quarta-feira, 6 de março de 2013

A Veja fora do plástico – e outros absurdos ...

A vida segue sua rotina quotidiana no microcosmo retratado em “O Som ao redor”, premiado filme brasileiro rodado inteiramente no Recife. Relacionamentos começam, relutantes, ressentidos de feridas recentes ainda abertas. Relacionamentos continuam, sexualmente mornos mas amarrados por laços de sangue, amor e uma boa dose de comodismo. Indivíduos outrora ricos e poderosos seguem ricos, embora já não mais tão poderosos, aparentemente. Aparentemente.

As aparências enganam. O latido do cão do vizinho incomoda. A máquina de lavar alivia. O traficante disfarçado de entregador de água mineral também. A marcação surda do bate-estaca que anuncia o início da construção de mais um espigão na selva de concreto parece nos alertar, solenemente, que algo muito ruim está para acontecer. Os fantasmas estão à espreita. Os personagens parecem saber disso, mesmo que inconscientemente. Até mesmo as crianças, que têm pesadelos nos quais as ameaças da vida real invadem os muros dos condomínios. E Irandhir Santos está lá, encarnado no proprietário de uma empresa de segurança informal que se insere no meio daqueles assustados seres urbanos que supostamente precisam de seus serviços, mesmo que não saibam disso. Porque o inimigo não dorme. O mesmo não se pode dizer daqueles membros de castas inferiores que são devidamente pagos para se tornar guardiões da tranqüilidade alheia. Dormem no serviço e ainda por cima entregam a Veja fora do plástico. Um absurdo.

Alguma coisa está para acontecer. E acontece. Ou não.

O Som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho

Excelente.

Era Uma Vez Eu, Verônica (2012), de Marcelo Gomes – Espécie de versão intimista de “O Som ao redor” – as duas produções têm diversas características em comum, ao ponto de parecerem dividir o mesmo cenário. É como se bem ali ao lado da rua onde acontecem os eventos descritos na consagrada obra de Kleber Mendonça se desenrolasse o drama da vida da Doutora Verônica, batalhadora representante da classe média em ascensão encarnada na pele da sensacional Hermila Guedes. Paciente de si mesma, ela não consegue entender sua própria insatisfação diante de um futuro promissor e acaba tendo que resistir à tentação de sucumbir aos percalços da vida, aqui representados pela doença do pai, com o qual tem uma belíssima relação, o desinteresse por relacionamentos duradouros (“não me ame tanto”, diz Karina Buhr, que também aparece no filme, em uma de suas canções) e a tragédia humana presente no mar de sofrimento igualmente sem explicação ao qual é exposta todos os dias em seu trabalho como psiquiatra de uma instituição pública. 

Inadequação e fuga. Sexo como válvula de escape. Carnaval. Aceitação. Reflexão.

Recife falando pro mundo. Ainda.

Muito bom.

Silvio Tendler no lançamento do filme
Tancredo, a travessia (2011), de Silvio Tendler – Pode ser encarado como uma continuação de “Os Anos JK” e “Jango”, também cometidos pelo célebre Silvio Tendler, tido por muitos como o melhor documentarista brasileiro vivo. Conta a trajetória de Tancredo Neves, o conciliador, para quem “não há mineiro radical. Se for radical, não é mineiro, mesmo que tenha nascido em Minas Gerais”. Vai de seu papel ao lado de Vargas à sua liderança na condução pacífica e negociada da transição da ditadura à democracia no meio dos anos 1980, passando pelos principais acontecimentos políticos do Brasil no período, nos quais foi, sempre, um dos protagonistas. Chegou a ser, inclusive, primeiro-ministro, no breve período em que o Brasil se tornou parlamentarista unicamente para acalmar os generais quanto à posse do então vice-presidente João Goulart, numa manobra aparentemente bem sucedida que só serviu para adiar, mais uma vez, o que parecia inevitável: o golpe militar de 1964 e o mergulho do país nas trevas do obscurantismo.

Funeral de Tancredo Neves
Citando Paulo Marcio Vaz numa crítica que fez para o Jornal do Brasil, “o filme aborda também, e com mais clareza do que tudo o que já foi feito à respeito, a polêmica em torno da doença que matou o então presidente eleito, e jogou água na fervura da esperança de todo um povo, forçando a posse de José Sarney, ex-aliado da ditadura e dissidente do PDS.

Em depoimento ao filme, o próprio Sarney admite que, ao renunciar à presidência do então partido governista, quando, provavelmente, já percebia que a ditadura começava a naufragar, achou que sua carreira política havia terminado. Também com maestria, Silvio Tendler soube retratar toda a fase de criação do Partido da Frente Liberal (PFL), que reuniu os dissidentes do PDS para apoiar Tancredo e, quem sabe, continuar pegando carona no poder. Mal sabiam que, por uma triste obra do destino, não só pegaria carona, como reassumiriam o volante.

Sobre a diverticulite que resultou na morte de Tancredo, o documentário praticamente incrimina os médicos que atenderam o presidente eleito em Brasília, sem ouvir a versão de qualquer um deles. Nesse aspecto, a participação de Aécio Neves é fundamental. Hoje Senador pelo PSDB, o neto de Tancredo foi quem presenciou dois momentos decisivos para o fim da história: quando o avô, prestes a tomar posse, passa mal durante um jantar em família, e quando, já operado no hospital em Brasília, durante uma caminhada com o neto no quarto, sente que algo estava errado, e decreta: “Estourou tudo”. Era o início do fim.

Tancredo, a travessia, talvez peque por não ouvir o outro lado da história. Mas, certamente conta muito bem o lado bom.”

Excelente.

Muda Brasil (1985), de Oswaldo Caldeira – Vi por acaso, no Canal Brasil, este emocionante documentário totalmente filmado no calor do momento, durante a campanha de Tancredo Neves à presidência da república por via indireta, no chamado “Colégio eleitoral”, e programado para ser lançado na época de sua posse. O lançamento aconteceu. A posso não, como sabemos todos.

Mostra cenas que eu nunca havia visto ou que já não lembrava mais, como a da convenção do PDS, o então partido da ditadura, sucessor da ARENA, na qual Paulo Maluf se consagrou candidato pela situação. Em conseqüência, o partido “se parte”, gerando a Frente Liberal, embrião do PFL – hoje DEM. Aureliano Chaves, o vice-presidente, é um de seus líderes, e é constrangedor ver seu isolamento durante a parada militar de 7 de setembro daquele ano (1984), quando mal é cumprimentado pelo presidente Figueiredo e pelos Ministros das Forças Armadas, que literalmente lhes dão as costas.

Assistimos também ao oportunismo do então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, servo fiel dos milicos presidentes, que aproveita o racha no partido do governo para abandonar a barca furada do regime em decadência e subir na nau da “Nova República”, aos berros dos impropérios contra seus antigos aliados que lhe eram tão característicos. E à controversa atitude do PT, tão distante de seu pragmatismo atual, no governo. O partido decidiu marcar posição e se abster da votação indireta, o que gera um bate-boca flagrado pelas câmeras envolvendo José Genoino, hoje réu condenado no processo do “mensalão” – na verdade um processo político teleguiado pela mídia e conduzido de forma, no mínimo, questionável. Embora não se possa questionar o Supremo, como tanto gosta de apregoar o Ministro Joaquim Barbosa – que adora questionar seus pares, sempre de forma incisiva e, muitas vezes, desrespeitosa.

Um grande documento histórico que merecia muito ser resgatado e exposto às atuais gerações entorpecidas pelo excesso de informações vazias e mais interessadas no novo “hype” idiota gerado pela internet, como o “Gangnan style” ou os “Harlen Shakers” da vida.

Muito bom.

Oliver Stone & Hugo Chávez
Ao Sul da Fronteira (2009), de Oliver Stone – Remando contra a maré da opinião pública de seu país, vítima de uma verdadeira lavagem cerebral midiática quotidiana, o diretor Oliver Stone decidiu retratar, de forma apaixonada e abertamente favorável, os novos regimes de esquerda da América do Sul. E começa o filme justamente mostrando um pouco do lixo que é despejado todos os dias nos olhos e ouvidos do povo dos Estados Unidos, exibindo um trecho de um programa de debates onde uma das participantes confunde cacau com cocaína.

Na Venezuela, adere ao “culto à personalidade” de Hugo Chávez, carismático líder autointitulado “bolivariano”, seja lá o que isso queira dizer. Para o povo, como bem demonstram as imagens, não importa: o que importa é que sua vida, hoje, está melhor do que antes, quando uma casta aristocrática encastelada no poder monopolizava para si os dividendos da comercialização do petróleo, principal (ou quase única) fonte de renda do país. Por isso Chávez é e seguirá sendo, por um bom tempo, adorado. Mesmo depois de morto. E ele adorava isto, como também demonstram as imagens.

De lá parte para a Argentina, onde entrevista a presidente Cristina Kirchner e seu fiel escudeiro e líder informal, o já falecido Néstor Kirchner – que por “coincidência”, vejam só, era também seu marido! Ela explica para as câmeras o processo através do qual a Argentina se recuperou da maior crise de sua história simplesmente se recusando a seguir a cartilha neoliberal ditada pelo FMI. E por fim vai a Fernando Lugo, hoje deposto, no Paraguai, Rafael Correa, que acabou de se reeleger, no Equador, e Lula da Silva, no Brasil-sil-sil.

Não é um filme perfeito. A abordagem é um tanto quanto primária e deslumbrada, mas serve como bom contraponto propagandístico à ferrenha e incessante sanha golpista e imperialista dos ianques e de seus aliados mundo afora.

Bom.

Anna dos 6 aos 18 (1994), de Nikita Mikhalkov – Tenho uma fascinação pela Russia que é encarada como excentricidade pelas pessoas com quem convivo. Não as culpo. Afinal, trata-se de uma nação distante e, para nós, exótica, que se equilibra culturalmente entre o ocidente e o oriente, já que seu território se estende do leste da Europa à Àsia. Só eu mesmo, portanto, para se interessar por um documentário que retrata, basicamente, os últimos anos da extinta União Soviética. Com direito a imagens de paradas militares e funerais de seus chefes de estado.

Nikita Mikhalkov & Nadia, a outra filha
Nikita Mikhalkov, irmão do grande cineasta Andrei Konchalovsky e filho de Sergey Mikhalkov, um poeta celebrado, escritor de livros infantis e compositor das letras das duas versões do Hino Nacional da União Soviética e do atual Hino da Federação Russa, é um diretor de cinema consagrado, autor de “O Sol Enganador”, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1995. Aqui ele revela o filme que fez a partir da idéia de fazer à sua filha, Anna, todos os anos, durante 12 anos, as mesmas perguntas para, a partir de suas respostas, traçar um cenário que lhe permita elaborar uma análise, a meu ver, ligeiramente equivocada, dos destinos de seu país. Tenta explicar, por exemplo, o colapso do império soviético a partir da ausência de Deus! Para tanto insere de forma emocional imagens que, para mim, são apenas retratos do fanatismo e da ignorância, como a que mostra peregrinos se penitenciando num terreno onde antes havia uma igreja ortodoxa, destruída pelos comunistas. Não que eu seja a favor da destruição de igrejas pelos comunistas, muito pelo contrário: além de ser uma violência, pura e simples, é contraproducente para a “causa”. Tanto que, assim que caiu o regime soviético, a Igreja Ortodoxa retomou seu papel de protagonista no cenário político russo com força total, e hoje é um importante suporte para as ambições do líder Vladimir Putin – de quem Mikhalkov é um ardoroso defensor, diga-se de passagem.

Em todo caso, é um grande documento de uma era, com imagens raras de se ver por aqui, no ocidente. Por pura falta de interesse, muito provavelmente.

Mas eu me interesso. Um dia ainda vou à Rússia, não canso de repetir.

Bom.

End of the Century: The Story of the Ramones (2003), de Jim Fields - Depois de ler a sensacional autobiografia de Johnny Ramone não resisti e revi, como complemento à leitura, este verdadeiro clássico dos documentários musicais. Retrata de maneira brilhante e dinâmica a carreira de quatro perturbados e disfuncionais novaiorquinos que criaram, “sem querer querendo”, uma nova e poderosa expressão musical e cultural: o punk rock.

Johnny não concordaria com a definição de perturbado para si mesmo, mas ele era um punk de direita, o que é, a meu ver, definitivamente bizarro.

Imperdível.

Celebration Day (2012), de Dick Carruthers – De todas as pisadas na bola do Cinemark em Aracaju, nenhuma foi maior do que a sequencia de falhas a que fomos expostos durante a exibição de “Celebration Day”, filme que registra a já célebre(sic) reunião do Led Zeppelin para um show beneficente em dezembro de 2007. A imagem, em si, estava perfeita, mas o som falhou miseravelmente, a ponto de provocar uma verdadeira rebelião entre os expectadores, que mexeram a bunda de suas cadeiras (algo raro) para reivindicar seus direitos junto à gerencia. A maioria, como eu, recebeu um pedido de desculpas, uma cortesia para assistir à uma das sessões 3D em cartaz e um nome na lista para a nova exibição que aconteceria dali a alguns dias.

