Quando se separa o universo das mulheres que me conhecem e as que conhecem o outro candidato, eu tenho mais aprovação do que ele.

CC: A senhora falou da menina que queria ser presidente, mas costuma dizer que este nunca foi um sonho seu. Agora que é candidata, acalenta algum projeto?
DR: Caminhar para que este seja um país desenvolvido. Foi o que o presidente Lula construiu e que a gente pode fazer.

CC: Se formos resumir, a marca do governo Lula é a inclusão. Qual seria a marca de um governo Dilma?
DR: Por que não pode ser a da inclusão também? Essa ânsia de novidade encobre uma questão seriíssima: este ainda é um país emergente, com um grau grande de desigualdade, e que pode, a partir de agora, porque acumulamos um conjunto de conquistas, trilhar o caminho do desenvolvimento. E isso não pode ser só com uma taxa de crescimento do PIB determinada, uma política de estabilidade macroeconômica. A minha meta é erradicar a miséria, levar nossa população, os mais pobres, à classe média, no mínimo. Isso é um projeto de desenvolvimento, mas eu também tenho um projeto de Nação. Este país não transitará para uma economia desenvolvida se não tivermos educação de qualidade, estando no centro da educação o professor, que tem de ter salário digno. Quem fala em educação de qualidade e não fala do professor está jogando pérolas aos porcos. Todo mundo diz que temos um bônus demográfico, que a nossa população em idade ativa é maior do que a população dependente, isto é, crianças, jovens e idosos. Outro dia fui brincar que o conceito de idoso estava mais flexível, porque tenho 62 anos e não sou idosa, e a imprensa toda deu que eu mexeria na idade da aposentadoria, que mudaria a previdência.

CC: E não será necessário, em algum momento?
DR: Não tem reforma da Previdência. Se você começar a fazer reforma da Previdência, acontece o seguinte: a primeira que fizemos deu uma corrida para a aposentadoria. Acaba criando um efeito contrário ao que se pretende. Mas, voltando, também vamos discutir a nossa cultura, a política cultural ocupará um espaço cada vez maior nesse processo. Não podemos permitir que não existam salas de cinema na periferia do Brasil, que o povo não tenha acesso a bibliotecas, à sua própria cultura.

CC: Em suma, vai ampliar o que foi feito durante o governo Lula?
DR: Não falo de só ampliar, não, falo de avançar. Se não avançar, não está continuando. O que o Lula construiu para o futuro? Um alicerce. Saímos de uma situação mais drástica, que foi a que nós recebemos do governo. Vamos relembrar bem: era uma situação de estagnação, desigualdade e desemprego. Podem falar o que quiser. Olhem estatísticas, meus filhos. E entramos numa era de prosperidade, que tem vários componentes: não é só inclusão, é mobilidade social, que significa que as pessoas podem subir na vida. É transformar as vantagens comparativas em competitivas, explorar as matrizes energéticas, o pré-sal, dar força à agricultura. Não somos aqueles países que têm petróleo e têm a maldição do petróleo, a pobreza no meio da abundância, o povo pobre e a riqueza do petróleo. Temos uma economia diversificada. Se a gente apostar na educação, vamos inovar também. Não se cria oportunidade no Brasil se não inovar. Se não formarmos engenheiros, físicos e matemáticos neste país, não vamos crescer adequadamente.

CC: A senhora promete erradicar a miséria em seu mandato. Mas o Ipea fala que erradicar a pobreza extrema só é possível em 2016.
DR: Miserável é quem tem renda de até um quarto do salário mínimo. Pobre é até meio salário mínimo. Em 2003, tínhamos um total de 77,8 milhões de pobres e passamos para 53 milhões no governo do presidente Lula. O contingente de miseráveis em 2003 era de 37,4 milhões e passou para 19,6 milhões. (Vira-se para o braço direito, Anderson Dorneles: – Anderson, dá o meu papel. Já fiz essa conta. Prefiro o meu papel.) Então, a gente tem de buscar eliminar esses 19,6 milhões de miseráveis, mas acho que também temos de olhar os 24 milhões de pobres. Só não digo que será no meu período, nem estou dizendo que será em 2014. Mas, se você não colocar a meta clara e tornar isso um ponto político da pauta, passa batido. Erradicar a miséria está no centro da pauta do projeto de continuidade com avanço do governo Lula.

CC: Mas qual vai ser o caminho? A ampliação dos programas sociais ou o crescimento?
DR: As duas coisas. O aumento da renda em 70% se deve à formalização do trabalho. O fato de manter uma taxa de crescimento e torná-lo sistemático formaliza o trabalho. Mas quem ganha até um quarto de salário mínimo teve programas sociais de dois tipos: tem o de proteção da renda, que é o Bolsa Família, e tem programa social com uma certa perenidade. Exemplo, na área rural, onde se concentra um grande número de miseráveis, fizemos a política de agricultura familiar, multiplicamos por cinco o financiamento, criamos assistência técnica. E teve outro programa que beneficiou a pobreza rural no Brasil, o Luz Para Todos. Não se eleva socialmente ninguém se não olhar para as condições que se pode ter para fazer renda. E uma delas, imprescindível, é energia elétrica. A grande política do meu período é manter essa política rural e chegar a uma questão fundamental: as cidades. As cidades no Brasil são o local das desigualdades. Nas cidades se manifestou o que há de mais perverso no Brasil, a retirada do Estado – aí vale para município, estado e governo federal – das periferias. Uma grande conquista deste governo também foi indicar caminhos. Pega o que está sendo feito no Rio, em Manguinhos, no Alemão, Pavão-Pavãozinho. É a volta do Estado.

CC: Ainda é preciso fazer uma reforma agrária de grande monta?
DR: Tivemos um processo de reforma agrária muito significativo, foram 500 mil hectares. Não é trivial. Ainda tem gente para ser assentada, mas política de assentamento não é só comprar terra. A forma como se fazia assentamento antes era colocar o cara no meio do nada. A agricultura familiar no Brasil deu certo porque tem um suporte no programa de aquisição de alimentos. Tem seguro, garantia à safra, política de preço mínimo. Demos um tecido econômico social, de apoio, à pequena propriedade no Brasil, que responde por 40% da riqueza que se gera no campo.

CC: Mas se uma grande parte da miséria, como a senhora falou, está na zona rural, tem algum problema aí. Talvez tenha faltado reforma agrária.
DR: Vou repetir: não se resolve o problema do campo só dando terra. Tem de dar condições de produzir, sustentar a produção, apoio com assistência técnica, comprar a produção, garantir a comercialização, o acesso ao trator.

CC: A senhora acha que, se o PT vencer as eleições, a mídia tende a se tornar hostil, como ocorre na Venezuela?
DR: A Venezuela não é nem sequer parecida conosco. Lá é uma economia de dois setores, portanto, uma sociedade que tende a refletir dois setores. De um lado, tem o petróleo e, do outro, o resto. É só ver a participação que tem a renda do petróleo na Venezuela, ver a história da Venezuela. É dinheiro que eles não sabem o que fazer com ele, ainda é assim.

