Karne Krua, de Aracaju, Sergipe, é, muito provavelmente, uma das bandas
punk mais antigas em atividade ininterrupta no norte e nordeste do
Brasil. Nunca pararam! Posso atestar
isso, já que os acompanho desde 1987, quando fui ao meu primeiro show de
rock “underground”. Sobrevive às idas e vindas de componentes graças à
persistência de Silvio, o vocalista e único membro original
remanescente.
Idas e vindas que, felizmente, já cessaram há um
bom tempo: a formação mais recente, com Adriano na bateria, Alexandre na
guitarra, Ivo Delmondes no baixo e Silvio nos vocais, é uma das mais
estáveis e duradouras. E, provavelmente, também a melhor, conseguindo o
feito de superar a “clássica”, com Silvio, Marlio, Marcelo e Almada -
aquela que definiu a sonoridade da banda e compôs verdadeiros hinos do
Hard Core undergound nacional.
A Karne Krua existe desde 1985.
Havia na época um cenário “roqueiro” pulsando nos submundos da cidade,
herdeiro direto da nova onda do rock nacional que tomava conta do país.
Vieram, no entanto, com uma proposta ousada para a provinciana capital
do menor estado do país: radicalizar na postura e na sonoridade. Fazer
punk rock e Hard Core cru, bruto e engajado. Fizeram barulho e chamaram a
atenção, aglutinando ao seu redor toda uma nova cena com nomes como
Manicômio, Condenados, Cleptomania, Logorreia, Forcas Armadas e
Sublevação. Dessas, algumas tiveram vida curta e sumiram na poeira do
tempo, deixando pouco ou nada para trás. Outras sobrevivem até hoje. Mas
nenhuma com a força e a capacidade de se renovar e renovar seu público,
de geração a geração, que a Karne Krua tem.
Como toda banda
que dura tanto, passaram por várias fases e diferentes variações de
sonoridade. Tudo devidamente registrado na farta discografia e
“demografia”, que começou com a tosca “As Merdas do sistema”, alcançou
uma certa maturidade com a clássica – embora ainda tosca – “labor
Operário”, experimentou o primeiro gosto do profissionalismo com
“Suicídio”, a primeira gravada em estúdio, no Recife, e se “consagrou” –
na medida do possível para uma banda totalmente independente – com o
primeiro registro em vinil, o LP auto-intitulado, de 1994.
O
primeiro disco da Karne Krua está fazendo 20 anos de lançado e, apesar
de seus defeitos gritantes – de gravação e mixagem, principalmente – é
um clássico. Principalmente porque foi gravado ainda com a formação mais
célebre - que logo depois se dissolveu definitivamente – e tem um
repertório impecável, fruto da excelente fase pela qual passavam na
época e que rendeu pérolas do quilate de “O vinho da História” e “A
Noite do Deus morto”. Além disso, havia a bagagem que já vinham
acumulando em quase 10 anos de atuação nos porões do punk rock
nordestino, período no qual compuseram alguns clássicos que até hoje são
cantados em coro nos shows: “America latina now”, “cenas de ódio e
revolta” e “Sindicato”, dentre outras. Músicas que, para além da
simplicidade dos acordes primários típicos do estilo, carregavam uma
poesia improvável em suas letras, como na de “política da seca” - um
lamento que, a meu ver, poderia constar tranquilamento ao lado de
grandes canções icônicas sobre a tragédia do sofrimento do povo do
nordeste, como “Asa Branca” e “A Triste partida”. Seus versos são um
verdadeiro soco no estômago do conformismo e não me deixam mentir: falam
de “pessoas castigadas pelo sol e pela fome” que “lamentam a dor de
mais um ano que passou”. Porque “os miseráveis são fonte de renda, mão
de obra barata. Voto Comprado. Essa é a grande armadilha, e deverá ser
cultivada”.
O disco foi lançado tardiamente, numa época de
transição para a industria da musica, do analógico para o digital. Não
teve versão em CD e, muito por conta disso, teve uma repercussão
reduzida. Hoje, no entanto, a situação se inverteu: é cultuado
justamente por ser, além do primeiro registro “oficial” de uma banda
clássica do cenário local e nacional, um dos poucos discos sergipanos a
ter tido uma edição em vinil.
Seguiram em frente: ao longo das
décadas de 1990 e 2000 foram absorvendo novos membros e novas
influências, notadamente do Hard Core novaiorquino - Biohazard, Agnostic
Front - e da música regional – o repente e o “aboio”, principalmente.
Novas fitas demo foram lançadas – “Máscaras para o caos”, de 1997, e
“Instantes Irreversíveis”, de 1999 – e finalmente, em 2002, o segundo
disco, agora em CD: “Em Carne viva”. O lançamento aconteceu numa noite
inesquecível daquele início de século, quando conseguiram o feito de
lotar o Espaço Emes, maior arena de shows local, que já serviu de palco
para nomes consagrados da música popular e do rock, como Roberto Carlos,
Sepultura e Ana Carolina. Tudo registrado em vídeo e disponível em DVD.
O maior triunfo da banda, no entanto, ainda estava por vir: o álbum
“Inanição”, uma verdadeira obra-prima do gênero em terras brasilis.
Gravado num momento de transição, ainda com o grande baterista Thiago
“Babalu”, que se mudou para São Paulo e hoje toca com Siba, ex-Mestre
Ambrosio, e Alexandre, o guitarrista, fazendo também o papel de
baixista, demorou uma eternidade para ser lançado. Só veio ao mundo em
2012, exatos dez anos depois do segundo. Mas valeu a pena a espera:
trata-se de uma impecável coleção de canções que, alinhadas, traçam um
impressionante painel de angustia e revolta diante das injustiças do
mundo, do drama dos retirantes ao sofrimento dos animais usados em
testes de laboratório. E tem, pelo menos, um novo clássico: a música
título, “inanição”. Nele a banda consegue finalmente registrar todo o
potencial que, até então, só se revelava em toda a sua plenitude em cima
do palco. É um registro que não pode faltar na coleção de ninguém que
se diga apreciador do combativo e altivo punk rock nacional.
Hoje, prestes a completar 30 anos de carreira ininterrupta, continuam
tocando principalmente em sua cidade e regiões circunvizinhas, porque
não têm estrutura nem suporte financeiro para vôos mais altos. Mas
seguem vivo e ativos. Acabam de lançar um EP 7 polegadas - formato
outrora popularmente conhecido no Brasil como "compacto" - em parceria
com o "Besthoven", de Brasília. Trata-se de um verdadeiro soco sonoro em
forma de 4 músicas emendadas, uma espécie de "suíte" Hard Core versando
sobre os horrores da guerra. A edição é caprichada, com prensagem de
qualidade a cargo da renascida polyson, única fábrica de discos de vinil
ainda em atividade no país, e uma excelente arte de capa de autoria de
Thiago Neumman, o popular "Cachorrão".
Às vezes eu tenho a
impressão que a Karne Krua nunca vai acabar. Sei que sim – porque tudo,
um dia, acaba. Mas torço para que não.
Que seja eterna enquanto dure, como dizia o poeta.
por Adelvan
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domingo, 23 de março de 2014
linhas tortas # 2
Tenho aqui em minhas mãos a cópia número 16/100 da segunda edição do fanzine linhas tortas, editado pelo camarada Aquino Neto
diretamente de seu quartel-general encravado no conjunto Augusto
Franco, este verdadeiro celeiro sergipano de bizarrices musicais. Em
mãos mesmo, de fato. Não é uma metáfora. É um fanzine de papel,
materializado em 5 folhas ofício (ou seriam A4? Nunca consegui
diferenciar) xerocadas, dobradas no meio em sentido vertical e grampeadas, o que dá ao produto final um aspecto charmoso, "fininho".
A capa, ótima, traz um belíssimo desenho de Laura Athayde emcimado pelo título, escrito à mão com caneta azul-piscina de ponta porosa. Na primeira página, um ótimo editorial que resume em poucas (nem tanto, ocupa a página inteira) palavras o significado da obra para o seu autor. Depois temos uma excelente entrevista com o Medialunas, banda gaúcha que tocou recentemente por aqui, muito bem diagramada e enriquecida por belas fotos de Marcelinho Hora. No meio, uma pequena biografia e alguns exemplos da poesia - muito boa - de Miró, um poeta "marginal" (no sentido de à margem) pernambucano que ama São Paulo, apesar de andar sempre de ônibus por lá e de não ter sentido nada quando cruzou a esquina da Ipiranga com a avenida São João - eu também não. Aí temos um artigo chamado "10 películas feministas", bem intencionado porém um tanto quanto superficial - os comentários poderiam passar de duas linhas, parece texto de twitter - e controverso - nesse caso, sem novidade, pois qualquer lista já nasce sob o signo da controvérsia. No caso, eu tiraria um os filmes da Disney apontados, "Valente". É fraquinho demais. O outro, "Mulan", é legal, mas mesmo assim há inúmeras outras obras que mereciam ocupar seu lugar na lista, como "Libertárias", que trata da participação feminina durante a Guerra Civil espanhola. E, por fim, a divulgação de uma dupla de artistas chamada "poro" sem dar nenhuma amostra de sua arte - a não ser que o interessante panfleto que vem reproduzido embaixo, "10 Maneiras incríveis de perder tempo*" seja deles. Não sei, não ficou claro. Tudo isso intercalado por reproduções de trabalhos sempre belos e/ou interessantes assinados por Beatriz Lopes, Matheus xMarrecox, Jarlan Félix, Guilherme C., LoveLove6, Carla e Liz, Márcio Thiago e Mayra Vasconcelos.
Perfeito inclusive em suas imperfeições - quem disse que tudo tem que estar sempre em seu lugar, graças a Deus? Acho que foi Benito Di Paula. Enfim, discordo - o "linhas tortas" é uma pequena grande iniciativa, fruto da inquietação e da sempre saudável necessidade de comunicação de um pequeno grande homem - pequeno porque ele é um cara discreto, na dele, e é fisicamente magrinho, embora não tão baixinho, mas quem o conhece sabe que faz o que faz com dedicação e paixão e, acima de tudo e mais importante, tem um grande coração. Eu te daria o enderêço dele pra correspondência, já que no editorial ele pede: "não me mandem emails, me escrevam(cartas)". Só que ele não colocou o enderêço para correspondência no zine! Te falei: nem tudo, aqui, está no seu lugar. Graças a Deus.
Me despeço reproduzindo dois micropoemas do Miró que gostei muito:
Finalmente onde é que vamos parar?
O policial perguntou:
-tá indo pra onde boy?
-estou voltando, senhor
fui preso por desacato.
Não me contento em ter
um lugar para dormir
Quero ter mil lugares
para sonhar.
A
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A capa, ótima, traz um belíssimo desenho de Laura Athayde emcimado pelo título, escrito à mão com caneta azul-piscina de ponta porosa. Na primeira página, um ótimo editorial que resume em poucas (nem tanto, ocupa a página inteira) palavras o significado da obra para o seu autor. Depois temos uma excelente entrevista com o Medialunas, banda gaúcha que tocou recentemente por aqui, muito bem diagramada e enriquecida por belas fotos de Marcelinho Hora. No meio, uma pequena biografia e alguns exemplos da poesia - muito boa - de Miró, um poeta "marginal" (no sentido de à margem) pernambucano que ama São Paulo, apesar de andar sempre de ônibus por lá e de não ter sentido nada quando cruzou a esquina da Ipiranga com a avenida São João - eu também não. Aí temos um artigo chamado "10 películas feministas", bem intencionado porém um tanto quanto superficial - os comentários poderiam passar de duas linhas, parece texto de twitter - e controverso - nesse caso, sem novidade, pois qualquer lista já nasce sob o signo da controvérsia. No caso, eu tiraria um os filmes da Disney apontados, "Valente". É fraquinho demais. O outro, "Mulan", é legal, mas mesmo assim há inúmeras outras obras que mereciam ocupar seu lugar na lista, como "Libertárias", que trata da participação feminina durante a Guerra Civil espanhola. E, por fim, a divulgação de uma dupla de artistas chamada "poro" sem dar nenhuma amostra de sua arte - a não ser que o interessante panfleto que vem reproduzido embaixo, "10 Maneiras incríveis de perder tempo*" seja deles. Não sei, não ficou claro. Tudo isso intercalado por reproduções de trabalhos sempre belos e/ou interessantes assinados por Beatriz Lopes, Matheus xMarrecox, Jarlan Félix, Guilherme C., LoveLove6, Carla e Liz, Márcio Thiago e Mayra Vasconcelos.
Perfeito inclusive em suas imperfeições - quem disse que tudo tem que estar sempre em seu lugar, graças a Deus? Acho que foi Benito Di Paula. Enfim, discordo - o "linhas tortas" é uma pequena grande iniciativa, fruto da inquietação e da sempre saudável necessidade de comunicação de um pequeno grande homem - pequeno porque ele é um cara discreto, na dele, e é fisicamente magrinho, embora não tão baixinho, mas quem o conhece sabe que faz o que faz com dedicação e paixão e, acima de tudo e mais importante, tem um grande coração. Eu te daria o enderêço dele pra correspondência, já que no editorial ele pede: "não me mandem emails, me escrevam(cartas)". Só que ele não colocou o enderêço para correspondência no zine! Te falei: nem tudo, aqui, está no seu lugar. Graças a Deus.
Me despeço reproduzindo dois micropoemas do Miró que gostei muito:
Finalmente onde é que vamos parar?
O policial perguntou:
-tá indo pra onde boy?
-estou voltando, senhor
fui preso por desacato.
Não me contento em ter
um lugar para dormir
Quero ter mil lugares
para sonhar.
A
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quarta-feira, 19 de março de 2014
ECCE HOMO
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| Foto por Saulo Coelho Nunes |
Recebi também a visita nos estúdios da Aperipê FM, durante o programa de rock, da equipe do site "Cultura Interativa", para uma entrevista muito bacana que você pode ouvir AQUI. Aproveitei para também entrevistá-los ao vivo durante o programa, mas esta só ouviu quem acompanha nosso humilde programinha de rádio, que vai ao ar todo sábado a partir das 19H pela frequencia 104,9 FM em Aracaju e região, e na net via streaming em www.ideastek.net/aperipefm
Abaixo, a entrevista para o Noisey, na íntegra:
Noisey: É verdade que, quando você começou a fazer o zine Napalm, você nem sabia o que era conceitualmente um fanzine? Como foi que você se deu conta de que estava fanzinando?
Adelvan: Sim, é verdade. Eu nasci e morava em Itabaiana, cidade do interior do estado de Sergipe, e comecei a ser atraído pelo universo do rock através do que via na TV, principalmente - e quando eu falo TV, aqui, falo da TV aberta, pois na época, meados da década de 1980, não existia TV por assinatura. De vez em quando o Fantástico fazia uma matéria sobre o assunto e então subitamente a gente ficava sabendo que existia um bando de malucos autodenominados punks, em São Paulo, que tinham um comportamtento exótico e agressivo, e só. Com o Rock In Rio o estilo ganhou mais evidencia e eu comecei a me identificar com tudo aquilo. Tinha 14, 15 anos. Algumas revistas chegavam por lá, como a Bizz, Roll e Somtrês. Em Aracaju chegava a Rock Brigade, e foi através dessas publicações que eu fui me aprofundando naquele mundo, totalmente novo para mim. O ciúme que eu tinha de minha nascente coleção aliado à vontade de compartilhar as informações me levou a ter a iniciativa de fazer uma "apostilha" - sim, era assim que eu chamava! - xerocada para distribuir entre alguns amigos, na ânsia de que mais pessoas se interessassem também pelo assunto e eu tivesse, finalmente, com quem conversar. Era bem básico, apenas pequenas biografias de bandas clássicas, como Led Zeppelin, AC/DC, Metallica e Venom, mas, por ser feito no interior, algo bastante inusitado para a época, chamou a atenção dos proprietários da primeira loja especializada em rock no estado, a Disturbios Sonoros, que ficava em Aracaju. Eles me disseram que o que eu estava fazendo se chamava fanzine, uma espécie de revista de fã, e ajudaram a fazer uma tiragem maior - 100 cópias - da edição número 5, que passaram a vender na loja. Silvio, vocalista de uma das primeiras bandas punk/Hard Core do estado, a Karne Krua - em atividade até hoje - viu o zine por lá e decidiu me escrever. Ele me mandou uma pacote cheio de publicações, panfletos e informativos ligados à cena punk, e foi assim que eu fiquei sabendo que havia uma verdadeira rede subterrânea fazendo circular informações sobre um cenário do qual eu não fazia idéia da existência.