Voltei, claro. Imagina se eu iria perder de ver o Led Zeppelin no cinema! Oportunidade única, tenho certeza. Som meia boca, mas pelo menos dava pra ouvir. O filme? Excelente! Uma banda ainda afiadíssima capturada em dinâmicas e belíssimas imagens de alta definição. Me impressionou, especialmente, a boa forma vocal de Robert Plant, porque vocalistas são, geralmente, os mais castigados pela passagem do tempo. Que o digam Ian Gillan e Ozzy Osbourne, as vozes à frente dos outros dois vértices da Santíssima Trindade do rock pesado, o Deep Purple e o Black Sabbath.

Que mais posso declarar? Vejamos: Jimmy Page é Deus! Robert Plant é A voz. John Paul Jones é um mago! E Jason Bonhan “segura a onda” – o que não é pouco. Não mesmo.

Excelente.

O Segredo de seus olhos (2009), de Juan José Campanella – Drama argentino com pano de fundo político cuja ação se passa, em grande parte, durante o governo de Isabel Perón e das ações da "Triple A" (Aliança Anticomunista Argentina), grupo de repressão do Estado que recrutou gente da pior espécie, entre oficiais de polícia exonerados por delitos, civis com fichas criminais e matadores de aluguel. Tem um desfecho chocante e surpreendente, semelhante ao de algumas películas recentes de Pedro Almodóvar, como “A pele que habito”. A atuação do onipresente Ricardo Darín é, mais uma vez, impecável, e o filme foi um tremendo sucesso: na sua sexta semana de exibição já era a produção nacional de maior arrecadação na Argentina e hoje é considerado o mais visto dos últimos 35 anos no país. Para coroar seu triunfo, faturou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Bom.

Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011), de Gustavo Taretto – Um verdadeiro exercício de estilo, um registro inequívoco da sofisticação visual e narrativa à qual chegou o cinema argentino. Conta a história de personagens solitários habitantes de uma Buenos Aires tomada pelo caos urbano, embora ainda possuidora de um charme particular e especial. Aos poucos, suas vidas vão se cruzando e a magia do amor, que está sempre à espreita e é (quase) sempre lindo, pode voltar a acontecer, a qualquer momento.

O diretor Gustavo Taretto explica que quis retratar uma solidão que não é dramática, mas "uma solidão a que já estamos acostumados. De todos os dias. Solidão urbana. A solidão que sentimos quando estamos rodeados de desconhecidos".

Muito bom

Django Livre (2012), de Quentin Tarantino – Até que demorou para Tarantino finalmente dirigir um “western spaghetti”, subgênero que sempre namorou, especialmente em seus dois últimos filmes, “Kill Bill vol.2” e “Bastardos Inglórios”. Talvez por isso mesmo seja sua obra mais “pura” em termos de narrativa, muito embora fuja, ainda assim, do lugar comum. Ou não: os faroestes italianos eram igualmente dados a licenças poéticas em relação aos seus pares clássicos norteamericanos ...

Pra começo de conversa, o filme não se passa nos velho oeste, mas no sul escravocrata – com passagens pelo norte gelado. Porque o diretor resolveu aproveitar o gancho para denunciar - a seu modo, evidentemente - os horrores da escravidão, que funcionava a pleno vapor naquela época. E é uma senhora denúncia, que me perdoe Spike Lee, sempre chato quando o assunto é racismo. Poucas vezes as agruras do povo negro foram mostradas com tanta brutalidade nas telas do cinema. E pouquíssimas vezes em filmes de “Far West”, onde a “sub raça” a ser subjugada era, geralmente, a dos nativos americanos.

Então temos Django, um negro liberto montado à cavalo, para o espanto de todos por onde passa, acompanhado de um caçador de recompensas alemão disfarçado de dentista. Trata-se de Christoph Waltz, praticamente repetindo seu papel de Bastardos Inglórios numa interpretação um tanto quanto exagerada, “barroca”, mas ainda assim certeira – não por acaso, com ela, repetiu a façanha e abocanhou mais um Oscar de ator coadjuvante. E temos Brunhilda, a escrava negra que fala alemão, a ser resgatada das mãos do terrível Calvin Candie, magnificamente interpretado por Leonardo DiCaprio. Mas não sem antes passar pelos olhos e ouvidos atentos de Stephen, “o negro da casa”, mais racista que o pior dos racistas, igualmente interpretado de forma magistral – repito e sublinho: magistral! – por Samuel L. Jackson. Com tudo isso, e mais a infalível dinâmica dos diálogos longos e espertos intercalados por explosões de violência, acrescidos de doses cavalares de humor negro e suspense, as 2 horas e 45 minutos de projeção passam voando! Na verdade o filme valeria a pena só pela incrivelmente hilária cena em que justiceiros caipiras encapuzados discutem a relevância daquele acessório ridículo que posteriormente seria adotado pela Ku Klux Klan. Nunca o racismo foi ridicularizado de forma tão certeira em uma película hollywoodiana. Spike Lee, faz favor, vai procurar o que fazer. Termina aí seu filme sobre o Brasil.

Vale ressaltar que assisti LEGENDADO e numa excelente projeção, como deve ser. Nem deveria ser preciso que este detalhe aparentemente banal fosse mencionado, mas o Cinemark teve o disparate de colocar o filme em cartaz apenas em sessões dubladas nas duas primeiras semanas de exibição aqui em Aracaju. Desconfio que tenham voltado atrás devido à forte pressão exercita pela crítica especializada, nas resenhas da imprensa local, e pelo público em geral, nas redes sociais. Eu, por exemplo, cheguei a ser proibido temporariamente de fazer postagens pelo facebook, de tanto que pentelhei nas páginas oficiais das empresas produtora e exibidora.

Excelente.

Lincoln (2012), de Steven Spilberg – Para além da brilhante e mereciamente premiada interpretação de Daniel Day Lewis, o novo filme de Spilberg nos mostra como sempre foram, são e, pelo andar da carruagem, sempre serão os bastidores da política numa “democracia”, onde tudo tem que ser negociado. Nem sempre de forma limpa e aberta. Ou quase nunca, ouso afirmar. Para conseguir ver aprovada a mais do que justa lei da abolição da escravatura, o maior dos presidentes norteamericanos teve que chafurdar na lama da corrupção, recorrendo a todo tipo de artifício espúrio, da chantagem ao suborno, passando por malabarismos retóricos até chegar finalmente à intimidação, pura e simples. Perfeito para quem se interessa em compreender os meandros deste terreno pantanoso que é a política, de cujos efeitos nunca estamos isentos, já que é ela que nos conduz a todos, como indivíduos ou como nação.

Perfeito mesmo para os que, como eu, não conseguem entender muito bem a dinâmica da política interna dos Estados Unidos – afinal Lincoln, o abolicionista, o homem que derrotou o atraso do sul escravocrata, era republicano, ou seja, do mesmo partido que mais tarde geraria Nixon, que “pediu para sair” depois de ter sido flagrado “com a boca na botija”, ou melhor, “com o ouvido na escuta”, no escândalo de Watergate; George W. Bush, o maior terrorista de estado do mundo moderno, um psicopata genocida fundamentalista cristão medíocre e desprezível que, inexplicavelmente, governou o país por oito anos e o entregou na bancarrota a seu sucessor; Ronald Reagan, aquele que nunca deveria ter nascido, ator medíocre que dedurou seus pares durante o Macarthismo e que, no governo, iniciou, junto com Margareth Tatcher, da Inglaterra, o processo de desregulamentação do mercado financeiro que resultou na crise sem precedentes que assusta o mundo hoje em dia; e personagens tragicomicamente bizarros, como Sarah Palin e seu abjeto “Tea Party”, um verdadeiro partido de extrema direita neofascita alojado dentro do partido republicano.

Lincoln já deve ter até cansado de se revirar no túmulo.

Muito bom

O Lado Bom da vida (2012), de David O. Russell – Numa das críticas que li sobre o filme o autor do texto avisava que não seria fácil assimilar a histeria descontrolada dos personagens, todos perturbados, em maior ou menor grau, desta comédia romântica aparentemente anticonvencional, mas que ao longo da projeção você seria “fisgado” e passaria a simpatizar e a torcer por eles. Não aconteceu comigo. Nem mesmo o talento e a beleza de Jennifer Lawrence, um dos principais motivos por eu estar ali, me fizeram “entrar na trama”, que se arrasta de forma atabalhoada e histriônica até um desfecho ridículo, totalmente previsível e açucarado. Detestei. Perdi meu tempo e meu suado dinheiro.

Culpa dos irmãos Weinstein, mestres na arte de vender gato por lebre.

Ruim.

Looper - Assassinos do Futuro (2012), de Rian Johnson – Filmes sobre viagem no tempo são um terreno fértil para a sanha dos críticos de plantão em apontar idiossincrasias e furos no roteiro. Acho besteira, por um motivo simples: não se trata de ficção “científica”, tecnicamente falando. Está mais para fantasia, pura e simples. Especular sobre as possíveis conseqüências de tal premissa no mundo real é tão inútil quanto apontar a impossibilidade da existência de sabres de luz como os que são mostrados em “Guerra nas estrelas”. Melhor relaxar e curtir, especialmente se o filme for tão bom quanto este “Looper”, uma espécie de “12 Macacos” com pitadas de “Akira” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança”. Nele, Joseph Gordon-Levitt vive um executor da máfia encarregado de dar cabo de vítimas despachadas do futuro, numa engenhosa artimanha para se livrar das evidencias (leia-se corpos) num tempo em que as vítimas sequer existiam, ainda. O crime perfeito por excelência.

O que ele não contava era que, numa destas encomendas, fosse deparar com si próprio, envelhecido e encarnado na pele de Bruce Willis. A partir daí somos arremessados num frenesi de ação praticamente ininterrupta filmado de forma primorosa e com uma direção de arte estupenda que usa na medida certa conceitos políticos e estéticos – o futuro é “cyberpunk” e “retrô”, sem governo aparente e dominado pela máfia. Para fechar o pacote, os efeitos especiais são ótimos e estão a serviço da história.

Uma das melhores ficções científicas dos últimos tempos.

Excelente.

As Vantagens de ser invisível (2012), de Stephen Chbosky – Este filme começa como mais um daqueles mornos retratos de uma parcela da juventude reprimida e rejeitada por não se adequar aos padrões sociais, mas vai adquirindo consistência ao longo da projeção e termina como um emocionante libelo contra a educação moral castradora e a favor da liberdade e da aceitação das diferenças. Destaque para a trilha sonora, com clássicos do rock independente dos anos 80 e 90, especialmente The Smiths, Pavement, New Order, L7, Cocteau Twins e Sonic Youth - que são colocadas ao lado da clássica "Heroes" (77), de David Bowie, tratada como uma espécie de hino.

Muito bom.

O Impossível (2012), de Juan Antonio Bayona – Fui praticamente coagido a assistir este melodrama xaroposo ao ver as incríveis imagens do tsunami retratadas na obra num programa de televisão. As críticas também eram, em geral, bastante favoráveis. Fui enganado. Passados os 15, 20 minutos iniciais, que enfocam a tragédia propriamente dita e são realmente impressionantes, todo o resto se arrasta em um longo calvário que teria tudo para ser legitimamente dramático e emocionante, não fossem os recursos clicherosos usados pelo diretor para arrancar lágrimas dos expectadores. De mim, só arrancou exclamações de desgosto. Não perca seu tempo, muito menos dinheiro. Logo logo estará sendo exibido na sessão “Supercine”, da Rede Globo. Se sentirá em casa.

Destaque negativo para a trilha sonora, piegas ad infinitum.

Ruim.

O Hobbit (2012), de Peter Jackson – Nunca fui fã dos livros de JRR Tolkien. Prefiro George RR Martin e sua “guerra dos tronos”, muito mais profunda na construção dos personagens e realista na condução da trama, sempre cheia de nuances e intrigas políticas. Ele é, também, extremamente inteligente na utilização, a conta-gotas, dos recursos narrativos que envolvem a magia e a fantasia pura e simpes, que em Tolkien é a matéria prima em torno da qual toda a trama se define. Em Martin é um tempero a mais que deixa a leitura mais saborosa, mas não define a essência da obra. Por conta desse fator, nos livros de Tolkien tudo acaba se tornando mais fácil: se os personagens estão em apuros, basta que o mago branco recorra a seus poderes e águias voadoras gigantes surgirão em seu auxílio. Soa bobo, infantil. “Sessão da tarde”.

Por outro lado, a direção de arte e os efeitos especiais deste “O Hobbit” são realmente magistrais e merecem ser conferidos em tela grande, da melhor maneira possível – em 3D e/ou em alguma sala que permita a visualização neste novo formato no qual o filme foi rodado, a 48 quadros por segundo. Já o argumento é fraco: mostra a saga de Bilbo Bolseiro, recrutado para ajudar um grupo de anões a retomar seu reino, invadido por um dragão não se sabe por que – aparentemente para ficar dormindo num castelo em cima de uma pilha de tesouros. É uma espécie de “Dragão Tio Patinhas”. O que salva é o bom humor! O filme parece não se levar tão a sério e realmente diverte em vários momentos, com as trapalhadas do simpático porém desajeitado protagonista em meio ao grupo de anões bárbaros casca-grossa. E tem, também, a sempre impressionante aparição de Gollum – este sim, um personagem antológico.