CC: Mas a imprensa brasileira, como a de lá, não tende a se tornar hostil a uma permanência a longo prazo do PT no poder?
DR: De que adianta? Qual a eficácia? Mais do que somos criticados, e daí? Qual a nossa aprovação? 76%...

CC: Como a senhora recebe essa acusação, que deve se intensificar durante a campanha, de ter sido “terrorista”?
DR: Tenho dúvidas de que vai se intensificar uma coisa dessas, porque é contraproducente. A discussão sobre a resistência à ditadura é contraproducente para quem não resistiu. Sinto muito orgulho de ter resistido do primeiro ao último dia, de ter ajudado o País a transitar para a democracia e de não ter mudado de lado. É muito interessante a forma como eles entenderam a metáfora que o presidente fez com o (Nelson) Mandela. O que ele falou foi o seguinte: o Mandela, talvez o maior pacifista dos últimos tempos, foi uma pessoa que recorreu à luta armada no país dele, porque não tinha outra solução. Parodiando Tolstoi, que disse que todas as famílias felizes são iguais e todas as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira, todas as ditaduras são iguais e todas as democracias são cada uma à sua maneira. As ditaduras têm uma mania muito peculiar que as caracteriza: excluir de forma violenta todos os que não pensam como eles. O que queríamos caracterizar naquele momento era a existência de uma violência de Estado que levou pessoas, nos mais variados locais, a tomar posições firmes diante da ditadura. Eu tomei.

CC: Por que a senhora apoiou a decisão do STF de não rever a Lei da Anistia?
DR: Eu sou a favor da legalidade. O Supremo decidiu e, até pelo que quero ser, não tenho a menor condição de ficar fazendo confronto com o Supremo.

CC: Discordar não é confrontar.
DR: Para o papel a que me proponho assumir, é sim.

CC: O que pedimos é uma opinião pessoal.
DR: Esta é a minha opinião pessoal. É ter consciência e maturidade para perceber que uma decisão do Supremo, num país como o Brasil, tem de ser respeitada. Como presidente da República, que é o quero ser, seria desrespeito. A partir do momento que se decidiu, está decidido. A não ser que se queira criar turbulência e instabilidade. Eu não quero.

CC: Como a senhora pretende lidar com o toma-lá-dá-cá no Congresso?
DR: Como lidei, uai! Eu lidei com esse toma-lá-dá-cá, ou não?

CC: Mas, e diante de um episódio como o do mensalão? Todo mundo fala que, não fosse por sua habilidade, o presidente Lula não teria se mantido no cargo quando se chegou a falar até em impeachment...
DR: A habilidade do presidente consistiu em ir para os movimentos sociais e deixar claro que impeachment não seria uma coisa adequada à democracia no Brasil. O presidente não fez nenhum toma-lá-dá-cá nessa questão.

CC: Mas é preciso negociar com o Congresso o tempo inteiro.
DR: Não concordo que a relação que tivemos ao longo desse tempo com o Congresso foi de toma-lá-dá-cá. Foi uma relação de negociar, porque tem oposição. O governo é a arte de negociar, não há nenhum mal em dialogar.

CC: Há uma crítica recorrente de que o Estado brasileiro tem cargos comissionados demais e isso serve para comprar apoio político.
DR: O Estado brasileiro ainda é um pouco desequilibrado. Herdamos um Estado que fazia corte linear, doa a quem doer. A manifestação maior desse modelo é o que encontrei nas Minas e Energia. Um engenheiro na ativa para 20 motoristas, em um ministério que cuidava de petróleo, de gás, biocombustível, energia elétrica... Não se pode ter uma visão simplificada do que se quer de um Estado. Eu quero um Estado meritocrático e profissional. Hoje, ele ainda está descompensado, começamos a remontar no governo Lula e vamos continuar. A questão das indicações políticas existe nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, em todas as democracias. Essa conversa de aparelhamento do PT... Vamos lembrar o que houve em outros governos. Como se fosse só o PT a fazer nomeação política.

CC: O PT faz porque todos fazem, é isso?
DR: Não vou fazer tábula rasa disso. Pode ter, sim, nomeação política, o que não pode é não ter critérios técnicos. Posso receber uma nomeação política de um partido da minha base, ele vai me dar um nome, e nós vamos olhar.

CC: Não é o contrário? Olha-se o que tem para encaixar o apadrinhado?
DR: Não, normalmente indicam nomes com a ficha toda da pessoa. Essa conversa do aparelhamento do Estado é preconceito. Tentam estigmatizar, é uma coisa muito velha, lacerdista, de república de sindicalistas.

CC: Para alguns desenvolvimentistas, o Brasil está num processo de desindustrialização, por causa do câmbio. A senhora concorda?
DR: Não há nada que a gente não possa compensar com duas coisas: política industrial e financiamento. Mas acho importante que a taxa de juro real do País caia e convirja para as internacionais. Caminhamos celeremente para isso na próxima década. Se o Brasil mantiver uma taxa de crescimento de 5,5% ao ano, vamos ter uma redução do endividamento e aumento do PIB. E aí não há a menor possibilidade de não ter redução da taxa de juro real. O que não dá é achar que se faz isso por decreto.

CC: O Banco Central no seu governo será uma Santa Sé, como comparou José Serra?
DR: Acho inapropriada a comparação, é o tipo da problemática que não constrói nada. Não tenho o que falar a respeito.

CC: A senhora tem falado do combate ao crack, mas as políticas antidrogas têm fracassado. Sob que ótica se daria esse combate?
DR: O primeiro mecanismo é a prevenção. Não se combate droga sem repressão, tem de levantar a rota e combatê-la, mas só isso não adianta, está para lá de provado. Tem de fazer a prevenção e o apoio, e o apoio é complicado porque tem de apostar que tira o cara do crack depois que ele entrou. Há várias discussões a respeito, há casos que a pessoa saiu, mas não é fácil, não é igual às outras drogas. É altamente viciante e mata em seis meses. Não é algo, inclusive, que tenha tradição mundial, há dificuldade de fazer.

CC: O que a senhora acha da descriminalização das drogas, de maneira geral?
DR: Hoje não concordo. Não vou dizer que, numa crise de droga da proporção do crack no Brasil, caiba esse tipo de discussão agora. Não temos estrutura para isso e não temos como discriminar o que pode e o que não pode.

CC: A senhora foi muitos anos do PDT. Seu grande ídolo político é Leonel Brizola? Existe alguma ideia brizolista que poderá ser aplicada em seu governo?
DR: Admirei muito o Brizola. Tinha características muito importantes, uma grande noção de soberania. O compromisso com a educação conflui com o que a gente tem. A escola em tempo integral não basta mais, é pouco, o País mudou, mas a gente tem de reconhecer que ele deu uma grande contribuição. O Brizola pensou na educação em 1962, e o Miguel Arraes na eletrificação rural, na mesma época. Enxergaram problemas que no Brasil não se enxergava. Quando se olha para trás, a política de Arraes e de Brizola nos estados deles foi excepcional.