Noisey: O que rolou nesse hiato entre o Napalm e o Escarro Napalm? Você considera que as duas propostas têm parentesco entre sí?
Adelvan: Sim, O Escarro Napalm foi uma espécie de continuação mais amadurecida, na medida do possível, do meu fanzine anterior - cujo nome eu tirei da célebre casa noturna que havia em São Paulo. Eu cheguei inclusive a manter alguns correspondentes fora do estado, com o Napalm, mas muito poucos, três ou quatro, no máximo. Parei porque entrei na faculdade e não tinha mais tempo nem dinheiro sobrando. Daí, já no início da década seguinte, em 1991, saí da faculdade e me mudei para Aracaju. Fiz minha primeira viagem a São Paulo - e ao Rio, fui a Rock in Rio II, no Maracanã - e fiquei deslumbrado com toda aquela movimentação. Na viagem de volta me lembro bem que observando aquele caos urbano, metrô, marginal, fui me dando conta de que poderia dar minha contribuição daqui mesmo do meu cantinho do mundo, e resolvi me integrar à cena local, ajudando a organizar shows e voltando a fazer um fanzine. Dessa vez com mais cara de "revistinha", algumas folhas de papel A4/oficio dobradas e grampeadas na lombada. O "Napalm" era grandão, pesadão. O Escarro foi melhor planejado, fiz menor e com menos páginas para que pudesse tirar mais cópias. Lembro que tirei cerca de 20 cópias e mandei todas de uma vez para alguns enderêços que me chamaram a atenção na coluna "Run, Xerox", da revista Animal, de quadrinhos, que eu colecionava, e foi assim que tudo (re)começou. A primeira pessoa que respondeu foi o Fellipe CDC, de Brasilia, de quem sou amigo até hoje.
Quando saiu a primeira edição do Escarro Napalm, qual sua periodicidade e quanto tempo durou?
1991. Durou até 1995. Teve 7 edições "regulares" e uma edição especial. Não havia uma periodicidade defininda, mas eu geralmente conseguia fazer um a cada 6 meses, aproximadamente. O número 2 eu fiz numa edição conjunta com o Buracaju, zine que Silvio, da Karne Krua, editava desde os anos 80. Foi bem legal porque foi meio experimental, Silvio tava a fim de fugir um pouco daquela estética punk engajada e então fizemos uma coisa bem livre, com os assuntos que nos viessem à mente. Assinamos, inclusive, alguns textos juntos, como um no qual criamos uma banda fictícia extreamamente radical, satirizando os extremos do underground.
Noisey: A que tipo de música e ideias o Escarro Napalm mais dedicava espaço?
Adelvan: Isso era curioso, porque pelo nome do zine muita gente esperava que focasse apenas em coisas como grindcore ou Hard Core, mas eu sempre fui bastante eclético e curtia muito o que na época chamávamos de "guitar bands", por exemplo. Pixies, Sonic Youth, Nirvana, Dinosaur jr, Pin Ups, Killing chainsaw. Curtia muito rock industrial, também: Ministry, Nine Inch Nails, Laibach, e uma banda gaúcha chmada GDE - Grupo de Extermínio - da qual eu gostava muito. Focava na música independente, "underground", mas num aspecto bastante amplo, diversificado. Numa mesma edição havia uma entrevista com o No Sense, de Santos, pioneiros do grindcore nacional, e uma matéria sobre o Second Come, do Rio. Do nordeste tinha muito contato com a Câmbio Negro HC e o Eddie, de Pernambuco, e a Living In The Shit, de Maceió. Fazia também pequenas biografias das bandas locais que eu mais curtia, como a já citada Karne Krua e o Camboja, uma espécie de projeto industrial lo-fi genial que eu ainda considero, até hoje, umas das bandas mais criativas e interessantes que já tivemos por aqui - e olha que o cenário local hoje é riquissimo e bastante diversificado. Mas o Camboja marcou demais na época. Era diferente de tudo.
Sempre abria espaço também para os quadrinhos. Era muito amigo do Joacy jamys, do Maranhão, grande desenhista. Ele fez uma das melhores capas do Escarro - as duas primeiras, tosquíssimas, eu mesmo desenhei, mas depois recebi excelentes colaborações de verdadeiros artistas talentosíssimos, como o Edgar S. Franco, de Minas, Cláudio MSM, do RS, Henry Jaepelt, de Santa Catarina, Alberto Monteiro, do Rio, e Yury Hermuche, que morava em Brasilia e hoje está radicado em São Paulo. Toca no Firefriend.
Noisey: Houve alguma publicação temática ou especial, com uma história curiosa ou diferente para contar? Como no caso do Esquizofrenia, que fez uma edição inteira dedicada ao Indie Sueco, e o Aaah!!, que chegou a ter mais de 50 páginas em um de seus números?
Adelvan: A última encarnação do Escarro foi uma edição especial gigante e meio megalomaníaca que eu chamei de DELIRIUM. Ficou tão grande que eu não tinha como grampear, então resolvi lançar encadernado em espiral com capa em acrílico! Não deixou de ser uma espécie de retorno às origens das "apostilhas", mas desta vez bem mais caprichada e "charmosa". Desnecessário dizer que ficou também muito caro, e por isso acabou tendo uma tiragem reduzidíssima. Acho que não chegou a 30 exemplares. Mas não tinha nenhum tema específico não, seguiu a linha do fanzine regular mesmo, falando um pouco de tudo - Nietsche, Lampião, pornografia e resenhas do Segundo Juntatribo por Andhye Iore, de Maringá, e do BHRIF - sensacional festival que aconteceu em 1994 em Belo Horizonte e que trouxe o Fugazi ao Brasil pela primeira vez.
Noisey: O que motivou o fim da publicação e com que outros projetos similares você se envolveu depois? Você se empolgaria a voltar a fazer fanzine hoje em dia, nos moldes dos zines atuais, que geralmente se dedicam mais a essa coisa de papéis e impressões híbridas?
Adelvan: Tenho notado isso, que os zines de hoje em dia estão, no geral, bastante elaborados, visualmente e em termos de texturas, com tipos de papel diferenciados. Faz sentido, é uma forma de se ter um "plus" em relação aos arquivos digitais. Mas isso não é exatamente uma novidade, está mais para uma tendência. Haviam zines bastante elaborados e em formatos criativos, com dobras diferenciadas, nos anos 90 também. Uma coisa que muita gente elogiava nos nossos fanzines, tanto os meus quanto os de Silvio, era a qualidade das cópias. Procurávamos sempre as melhores máquinas da cidade para valorizar nosso trabalho - que não era pouco. Tanto que muita gente achava que era impresso em gráfica! Eu ficava puto com o Jamys, por exemplo, que sempre mandava ótimos zines, muito bem desenhados e diagramados, mas em cópias horriveis, às vezes ilegíveis. Então essa preocupação com a estética existia. Nisso fui bastante influenciado por Silvio, ele era especialmente bom em diagramação e vivia experimentando novas técnicas para obter um resultado visual diferenciado, como por exemplo quando começaram a aparecer as xerox coloridas. Lembro que ele lançou alguns fanzines em xerox azul, e eu usei no DELIRIUM uma técnica que aprendi com ele para deixar a capa em duas cores: primeiro imprimia uma parte da imagem numa cor, no caso, preto, e depois outra imagem por cima em outra cor, no caso, vermelho. O resultado ficou bem legal.
O fanzine acabou por puro cansaço. Simplesmente não conseguia mais responder às pilhas de cartas que só faziam crescer e se acumular. Passei uns bons 10 anos, de 1995 a 2005, aproximadamente, trabalhando "nos bastidores", digamos assim. Nunca deixei de frequentar a cena: tive uma loja especializada, ia a shows e apoiava os eventos na medida do que me era possivel, mas não tinha mais um veículo no qual pudesse me expressar. Tudo mudou à medida que a internet foi se popularizando, especialmente com a chegada dos blogs e das redes sociais. A principio exitei, era muita informação e eu me perguntava se o mundo realmente precisava de mais, mas aos poucos fui notando que a cena local, sim, carecia de mais e melhores registros. Então retomei o Escarro em formato de blog. Está lá, no ar. Atualizo sempre que posso. Produzo também um programa de rádio na emissora pública local, a Aperipê FM, que pode ser ouvido ao vivo on line todo sábado a partir das 19H em www.pdrock-sergipe.blogspot.com
Noisey: Qual era o seu envolvimento com a cena underground local à época do lançamento das primeiras edições? Você já tinha bastante acesso a novidades, ou já tinha essa coisa de ser um garimpador de música e uma veia politizada?
Adelvan: Aos poucos eu fui descobrindo a cena "alternativa", frequentando os shows e fazendo novos amigos. Ás vezes ajudava a produzir, mas minha onda era mais a de registrar, mesmo, daí os fanzines. Em todo o caso, já cheguei a fazer parte de uma banda, um dos muitos projetos de Silvio - sempre ele - que se chamava ETC - depois 120 Dias de Sodoma - e era uma espécie de noisecore pornográfico com influencias de todo tipo, do rap aos ritmos regionais - antes do Raimundos e do mangue beat! Foi uma espécie de desabafo esporrento de Silvio contra o patrulhamento ideológico "politicamente incorreto" dos punks, ao qual aderi entusiasticamente.
O acesso às novidades era bastante restrito, pelas próprias limitações tecnológicas da época mesmo. O grande canal era o dos zines, através dos quais a gente ficava conhecendo antes, inclusive, algumas bandas e nomes que posteriormente teriam projeção maior, como o Pato Fu - tinha contato com o guitarrista John via carta - e a Pitty, que eu conheci no Inkoma. Tocava muito aqui naquele velho esquema DIY, "colaborativo". Já os hospedei em minha casa, inclusive. Tudo foi mudando aos poucos, primeiro com a chegada da MTV, depois com a popularização da internet. Vivemos praticamente num mundo diferente, neste sentido, hoje em dia. Admirável mundo novo. Para o "bem" e para o "mal".
Noisey: A distribuição das publicações começou via correio, vendas em lojas/shows? Como era essa parte? A tiragem era grande, costumava esgotar rápido?
Adelvan: A tiragem variava entre 100 e 150 cópias. Geralmente trocadas por outras publicações ou demos de bandas. Quase sempre via correio. Caso a pessoa estivesse interessada e não tivesse nenhuma produção a oferecer, a moeda de troca eram sêlos. Muitas vezes com cola, para que fossem reutilizados - lavava-se os sêlos para que o carimbo dos correios saísse.
Noisey: Se você fosse pontuar os cinco momentos/fatos/bandas/discos mais importantes da música que o Escarro Napalm teve a chance de registrar em suas páginas, quais seriam?
Adelvan: Entrevistei a Gangrena Gasosa - sou fã - e o Patu Fu em início de carreira - pirei quando ouvi o primeiro disco deles, o "rottomusic de liquidificapum", que acabou chegando nas lojas daqui porque foi lançado pela Cogumelo, gravadora especializada em metal. Fui convidado, representando o nordeste, a participar de um seminário sobre fanzines durante o BHRIF, Belo Horizonte Rock Independe Fest, o festival que citei acima. Foram, provavelmente, os melhores dias da minha vida, pois a estrutura do evento era inacreditável. Dentre outras coisas, tomei chá com torradas com Ian McKaye do Fugazi enquanto ele dava uma entrevista para os camaradas Gabriela Dias, do zine/revista Panacea, e Eduardo Abreu, que fazia uma revista chamada 100 Tribos. Inesquecível.
Tenho também orgulho de ter ajudado a divulgar, na medida do possivel, as bandas daqui, como as já citadas Camboja e Karne Krua, e a Snooze. Fiz o primeiro informativo deles, em forma de fanzine.
Noisey: Qual a lição que a cultura dos fanzines dessa época em que o Escarro Napalm foi editado deixa para os veículos especializados em música da atualidade?
Adelvan: O "mal" do "mundo novo" a que me referi antes é justamente o excesso de informação, que deixa tudo confuso e, muitas vezes, nivelado por baixo. Tá tudo junto e misturado e isso, como tudo o mais na vida, traz um bônus e um ônus. O bônus é a democratização do acesso à informação, o ônus é a falta de um filtro. Também não é novidade, vinha muita merda inutil no meio das pilhas de zines que eu recebia mensalmente, atigamente. Mas, por conta do volume praticamente infinito de bytes ao qual temos acesso hoje em dia, fica mais difícil encontrar esse filtro. Mas aos poucos algumas publicações mais bem cuidadas e elaboradas vão se sobressaindo naturalmente, e as coisas tenderão a se normalizar, imagino. É uma luta constante esta, como a homogenização e o nivelamento rasteiro. Contra o "mais do mesmo".
por Eduardo Ribeiro
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quinta-feira, 13 de março de 2014
1964: Sete lições que já deveríamos ter aprendido sobre o golpe ...
Há 50 anos o Brasil foi capturado pela mais longa, mais cruel e mais tacanha ditadura de sua história. Meio século é mais que suficiente tanto para aprendermos quanto para esquecermos muitas coisas. É preciso escolher de que lado estamos diante dessas duas opções.
1ª. LIÇÃO: AQUELA FOI A PIOR DE TODAS AS DITADURAS
No período republicano, o Brasil teve duas ditaduras propriamente ditas. Além da de 1964, a de 1937, imposta por Getúlio Vargas e por ele apelidada de "Estado Novo". A ditadura de Vargas durou oito anos (1937 a 1945). A ditadura que começou em 1964 durou 21 anos. Vargas e seu regime fizeram prender, torturar e desaparecer muita gente, mas não na escala do que ocorreu a partir de 1964. Os torturadores do Estado Novo eram cruéis. Mas nada se compara em intensidade e em profissionalismo sádico ao que se vê nos relatos colhidos pelo projeto "Brasil, nunca mais" ou, mais recentemente, pela Comissão da Verdade.
Em qualquer aspecto, a ditadura de 1964 não tem paralelo.
2ª. lição: QUALIFICAR A DITADURA SÓ COMO “MILITAR” ESCAMOTEIA O PAPEL DOS CIVIS
Foram os militares que deram o golpe, que indicaram os presidentes, que comandaram o aparato repressivo e deram as ordens de caçar e exterminar grupos de esquerda. Mas a ditadura não teria se instalado não fosse o apoio civil e também a ajuda externa do governo Kennedy. O golpismo não tinha só tanques e fuzis. Tinha partidos direitosos; veículos de imprensa agressivos; empresários com ódio de sindicatos; fazendeiros armados contra Ligas Camponesas, religiosos anticomunistas. Todos tão ou mais golpistas que os militares.
Sem os civis, os militares não iriam longe. A ditadura foi tão civil quanto militar. Tinha seu partido da ordem; sua imprensa dócil e colaboradora; seus empresários prediletos; seus cardeais a perdoar pecados.
3ª. LIÇÃO: NÃO HOUVE REVOLUÇÃO, E SIM REAÇÃO, GOLPE E DITADURA
Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1979) disse a seu jornalista preferido e confidente, Elio Gaspari, em 1981: "O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução".
