sexta-feira, 3 de abril de 2009

05/04/2009 - 15 Anos sem Kurt Cobain




por Adelvan Kenobi

Me lembro como hoje, eu assistindo o noticiário na TV como faço sempre (única coisa que assisto na televisão, aliás – fora A GRANDE FAMILIA, que na época não existia) e de repente fico sabendo, através de Boris Casoy (!!!!) da morte do vocalista do Nirvana. Não vou dizer que entrei em desespero e me descabelei em prantos rolando no chão, mas com certeza fiquei triste. Acho até que uma lágrima escorreu pela minha face, não lembro bem. Lembro que fui pra casa da namorada me sentido até constrangido de estar daquele jeito por conta da morte de um marmanjo que eu nem sequer conhecia pessoalmente (claro), mas acho que ela entendeu - afinal, aquela era minha primeira experiencia com uma "morte de um ídolo do rock", pelo menos daquela forma, vendo a historia acontecer diante dos olhos, pois sobre as mortes de Ian Curtis, Jim Morrisson, Jimi Hendrix e Janis Joplin, entre outros, eu tinha apenas lido a respeito. A morte de Lennon eu até lembro de acompanhar pela TV, mas era muito jovem na época pra ter a real dimensão do ocorrido - a unica coisa que eu absorvi como certeza foi a informação de que um cara legal e querido por muitos havia sido assassinado por um motivo pra lá de banal.

Fiquei triste porque de repente me dei conta que Kurt Cobain era como um amigo para mim. Uma relação que só era possível pelo que o Nirvana representava, o rock alternativo, “underground”, lá, no mainstrean. Eles eram como que nossos embaixadores, nossos representantes. Porque a Historia do Nirvana era igualzinha à historia das bandas que eu via nascer nas garagens daqui mesmo, de Aracaju, com a única diferença de que eles haviam, inesperadamente, chegado “lá”. E ao chegarem “lá” mudaram a Historia do rock, varrendo o “glam metal” das paradas (até hoje a galera do laquê não os perdoa por isso) e levando de reboque grandes nomes da cena alternativa, como Sonic Youth, Smashing Pumpkis, Soundgarden, Faith No More, Alicen in Chains e Radiohead, entre outros.

Soube da existência do Nirvana através de um amigo que captava a MTV brasileira (então engatinhando) via antena parabólica. Ele veio me contar todo animado que tava rolando direto na emissora um clipe sensacional, gravado numa quadra de basquete com umas “cheerleaders” anarquistas vestidas de preto, e que o som da banda era muito bom. Quando conferi o clipe de “Smells like a teen spirit” pela primeira vez (ia pra casa dele e ficávamos esperando terminar o Fantástico pros pais dele irem dormir e a gente poder mudar o canal para o LADO B da MTV) pirei, ao ponto de, no dia seguinte, encomendar, via carta pelo correio (internet era ficção científica), uma camiseta e o “Nevermind”, em vinil, para a loja Wop Bop, de São Paulo. Achei que iria ser mais uma daquelas bandas que a gente nunca ia poder encontrar os discos por aqui. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com as lojas, inclusive grandes magazines como Lojas Americanas e Mesbla, abarrotadas de discos do Nirvana, antes mesmo de eu receber o meu pelo correio – mas no final das contas meu esforço foi recompensado, pois minha cópia do Nevermind, que eu tenho até hoje, veio com uma contra-capa diferente, creio que da primeira prensagem, não sei ao certo.

E assim ficamos fãs do Nirvana e fomos assistindo à febre grunge se espalhar ao nosso redor. Era engraçado ver, no calor escaldante de Aracaju, os mais novinhos e “afoitos” vestindo gorros de lã e camisetas de flanela. O cenário mudou ao ponto de Aracaju ganhar, na época, uma radio rock ! Isso mesmo, poucos lembram, mas a freqüência 103 FM, que hoje abriga uma das emissoras mais popularescas e bregas do dial, começou como JOVEM ARACAJU, e só tocava rock. Era Nirvana, Soundgarden, Faith no More e Ratos de Porão o dia inteiro. Estive inclusive perto de ver a banda ao vivo, quando eles tocaram no Hollywood rock em 1993. Viajei a São Paulo pra isso, mas houve um desencontro por conta de uma incursão que fiz a Santos para assistir um ensaio de minha banda de grindcore favorita na época, o No Sense, e uma amiga que tinha comprado o ingresso pra mim achou que eu não voltaria a tempo e acabou indo pro estádio sem mim que, sem grana e sem costume de andar na cidade grande sozinho, acabei ficando em casa literalmente chorando e assistindo televisão (pelo menos a globo exibiu um filme bom naquela noite, “Festim Diabólico” de Alfred Hitchcock). Nada que uma ligação para o celular dela não resolvesse, mas era 1993, não existia telefone celular. Voltei pra cá e fiquei conhecido como “o cara que perdeu o show do Nirvana mesmo estando em São Paulo”. Acabei vendo o show do Rio, que aconteceu uma semana depois, pela TV, delirando com aquela perfomance misantrópica e sem noção do Kurt, que chegou ao ponto de simular uma masturbação, ao vivo e a cores, na tela da globo. Achei sensacional.

Hoje em dia as pessoas talvez não tenham mais a noção do que foi o Nirvana na época. Mas quem viveu sabe, e mesmo que nem ouça mais os discos, a não ser em crises esporádicas de saudosismo, nunca vai esquecer. É por isso que faço questão de lembrar que dia 05 de abril próximo fazem 15 anos da morte de Kurt Cobain.

Descanse em paz.

Come As You Are - A História do Nirvana

Da redação da Rolling Stone Brasil

Leia o primeiro capítulo da biografia do Nirvana, escrita pelo jornalista e crítico musical Michael Azerrad

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Lançado originalmente em 1993, só agora a biografia do Nirvana, escrita pelo jornalista Michael Azerrad, ganhou uma versão em português.

"Capítulo UM

Aberdeen, Washington (16.660 habitantes), está a 164 longos quilômetros ao sudoeste de Seattle, pela remota região costeira de Washington. Em Seattle chove muito, mas em Aberdeen chove mais - até dois metros por ano - espalhando uma névoa constante e sombria sobre a cidade. Longe da auto-estrada mais próxima, nada entra e raramente alguma coisa sai de lá.
Arte e cultura são de preferência deixadas para os tipos arrogantes, em Seattle - entre as "atividades fascinantes" listadas em uma brochura da Câmara de Comércio do Município de Grays Harbor estão o boliche, as competições de serra elétrica e os jogos de fliperama.

Um Garotinho Rebelde de Cabelo Ensebado

A rota 12 para Aberdeen é rodeada por uma sucessão infinita de estacionamentos para trailers; além deles, uma área de centenas de milhares de acres de floresta madeireira, freqüentemente desfigurada por vastas cicatrizes nos locais onde os madeireiros estiveram cortando. Vindo do leste, a primeira coisa que um visitante vê de Aberdeen é o espaçoso e feio depósito de madeira Weyerhauser de frente para o rio Wishkah, onde carcaças desmembradas de árvores, um dia orgulhosas, jazem empilhadas como vítimas de um massacre. Examinando o cenário pelo outro lado do rio está uma extensa faixa de estabelecimentos de fast-food.

A indústria madeireira domina a cidade; ou melhor, um dia dominou. Os negócios têm diminuído, e as demissões estão transformando Aberdeen em uma cidade fantasma. Atualmente, as ruas do centro vêm sendo lentamente preenchidas com vitrines vazias ou cobertas por tábuas de madeira. Os únicos lugares que fazem bons negócios são bares como o Silver Dollar e o apropriadamente chamado Pourhouse, bem como a casa de penhores local, inundada de armas, serras elétricas e guitarras. O índice de suicídio do município de Grays Harbor é um dos mais altos do país; o alcoolismo é desenfreado e o crack chegou à cidade há alguns anos.

As pessoas odeiam a coruja pintada - receitas para cozinhar a pobre criatura indefesa pipocam em adesivos de pára-choques locais - ainda que a descentralização da indústria madeireira, a desvalorização da mão-de-obra e a automação sejam aquilo que realmente está tirando as pessoas do mercado de trabalho. Uma das maiores fábricas da cidade costumava empregar dúzias de trabalhadores e agora tem cinco: quatro homens e uma máquina de cortar computadorizada movida a laser.

Uma das maiores indústrias no município é o cultivo de maconha e de cogumelos psicodélicos, que as pessoas cultivam a fim de suplementar o seu salário miserável ou inexistente.

A situação não costumava ser tão difícil. Aberdeen já foi um porto movimentado onde marinheiros paravam para descanso, comida e alguma companhia feminina paga. O fato é que a cidade um dia já foi um grande prostíbulo, tendo como centro a notória Hume Street (que os pastores da cidade renomearam de State Street nos anos de 1950, em uma tentativa de enterrar as suas memórias). Mais tarde, a cidade se tornou estação final de uma ferrovia e lar de dúzias de serrarias e transações madeireiras. Aberdeen fervilhou de jovens solteiros fazendo muito dinheiro na indústria da madeira e a prostituição prosperou, com uma média de 50 bordéis ("hospedaria de mulheres", como eram chamados) em um único ponto da área central. A prostituição durou até o fim da década de 1950, quando uma batida policial finalmente pôs um fim nela. Alguns dizem que o passado imoral de Aberdeen dá a seus residentes um complexo de inferioridade.

Esse é o lugar onde Kurt Donald Cobain nasceu em 20 de fevereiro de 1967, filho de Wendy Cobain, uma dona de casa, e de seu marido Donald, um mecânico do posto Chevron da cidade. A jovem família começou com uma casa alugada na vizinha Hoquiam, mudando-se para Aberdeen quando Kurt tinha seis meses de idade.
Kurt cresceu sem saber de onde veio o nome da sua família. Seu avô materno é alemão, mas isso é tudo o que ele sabia. Só recentemente ele descobriu que o lado paterno da família é todo de sangue irlandês, e que Cobain é uma deturpação do nome Coburn.
Apesar de os Cobain serem de um meio humilde, a vida começou muito bem para o seu filho de cabelos dourados. "Minha mãe era sempre afetuosa comigo", diz Kurt. "A gente sempre se beijava para se despedir e se abraçava. Era muito legal. Fico surpreso por saber que tantas famílias não funcionam assim. Foram tempos abençoados."