CC: O Chico Buarque, outro dia, disse que votaria na senhora por causa do Lula, mas que não via grandes diferenças entre um governo seu e um de José Serra. O que a senhora diria para o Chico?
DR: Talvez ele não me conheça (risos). Aliás, por culpa minha, eu é que tinha de procurá-lo. Até devo a ele um telefonema, não pude ir à casa dele no dia em que dona Maria Amélia, sua mãe, morreu. O presidente Lula foi e não pude acompanhá-lo. Mas pretendo procurar o Chico e agradecer pela opção.

CC: A senhora não parece ter sido muito vaidosa no passado e agora ganhou um upgrade no visual. Está gostando?
DR: Ah, a gente sempre curte, sempre é bom. Mas é um cabelo mais simples, né? (Alisa o cabelo, mais curto, mais claro e sem um fio fora de lugar.) É mais fácil de arrumar do que o seu. Mas eu gosto, não acho ruim, não.

CC: Acha que vão surgir muitos pretendentes... presidente e de visual novo?
DR: É o tipo da coisa que não dá tempo nem de a gente pensar, nessa função. Agora, não sou contra, não, viu? As pessoas namorarem, coisas assim. Acho bom.

CC: Se a senhora fosse se comparar a uma mulher governante, estaria mais para Michelle Bachelet ou para Margaret Thatcher?
DR: Ah, Bachelet, sem dúvida, óbvio. Não tenho a posição conservadora da Thatcher.

CC: Mas a pintam como dama-de-ferro, não?
DR: É um estereótipo. Toda mulher é dama-de-ferro? Nunca vi um senhor-de-ferro, você já viu algum?

CC: Qual é, hoje, o maior entrave para o Estado brasileiro conseguir ser eficaz nos investimentos?
DR: Ainda tem muita burocracia herdada do período em que a ordem era não gastar. Houve um processo muito difícil de gestão da coisa pública e se criou uma série de entraves ao investimento. É fundamental reconstruir o planejamento, a capacidade de fazer projeto. O Estado pode demandar projetos.

CC: A senhora acha que as entidades fiscalizadoras, como o Tribunal de Contas da União (TCU), agem com excesso de zelo?
DR: Tive uma experiência muito boa com o TCU, que, inclusive, reconhece que o PAC tinha menos problemas do que qualquer outro programa do governo, pelo nível de acompanhamento direto nosso. Não acho que a questão de fundo seja essa. O que há é uma discrepância entre a qualidade da estrutura que fiscaliza, que se manteve ao longo dos anos intacta, que teve profissionalismo, que tem engenheiro ganhando a partir de 12 mil, e a estrutura que executa, onde o inicial é 4 mil ou 5 mil reais. Essa discrepância vai ter de ser alterada, tem de fazer plano de cargos e salários. Não pode ficar perdendo seus melhores quadros, senão não se consegue elaborar, olhar o futuro. E ninguém resolve isso no horizonte de um governo. Vamos ter de resolver a meritocracia no Estado brasileiro no horizonte de uma década. Levaram 20 anos desmontando, não se constrói de um dia para o outro.

CC: Privatizar é um tema banido no PT ou ainda existe algo privatizável?
DR: Privatizar patrimônio público, banco, estatal do nível da Petrobras e da Eletrobrás, é absolutamente absurdo e a vida nos deu razão. A crise mundial recente nos deu muita razão. Sem essas empresas não teríamos nos saído tão bem. A Caixa Econômica mudou, o Banco do Brasil mudou. O BNDES era uma central para fazer projetos para privatizar empresas brasileiras. Hoje faz projetos para expandir empresas brasileiras, é diferente.

CC: A senhora parece aquele tipo de mulher que as durezas da vida fizeram revestir-se de uma armadura. É difícil ter de se livrar dela agora, em campanha, ficar, como se diz, mais soft?
DR: Isso é um baita estereótipo. Quem não criou, depois de 60 anos de vida, vários mecanismos de defesa? Me mostre um bicho sem nenhuma carapaça que sobreviveu. Somos todos fundamentalmente muito parecidos. Nos defendemos, nos desmontamos, nos abrimos para as pessoas. Depende da circunstância. Não posso ficar chorando o dia inteiro sendo ministra-chefe da Casa Civil, me comovendo às lagrimas. Agora, se eu vir um filme comovente, choro. Como ministra, não podia ficar na emoção sistemática, porque ou eu segurava o touro a unha ou o touro picava a mula. O pessoal vende umas histórias esquisitíssimas. Talvez a suposição seja que sou um E.T. A verdade é que tive uma vida muito boa, tirando a prisão na época da ditadura. Casei, tive filho, vivi bem com meu marido, sou amiga do meu ex-marido, ele é que nem meu parente. Nunca me senti uma pessoa infeliz, não sou carente, sou alegre. Gosto de viver.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dica de leitura.

"O Macaco e a essência", de Aldous Huxley.

Por recomendação de uma amiga, que também me fez a gentileza de me emprestar seu exemplar (valeu demais, Maíra), estou lendo um livro pouco conhecido (ou não tão celebrado) de Aldous Huxley, autor dos clássicos modernos “Admirável mundo novo” e “As portas da percepção”. Sob o título de “O Macaco e a essência”, foi publicado pela primeira vez em 1948 (mesmo ano da publicação de 1984 de Orwell), sob forte impacto das explosões nucleares em Hiroshima e Nagasaki, e é uma interessante alegoria sobre a estupidez humana no trato com o “progresso” e os avanços científicos, magnificamente ilustrada na imagem surreal de fileiras de macacos uniformizados saudando generais igualmente símios que mantém encoleirados representações do físico Albert Einstein. A princípio temi que fosse um livro chato de ler pelo fato de ser escrito como um roteiro de cinema, mas logo vi que estava enganado. O formato de roteiro não é seguido à risca, cumpre mais uma função ilustrativa numa curiosa concepção de que a história relatada , de autoria de um misterioso escritor anônimo e desaparecido, teria sido encontrada por acaso.

A narrativa nos transporta ao futuro, rumo a um mundo devastado pela terceira guerra mundial que, devido aos progressos no desenvolvimento da tecnologia na confecção de armas de destruição em massa, durou apenas 3 dias. O que restou da “humanidade” tenta sobreviver num arremedo de “nova ordem” sustentada na crença de que o responsável pela tragédia foi Belial, Beelzebu, o senhor da moscas – ele mesmo, o demônio em pessoa. Por conta disso, desenvolvem um curioso culto religioso baseado na idéia de saciar os anseios de morte nefastos do capeta com o único objetivo de ganhar tempo, viver mais um dia. Exatamente como se faz tendo um pedaço de carne nas mãos e encontrando-se diante de um tigre enfurecido – sacia-se momentaneamente a fome da fera na tentativa de obter mais alguns minutos de vida. A filosofia por trás da nova religião é explicada de forma brilhante ao personagem Poole, um botânico vindo do único lugar que escapou à devastação, a Nova Zelândia, por um sacerdote, em meio a uma orgia regada a sangue de bebês sacrificados ao “coisa ruim” por terem nascido deformados, fato este que também serve como motivo para severos castigos a suas progenitoras. Assim como na Bíblia e em praticamente todas as religiões conhecidas, a mulher á apontada como causa de todo o mal e tratada como pária, mero instrumento de reprodução – daí o castigo por terem gerado um fruto imperfeito que, em todo caso, acaba servindo de alimento para a besta imaginária. Um ponto em comum com “1984” de Orwell, “Nós” de Zamiátin e diversos outros romances distópicos, é que a redenção acaba vindo do amor despertado em Poole por uma dessas mulheres, que convence o personagem a esquecer a moral repressora herdade de sua formação cristã protestante e alimentada por uma ligação doentia com sua mãe (ele tem quase 40 anos e ainda é virgem) e sucumbir aos “fatos da vida”. Interessante também ressaltar, no discurso do sacerdote, uma aguda percepção de que mesmo que a “coisa” (a guerra) não tivesse acontecido a humanidade como a conhecemos fatalmente sucumbiria devido ao uso irracional dos recursos naturais decorrentes da escravidão do homem à máquina, processo iniciado com a revolução industrial - e, claro, orquestrado e manipulado ocultamente pelo demônio. Quer discurso mais atual que este ? Aldous Huxley era um visionário, sem sombra de dúvidas.