Quase ninguém usa mais o eufemismo “revolução” para se referir à ditadura, à exceção de alguns remanescentes da velha guarda golpista, que provavelmente ainda dormem de botinas, e alguns desavisados, como o presidenciável Aécio Neves, que recentemente cometeu a gafe de chamar a ditadura de “revolução” (foi durante o 57º Congresso Estadual de Municípios de São Paulo, em abril de 2013). Questionado depois por um jornal, deu uma aula sobre o uso criterioso de conceitos: “Ditadura, revolução, como quiserem”.
A ditadura foi uma reação ao governo do presidente João Goulart e à sua proposta de reformas de base: reforma agrária, política e fiscal.
4ª. LIÇÃO: A CORRUPÇÃO PROSPEROU MUITO NA DITADURA
Ditaduras são regimes corruptos por excelência. Corrupção acobertada pelo autoritarismo, pela ausência de mecanismos de controle, pela regra de que as autoridades podem tudo. A ditadura foi pródiga em escândalos de corrupção, como o da Capemi, justo a Caixa de Pecúlio dos Militares. As grandes obras, ditas faraônicas, eram o paraíso do superfaturamento.
Também ficaram célebres o caso Lutfalla (envolvendo o ex-governador Paulo Maluf, aliás, ele próprio uma criação da ditadura) e o escândalo da Mandioca.
5ª. LIÇÃO: A DITADURA ACABOU, MAS AINDA TEM MUITO ENTULHO AUTORITÁRIO POR AÍ
O Brasil ainda tem uma polícia militar que segue regulamentos criados pela ditadura. A Polícia Civil de S. Paulo, em outubro de 2013, enquadrou na Lei de Segurança Nacional (LSN) duas pessoas presas durante protestos. A tortura ainda é uma realidade presente, basta lembrar o caso Amarildo. Os corredores do Congresso ainda mostram um desfile de filhotes da ditadura - deputados e senadores que foram da velha Arena (Aliança Renovadora Nacional, que apoiava o regime).
6ª. LIÇÃO: BANALIZAR A DITADURA É ACENDER UMA VELA EM SUA HOMENAGEM
Há duas formas de se banalizar a ditadura. Uma é achar que ela não foi lá tão dura assim. A outra é chamar de ditadura a tudo o que se vê de errado pela frente. O primeiro caso tem seu pior exemplo no uso do termo "ditabranda" no editorial da Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro de 2009. Para a Folha de S. Paulo, a última ditadura brasileira foi branda, se comparada à da Argentina e à chilena.
A ditadura brasileira de fato foi diferente da chilena e da argentina, mas nunca foi “branda”, como defende o jornal acusado de ter emprestado carros à Operação Bandeirantes, que caçava militantes de grupos de esquerda para serem presos e torturados. Como disse a cientista política Maria Victoria Benevides, que infâmia é essa de chamar de brando um regime que prendeu, torturou, estuprou e assassinou?
A outra maneira de se banalizar a ditadura e de lhe render homenagens é não reconhecer as diferenças entre aquele regime e a atual democracia. Para alguns, qualquer coisa agora parece ditadura. A proposta de lei antiterrorismo foi considerada uma recaída ditatorial do regime dos “comissários petistas” e mais dura que a LSN de 1969. Só que, para ser mais dura que a LSN de 1969, a proposta que tramita no Congresso deveria prever a prisão perpétua e a pena de morte. O diplomata brasileiro que contrabandeou o senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil comparou as condições da embaixada do Brasil na Bolívia à do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a casa de tortura da ditadura. Para se parecer com o DOI-CODI, a Embaixada brasileira em La Paz deveria estar aparelhada com pau de arara, latões para afogamento, cadeira do dragão (tipo de cadeira elétrica), palmatória etc.
Banalizar a ditadura é como acender uma vela de aniversário em sua homenagem.
7ª. LIÇÃO: JÁ PASSOU DA HORA DE PARAR COM AS HOMENAGENS OFICIAIS DE COMEMORAÇÃO DO GOLPE
Por muitos e muitos anos, os comandantes militares fizeram discursos no dia 31 de março em comemoração (isso mesmo) à “Revolução” de 1964. A provocação oficial, em plena democracia, levou um cala-a-boca em 2011, primeiro ano da presidência Dilma. Neste mesmo ano também foi instituída a Comissão da Verdade.
A referência ao 31 de março foi inventada para evitar que a data de comemoração do golpe fosse o 1º. de abril – Dia da Mentira. A justificativa é que, no dia 31, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, começou a movimentar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro. Se é assim, a Independência do Brasil doravante deve ser comemorada no dia 14 de agosto, que foi a data em que o príncipe D. Pedro montou em seu cavalo para se deslocar do Rio de Janeiro para as margens do Ipiranga, no estado de São Paulo.
A palavra golpe tem esse nome por indicar a deposição de um governante do poder. No dia 1º. de abril, João Goulart, que estava no Rio de Janeiro, chegou a retornar para Brasília. Em seguida, foi para o Rio Grande do Sul e, depois, exilou-se no Uruguai mas só em 4/4/1964. Que presidente é deposto e viaja para a capital um dia depois do golpe?
O Almanaque da Folha é um dos tantos que insistem na desinformação: “31.mar.64 — O presidente da República, João Goulart, é deposto pelo golpe militar”. Entende-se. Afinal, trata-se do pessoal da ditabranda.
O que continua incompreensível é o livro “Os presidentes e a República”, editado pelo Arquivo Nacional, sob a chancela do Ministério da Justiça, trazer ainda a seguinte frase: “Em 31 de março de 1964, o comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. A despeito de algumas tentativas de resistência, o presidente Goulart reconheceu a impossibilidade de oposição ao movimento militar que o destituiu”. De novo, o conto da Carochinha do 31 de março. Ainda mais incompreensível é o livro colocar as juntas militares de 1930 e de 1969 na lista dos presidentes da República. A lista (errada) é reproduzida na própria página da Presidência da República como informação sobre os presidentes do Brasil.
Nem os membros das juntas esperavam tanto. A junta governativa de 1930 assinava seus atos riscando a expressão “Presidente da República”. No caso da junta de 1969, o livro do Arquivo Nacional diz (p. 145) que o Ato Institucional nº. 12 (AI-12) "dava posse à junta militar" composta pelos ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Ledo engano.
O AI-12, textualmente: “Confere aos Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar as funções exercidas pelo Presidente da República, Marechal Arthur da Costa e Silva, enquanto durar sua enfermidade”. Oficialmente, o presidente continuava sendo Costa e Silva.
Há outro problema. Uma lei da física, o famoso princípio da impenetrabilidade da matéria, diz que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo – que dirá três corpos. Não há como três chefes militares ocuparem o mesmo cargo de presidente da República. Que república no mundo tem três presidentes ao mesmo tempo? O que os membros da Junta de 1969 fizeram foi exercer as funções do presidente, ou seja, tomar o controle do governo. O AI-14/1969 declarou o cargo oficialmente vago, quando a enfermidade de Costa e Silva mostrou-se irreversível.
Os três comandantes militares jamais imaginaram que um dia seriam listados em um capítulo à parte no panteão dos presidentes. A Junta ficaria certamente satisfeita com a homenagem honrosa e, definitivamente, imerecida.
Que história, afinal, estamos contando?
Uma história cujas lições ainda nos resta aprender.
Uma história que ainda não faz sentido.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
ACM
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1ª. LIÇÃO: AQUELA FOI A PIOR DE TODAS AS DITADURAS
No período republicano, o Brasil teve duas ditaduras propriamente ditas. Além da de 1964, a de 1937, imposta por Getúlio Vargas e por ele apelidada de "Estado Novo". A ditadura de Vargas durou oito anos (1937 a 1945). A ditadura que começou em 1964 durou 21 anos. Vargas e seu regime fizeram prender, torturar e desaparecer muita gente, mas não na escala do que ocorreu a partir de 1964. Os torturadores do Estado Novo eram cruéis. Mas nada se compara em intensidade e em profissionalismo sádico ao que se vê nos relatos colhidos pelo projeto "Brasil, nunca mais" ou, mais recentemente, pela Comissão da Verdade.
Em qualquer aspecto, a ditadura de 1964 não tem paralelo.
2ª. lição: QUALIFICAR A DITADURA SÓ COMO “MILITAR” ESCAMOTEIA O PAPEL DOS CIVIS
Foram os militares que deram o golpe, que indicaram os presidentes, que comandaram o aparato repressivo e deram as ordens de caçar e exterminar grupos de esquerda. Mas a ditadura não teria se instalado não fosse o apoio civil e também a ajuda externa do governo Kennedy. O golpismo não tinha só tanques e fuzis. Tinha partidos direitosos; veículos de imprensa agressivos; empresários com ódio de sindicatos; fazendeiros armados contra Ligas Camponesas, religiosos anticomunistas. Todos tão ou mais golpistas que os militares.
Sem os civis, os militares não iriam longe. A ditadura foi tão civil quanto militar. Tinha seu partido da ordem; sua imprensa dócil e colaboradora; seus empresários prediletos; seus cardeais a perdoar pecados.
3ª. LIÇÃO: NÃO HOUVE REVOLUÇÃO, E SIM REAÇÃO, GOLPE E DITADURA
Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1979) disse a seu jornalista preferido e confidente, Elio Gaspari, em 1981: "O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução".
Quase ninguém usa mais o eufemismo “revolução” para se referir à ditadura, à exceção de alguns remanescentes da velha guarda golpista, que provavelmente ainda dormem de botinas, e alguns desavisados, como o presidenciável Aécio Neves, que recentemente cometeu a gafe de chamar a ditadura de “revolução” (foi durante o 57º Congresso Estadual de Municípios de São Paulo, em abril de 2013). Questionado depois por um jornal, deu uma aula sobre o uso criterioso de conceitos: “Ditadura, revolução, como quiserem”.
A ditadura foi uma reação ao governo do presidente João Goulart e à sua proposta de reformas de base: reforma agrária, política e fiscal.
4ª. LIÇÃO: A CORRUPÇÃO PROSPEROU MUITO NA DITADURA
Ditaduras são regimes corruptos por excelência. Corrupção acobertada pelo autoritarismo, pela ausência de mecanismos de controle, pela regra de que as autoridades podem tudo. A ditadura foi pródiga em escândalos de corrupção, como o da Capemi, justo a Caixa de Pecúlio dos Militares. As grandes obras, ditas faraônicas, eram o paraíso do superfaturamento.
Também ficaram célebres o caso Lutfalla (envolvendo o ex-governador Paulo Maluf, aliás, ele próprio uma criação da ditadura) e o escândalo da Mandioca.
5ª. LIÇÃO: A DITADURA ACABOU, MAS AINDA TEM MUITO ENTULHO AUTORITÁRIO POR AÍ
O Brasil ainda tem uma polícia militar que segue regulamentos criados pela ditadura. A Polícia Civil de S. Paulo, em outubro de 2013, enquadrou na Lei de Segurança Nacional (LSN) duas pessoas presas durante protestos. A tortura ainda é uma realidade presente, basta lembrar o caso Amarildo. Os corredores do Congresso ainda mostram um desfile de filhotes da ditadura - deputados e senadores que foram da velha Arena (Aliança Renovadora Nacional, que apoiava o regime).
6ª. LIÇÃO: BANALIZAR A DITADURA É ACENDER UMA VELA EM SUA HOMENAGEM
Há duas formas de se banalizar a ditadura. Uma é achar que ela não foi lá tão dura assim. A outra é chamar de ditadura a tudo o que se vê de errado pela frente. O primeiro caso tem seu pior exemplo no uso do termo "ditabranda" no editorial da Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro de 2009. Para a Folha de S. Paulo, a última ditadura brasileira foi branda, se comparada à da Argentina e à chilena.
A ditadura brasileira de fato foi diferente da chilena e da argentina, mas nunca foi “branda”, como defende o jornal acusado de ter emprestado carros à Operação Bandeirantes, que caçava militantes de grupos de esquerda para serem presos e torturados. Como disse a cientista política Maria Victoria Benevides, que infâmia é essa de chamar de brando um regime que prendeu, torturou, estuprou e assassinou?
A outra maneira de se banalizar a ditadura e de lhe render homenagens é não reconhecer as diferenças entre aquele regime e a atual democracia. Para alguns, qualquer coisa agora parece ditadura. A proposta de lei antiterrorismo foi considerada uma recaída ditatorial do regime dos “comissários petistas” e mais dura que a LSN de 1969. Só que, para ser mais dura que a LSN de 1969, a proposta que tramita no Congresso deveria prever a prisão perpétua e a pena de morte. O diplomata brasileiro que contrabandeou o senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil comparou as condições da embaixada do Brasil na Bolívia à do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a casa de tortura da ditadura. Para se parecer com o DOI-CODI, a Embaixada brasileira em La Paz deveria estar aparelhada com pau de arara, latões para afogamento, cadeira do dragão (tipo de cadeira elétrica), palmatória etc.
Banalizar a ditadura é como acender uma vela de aniversário em sua homenagem.
7ª. LIÇÃO: JÁ PASSOU DA HORA DE PARAR COM AS HOMENAGENS OFICIAIS DE COMEMORAÇÃO DO GOLPE
Por muitos e muitos anos, os comandantes militares fizeram discursos no dia 31 de março em comemoração (isso mesmo) à “Revolução” de 1964. A provocação oficial, em plena democracia, levou um cala-a-boca em 2011, primeiro ano da presidência Dilma. Neste mesmo ano também foi instituída a Comissão da Verdade.
A referência ao 31 de março foi inventada para evitar que a data de comemoração do golpe fosse o 1º. de abril – Dia da Mentira. A justificativa é que, no dia 31, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, começou a movimentar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro. Se é assim, a Independência do Brasil doravante deve ser comemorada no dia 14 de agosto, que foi a data em que o príncipe D. Pedro montou em seu cavalo para se deslocar do Rio de Janeiro para as margens do Ipiranga, no estado de São Paulo.
A palavra golpe tem esse nome por indicar a deposição de um governante do poder. No dia 1º. de abril, João Goulart, que estava no Rio de Janeiro, chegou a retornar para Brasília. Em seguida, foi para o Rio Grande do Sul e, depois, exilou-se no Uruguai mas só em 4/4/1964. Que presidente é deposto e viaja para a capital um dia depois do golpe?
O Almanaque da Folha é um dos tantos que insistem na desinformação: “31.mar.64 — O presidente da República, João Goulart, é deposto pelo golpe militar”. Entende-se. Afinal, trata-se do pessoal da ditabranda.
O que continua incompreensível é o livro “Os presidentes e a República”, editado pelo Arquivo Nacional, sob a chancela do Ministério da Justiça, trazer ainda a seguinte frase: “Em 31 de março de 1964, o comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. A despeito de algumas tentativas de resistência, o presidente Goulart reconheceu a impossibilidade de oposição ao movimento militar que o destituiu”. De novo, o conto da Carochinha do 31 de março. Ainda mais incompreensível é o livro colocar as juntas militares de 1930 e de 1969 na lista dos presidentes da República. A lista (errada) é reproduzida na própria página da Presidência da República como informação sobre os presidentes do Brasil.
Nem os membros das juntas esperavam tanto. A junta governativa de 1930 assinava seus atos riscando a expressão “Presidente da República”. No caso da junta de 1969, o livro do Arquivo Nacional diz (p. 145) que o Ato Institucional nº. 12 (AI-12) "dava posse à junta militar" composta pelos ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Ledo engano.
O AI-12, textualmente: “Confere aos Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar as funções exercidas pelo Presidente da República, Marechal Arthur da Costa e Silva, enquanto durar sua enfermidade”. Oficialmente, o presidente continuava sendo Costa e Silva.