Kim, a irmã de Kurt, nasceu três anos depois dele, mas Kurt e sua mãe já tinham formado um vínculo bem forte. "Não há nada como o primeiro filho - nada", diz Wendy, agora em outro casamento e ainda vivendo na mesma casa em Aberdeen com seu marido e uma filha de oito anos. "Nenhuma criança sequer chega perto disso. Eu era toda dele. Todos os dias acordava só para ele."
Kurt obviamente era uma criança brilhante. "Eu me lembro de ligar para minha mãe", recorda Wendy, "contando a ela que me assustava porque ele tinha uma perspicácia que eu nunca antes havia visto em uma criança pequena".

Kurt havia começado a demonstrar interesse por música quando tinha dois anos, o que não era surpreendente, uma vez que o lado materno da família era muito musical - Chuck, irmão de Wendy, tocou em uma banda de rock and roll; Mary, sua irmã, tocava violão e todos na família possuíam algum tipo de aptidão musical. No Natal, todos cantavam ou encenavam algum pequeno espetáculo cômico.

O tio de Wendy trocou seu nome de Delbert Fradenburg para Dale Arden, mudou-se para a Califórnia para virar cantor de baladas, e gravou alguns álbuns em fins da década de 1940 e começo de 1950. Ele fez amizade com o ator Brian Keith (que mais tarde veio a atuar no seriado da década de 1960 Family Affair) e Jay Silverheels, que fez o papel de Tonto na série de TV Lone Ranger. Então, como brinca Wendy, "essa coisa de celebridade não é nenhuma novidade para a família".

Tia Mary deu a Kurt discos dos Beatles e dos Monkees quando ele tinha uns sete anos. Ela convidara Kurt para ensaiar em sua casa, a fim de assistir à banda. Como artista country que chegou mesmo a gravar um single, Mary tocou em bandas de bar nos arredores de Aberdeen por anos, algumas vezes atuou como solista na steak house Riviera e uma vez tirou segundo lugar em um concurso de talentos de uma TV local, chamado "You Can Be a Star" [Você Pode Ser Uma Estrela].

Mary tentou ensinar Kurt a tocar violão, mas ele não tinha paciência - de fato, era muito difícil fazê-lo permanecer sentado para qualquer coisa. Ele havia sido diagnosticado hiperativo.

Como a muitas crianças de sua geração, foi dada a Kurt uma droga chamada Ritalin, um tipo de speed, que controla a hiperatividade. Isso o mantinha acordado até as quatro da manhã. Sedativos o faziam dormir na escola. Finalmente, tentaram retirar o açúcar e o infame Red Dye #2 de sua dieta, e funcionou. Era difícil para uma criança hiperativa ficar longe do açúcar porque, como Wendy diz, "eles são, digamos, viciados nisso".

Mas não poder ter uma barra de chocolate pouco desanimou o espírito de Kurt. "Ele levantava todo dia com tanta alegria por ter mais um dia para viver", diz Wendy. "Ele era muito entusiasmado. Vinha correndo de seu quarto muito excitado por ter outro dia pela frente e ele mal podia esperar para descobrir o que aquele dia lhe traria."

"Eu fui uma criança extremamente feliz", diz Kurt. "Estava gritando e cantando o tempo todo. Não sabia quando parar. Eu acabava apanhando de outras crianças porque ficava muito excitado querendo brincar. Eu levava as brincadeiras bastante a sério. Era simplesmente muito feliz."

O primeiro de sua geração, Kurt teve sozinho sete tios e tias por parte de mãe que discutiam sobre quem iria tomar conta dele. Acostumado a ser o centro das atenções, ele entretinha qualquer um que quisesse assisti-lo. "Ele era tão dramático", diz Wendy. "Ele se jogava no chão de uma loja para um velho; apenas porque esse velho adorava ver Kurt cantando para ele." Um dos discos favoritos de Kurt era Alice's Restaurant de Arlo Guthrie. Freqüentemente ele cantava "Motorcycle Song" de Guthrie. "I don't want a pickle/I just want to ride on my motorcycle/And I don't want to die!" [Eu não quero um problema/Eu só quero passear na minha motocicleta/E eu não quero morrer!].

Sua tia Mary lhe deu um bumbo quando ele tinha sete anos. Kurt pendurava-o com uma correia e andava pela vizinhança usando um chapéu de caça e os tênis de seu pai, batendo no tambor e cantando músicas dos Beatles como "Hey Jude" e "Revolution".
Kurt não gostava quando os homens olhavam para Wendy, uma mulher muito atraente de cabelos loiros e belos olhos azuis. Don nunca pareceu se importar, mas Kurt sempre ficava nervoso e ciumento - "Mamãe, aquele homem está olhando pra você!", dizia ele. Certa vez, ele até mesmo advertiu um policial.

Mesmo com três anos idade, Kurt não gostava muito de policiais. Quando avistava um, cantava uma canção: "Corn on the cops, corn on the cops! The cops are coming! They're going to kill you!" [Milho nos policiais, milho nos policiais! Os policiais estão chegando! Eles vão matar você!]. "Toda vez que eu via um policial, começava a cantar isso na cara deles e a apontar o dedo para eles e a dizer que eles eram maus", diz Kurt, dando risada. "Eu tinha essa coisa pesada com os policiais. Não gostava mesmo deles." Com dois anos a mais, Kurt enchia com pedras latinhas de 7-Up e as arremessava em carros de polícia, apesar de nunca ter acertado um de verdade.

Foi também nessa mesma época que ele, de alguma forma, aprendeu a mostrar seu dedo do meio daquele jeito consagrado. Enquanto sua mãe dirigia pela cidade fazendo seus serviços, ele se sentava no banco detrás do carro e mostrava o dedo para todos por quem passavam.

Na época em que Kurt estava no segundo ano, todo mundo havia notado quão bem ele sabia desenhar. "Depois de um tempo", diz Wendy, "aquilo começou a ser algo como que enfiado goela abaixo. Todo presente era um pincel ou um cavalete. Nós quase que estragamos isso para ele".

Todos achavam que os desenhos e as pinturas de Kurt eram excelentes, exceto ele. "Ele nunca ficava contente com sua arte", diz Wendy. "Nunca estava satisfeito com ela, como os artistas típicos." Um dia, perto do Halloween, Kurt chegou em casa com uma cópia do jornal escolar. Na primeira página havia um desenho dele, uma honra normalmente reservada para crianças que já estavam pelo menos no quinto ano. Kurt estava realmente nervoso por causa disso quando chegou em casa, porque não achava que seu desenho fosse tão bom assim. "Sua postura perante os adultos mudou por causa daquilo", diz Wendy. "Todo mundo estava dizendo a ele o quanto amavam sua arte e ele nunca estava satisfeito com ela."

Até o terceiro ano, Kurt queria ser um rock star - ele ouvia discos dos Beatles fingindo tocar sua guitarra de plástico. Depois, por um bom tempo, ele quis ser um dublê. "Gostava de brincar na rua, pegar cobras, pular do telhado com a minha bicicleta", recorda ele. "Evel Knievel era meu único ídolo." Certa vez, ele tirou todos os travesseiros e roupas de cama da casa, colocou-os na varanda e pulou do telhado em cima deles. Outra vez, pegou um pedaço de metal e prendeu-o com fita adesiva em seu peito, formando um tubo onde colocou um punhado de bombinhas e as acendeu.

De vez em quando, Kurt visitava o tio Chuck, irmão de Wendy, que tocava em uma banda. Chuck havia construído para seu estúdio no porão alto-falantes que eram tão grandes que ele não conseguia tirá-los de lá. Ele levou Kurt para o porão, deu-lhe um microfone e gravou algumas fitas. Wendy ainda tem uma fita que ele gravou quando tinha uns quatro anos. Kurt canta e aí, quando pensa que ninguém está ouvindo, começa a dizer palavrões. "Cocô-cagada", diz ele. "Cocô-cagada!".

Don e Wendy deram a Kurt uma pequena bateria do Mickey Mouse. "Eu meio que empurrei uma bateria para ele porque eu queria ser baterista", Wendy admite. "Mas minha mãe achava que era algo muito pouco feminino, então nunca me deixou tocar." Kurt não precisou ser empurrado - tão cedo conseguiu se sentar e segurar coisas, ficava batendo em panelas e frigideiras. Espancou sua bateria do Mickey Mouse todos os dias depois da escola, até quebrá-la.

Apesar de não ficar na melhor área de Aberdeen - de fato, a vizinhança era bem precária - a casa dos Cobain foi sempre a mais atraente do quarteirão. Don a manteve na melhor forma, colocando carpete, lareira de tijolo falso e rodapé de imitação de madeira. "Era branco pobre posando de classe média", diz Kurt sobre sua formação.

Wendy veio de uma família sem muitos recursos, mas sua mãe sempre fez questão de assegurar que os filhos aparentassem ter muito mais do que tinham. Wendy era do mesmo jeito. Todo dia de manhã, ela alisava cuidadosamente os cabelos de Kurt naquele estilo Shaun Cassidy, certificava-se de que ele escovara os dentes e o vestia com as melhores roupas que podiam comprar, e ele ia se equilibrando até a escola em seus tênis de caminhada. Ela até fez Kurt usar um suéter ao qual ele era alérgico, porque ficava bem nele. "Os meus dois filhos eram provavelmente as crianças mais bem-vestidas de Aberdeen", diz Wendy. "Eu assegurava isso."
Wendy tentava manter suas crianças longe do que ela chama de "certos amigos de certos lugares que vivem em certas circunstâncias". Kurt diz que ela basicamente falava para ele ficar longe das crianças pobres. "Minha mãe achava que eu era melhor do que aquelas crianças, então eu estava sempre implicando com elas - as crianças sujas, a gentalha", diz Kurt. "Lembro-me apenas que havia umas duas crianças que estavam sempre fedendo mijo e eu as ameaçava e brigava com elas. Lá pelo quarto ano, percebi que aquelas crianças eram provavelmente mais legais do que as de classe alta, mais 'pé-no-chão', pé-na-lama." Mais tarde o cabelo despenteado de Kurt, sua barba sempre por fazer e seu guarda-roupas maltrapilho se tornariam marcas registradas mundialmente famosas.