O livro é curto e dividido em apenas dois capítulos. O primeiro, mais sucinto e com uma narrativa romanceada convencional, serve como uma espécie de introdução ao nos apresentar dois amigos ligados à indústria cinematográfica de Hollywood que se deparam por acaso com o roteiro do misterioso e anônimo Tallis. O segundo é o roteiro em si, reproduzido na íntegra. Começa com uma viagem surreal repleta de metáforas e imagens alegóricas um tanto quanto desconfortáveis, com detalhes descrevendo o tipo de música que se deve tocar ao fundo, por exemplo, mas logo adquire consistência e a leitura passa a fluir de forma elegante e prazerosa, sem vocabulários exageradamente rebuscados ou qualquer resquício de hermetismo. Foi relançado recentemente pela Editora Globo e pode ser facilmente encontrado nas livrarias, ao preço (um tanto quanto salgado) de trinta e poucos reais, em média ( http://compare.buscape.com.br/o-macaco-e-a-essencia-aldous-huxley-8525037060.html?pos=1 ). Em todo caso, clique AQUI para baixar a obra na íntegra, em pdf, caso não se incomode em ler no formato digital. O texto disponível é a tradução de João Guilherme Linke, a mesma que estou lendo, numa edição de 1966.

por Adelvan.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pra não dizer que não falei de futebol ...

Não vou "falar", porque não tenho interesse nem entendo porra nenhuma de futebol. Mas admiro algumas pessoas que fizeram a História do futebol, por isso vou reproduzir, via "Piratex Inc.", uma sensacional entrevista de Geneton Moraes Neto com João Saldanha que foi postada hoje no G1. 2000-2010 globo.com - Todos os direitos reservados. Aí do lado, colocarei o link para esta coluna do Geneton que é sensacional. Visitarei-a sempre, e se eu fosse você faria o mesmo, ao invés de ficar perdendo tempo no orkut.

A. ---------------------------------------

A Globonews vem levando ao ar esta semana ( às 19:30, com reprise 7:30 e às 15:30 do dia seguinte) uma série de entrevistas que o locutor-que-vos-fala fez sobre os bastidores do futebol – aqueles lances que o torcedor não vê. O time de entrevistados do GLOBONEWS EXTRACAMPO é de primeira: Ricardo Rocha (Copas de 90 e 94), Carlos Alberto Torres (1970), Leão (74,78 e 86), Roberto Carlos (98,2002 e 2006) e Zico (1978, 82 e 86).

Um nome que invariavelmente é citado em época de Copa do Mundo: João Saldanha, o jornalista que, na pele de técnico da seleção brasileira, abriu o caminho para a conquista do tri-campeonato mundial.

Época de Copa de Mundo é o momento ideal de ouvir o que João Saldanha dizia. Tive a chance de entrevistá-lo.

Voilà : Guardo em meus arquivos implacáveis a fita (precariamente gravada) de uma entrevista que fiz com um homem que entrou para a história do futebol brasileiro: o cronista esportivo desbocado que virou técnico da Seleção Brasileira. Nome: João Saldanha.

Não era uma figura de “meias palavras”. Ganhou fama de “desbocado”, o que pode ser visto como uma virtude, num país habituado à cultura do ôba-ôba. Assim que assumiu o posto, foi logo anunciando o time titular – imediatamente batizado pela imprensa como “as feras de Saldanha”. A situação de Saldanha no comando da seleção cedo ou tarde criaria desconfortos: era um comunista dirigindo a Seleção Brasileira sob uma ditadura militar.

Terminou batendo de frente com o governo – não por motivos políticos, mas, supostamente, por tentar ficar imune a ingerências indevidas. Telefonei num domingo à noite para a estação de rádio onde ele gravava comentários. Saldanha marcou o encontro para o dia seguinte, no início da tarde, na redação do Jornal do Brasil. Fiquei esperando pelo homem, na recepção. Quando ele chegou, foi direto ao assunto : não era de perder tempo falando sobre as fases da lua. A entrevista poderia começar um minuto depois, numa mesa da redação. Assim foi feito. O caminhar era ligeiramente torto. Usava a camisa por dentro das calças. Fumava.

Sete anos depois, morreria, em plena Copa do Mundo de 1990, na Itália, vítima de um enfisema pulmonar.
E agora, caros ouvintes, vai falar o homem que quer para o Brasil a alegria da geral do Maracanã, vai falar o homem que desagradou o ditador quando era técnico da seleção brasileira de futebol; vai falar o único convidado que teve coragem de ir jantar com o presidente João Goulart numa noite de exílio no Uruguai. A bola é tua, João Saldanha!”.


GMN : Ainda hoje correm histórias de que o afastamento de João Saldanha do cargo de técnico da seleção brasileira de futebol se deveu a motivos políticos. De uma vez por todas, para passar a limpo esse caso: é verdade?

João Saldanha: “De uma vez por todas para você! (em tom irritado). Afirmei e reafirmei e outras fontes metidas no meio também. Claro: na época fui convocado para a seleção brasileira no governo Costa e Silva. E Costa e Silva, estranhamente, morreu no meio do caminho. O governo mudou. Houve uma série de modificações na cúpula. E entrou o governo Médici – que, como precisava de uma frente bem ampla, resolveu usar a seleção, como vários governos usam até hoje. Inclusive o governo Figueiredo usa a seleção. Por exemplo: eu estou chegando da Europa, fui acompanhar jogos de uma seleção brasileira que não representava coisíssima nenhuma, por motivo algum. Nem a Europa dava bola. A não ser na cidade onde a gente estava, a outra cidade ao lado não sabia que a seleção brasileira estava jogando. Isso nunca aconteceu! É jogada política. Naquela época, também.

O presidente … Aliás, não chamo de presidente da República porque costumo chamar de presidentes os que foram eleitos; não os usurpadores do poder. Então, o usurpador do poder naquele momento era o senhor Médici – que desejava popularidade e quis fazer popularidade através da seleção. Não era um bom caminho. Eu não estava de acordo. Nós éramos apenas um time de futebol. Mais nada!