Bom.

As Aventuras de Pi (2012), de Ang Lee – Visualmente deslumbrante, apesar de conceitualmente rasa, esta nova produção do eclético Ang Lee se baseia num livro assumida e vergonhosamente plagiado de uma obra do gaúcho Moacyr Scliar. Nela, o personagem principal, Pi (de Piscine) é jogado ao mar tendo como única companhia uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de bengala. A luta pela sobrevivência acaba deixando o protagonista a sós com Richard Parker, o tigre – fruto de um impressionante trabalho de computação gráfica - e então eles têm que aprender a conviver e sobreviver nas condições mais adversas possíveis, sozinhos e à deriva no meio do oceano. Emoldurando tudo, belíssimas imagens oníricas dos delírios de Pi em meio às maravilhas da natureza, reais ou fantasiosas, como a ascenção de águas vivas fosforescentes na semi-escuridão da noite estrelada e a ilha-viva na qual buscam abrigo. É outro que precisa ser visto em tela grande, de preferência em 3D.

No final, o diretor quase põe tudo a perder com uma ridícula explicação didática para as metáforas mostradas ao longo da projeção. Tratou os expectadores como se fossem débeis mentais incapazes de ver além do que lhes é oferecido de bandeja para acompanhar a pipoca e o refrigerante. Mas o pior é que a maioria dos freqüentadores dos atuais multiplexes de shopping centers se encaixam perfeitamente no estereótipo ...

Bom.

Cosmópolis (2012), de David Cronenberg – Sempre fui fã de David Cronenberg, mas confesso que nem sempre consegui captar sua mensagem por inteiro. “Gêmeos, uma mórbida semelhança”, por exemplo, segue sendo, para mim, um enigma. Mas gosto muito do filme. Não é o caso deste. Simplesmente ODIEI, do fundo do meu coração, esta suposta alegoria do mundo dos milionários de Wall Street e sua vida cheia de luxos e vazia de significados. Achei tão chato quem nem consegui assistir até o fim! Sério, com cerca de uma hora e meia de projeção desisti. Fui embora. Não entendi, nem fiquei com vontade de entender.

Não sei.

A Viagem (2012), de Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer – Finalmente os irmãos Wachowski aparecem com uma obra digna da consagração que alcançaram com o revolucionário “Matrix”, de 1999. “A Viagem” é uma ambiciosa “tour de force” através do tempo que conta uma série de histórias paralelas entrelaçadas entre si e amarradas por conceitos legítimos, apesar de questionáveis: a reencarnação e a imortalidade da alma humana. O mais incrível é que cada trama se desenvolve em um gênero diferente, do drama à comédia, passando por intrigas políticas, distopias, questões ecológicas, ação e ficção científica. A maquiagem é perfeita e permite que os mesmos atores interpretem personagens totalmente diferentes entre si e de si mesmos, como pessoas. Já a montagem é primorosa, pois conduz o roteiro num fluxo contínuo e ritmo perfeito, costurando a ação de modo a conciliar os diversos níveis de tramas e subtramas, permitindo que todas cheguem ao clímax e tenham um desfecho ao mesmo tempo, de forma absolutamente sincronizada. É como se, numa orgia, todos os participantes conseguissem chegar ao orgasmo ao mesmo tempo – eu sei, fui longe na analogia, mas o filme merece, já que é totalmente superlativo.

Uma aula de narrativa. 

Muito bom.

Ted (2012), de Seth MacFarlane – Excelente comédia de humor negro que teve a sorte de contar, no Brasil, com a publicidade gratuita gerada na mídia por um deputado idiota saudoso dos tempos da censura. O imbecil levou o filho, menor de idade, para assistir o filme, claramente desaconselhado para sua faixa etária, e saiu do cinema alardeando que iria pedir oficialmente a proibição do mesmo, por suposto “incentivo ao consumo de drogas” e coisas do tipo. Como era de se esperar, teve o efeito contrário: não só o filme não foi proibido como sua atitude atraiu mais público para a película.

John, vivido por Mark Wahlberg, é um adulto que não consegue se desgarrar da amizade por seu ursinho de pelúcia de estimação, miraculosamente animado a partir de um típico (e surreal) “milagre de natal”. A premissa é realista: TED, o ursinho, vira uma celebridade, para logo em seguida cair no ostracismo, quando as pessoas se acostumam com o fato de que há um brinquedo vivo circulando pela cidade. Sua relação com John, no entanto, prossegue, passando por todas as fases do crescimento, com direito a alguns hábitos não muito recomendados pelo Ministério da Saúde e pelos moralistas de plantão, como o consumo de drogas e o sexo irresponsável. Acontece que a presença de TED acaba aprisionando seu já bem crescidinho amigo – ele tem 35 anos - numa armadilha que o impede de amadurecer e assumir responsabilidades, fato que começa a atrapalhar seu relacionamento com Lori (Mila Kunis), a namorada paciente e compreensiva – vale aqui destacar uma das grandes virtudes do filma, a de não cair na misoginia tão comum em produções do gênero e retratar a personagem feminina como uma chata castradora e dominadora.

A premissa é ótima e o desenvolvimento da trama é satisfatório, apesar de esquemático, o que garante uma hora e quarenta e seis minutos de diversão PARA ADULTOS! Não é uma produção da Disney! NÃO É para toda a família.

Muito bom

Hotel Transilvania (2012), de Genndy Tartakovsky – Fui assistir porque achei o treiler divertido, além de gostar dos trabalhos que Gendy Tartakovsky fez para a televisão – especialmente “Samurai Jack” e “As Guerras Clônicas” – mas me arrependi amargamente. É um amontoado de clichês e piadas sem graça que conta a história de um Hotel exclusivo para monstros criado pelo Conde Drácula. Lá ele, pai superprotetor, praticamente aprisiona a filha adolescente que, sedenta por aventuras, acaba se apaixonando por um garoto humano apalermado e ridículo que aparece por lá por acaso.

Não veja. Não deixe seu filho ver. Prefira mostrar a ele a versão original do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Ruim.

Histórias Cruzadas (2011), de Tate Taylor – Comédia dramática que emociona sem deprimir ao contar a história de uma aspirante a jornalista que resolve relatar num livro as desventuras das empregadas negras de uma pequena cidade do Mississipi em plena época da luta pelos direitos civis, em 1962. Para tanto ela precisa superar, principalmente, o medo das protagonistas diante das represálias que podem sofrer caso sejam identificadas por seus patrões e algozes – ou melhor, por suas patroas. O enfoque, aqui, é quase que completamente feminino. Homens, apenas em papéis secundários ou como coadjuvantes de luxo, caso do Reverendo Martin Luther King, do presidente Kennedy e de Jesus Cristo.

Da necessidade mesquinha da instalação de banheiros segregados fora da “casa grande” à vingança escatológica e sofisticada de uma “mucama” injustamente demitida, acompanhar histórias como estas, que parecem mentirosas de tão surreais em sua profunda injustiça, nos faz compreender a importância da eleição de uma pessoa como Barack Obama ao cargo máximo da nação mais poderosa do mundo.

Muito bom.

Killer Joe (2011), de William Friedkin – Confesso que perdi o fio da meada e nunca mais tinha ouvido falar em Willian Friedkin, sensacional diretor que já poderia muito bem estar aposentado e vivendo dos louros da glória por ter produzido clássicos como Operação França I & II (numa época em que não era comum as continuações serem tão boas quanto os originais) e “O Exorcista”.

Pois bem: ele não está. Aposentado. Dirigiu, recentemente, uma interessantíssima película com cara de produção independente a la Tarantino que conta a história de uma família disfuncional na qual o filho planeja a morte da mãe para que seu espólio seja herdado pela irmã, bonitinha porém meio apalermada, com a ajuda do pai e de sua madrasta sem noção. Não menos sem noção do que todos os que se envolvem na trama, onde tudo dá errado – nisto lembra “Fargo”, dos irmãos Cohen.

Tem pelo menos uma cena corajosa e antológica, a que envolve Matthew McConaughey (excelente), Gina Gershon e um pedaço de frango. E um final desconcertante – até para mim, que sempre gostei de finais “em aberto”.

Bom.

O Som do ruído (2010), de Ola Simonsson e Johannes Stjärne Nilsson – Interessantíssima alegoria do papel revolucionário da música - esteja ela onde estiver, seja na harmonia de uma orquestra sinfônica ou na estridência de uma britadeira - em nossas vidas. Na trama, um grupo de músicos anarquistas inferniza a vida de um policial que, apesar de vir de uma família também de músicos, não tem o menor ouvido musical. Eles, os “terroristas musicais”, criam perfomances nos lugares mais inusitados, como uma UTI, na qual extraem notas dos aparelhos e dos batimentos cardíacos do paciente. Criativo, instigante, surreal e divertido.

Destaque para a trilha sonora, como não poderia deixar de ser.

Muito bom.

Rebelde com causa (2009), de Miguel Arteta – Comédia romântica um tanto quanto alucinada que conta a história de Nick Twisp (Michael Cera), um adolescente tímido obcecado por sexo que, para seduzir a bela Sheeni Saunders (Portia Doubleday), desenvolve uma personalidade paralela destemida e sedutora chamada François. François faz de Nick um procurado pela justiça e tudo começa a sair de controle.

Merece uma conferida.

Bom.

Uma Vida iluminada (2005), de Liev Schreiber – Divertida e excêntrica comédia dramática que conta a história de um “nerd” judeu colecionador de objetos pertencidos a pessoas mortas que parte para a Ucrânia à procura de revelações sobre o passado de seu avô, tendo como única pista uma foto e um nome escrito no verso da mesma. Lá, cai nas mãos de uma empresa turística picareta tocada por Alex Jr., um jovem ucraniano fã de Michael Jackson e de disco music (vivido por Eugene Hutz, vocalista da banda Gogol Bordello - que assina algumas das canções do filme), de seu avô rabugento que finge estar cego e da simpática Sammy Davis Jr. Jr., sua cadela de estimação.

Do meio para o final fica excessivamente melodramático e piegas, mas isto não faz com que o filme, como um todo, perca sua graça. A questão é que, convenhamos, já estamos todos um tanto quanto cansados de ver retratado nas telas o quanto os judeus sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Sim, eles sofreram. Muito! Mas não foram os únicos. E, hoje em dia, é impossível não comparar o que passaram com o que o governo de Israel faz com os palestinos.

Bom.

Quadrophenia (1979), de Franc Roddam - Filme baseado na ópera-rock homônima do The Who. É bem menos pretensioso e melhor resolvido que a adaptação de Tommy – bizarrinha e “ligeiramente” afetada, vamos combinar. Disponível em DVD, pode ser facilmente encontrado a preço promocional – eu comprei o meu num supermercado perto de casa.

Considerado um clássico da cinematografia britânica, “Quadrophenia” retrata a vida de Jimmy, um “mod” e espécie de alter-ego de Pete Towsend adolescente. Ele incorpora pra valer os ideais do “movimento”, o “lifestile” – sempre em festas regadas a muita soul music da motown, em cima de uma lambreta enfeitada e cheia de retrovisores (a curiosa opção estética surgiu a partir da imposição da lei britânica, que exigia ao menos 1 retrovisor) ou às turras com os “rockers”, a principal gang rival. Mas o tempo vai passando e torna-se evidente a necessidade de se fazer concessões. Sucumbir, pelo menos em parte, à realidade da vida. Jimmy vê seus amigos crescerem e, supostamente, “amadurecerem”, se adaptando às exigências castradoras da convivência social. Mas ele não quer crescer, não dessa maneira. O problema é que, ao que parece, ele não sabe muito bem exatamente o que quer. Não pode, por motivos óbvios, continuar sendo um arruaceiro narcisista vivendo a vida como se ela fosse terminar no dia seguinte para sempre, mas também não quer acabar acomodado e barrigudo como seus pais - o dilema típico de todo adolescente rebelde. Conseguirá nosso herói escapar das garras do sistema opressor ? Descubra – ou não – ao final da projeção, ao som da bela "Love, Reig O´er Me".

Grande roteiro, grandes atuações, excelente reconstituição de época e a presença de um jovem Sting como o “mod modelo” que no final das contas, quando o glamour da noite passa e é necessário se render à rotina do dia a dia, se revela apenas um ...

BELL BOY !!!!

Clássico.

Psicose (1960), de Alfred Hitchcock – Uma daquelas obras eternas que nunca envelhecem. Para ser visto e revisto e eternamente apreciado e reverenciado. Uma obra-prima que segue inspirando e influenciando até hoje. Influencia, inclusive, “A Grande Família”, umas das melhores produções da televisão aberta brasileira, que presta homenagem ao clássico na figura do personagem “Beiçola” e sua fixação doentia pela mãe falecida.

O olhar de Anthony Perkins/Normam Bates, no final, ainda assusta. E muito.

Clássico absoluto.