Kurt começou a ter aulas de bateria no terceiro ano. "Até onde consigo me lembrar, desde que eu era um garotinho, sempre quis ser o Ringo Starr. Mas queria mesmo era ser o John Lennon tocando bateria", diz Kurt. Kurt tocou na banda da escola no primário, apesar de nunca ter aprendido a ler partitura - ele simplesmente esperava que o colega da primeira carteira aprendesse a música para então copiar o que ele estava fazendo.

No Natal de 1974, quando ele tinha sete anos, Kurt entendeu que sua mãe o achava uma criança problemática. "A única coisa que eu queria naquele ano era uma pistola Starksy and Hutch de cinco dólares", diz Kurt. "Em vez disso ganhei um pedaço de carvão".*
Kurt afirma que era ambidestro, mas seu pai tentou forçá-lo a usar a mão direita, temendo que ele tivesse problemas depois como canhoto. Ele acabou se tornando canhoto de qualquer jeito.

Na maior parte da sua vida, Kurt foi atormentado por um ou outro problema de saúde. Além da hiperatividade, ele sempre sofreu de bronquite crônica. Na oitava série, diagnosticou-se que Kurt tinha uma leve escoliose, uma curvatura da coluna vertebral. Com o passar do tempo, o peso de sua guitarra de fato agravou a curvatura. Se tivesse sido destro, diz ele, isso teria corrigido o problema.

Em 1975, quando Kurt tinha oito anos, seus pais se divorciaram. Wendy diz que se separou de Don simplesmente porque ele não ficava muito em casa - estava sempre fora jogando basquete ou beisebol, treinando times ou atuando como juiz. Olhando para trás, ela se pergunta se alguma vez o amou de verdade. Don se opôs amargamente ao divórcio, mas ambos admitem que as crianças mais tarde foram usadas em uma guerra entre seus pais.
Kurt encarou muito mal o divórcio e suas conseqüências. "Aquilo arruinou sua vida", diz Wendy. "Ele mudou completamente. Acho que se sentia humilhado. E se tornou muito introspectivo - simplesmente guardou tudo com ele. Ele acabou ficando muito tímido."

"Acho que ele ainda está sofrendo", acrescenta ela.

Em vez da criança feliz e extrovertida que Kurt foi um dia, "ele se tornou taciturno", diz Wendy, "meio bravo, sempre franzindo a testa e zombando dos outros". Na parede do seu quarto, Kurt escreveu: "Odeio a mamãe, odeio o papai, papai odeia a mamãe, mamãe odeia o papai, isso simplesmente dá vontade de ser triste". Alguns palmos acima ele fez caricaturas de Wendy e Don junto com as palavras "Papai é um saco" e "Mamãe é um saco", e embaixo desenhou um cérebro com um grande ponto de interrogação em cima. Os desenhos continuam lá até hoje, junto com alguns logotipos estilosos do Led Zeppelin e do Iron Maiden que ele desenhou (ele nega tê-los feito, mas as irmãs não mentem).

Kurt foi como muitas crianças de sua geração - de fato, todos os que já estiveram no Nirvana (exceto um) vieram de lares desfeitos.

O índice de divórcios disparou em meados da década de 1970, aumentando mais que o dobro em dez anos. Os filhos desses casamentos malsucedidos não tiveram uma Guerra Mundial ou uma Depressão para enfrentar. Eles apenas não tinham uma família. Conseqüentemente, suas batalhas eram privadas.

Kurt diz que foi como se uma luz tivesse se apagado nele, uma luz que ele vem tentando reacender desde então. "Me lembro apenas de de repente não ser mais o mesmo, me sentia como se não tivesse mais dignidade", diz ele. "Sentia que não merecia estar com as outras crianças, porque elas tinham seus pais e eu não tinha mais os meus, eu acho."

"Eu estava simplesmente puto com meus pais por eles não serem capazes de lidar com seus problemas", continua. "Durante a maior parte da minha infância, depois do divórcio, eu meio que tinha vergonha dos meus pais."

Porém, Kurt havia começado a se sentir isolado antes mesmo do divórcio. "Eu não tinha nada em comum com meu pai especialmente", diz ele. "Ele queria que eu praticasse esportes e eu não gostava de esportes, eu era artístico e ele simplesmente não apreciava esse tipo de coisa, então sempre me sentia constrangido. Simplesmente não conseguia entender como eu podia ser fruto dos meus pais porque eles não eram artísticos e eu era. Gostava de música e eles não. Subconscientemente, talvez eu pensasse que havia sido adotado - desde aquele episódio da Família Dó-Ré-Mi, quando Danny pensou que fosse adotado. Eu realmente me identificava com aquilo."

A criatividade e a inteligência de Kurt - e a compreensão prematura de que era um artista - faziam parte do problema. "Até os dez ou 11 anos, não percebia que era diferente das outras crianças da escola", diz ele. "Comecei a perceber que tinha mais interesse em desenhar e ouvir música, bem mais do que os outros garotos. Isso foi crescendo em mim aos poucos até eu começar a perceber. Então, quando cheguei aos 12 anos, eu era completamente introvertido." Convencido de que nunca acharia alguém como ele, simplesmente parou de tentar fazer amigos.

"Essa cidade - se ele tivesse ficado em qualquer outro lugar teria ficado bem", diz Wendy. "Mas essa cidade é exatamente como Peyton Place.* Todos observam todos e fazem seu julgamento, e eles têm seus pequenos grupos e querem que cada um fique no seu, e ele não queria."

Kurt morou com sua mãe por um ano após o divórcio. Mas ele não gostava do seu novo namorado, que ele chama de "um grande e malvado espancador de esposas". A princípio, Wendy atribuiu a antipatia de Kurt pelo seu namorado a mero ciúme. Cinco anos depois, ela percebeu que seu namorado era "doidinho" - um paranóico esquizofrênico, de fato. Kurt estava extremamente infeliz e estendia sua raiva a todo mundo, desde Wendy até as babás, que ele costumava trancar para fora de casa. Wendy não podia mais controlá-lo, então mandou-o viver com Don em seu trailer em Montesano, uma comunidade madeireira ainda menor, aproximadamente 21 quilômetros ao leste de Aberdeen.

A casa de Don não era uma casa móvel, mas uma casa pré-fabricada que foi dividida em partes, rebocadas por um caminhão até um estacionamento de trailers e depois juntadas novamente. "Não era das mais luxuosas - aqueles duplex onde moram os brancos ricos da classe mais baixa", diz Kurt.

No começo, foi ótimo. Don comprou para Kurt uma minimoto e eles fizeram coisas juntos, como ir à praia no fim de semana ou acampar. "Ele tinha tudo", diz Don. "Ele tinha se dado bem. Tinha o espaço da casa inteira, tinha uma motocicleta, podia fazer tudo o que quisesse e nós sempre estávamos fazendo alguma coisa. Mas aí, quando duas outras crianças e uma nova mãe entram em cena...".

Don casualmente havia dito a Kurt que nunca se casaria outra vez. Pouco depois, em fevereiro de 1978, ele se casou novamente. Sua nova esposa trouxe junto com ela seus dois filhos pequenos, e eles todos se mudaram para uma casa de verdade em Montesano. Kurt definitivamente não se deu bem com sua nova família, principalmente com sua mãe adotiva. "Ainda hoje não consigo pensar em uma pessoa que fosse mais falsa", diz ele. "Ela é uma das pessoas mais agradáveis", Don protesta. "Tratou-o otimamente, tentou várias coisas, arranjou empregos para ele e tentou lidar bem com tudo, mas aquilo estava ferrando a família toda, o jeito dele agir e algumas coisas que ele estava fazendo - e outras que não estava."

Kurt matava aula e recusava-se a fazer seus deveres de casa. Don diz que ele nem sequer apareceu para o trabalho de ajudante de garçom que ele lhe arranjara. Ele começou a atormentar seu meio-irmão mais novo e não gostava muito de sua meia-irmã mais nova também - mesmo ela sendo quatro anos mais nova que ele, era ela quem tomava conta dele quando seus pais saíam.

Em seguida, ele notou que seu pai começou a comprar vários brinquedos para seus meio-irmãos. Enquanto ele se escondia em seu quarto no porão, eles iam ao shopping e depois voltavam com um Starhorse ou um caminhão Tonka. "Tentei de tudo para fazê-lo se sentir querido, para ser parte da família e tudo o mais", diz Don, que afirma ter conseguido legalmente a custódia de Kurt só para fazê-lo se sentir mais parte da família. "Mas ele simplesmente não queria estar lá, queria estar com sua mãe e ela não queria ele. E então agora ela é a boazinha e eu é que sou o vilão da história."

Mas talvez haja algo mais do que isso. "Sou sentimental de vez em quando, mas outras vezes não, e simplesmente não sei como me expressar", Don admite. "Às vezes meu jeito orgulhoso fere os sentimentos das pessoas. Não estou tentando machucá-las, mas não percebo que estou fazendo isso, eu acho." Talvez algo do tipo tenha acontecido com Kurt. "Talvez", diz ele. "Definitivamente."

Estranhamente, Don parece ter verdadeira amnésia sobre seus anos com Kurt. Apesar de agora ele dar a impressão de ser um homem simples e amável, a tensão do divórcio pode ter trazido à tona um lado seu mais obscuro. "Por acaso o eduquei com mãos de ferro?", diz ele. "Ok, minha esposa diz que sim. Eu provavelmente explodo antes de pensar. E magôo as pessoas. E passo por cima, esqueço daquilo e ninguém mais esquece. Pois é, meu pai me batia com um cinto e coisas assim, me deixava com o olho roxo e coisas desse tipo, mas não sei, eu batia nele com um cinto, sim."

"Tudo o que Kurt fazia refletia em Don", diz Wendy. "Se ele se saía mal em um jogo de beisebol, depois do jogo ele simplesmente ficava enfurecido a ponto de humilhar Kurt. Ele nunca permitiu que Kurt fosse uma criancinha. Ele queria que ele fosse um pequeno adulto e se comportasse perfeitamente, que nunca fizesse nada de errado. Ele dava uns cascudos nele e o chamava de idiota. Ele ficava irritado muito rápido e - pá, pancada na cabeça. Minha mãe diz que se lembra de uma vez em que ele jogou Kurt no quarto quando ele tinha mais ou menos seis anos". Don afirma não se lembrar de nada disso.