Há outro problema. Uma lei da física, o famoso princípio da impenetrabilidade da matéria, diz que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo – que dirá três corpos. Não há como três chefes militares ocuparem o mesmo cargo de presidente da República. Que república no mundo tem três presidentes ao mesmo tempo? O que os membros da Junta de 1969 fizeram foi exercer as funções do presidente, ou seja, tomar o controle do governo. O AI-14/1969 declarou o cargo oficialmente vago, quando a enfermidade de Costa e Silva mostrou-se irreversível.
Os três comandantes militares jamais imaginaram que um dia seriam listados em um capítulo à parte no panteão dos presidentes. A Junta ficaria certamente satisfeita com a homenagem honrosa e, definitivamente, imerecida.
Que história, afinal, estamos contando?
Uma história cujas lições ainda nos resta aprender.
Uma história que ainda não faz sentido.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
ACM
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segunda-feira, 10 de março de 2014
Woman is the nigger of the world ...
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BRINCADEIRINHA ...
A
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quarta-feira, 5 de março de 2014
1 Ano sem Hugo Chávez
De vez em quando a história ilumina um personagem que não entra em nenhum dos moldes que forjou a própria história. O mártir dos Andes, Salvador Allende, nos convenceu de que não se podia tentar uma reforma profunda da sociedade pela via pacífica e muito menos uma revolução, e de repente, quando ninguém esperava, como um trovão numa noite de verão, das entranhas de nossa América do Sul, da comarca do maior dos libertadores de nosso Continente, Simón Bolívar, aquele que nosso visceral José Enrique Rodó definiu como o barro da América, atravessado pelo sopro do gênio, surge uma revolução que rompe todos os moldes e contradiz todos os manuais.
Por Federico Fasano Mertens, do La República - Abril de 2011.
Uma revolução pacífica, uma revolução dentro do sistema capitalista. Definem-na como a revolução na revolução. Não tem o apoio dos sindicatos operários, amarrados a seus privilégios, nem das organizações estudantis menos conscientes. Se apoia fundamentalmente nos pobres, nos marginais, os deserdados da terra, os “sans culottes”, os desempregados, os sub-empregados, os autônomos. E também os soldados, os marinheiros, pilotos e oficiais, as Forças Armadas, majoritariamente de extrato popular, não elitista, cuja origem de classe surge da pequena burguesia.
Uma revolução que não prega a ruptura anticapitalista, que respeita as classes médias, que se beneficiaram com o crédito, a moradia, os automóveis como nunca antes se haviam beneficiado. Mas também uma revolução que avança inexoravelmente em direção à mudança profunda das injustas estruturas do centenário sistema oligárquico da Venezuela.
As cifras de igualdade sustentadas pelo duas vezes prisioneiro de Yare e do forte Tiuna assombram pelo salto quântico que representam e que nunca antes se haviam conseguido na história da Venezuela.
Este é o marco em que queremos que se desenrole esta entrevista.
Fasano: A revolução bolivariana parece ser um modelo novo, diferente das quatro únicas revoluções sociais da América Latina. A mexicana de 1910, a boliviana de 1952, a cubana de 1959 e a nicaraguense de 1979. Três delas foram derrotadas, como todos sabemos, e todas sem exceção chegaram ao poder pela via armada, não pacífica, e de imediato começaram a construir organismos de poder popular.Trotsky dizia que a revolução política modifica o sistema institucional, enquanto que a revolução social transforma as relações de propriedade. A revolução bolivariana é uma revolução política ou uma revolução social? Que tipo de revolução é?
Chávez: Muito obrigado pelo teu convite, Federico, La República é um grande jornal, obrigado. É bastante amplo teu enfoque.
Fasano: Eu te pediria respostas, digamos, concisas, para dar lugar a todas as outras. Porque todas as outras vão compondo o quebra-cabeças para decifrar o enigma de teu projeto histórico.
Chávez: Entendo, porque você monta o quebra-cabeças depois, você é um montador de quebra-cabeças. Veja, faz uns minutos que estava conversando com Eduardo Galeano, e ele me falava de sua admiração por um venezuelano, Simón Rodríguez, mestre, entre outros, de Bolívar. Bolívar depois chama Rodríguez de “o Sócrates de Caracas”. Segundo Galeano, foi o mais profundo filósofo de nossa América do século 18, um grande pensador e um grande projetista do futuro. Você me fala do projeto histórico, nosso projeto histórico vem de lá, do projeto que foi concebendo o caraquenho –Bolívar dizia que era um caraquenho universal. Elaborou um grande projeto de libertação da América do Sul toda, e dizia que tinha que tomar dos incas a figura histórica e fazer um Incanato e também previa a unidade política, geopolítica da América do Sul sob o nome de “Grande Colômbia”. Esse projeto é de (Francisco de) Miranda e o elaborou em seu longo périplo como revolucionário. Miranda participou na revolução de independência dos EUA comandando tropas, foi amigo de Washington, Jefferson, depois foi coronel russo na corte de Catarina, e então foi marechal da França revolucionária. Napoleão disse: “É um Quixote sem loucura”. E, aos 60 anos –para aquela época é o equivalente a uns 100 hoje–, cruzou o Atlântico em uns barquinhos, colocou a bandeira tricolor, desembarcou na Venezuela e lançou o projeto, e faz 200 anos segue sendo o líder da primeira república com o grau de Generalíssimo. Miranda, daí vem o projeto histórico, e logo vem Bolívar, o toma e o encarna (e Simón Rodríguez e muitos outros lutadores e pensadores venezuelanos), um projeto de libertação, uma revolução política, social, econômica, cultural –uma revolução tem de ser integral. Rodríguez dizia: “Simón, os americanos mais meridionais devem fazer uma revolução política e devem começar pela revolução social, cultural, econômica”. E dizia mais: “comecem pelos campos”. Enfim, uma revolução integral, são as bases históricas fundamentais. Esta revolução começou há 200 anos, só que havia desaparecido no caminho e rebrotou do fundo da terra.
Fasano: Você definiu o marechal Antonio José de Sucre como um socialista. Um homem honesto que não gostava do exercício do poder, e, bom, terminou assassinado. Continua pensando o mesmo sobre Sucre já que estás falando do profundo da história?
Chávez: Bom, o socialismo, você sabe que tem distintas facetas. Do meu ponto de vista, Cristo foi socialista. Você lembra daquela frase: “É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Cristo e o profeta Isaías que dizia: “Pobre daquele que se dedique a acumular terra, terra e terra e tire terra dos demais, porque lhes darei com o látigo da Justiça”. Cristo no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres, porque deles será o reino dos céus”. A igualdade. Cristo diz que o único caminho para a paz é a igualdade. Isto é socialismo, mas, bem, numa época em que não se utilizava o termo.
Fasano: Você concorda com o presidente Rafael Correa, que quando o entrevistei me falou entusiasmado do socialismo cristão.
Chávez: O socialismo cristão. O socialismo inca, para não ir tão longe, às ruas de Nazaré e da Galiléia. Há um conjunto de estudos fundamentados que falam da existência do socialismo indo-americano, que você sabe que aportou muito a respeito. Tudo isso são nutrientes. Sucre, quando é eleito presidente da Bolívia, começa a entrar em choque com a oligarquia. Ele vai embora. Simón Bolívar fica, e começam as conspirações, lhe dão um golpe de Estado, quase o matam, lhe deram um tiro num braço. Então, Sucre é socialismo. Quando a América foi batalhar por sua emancipação, entendeu que o fazia também pela justiça, pela igualdade, ambas são irmãs inseparáveis. Liberdade e igualdade. Então esses são os nutrientes. As bases de nosso projeto socialista do século 21. Mas vem de longe. Igualdade, liberdade, paz, justiça social, uma revolução integral.
Fasano: Parodiando o manifesto de 48, podemos dizer que hoje um fantasma percorre o mundo. O fantasma da democracia participativa, que o projeto da revolucão bolivariana está propondo. O fantasma que percorria a europa feudal era a democracia formal. A de hoje, a participativa. Como vocês pensam em concretizar o socialismo do século 21, o difícil trajeto que vai da democracia formal surgida na revolução francesa até a democracia participativa que o socialismo real soviético não pôde concretizar? Qual é a rota crítica desse trajeto?
Chávez: O poder. A rota crítica é o poder. A democracia, o poder do povo. Agora, a democracia meramente participativa é antinômica, não tem solução dentro de si mesma, porque termina sendo uma maneira de expropriar o poder ao dono do poder, e este termina concentrado. O poder político, o poder midiático, econômico, econômico cultural, etc. A hegemonia na elite: essa é a democracia que pregam os EUA, que tanto defendem o chamado pós-modernismo, porque termina tirando o poder, eliminando do povo todo vestígio de poder. Deixa-o impotente.
Fasano: Essa velha democracia não compartilha o poder.
Chávez: Não, o hegemoniza para seu próprio fim. Entende o poder como o poder em si, o poder como o fim último. Agora, veja, na Venezuela nossa Constituição o permite, do princípio ao fim. Permita-me ler só um artigo, o artigo 2, dos princípios fundamentais. A Venezuela se constitui em um Estado democrático e social de Direito e Justiça –não só de Direito. É a teoria fundamental–, de Direito e de Justiça que propugna como valores superiores de sua ordem jurídica e de sua atuação a vida, a liberdade, a justiça, a igualdade, a solidariedade, a democracia, os direitos humanos. A proposta socialista. Você me perguntava o caminho crítico. O poder, é a concepção de poder, uma nova concepção do poder e uma nova forma de criar poder e distribuir o poder. E é por isso que as elites se opõem com tanta fúria a um projeto como o nosso, que está distribuindo o poder, mas sob um novo conceito. É o que diz um bom argentino, filósofo que, recentemente, ganhou o Prêmio Pensador Libertador, Enrique Dussel: o poder obediência. Eu sou presidente, mas não para mandar. Mando obedecendo. Eis o caminho crítico.
Fasano: Tuas palavras me recordam Federico II, que disse: “Só sei mandar obedecendo”. E foi dos governantes mais democráticos que essa monarquia teve. Creio que você fala do poder, mas eu te vejo mais como o anti-poder. Você desmitificou o poder e o aproximou das pessoas. O compartilhou, conectou o cidadão com o poder. Porque o poder antes era para uma elite, para 10% das pessoas. Tenho a impressão que hoje este processo bolivariano está mudando a concepção mais tradicional, inclusive marxista do poder. Você acaba de dizer que a chave está no poder ao povo. O poder passa a ser compartilhado. Por isso falo em anti-poder. Não acha que pode ser pensado sob este ângulo?
Chávez: O poder é aproximar o povo do poder. Estava lembrando de uma canção. Lembra daquel cantor norte-americano que cantava “Quando o poder do amor for superior ou se impuser ao amor ao poder haverá vida, haverá paz”? Então se trata de outra concepção do poder e, neste sentido, você tem razão, eu me situo no campo do anti-poder. Porque é um poder contra outro poder, o poder clássico, despótico, para dominar. O poder para apropriar-se. O poder para a dominação. Este poder que representamos é exatamente o contrário, e você também o representa e Pepe (Mujica) também. Nós formamos parte de um poder de libertação, sob uma nova concepção do poder. Creio que não se trata de aproximar o povo do poder. Porque imagine um menino de quem você aproximasse um sorvete. Ele quer o sorvete, não estar próximo a ele. Tem que dar, transferir, poder ao povo. Muita gente dirá: o que é o poder? Bom, o poder é poder viver. Quer dizer, muita gente diz a frase “querer é poder”. Não necessariamente, o povo quer viver, viver plenamente, o povo terá poder quando possa –parece redundante, mas é necessário–, dispor dos recursos e meios necessários para continuar vivendo, para viver plenamente. Para satisfazer suas necessidades. Raúl Sendic falava muito bem das necessidades, das leis da sobrevivência, alimentos, medicamentos, as necessidades de subsistência, as da vida e as suntuárias (de luxo, suntuosas). Não me refiro às suntuárias, que são inesgotáveis, que são até destrutivas. Me refiro às necessidades da vida, de um ser humano, de um coletivo. Isso é, no fim, aonde chega toda a filosofia e todo o conceito de poder.
Fasano: Acha que o povo venezuelano está preparado para o socialismo à venezuelana?
Chávez: É um processo. Compare as épocas. Bom, Federico, inclusive –não faça isso nunca, te sugiro– se você fosse revisar os discursos do velho Chávez, desde que me tornei conhecido, no dia que me rendi…
Fasano: Desde que tinhas 38 anos…
Chávez: Sim, desde o golpe. E, depois, em todos estes anos até o dia em que cheguei à presidência e ainda uns aninhos mais, jamais propus o socialismo. Sempre manifestei respeito à teoria, mas lembre-se de onde vínhamos. A queda soviética, a bandeira do socialismo foi arriada em quase todo o mundo. Mas, na dialética e no caminho, eu pessoalmente e muitos de nós fomos nos convencendo que é falso aquilo de uma terceira via entre o capitalismo e socialismo. Socialismo ou barbárie, como dizia Rosa de Luxemburgo. E então veio o golpe de Estado, em 2002, toda a agressão dos EUA e seus aliados. A partir daí todos nós começamos a levantar a nova bandeira e lançamos a bandeira socialista. Nestes anos, se você perguntasse na Venezuela à população, em uma pesquisa séria, não chegavam aos 5% as pessoas que apoiavam o socialismo. E a maior parte eram esses velhos militantes, irredutíveis. A maioria de 80 anos para cima, talvez. Hoje em dia, as pesquisas indicam que cerca da metade da população ou mais opinam a favor do socialismo em diferentes intensidades. Mas o mais importante é que nas pesquisas o capitalismo abertamente não chega a 10%. É um caminho.
Fasano: Agora, é gradual. O fundamentalismo do mercado é um osso muito duro de roer. Eu vejo que as duas grandes linhas da revolução bolivariana passam pela democracia participativa de um lado e a substituição gradual do fundamentalismo de mercado, por outro. Mas é um osso duro de roer. Como pensam em substituí-lo? Acaso se inspiram na economia das equivalências, como uma forma de ir avançando até a substituição paulatina da economia de mercado? Há algum plano sobre isso? O que está pensando e fazendo a revolução bolivariana no tema crucial da onipotência do mercado?
Chávez: Eu te diria que há um plano grande e um conjunto grande de planos pequenos, médios, e vamos avançando com muitas dificuldades. Não é fácil. Mas há uma orientação estratégica e um caminho que estamos andando. Me explico. Fundamentalismo de mercado, neoliberalismo: nós começamos a combatê-lo desde o primeiro dia e estamos aprofundando a intensidade e o ritmo. Trata-se de criar –e é uma das grandes linhas gerais do projeto bolivariano, histórico– uma economia diversificada, uma democracia econômica e isso só é possível com um modelo socialista. Estamos inventando novas formas de economia popular. Você lembra aquela outra frase de que o socialismo não pode ser decalcado nem copiado, que deve ser uma invenção heróica? Simón Rodríguez outra vez. “Inventamos ou erramos”. Somos obrigados a inventar. Estamos investindo muito, por exemplo, na criação de cadeias produtivas para toda a economia. É vital. As cadeias produtivas, desde o setor primário, passando pelo setor secundário de processamento, armazenamento, produtos finais, até a distribuição. Quando eu não era presidente, e o povo não tinha o poder popular, não havia nem um mercadinho para vender arroz, pão, nada. Hoje, ao final deste ano, estamos chegando a mais de 50% de incidência das cadeias produtivas. Todo o alimento que se subministra na Venezuela vem por meio da propriedade social. Quer dizer, não passa pelas mãos especulativas e especuladoras das cadeias capitalistas que compram um quilo de milho a 1 bolívar, lá no produtor primário, e vem vendê-lo, processado em qualquer cidade da Venezuela, a 100 bolívares, inflacionando tudo. Incluindo a mais-valia, mas ademais da especulação capitalista, está a avareza capitalista. Então é preciso criar o modelo, e estamos criando-o, repito, desde o setor primário, até o setor do comércio, o setor terciário.