A Um Passo da eternidade (1953), de Fred Zinnemann – Um daqueles que costumam freqüentar, merecidamente, as listas de melhores filmes de todos os tempos. Retrata o dia-a-dia de uma Base militar americana no Pacífico às vésperas do bombardeio japonês a Pearl Harbour. Brilhantes interpretações de Montgomery Clift como o boxeador traumatizado moralmente assediado por seus pares; de Burt Lancaster, na pele de um oficial que vive um tórrido amor proibido que se consuma na clássica cena do beijo na praia, lascivamente apaixonado e escandaloso – para a época, evidentemente; e de Frank Sinatra, aqui o soldado Angelo Maggio, de origem italiana e temperamento esquentado, que tem um forte atrito com o sargento "Fatso", da prisão da base, e que, ao ser preso por insubordinação, fica nas mãos de seu inimigo declarado

Clássico.

terça-feira, 5 de março de 2013

Adiós, comandante.

(***) Os arranha-céus de Caracas, construídos nos anos 60, parecem mais feios que o habitual. O Hotel Gran Melia também não é atraente. O teto kitsch do saguão gigantesco lembrava a Escola de Dubai (por que o petróleo parece gerar sempre uma arquitetura tão ruim?) e eu desejei ter me hospedado, como faço normalmente, no Hilton, um hotel decrépito, despojado e tristonho, mas cheio de clima. Eu estava em Caracas para falar numa conferência sobre redes globais de mídia, e participar de uma reunião do conselho consultivo de uma emissora de notícias a cabo em espanhol e português, a Telesur - criada em conjunto por Venezuela, Argentina, Uruguai, Bolívia, Cuba e, agora, Equador. Planejada para oferecer uma alternativa à visão de mundo da CNN/BBC, a nova emissora é um sucesso modesto, com algo entre cinco e seis milhões de telespectadores regulares. Os canais privados dedicam horas à cobertura de votações no Congresso americano, ou de um assassinato numa universidade dos Estados Unidos. A Telesur anuncia esses fatos rapidamente, e devota o restante do noticiário a entradas ao vivo da Nicarágua, onde ocorrem eleições. Ou do Equador, onde um referendo, que servirá de base para a confecção de uma nova constituição, foi vencido pelo novo governo.

Num seminário em Caracas, em 2003, levantei pela primeira vez a idéia de criar uma emissora que se contrapusesse às redes comprometidas com o Consenso de Washington. Adotaram a sugestão prontamente, mas o nome que propus - al-Bolívar - foi rejeitado com firmeza. Era inadequado, disseram-me, pois excluiria o maior país do continente, que não tinha qualquer vínculo com o Libertador. No fim das contas, o Brasil se excluiu sozinho. "Por que você não apóia a Telesur?", perguntou Chávez a Lula. "Não sei", respondeu o brasileiro, com expressão envergonhada. A razão era óbvia: ele não quis confrontar a mídia brasileira ou irritar Washington. Mesmo assim, a Telesur está começando a conquistar telespectadores no seu país.

O centro de convenções estava cheio para ouvir o discurso de Chávez. Quando já estávamos todos sentados, ele entrou e trocamos algumas cortesias. "Você deve estar feliz, agora que Blair está indo embora", disse-me. Observei que minha felicidade era um tanto limitada pelo sucessor. "Long live the revolution", ele falou, exercitando seu inglês.

E nos sentamos para seu discurso de três horas, que foi transmitido ao vivo pela televisão. Ocasiões como essa sempre me fazem desejar ter levado comigo uma cesta de piquenique. O discurso foi bastante típico. Alguns fatos (exemplo: o crescimento da receita com o petróleo, acarretado pelo aumento dos royalties, chega a alguns bilhões de dólares); filosofia rudimentar; autobiografia; um relato de sua conversa mais recente com Castro, justaposto a uma estimativa do tempo gasto pelos dois proseando um com o outro (bem acima de mil horas); seu orgulho pelo governo venezuelano patrocinar o filme de Danny Glover sobre Toussaint L'Ouverture e a revolta dos escravos haitianos; os horrores do Iraque ocupado; um contundente ataque ao papa por sua sugestão, feita durante a visita ao Brasil, de que a população indígena não sofreu maus-tratos e abraçou Cristo por vontade própria.

À acusação contra o papa seguiu-se um canto improvisado, que normalmente indica a aproximação do fim do discurso, mas dessa vez a preleção continuou. Seguiu-se um breve (trinta minutos) desvio histórico, dedicado em sua maior parte a Bolívar, e ao modo como ele foi traído por homens a soldo da aristocracia/oligarquia local: "Os livros escolares de história nunca falam dessas traições".

Houve então uma discussão sobre a sobrevivência do planeta, antes que o discurso terminasse com um slogan tomado de empréstimo à Cuba de tempos ruins: "Socialismo ou Morte". Trata-se de uma mensagem realmente medonha. Quando fiz ver a um dos auxiliares de Chávez o quanto aquilo soava ameaçador, ele me explicou que o presidente estava em "modo Rosa Luxemburgo". O que ele queria dizer, na verdade, era "Socialismo ou Barbárie". Não me convenceu.

Chávez parecia estar ligeiramente contido. Especulei se seu verdadeiro público-alvo não seria formado pelos soldados do exército. No dia seguinte, o ex-vice-presidente, José Vicente Rangel, contou-nos que houvera um complô colombiano-estadunidense para infiltrar na Venezuela paramilitares colombianos, inclusive atiradores de elite. O objetivo, afirmou ele, era criar um estado de emergência nacional: membros do governo e líderes da oposição seriam assassinados, e um lado culparia o outro. Um plano para matar Chávez, envolvendo três oficiais graduados do exército, fora descoberto mais ou menos simultaneamente. Dois dos aspirantes a assassinos estavam na prisão; o terceiro, segundo se informou, fugira para Miami.

Os estudos militares de Chávez lhe ensinaram que o inimigo jamais deve ser reduzido ao desespero, pois isso só o fortalece. Sua estratégia é oferecer rotas de fuga. Ele e seus seguidores não são vingativos, e o coro da mídia ocidental que retrata seu regime como autoritário passa muito longe do alvo. Esse coro estava a plenos pulmões quando visitei Caracas. O motivo dessa vez era uma estação de televisão privada (RCTV), cuja concessão de vinte anos o governo recusara-se a renovar. A RCTV, juntamente com a maior parte da mídia venezuelana, envolveu-se no golpe de 2002 contra o governo (democraticamente eleito) de Chávez. Arregimentou apoio para o golpe, falsificou imagens para sugerir que os seguidores do presidente estavam matando pessoas e, quando o putsh fracassou, não exibiu uma única imagem da recondução triunfante de Chávez ao poder. Um ano depois, fizeram prolongados apelos aos cidadãos para que derrubassem o governo durante uma greve de petroleiros orquestrada pela oposição. Mais uma vez, não estavam sozinhos, mas suas conclamações estimularam a violência.

Quando um repórter do Guardian me perguntou se eu apoiava a decisão, respondi que sim. Ele ficou escandalizado: "Mas agora a oposição ficou sem seu canal de televisão". Perguntei-lhe se a oposição na Grã-Bretanha, ou em qualquer outro lugar da Europa ou da América tinha "sua TV". Que governo ocidental toleraria uma coisa dessas? Thatcher se recusou a renovar a concessão da Thames TV, que se limitara a exibir um único documentário crítico. Blair demitiu Greg Dyke e emasculou a BBC. Bush se dá ao luxo de ter canais noticiosos acríticos, além da Fox como rede de propaganda.

Fiz um alerta sobre a obsessão com o poder da mídia na conferência. Afinal, Chávez venceu seis eleições apesar da oposição quase universal da imprensa. Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador, também tiveram êxito apesar de uma oposição pertinaz. Isso não é verdade só na América do Sul. Os franceses votaram contra a Constituição Européia sem o apoio de um único jornal ou emissora de televisão.

(**) Em 2007, gostaria de ter questionado Chávez sobre se ele não estava pesando a mão demais em seu “socialismo do século 21”. Encontrei parte da população, e falo dos chavistas, assustada com as propostas que o presidente estava fazendo para mudar a Constituição, principalmente em relação à propriedade privada – e de fato perderia o referendo por isso. Depois, queria ter lhe indagado: “quando o senhor vai fazer seu sucessor? Não vai seguir o exemplo de Lula?”

Por último, quando apareceu em sua derradeira foto, ainda em Cuba, ao lado das filhas, na cama, com um sorriso artificial no rosto que me lembrou Tancredo Neves, gostaria de ter perguntado, ou melhor, lhe dito: “Presidente Chávez, convoque eleições”. A Venezuela teria ficado em situação mais confortável se seu líder tivesse feito isso antes de adoecer tão gravemente, deixando o país em um estado de suspensão que durará até a nova eleição, a ser convocada em 30 dias, de acordo com a Constituição. Será que não faltou um bom amigo, um conselheiro, para dizer isso a ele?

Eu admirava o presidente Hugo Chávez. Em Caracas, conheci a história da Venezuela e me informei sobre os projetos importantes que desenvolveu em 12 anos de governo. Estive com jovens entusiasmados em construir uma nação diferente a seu lado. Jovens com boa formação política, em um país plenamente consciente de seus direitos, onde todo cidadão conhece a Constituição. As leis são vendidas nas ruas e as pessoas compram os livretos para lerem e se informarem sobre tudo. Imaginem, camelôs de leis. Isso me impressionou muito.

Há políticos e há os Hugo Chávez, que aparecem uma vez na vida de um país, para o bem e para o mal – e Chávez, com todos os defeitos que pudesse ter, foi para o bem. O mundo fica pior quando um político assim se vai. É o tipo de homem público que tem ideias próprias, que não teme desafios, que tem sonhos, objetivos de transformação. Um líder latino-americano tão importante para o equilíbrio do poder no mundo que só se vai reconhecer seu papel histórico, estou segura, alguns anos mais para a frente. Um homem de Esquerda, com letra maiúscula. Sobre isso não resta nenhuma dúvida.

(*) Nos quase 14 anos como presidente da Venezuela, o tenente-coronel reformado Hugo Chávez, morto nesta terça-feira 5 vítima de um câncer, construiu uma imagem associada ao bolivarianismo. Dono do lema “socialismo do século XXI”, ampliou o papel do Estado na economia com nacionalizações, controle de preços  e parcerias público-privadas.

Afastou-se dos Estados Unidos, seu maior parceiro comercial, e reforçou laços com o regime cubano de Fidel Castro. Por outro lado, buscou criar alianças estrangeiras com potências emergentes, como China, Rússia e Brasil.

Crítico ferrenho do capitalismo, que acusou de “expropriar o povo” e de ser “a condenação da raça humana”, Chávez procurou adotar medidas para diminuir a desigualdade no país. Apoiado nas receitas geradas pelo petróleo da Venezuela, que detém as maiores reservas do mundo, reduziu os níveis de pobreza de 42% para 9,5%.

“Assumimos o compromisso de dirigir a Revolução Bolivariana até o socialismo do século XXI, baseada na solidariedade, fraternidade, amor, liberdade e igualdade”, disse ao ser reeleito em 2006.

Ao longo dos anos, demostrou-se um influente ator na América Latina, trabalhando com Bolívia, Cuba e Equador.

A partir de 2003, o governo passou a mostrar maior intervencionismo na economia, com controles como a fixação dos preços de alimentos básicos, como arroz, farinha e leite.

Com a elevação dos preços do petróleo em 2004, Chávez pediu uma série de reformas legais que permitiram o aumento das receitas com o item por meio de impostos e controle acionário dos projetos de energia concedidos na década de 1990 a petroleiras privadas nacionais e estrangeiras.

Com o lema “O petróleo é agora de todos”, o carismático líder armou uma estrutura de fundos que permitiu o uso de enormes recursos para reforçar suas políticas sociais, mas também para financiar uma onda de nacionalizações que caracterizariam sua política econômica.

Chávez ordenou a recuperação de mais de 2,5 milhões de hectares de terras de propriedade privada e a nacionalização de setores estratégicos, como cimento, aço, telecomunicações, alimentos, elétrica ou bancário.

A siderúrgica argentina Sidor, a empresa mexicana de cimento Cemex, o banco espanhol Santander ou os supermercados Êxito – com participação acionária francesa -, são alguns dos principais nomes nesta série de expropriações.

Enquanto isso, também com recursos do Estado, Chávez promoveu a criação de cooperativas, empresas cogeridas e de produção social como novas formas de “propriedade solidária”.

No entanto, o setor privado ficou com cada vez menos espaço de manobra por causa do controle do Estado e da inflação galopante. Em 2009, o Estado atingiu mais de 30% do PIB, uma ameaça à sua própria sobrevivência. A nova dinâmica nacional também foi estendida aos seus parceiros externos.

Confrontando politicamente os EUA, seu principal parceiro comercial, o governo de Chávez começou a buscar novos mercados, mais de acordo com a sua linha ideológica, como China, Rússia e Brasil.

A China, que até recentemente não estava no mapa econômico da Venezuela, é agora o segundo destino do petróleo nacional (500,00 b/d) e também um de seus principais financiadores, graças a uma série de acordos pelos quais o governo de Chávez conseguiu empréstimos de mais de 30 bilhões de dólares em troca de petróleo.

O PIB da Venezuela, que em 1998 foi de 91 bilhões de dólares, foi para 328 bilhões em 2011, impulsionado principalmente pelo aumento dos gastos governamentais.