"Isso se chama 'negação'", replica Wendy.

Depois do divórcio, Don começou a trabalhar no Mayer Brothers, uma companhia madeireira, como controlador de mercadorias. "Basicamente", diz Kurt, "ele apenas andava de um lado para o outro o dia todo e contava os troncos".

"Sua idéia de passeio de pai e filho era me levar para o trabalho aos sábados e domingos", continua Kurt. "Eu ficava sentado em seu escritório enquanto ele ia contar as lenhas. Realmente um fim de semana muito empolgante." No escritório de seu pai, Kurt desenhava figuras e passava trotes pelo telefone. Às vezes ele saía para ir até o depósito e ficava brincando sobre as pilhas de madeira. Depois de toda aquela excitação, ele ia para a van do seu pai e escutava repetidas vezes a faixa oito do News of the World do Queen. Às vezes ficava tanto tempo escutando que esgotava a bateria e eles tinham de achar alguém para ajudar a ligar o motor.
Don costumava correr por aí com o grupo de atletas do colégio, mas nunca se destacou nos esportes, talvez porque fosse pequeno para sua idade. O pai de Don esperava muito dele, mas ele simplesmente não podia competir. Alguns acreditam que tenha sido por isso que ele empurrou Kurt para os esportes.

Don fez Kurt entrar para o time júnior de luta greco-romana do colégio. Kurt odiava os exercícios exaustivos, e odiava ainda mais ter de passar o tempo com os atletas. "Eu odiava aquilo - odiava cada segundo", diz Kurt. "Eu simplesmente odiava demais aquilo." Ele voltava para casa à noite depois das práticas, "e havia aquela refeição repugnante e ressecada que minha mãe adotiva tinha cozinhado com muito amor e preparação, e ela estava largada lá desde a hora do jantar, o forno no fogo baixo e tudo era seco e horrível. Ela era a pior cozinheira do mundo".

Mesmo assim, Kurt diz que se saiu muito bem na luta greco-romana, especialmente porque ali podia descarregar sua raiva. Mas no dia de uma luta em um grande campeonato, Kurt resolveu vingar-se de seu pai. Ele e seu oponente andaram até o local da luta e colocaram-se em posição enquanto Don sentava-se na arquibancada, torcendo por seu filho. "Eu estava agachado e olhei para o meu pai, dei um sorriso e esperei soar o apito", diz Kurt, "estava fitando o seu rosto e de repente fiquei parado - cruzei os braços e deixei o cara me imobilizar. Você precisava ter visto a expressão no rosto dele. Ele realmente foi embora no meio da luta porque eu fiz isso umas quatro vezes seguidas". Don não se lembra desse episódio também, mas Kurt fala que o incidente resultou em uma das vezes que ele teve de sair de casa e ir morar com seus tios.

Don até levou Kurt para caçar uma vez, mas logo que chegaram na floresta, Kurt recusou-se a seguir adiante com a farra da caça. Ele passou o dia todo, de manhã até a noite, no caminhão. "Agora que olho para trás", diz Kurt, "sei que tive a percepção de que matar animais é errado, principalmente por esporte. Não entendi isso no momento. Só sabia que não queria estar lá".

Nesse meio-tempo, Kurt começou a descobrir outros tipos de rock além dos Beatles e dos Monkees. Don tinha começado uma coleção de discos bem séria depois que alguém sugeriu que ele entrasse no clube de discos e fitas da Columbia House. Todo mês, álbuns de bandas como Aerosmith, Led Zeppelin, Black Sabbath e Kiss chegavam pelo correio. Don nunca chegou a abri-los mas, poucos meses depois, Kurt o fez.

Kurt havia começado a andar com um grupo de caras que ostentavam colares de conchinhas, cabelos emplumados e camisetas do Kiss. "Eles eram mais velhos do que eu - deveriam estar no colegial", diz Kurt. "Eles estavam fumando maconha e eu simplesmente achei que eram mais legais do que meus amigos nerds do quarto ano que assistiam Happy Days. Deixei-os vir até minha casa e comer minha comida, apenas para ter amigos."

Aqueles caras malucos logo notaram a impressionante coleção de discos de Don e incitaram Kurt a tocar os discos. "Depois que fui envolvido naquela música", diz Kurt, "comecei a me transformar em um moleque meio maconheiro".

"Ele nunca se revelou e disse qualquer coisa, mesmo nos seus primeiros anos, sobre o que realmente o estava perturbando ou o que ele queria", diz Don. "Ele é como eu - não diga nada e talvez aquilo desapareça ou algo assim. E não explica. Tudo simplesmente se acumula e tudo acaba extravasando de uma só vez."

"Ele se casou e depois daquilo eu era uma das coisas menos importante na sua lista", diz Kurt. "Ele simplesmente desistiu, porque estava convencido de que minha mãe havia feito uma lavagem cerebral em mim. É algo realmente patético e frágil para fundamentar a existência de seu filho.

De modo algum penso em meu pai como um machão ignorante", diz Kurt. "Ele não é metade do que vi muitos pais serem." Então qual é exatamente a queixa de Kurt contra seu pai? "Nem eu mesmo sei", confessa ele. "Queria poder lembrar mais. Nunca me senti como se realmente tivesse um pai. Nunca tive uma figura paterna com a qual pudesse compartilhar as coisas."

No final, Don também não soube lidar com seu filho, então Kurt foi jogado de um lado para o outro pela família, e acabou vivendo com três grupos diferentes de tios e tias, bem como com seus avós por parte de pai. Ele se mudava pelo menos duas vezes por ano para Montesano e Aberdeen, trocando também de colégio.

Wendy sabia que deveria recebê-lo de volta, mas tivera seus próprios traumas - ela finalmente havia se livrado do paranóico esquizofrênico, que havia abusado dela mental e fisicamente. Uma vez ela até acabou no pronto-socorro. Desde então ela havia perdido seu emprego e pedido ao seu irmão Chuck, o músico, para tomar conta de Kurt.

No 14º aniversário de Kurt, Chuck disse a ele que poderia ganhar uma bicicleta ou uma guitarra. Kurt pegou a guitarra, um modelo de segunda mão que mal funcionava, e um surrado amplificador de dez watts. "Acho que não era nem mesmo uma Harmony", diz Kurt sobre a guitarra. "Acho que era uma Sears." Ele largou a bateria e teve aulas de guitarra por mais ou menos uma semana, tempo suficiente para aprender a tocar "Back in Black", do AC/DC. "Os acordes se parecem muito com os de 'Louie, Louie'", diz ele, "e isso é tudo o que se precisa saber". Depois disso, ele começou a escrever suas próprias músicas. Seu professor de guitarra, Warren Mason (que tocou em uma banda com Chuck), se lembra de Kurt como "um moleque quieto e bacana". Kurt nega veementemente, mas Mason diz que ele realmente queria aprender a tocar "Starway to Heaven".

Kurt achava Aberdeen assustadora. Comparada com Montesano, Aberdeen era como que a grande cidade. "Apenas achava que aqueles garotos eram de uma classe mais alta e que eu não era suficientemente digno de estar em seu grupo", diz ele.

Na sala de aula, ele lia livros de S. E. Hinton tais como Rumblefish e Outsiders, evitando falar com qualquer pessoa. Diz ele que não fez um único amigo naquele ano. Em vez disso, ele voltava para casa todo dia e tocava guitarra até a hora de ir para a cama. Já sabia tocar "Back in Black" e arranhava alguns outros covers - "My Best Friend's Girl" e "Louie, Louie", do The Cars, e "Another One Bites the Dust", do Queen.

No início de 1980, quando Kurt tinha 12 anos, ele e seu amigo Brendan viram o B-52's no "Saturday Night Live". Eles foram contagiados pelo vírus da new wave e Brendan fez seus pais comprar para ele um par de Vans xadrez. O pai de Kurt não podia bancar isso, então ele simplesmente desenhou uma estampa xadrez nos seus tênis de sempre.

No verão, antes do décimo ano escolar, Kurt começou a acompanhar as façanhas dos Sex Pistols na revista Creem. A idéia do punk rock fascinou-o. Infelizmente, a loja de discos em Aberdeen não possuía qualquer disco de punk rock, então ele não sabia como aquilo soava. Sozinho no seu quarto, ele tocava o que achava que soasse parecido - "três acordes e muita gritaria", diz Kurt. Não muito fora do esquema, como se constatou posteriormente.

Alguns anos mais tarde, finalmente ele encontrou um disco "punk", o álbum triplo, vasto e eclético do The Clash, Sandinista, e ficou desapontado quando aquilo não soou como ele pensava que o punk soasse.

Kurt descreve suas primeiras músicas como "riff-rock realmente rude". "Era parecido com Led Zeppelin, mas era tosco e eu estava tentando fazer aquilo do modo mais agressivo e medíocre possível", diz ele. "Eu pensava 'Como realmente deve ser o punk rock? O que ele é? Quão violento ele é?', e tentava tocar do modo mais violento que podia. Deixar o volume do meu pequeno amplificador de dez watts tão alto quanto era possível. Eu simplesmente não tinha idéia do que estava fazendo."

"Foi definitivamente uma boa prévia", diz Kurt. "Eu considerava aquilo o meu trabalho. Era a minha missão. Eu sabia que precisava praticar. Tão logo peguei minha guitarra, simplesmente fiquei obcecado por ela."

"Tinha essa impressão o tempo todo - sempre soube que estava fazendo algo que era especial", diz ele. "Sabia que era melhor, ainda que não pudesse provar isso naquele tempo. Sabia que tinha algo a oferecer e sabia que acabaria tendo a oportunidade de mostrar às pessoas que eu era capaz de escrever boas canções - que podia dar alguma contribuição musical ao rock and roll."
Kurt estava desesperado para dar o próximo passo lógico e montar uma banda. "Queria ver como era escrever uma música e ver como ela soava com todos os instrumentos de uma vez", diz Kurt. "Eu só queria isso. Pelo menos para treinar. Era tudo o que eu queria." Foram mais quatro anos antes que ele achasse uma banda, mas não por falta de tentativa.