Quiseram impor a convocação de Dario – por sinal, um bom jogador.
Era de alto nível, mas não de tão alto nível como eram os jogadores de que a seleção precisava, como Pelé, um Tostão, um Dirceu Lopes, um Gérson, um Clodoaldo, um Rivelino, um Jairzinho. Embora Dario fosse um bom jogador do ranking brasileiro, não existia lugar para ele nessa turma.
Mas, como Dario era do Atlético Mineiro e o governo naquele tempo precisava uma barretada pra Minas Gerais, quiseram botar Dario à força. Recusei. Puseram para fora Toninho – do Santos – um grande goleador com quase novecentos gols, por causa de uma sinusite. Antônio do Passo e João Havelange diziam: “Pelo amor de Deus, convoque Dario, nem que seja pra ele nem mudar de roupa. Convoque pelo nome, porque vamos ficar bem com os homens e precisamos de dinheiro!”.

Não convoquei. Convoquei até homens de meio-de-campo. Neste momento, entrei num atrito desvantajoso”.

GMN: A pressão do general Médici para ver Dario na seleção brasileira era indireta, através de declarações, ou ele chegou a pressionar diretamente?

Saldanha: “Pressão direta se fazia através dos homens da CBD. Era indireta em relação a mim. A pressão direta era lá com os homens. Diziam: “Ou bota Dario ou sai fora”. Chegaram e me disseram: “João, não podemos agüentar mais! Faça isto!”.

João Havelange dizia: “Pelo amor de Deus, convoque Dario! Convoque pelo nome!” Se convoco Dario, tudo bem. Eu ia me avacalhar! Mas não tenho hábito de me avacalhar. Não me avacalhei. A seleção brasileira, felizmente, ganhou a Copa do Mundo no México, em 70. Se não, eu não poderia nem voltar para o Brasil (N: na época da Copa, João Saldanha já tinha sido substituído por Zagalo).

Quando eu ia sair do Brasil para o México, fui posto para fora do avião no Aeroporto do Galeão, embora tivesse passagem comprada, passaporte, tudo certinho. Tive de ir para o México. para ver a Copa, pelo caminho que Ronald Biggs, aquele ladrão de trem, fez. Fui parar em Port of Spain, via Pará-Paramaribo. Lá, vendem umas passagens estranhas de ida-e-volta, assim numa espécie de falso turismo, porque nem precisa de passaporte nem nada. Avião de vagabundo. Fui parar lá. De Paramaribo, não voltei. Comprei uma passagem com meu passaporte, tudo legal e fui para Port of Spain. Lá, peguei a Pan-American para a Guatemala e, só então, fui para o México. Cheguei três dias depois de quando tinha saído do Brasil”.

GMN: Que argumento usaram para evitar o embarque do senhor no Galeão?

Saldanha: “O argumento da força! Nenhum outro. É o argumento da ditadura. Porque a ditadura faz a lei: “A Lei sou eu”.

GMN: Não houve, então, explicação alguma?

Saldanha: “Não. Dizem: “Não pode ser; o senhor foi barrado”. Digo: “Mas estou preso?”. E eles: “Não”. Ora, eles já me puseram nu no Aeroporto do Galeão duas vezes. Uma vez em 1968, quando fui para o Uruguai e lá visitei amigos que eram exilados políticos. Um foi exilado para o Uruguai junto com meu pai, há coisa de quarenta anos. Casou, ficou por lá. Não era nem exilado! Era um homem que morava no Uruguai. Mas morava embaixo do apartamento de Brizola. Era Brizola no sexto e ele no quinto. Um nem via o outro!

Almocei também com João Goulart – que tinha convidado toda a imprensa para ir almoçar com ele. Ninguém foi. Havia uma mesa para trinta pessoas, mas ninguém apareceu. Só nos dois: eu e João Goulart.

Nós estávamos com uma seleção brasileira, em Montevidéu. João Goulart disse: “Vamos almoçar lá em casa!”. Nunca tinha visto João Goulart na vida; nunca tinha falado com ele. Mas, como eu tinha dito a ele que ia, fui. Aquela foi a primeira vez em que falei com ele, quando fui almoçar, uma conversa trivial. Quando voltei, me botaram nuzinho no Aeroporto, no Brasil. Arrancaram a sola do sapato, descoseram minha camisa, mexeram numa maleta vagabunda que eu tinha levado. Como eu só ia passar dois, três dias, não tinha levado bagagens. E me puseram nu. Fiquei lá horas e horas; cinco ou seis horas”.

GMN ; Nesta viagem, o senhor nem era ainda técnico da seleção, viajava como jornalista …

Saldanha: “Eu era jornalista da Rádio Globo e da TV Globo. Fui lá fazer a cobertura do jogo. Mas, como conversei com João Goulart, o presidente da República. . . Ele era presidente porque tinha sido eleito e foi posto para fora. O Estado não era ele e deu o que deu. Paciência. Tenho 40 anos de janela. Tiro esse troço de letra”.

GMN: O que é que ficou desse encontro com João Goulart, já que foi o primeiro?

Saldanha: “João Goulart no Uruguai nadava que nem peixe na água. Era um grande fazendeiro; o mais rico fazendeiro do Uruguai. Era de uma famosa firma de fazendeiros do Rio Grande do Sul. Sou gaúcho. Conheci a firma de nome. João Goulart tinha uma grande fortuna. Ia e vinha para o Brasil no dia que queria, num avião particular. Descia numa fazenda, no Brasil. Tinha uma fazenda em Goiás, Ilha do Bananal. Era um grande fazendeiro. Batemos um papo alegre e informal. Política? O que é que adiantava entrar em política? “Eu penso isso. . .” Não adiantava pensar! A ditadura estava no Brasil – como até hoje existe uma meia-ditadura. Eu é que te pergunto agora: vai ter eleição direta ou não? Aposto que não vai ter; você aposta que vai ter, sei lá! Por que é que se faz assim? Porque não temos Constituição nem lei nem nada “.

GMN: Ainda a respeito do problema do envolvimento do futebol com política: já apareceram dezenas de sociólogos e antropólogos para tentar explicar o fascínio que o futebol brasileiro provoca no povo. O futebol – afinal de contas – o que é que representa, fora do gramado, para o Brasil?

Saldanha: “O futebol é um ramo da arte popular. O Brasil é um país eminentemente pobre. Para o futebol, basta uma bola. O menino descalço pode jogar. Uma rua, uma bola de pano ou de borracha, uma bola qualquer e pronto: o menino joga. Como esporte de pobre, é evidente que o futebol tem uma transa bem maior com o Brasil do que com a Dinamarca … É só. É uma expressão da arte popular. Todo mundo tem necessidade de expandir a vocação artística em qualquer coisa. Há cantor de banheiro às dúzias e jogador de futebol aos milhões. Poucos, entretanto, conseguem atingir o estrelato”.

GMN; O que é que o senhor diz das teorias de intelectuais que dizem que o futebol no Brasil é um fator de alienação do povo?

Saldanha: “É errado. Futebol não é alienação nem nada: é lazer. E lazer faz parte da vida. O homem precisa -para viver – de casa, comida, roupa; são indispensáveis ao ser humano. Para manter essas coisas, precisa de trabalho. Para viver, precisa de lazer. Precisa caminhar, passear, namorar, se divertir e tudo o mais. O futebol é um lazer que tem uma expressão de arte, como o tênis.