O governo de Chávez, no entanto, não conseguiu controlar a alta inflação e evitar a escassez de commodities cíclicas e os efeitos disso sempre são sentidos nas massas, que seu governo sempre alegou tanto proteger.

Ao mesmo tempo, o país, com uma moeda supervalorizada para efeito de controle de câmbio, se tornou muito dependente das importações de produtos agrícolas, em particular.

Por diversas vezes, o líder bolivariano foi criticado pela oposição por tentar dominar os meios de comunicação do país e se fazer onipresente na vida dos venezuelanos. Seduzia com o povo de forma carismática e desafiava constantemente seus opositores, que o derrotaram em poucas ocasiões nas urnas.

Poucos meses após assumir o poder em 1999, lançou o programa dominical “Alô, Presidente”, com duração média de cinco horas aos domingos. Como principal plataforma de exposição, utilizou as cadeias de rádio e televisão (de transmissão obrigatória) para informar os venezuelanos, liberar recursos ou inaugurar obras em aparições sempre impregnadas por um estilo próprio, com piadas, contos e músicas.

Também atacava a oposição e os meios de comunicação privados, que chamava de “apátridas”, “burgueses” ou “imperialistas”. As acusações de conspiração contra seu governo eram constantes.

Mas a “guerra midiática”, como afirmava Chávez, começou realmente durante o golpe de abril de 2002, que o afastou do poder por 48 horas, quando os canais privados optaram por exibir desenhos animados e não informar sobre as manifestações nas ruas que pediam o retorno do presidente.

Chávez decidiu em 2007 não renovar a concessão da RCTV, a mais antiga emissora de televisão do país, que tinha grande audiência, o que provocou uma onda de protestos liderados por estudantes e muitas críticas internacionais.

Desde então, apenas um canal de oposição continuou com transmissão em sinal aberto, a Globovisión, mas com um alcance limitado a Caracas e à cidade de Valencia, enquanto a frequência da RCTV – a de maior alcance – passou a ser usada pela estatal TVES.

A Globovisión, apesar de não ter sofrido o mesmo destino da RCTV e de outras 30 emissoras de rádio, recebeu multas milionárias, dezenas de processos administrativos e acusações contra os sócios do sócios do canal, chamado por Chávez de “terrorista midiático”.

Em abril de 2002, Chávez foi deposto por um golpe da cúpula militar em meio a manifestações contra seu governo. Pouco depois, acabou devolvido ao poder por militares leais e multidões entusiasmadas.

Após o golpe, Fidel Castro forneceu milhares de médicos, agrônomos, assessores militares e militantes a Chávez para montar as chamadas “missões” sociais que lhe deram mais apoio popular. Este, por sua vez, se tornou o salvador de uma Cuba frágil após a queda da União Soviética, com o fornecimento de petróleo e ajuda econômica.

Chávez também passou a criar iniciativas regionais como o grupo de integração econômica e coordenação política Aliança Bolivariana das Américas (ALBA), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e ilhas caribenhas anglófonas, assim como o Petrocaribe, de subsídios petroleiros.

Implacável com os opositores, isolou quem não estava com ele e retomou de Fidel Castro os EUA como inimigo do país. No entanto, foi suficientemente pragmático para manter seu calendário de eleições e referendos e para seguir enviando um milhão de barris diários de petróleo a Washington.

Chávez governou de forma pouco convencional, misturando seu olfato político e o ensino militar, delegando poderes apenas a um pequeno grupo de colaboradores, do qual talvez saia seu herdeiro político.

Sob esta ótica, seu chanceler e vice-presidente, Nicolás Maduro, foi apontado como seu sucessor no auge de sua batalha contra o câncer. Definido por Chávez como “um revolucionário por completo, um homem com muita experiência, apesar de sua juventude”, Maduro foi designado pelo bolivariano para sucedê-lo em 9 de dezembro, dois dias antes de embarcar para uma cirurgia em Cuba.

Ao morrer, Chávez concentrava um grande poder em suas mãos. Era presidente, comandante-em-chefe das Forças Armadas e presidente do PSUV. Além disso, seus partidários controlam a maioria parlamentar e ostentam uma maioria no Supremo Tribunal de Justiça.

Filho de dois professores de educação primária e criado por sua avó materna, Chávez cresceu em Sabaneta, estado de Barinas (sudoeste). Casou-se e se divorciou duas vezes, e teve quatro filhos.

*** Tariq Ali na revista piauí de agosto de 2007
** Cynara Menezes em Carta Capital
* AFP/Carta Capital

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Yoani Sánchez, sem Histeria nem maniqueismo

Falta um dente no sorriso da blogueira “milionária”, como parte da esquerda se esforça em catalogar Yoani Sánchez. Tanto o endeusamento patrocinado pela mídia internacional quanto a tentativa de reduzi-la a uma mera agente a serviço dos Estados Unidos foram os responsáveis por elevar a jornalista de 37 anos ao patamar de opositora mais visível do regime cubano hoje.

No Brasil, Yoani foi recebida praticamente como chefe de Estado por políticos da oposição, com direito a interromper uma sessão da Câmara para que ela conhecesse o plenário. A blogueira cubana iniciou aqui uma turnê por 12 países da América Latina e Europa, além dos Estados Unidos, que se tornou possível após Cuba ter mudado a política migratória, em janeiro. Antes disso, Yoani havia feito 20 tentativas de sair da ilha nos últimos cinco anos, em vão. Ela é pequena, muito pálida e magra. Seus cabelos longos lhe conferem um certo ar de evangélica. Calma, enfrentou estoicamente os protestos furiosos e despropositados de militantes do movimento estudantil em sua passagem pela Bahia, na semana passada. Ao falar, porém, sua voz grave se impõe, é articulada e soa extremamente convicta de seus objetivos.

O objetivo número um é, claro, derrubar o regime de Fidel e Raúl Castro. Para isso, Yoani Sánchez não parece preocupada em se unir a quem for. Foi nomeada vice-presidente para Cuba de uma entidade patronal de imprensa, a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), e não demonstra interesse em discutir problemas de direitos humanos a não ser em seu país. Sempre que perguntada sobre os presos norte-americanos na base de Guantánamo, por exemplo, responde: “Acho um horror, uma ilegalidade. Infelizmente não posso fazer nada quanto a isso”. Na Câmara dos Deputados, posou ao lado do que há de pior na política brasileira, como o líder ruralista Ronaldo Caiado e o brucutu homofóbico Jair Bolsonaro.

Hábil com as palavras, a cubana recorre a frases de efeito para responder questões mais difíceis, como a recorrente pergunta sobre a educação e a saúde cubana, apontadas como exemplo de que há coisas boas no regime que tanto critica. “É como se eu fosse um passarinho que deveria estar feliz na gaiola só porque recebo alpiste e me ensinam alguns truques. Eu quero voar”, diz. A frase é ótima e ela a repete em toda parte.

Tampouco adianta tentar fazer comparações entre problemas de outros países com os que enfrenta no seu, que ela se sai com essa: “É como se eu estivesse com dor de dente e alguém viesse me dizer: ‘você reclama, mas eu tenho dois dentes doendo’. Isso não vai fazer com que o meu pare de doer.” Justiça seja feita: Yoani não foge de nenhuma pergunta, muito embora a condescendência com que foi tratada pelos repórteres no Brasil não tenha sido exatamente um desafio. Ela nega o suposto financiamento que teria de entidades governamentais dos EUA, atribuindo a “difamações” propagadas pelos Castro.

Sempre muito assertiva sobre a “Cuba futura” que antevê, sem Castro algum no horizonte, Yoani deixa escapar certo temor de uma jogada do regime que poderia atrapalhar seus planos: que Mariela Castro, filha de Raúl, seja escolhida como sua sucessora. Ou seja, uma saída “à Dilma Rousseff” para Cuba. Será? Yoani Sánchez falou com exclusividade a CartaCapital em Feira de Santana (BA).

CartaCapital – Você é de esquerda ou de direita?
Yoani Sánchez – Me considero uma pessoa pós-moderna, acho que estes limites já não estão tão claros. Sou uma defensora da liberdade de expressão, sobretudo da liberdade de imprensa. Para muitas pessoas isso me colocaria ao lado dos liberais, do liberalismo. No entanto, até por origem –venho de uma família de ferroviários que vivia num cortiço–, também me preocupa a situação que vivem agora os mais desfavorecidos de meu país, com todas estas reformas de corte neoliberal que Raúl Castro está fazendo. Por um lado, estão criando oportunidades para o setor privado, mas, por outro, estão criando grandes diferenças sociais. A compra e venda de casas, por exemplo, uma medida largamente desejada, está provocando a redistribuição classista dos bairros. Gente que tem mais dinheiro vai para os melhores bairros e os que têm menos, para a periferia. Se continuar assim, teremos uma Cuba tão neoliberal quanto qualquer outro país, com as grandes diferenças e os grandes abismos. Neste ponto, eu poderia ser tachada como de esquerda.

CC – Você preferia que a revolução cubana não tivesse acontecido?
YS – Não, não. Penso que a revolução foi um bom detonante, uma necessidade para muitas pessoas. O problema foi quando a revolução se devorou a si mesma e deixou de ser uma revolução.

CC - Quando isso ocorreu?
YS – Essa é uma grande discussão. Meu marido, que é jornalista e mais velho do que eu, diz que a revolução terminou em 1968, quando Fidel Castro aplaudiu a entrada dos tanques soviéticos em Praga. Como uma revolução rebelde permite que um império – ainda que seja comunista é um império – termine com um processo nacional de rebeldia, de transformação? Outras pessoas dizem que a data foi 1980, com o êxodo de Mariel, quando mais de 120 mil cubanos disseram ao regime: ‘não gostamos deste sistema’. Minha mãe diz que para ela a revolução terminou em 1989, o ano em que fuzilaram o general Arnaldo Ochoa, que estava ligado ao narcotráfico, mas também foi um julgamento político. Ou seja, as datas são muitas. Eu não conheci a revolução. Nasci em 1975, sob muito estatismo, sovietização, rigidez. Aqueles rebeldes descidos da Serra Maestra, que pareciam tão jovens, com seus escapulários, tão reformistas, tão sonhadores, no momento em que nasci já eram uns burocratas de abdômen avantajado e muito cuidadosos cada vez que davam um passo, para que nada lhes fugisse do controle.

CC – Mas e se não tivesse ocorrido o embargo norte-americano? Poderia ser diferente, não?
YS – O embargo, sem dúvida, fez com que a revolução se radicalizasse e deu ao governo um argumento para explicar tudo. Mas eu não creio que o tema das liberdades fosse diferente sem o embargo. Simplesmente vivemos sob um sistema pensado para que o indivíduo não possa ser livre. Se é livre, começa a perguntar, a questionar, a se associar, a buscar informação, e o sistema não funciona, porque está baseado em que o mundo é um inferno e Cuba um paraíso. ‘Você tem que se conformar com o zoológico porque lá fora é a selva’: essa é a dicotomia que explora o governo cubano. E quando a pessoa abre os olhos, lê outra literatura, contata com outras pessoas, essa dicotomia começa a ruir.

CC – Para nós, o que parece injusto é que um país gigante tente espezinhar durante anos uma ilha pequena só porque decidiu fazer diferente e ser comunista.
YS – Esse é o símbolo de Davi contra Golias. Mas o Davi que eu conheço se chama povo cubano. E o Golias que faz a minha vida difícil é o governo de Cuba.

CC – Você não teme que acabe o regime dos Castro e Cuba caia em mãos dos cubanos de Miami, que são políticos da pior direita inclusive sob a ótica norte-americana?
YS – A Cuba do futuro tem muitos riscos, mas não é por isso que vamos nos conformar com o presente. Não é uma atitude de esquerda se paralisar por temor ao futuro. A atitude de esquerda é: vamos à mudança! E depois encontraremos soluções para os problemas que irão surgindo. Não tenho temor da miamização de Cuba, mesmo porque o exílio de Miami também é um estereótipo. Passaram-se 54 anos, os que se foram em 1959 ou nos anos 1960 já são octogenários. Chegou uma nova geração, com outra mentalidade. Nas últimas votações para presidente, um amplo setor da Flórida votou em Barack Obama. Enfim, não creio que o dilema nacional seja os Castro hoje ou Miami amanhã. Tem muita gente que diz: você não teme que chegue o McDonald’s em Cuba? Não, não temo, chegará. O que me preocupa agora é que o operário cubano, para comer um hambúrguer, precise trabalhar dois dias completos. Não me importa que se chame McDonald’s ou McCastro, mas que as pessoas tenham a oportunidade de ter um salário digno que lhes permita escolher entre comer vegetais ou um hambúrguer.

CC – Se Cuba vai tão mal, por que as pessoas não se revoltam?
YS – As pessoas em Cuba se rebelam emigrando. As revoltas cubanas não estão na praça Tahrir, estão do lado de fora dos consulados. As pessoas não têm consciência cívica, o Estado se ocupou tanto de tudo que meus contemporâneos sentem que o país não lhes pertence. O país é do governo, é do partido, de Fidel. Estão apáticos. Quando têm um pouco de rebeldia, não a usam para enfrentar um repressor na rua, mas para enfrentar um tubarão no estreito da Flórida. Creio que nós, cubanos, votamos com os pés. Não protestamos, mas votamos indo-nos do país.