Na escola, ele conheceu dois garotos, Scott e Andy, que tocavam baixo e guitarra e se encontravam para tocar em um frigorífico abandonado no meio da floresta. Kurt foi lá e tocou um dia, e os três decidiram montar uma banda. Kurt concordou em deixar sua guitarra lá, porque, afinal de contas, ele iria voltar no dia seguinte e ensaiar novamente. Porém, Scott e Andy foram adiando o ensaio, e os dias viraram semanas e as semanas viraram meses. Kurt não podia pegar seu instrumento de volta porque não tinha carro, e sua mãe não o levaria lá. Ele se virou com uma guitarra para destros de um garoto cuja mãe havia morrido e que estava ficando na casa dos Cobain. "Ele era o tipo de cara chapado que era realmente mudo e bobão", diz Kurt. "Gostava dele porque ele era uma pessoa realmente deprimida." Finalmente, Kurt arrumou um amigo para levá-lo à floresta no lugar onde estava sua guitarra e eles a encontraram aos pedaços - só o braço e umas cordas. Kurt fez cuidadosamente um novo corpo para ela em uma madeireira, apenas para descobrir que ele não sabia as proporções corretas para fazê-la ficar afinada.

"Quando eu era muito mais novo, por volta dos sete anos, pensei que com certeza eu poderia ser um rock star", diz Kurt. "Não havia problema algum porque eu era tão hiperativo e o mundo estava nas minhas mãos - eu podia fazer qualquer coisa. Sabia que poderia ser o presidente se eu quisesse, mas isso era uma idéia idiota - preferia ser um rock star. Não tinha nenhuma dúvida. Eu estava muito interessado nos Beatles e não entendia o mundo ao meu redor, o que o futuro me reservava, qual tipo de alienação eu sentiria como adolescente."

"Eu pensava em Aberdeen como uma cidade igual a qualquer outra na América", continua. "Pensava que eram todos iguais - todos se entendiam e a violência não chegava nem perto do que de fato era, e que seria realmente fácil. Achava que os Estados Unidos fossem tão grandes quanto meu quintal, então não haveria problema em dirigir por toda parte e tocar em uma banda de rock e ser capa de revistas e coisas assim.
Mas aí, quando comecei a me tornar esse maníaco depressivo aos nove anos, eu não olhava para isso dessa forma. Parecia irreal demais."

Lá pelo décimo ano escolar, Kurt havia abandonado todas as fantasias da fama. "Eu era tão inseguro naquela época", ele diz. "Tinha tão pouca auto-estima que nem sequer podia pensar em finalmente me tornar um rock star, em não me importar em lidar com o que esperariam de um rock star. Não podia me imaginar aparecendo na televisão ou dando entrevistas ou qualquer coisa parecida. Coisas desse tipo nem sequer passavam pela minha mente naquela época. "

O pai de Kurt o havia feito entrar para o time Babe Ruth da liga de beisebol. Basicamente, ele só esquentava o banco, e sempre que era chamado para pegar o taco, ele batia para fora de propósito, de forma a não ter de participar do jogo. No banco, ele passava o tempo com um cara chamado Matt Lukin e eles conversavam sobre Kiss e Cheap Trick. Os dois haviam se encontrado antes em aulas de eletrônica no Montesano High [Colégio de Montesano]. Lukin lembra-se de Kurt como "aquele garotinho rebelde de cabelo ensebado".

Lukin tocava baixo em uma banda local chamada Melvins, que Kurt já havia visto ensaiar uma noite, no verão anterior ao nono ano escolar. Brendan, o amigo de Kurt, conhecia alguém que conhecia o baterista dos Melvins e eles arranjaram um convite para o ensaio da banda, que era no sótão da casa de alguém. Os Melvins ainda não tinham virado punks, e tocavam covers de Hendrix e The Who.

Foi a primeira vez que Kurt viu uma banda de rock de verdade assim de perto e ele ficou muito excitado. "Eu bebi vinho a noite toda e estava realmente bêbado e desagradável e me lembro de tê-los cumprimentado um milhão de vezes", diz Kurt. "Estava muito empolgado em ver pessoas da minha idade em uma banda. Era demais. Eu estava pensando, 'Uau, esses caras são tão sortudos'."

Cansados daquele pequeno puxa-saco, eles enxotaram Kurt, que, ainda bêbado, caiu da escada do sótão assim que saiu.

Na aula de arte no Montesano High naquele ano, Kurt encontrou-se novamente com Buzz Osborne, o líder dos Melvins, um garoto atarracado de aparência selvagem, dois anos mais velho. Naquele tempo, Osborne era um grande fã do The Who, mas logo se voltou para o punk rock. Ele tinha um álbum de fotografias dos Sex Pistols que deixou Kurt pegar emprestado. Kurt ficou fascinado. Era a primeira vez que ele via o punk rock em outro lugar que não naquelas poucas e preciosas páginas da Creem. "Aquilo era os Sex Pistols em toda sua selvageria", diz Kurt, "e eu pude ler sobre eles e tudo mais. Foi muito legal". Em pouco tempo, ele estava desenhando o logotipo dos Sex Pistols na sua carteira em todas as aulas e por todo o seu fichário Pee-Chee.* Então começou a contar para todo mundo que o ouvia que ele iria fundar uma banda de punk rock e que ela iria ser realmente popular, ainda sem fazer a menor idéia de como soava o punk rock.

"Ele me impressionou como uma aberração", diz Kurt sobre Osborne. "Alguém que eu definitivamente queria conhecer." Kurt invejava Osborne porque ele tinha uma banda de punk rock que de fato tocava às vezes em Seattle e em Olympia. "E aquilo era tudo o que eu realmente queria fazer naquele momento", diz Kurt. "Eu não tinha nenhuma grande expectativa sobre a minha música. Só queria ter a chance de tocar na frente de algumas pessoas em Seattle. A idéia de estar em uma banda bem-sucedida o suficiente para realmente sair em turnê era mais do que eu podia querer naquela época."

Os Melvins também tinham o baterista original Mike Dillard, que mais tarde foi substituído por Dale Crover. Na sua primeira fase punk, eles tocavam um hardcore mais veloz do que a luz. Então, quando todos começaram a fazer o mesmo, eles passaram a tocar provavelmente o mais devagar que podiam, só para encher o saco de todo mundo. E para realmente encher o saco, injetaram heavy metal na mistura. Com o seminal álbum Gluey Porch Treatments de 1987, os Melvins iriam se tornar um dos pais fundadores do que veio a ser finalmente conhecido como grunge - uma forma nova, mutante, de punk rock que absorveu o heavy metal tão bem quanto bandas proletárias de hard rock setentistas, como Kiss e Aerosmith. Seu som revolucionou a cena musical de Seattle, que tinha sido previamente dominada por bandas de art-rock.

Os Melvins já tinham tocado em Seattle quando Kurt os viu pela primeira vez, e em 1985, tinham aparecido na protéica coletânea Deep Six ao lado de U-Men, Soundgarden, Green River, Malfunkshun e Skin Yard. Exceto pelo art-rock da U-Men, todas misturavam diversos tipos de punk, hard rock estilo anos 1970 e heavy metal proletário em um rude porém efetivo hibridismo musical.

Kurt às vezes ajudava os Melvins a carregar seu equipamento até Seattle para os shows. Aberdeen não tinha exatamente uma história musical - apesar da banda de speed metal Metal Church, que vendeu metade de um disco de platina, ser da cidade - e uma banda que tocava em Seattle era uma grande notícia.

Kurt estava muito infeliz por estar sendo jogado de um lado para o outro, de um parente para outro. Em maio de 1984, Wendy casara-se com Pat O'Connor, um estivador. Naquele tempo Pat estava na bebedeira pesada e Wendy já estava ocupada demais com aquilo - ela não achava que pudesse lidar também com Kurt, mas ele finalmente a convenceu a acolhê-lo de volta. "Levei meses chorando ao telefone todas as noites, tentando convencê-la a me deixar viver com ela", diz Kurt.

Certa noite Pat saiu e só voltou depois das sete da manhã, bêbado e, como Wendy coloca, "impregnado do fedor de uma garota". Ela estava furiosa, mas assim mesmo foi para o trabalho na loja de departamentos. Então um par de vagabundos entrou na loja só para tirar sarro dela. "Ei, onde estava Pat na noite passada?", zombaram eles. Wendy ficou tão brava que saiu e encheu a cara com uma amiga, depois voltou para casa e explodiu com Pat. Na frente de ambas as crianças, ela tomou uma das várias armas dele do guarda-roupas e ameaçou atirar nele - mas ela não sabia como carregar a pistola. Então ela pegou todas as suas armas - revólveres, pistolas, rifles, armas antigas - e arrastou-as pela viela, enquanto Kim carregava uma grande sacola de balas, até o rio Wiskah e lá as jogou.

Kurt estava assistindo da janela do seu quarto. Mais tarde naquele mesmo dia, ele pagou dois garotos para pescar quantas armas eles conseguissem encontrar e depois as vendeu. Kurt comprou seu primeiro amplificador com o dinheiro que conseguiu. Então levou o cara que vendeu o amplificador até seu traficante e o cara gastou todo o dinheiro em maconha.

Kurt tocava sua guitarra muito alto. Os vizinhos reclamavam. Wendy deixava marcas no teto com seu cabo de vassoura. Kurt adorava quando a família saía para fazer compras ou algo assim, porque aquilo significava que ele podia botar para quebrar. "Nós voltávamos para casa na esperança de ela ainda ter janelas", diz Wendy. Kurt tentava fazer que seus amigos tocassem com ele, mas nenhum deles tinha qualquer talento musical. Ele era bem mandão e direto na sua crítica. Ele sabia exatamente o que queria.

Ninguém sabia que ele também estava cantando lá em cima no seu quarto. "Um dia", diz Wendy, "Pat e eu o escutamos. Ele estava cantando muito baixo. Ele não queria que nós o escutássemos. Colocamos nossos ouvidos na porta e nos entreolhamos, torcemos nossos narizes e dissemos: 'melhor ficar com a guitarra'".

sexta-feira, 6 de março de 2009

Era uma vez em Itabaiana ...