Fasano: Que empresas estratégicas seria necessário nacionalizar no futuro, para ir avançando rumo ao Socialismo do século 21? Já foram nacionalizadas algumas essenciais, mas vocês têm previsto outro tipo de nacionalizações?
Chávez: Nós temos um esquema de nacionalizações. O que fizemos primeiro foi frear o processo de privatizações de empresas estratégicas, como o petróleo da Venezuela. Recuperamos plenamente a soberania petrolífera e isso nos permite agora implementá-la em função do projeto histórico. As grandes empresas básicas do Estado –siderúrgica, petroquímica, alumínio– também tinham sido privatizadas, e as recuperamos. E agora estamos aplicando algo muito novo na Venezuela, muito da teoria socialista: o controle operário. Bom, com muitas dificuldades, às vezes estrondosas, mas vai avançando o controle que possui a classe operária organizada. Não aqueles velhos sindicatos pelegos, como vocês chamavam ou chamam ainda, mas o poder operário, conselhos de trabalhadores, e também os sindicatos. A recuperação da terra é fundamental. Nacionalizamos, recuperamos ou expropriamos quase 4 milhões de hectares nestes anos e vamos continuar. Dentro de uns dias vamos fazer um evento de recuperação de cerca de 300 mil hectares que tinha uma companhia inglesa, explorando a terra, explorando os trabalhadores, enriquecendo e levando embora os lucros. Nacionalizamos a telefonia, por exemplo, o banco da Venezuela, o banco patrimonial que haviam privatizado. Nós também nos dedicamos a criar espaços de propriedade social, para ir convivendo e até nos aliando com alguns setores da empresa privada. Não negamos isso. Dizemos que a empresa privada, o setor privado da economia, pode perfeitamente seguir existindo e estamos dispostos inclusive a apoiá-lo, como fizemos, sempre e quando seja no marco do projeto desta Constituição e do interesse social que aqui está planteado como estado de Direito.
Fasano: Uma revolução se mede pela forma em que se cria e distribui a riqueza. Vi algumas cifras que me assombram, me diga se estão corretas. A pobreza extrema estava em 20% quando você entrou…
Chávez: Um pouquinho mais… 25%. Agora está a menos da metade disso, está em 7%.
Fasano: 7%? Eu pensava que tinha baixado a 9%. A pobreza geral estava em 50%.
Chávez: E até mais. Chegou a 60%, por aí, ao final dos anos 1990. E agora está em 33%.
Fasano: Há um assunto que se discute muito porque é essencial para o Uruguai. O abismo entre riqueza e pobreza que o modelo progressista no Chile não conseguiu diminuir e que nosso modelo uruguaio tampouco pôde. Observe que aqui diminuiu a pobreza e a indigência em níveis surpreendentes, ainda que não tanto como em seu país, mas não conseguimos reduzir a brecha entre a pobreza e a riqueza. E vejo as cifras venezuelans, e bom, me parece, não podem estar corretas. A desigualdade estava em 28% e caiu a 18%, 17%.
Chávez: Sim, estão certas. A América Latina é o continente mais desigual, em todas as medições mundiais.
Fasano: Mais que a África.
Chávez: Exatamente. Agora a Venezuela é o país, e isso é reconhecido pela ONU, pela Cepal, que mais avançou nesta década na redução da desigualdade e estamos à frente na América Latina, com o menor índice de desigualdade. Isso tem uma razão: é, outra vez, o poder. Os recursos. Preste atenção. Nos últimos 20 anos, no que nós chamamos de Quarta República, os governos anteriores, o investimento social na educação, na saúde, chegava a apenas 30% dos recursos, nós o elevamos a mais de 60%. Duplicamos o investimento social na educação, na saúde, o desemprego era de quase 20% e agora é 7%, 8%. O salário mínimo na Venezuela era uma miséria, hoje é o mais alto da América Latina (equivalente a U$697,09). E não nos cansamos, além disso, de inventar mecanismos de redistribuição. Por exemplo, agora mesmo nos caiu o inverno. Primeiro uma seca terrível, depois um inverno atroz. E neste momento nós temos mais de 120 mil pessoas abrigadas em quartéis, em instituições do Estado, em acampamentos, mas dignos, inclusive no Palácio do Governo. E inventamos uma lei –nós inventamos leis para obrigar a nós mesmos– que diz que, enquanto essas famílias estiverem abrigadas, vão receber um bônus quase equivalente ao salário mínimo. A Previdência Social: na Venezuela havia 300 mil pensionistas. Hoje temos 5 vezes mais e andamos em busca de anciãos para completar as cotas dos que não podem pagar e que portanto não estavam registrados na Previdência Social, que estava sendo privatizada quando chegamos. Inventamos outra lei e já temos mais de 20 mil pescadores, velhos pescadores, velhos camponeses, na Previdência Social e agora estamos fazendo uma lei popular e eu vou aprová-la logo, para que os senhores que cuidam edifícios, os porteiros, que tampouco têm Previdência Social. Não nos cansamos de buscar maneiras de distribuir até onde nos alcance, buscando sempre os equilíbrios macro-econômicos.
Fasano: Essa riqueza já existia antes também e no entanto…
Chávez: Uuuuu…! O governo da Venezuela foi o primeiro exportador de petróleo cru no mundo, de 1925 até 1970. Uma coisa horrível.
Fasano: Deve ter havido expropriação fraudulenta dos direitos do povo venezuelano! Sobre o aumento do poder aquisitivo me deram 400% de aumento. São as últimas cifras que disponho, é isso mesmo?
Chávez: É provável. Tem que considerar a inflação que segue sendo alta na Venezuela…
Fasano: Mas não tão alta como nos governos de 1984 até 1999, quando você assumiu.
Chávez: Não. Nos anos 1990, a inflação era de 100%. Nós temos uma média de 20% ou 21% em todo este período. Mas certamente o poder aquisitivo na Venezuela subiu e não só do ponto de vista clássico do cálculo dos rendimentos. Porque eu sempre digo que há que se levar em conta tudo. Digo a meus companheiros, aos amigos do Banco Central, que calculam tudo e são técnicos. Nós criamos esta rede de alimentos que chega à metade da população. Vamos importar, com certeza, alimentos da Argentina, estamos aumentando a produção. Mas te digo uma coisa: nesta rede que se chama Mercal, se vende desde carne… sobretudo a cesta básica. Nessa rede que atende hoje 14 milhões de venezuelanos num total de 26 milhões de habitantes, a inflação é zero: enquanto o mercado de fora aumenta os preços, na nossa rede estão congelados há anos, e os medicamentos são gratuitos. Nós criamos mais de 6 mil centros médicos, desde pequenos consultórios até grandes hospitais, onde as pessoas vão e não lhes é cobrado absolutamente nada. Operações de coração, tomógrafos, graças à revolução cubana e a esse gênio da raça humana que se chama Fidel Castro, então isso contribui. Enquanto uma família tinha que pagar pelas escolas, agora estamos dando às crianças de primária um computador para cada criança, gratuitamente. Eu dou o exemplo do soldado. Não se dá a ele um fuzil de presente, é para defender a pátria. Nós o equipamos. O fuzil de uma criança é o computador. São uns computadores feitos em Portugal, e agora estamos fazendo-os na Venezuela.
Fasano: É verdade que subsidiam mais de 40% dos produtos básicos em relação ao preço de mercado?
Chávez: Sim, mais de 40% e não só de produtos básicos. Ontem firmamos com a presidenta da Argentina a importação de automóveis feitos lá. Mas os compramos nós diretamente, entes do Estado, e os distribuimos diretamente aos profissionais, ao povo. Veículos familiares, de classe média, classe popular, que pode consumir. Você compra um veículo Volkswagen montado na Argentina que chega à Venezuela por outras vias que é vendido no mercado capitalista e nós o vendemos pela metade do preço. Também outros veículos iranianos que estamos montando na Venezuela com apoio do Irã. Um similar no mercado é vendido lá pela metade do preço. Computadores, telefones celulares. Você sabe a quanto vendemos celulares do tipo Blackberry? 3 dólares. Estamos montando-os agora.
Fasano: Nós podemos importá-los a esse preço, 3 dólares?
Chávez: Sim, claro, e também fertilizantes a um terço do que vendem no mercado especulativo.
Fasano:Vocês investem em educação mais de 5% do PIB, é isso?
Chávez: Mais. Antes, os governos investiam cerca de 2 ou 3%, se chegava a isso. Agora estamos nos aproximando aos 10% porque há muitas formas de investir. Nós temos agora a Educação Inicial, que antes não existia, era para uma minoria. As chamadas crianças em idade de pré-escola. Criamos um sistema que chamamos de “Simoncito”, em homenagem a Bolívar e a Rodríguez. A educação primária toda, a secundária e a universitária. Triplicamos a matrícula universitária. Você vai agora pela Venezuela em qualquer bairro e encontra homens e mulheres de 60 e 80 anos estudando. E de quarenta e de 50, nossa idade, seguindo os estudos secundários que não puderam por causa da pobreza. Ou terminando os universitários. Nós estamos no 5º lugar mundial em matrícula universitária, segundos no continente depois de Cuba. Sem contar as conexões educativas que formaram um sistema complementar ao sistema oficial clássico. Por exemplo: as conexões educativas de alfabetização, de educação para o trabalho, a cultura, as redes de cultura. Enfim, devemos estar muito próximos dos 10% do PIB neste esforço. E, bom, é Bolívar. É a base do projeto histórico. Bolívar dizia: “A educação, a educação, a educação: as Nações marcharão até sua grandeza no mesmo passo com que caminhe sua educação”.
Fasano: Nos preocupa aqui o tema da burocratização. Quais são suas estratégias para evitar a burocratização e a corrupção no aparato do estado?
Chávez: Esse é um tema que é preciso resolver. É um veneno que corrói por dentro, é imanente, forma parte do estado burguês. Sobre o que se fundamentou o estado burguês? A corrupção política. Quando o poder se assume como um fim em si e para si, se acaba a política e daí derivam todas as demais corrupções, para meus amigos e para meu partido. Mandar roubando é mandar dominando. Agora, se você manda ou governa obedecendo ao dono do poder, que é o povo, para a satisfação de suas necessidades, então irão diminuindo os níveis de corrupção política, econômica, ética, moral, que no fundo são a mesma coisa: a perda dos valores da política. É uma luta cultural de todos os dias. A burocracia é parte do que dizia Karl Marx: “Nada nasce do nada”. O estado novo, a sociedade nova, ele dizia, nasce contaminada pela velha. É a luta entre o novo e o velho e o velho sempre quer corromper o novo, é uma batalha corpo a corpo. Tem que se fundamentar. Eu dizia na Argentina, saindo de uma reunião socialista onde falei muito disso. A pessoa tem que ir como um soldado à batalha, com uma bússola. Saber direito aonde vai e qual é o caminho. E tem que ter sobretudo algo muito claro, um princípio tão sólido ou mais sólido que o aço: a lealdade a uma luta pelo povo, a lealdade a um povo. Quem não tenha isso bem sólido pode ir se corrompendo e se corrompe pelo caminho, e se converte em um burocrata, insensato, insensível e em um contra-revolucionário. Estejam muito atentos, todos os dias, em todas as partes.
Fasano: A informação, eu vejo assim, é o lado mais fraco da democracia venezuelana. Os meios na Venezuela não são representativos das distintas forças sociais que compõem a nação. Vocês vivem a apropriação fraudulenta, de caráter privado, de um bem comum à sociedade, a qual é excluída dos direitos cidadãos. Este simpático discurso liberal confundiu deliberadamente a liberdade de expressão da sociedade com a liberdade de possuir meios de comunicação. E quem te fala é um dono de meios de comunicação, portanto legitimado para dizer essas coisas. E esse discurso liberal também confundiu a liberdade de difusão das ideias com a liberdade de difusão do meio, assim como a liberdade de informação com a liberdade do informador. Qual é a estratégia de vocês ante a injusta situação da Venezuela? A questão midiática, a disputa dos meios.
Chávez: Eu sei que você conhece esse assunto. Creio que é um dos problemas mais graves que existem hoje, não só na Venezuela e em nossa revolução bolivariana, senão no mundo. Olhe o que está passando na Líbia. Há uma guerra civil, e o poder ianque e seus aliados europeus, com todas as redes que detêm a comunicação, foram preparando o terreno, para, como disse Fidel Castro desde o primeiro dia, a inevitável guerra da OTAN contra a Líbia, pelo petróleo da Líbia. Então agora querem convencer o mundo que, para salvar a Líbia, é preciso bombardeá-la. Nós nos deparamos com essa problemática desde o primeiro dia. Primeiro, você sabe, houve uma lua-de-mel, me rodeavam, mas quando se deram conta de que eu ia firme por uma direção, veio a guerra midiática e montaram um golpe abertamente pelas televisões privadas, os grandes jornais da burguesia. Hoje seguimos na batalha, mas a situação ou a correlação de forças vem mudando. Já não há uma plena hegemonia como havia. Temos a TeleSur, uma grande conquista. Temos na Venezuela, nasceram como uma explosão ruidosa, os meios de comunicação alternativos, que eram perseguidos, chamados ilegais. Agora tem uma lei e o Estado os apoia com recursos técnicos, financeiros. Milhares de emissoras comunitárias, de pequeno alcance, médio alcance, jornais comunitários, televisões comunitárias. Temos ainda o canal do Estado que estava no chão, do ponto de vista tecnológico, moral, e agora é um dos principais canais do país. Recuperamos este canal. O espaço eletromagnético é de propriedade social, é bom que saibam as pessoas. Só que se concede a uma empresa para que o explore. Bom, terminou a concessão de uma empresa que fez bastante dano ao país, e logo o Estado a recuperou e agora se converteu na principal televisão venezuelana social, a que tem maior cobertura no país. Enfim, estamos enfrentando como tem que ser feito, com liberdade e com uma tolerância infinita. Sobre mim disseram cada coisa na televisão, cada insulto, cada injúria que não seria permitida num Estado de Direito. Me acusam de ser um tirano, mas imagine que às vezes vão pensadores da direita mundial serem entrevistados pela televisão e diante das câmeras dizem: estamos na Venezuela, aqui não se pode falar, isto é uma tirania sangrenta. Dizem isso na televisão, ao vivo, no centro de Caracas! É melhor rir.
Fasano: Um calcanhar de Aquiles da Revolucão bolivariana parecem ser os sindicatos de trabalhadores tradicionais, corrompidos, os estudantes manipulados e a deserção dos intelectuais. Como pensa reverter esta situação? Porque o clássico era que operários e estudantes estivessem participando. E alguns setores intelectuais, que servem melhor aos mandarins do que ao povo que deveriam servir, também se afastaram do projeto histórico. Ou isso está mudando?
Chávez: Sempre existe o interesse, também midiático, de que as pessoas acreditem exatamente nisso, que a juventude venezuelana, que os estudantes, são contra a revolução, que os sindicatos são contra. Não é bem assim. Os velhos sindicatos, claro. Mas apesar de todo o poder da burguesia nos anos precedentes, todo esse chamado a greves gerais, a sabotar o país por greves, fracassou. Existe também uma confederação de trabalhadores totalmente livre, crítica com o governo, mas que apoia a revolucão e critica o que tem de criticar.
Fasano: Independência de classe e….