CC – Agora que mudou a lei migratória pode haver um novo êxodo?
YS – Há muita gente planejando ir embora. Nos dias em que estive organizando os vistos, vi muita gente jovem do lado de fora dos consulados. É difícil, porque há vários requisitos para conseguir um visto, mas os cubanos são engenhosos. Então o que estão fazendo? Vendem suas propriedades e com esse dinheiro compram uma passagem para um país que não pede visto. Na Aeroflot, que voa de Cuba a Moscou, se esgotaram todos os bilhetes na primeira semana. Por quê? Porque a Rússia não pede visto para os cubanos. Então vão para lá e usam o país como trampolim para ir a outra parte. Sim, vai haver uma saída em massa.

CC – Escutei você falar relativamente bem de Mariela Castro. Poderia ser uma saída ao regime que ela se tornasse presidenta?
YS – Não acredito que ela queira. Me parece que está mais focada na sexualidade e em seu trabalho no centro de educação sexual. Sim, poderia ser uma maneira de moderar o regime. Mas creio que criaria inconformismo, seria uma evidência muito clara de nepotismo: do irmão mais velho ao caçula e à filha deste. Nos deixaria um sabor tão amargo na boca que, por melhor que fosse sua presidência, sempre nos ficaria a impressão de que somos um reino que se herda consanguineamente.

CC – E se fossem convocadas eleições e ela se candidatasse?
YS – Eu não votaria nela. Ainda que faça um trabalho muito bom do ponto de vista da sexualidade e do respeito às diferenças, me parece uma pessoa com sérias dificuldades para dialogar. Todas as vezes que tentei um debate de ideias, recebi respostas agressivas. Quando um político age assim, tem grandes possibilidades de se converter em um ditador. 

por Cynara Menezes 

Carta Capital 

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

30 Anos de "O Retorno de Jedi"

Em 1983 George Lucas estava às voltas com "O Retorno do(s) Jedi", desfecho da primeira trilogia "Guerra nas Estrelas". Ele já se preocupava com o futuro da saga e como aproveitaria o tempo livre quando deixasse essa história para trás. Abaixo, uma entrevista feita na época pela revista Rolling Stone. 

E vamos ver se um dia corrigem esse erro ridículo do título no Brasil: teria que ser o Retorno DO ou DOS jedi, pois não há nenhum personagem chamado "Jedi" na trama, trata-se de uma antiga ordem mística que comandava a republica e volta à ativa na figura de Luke Skywalker.

Já faz mais de 10 anos desde que George Lucas começou sua tentativa de vender a ideia do que ele mais tarde viria a chamar de “o filme dos meus filhos” para uma desinteressada Hollywood. Acabaria levando três filmes até que a ideia toda fosse registrada em celuloide. Star Wars (1977) arrecadou US$ 524 milhões em bilheteria no mundo todo. O sucessor, O Império Contra-Ataca (1980), US$ 365 milhões. Ambos estão na lista dos filmes mais alugados de todos os tempos na segunda e terceira colocação, atrás apenas de E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg. E então temos Caçadores da Arca Perdida, no qual Lucas atuou como produtor-executivo. O filme é o quinto na lista dos mais alugados. E temos todo o merchandise de Star Wars: US$ 1,5 bilhão em vendas brutas. Há também a Lucasfilm Ltd. e suas rentáveis subsidiárias, Industrial Light and Magic (efeitos especiais) e Sprocket Systems (serviços de pós-produção). Há as pesquisas em equipamentos de produção, computadores e videogames interativos. E finalmente há a construção em andamento dos 300 acres do Rancho Skywalker. E agora temos O Retorno de Jedi, o capítulo de US$ 32,5 milhões de dólares que fecha a trilogia do meio de um épico de supostas nove partes.

A avalanche de números que acompanha o lançamento de um filme de Star Wars tende a eclipsar alguns fatos interessantes. A Lucasfilm quase quebrou ao financiar Império independentemente; um empréstimo bancário de última hora foi necessário para que a produção fosse terminada. E os eventuais lucros deImpério resultaram em um outro problema: a companhia de Lucas começou a inchar. Lucas conta: “Fomos de dois funcionários no setor de merchandising para 80, e esses 80 estavam fazendo o trabalho de duas pessoas”. O staff foi radicalmente reduzido, e os sobreviventes foram relocados para o norte da Califórnia. O alvo primário da Lucasfilm agora é consolidar tudo no Rancho.

Duas semanas antes da estreia de Jedi, sentamos com George Lucas em seu tranquilo escritório nos fundos de sua casa, em São Anselmo. Ele havia acabado de voltar de seu trabalho como produtor-executivo no Sri Lanka, onde o amigo Steven Spielberg filmava a continuação de Caçadores, Indiana Jones e o Templo da Perdição. Conheci Lucas pessoalmente no set de Star Wars, em 1976, e logo me convenci que o que seus amigos de longa data vêm dizendo é verdade: o cara não mudou. Claro, calças mais formais e sapatos bem engraxados substituíram os tênis e os jeans, e um Mercedes tomou o lugar do Camaro 67, e, exceto pela distribuição, a Lucasfilm cortou virtualmente todos os laços que tinha com a indústria do cinema. Não precisa mais dela. Mas Lucas continua o mesmo cara modesto de fala mansa, com um sutil senso de humor difícil de transmitir por escrito.

Mesmo levando em conta que você não está mais dirigindo, tenho a impressão de que fazer filmes de Star Wars não esteja ficando mais fácil.
Jedi quase matou todo mundo, todos os departamentos, do figurino até o pessoal responsável pelas fantasias dos monstros e a sofisticação dos efeitos especiais. Foi duro para mim, tanto quanto Star Wars, tão difícil quanto dirigir. Não sei como me meti nessa. Demanda muito tempo, gera ansiedade e preocupação: “Será que vai ser bom? Vai funcionar? Por que está tudo dando errado o tempo todo?” E faz parte da minha personalidade. Estou muito envolvido emocionalmente com o filme, e assumi um compromisso enorme com ele. Já se passaram dez anos desde que comecei tudo isso. Comecei em 17 de abril de 1973, e entreguei o primeiro tratamento da história em 20 de maio. De 1º de maio de 1973, até a semana que vem, não houve um dia da minha vida em que eu não tenha levantado da cama e dito: “Caramba, tenho que cuidar desse filme”. Nem um dia sequer, mesmo quando estava de férias ou quando tinha sábados e domingos livres. Depois de Star Wars, fiz outras coisas e achei que estava livre, mas não estava. Continuava tão afundado quanto sempre. Estava fazendo Caçadores e More American Graffiti, construindo uma empresa e um rancho e fazendo outras coisas em paralelo, achando que tinha tempo para fazê-las. Mas não tinha. Parte do problema é que o sucesso fez com que eu não tivesse mais vida própria. Eu estava pronto para parar depois de American Graffiti [1973]. Pensei: “Bom, vou fazer só mais um filme. Vou fazer essa coisa de Star Wars”. E se Star Wars tivesse isso pelo ralo, tudo bem. Mas virou um sucesso gigante, que simplesmente tomou conta da minha vida. Você acaba ficando infeliz e se forçando a trabalhar até morrer. Star Wars tornou-se uma prioridade: “Temos que terminar. E se algo acontecer com algum dos atores? Não temos como manter os sets por muito mais tempo; custa muito dinheiro”. Tudo isso me colocou em uma situação ruim. Tenho uma filhinha de 2 anos, e a vejo por cerca de duas horas à noite e às vezes aos domingos, se tiver sorte, e estou sempre muito cansado e chato, me sentindo tipo, “Droga, eu devia estar fazendo outra coisa”. Eu meio que atropelo tudo o que faço. Mas, agora, acabou. Tenho que decidir de uma forma ou de outra se vai haver outra trilogia. Depende do quão bem esta se sair, de qual será a situação financeira e de como estará minha vida pessoal. Será que posso reestruturar minha vida de forma que minhas prioridades estejam na ordem correta? Minha família deveria vir em primeiro lugar e os filmes em segundo. Se eu não conseguir fazer funcionar desse jeito, então não vai haver mais nenhum filme. Aceitei que Star Wars tomasse a frente por tempo demais. Tenho tentado jogá-lo para trás. Toda vez que o chuto, ele volta. Acho que desta vez dei um jeito de uma vez por todas.

Quer dizer que você vai mesmo ter tempo livre? Vai viajar?
Sim. Vou tirar dois anos de férias, definitivamente, e vou ficar sem fazer nada. Vou ajeitar minha vida pessoal, meu corpo e minha mente e então fazer o que der na cabeça. Não estou planejando nada, sabe. Há coisas que eu sempre quis fazer, mas nunca tive chance. Vou resolver o que quero no dia e fazer. Sempre quis aprender a tocar guitarra. Quero voltar a dirigir carros de corrida – o que seja. De repente, minha vida vai ser minha de novo e não de Luke Skywalker e seus amigos.

A última meia-hora de O Retorno de Jedi é um espetáculo sensorial incrível. Há a batalha espacial definitiva, entrecortada por uma guerra no solo, que por sua vez é intercalada com a luta de Luke e Darth Vader com sabres de luz. Parecia que você estava dizendo ao público: “É isso, pessoal, está tudo aí”.
Foi tudo planejado para que as histórias se encaixassem. Estilisticamente, todos os filmes são planejados para ter um clímax, e esse meio que tem tudo ali. Quando começamos, dissemos: “Ok, agora vamos fazer do jeito que sempre quisemos. Temos dinheiro, conhecimento – agora é a hora”. O primeiro filme foi como se formar no ensino médio, o segundo foi como completar a faculdade, e esse foi nosso mestrado. É o melhor que podemos fazer, porque todo mundo sabia que este possivelmente seria o último. Qualquer que seja a proporção de Star Wars no plano geral da história do mundo, ao menos este está pronto. Se as pessoas quiserem observá-lo, poderão ver a peça completa. O roteiro besta que eu escrevi pela primeira vez há dez anos pelo menos foi finalizado. Agora está tudo no filme. Sempre pensei em reescrever a história, torná-la maior, porque originalmente foi escrita para ser algo simples. Não era para ser esse fenômeno gigantesco que se tornou. Você pensa: “E aí, agora o filme vai sobreviver à expectativa desse fenômeno?” Mas decidi manter o que havia feito e dizer: “Olha, foi tudo escrito assim há dez anos, e foi dali que eu parti. Se não for o suficiente, então boa sorte”. Você tem que ter essa atitude. Para o bem ou para o mal.

É a primeira vez que ouço você dizer algo positivo sobre um de seus filmes. No passado, você expressou desapontamento por uma ou outra razão.
Cada filme tem conquistas de que gosto. Não é que não goste dos meus filmes, mas, se eu olhar para eles agora, cada um falhou em alguma expectativa minha – porque acho que ou eu traço metas um pouco abaixo do esperado, ou porque hoje nos tornamos um pouco melhores no que fazemos. Você vê a cena do Jabba the Hutt [em O Retorno de Jedi] e diz: “Então era assim que a cena da cantina [em Star Wars] era para ser”. Ou você assiste a batalha final, e pensa, “Oh, era assim que a batalha final do primeiro filme era para ser”. Mas não tínhamos como fazer assim na época. Quero dizer, não era humanamente ou financeiramente possível. Assim, muitas dessas coisas eu acabei conseguindo fazer neste último. Finalmente consegui a batalha final que eu queria, e a batalha em terra que eu queria, e os monstros do jeito que eu queria. Você sabe, Star Wars hoje é um sucesso, mas eu não tinha nem ideia do que estava acontecendo. Não sabia nem se ia conseguir fazer os outros dois filmes. Joguei fora dois terços do roteiro original. Na minha cabeça, eu estava dizendo: “Caramba, se esse fizer bastante sucesso, então poderei fazer um filme com todo o material anterior que desenvolvi”. Império e Jedi foram o que aquele primeiro filme era para ter sido. E depois disso, posso contar outra história sobre o que aconteceu com Luke depois do fim da trilogia. Todas as prequels já existem: de onde Darth Vader veio, a história toda envolvendo Darth e Ben Kenobi, e tudo se passa antes do nascimentode Luke. A outra história – o que acontece com Luke depois de Jedi – é algo bem mais vago. Tenho um caderninho cheio de anotações a esse respeito. Se eu for realmente ambicioso, posso usar isso para imaginar o que houve com Luke.