1 Ano sem Adelardo jr. e Ademir Pinto

Itabaiana é a minha cidade natal. Tem cerca de 80.000 habitantes, fica na região agreste do estado, a 52 km de Aracaju, e tem uma serra deslumbrante que é, também, um dos pontos mais altos do estado. Pois bem, nos anos noventa havia rock no radio em Itabaiana. Rock mesmo, e no radio MESMO, não web-radio (a internet era coisa restritíssima na época, algo do qual a gente só tinha ouvido falar que existia mas pouquíssima gente tinha acesso, coisa de ficção cientifica).

Haviam dois programas dedicados ao rock, cada um veiculado por uma das duas rádios FM da cidade. Ademir Pinto de Menezes, originalmente operador de áudio, comandava o GUILHOTINA, que ia ao ar uma vez por semana pela Itabaiana FM. O programa começou quando o diretor da radio (que pertencia ao vive-governador do estado na época) deixou a seus cuidados um espaço ocioso ressaltando que ele poderia fazer com ele o que quisesse. Foi a senha para que ele chamasse seus amigos roqueiros fanáticos por musica para ajudá-lo nessa empreitada. Eu era um dos colaboradores. De quinze em quinze dias (o programa era semanal) eu me mandava para Itabaiana (morava já em Aracaju) com uma penca de discos de vinil e CDs e fitas demo em k7 para colocar o rock no ar.

Me parece que pouca gente ouviu (quando o telefone tocava a gente se animava – “ói, aleluia, um ouvinte”, mas era sempre outra coisa, alguém perguntando se alguém tava lá no estúdio ou coisa do tipo), mas foi divertido de fazer. E tivemos momentos antológicos – Exemplo: Uma vez Ademir me ligou antecipadamente falando que se eu quisesse não precisava ir, porque o programa iria ser interrompido várias vezes para veicular chamadas direto da inauguração de um poço artesiano pelo vice-governador do estado (proprietário da radio, lembrem-se). Eu resolvi ir, mas pra radicalizar, escrachar mesmo, só tocamos as coisas mais barulhentas possíveis, do “psychocandy” do Jesus and Mary Chain ao “From slavement to obliteration” do Napalm Death. Era engraçado, o repórter mandava lá do povoado no ar: “estamos aqui esperando a visita do excelentíssimo senhor vice-governador do estado, enquanto isso vocês seguem ouvindo o programa GUILHOTINHA com Ademir Pinto”, e tome grindcore e hardcore no pé do ouvido.

Ademir não se importava com o risco de ser demitido, pois ele estava mesmo querendo se desligar da emissora. Desconfio até que ele incentivava esse tipo de atitude inconseqüente por parte dos colaboradores do programa, porque pra ele valia tudo. Pra se ter uma idéia, uma vez eu toquei no ar “canção de amor”, d`Oscabeloduro, de Brasília, que eu considero a musica mais escrota já feita e cuja singela letra diz mais ou menos assim: “pegue no meu pau/me chupe até o saco/vou comer o seu buraco/vou fazer você gritar/fique aqui de quatro/vem brincar de cavalinho/vou comer o seu cuzinho/até a pica esfolar”. E o refrão, gritado a plenos pulmões e com uma pronuncia perfeitamente inteligível (o vocal do Beto Podrinho não era gutural nem nada) era “chupe o meu pau/cheire a minha rola/lambe o meu saco”. Meigo não ? Pois rolou. No radio. Em Itabaiana. E se isso fazia parte de uma estratégia dele para ser demitido, não funcionou, pois soube posteriormente que o diretor da radio ouvia o programa (não creio que ele tenha ouvido na noite em que tocamos Oscabeloduro, felizmente) e a única reclamação que fez foi que a gente nunca tocava Raul Seixas. Ademir teve que, no final das contas, pedir demissão ele mesmo – mas não sem antes manter o programa no ar por aproximadamente um ano, com direito a uma edição especial só tocando grindcore, além de termos feito entrevistas com algumas bandas que passavam pela cidade, como a Karne Krua, e tocado na integra, provavelmente pela primeira (ou única) vez no radio sergipano, discos que posteriormente se tornariam clássicos, como o primeiro do Raimundos.

E sempre tem alguém ouvindo. Mais tarde fiquei sabendo que o programa foi ouvido inclusive no alto da serra, onde alguns amigos daqui mesmo de Aracaju iam sempre acampar e ficavam maravilhados de ouvir rock underground no radio por lá, e muito tempo depois uma pessoa que eu não conhecia me abordou na rua pra me falar que sempre ouvia o guilhotina lá no Marcos Freire, onde o sinal da radio conseguia chegar.

O Guilhotina, na verdade, veio para se somar a outro programa que já existia há algum tempo colocando rock nas ondas do radio lá mesmo, na “terra da cebola”. Era o SABOTAGE (assim mesmo, em inglês, provavelmente em referência ao disco do Black Sabbath), comandado por Adelardo jr. na outra radio FM local, a Princesa FM.

O Sabotage era uma explosão anárquica sem precedentes no radio sergipano. Seu produtor e apresentador era um comunicador nato e um “maluco beleza”, no melhor sentido da palavra. Tocava rock da melhor qualidade (e da pior também, mas aí vai do gosto de cada um) e, entre um bloco musical e outro, destilava uma verve anárquica e desbocada que era, na verdade, o grande atrativo do programa - muita gente ouvia mesmo sem gostar de rock, apenas pra se divertir com as tiradas sarcásticas de Adelardinho. Tanto que o seu programa, ao contrario do Guilhotina, teve vida longa, e com alguns momentos célebres que se tornaram lenda na historia do radio sergipano, notadamente os “enterrros de mentirinha” que aconteciam uma vez por ano. Reza a lenda que tudo começou quando, cansado da inadimplência de uma funerária e de uma sorveteria que anunciavam no programa e nunca pagavam a conta do anuncio, Adelardinho resolveu fazer uma promoção digna de uma historia de realismo fantástico saída das páginas de algum livro de Gabriel Garcia Marques: iria sortear um caixão de defunto cheio de picolés. Sorteou, e o sorteio foi um sucesso tão grande que eles resolveram ir entregar o “presente’ ao feliz ganhador em comitiva, a pé, tal qual num enterro simbólico. O sorteio passou então a acontecer periodicamente, sendo que um dos ganhadores, me falaram, foi o mais célebre punk da cidade, Badaró, que quase mata sua mãe do coração ao ter a infeliz idéia de entrar ele mesmo no caixão para ser entregue em sua casa. De minha parte me lembro de uma noite em que fui lá visitá-lo nos estúdios comendo um pacote de rosquinhas e ele passou o resto do programa falando no ar que “Adelvan tá aqui nos estúdios nos visitando e me oferecendo a rosca, quer também Pedão?”. Pedão era seu fiel escudeiro, o operador de áudio, que ele chamava carinhosamente de “Pedão peido de cuscus com ovo”.

Adelardo foi também o responsável por um dos maiores feitos da Historia do rock sergipano, ao promover um Megafestival de rock na Praça de eventos da cidade (que só costumava receber ídolos da musica brega e sertaneja ou do infame “forró eletrônico”). Tocaram neste festival várias bandas da capital e as que existiam na cidade na época, a Cleópatra e Ezequiel, o Pensador. Um Festival como nunca se tinha visto (e não se viu depois) em termos de estrutura e cobertura, já que foi transmitido ao vivo pelas duas rádios FM locais.

E assim foi, entre estas e outras historias que é melhor não mencionar, até sua morte, que aconteceu, infelizmente, prematuramente, aos 47 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco (ele bebia e fumava muito) no dia 07 de março de 2008. Ademir Pinto havia morrido alguns meses antes, vítima de câncer. Tinha abandonado o radio e era professor. Hoje é homenageado na cidade, entre outras coisas, com seu nome na Biblioteca da Associação Atlética de Itabaiana. Adelardo será lembrado como o ídolo que era pela pequena porém orgulhosa comunidade “rocker” local no dia 20 de março de 2009, quando acontecerá, na mesma Associação Atlética que tem a biblioteca com o nome de Ademir, um festival em sua homenagem. Mais do que merecido. Serão lembrados para sempre. Que estejam descansando em paz. Ou melhor, que estejam celebrando no outro mundo da maneira que mais gostavam, com muito rock.

por Adelvan Kenobi

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Alguns depoimentos de pessoas que conheciam e/ou colaboravam com Adelardo jr. e Ademir Pinto:

Hoje, infelizmente faleceu por parada cardíaca o nosso amigo Adelardinho, o Adelardo Junior, aos 47 anos. Meu sentimento já é de saudade, de medo de perder meus amigos, nem sei o que falar. Se eu for falar aqui o respeito e consideração que possuo por esse rapaz, não conseguiria expressar. Adelardo e Pedrão, apresentadores do programa Sabotagem, faziam todos os sábados a alegria de tantas pessoas e de tantos amigos que bate em mim uma tristeza tamanha. Dessa vez não adianta “Abaixo assinado”, dessa vez não é o enterro de brincadeira que fazíamos juntos, dessa vez é verdade. Meu amigo Adelardo vai alegrar o céu, ouvir Pink Floyd, Led Zepplin, Beatles, com Ademir Pinto e dar muita risada. Fique com Deus “Fidocanço”, leve sua alegria, seu conhecimento, e saiba que você deixa uma geração de roqueiros órfãos, sem ídolos e sem caminho.

Jamyson Machado - Amigo.
Itabaiana Sergipe

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Demorei vinte minutos olhando o monitor esperando que algo viesse à minha mente para falar de um cara que realmente me adotou como filho aqui na cidade de Itabaiana. Me apelidou de Robério Xiquita e sempre estive ao seu lado. Seu nome, Adelardo Junior, um cara louco das idéias, sempre um passo à frente do mundo, sempre buscando a melhor piada e a melhor trilha sonora. Seu programa intitulado de “O Pior do Mundo” foi batizado com o nome de Sabotage, tributo ao sexto álbum da banda Black Sabbath. Quase quinze anos se passaram desde o primeiro programa na FM Princesa.

Em minha adolescência eu escutava o louco gritando e tocando Beatles, Led Zeppelin e Pearl Jam. Cresci sentindo algo diferente, algo que me fez pensar sobre o que era realmente a música. Em 2003 eu vim para Itabaiana e entro na família Sabotage, apresentando um pequeno bloco chamado Rock Sergipe, onde eu mostrava algo que o próprio Adelardo desconhecia, era a qualidade de nossa música regional. Um pai pra mim nesses últimos 4 anos. Consegui meu programa por conta dele.