O futebol tem dois aspectos: um, daquele que o pratica – o artista; outro, daquele que o vê – é o torcedor no lazer. O Brasil é um país pobre e tropical, o que permite que este esporte seja praticado o ano inteiro, o que não é o caso da Suécia, norte da Europa nem Inglaterra nem o norte da França, onde não se pode jogar porque faz frio. Mas no Brasil pode-se jogar o ano inteiro- inclusive no Rio Grande do Sul – o lugar mais frio. Lá na Europa não dá, por causa da neve e do gelo. Isso cria uma massa de milhões de admiradores.

Por outro lado, nossa formação etnológica e a etnográfica deu, coincidentemente, ao brasileiro, condições para a prática do futebol. Os músculos flexíveis e aquecidos naturalmente são da nossa própria formação biológica. O negro veio da África como uma das raças mais primitivas: só tinha os braços e as pernas … Você vai dizer: “E o índio?”. O índio já não é primitivo; é anterior ao primitivismo… Então, nossa formação, essa etnologia toda nos permite os músculos e a vivacidade para executar bem esse ramo da arte. Veja bem que digo vivacidade. Nada tem a ver com outro ramo importante da vida que é a cultura. Nós somos paupérrimos em cultura, embora riquíssimos em esperteza e vivacidade. Quando Euclides da Cunha disse “o sertanejo é antes de tudo um forte”, ele deveria ter dito “o sertanejo é antes de tudo um esperto”. . . Não é tão forte não, porque morre cedo”.

GMN: Durante a época do técnico Cláudio Coutinho, a imprensa publicou matérias que falavam na “militarização dos esquemas de trabalho na seleção “. Isso aconteceu?

SaIdanha: “Claro que aconteceu. Quando fui convocado, chamaram também Coutinho, Bonetti e uma série de militares. Tentaram impor um esquema militarista de vigilância e segurança, algo policial. Depois, de fato, quando fui posto para fora, havia seguranças, leões de chácara da seleção. Eram esquemas de homens armados com metralhadoras e o diabo a quatro. E foi ridículo na Argentina, onde deram rajadas de metralhadora num barulho de fundo de quintal que nada mais era do que uma cadela no cio e um monte de cachorro atrás. . . Gritavam:”Pára! Pára! Pára!”. A cadela não entendeu e eles metralharam…. Houve um monte de coisas ridículas assim. Isso ainda existe. Dentro de vários clubes existe este esquema policial. É um derivativo do próprio sistema.

É um sistema policial em que qualquer terceiro escalão aí, qualquer sub-gerente de finanças do subnitrato do pó de mico tem dois, três seguranças. Você olha, vê três homens do tamanho de um armário guardando um cara e, quando você vai perguntar quem é, dizem: “Ah, é o caixa não sei de onde”. . . Bolas! Isso faz parte do sistema – que parece, e felizmente – vem melhorando. Não sei. Ainda estou em dúvida se vamos ter eleições diretas ou se vão ser eleições palacianas de bolso de colete “.

GMN: Quem é o maior responsável pela conquista do tricampeonato mundial de futebol: João Saldanha – que deixou o time pronto – ou Zagalo – que completou a festa?

Saldanha: “Os responsáveis são: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson, Jair, Pelé, Tostão e Rivelino. A minha participação: foi coincidente. Tive a felicidade de encontrar no Brasil uma fertilidade tamanha de jogadores que me obrigava a deixar Ademir da Guia, Edu e outros cracões sem possibilidade de serem convocados. Quem é que eu ia botar para fora, para chamar Ademir da Guia? O Gérson? Rivelino? Clodoaldo? Tostão? Pelé? Quem? Não tinha jeito”.

GMN: Ainda se compram juizes e jogadores no Brasil?

Saldanha: “Só em nível bem apodrecido de fim de carreira é que acontece. O fator corrupção vem desde os mais altos escalões da vida nacional até os mais subalternos. Futebol não é exceção, porque é uma parte da vida social brasileira. O que existe na vida social brasileira existe no futebol também. O tóxico, o homossexualismo e a corrupção existem em proporção igual”.

GMN: Pelé foi sacana quando não apareceu na morte de Garrincha?

Saldanha: “Não, porque Pelé aí ia ser um agente funerário: qualquer jogador que morresse, ele ia ter de comparecer. Pelé até se manifestou da maneira mais simpática, porque estava lá longe, com uma série de compromissos. Tinha de pegar um avião e vir correndo ao Brasil, sem nem saber a hora, o dia nem coisa nenhuma? Se fosse assim, seria um ato demagógico. Não sei, porque eu não estava nem presente. Não fui.
Garrincha era um amigo meu. Fomos companheiros de clube anos e anos. Amigo íntimo, amigo de problemas os mais íntimos. Não pude comparecer nem ao enterro nem à missa nem coisa nenhuma, porque eu não estava no Brasil. Vontade não me faltou- se bem que, particularmente, não goste de enterro. Não tenho vocação de agente funerário. Prefiro a imagem dos amigos vivos.

Pelé foi apenas sincero. Ia vir da caixa-prego para chegar ao Brasil? Então, não seria enterro de Garrincha; seria a vinda de Pelé. Acontece um bocado em enterro de vedetes. Outro dia, durante quarenta e oito horas, no velório de Clara Nunes – que foi velada mais do que o comum – houve um desfile e um show de exibicionismo podre e sujo. A morte seria mais respeitada. . . A morte, não: a vida. A morte…. Morreu, dane-se, acabou, para mim…. Então, a vida seria mais respeitada com uma saudação póstuma, uma manifestação de tristeza através de um pronunciamento discreto, coisas que não são chocantes.
Mas não: a morte de uma vedete hoje em dia é um show de televisão, uma palhaçada. Pelé fez bem em não parti- cipar de palhaçada”.

GMN: Os críticos de Pelé dizem que ele é um gênio dentro do campo e um desastre fora, pelas coisas que ele diz, etc. O senhor – que foi técnico de Pelé – o que é que diz da figura de Pelé fora do campo?

Saldanha: “Concordo em parte. Dentro de campo, Pelé foi um gênio, o maior que conheci. Fora do campo, é um homem comum. Querem que ele seja fora do campo o que ele foi dentro do campo. Isso talvez não seja compatível. Digo francamente, porque não tenho nenhum problema com jogador e ex-jogador nenhum. Nunca tive. Sempre os tratei com respeito e exigi respeito. A vida particular de cada um? Só me preocupava uma coisa: se joga bem, entra no time. Mas, se é homossexual, se é ladrão, se é isso ou aquilo, não sou nem nunca fui crítico de moral para dizer. Sempre entendi que eles fazem parte de uma sociedade tal qual ela é e não tal qual eu desejava que fosse.

Claro que eu desejaria que fosse uma sociedade boa e eles fossem bons em tudo. Não são. Paciência. Não conheci Pelé fora, uma vez ou outra comemos juntos e batemos papo à toa. Toda vez que a gente se encontra é aquilo: “Como vai, chefe?” – ele me chama de “chefe” e eu chamo “ôi, negão”. É papo informal sem maior intimidade.