Chávez: Claro… E com consciência operária. E isso vem evoluindo, o mesmo acontece com o setor estudantil e a juventude. Há uma parte da elite burguesa que muitas vezes inventa coisas para chamar a atenção. A CNN lhes dá destaque. No entanto, os meninos dos bairros, que são milhões, que estão estudando, que estão com a revolução, configuram o perfil de uma juventude revolucionária. A cada dia você vai ver com maior claridade na paisagem os trabalhadores, os estudantes, as mulheres organizadas, que força têm essas mulheres! Os povos indígenas, movimentos sociais. Te juro, Federico, que sou o primeiro adversário de que o partido tome conta disso. Não, eles devem ser livres. Tem que nos interpelar, nos dar broncas, nos falar cara a cara. Gente sem moradia, sem casa, mas organizados e organizando-se. Organizai-vos, dizia Cristo, crescei e multiplicai-vos. Marx: trabalhadores do mundo, uni-vos.
Fasano: Já levamos quase uma hora e seus assessores olham para o relógio, mas quero perguntar pela questão militar. Revolução pacífica, porém armada. Allende nos mostrou que podemos ser os pacíficos que queiramos, mas se o projeto popular não se defende tudo está perdido. Você concorda com o grande revolucionário alemão Wilhelm Liebknecht, que dizia que a revolução social não se faz contra o exército nem sem o exército, mas com o exército? Qual é a política militar da revolução bolivariana?
Chávez: Concordo que a revolução social deve saber defender-se e a história o comprovou. Eu e Fidel nos telefonamos, nos escrevemos, eu o visito sempre que posso, é como o grande pai. Estávamos comemorando 19 anos de nossa rebelião. Saímos de 20 quartéis. A juventude militar nas ruas. Era um movimento como quixotesco. E Fidel me dizia: “Chávez, vejo que aquilo foi como Moncada (assalto ao Quartel de Moncada por Fidel em 1953), mas ao contrário, multiplicado por 100. Isto é, eles se foram e um grupo de jovens quixotes tomou o quartel. Você tomou o quartel, mas por dentro. E saíram dos quartéis.” Ele, observador e sábio. Então certamente não se pode fazer uma revolução profunda e plena sem um exército. Fidel teve que criar um exército novo, algumas pessoas de (Fulgencio)Batista se integraram. Mas foi o exército, o exército rebelde, o campesino, o de Che Guevara, todos aqueles. Eles foram e criaram um exército. No caso venezuelano, por distintas circunstâncias da vida, nós estávamos no exército. Eles não aspiravam a ser soldados, eu queria ser militante. Queria ser desportista de beisebol e vim a Caracas faz 40 anos para prestar os exames de admissão para a Escola Militar. E consegui entrar. Sou um camponês. E, bem, no caminho, me fiz revolucionário. (O jornalista) Ignacio Ramonet fez uma entrevista comigo muito longa e falou: ”Dizem por aí que quando você entrou na Escola Militar em 1971 já entrou com o livro de Che Guevara debaixo do braço”. E eu lhe disse que não foi assim. Entrei com um bastão de beisebol e uma bola debaixo do braço. Tinha 16 anos. Mas o que você pode escrever é que quando saí, quatro anos depois, saí com o livro do Che sob o braço. Eu me fiz revolucionário nas fileiras militares. Comecei a me identificar com o exército de Bolívar, de Artigas, e com a história desse Bolívar soldado que disse: “Maldito o soldado que volte as armas contra seu povo”. Esse Bolívar que disse: “Sigo a gloriosa carreira das armas só para lograr a honra que elas dão de libertar a minha pátria e merecer a bendição do povo”. Esse Bolívar em Santa Marta, solitário, expulso e moribundo que disse em seu último discurso: “Os militares deverão desembainhar sua espada, mas sempre para defender as garantias socais”. Esse Bolívar se transformou em nosso líder. Nos anos 1970 quase fui para a guerrilha porque, recém-graduado, me mandaram, no ano de 1975, a um batalhão antiguerrilheiro. Rodríguez, hoje meu ministro da Energia, estava ainda na guerrilha e havia uns grupos guerrilheiros na Venezuela. Me mandam para lá e eu entro em contradição e quase vou embora com eles. Afortunadamente não ingressei porque por aí não havia caminho, mas me convenci, em contato com alguns velhos guerrilheiros, com meu amigo Adán, meu irmão mais velho, e revolucionários da universidade. Me dei conta que tinha de começar a criar células bolivarianas dentro do Exército. E passamos nisso quase 20 anos, até a rebelião de 4 de fevereiro (de 1992, contra Carlos Andrés Perez). Hoje, as forças militares venezuelanas são umas forças que se definem com orgulho como anti-imperialistas, revolucionárias, socialistas. Sem eles seria impossível avançar. Veja o que ocorreu no dia 11 de abril (de 2002, quando tentaram um golpe contra Chávez). O império fracassou, a burguesia venezuelana fracassou. Me sequestram. Me tiram o poder de mando. Desestabilizam meu país. Lembra de José Vicente Rangel, que era meu ministro da Defesa? Estamos os dois sozinhos, 3 da manhã. Que fazemos? Ao amanhecer, o golpe em plena marcha. E de repente digo a José Vicente: vou para lá. “Como você vai?” Vou me entregar aos golpistas, aos generais golpistas –eu os conhecia a quase todos. Vou ver se a vida valeu a pena. Se eu morro hoje ou me expulsam do país e isso se acaba, perdi a minha vida. Mas vou ver se ter investido 30 anos da minha vida no exército valeu a pena. Fui. O que querem? Eram cerca de 100 golpistas. E detrás deles os ianques e a burguesia. O golpe desmoronou. Os capitães ficaram a meu lado, os soldados me liberaram e se uniram ao povo. Mandaram dizer ao povo, que começou a rodear os quartéis. Não houve um só soldado venezuelano que disparasse contra o povo. Ficaram com o povo e os golpistas se foram. Ou seja, é possível. Allende tentou, mas olhe como terminou Allende, um presidente mártir. Ele, que era médico. Nós vimos no vídeo, ele foi seu próprio soldado com aquele capacete e uma metralhadora velha que lhe deu Fidel. Ficou sem soldados, foi seu próprio soldado. Nós não, nós temos soldados. É uma revolução pacífica e continuará sendo pacífica.
Fasano: Hugo, todo mundo se preocupa com a sua segurança. Os filósofos do século 18 acreditavam que era o gênio individual que mudava a história, não? Mais que a subjetividade das massas insatisfeitas… Há uma espécie de lenda que diz que Chávez é a revolução bolivariana. O que acontece se Chávez não está mais? O que acontece se desaparece o condutor? Vocês trabalharam para deixar estruturas sólidas, firmes, que suportem a ausência do caudilho?
Chávez: Entendo o que você diz. Agora, triste da revolução que depende de um só homem. Na realidade, não é uma revolução, é demasiado frágil para pretender ser uma revolução. Na Venezuela é uma situação sui generis. Eu não me creio imprescindível. Não existem imprescindíveis. Um dia quase me afoguei em um rio, e me salvou um cadete. Se ele não viesse e me agarrasse, o mais provável é que eu me afogasse aos 18 anos. E se eu tivesse me afogado, a revolução bolivariana teria surgido da mesma maneira. Agora, o homem, o indivíduo dá seu toque, seu ritmo, seu toque de líder, seus toques pessoais, a uns processos que não dependem de um homem, porque são processos de um processo. Há vários anos, quando Fidel quase morreu, fui vê-lo. Quase não podia falar, estava muito grave, perdera muito sangue. E os médicos me disseram: Chávez, por favor, um minuto. Mas ele queria me ver. Recordo sua mão, me agarrou muito forte e disse: “Chávez, estou pronto para morrer se tenho que morrer, mas você não pode morrer”. Isso ele me dizia na época. Avançamos neste tema, estamos fazendo um esforço muito grande para promover o poder popular, organizações populares, o partido socialista unido. Aliado com outros partidos e os movimentos sociais, um projeto muito mais entendido pelas pessoas. Uma juventude participativa protagonista. Essa é a garantia de uma revolução, jamais será um ser humano, por mais gênio que possa ser.
Fasano: Quando chegar o último minuto da tua vida… Esperamos que demore muito, mas como gostaria que o recordassem?
Chávez: Pelo que fui sempre até chegar o momento último da minha vida. Eu sou dos que dizem, como o poeta, “confesso que vivi”. Se me recordassem pelo que fui… Sobretudo que me recordem como um soldado. Se alguém disser: “Chávez foi um soldado”, é o suficiente.
Fasano: Uma última. Marx dizia que a humanidade só se coloca tarefas que está em condições de resolver. As tuas parecem ser enormes, com a magnitude e a utopia que te guia. Você crê que poderá com elas? Não acha que, lembrando Simón Bolívar, está arando no mar?
Chávez: Não. Temos que ir sempre assumindo o desafio e a carga do tempo histórico e isso se pode concretizar com aquela máxima de Marx: “É necessário, é imprescindível ascender do abstrato ao concreto”. Uma revolução tem que ser científica ou não é. Quer dizer, tem que se fundamentar no estudo profundo das condições e deve, a partir desse estudo ou diagnóstico, estabelecer seus limites da maneira mais acertada possível. Se caímos nos terrenos da utopia estaremos condenados a repetir Bolívar: “aramos o mar”. Nós cremos, e eu cada dia mais, que na Venezuela estamos arando em terra fértil. Porque há com o que arar. Há povo, há força, há amor, há paixão, há condições.
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Fasano: Você concorda com o presidente Rafael Correa, que quando o entrevistei me falou entusiasmado do socialismo cristão.
Chávez: O socialismo cristão. O socialismo inca, para não ir tão longe, às ruas de Nazaré e da Galiléia. Há um conjunto de estudos fundamentados que falam da existência do socialismo indo-americano, que você sabe que aportou muito a respeito. Tudo isso são nutrientes. Sucre, quando é eleito presidente da Bolívia, começa a entrar em choque com a oligarquia. Ele vai embora. Simón Bolívar fica, e começam as conspirações, lhe dão um golpe de Estado, quase o matam, lhe deram um tiro num braço. Então, Sucre é socialismo. Quando a América foi batalhar por sua emancipação, entendeu que o fazia também pela justiça, pela igualdade, ambas são irmãs inseparáveis. Liberdade e igualdade. Então esses são os nutrientes. As bases de nosso projeto socialista do século 21. Mas vem de longe. Igualdade, liberdade, paz, justiça social, uma revolução integral.
Fasano: Parodiando o manifesto de 48, podemos dizer que hoje um fantasma percorre o mundo. O fantasma da democracia participativa, que o projeto da revolucão bolivariana está propondo. O fantasma que percorria a europa feudal era a democracia formal. A de hoje, a participativa. Como vocês pensam em concretizar o socialismo do século 21, o difícil trajeto que vai da democracia formal surgida na revolução francesa até a democracia participativa que o socialismo real soviético não pôde concretizar? Qual é a rota crítica desse trajeto?
Chávez: O poder. A rota crítica é o poder. A democracia, o poder do povo. Agora, a democracia meramente participativa é antinômica, não tem solução dentro de si mesma, porque termina sendo uma maneira de expropriar o poder ao dono do poder, e este termina concentrado. O poder político, o poder midiático, econômico, econômico cultural, etc. A hegemonia na elite: essa é a democracia que pregam os EUA, que tanto defendem o chamado pós-modernismo, porque termina tirando o poder, eliminando do povo todo vestígio de poder. Deixa-o impotente.
Fasano: Essa velha democracia não compartilha o poder.
Chávez: Não, o hegemoniza para seu próprio fim. Entende o poder como o poder em si, o poder como o fim último. Agora, veja, na Venezuela nossa Constituição o permite, do princípio ao fim. Permita-me ler só um artigo, o artigo 2, dos princípios fundamentais. A Venezuela se constitui em um Estado democrático e social de Direito e Justiça –não só de Direito. É a teoria fundamental–, de Direito e de Justiça que propugna como valores superiores de sua ordem jurídica e de sua atuação a vida, a liberdade, a justiça, a igualdade, a solidariedade, a democracia, os direitos humanos. A proposta socialista. Você me perguntava o caminho crítico. O poder, é a concepção de poder, uma nova concepção do poder e uma nova forma de criar poder e distribuir o poder. E é por isso que as elites se opõem com tanta fúria a um projeto como o nosso, que está distribuindo o poder, mas sob um novo conceito. É o que diz um bom argentino, filósofo que, recentemente, ganhou o Prêmio Pensador Libertador, Enrique Dussel: o poder obediência. Eu sou presidente, mas não para mandar. Mando obedecendo. Eis o caminho crítico.
Fasano: Tuas palavras me recordam Federico II, que disse: “Só sei mandar obedecendo”. E foi dos governantes mais democráticos que essa monarquia teve. Creio que você fala do poder, mas eu te vejo mais como o anti-poder. Você desmitificou o poder e o aproximou das pessoas. O compartilhou, conectou o cidadão com o poder. Porque o poder antes era para uma elite, para 10% das pessoas. Tenho a impressão que hoje este processo bolivariano está mudando a concepção mais tradicional, inclusive marxista do poder. Você acaba de dizer que a chave está no poder ao povo. O poder passa a ser compartilhado. Por isso falo em anti-poder. Não acha que pode ser pensado sob este ângulo?
Chávez: O poder é aproximar o povo do poder. Estava lembrando de uma canção. Lembra daquel cantor norte-americano que cantava “Quando o poder do amor for superior ou se impuser ao amor ao poder haverá vida, haverá paz”? Então se trata de outra concepção do poder e, neste sentido, você tem razão, eu me situo no campo do anti-poder. Porque é um poder contra outro poder, o poder clássico, despótico, para dominar. O poder para apropriar-se. O poder para a dominação. Este poder que representamos é exatamente o contrário, e você também o representa e Pepe (Mujica) também. Nós formamos parte de um poder de libertação, sob uma nova concepção do poder. Creio que não se trata de aproximar o povo do poder. Porque imagine um menino de quem você aproximasse um sorvete. Ele quer o sorvete, não estar próximo a ele. Tem que dar, transferir, poder ao povo. Muita gente dirá: o que é o poder? Bom, o poder é poder viver. Quer dizer, muita gente diz a frase “querer é poder”. Não necessariamente, o povo quer viver, viver plenamente, o povo terá poder quando possa –parece redundante, mas é necessário–, dispor dos recursos e meios necessários para continuar vivendo, para viver plenamente. Para satisfazer suas necessidades. Raúl Sendic falava muito bem das necessidades, das leis da sobrevivência, alimentos, medicamentos, as necessidades de subsistência, as da vida e as suntuárias (de luxo, suntuosas). Não me refiro às suntuárias, que são inesgotáveis, que são até destrutivas. Me refiro às necessidades da vida, de um ser humano, de um coletivo. Isso é, no fim, aonde chega toda a filosofia e todo o conceito de poder.
Fasano: Acha que o povo venezuelano está preparado para o socialismo à venezuelana?
Chávez: É um processo. Compare as épocas. Bom, Federico, inclusive –não faça isso nunca, te sugiro– se você fosse revisar os discursos do velho Chávez, desde que me tornei conhecido, no dia que me rendi…
Fasano: Desde que tinhas 38 anos…
Chávez: Sim, desde o golpe. E, depois, em todos estes anos até o dia em que cheguei à presidência e ainda uns aninhos mais, jamais propus o socialismo. Sempre manifestei respeito à teoria, mas lembre-se de onde vínhamos. A queda soviética, a bandeira do socialismo foi arriada em quase todo o mundo. Mas, na dialética e no caminho, eu pessoalmente e muitos de nós fomos nos convencendo que é falso aquilo de uma terceira via entre o capitalismo e socialismo. Socialismo ou barbárie, como dizia Rosa de Luxemburgo. E então veio o golpe de Estado, em 2002, toda a agressão dos EUA e seus aliados. A partir daí todos nós começamos a levantar a nova bandeira e lançamos a bandeira socialista. Nestes anos, se você perguntasse na Venezuela à população, em uma pesquisa séria, não chegavam aos 5% as pessoas que apoiavam o socialismo. E a maior parte eram esses velhos militantes, irredutíveis. A maioria de 80 anos para cima, talvez. Hoje em dia, as pesquisas indicam que cerca da metade da população ou mais opinam a favor do socialismo em diferentes intensidades. Mas o mais importante é que nas pesquisas o capitalismo abertamente não chega a 10%. É um caminho.