Hoje, 7 de março de 2008, morre ouvindo música aos 47 anos o ícone da música itabaianense. Devido a uma parada cardíaca que o levou nessa manhã a cidade parar e não acreditar no que aconteceu. Ele algumas vezes simulou enterro do próprio, saindo nas ruas dentro de um caixão. Já presenteou seus ouvintes com bobagens, tipo, caixa vazia de cerveja, caixões de defunto e algumas outras inutilidades. Acabou o Sabotage, acabou o Adelardo. Minha cabeça ainda não entrou no eixo, mas juro que realmente seu nome vai ser lembrado, como o cara que mudou a concepção conservadora de nossa cidade. Um homem de respeito que nunca iremos esquecer. Adeus, meu pai como todos diziam, um dia a gente se encontra, pode deixar que eu levo seus dvd’s e cds pra gente assistir por aí e dar boas gargalhadas.

Robério Xiquita

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Certa vez pedi pro Adelardo conseguir o set list do disco Back in Black do AC/DC pq eu comprei um cd e não tinha o set list, daí ele disse..."Se fudeu, comprou o piratinha" mas falou que conhecia um amigo em aracaju que tinha e tal e disse que eu passasse na radio na outra semana que ele me dava a lista. Bom, eu passei durante 3 semanas e nada, eu já tinha desisitido. Passaram uns 2 meses, foi quando um garoto chegou pra mim na rua e me perguntou, "hei, vc é Maicon"? e eu, "sou" daí o garoto falou, "velho, passe la na rádio pelo amor de Deus, porque eu já não agunento mais ouvir o Adelardo esculhambando um tal de Maicon que queria o set list de um disco la... e não ia pegar nunca, assim ele muda a piada". hehehehe E DE OUTRA VEZ QUE NO AR, O ADELARDO QUE FAZIA O PROGRAMA TOMANDO UNS APERITIVOS E TALS, SE ENGASGOU...KKKKKKKK FOI CÔMICO... KKKKKKKKKKKKKK e disse a Pedão, "...peraí fiu do canço que eu me engasguei aqui" hahahahha

Maicon “Stooge”, em depoimento no Orkut.

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Era figuraça mesmo! Se tornou um amigão da Maria Scombona e as entrevistas eram uma verdadeira zona, com provocações de ambos os lados... Mas ele sempre saia ganhando, claro! Em 1995 ou 96 tocou a primeira demo inteira da Snooze, lendo o release chapado e gaguejando, uma onda!

Rafael jr., em depoimento no Orkut

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a única coisa que ele sempre me dizia, era: toma juízo e pára de andar com esses malucos menina! ;p – e eu não tomei, pois eu era maluca também.

Samara, em depoimento no orkut


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Entrevista com Henry Jaepelt

Henry Jaepelt era uma presença constante em praticamente todo o material alternativo impresso que chegava até mim quando eu comecei a fazer fanzines, no final dos anos 80/inicio dos 90. Seu traço elegante sobre figuras distorcidas de aparentes universos paralelos em muito ajudavam a enriquecer o cenário da época, e sua produção era grande e rica. Tive inclusive a honra de ter uma das capas de meu fanzine, o Escarro Napalm, desenhada por ele. Quando eu parei de fazer zines (não por culpa da internet, ok? Foi bem antes disso, e o principal motivo foi cansaço mesmo, não conseguia mais dar conta de forma satisfatória da quantidade de correspondências que só fazia crescer) perdi também a maioria dos meus contatos, entre eles o de Henry. Mas sabia que ele continuava a produzir, pois ainda via seus desenhos esporadicamente publicado nas paginas de um jornal alternativo daqui, O CAPITAL (jornal de resistência ao ordinário). Somente quando comecei a usar a internet, especialmente o orkut, comecei a entrar novamente em contato com aquelas figuras maravilhosas e criativas que povoavam nossas caixas de correio naqueles saudosos tempos. Foi graças ao Orkut, por exemplo, que uma figura simpática me abordou numa fila pra comprar coxinha no Abril pro rock em Recife com a pergunta: “você é o Adelvan de Aracaju ? Te reconheci pelas tuas fotos no Orkut”. Era um conterrâneo do Henry e também um grande amigo dos tempos dos fanzines, o Edson Luiz da banda The Power of the Bira. Esse processo de reencontro segue a todo vapor – só recentemente me deparei, finalmente, com Henry jaepelt, via Orkut, e retomei uma velha amizade. Quero que vocês também conheçam (ou reecontrem) esse grande artista, e para que isso aconteça ofereço minha humilde colaboração abaixo, em forma de entrevista.

Comecemos do principio – Onde e quando você nasceu, e onde mora ?

Nasci aos 12 de Fevereiro de 1966, em Timbó (SC)... e moro em Indaial (SC), que é uma cidade vizinha.

Quando começou seu interesse por quadrinhos ? E quando você começou a desenhar? Fez algum curso ou foi autodidata ?

Mesmo antes de aprender a ler, eu ganhava muitos gibis de um tio-avô que era guarda-noturno ( ele tinha que fazer alguma coisa entre as rondas, né?), então sempre havia algum gibizinho novo , especialmente Disney, Fantasma e similares.Depois, aprendi a ler... e é que nem água morro abaixo até hoje.
Já o desenho, desde que aprendi a rabiscar alguma coisa. Coisa de moleque mesmo. Mas, com mais interesse, lá pelos 11 ou 12 anos, na escola. E a fazer quadrinhos propriamente, seqüências, colocar as coisas no papel e tal, em 1981.Os fanzines, comecei a contactar o pessoal lá por 86, pra conhecer e ver qual era o esquema e tal. A primeira colaboração de fato, foi no jornal de rock CONTRACORRENTE (Brusque/SC), com ilustrações a ver com rock , obviamente. Uma festa pra quem nunca tinha visto algo underground. Depois , publiquei ilustrações no MANY COMICS (Bagé/Pelotas – RS) e HQs no LEGENDA (São Luis/MA) e HIPERESPAÇO(Sto.André/SP), tudo em meados de 1987. E assim foi indo... em 89, fanzines argentinos, e na década de 90, Portugal, Espanha, Finlândia, Croácia, USA, Alemanha... sem falar nos intercâmbios de exemplares de zines e tal , já que eu sempre gostei muito do hábito da correspondência, troquei muita figurinha com pessoas de quase toda a Europa, alguns países Africanos, nas Américas e até me correspondi com um camarada em Bora-Bora – você aprende muita coisa, vê e lê muita coisa , e acaba se voltando para a busca de uma identidade própria – tipo os caras te perguntam: “que tipo de quadrinho vocês fazem no Brasil?” e que situação ingrata, não é mesmo?? O que a gente responde? Essa “identidade” infelizmente falta pra maioria, que prefere só desenhar super-heróis calcados em modelos bem consagrados de composição visual...
Mas, apesar dos pesares, tamos aí...

Você desenha profissionalmente ou, apesar da inegável qualidade de seu trabalho, sempre teve esta atividade apenas como um Hobby ?

Hobby, somente. Eu curto desenhar ... e até acho que se fosse querer explorar isso comercialmente, iria até sentir-me meio “vendido”, mercenário, sei lá. É uma opinião pessoal unicamente voltada pro meu trabalho – EU, Henry Jaepelt, não me sentiria legal.
A tal “qualidade”- discutível - talvez seja devido a esse desinteresse comercial – você faz porque gosta, porque se diverte com essa atividade. Você desenha porque gosta de desenhar, experimenta visuais porque gosta de experimentar visuais... e não porque é “pago pra isso”. “Não me desce”, como dizem....
Então, talvez até por isso, eu fico muito puto quando sacaneiam meus desenhos, alteram as coisas que eu rabisquei, acrescentam, cortam, etc. E infelizmente, os zines involuíram até um estágio de mediocridade tal, que está bem comum encontrar esses tipinhos.

Imagino que você seja contemporâneo de alguns ícones dos quadrinhos brasileiros, como Mozart Couto ou Watson Portela – com este ultimo sinto uma afinidade maior no seu trabalho, especialmente com a série “paralelas”, do Watson (muito embora as semelhanças possam advir de influencias em comum entre os dois, notadamente a Metal Hurlant e quadrinho Europeu em geral, me corrija se estiver errado) – De qualquer forma, o quadrinho nacional influenciou de alguma maneira no seu estilo de desenhar ?

Não exatamente. Eu tenho 43... eles , claro, têm bem mais... e eu vi o trabalho dos dois surgir nas bancas e tal. Mas, com certeza , pelo fato desses camaradas mostrarem que se podia fazer alguma coisa diferente, em termos de HQ que este modesto rabiscador está aqui. A revista Spektro que me apresentou ao trabalho de Watson foi algo único e “ponto”. Toda a linha da Vecchi, com o surgimento da cena “faroeste”, com Chet (cujo nome me parece , deveria ser “Lester”, mas, a Editora, etc,etc,etc) e as conseqüentes outras revistas, toda a linha de terror/fc ... onde mais se fez isso? Grafipar, claro... mas o pontapé inicial foi lá na Vecchi.
Watson foi o primeiro desenhista nacional cujo trabalho conheci e acompanhei com vivo interesse, logo, há uma certa influência, SIM. Que expandi tempos depois , ao conhecer o quadrinho europeu, em especial o franco-belga. Adelvan-Olhos-de-Lince!!!
Mozart Couto, conheci o trabalho um pouco depois. ]
De qualquer maneira, fui influenciado pelo quadrinho nacional , da ótima safra que tivemos naquela época, com Vecchi e Grafipar, principalmente. Foi o estopim, aquilo que me fez ver que tinha jogo ali, entendes?
E hoje, o que temos??????

Como e quando você entrou em contato pela primeira vez com o universo dos fanzines ? Você faz ou fez fanzines ou apenas colaborava com as publicações de terceiros ?