Você se manteve firme na decisão de não voltar a dirigir. Por que, e como, você escolheu Richard Marquand para assumir a função em Jedi?
Em momentos assim, você quer a melhor pessoa possível para o trabalho. Contratar é algo que se torna um processo muito longo e árduo. Você faz listas enormes de pessoas que poderiam servir. A primeira coisa é procurar alguém que seja tecnicamente capaz e profissional, e que você acredite que tenha experiência suficiente. E aí você – neste caso o produtor Howard Kazanjian – examina a lista inteira e descobre quem está disponível. Então você começa a perguntar quem estaria interessado, o que reduz a lista a um grupo bem pequeno. A esta altura, Howard fala com os diretores restantes para ver se estão interessados e se entendem a mitologia por trás de tudo e que não se trata de um programa de TV. Isso diminue os pretendentes ainda mais. E no processo, Howard também assiste aos filmes que cada um fez e faz anotações que são repassadas a mim. Depois, quando chegamos a dez ou quinze pessoas disponíveis, que entendem o material com sinceridade e não o desprezam, olho essa lista e começo a ver os filmes de cada um. Falamos com os diretores assistentes e produtores e alguns dos atores que trabalharam com eles. Então, temos uma longa discussão e reduzimos a lista a cinco ou seis pessoas. Entrevisto-os por duas ou três horas. Reduzimos os candidatos a duas pessoas. Uma delas era Richard. Aí eu os entrevisto de novo. Passamos o dia juntos; é uma questão de conhecer a pessoa: suas opiniões sobre política, vida, filosofia e religião. Todas essas coisas influenciam no filme, por isso suas visões devem ser consistentes com as que fazem parte dos filmes de Star Wars. É preciso que haja algum tipo de simpatia entre mim e o diretor.

Você se envolve também com a direção de arte e o design de criação?
Me envolvo muito. Algumas dessas coisas são prerrogativas do diretor, mas em um filme como esse, tudo vai além do que um diretor é capaz de dar conta. Cuidar da direção em si já é mais trabalhoso do que seria em um filme normal. E eu acabo tirando esse fardo do diretor, todas essas coisas que ele também teria que cuidar – o departamento de arte e de criação de monstros e figurinos e do visual do filme, porque muito disso é determinado pelos filmes anteriores. Você sabe que um stormtrooper ainda é um stormtrooper. Que Darth Vader vai ter a aparência de Darth Vader – ninguém vai poder chegar e dizer que quer ele mais baixo, por exemplo. A equipe de design que reunimos, os ilustradores e designers de produção, é formada por profissionais talentosos. Assim, é uma questão de eu escolher o que acho mais apropriado. A verdade é que o diretor recebe um material que já é ótimo. Qualquer diretor esperto vai dizer: “É, isso aí está certo” [risos].

Sua posição é um pouco diferente nos filmes de Indiana Jones, que Steven Spielberg dirige?
É uma situação mais tradicional. Faço a mesma coisa, só que menos. Porque no fim, é mais a visão do Steven do que a minha, enquanto no caso de Star Wars a visão é mais minha, porque dirigi o primeiro filme. Steven dirigiu o primeiro Indiana Jones. Mas por outro lado, a verdade é que mesmo no caso de um diretor como Steve e dos diretores de Star Wars, é útil ter um colaborador.

Claramente você e Spielberg se dão muito bem.
Ele é meu diretor perfeito para se trabalhar junto. Pensamos do mesmo modo sobre tudo. Ele vai um pouco além em umas coisas e eu vou um pouco além em outras, mas não há conflito. Nenhum de nós empurra suas ideias goela abaixo do outro. Nos divertimos muito juntos. Ele fica dizendo que o filme é meu e que serei culpado por ele, e eu digo que o filme é dele e o culpado vai ser ele. Não tenho nenhum interesse em dirigir. Não é como se eu fosse o tipo de produtor que fica fazendo sombra atrás esperando para dirigir quando o diretor vira as costas. Quer dizer, não tenho vontade nenhuma. Posso fazer o que quero, e se quisesse dirigir, iria lá e dirigiria. É ótimo poder trocar ideias. Se eles as usarem, ótimo. Se não, sem problemas.

O que você se vê fazendo quando suas férias de dois anos terminarem?
Ainda me interesso muito por filmes, mas quem sabe? Dois anos é uma estimativa. Pode levar mais tempo. Vou me sentar quando estiver satisfeito comigo mesmo e pensar bastante. Posso resolver
fazer outra coisa e acabar descobrindo que o que realmente amo é fazer filmes. E sempre tive interesse em fazer meus experimentozinhos cinematográficos estranhos.

Foi o que você disse depois do primeiro Star Wars. Vou esperar sentado.
Ainda não tive chance [risos]. Eu poderia ter uma empresa de cinema de verdade, como Steven tem, soltando de três a quatro filmes por ano. E há a parte dos computadores, que são videogames, e a tecnologia dos videodiscos interativos; diferentes meios de se contar uma história usando processos educacionais e sistemas. Outras áreas são mais de pesquisa do que qualquer outra coisa, primariamente na psicologia social. Posso mudar de área completamente ou acabar virando um ex-workaholic, velejando ao redor do mundo.

No passado, você ressaltou a importância de cineastas regionais independentes para a saúde do cinema. Um amigo meu foi a uma recepção do American Film Institute e voltou com a decepcionante notícia de que todos esses jovens brilhantes que lá estavam só conseguiam falar sobre uma coisa: como conseguir um contrato em Hollywood.
[Sorrindo] Muita gente reclama que estudantes de cinema fazem isso. Acho que a força da indústria independente irá crescer conforme as entidades corporativas forem ficando cada vez mais entrincheiradas dentro do sistema de estúdio, porque os independentes estão mais perto do que está realmente acontecendo. Uma vez que você entra no ramo dos cineastas independentes, você se livra de contratos e vira mais uma coisa de sobrevivência. Sempre haverá um grupo que está interessado em dinheiro e poder, e haverá um grupo que se importa mais em fazer filmes, se importa com os personagens, em colocar a ideia para fora. Esses serão os que acabarão fazendo os filmes e ganhando dinheiro. Os outros se tornarão agentes ou chefes de estúdio.

Por essa visão, até que você se deu bem. Criou as histórias, ganhou o dinheiro e ainda tem o poder nas mãos.
É, e agora estou largando tudo. Não gosto de nada disso [risos].

por Paul Scanlon

rs

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ói! TNT Rock & programa de rock

O mundinho “underground” sergipano nos trouxe duas surpresas nos últimos tempos: a primeira foi o surgimento da loja TNT Rock em Itabaiana, a primeira e, pelo menos que eu saiba, atualmente, única especializada em rock e “quitutes” alternativos do interior do estado – existe a Roots Rock & Cia. do camarada China, mas ela fica no Conjunto João Alves, em Nossa Senhora do Socorro, e Socorro não conta, é região metropolitana de Aracaju. A segunda foi o lançamento da “Ói”, primeira revista em quadrinhos produzida em Sergipe com uma proposta consistente e um planejamento de continuidade a médio e, quiçá, longo prazo. As duas apostas se cruzaram e se uniram no dia 02/02/2013, quando a Ói! foi lançada em Itabaiana. Lá mesmo, na TNT Rock.

A TNT, de cara, já impressiona pela fachada, bem cuidada e com um letreiro que chama a atenção. Por dentro, é um ambiente aconchegante, limpo e bem organizado, com um visual sóbrio e elegante, e as mercadorias são acondicionadas em prateleiras bem acabadas. Dá pra perceber que tudo ali foi feito no capricho, sem resquícios da improvisação que costuma reinar neste tipo de empreendimento. Mas o que salta aos olhos e faz coçar os bolsos, realmente, é o acervo posto à venda. Além de itens mais recomendados a colecionadores fanáticos dispostos a vender a alma para tê-los em seu acervo, como a caixa com a coleção completa do Pink Floyd em CD´s remasterizados acondicionados em digipack e a de LP´s dos Beatles em vinil, é possível encontrar CD´s e LP´s (isso mesmo, em vinil. E novos! Alguns ainda lacrados!) nacionais e importados a preços camaradas. Meu brother Andye Iore, por exemplo, comprou um CD duplo, edição comemorativa, do primeiro dos Dead Kennedys, “Fresh fruit for rotting vegettables”, no mesmo dia em que eu adquiri uma edição gringa de “kaleidoscope”, do Siouxsie and The Banshees, que, que eu saiba, nunca saiu no Brasil. Deixei por lá, porque dinheiro não é capim, outra edição especial comemorativa, do primeiro do Napalm Death, “Scum”, com um DVD de bônus. Isso pra não falar dos CD´s e DVD´s de bandas independentes do cenário local, livros, quadrinhos e memorabilia, e do quadro com o desenho original do mascote que o Marcatti fez para a loja – que não está a venda, evidentemente.

Um bom público compareceu ao lançamento da “Ói”, que foi um sucesso. Estive presente e adquiri lá o meu exemplar. Trata-se de uma edição caprichada, em formatinho, com capa colorida e miolo em papel couchê. No recheio, uma história longa e algumas curtas. Abre com “Roboy”, de Rodrigo Costa, uma divertida aventura ambientada em Aracaju que brinca com conceitos tradicionais dos animes e mangás japoneses adicionados a inusitadas pitadas de crítica social! Segue com “O cara do terno”, de Alan Clécio, e “The Noir Samurai Tango”, de Rodrigo Seixas, que estampa também a capa da revista. Nesta última, a narrativa é fluida e ágil, com uma boa noção de espaço e continuidade em cenas de luta muito bem desenhadas. Segundo o próprio autor, o argumento surgiu de uma “batida no liquidificador” de suas influencias – notadamente Frank Miller – com alguns elementos com os quais ele estava tendo contato na época, convalescendo de uma catapora: tango argentino, filmes “noir” e pornochanchada nacional. O resultado, portanto, não poderia deixar de ser, no mínimo,  original …

Depois de mais uma historinha curta, “cuidado com ele”, de Rodrigo Costa – nitidamente inspirada no horror clássico de títulos como “Calafrio” e “Mestres do Terror” – temos, para encerrar, “Destroços”, de Neco. É uma brincadeira com o mito do Super-Homem – não o de Nietsche, o de Jerry Siegel e Joe Schuster, (des)apropriado pela DC. Periga ser a que tem o melhor argumento e os melhores diálogos, de todo o material apresentado nesta promissora primeira edição.

Numa entrevista feita lá mesmo na TNT e que você confere abaixo, em vídeo, e em outra que foi ao ar sábado passado no programa de rock – cujo set list, excepcionalmente, não disponibilizarei, porque foi feito de forma improvisada, usando os arquivos do servidor da radio, já que eu, estupidamente, esqueci o pendrive com a programação inédita – eles nos contaram, passo a passo, os percalços pelos quais passaram para ver seu sonho tornado realidade. Começando pela boa recepção do número zero, que teve duas tiragens de 100 exemplares cada vendidas rapidamente, e passando pela peregrinação às gráficas da cidade, totalmente despreparadas e desinformadas do que seria o produto a ser contratado – numa delas foi-lhes perguntado, acreditem, o que era uma revista em quadrinhos! Em outra, foi-lhes proposto que o material fosse impresso em papel plastificado, o que resultaria num calhamaço que certamente teria que ser grampeado em regime de impacto industrial!

Se disseram também bastante satisfeitos com o resultado final, impresso na Gráfica e Editora J. Andrade (não é mechandising, é informação), e com a recepção do público. A revistinha está vendendo bem, apesar da distribuição naturalmente precária. Para tentar solucionar o problema, procuraram parcerias nas livrarias da cidade. Numa delas, local, foram solenemente ignorados. Noutra, filial de uma grande rede nacional, tiveram boa acolhida, ficando quase certa a distribuição da segunda edição – dependendo da tiragem, nacionalmente! A conferir …

A “Ói” pode ser encontrada, em Aracaju, na “Coxinharia”, que fica na Avenida Pedro Paes de Azevedo, 809. Já a TNT Rock fica na Rua Professor Hilário de Melo Rezende, nos fundos do Colégio Murilo Braga, em Itabaiana. Via internet, entre em contato através do site da editora dos caras, a Darcel comic - http://darcelcomics.blogspot.com.br/. O programa de rock, você sabe, vai ao ar todo sábado às 19H pela freqüência 104,9 FM em Aracaju e região. Pode ser ouvido ao vivo via internet em www.ideastek.net/aperipefm

por Adelvan










quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

PT, 33 Anos

"No voto, o PT ainda se manterá forte por alguns anos", afirma o professor da USP Lincoln Secco, autor de A História do PT (Ateliê Editorial). Ele faz, porém, um alerta: se quiser se manter no poder, o partido terá de se recuperar do desgaste ideológico.

Qual PT completou 33 anos? O que ficou do PT do Colégio Sion? O PT teve o mérito de combinar uma tradição clássica da esquerda com os novos valores de 1968. O restante da esquerda demorou para incorporar efetivamente a defesa das mulheres, negros e homossexuais, por exemplo. O PT aplicou as cotas nas suas direções internas antes de usá-las em seus governos. O que ele abandonou foi o radicalismo verbal dos seus anos primaveris e a aversão às alianças com os partidos fisiológicos.

Isso significa que o PT de antigamente jamais apoiaria a eleição de dois peemedebistas às presidências da Câmara e do Senado? Sem dúvida. Ele faria como o PSOL faz hoje: lançaria um anticandidato.

O PT ainda é um partido de esquerda? Esquerda e direita são conceitos relacionais. Só há dois blocos políticos relevantes no Brasil e, certamente, o PT está mais à esquerda do que o bloco liderado pelo PSDB.

Existe o risco de, como aconteceu na Europa com a saída do poder dos partidos social-democrata, uma direita ainda mais conservadora emergir no Brasil? O PT é um típico partido social-democrata, mas condensou em pouco tempo o processo de moderação que a Social Democracia viveu em um século. O desencantamento chegou mais rápido no PT. No entanto, a extrema direita no Brasil só terá chance de ameaçar o PT se as condições internacionais lhe permitirem atuar fora da legalidade. No voto, o PT ainda se manterá forte por alguns anos.