Fasano: Agora, é gradual. O fundamentalismo do mercado é um osso muito duro de roer. Eu vejo que as duas grandes linhas da revolução bolivariana passam pela democracia participativa de um lado e a substituição gradual do fundamentalismo de mercado, por outro. Mas é um osso duro de roer. Como pensam em substituí-lo? Acaso se inspiram na economia das equivalências, como uma forma de ir avançando até a substituição paulatina da economia de mercado? Há algum plano sobre isso? O que está pensando e fazendo a revolução bolivariana no tema crucial da onipotência do mercado?
Chávez: Eu te diria que há um plano grande e um conjunto grande de planos pequenos, médios, e vamos avançando com muitas dificuldades. Não é fácil. Mas há uma orientação estratégica e um caminho que estamos andando. Me explico. Fundamentalismo de mercado, neoliberalismo: nós começamos a combatê-lo desde o primeiro dia e estamos aprofundando a intensidade e o ritmo. Trata-se de criar –e é uma das grandes linhas gerais do projeto bolivariano, histórico– uma economia diversificada, uma democracia econômica e isso só é possível com um modelo socialista. Estamos inventando novas formas de economia popular. Você lembra aquela outra frase de que o socialismo não pode ser decalcado nem copiado, que deve ser uma invenção heróica? Simón Rodríguez outra vez. “Inventamos ou erramos”. Somos obrigados a inventar. Estamos investindo muito, por exemplo, na criação de cadeias produtivas para toda a economia. É vital. As cadeias produtivas, desde o setor primário, passando pelo setor secundário de processamento, armazenamento, produtos finais, até a distribuição. Quando eu não era presidente, e o povo não tinha o poder popular, não havia nem um mercadinho para vender arroz, pão, nada. Hoje, ao final deste ano, estamos chegando a mais de 50% de incidência das cadeias produtivas. Todo o alimento que se subministra na Venezuela vem por meio da propriedade social. Quer dizer, não passa pelas mãos especulativas e especuladoras das cadeias capitalistas que compram um quilo de milho a 1 bolívar, lá no produtor primário, e vem vendê-lo, processado em qualquer cidade da Venezuela, a 100 bolívares, inflacionando tudo. Incluindo a mais-valia, mas ademais da especulação capitalista, está a avareza capitalista. Então é preciso criar o modelo, e estamos criando-o, repito, desde o setor primário, até o setor do comércio, o setor terciário.
Fasano: Que empresas estratégicas seria necessário nacionalizar no futuro, para ir avançando rumo ao Socialismo do século 21? Já foram nacionalizadas algumas essenciais, mas vocês têm previsto outro tipo de nacionalizações?
Chávez: Nós temos um esquema de nacionalizações. O que fizemos primeiro foi frear o processo de privatizações de empresas estratégicas, como o petróleo da Venezuela. Recuperamos plenamente a soberania petrolífera e isso nos permite agora implementá-la em função do projeto histórico. As grandes empresas básicas do Estado –siderúrgica, petroquímica, alumínio– também tinham sido privatizadas, e as recuperamos. E agora estamos aplicando algo muito novo na Venezuela, muito da teoria socialista: o controle operário. Bom, com muitas dificuldades, às vezes estrondosas, mas vai avançando o controle que possui a classe operária organizada. Não aqueles velhos sindicatos pelegos, como vocês chamavam ou chamam ainda, mas o poder operário, conselhos de trabalhadores, e também os sindicatos. A recuperação da terra é fundamental. Nacionalizamos, recuperamos ou expropriamos quase 4 milhões de hectares nestes anos e vamos continuar. Dentro de uns dias vamos fazer um evento de recuperação de cerca de 300 mil hectares que tinha uma companhia inglesa, explorando a terra, explorando os trabalhadores, enriquecendo e levando embora os lucros. Nacionalizamos a telefonia, por exemplo, o banco da Venezuela, o banco patrimonial que haviam privatizado. Nós também nos dedicamos a criar espaços de propriedade social, para ir convivendo e até nos aliando com alguns setores da empresa privada. Não negamos isso. Dizemos que a empresa privada, o setor privado da economia, pode perfeitamente seguir existindo e estamos dispostos inclusive a apoiá-lo, como fizemos, sempre e quando seja no marco do projeto desta Constituição e do interesse social que aqui está planteado como estado de Direito.
Fasano: Uma revolução se mede pela forma em que se cria e distribui a riqueza. Vi algumas cifras que me assombram, me diga se estão corretas. A pobreza extrema estava em 20% quando você entrou…
Chávez: Um pouquinho mais… 25%. Agora está a menos da metade disso, está em 7%.
Fasano: 7%? Eu pensava que tinha baixado a 9%. A pobreza geral estava em 50%.
Chávez: E até mais. Chegou a 60%, por aí, ao final dos anos 1990. E agora está em 33%.
Fasano: Há um assunto que se discute muito porque é essencial para o Uruguai. O abismo entre riqueza e pobreza que o modelo progressista no Chile não conseguiu diminuir e que nosso modelo uruguaio tampouco pôde. Observe que aqui diminuiu a pobreza e a indigência em níveis surpreendentes, ainda que não tanto como em seu país, mas não conseguimos reduzir a brecha entre a pobreza e a riqueza. E vejo as cifras venezuelans, e bom, me parece, não podem estar corretas. A desigualdade estava em 28% e caiu a 18%, 17%.
Chávez: Sim, estão certas. A América Latina é o continente mais desigual, em todas as medições mundiais.
Fasano: Mais que a África.
Chávez: Exatamente. Agora a Venezuela é o país, e isso é reconhecido pela ONU, pela Cepal, que mais avançou nesta década na redução da desigualdade e estamos à frente na América Latina, com o menor índice de desigualdade. Isso tem uma razão: é, outra vez, o poder. Os recursos. Preste atenção. Nos últimos 20 anos, no que nós chamamos de Quarta República, os governos anteriores, o investimento social na educação, na saúde, chegava a apenas 30% dos recursos, nós o elevamos a mais de 60%. Duplicamos o investimento social na educação, na saúde, o desemprego era de quase 20% e agora é 7%, 8%. O salário mínimo na Venezuela era uma miséria, hoje é o mais alto da América Latina (equivalente a U$697,09). E não nos cansamos, além disso, de inventar mecanismos de redistribuição. Por exemplo, agora mesmo nos caiu o inverno. Primeiro uma seca terrível, depois um inverno atroz. E neste momento nós temos mais de 120 mil pessoas abrigadas em quartéis, em instituições do Estado, em acampamentos, mas dignos, inclusive no Palácio do Governo. E inventamos uma lei –nós inventamos leis para obrigar a nós mesmos– que diz que, enquanto essas famílias estiverem abrigadas, vão receber um bônus quase equivalente ao salário mínimo. A Previdência Social: na Venezuela havia 300 mil pensionistas. Hoje temos 5 vezes mais e andamos em busca de anciãos para completar as cotas dos que não podem pagar e que portanto não estavam registrados na Previdência Social, que estava sendo privatizada quando chegamos. Inventamos outra lei e já temos mais de 20 mil pescadores, velhos pescadores, velhos camponeses, na Previdência Social e agora estamos fazendo uma lei popular e eu vou aprová-la logo, para que os senhores que cuidam edifícios, os porteiros, que tampouco têm Previdência Social. Não nos cansamos de buscar maneiras de distribuir até onde nos alcance, buscando sempre os equilíbrios macro-econômicos.
Fasano: Essa riqueza já existia antes também e no entanto…
Chávez: Uuuuu…! O governo da Venezuela foi o primeiro exportador de petróleo cru no mundo, de 1925 até 1970. Uma coisa horrível.
Fasano: Deve ter havido expropriação fraudulenta dos direitos do povo venezuelano! Sobre o aumento do poder aquisitivo me deram 400% de aumento. São as últimas cifras que disponho, é isso mesmo?
Chávez: É provável. Tem que considerar a inflação que segue sendo alta na Venezuela…
Fasano: Mas não tão alta como nos governos de 1984 até 1999, quando você assumiu.
Chávez: Não. Nos anos 1990, a inflação era de 100%. Nós temos uma média de 20% ou 21% em todo este período. Mas certamente o poder aquisitivo na Venezuela subiu e não só do ponto de vista clássico do cálculo dos rendimentos. Porque eu sempre digo que há que se levar em conta tudo. Digo a meus companheiros, aos amigos do Banco Central, que calculam tudo e são técnicos. Nós criamos esta rede de alimentos que chega à metade da população. Vamos importar, com certeza, alimentos da Argentina, estamos aumentando a produção. Mas te digo uma coisa: nesta rede que se chama Mercal, se vende desde carne… sobretudo a cesta básica. Nessa rede que atende hoje 14 milhões de venezuelanos num total de 26 milhões de habitantes, a inflação é zero: enquanto o mercado de fora aumenta os preços, na nossa rede estão congelados há anos, e os medicamentos são gratuitos. Nós criamos mais de 6 mil centros médicos, desde pequenos consultórios até grandes hospitais, onde as pessoas vão e não lhes é cobrado absolutamente nada. Operações de coração, tomógrafos, graças à revolução cubana e a esse gênio da raça humana que se chama Fidel Castro, então isso contribui. Enquanto uma família tinha que pagar pelas escolas, agora estamos dando às crianças de primária um computador para cada criança, gratuitamente. Eu dou o exemplo do soldado. Não se dá a ele um fuzil de presente, é para defender a pátria. Nós o equipamos. O fuzil de uma criança é o computador. São uns computadores feitos em Portugal, e agora estamos fazendo-os na Venezuela.
Fasano: É verdade que subsidiam mais de 40% dos produtos básicos em relação ao preço de mercado?
Chávez: Sim, mais de 40% e não só de produtos básicos. Ontem firmamos com a presidenta da Argentina a importação de automóveis feitos lá. Mas os compramos nós diretamente, entes do Estado, e os distribuimos diretamente aos profissionais, ao povo. Veículos familiares, de classe média, classe popular, que pode consumir. Você compra um veículo Volkswagen montado na Argentina que chega à Venezuela por outras vias que é vendido no mercado capitalista e nós o vendemos pela metade do preço. Também outros veículos iranianos que estamos montando na Venezuela com apoio do Irã. Um similar no mercado é vendido lá pela metade do preço. Computadores, telefones celulares. Você sabe a quanto vendemos celulares do tipo Blackberry? 3 dólares. Estamos montando-os agora.
Fasano: Nós podemos importá-los a esse preço, 3 dólares?
Chávez: Sim, claro, e também fertilizantes a um terço do que vendem no mercado especulativo.
Fasano:Vocês investem em educação mais de 5% do PIB, é isso?
Chávez: Mais. Antes, os governos investiam cerca de 2 ou 3%, se chegava a isso. Agora estamos nos aproximando aos 10% porque há muitas formas de investir. Nós temos agora a Educação Inicial, que antes não existia, era para uma minoria. As chamadas crianças em idade de pré-escola. Criamos um sistema que chamamos de “Simoncito”, em homenagem a Bolívar e a Rodríguez. A educação primária toda, a secundária e a universitária. Triplicamos a matrícula universitária. Você vai agora pela Venezuela em qualquer bairro e encontra homens e mulheres de 60 e 80 anos estudando. E de quarenta e de 50, nossa idade, seguindo os estudos secundários que não puderam por causa da pobreza. Ou terminando os universitários. Nós estamos no 5º lugar mundial em matrícula universitária, segundos no continente depois de Cuba. Sem contar as conexões educativas que formaram um sistema complementar ao sistema oficial clássico. Por exemplo: as conexões educativas de alfabetização, de educação para o trabalho, a cultura, as redes de cultura. Enfim, devemos estar muito próximos dos 10% do PIB neste esforço. E, bom, é Bolívar. É a base do projeto histórico. Bolívar dizia: “A educação, a educação, a educação: as Nações marcharão até sua grandeza no mesmo passo com que caminhe sua educação”.
Fasano: Nos preocupa aqui o tema da burocratização. Quais são suas estratégias para evitar a burocratização e a corrupção no aparato do estado?
Chávez: Esse é um tema que é preciso resolver. É um veneno que corrói por dentro, é imanente, forma parte do estado burguês. Sobre o que se fundamentou o estado burguês? A corrupção política. Quando o poder se assume como um fim em si e para si, se acaba a política e daí derivam todas as demais corrupções, para meus amigos e para meu partido. Mandar roubando é mandar dominando. Agora, se você manda ou governa obedecendo ao dono do poder, que é o povo, para a satisfação de suas necessidades, então irão diminuindo os níveis de corrupção política, econômica, ética, moral, que no fundo são a mesma coisa: a perda dos valores da política. É uma luta cultural de todos os dias. A burocracia é parte do que dizia Karl Marx: “Nada nasce do nada”. O estado novo, a sociedade nova, ele dizia, nasce contaminada pela velha. É a luta entre o novo e o velho e o velho sempre quer corromper o novo, é uma batalha corpo a corpo. Tem que se fundamentar. Eu dizia na Argentina, saindo de uma reunião socialista onde falei muito disso. A pessoa tem que ir como um soldado à batalha, com uma bússola. Saber direito aonde vai e qual é o caminho. E tem que ter sobretudo algo muito claro, um princípio tão sólido ou mais sólido que o aço: a lealdade a uma luta pelo povo, a lealdade a um povo. Quem não tenha isso bem sólido pode ir se corrompendo e se corrompe pelo caminho, e se converte em um burocrata, insensato, insensível e em um contra-revolucionário. Estejam muito atentos, todos os dias, em todas as partes.
Fasano: A informação, eu vejo assim, é o lado mais fraco da democracia venezuelana. Os meios na Venezuela não são representativos das distintas forças sociais que compõem a nação. Vocês vivem a apropriação fraudulenta, de caráter privado, de um bem comum à sociedade, a qual é excluída dos direitos cidadãos. Este simpático discurso liberal confundiu deliberadamente a liberdade de expressão da sociedade com a liberdade de possuir meios de comunicação. E quem te fala é um dono de meios de comunicação, portanto legitimado para dizer essas coisas. E esse discurso liberal também confundiu a liberdade de difusão das ideias com a liberdade de difusão do meio, assim como a liberdade de informação com a liberdade do informador. Qual é a estratégia de vocês ante a injusta situação da Venezuela? A questão midiática, a disputa dos meios.