A crítica que se faz a Pelé traz um bocado de inveja. Um crioulo no Brasil que fica rico é “besta”. Mas com branco rico não existe problema. Paulo César dá uma resposta boa quando perguntam por que é que todo crioulo rico pega logo uma loura. E aí ele diz: “Vamos inverter a posição: por que é que toda loura pega sempre um crioulo rico?”. Então, pombas, vamos ser realistas e enfrentar a vida com a naturalidade que ela tem. Pelé só deve ser tratado como um grande gênio de uma arte popular. O resto não é um problema social, positivamente”.

GMN: Como é aquela história da miopia famosa de Pelé, antes da Copa?

Saldanha: “Pelé, a meu ver, nunca teve problema de vista. Ele enxerga mais do que nós”.

GMN: Como é que surgiu, então, aquela história?

Saldanha: “Ah, não foi minha! Aquela história deve ter surgido dentro do SNI … Quem tinha problema de vista na seleção era Tostão e, ainda assim, fiz Tostão ser convocado à força. Quando ele foi se operar em Houston, no Texas, eu convoquei só vinte e um – e não vinte e dois jogadores, porque sabia que na operação de Tostão havia mais charlatanismo e publicidade do que propriamente uma lesão.

Quanto a Pelé, não tive nenhum problema. Os retrospectos estão aí. Todas as partidas em que fui treinador ele jogou. Nunca fiz um pronunciamento daqueles sobre a vista de Pelé por duas razões. Uma é que seria injusto: sou leigo e não entendo. Nós só tínhamos uma preocupação quanto à boa visão: com os goleiros. Dos goleiros, a gente exige que tenham uma visão igual aos exames que são feitos com os aeronavegadores, os pilotos de aviação. Quanto aos demais jogadores, o campo visual é tão vasto que nós nunca nos preocupamos. O importante é que enxerguem a bola. E Pelé enxergava!

A segunda razão é que não sou burro. Se eu vejo o cara jogar e ser o melhor jogador do mundo, eu vou dizer “não”? Nunca ele foi barrado por mim. Ao contrário: eu o defendia. Houve uma época em que Pelé não era tão querido nem tão publicitário. Era um simples jogador do Santos. E o Santos não “vendia” em São Paulo. Quem vende lá é Palmeiras, é Corinthians, é São Paulo. O Santos, não. É um time de cidade pequena. Então, ele não era bem visto lá.

A onda não era em cima de mim: era em cima de Pelé. Eu e Pelé já conversamos sobre essa coisa e rimos. Digo: foi um troço torpe. Desafio qualquer um que jamais tenha lido ou ouvido de mim qualquer coisa a esse respeito! “Nós tivemos vários jogadores homossexuais da melhor qualidade.Craques que dormiam com homem” Não sou idiota. E por que eu iria fazer algo tão gratuito, se ele não me devia nem eu a ele? Somos bons amigos”.

GMN: A torcida até hoje não engoliu aquela derrota de 3 a 2 para a Itália na Copa do Mundo de 82 na Espanha, os famosos três gols de Paolo Rossi – nem jamais vai engolir. A culpa foi do técnico Telê Santana, foi dos jogadores ou foi de Paolo Rossi?

Saldanha: “Nós jogamos doze copas do mundo. Ganhamos três. A proporção é de uma para quatro. Nossa chance ali na Espanha foi aquela. Nós poderíamos ganhar, mas este é um julgamento subjetivo. Se tivéssemos um time melhor – que contasse com alguém que soubesse jogar pela direita, não tivesse um goleiro tão frágil e tivesse um ataque mais poderoso… Isso tudo são conjecturas subjetivas. Nós não somos obrigados a ganhar todas as Copas do Mundo. É bom que o brasileiro saiba que ele não é absoluto. É bom que o brasileiro saiba que lá fora há times tão bons quanto os nossos – e às vezes melhores. É bom que o brasileiro saiba que a Europa se atrasou perante nós por causa de uma guerra que dizimou quase toda a juventude entre 15 e 45 anos. Isso não se refaz com decreto-lei nem com planos qüinqüenais. É preciso esperar que nasçam outros, formem-se e reaprendam.

A Europa teve grandes prejuízos com a Guerra, o que nos permitiu um avanço enorme. Quando pegamos a Europa em 58 e 62, ela estava, exatamente, num período de decadência esportiva, porque lhe faltou a juventude que tinha morrido na guerra. E foi uma vantagem que nós tivemos.
Nosso futebol, no entanto, é do melhor nível. Nós estamos na primeira turma do futebol mundial, junto com Alemanha, Itália e Inglaterra. Qualquer um dos quatro é primeira turma. Os outros vêm em segundo escalão”.

GMN; Tinha algum perna-de-pau na seleção brasileira de 82, na Espanha?

Saldanha: “Tinha vários “.

Quem são?

Saldanha: “Não gosto de citar. Não adianta nada. Deixe para o critério de cada um. Quando digo que tinha “vários” pernas-de-pau é que tinha mais de três (ri). Se não, eu diria: “Tinha dois ou três! “. Digo: tinha vários, mais de três, a meu ver. Mas, se digo três, acham que havia seis. Se digo cinco, acham que são três. É subjetivo. Havia jogadores ali que não têm nada a ver com seleção brasileira”.

GMN: O senhor conhece algum caso de jogador profissional que tenha sido prejudicado por ser homossexual?

Saldanha: “Nós tivemos vários jogadores homossexuais da melhor qualidade. Quem é que vocé chama de homossexual? O que faz papel de homem ou o que faz papel de bicha? Homossexual é o homem que transa com homem; é a mulher que transa com mulher. Homem que dorme com homem quatro, cinco anos, quem é a bicha? Não. Eu conheci vários craques que dormiam com homem há não sei quanto tempo. Foram vários – e craques! Não estou ligando. Como apreciador e crítico do futebol, deixo para o “Caderno B” – que aprecia o outro lado da coisa”.

GMN: Em que circunstância João Saldanha voltaria a ser técnico da seleção brasileira?

Saldanha: “Em nenhuma. Quando foi um desafio, eu topei. Deu certo, felizmente. Não perdemos e não atrapalhei. Eu saí oito dias antes da ida para o México. Não mexeram no time, as concentrações já estavam arrumadas. Nós chegamos dois meses antes da Copa ao México. Aliás, Copa no México é uma grande vantagem para nós – que podemos parar a vida do país e mandar um time para lá dois meses antes. Quando os europeus chegam, na véspera da competição, já estamos aclimatados e adaptados. Os europeus não.
Além de tudo, contávamos com um elenco maravilhoso. Para mandar 22 jogadores, tínhamos 40. Se eu errasse e, em vez de mandar Rivelino, mandasse Ademir da Guia, não era um erro. Era uma escolha. O nível era igual. O que sobrava de gente… Era uma época de ouro e de apogeu.