Acredita que Lula possa voltar a disputar a Presidência em 2014? Lula é um patrimônio do PT e de grande parte da sociedade brasileira. Ele poderia ganhar as eleições, mas só seria candidato se o governo Dilma vivesse uma crise. Como isso não está no horizonte politico, eu creio que ele será o maior cabo eleitoral de Dilma.

Qual o peso de Lula hoje dentro do PT? E o de Dilma? Obviamente o peso de Dilma cresceu por causa de sua condição como presidente. Mas ninguém duvida que a última palavra no PT será sempre de Lula. Depois da vitória de Fernando Haddad em São Paulo ele ganhou ainda mais confiança do partido.

O PT ainda pode empunhar um discurso ético após a condenação de figuras históricas no julgamento do mensalão? O PT se considera o grande vitorioso nas ultimas eleições, mas ideologicamente ele foi derrotado. Em 1989 aconteceu o contrário: o PT teve uma derrota eleitoral, mas uma vitória moral. Isso foi tão importante que mesmo com a queda do Muro de Berlin, a diminuição da base de sindicatos importantes da CUT nos anos seguintes e o esvaziamento militante das ruas, o PT continuou agregando as esperanças de mudancismo. Agora, não mais.

Por quê? Porque o PT não tem mais uma mensagem de esperança como tinha em 1989 e em menor medida em 2002. Ele não projeta o novo, apenas gasta um patrimônio já constituído. O fato de que depois de sete anos o partido ainda esteja na defensiva no caso do mensalão revela que ele tem sido ideologicamente derrotado. A oposição conseguiu colar no PT a marca da corrupção.

Mas a defesa da cúpula do PT contra o julgamento do Supremo Tribunal Federal e essa "marca da corrupção" foram tímidas até agora... Pessoalmente acho que José Dirceu deveria ser absolvido porque nenhuma Justiça é justa quando é seletiva e condena sem provas. Este sentimento perpassa também a base petista. Já a direção do PT comete um erro grave: ou ela defende os condenados, o que ela dificilmente fará, ou os esquece. O que não é possível é silenciar sobre o julgamento e, depois, permitir que José Genoino assuma o mandato. Expulsar Delúbio Soares e admiti-lo novamente. O Estatuto do PT prevê expulsão de condenados com sentença transitada em julgado. Foi uma medida tomada de afogadilho depois dos escândalos de 2005. Mas o PT não vai cumprir este artigo depois que o STF publicar o acórdão. Então por que assumiu esta impropriedade?

O senhor disse certa vez que escândalos como mensalão não iriam prejudicar a história do PT, mas sim o futuro do partido. Por quê? Por mais que o partido se mantenha forte eleitoralmente, no longo prazo ele é julgado como produtor de valores. O discurso socialista o PT já abandonou, o da ética lhe foi tirado. Seus novos eleitores passarão a ter novas exigências, além das demandas sociais que já foram atendidas.

E qual será o futuro do PT? Como historiador eu só posso fazer projeções duvidosas. Se a atual tendência de desgaste ideológico se confirmar, o PT continuará sendo uma agremiação com votos, mas pode perder a liderança, seja para o PSB ou mesmo para a oposição. Ele ficaria cada vez mais parecido com o PMDB. Outro cenário seria a renovação geracional rápida das lideranças, o que já vem acontecendo graças ao próprio mensalão. Só que ela teria que vir acompanhada de um acerto de contas decidido com aqueles episódios de 2005, seja assumindo tudo o que foi feito em nome da legitimidade do legado do governo Lula, seja abandonando de vez seus velhos dirigentes e redefinindo-se como agremiação supostamente republicana e de centro.

O PT comemora este ano também dez anos no poder. Qual a estratégia para não perder a Presidência em 2014? Conquistar a tão falada classe média? O PT não precisa mudar a estratégia, pois ela deu certo até agora. O que acontecia em São Paulo? Ele tinha o voto da periferia, mas no resto do Brasil os mais pobres se dividiam e apoiavam majoritariamente a direita. O modelo paulistano se espraiou pelo País. Hoje, o PT tem forte apoio entre os mais pobres. Não que ele não queira a classe média, mas pode viver sem ela por enquanto. O que ele não pode perder é a nova classe trabalhadora que ele ajudou a integrar no mercado.

O sr. acredita que ascensão de muitos brasileiros à classe média pode prejudicar o PT, especialmente se crise financeira se agravar? Não. O eleitorado do PT foi conquistado por políticas sociais que vão se manter. E o PT sempre tem um plano B: Lula.

Tirar o governo de São Paulo das mãos do PSDB em 2014 é considerado prioridade de Lula. O que isso vai significar para o partido? Será a mais difícil batalha do PT depois da conquista da presidência. Se por um lado há amplo desgaste do PSDB pelo tempo que já tem no governo, o que favorece o PT, por outro não há uma tradição de acomodação do ideário petista com o pensamento dominante no interior paulista, que tem prioridades diferentes das politicas sociais petistas. O PT poderia buscar incorporar valores que agradam a um imenso eleitorado de um mundo corporativo que só existe em São Paulo em grandes dimensões. Mas a cúpula do PT paulista já deu provas de que dificilmente faz isso: ela prefere culpar os eleitores, chamando-os de naturalmente reacionários. E é por isso que Lula ignorou o PT local e impôs Fernando Haddad, um candidato palatável para a classe média.

Por que a oposição está tendo tanta dificuldade em lançar um nome forte à Presidência para 2014? A oposição precisa de duas coisas: um novo nome e um discurso. Se ela insistir no discurso que seus intelectuais tem produzido, continuará agredindo os eleitores que ela precisa conquistar. Ir além da ética seria o caminho, mas ela inverteu os papéis do passado. Quando o PT fazia este discurso ético, elegia bons deputados e perdia eleições para o executivo. Só que o PT tinha também uma história, uma base militante. Enfim, tinha outros discursos possíveis. A oposição ainda não tem. Só que os recursos humanos e materiais com os quais ela pode contar não são nada desprezíveis e não é impossível pavimentar um caminho supostamente moderno, calcado em valores de mercado, mas sem desprezar o que socialmente já foi conquistado pelo PT. A oposição não sabe, mas as políticas sociais do PT só são "revolucionárias" porque a direita não as incorpora. Não há nada de radical em i mesmo no programa Bolsa Família. Ele não ataca o grande capital.

Fonte: Estadão

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Parabéns, Silvio Campos ...

No exato momento em que a Karne Krua começou a ligar os equipamentos para começar seu show, com cerca de uma hora e meia de atraso, já na madrugada da primeira noite da 19ª edição do Palco do Rock, em Salvador, começou a chover. Temi pelo pior: que nossos heróis do underground sergipano tocassem para ninguém, já que tinha havido uma verdadeira debandada de camisas pretas depois da apresentação mais esperada da noite, do Headhunter DC. Ledo engano! Podem dizer o que quiser do publico “roqueiro” baiano, mas de timidez, apatia e falta de ânimo, eles não sofrem não. Foi só soarem os primeiros acordes que uma revoada de seres vestidos de preto, a maioria ainda naquela flor da idade em que a empolgação é a tônica, embalada pelo frescor dos hormônios em ebulição, surgiu meio que do nada – dos arredores, do camping, das dunas, de todos os lados, enfim – e se posicionou em frente ao palco para mais alguns bons minutos de rock tocado no talo! Não foi nenhuma multidão, evidentemente, pelo avançado da hora e pela revoada pós-culto da morte supracitada. Mas os relativamente poucos que estavam lá, resistentes, parecem ter curtido o que viram e ouviram. E muito.

Curtiram muito porque foi um show muito bom, sem firulas nem frescuras, com um ritmo perfeito, som no talo, excelentes composições novas seguidas de verdadeiros clássicos praticamente emendadas uma à outra. Muito provavelmente por respeito à banda que ainda iria se apresentar, num horário pra lá de ingrato – consideração que alguns que tocaram antes não tiveram o bom senso de demonstrar – Silvio falou pouco, o que, se por um lado privou a garotada soteropolitana de alguns esclarecimentos sobre o que estava por trás do rolo compressor que comprimia seus ouvidos, por outro deixou a apresentação mais enxuta, o que, em se tratando de Hard Core, é perfeito. Curto e grosso, pero sin perder La ternura jamás - o velho “sub” fez questão de agradecer, enfaticamente, os que permaneceram até ali e iriam ficar até o final. Fecharam a parte que lhes cabia com chave de ouro: “inanição”. Perfeito!

Praticamente ninguém sabia, e ele não disse nada, mas passadas as 12 badaladas “notúrnicas”, como diria Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro, Silvio Campos, para mim o eterno Sylvio “suburbano”, pioneiro do rock independente subterrâneo nas terras do cacique Serigy, estava completando, oficialmente, 49 aninhos de vida. Muito bem vividos. E comemorou da melhor maneira possível: cometendo mais um show de Hard Core matador, do alto de sua mais do que comprovada competência e entrega à frente de uma banda precisa e devastadora, referencia do estilo no Brasil e, porque não dizer, no mundo! Eu também não sabia. Chegando agora em casa, ao ser avisado pelo Facebook, o maior dedo-duro da face da terra, espantei o cansaço da viagem e resolvi fazer hoje mesmo este texto, para que o mesmo servisse como um pequeno porém sincero presente de aniversário para este grande amigo, grande figura, grande ser humano. Parabéns pra você, Silvio Campos. Muitas felicidades, muitos anos de vida.

A primeira noite da edição de 2013 do Palco do Rock, que acontece todo ano no Coqueiral de Piatã, na Orla de Salvador, em pleno Carnaval, se encerrou com o thrash metal “modernoso” com forte presença feminina da banda Autopse, de Maceió. Apesar da perceptível influencia do malfadado “nu metal”, esta excrescência estilística nascida no final da década de 1990, quando o rock dava seus últimos suspiros de criatividade, eles têm algumas boas composições, e melhor: cantadas em bom português. A vocalista, Daniela Serafim, tem um vocal gutural poderoso, mas ainda parece um tanto quanto insegura quanto à sua posição de “Frontwoman”. Já a banda é precisa e muito competente e tocou com os instrumentos bem equalizados e com as guitarras no talo, como deve ser. Destaque para Janaína Melo, a baterista, que teve direito, inclusive, a um pequeno solo – e arrasou!

Antes da Karne tocou a Estamos em Eso, punk rock/Hard Core da Argentina. Bons riffs de guitarra. Boa presença de palco. Antes deles, a Headhunter DC, certamente uma das melhores bandas de Death Metal do Brasil. Foi o ponto alto da noite, um verdadeiro culto executado com impressionante competência e profissionalismo pelo 4 cavaleiros do apocalipse comandados por um quinto elemento materializado na figura magnética de Sergio Balloff. Na platéia, um verdadeiro mar de “camisas pretas” saudando-os com os braços erguidos. Bonito.

Em ordem inversa, se apresentaram ainda o Desgraciado, de São Paulo – Hard Core “grosso” exalando “atitude” e testosterona por todos os poros – Irmão Carlos e o Catado, local – espécie de mangue beat do criolo doido cheio de percussão, passos de dança robóticos desengonçados, músicas próprias sem brilho e covers oportunistas – Blessed in fire, também local – Heavy metal “tradicional”, daqueles bem gritados, solados e dedilhados – Pâncreas – uma espécie de Camisa de Vênus do Século XXI. Desnecessário – e Cidadão Dissidente, de Feira de Santana – que eu não vi.

Vale notar que o Palco do Rock aparentemente deixou de ser o que eu chamava de “o maior festival de porralouquice da face da terra”. Isto porque antes era, litralmente, uma loucura: por todos os lados gente fantasiada de morte, de Eddie do Iron Maiden e todo tipo de bizarrice possível e imaginável. Se a banda que estivesse no palco fosse punk, era obrigada a tocar um cover do Nirvana. Se fosse mais puxada para o metal, tinha que tocar – adivinha! - Iron Maiden. Se não tocasse, recebia uma chuva de areia e cascalho e tinha que, frequentemente, interromper sua apresentação pelo palco ter sido invadido. Presenciei isso uma vez com a Pólux, do Rio de Janeiro – antiga banda de Bianca Jordão, do Leela: elas só conseguiram continuar sua apresentação depois de improvisar uma versão tosca de alguma musica do Nirvana.

Agora, tirando uma ou outra máscara de gás aqui ou ali – que eu imagino que tenha algum misterioso efeito decorativo, já que nunca ouvi falar de nenhuma explosão de bombas de gás lacrimogênico em nenhuma das edições do evento que justificassem tamanha precaução – estava tudo relativamente normal, como já tinha sido na última vez em que compareci, em 2010, para ver o Korzus.

Valeu a viagem. Foi uma boa noite de carnaval. E de quebra conheci a mais nova obra faraônica do Governo de Sergipe, a Ponte Gilberto Amado, que supostamente aumentará vertiginosamente o fluxo turístico no litoral do estado ao diminuir em meros 30 km a distancia entre Salvador e Aracaju ...

por Adelvan

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