Chávez: Eu sei que você conhece esse assunto. Creio que é um dos problemas mais graves que existem hoje, não só na Venezuela e em nossa revolução bolivariana, senão no mundo. Olhe o que está passando na Líbia. Há uma guerra civil, e o poder ianque e seus aliados europeus, com todas as redes que detêm a comunicação, foram preparando o terreno, para, como disse Fidel Castro desde o primeiro dia, a inevitável guerra da OTAN contra a Líbia, pelo petróleo da Líbia. Então agora querem convencer o mundo que, para salvar a Líbia, é preciso bombardeá-la. Nós nos deparamos com essa problemática desde o primeiro dia. Primeiro, você sabe, houve uma lua-de-mel, me rodeavam, mas quando se deram conta de que eu ia firme por uma direção, veio a guerra midiática e montaram um golpe abertamente pelas televisões privadas, os grandes jornais da burguesia. Hoje seguimos na batalha, mas a situação ou a correlação de forças vem mudando. Já não há uma plena hegemonia como havia. Temos a TeleSur, uma grande conquista. Temos na Venezuela, nasceram como uma explosão ruidosa, os meios de comunicação alternativos, que eram perseguidos, chamados ilegais. Agora tem uma lei e o Estado os apoia com recursos técnicos, financeiros. Milhares de emissoras comunitárias, de pequeno alcance, médio alcance, jornais comunitários, televisões comunitárias. Temos ainda o canal do Estado que estava no chão, do ponto de vista tecnológico, moral, e agora é um dos principais canais do país. Recuperamos este canal. O espaço eletromagnético é de propriedade social, é bom que saibam as pessoas. Só que se concede a uma empresa para que o explore. Bom, terminou a concessão de uma empresa que fez bastante dano ao país, e logo o Estado a recuperou e agora se converteu na principal televisão venezuelana social, a que tem maior cobertura no país. Enfim, estamos enfrentando como tem que ser feito, com liberdade e com uma tolerância infinita. Sobre mim disseram cada coisa na televisão, cada insulto, cada injúria que não seria permitida num Estado de Direito. Me acusam de ser um tirano, mas imagine que às vezes vão pensadores da direita mundial serem entrevistados pela televisão e diante das câmeras dizem: estamos na Venezuela, aqui não se pode falar, isto é uma tirania sangrenta. Dizem isso na televisão, ao vivo, no centro de Caracas! É melhor rir.
Fasano: Um calcanhar de Aquiles da Revolucão bolivariana parecem ser os sindicatos de trabalhadores tradicionais, corrompidos, os estudantes manipulados e a deserção dos intelectuais. Como pensa reverter esta situação? Porque o clássico era que operários e estudantes estivessem participando. E alguns setores intelectuais, que servem melhor aos mandarins do que ao povo que deveriam servir, também se afastaram do projeto histórico. Ou isso está mudando?
Chávez: Sempre existe o interesse, também midiático, de que as pessoas acreditem exatamente nisso, que a juventude venezuelana, que os estudantes, são contra a revolução, que os sindicatos são contra. Não é bem assim. Os velhos sindicatos, claro. Mas apesar de todo o poder da burguesia nos anos precedentes, todo esse chamado a greves gerais, a sabotar o país por greves, fracassou. Existe também uma confederação de trabalhadores totalmente livre, crítica com o governo, mas que apoia a revolucão e critica o que tem de criticar.
Fasano: Independência de classe e….
Chávez: Claro… E com consciência operária. E isso vem evoluindo, o mesmo acontece com o setor estudantil e a juventude. Há uma parte da elite burguesa que muitas vezes inventa coisas para chamar a atenção. A CNN lhes dá destaque. No entanto, os meninos dos bairros, que são milhões, que estão estudando, que estão com a revolução, configuram o perfil de uma juventude revolucionária. A cada dia você vai ver com maior claridade na paisagem os trabalhadores, os estudantes, as mulheres organizadas, que força têm essas mulheres! Os povos indígenas, movimentos sociais. Te juro, Federico, que sou o primeiro adversário de que o partido tome conta disso. Não, eles devem ser livres. Tem que nos interpelar, nos dar broncas, nos falar cara a cara. Gente sem moradia, sem casa, mas organizados e organizando-se. Organizai-vos, dizia Cristo, crescei e multiplicai-vos. Marx: trabalhadores do mundo, uni-vos.
Fasano: Já levamos quase uma hora e seus assessores olham para o relógio, mas quero perguntar pela questão militar. Revolução pacífica, porém armada. Allende nos mostrou que podemos ser os pacíficos que queiramos, mas se o projeto popular não se defende tudo está perdido. Você concorda com o grande revolucionário alemão Wilhelm Liebknecht, que dizia que a revolução social não se faz contra o exército nem sem o exército, mas com o exército? Qual é a política militar da revolução bolivariana?
Chávez: Concordo que a revolução social deve saber defender-se e a história o comprovou. Eu e Fidel nos telefonamos, nos escrevemos, eu o visito sempre que posso, é como o grande pai. Estávamos comemorando 19 anos de nossa rebelião. Saímos de 20 quartéis. A juventude militar nas ruas. Era um movimento como quixotesco. E Fidel me dizia: “Chávez, vejo que aquilo foi como Moncada (assalto ao Quartel de Moncada por Fidel em 1953), mas ao contrário, multiplicado por 100. Isto é, eles se foram e um grupo de jovens quixotes tomou o quartel. Você tomou o quartel, mas por dentro. E saíram dos quartéis.” Ele, observador e sábio. Então certamente não se pode fazer uma revolução profunda e plena sem um exército. Fidel teve que criar um exército novo, algumas pessoas de (Fulgencio)Batista se integraram. Mas foi o exército, o exército rebelde, o campesino, o de Che Guevara, todos aqueles. Eles foram e criaram um exército. No caso venezuelano, por distintas circunstâncias da vida, nós estávamos no exército. Eles não aspiravam a ser soldados, eu queria ser militante. Queria ser desportista de beisebol e vim a Caracas faz 40 anos para prestar os exames de admissão para a Escola Militar. E consegui entrar. Sou um camponês. E, bem, no caminho, me fiz revolucionário. (O jornalista) Ignacio Ramonet fez uma entrevista comigo muito longa e falou: ”Dizem por aí que quando você entrou na Escola Militar em 1971 já entrou com o livro de Che Guevara debaixo do braço”. E eu lhe disse que não foi assim. Entrei com um bastão de beisebol e uma bola debaixo do braço. Tinha 16 anos. Mas o que você pode escrever é que quando saí, quatro anos depois, saí com o livro do Che sob o braço. Eu me fiz revolucionário nas fileiras militares. Comecei a me identificar com o exército de Bolívar, de Artigas, e com a história desse Bolívar soldado que disse: “Maldito o soldado que volte as armas contra seu povo”. Esse Bolívar que disse: “Sigo a gloriosa carreira das armas só para lograr a honra que elas dão de libertar a minha pátria e merecer a bendição do povo”. Esse Bolívar em Santa Marta, solitário, expulso e moribundo que disse em seu último discurso: “Os militares deverão desembainhar sua espada, mas sempre para defender as garantias socais”. Esse Bolívar se transformou em nosso líder. Nos anos 1970 quase fui para a guerrilha porque, recém-graduado, me mandaram, no ano de 1975, a um batalhão antiguerrilheiro. Rodríguez, hoje meu ministro da Energia, estava ainda na guerrilha e havia uns grupos guerrilheiros na Venezuela. Me mandam para lá e eu entro em contradição e quase vou embora com eles. Afortunadamente não ingressei porque por aí não havia caminho, mas me convenci, em contato com alguns velhos guerrilheiros, com meu amigo Adán, meu irmão mais velho, e revolucionários da universidade. Me dei conta que tinha de começar a criar células bolivarianas dentro do Exército. E passamos nisso quase 20 anos, até a rebelião de 4 de fevereiro (de 1992, contra Carlos Andrés Perez). Hoje, as forças militares venezuelanas são umas forças que se definem com orgulho como anti-imperialistas, revolucionárias, socialistas. Sem eles seria impossível avançar. Veja o que ocorreu no dia 11 de abril (de 2002, quando tentaram um golpe contra Chávez). O império fracassou, a burguesia venezuelana fracassou. Me sequestram. Me tiram o poder de mando. Desestabilizam meu país. Lembra de José Vicente Rangel, que era meu ministro da Defesa? Estamos os dois sozinhos, 3 da manhã. Que fazemos? Ao amanhecer, o golpe em plena marcha. E de repente digo a José Vicente: vou para lá. “Como você vai?” Vou me entregar aos golpistas, aos generais golpistas –eu os conhecia a quase todos. Vou ver se a vida valeu a pena. Se eu morro hoje ou me expulsam do país e isso se acaba, perdi a minha vida. Mas vou ver se ter investido 30 anos da minha vida no exército valeu a pena. Fui. O que querem? Eram cerca de 100 golpistas. E detrás deles os ianques e a burguesia. O golpe desmoronou. Os capitães ficaram a meu lado, os soldados me liberaram e se uniram ao povo. Mandaram dizer ao povo, que começou a rodear os quartéis. Não houve um só soldado venezuelano que disparasse contra o povo. Ficaram com o povo e os golpistas se foram. Ou seja, é possível. Allende tentou, mas olhe como terminou Allende, um presidente mártir. Ele, que era médico. Nós vimos no vídeo, ele foi seu próprio soldado com aquele capacete e uma metralhadora velha que lhe deu Fidel. Ficou sem soldados, foi seu próprio soldado. Nós não, nós temos soldados. É uma revolução pacífica e continuará sendo pacífica.
Fasano: Hugo, todo mundo se preocupa com a sua segurança. Os filósofos do século 18 acreditavam que era o gênio individual que mudava a história, não? Mais que a subjetividade das massas insatisfeitas… Há uma espécie de lenda que diz que Chávez é a revolução bolivariana. O que acontece se Chávez não está mais? O que acontece se desaparece o condutor? Vocês trabalharam para deixar estruturas sólidas, firmes, que suportem a ausência do caudilho?
Chávez: Entendo o que você diz. Agora, triste da revolução que depende de um só homem. Na realidade, não é uma revolução, é demasiado frágil para pretender ser uma revolução. Na Venezuela é uma situação sui generis. Eu não me creio imprescindível. Não existem imprescindíveis. Um dia quase me afoguei em um rio, e me salvou um cadete. Se ele não viesse e me agarrasse, o mais provável é que eu me afogasse aos 18 anos. E se eu tivesse me afogado, a revolução bolivariana teria surgido da mesma maneira. Agora, o homem, o indivíduo dá seu toque, seu ritmo, seu toque de líder, seus toques pessoais, a uns processos que não dependem de um homem, porque são processos de um processo. Há vários anos, quando Fidel quase morreu, fui vê-lo. Quase não podia falar, estava muito grave, perdera muito sangue. E os médicos me disseram: Chávez, por favor, um minuto. Mas ele queria me ver. Recordo sua mão, me agarrou muito forte e disse: “Chávez, estou pronto para morrer se tenho que morrer, mas você não pode morrer”. Isso ele me dizia na época. Avançamos neste tema, estamos fazendo um esforço muito grande para promover o poder popular, organizações populares, o partido socialista unido. Aliado com outros partidos e os movimentos sociais, um projeto muito mais entendido pelas pessoas. Uma juventude participativa protagonista. Essa é a garantia de uma revolução, jamais será um ser humano, por mais gênio que possa ser.
Fasano: Quando chegar o último minuto da tua vida… Esperamos que demore muito, mas como gostaria que o recordassem?
Chávez: Pelo que fui sempre até chegar o momento último da minha vida. Eu sou dos que dizem, como o poeta, “confesso que vivi”. Se me recordassem pelo que fui… Sobretudo que me recordem como um soldado. Se alguém disser: “Chávez foi um soldado”, é o suficiente.
Fasano: Uma última. Marx dizia que a humanidade só se coloca tarefas que está em condições de resolver. As tuas parecem ser enormes, com a magnitude e a utopia que te guia. Você crê que poderá com elas? Não acha que, lembrando Simón Bolívar, está arando no mar?
Chávez: Não. Temos que ir sempre assumindo o desafio e a carga do tempo histórico e isso se pode concretizar com aquela máxima de Marx: “É necessário, é imprescindível ascender do abstrato ao concreto”. Uma revolução tem que ser científica ou não é. Quer dizer, tem que se fundamentar no estudo profundo das condições e deve, a partir desse estudo ou diagnóstico, estabelecer seus limites da maneira mais acertada possível. Se caímos nos terrenos da utopia estaremos condenados a repetir Bolívar: “aramos o mar”. Nós cremos, e eu cada dia mais, que na Venezuela estamos arando em terra fértil. Porque há com o que arar. Há povo, há força, há amor, há paixão, há condições.
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terça-feira, 4 de março de 2014
PREACHER
"E
aí?". "Como assim, e aí?". "E aí, vai me contar o que aconteceu em
Masada?". "Ah, bom, deixe-me ver: tinha um anjo, uma puta, um eunuco,
várias dúzias de idiotas, um irlandês que não morria, um
Homem-Holocausto com um sobretudo, um ou outro banquete de 20 pratos em
nome da mãe de todos os fodidos glutões, relações incestuosas,
desentendimentos familiares, bulimia, uma criança retardada - o que é
sempre bom para dar risada - e a destruição absoluta de nosso altar
mais sagrado e retiro secreto com a detonação de uma bomba de 50
toneladas. E tinha também Jesse Custer ...
Jesse Custer, personagem principal da série "Preacher", minha História em quadrinhos favorita do meu selo favorito, Vertigo, é um pastor possuído por uma entidade nascida do cruzamento entre um anjo e um demônio capaz de meter medo ao próprio Deus pai todo-poderoso - que é um grandessíssimo filho da puta, diga-se de passagem - que roda o mundo a partir do Texas acompanhado de sua namorada especialista em armas, Tulipa, e de seu amigo vampiro irlandês, Cassidy. À procura Dele - Ele mesmo, EL, ELOAH, ELOHIM, EL SHADDAI, ADONAI, YHWH / YAHWEH / JEOVÁ, JEOVÁ-JIRÉ - que abandonou o paraíso, ele se depara com o Cara de Cu, um garoto reprimido com sérias sequelas de uma tentativa de suicídio motivada pelos abusos que sofreu de seu pai, um xerife durão, e pelo exemplo de Kurt Cobain; o Santo dos Assassinos, um pistoleiro do velho oeste ressuscitado; a família que o criou à base de castigos como ficar submerso num caixão no pântano da Louisiana apenas por falar palavrões; e Herr Starr, protagonista do diálogo acima, que é membro de uma seita superpoderosa encarregada de resguardar a linhagem do cordeiro, manifesta num garoto retardado descendente direto de Jesus Cristo destinado a ser o novo Messias.
Preacher está prestes a ser adapatado para a TV pela mesma emissora responsável pelos grandes sucessos de crítica e público "Breaking Bad" e "The Walking Dead" - esta última igualmente originária de uma série em quadrinhos. É publicada atualmente no Brasil de forma impecável, em capa dura e papel couchê com impressão de primeira, pela Panini Comics.
Desnecessário dizer que recomendo muito.
A
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Jesse Custer, personagem principal da série "Preacher", minha História em quadrinhos favorita do meu selo favorito, Vertigo, é um pastor possuído por uma entidade nascida do cruzamento entre um anjo e um demônio capaz de meter medo ao próprio Deus pai todo-poderoso - que é um grandessíssimo filho da puta, diga-se de passagem - que roda o mundo a partir do Texas acompanhado de sua namorada especialista em armas, Tulipa, e de seu amigo vampiro irlandês, Cassidy. À procura Dele - Ele mesmo, EL, ELOAH, ELOHIM, EL SHADDAI, ADONAI, YHWH / YAHWEH / JEOVÁ, JEOVÁ-JIRÉ - que abandonou o paraíso, ele se depara com o Cara de Cu, um garoto reprimido com sérias sequelas de uma tentativa de suicídio motivada pelos abusos que sofreu de seu pai, um xerife durão, e pelo exemplo de Kurt Cobain; o Santo dos Assassinos, um pistoleiro do velho oeste ressuscitado; a família que o criou à base de castigos como ficar submerso num caixão no pântano da Louisiana apenas por falar palavrões; e Herr Starr, protagonista do diálogo acima, que é membro de uma seita superpoderosa encarregada de resguardar a linhagem do cordeiro, manifesta num garoto retardado descendente direto de Jesus Cristo destinado a ser o novo Messias.
Preacher está prestes a ser adapatado para a TV pela mesma emissora responsável pelos grandes sucessos de crítica e público "Breaking Bad" e "The Walking Dead" - esta última igualmente originária de uma série em quadrinhos. É publicada atualmente no Brasil de forma impecável, em capa dura e papel couchê com impressão de primeira, pela Panini Comics.
Desnecessário dizer que recomendo muito.
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