Não era vantagem nenhuma, não. Eu achava sempre que era uma barbada, pelas vantagens que nós tínhamos. O Brasil não perderia. Quando o nosso embaixador no México me disse: “Olhe, se não ganhar, você não volta para o Brasil”, eu disse: “Embaixador, é uma barbada… “. O embaixador João Pinheiro me chamou na Avenida Paseo de la Reforma, número 400, para me dizer: “Se o Brasil não ganhar, acho bom que você não volte para o Brasil”.

É que eu tinha dito que havia no Brasil três mil e tantos presos políticos e tinham sido assassinados mais de quatrocentos rapazes e moças, durante a ditadura Médici. Eu disse e saiu no “Observer” da Inglaterra; saiu no “Le Monde”, saiu em um monte de jornais de milhões de exemplares. O governo não gostou. Se o Brasil perdesse eu estava fuzilado (ri). Não voltaria. Não tinha importância: eram mais alguns anos fora do Brasil. Já passei vários e não era mal nenhum”.

GMN: A imagem do general Médici naquela época, com o radinho de pilha no ouvido para ganhar popularidade, incomodava João Saldanha?

Saldanha: “Devia incomodar a ele aquele rádio desligado. Pois, segundo as pessoas próximas, tratava-se de um rádio sempre desligado, o que era demagógico. Isso podia incomodar a ele, porque é chato ficar com o braço levantado fingindo que ouve rádio… E, francamente, não acho que seja atraente. Mas me incomodar, não. Eu estou pouco me incomodando. Não tenho nada pessoalmente com ele. Nem o conheço! Só o vi de longe. Não sei direito como é a cara. Nunca falei com ele nem ele comigo. Quando houve uma reunião em Porto Alegre com ele, chamaram a cúpula da seleção, mas não compareci.

Eu não teria prazer em apertar a mão de um homem que tinha matado vários amigos meus – ou mandado matar ou deixado matar. Não sei nem se foi ele que mandou ou deixou. O caso é que, coincidentemente, trezentos e tantos morreram naquele governo, o mais assassino da história do Brasil”.

GMN: Hoje, nem convocado ou numa situação especial o senhor voltaria à seleção?

Saldanha: “Não vejo no que eu possa acreditar. Prefiro o meu trabalho, em que me dirijo diretamente ao público e com ele converso. Eu iria ficar lá dentro: “Olhe, fulano, jogue aqui ou jogue ali…” “devia jogar fulano e não beltrano!”… É um troço opcional. Para que vou ficar me aporrinhando com essas coisas? Aqui está bom” (olha para a redação do ‘Jornal do Brasil’, no Rio, onde foi feita esta entrevista).

GMN: Mas a torcida sente falta de um técnico como o senhor – que chega e vai logo dizendo qual é o time titular…

Saldanha: “A torcida tem uma opinião internacional. Não pense que fui original, não. Fui um copista, um reles copista. O que fiz é feito em todos os países civilizados do mundo. Nenhum mistério: os homens que dirigem as seleções são homens civilizados; não vão morrer. . . A Inglaterra, desde a guerra até hoje, teve apenas três treinadores. A Alemanha – duas vezes campeã do mundo – teve dois treinadores até hoje, desde o tempo da guerra. E a guerra acabou em 1945! Teve três treinadores; um morreu. A Itália teve dois treinadores até hoje e foi três vezes campeã do mundo. A não ser esses paisezinhos da América do Sul e esses clubinhos aí que trocam de treinador todo dia …

Eu agora fui viajar, passei um mês fora e, quando chego de volta, vejo que mudou todo mundo. O Botafogo agora é um triunvirato; o outro é não sei o quê. . . é um troço ridículo – que expressa bem o sistema”.

Quem é o melhor jogador brasileiro hoje?

Saldanha: “É Zico”.

E Falcão? Também é um jogador completo?

Saldanha: “Um grande jogador. Mas como Pelé e Garrincha, não. Pelé e Garrincha são extra-série. Como Falcão e Zico tivemos muitos: muitos Zizinhos, muitos Gérsons, muitos Didis, Carlos Alberto, Djalma Santos, Nílton Santos, vários magníficos e notáveis jogadores. Só vi, como Pelé e Garrincha, talvez o Di Stéfano, um monstro sagrado. E depois, mais próximos, Puskas, Zizinho, Cruiff. Mas Pelé, Garrincha e Di Stéfano são os três extra-série. Vi Di Stéfano pela primeira vez em 50, 51; vi jogando dez, doze anos. Vi Pelé jogando dez, doze anos. Vi Garrincha uns quinze anos. Tenho opinião firmada e confirmada sobre eles: são monstros sagrados do futebol internacional. Formam na linha dos fora-de-série. Depois, você vem aí com trezentos: Antonioni, Ferrari, Beckenbauer, Shultz, Overheit, Rumenningue, Stanley Mathews…”

GMN: O senhor já disse que a Fifa – um órgão que reúne um número de países-flliados maior do que o da ONU – tem um papel de distensão política a nível internacional. O senhor pode dar um exemplo de como essa “distensão” funciona na prática?

Saldanha: “Ah, posso. A China era isolada do resto do mundo em matéria esportiva. O jogo de pingue-pongue – e aí não era a Fifa – deu uma certa abertura. Depois, em troca de Coca-Cola… São quase um bilhão de chineses. Se cada um tomar meia Coca-Cola por dia, são 450 milhões de Coca-Cola diariamente. Vende mais do que no Brasil no ano inteiro. Então, quando a Fifa botou a China no negócio, vendeu Coca- Cola. A Fifa tem mais facilidade de abertura do que os compromissos políticos, econômicos e de grupos dos países”.

GMN: Dizem as más-línguas que João Havelange foi intermediário da entrada da China na Fifa, porque era intermediário -também – da venda de Coca-Cola. É verdade ou delírio?

Saldanha: “Delírio não é. Mentira também não é. Coincidentemente, dizem que Havelange é representante ou diretor da Coca-Cola e, a um só tempo, presidente da Fifa. Não há mal nenhum. O que o sujeito não pode é ser ladrão. A China entrou e foi bom, porque o isolamento da China, não só esportiva, mas econômica e politicamente, como o de qualquer país, não é bom no contexto mundial”.
GMN: O centroavante Reinaldo – do Atlético Mineiro – diz que a estrutura do futebol brasileiro é fascista, porque beneficia, em primeiro lugar, os patrões. Quais são as propostas de João Saldanha para melhorar esta estrutura?

Saldanha: “Eleições livres e um governo democrático, porque essa estrutura é um reflexo do Brasil. Os desejos de Reinaldo coincidem com o meu. Pinochet fez igual no Chile. É a estrutura da América Latina – não digo que é fascista, porque nós não somos fascistas nem imperialistas. Nosso país não exporta capital. Somos apenas um país de ditadores, os famosos “ditadores da América Latina “. As coisas estão melhorando, há certas aberturas, mas aberturas dimensionadas e controladas.
Quando você pensa que pode dizer tudo, não diz. Determinadas coisas que eu quiser escrever aqui onde você está (N: redação do “Jornal do Brasil”) não saem. Não é que eles vão cortar; eu é que já nem ponho, porque sei que não vai sair. O que Reinaldo quer eu também quero”.

(Entrevista gravada no Rio de Janeiro, 04/07/1983)