Está meio que respondido anteriormente a parte dos contatos e tal. Fanzines, fiz também... em 88 , Cidno da Silva Rego ( carioca radicado em São José/Floripa/SC) , Paulo César Will ( de São José/SC) e eu lançamos o primeiro CRAU!. Tinha 36 páginas. Em 89, acrescidos do Paulo Aloísio Priess ( Blumenau/SC) foi lançado o CRAU! II , com 80 páginas... o III saiu mais para colaboradores em 91, com 136 páginas. Tudo meio-ofício , hqs de humor, poéticas, protesto contra algumas babaquices da hq “nacional”, punk, heavy Metal, experimentações em geral, desde a primeira edição. A coisa começou meio que por acidente, Cidno quis fazer uma entrevista ao vivo, com gravador, numa das visitas minhas à casa dele, aí tava lá também o Will, o Daniel HDR (Porto Alegre/RS) entre outros aficcionados de hq de floripa e região... fizemos a entrevista e aí veio a idéia etc e tal.
Além desses, fiz vários outros, em parceria e mesmo em “carreira solo” , a partir de 89 até agora no início do século. Penso em reunir um material antigo numa coletâneazinha pra distribuir entre os amigos e talvez fazer um zine só ilustrando textos dos outros ... depende do tempo livre que eu tiver.
As publicações “de terceiros”, como você deve se lembrar, colaborei com quase qualquer coisa que tenha sido lançada. Com o detalhe de ser sempre algum material inédito – sem replay de hqs e ilustrações. Os repetecos, me parece, jogam contra o investimento do editor do zine, que gasta uma puta grana e depois vê aquilo que ele lançou em dois ou três OUTROS zines... pô, meio besta , isso, não???

Cite alguns dos fanzines que, no seu ponto de vista, marcaram historia – aproveitando, faça um breve histórico de sua relação com o mundo dos fanzines, como você viu a evolução desse tipo de publicação através do tempo, e como ela se encontra hoje – os fanzines de papel tendem a desaparecer com o advento da internet ?

Citar zines? Rapaz, essa é fogo. Não posso preferir esse ou aquele. Eu gosto de quase tudo onde colaborei... fica bem sem graça esse lance, hein?Em geral, os zines que circulavam em finais dos anos 80 e até a metade da década de 90 eram mais especiais, e você fez parte dessa cena, sabe disso muito bem: todos foram importantes, pois contribuíram para uma cena que era FORTE e tinha PERSONALIDADE. Vou citar um sobrevivente, o TCHÊ, que está na ativa desde 1987, eu fiz a capa do número 1 e ainda hoje o Denílson lança alguma coisa.
Quando comecei , tinha contato com poucos zines, mas, uma coisa sempre leva à outra, e quem eu não encontrava, ME encontrava e assim por diante. Houve o boom, nos anos 80 , uma afirmação nos anos 90... e a queda. Sabe, a gente fazia tudo datilografado, quando aparecia alguém com um computador pra emprestar... OOOOOOOOOOOOOOOHHHHHH!!! Mas, agora todos – ou quase todos – têm computador... não deveria ser mais fácil? O que se perdeu?
É uma opinião meio negativista, mas, eu acho que não perdemos... ganhamos! Ganhamos em comodismo, em falta de garra, em desânimo... e a mediocridade cuidou do resto. Como diz aquela frase “Os idiotas ainda dominarão o mundo...por uma simples questão de superioridade numérica”. Não tenho respostas, mas um monte de perguntas que incomodam....
Talvez as coisas como nós as conhecemos naquela época, realmente desapareçam por completo dentro de mais alguns anos ( ou meses). Zine na Internet? Pode até ser... quem sabe?
Você se lembra do cheiro dos gibis da RGE... ou o cheiro dos dos gibis da Epopéia Tri, da EBAL? Eu lembro... mas, a internet e internautas em geral sequer desconfiam do que diabos eu esteja falando...
Realmente, eu não sei o que virá.... algo há de vir... mas, não sei o que é...nem se gostará de nós...

O mercado dos quadrinhos profissionais no Brasil é especialmente complicado. Você, em algum momento, se interessou em disputar espaço nesse mercado ? Já publicou profissionalmente em alguma revista “de banca” ? - lembro-me apenas de algumas participações suas na Rock Brigade há bastante tempo, como foi sua relação com a revista ?

Há quem diga que é inexistente. Se existisse algo mais nos moldes da Grafipar, talvez eu até fizesse alguma coisa. Mas, “pra ganhar dinheiro”, dificilmente. Tenho uma complicação com essas coisas. Fazer imitações de modelos ianques consagrados, não mesmo. Publiquei três adaptações de letras de Heavy Metal na Rock Brigade, em 1991. A primeira aparição foi a de “CAN I PLAY WITH MADNESS” do Iron, que fiz em 88 pra um zine lá de Três Coroas/RS, cuja capa anterior lembrava o Piece of Mind ...e aproveitei o gancho pra inventar alguma coisa a respeito. Veio a idéia de adaptar ao meu modo aquela letra. Então, em 91 por acaso enviei aquela hq pra revista, só por enviar. Quiseram publicar, e assim, fiz ALTERED STATE ( Sepultura) e BLOOD RED (Slayer)... e não recebi nada por isso, já que envolvia uma puta burocracia de direitos autorais etc. Mas, ficar meio que eternamente atrelado a “adaptações” e pegar carona numa banda conhecida etc e tal... optei por não dar continuidade e esses trabalhos. E a revista , na pessoa do FSF, com quem conversei, troquei cartas e etc, sempre se mostrou muito cordial e tal, apoiou o lance dos quadrinhos e assim por diante. Eu que preferi não continuar.

Aproveitando o gancho da Rock Brigade, sinto que seu trabalho é muito ligado à musica. Que tipo de musica você ouve ? quais suas bandas favoritas ? Toca algum instrumento ? Já tentou enveredar pelo campo da musica ou fez parte de alguma banda ?

Com absurda certeza!! Eu me acostumei a ouvir meus discos de vinil enquanto desenhava, desde o princípio, então, isso faz parte do que faço. Naquela época, por causa da parada estratégica solicitada pelo vinil, eu até me treinei a desenhar num certo ritmo... fazer determinadas coisas para durar “um lado”. Você , conhecedor daqueles artefatos, sabe do que estou falando. Ouço muita coisa. Minha coleção de cds é um pouco limitada – a variedade mesmo, está nos vinis, que eu tinha desde eruditos (Bach e Vivaldi), passando por Blues, rock, progressivos, psicodélicos, punks, alternativos, heavy, black, death... e por aí vai, nacionais ou estangeiros. Hoje em dia, ouço muito Cathedral, Black Sabbath (Dio), DIO, Therion, e todas aquelas coisas que você já viu no meu Orkut (pois é pessoas, o Henry Jaepelt tem perfil no Orkut, vocês podem entrar em contato com ele por lá), inclusive o André Matos ( que conheci na época do Viper, e foi um vinil causador de muito espanto!!), a maioria das bandas gaúchas dos anos 80, o glorioso Violeta de Outono , uma série de bandas alemãs que conheci por conta de minha irmã... música é música, e quando é boa, ta tocando!
Apesar de ter um ouvido mais ou menos treinado pra algumas coisas, nunca tentei aprender nenhum instrumento, logo também nunca tive banda, nem nada. Mas, talvez até tivesse feito isso, se o desenho não fosse mais prático ( e barato) naquela época...

Recentemente vimos mais uma vez mais uma editora (Pixel Media) se propor a publicar material mais adulto e de qualidade no Brasil e, mais uma vez, morrer na praia deixando séries importantes incompletas. Você vê alguma possibilidade de, um dia, haver uma consolidação do mercado de quadrinhos mais direcionado ao publico adulto no Brasil ?

Possibilidades.... bom, o mercado e o consumidor desse mercado (HQ) em nosso país é extremamente focado. A grana que esse mercado sugere seduz muita gente – e é uma boa grana – então, a praticidade envolvida é decisiva. Gosto muito do material publicado pela Pixel... são autores que enxergam outras possibilidades, outras formas, vêem um mundo mais complexo e rico...e tentam enveredar por ele. Por isso, a gente gosta. Mas, é algo restrito a alguns poucos teimosos e obstinados apreciadores do gênero... não somos “consumidores” propriamente, não no sentido mais faminto do termo. Consumimos essa linha editorial, com toda certeza... mas, somos minoria. Isso até nos distingue na multidão, com certeza.... somos aqueles malditos sujeitos que perguntam “por que?” , “não tem outro jeito?”... incômodos pra cacete.
Essa consolidação é também uma revolução. Principalmente, porque não há alternativas. O cara quer se dar bem com HQ, vai desenhar pra fora... nunca pensaram , por exemplo, em investir numa linha editorial brasileira, com temas da nossa realidade ... e VENDER esse material lá fora, se não der aqui dentro. O jogo inverso. Fazer hq nacional pra vender aqui dentro, dá pra ver que é arriscado... o jogo dos gringos é fazer, vender no mercado interno deles e EXPORTAR. É óbvio o que nós temos que fazer....
Mas, temos algum PRODUTO? Analisando do ponto de vista “empresa”... temos que ter um produto, qualidades, matéria-prima, exportar, atender outros mercados.... expandir horizontes, ver outras possibilidades...
Só que não se pensa dessa maneira.... então, continuam as dificuldades...

A única saída para o quadrinista brasileiro é o aeroporto ? – No caso não especificamente o aeroporto, mas buscar o reconhecimento no exterior, já que com o desenvolvimento das novas ferramentas de comunicação o profissional pode produzir em casa e enviar seu trabalho para fora tranquilamente e a baixo custo.

Esse mercado que nós temos sugere bem isso mesmo.

O que você anda fazendo, relacionado à sua arte, no momento ? Colabora com alguma publicação ou site ?

Bem pouca coisa. Faço mesmo o que me dá vontade e quando tenho um tempo legal pra fazer a coisa com capricho. Colaboro com quem queira que eu colabore e que respeite o meu trabalho... ontem, hoje... enquanto der. Basta entrar em contato.

Você se arrisca ou já se arriscou alguma vez por outros ramos das artes plásticas, como pintura a óleo, em tela, escultura ou coisas do tipo ?

Só uns trabalhos com aquarela... bem pouca coisa. Penso em desenvolver isso... preciso ter algo pra fazer na aposentadoria, não? O único problema é o tamanho das telas... teriam que ser meio grandinhas e teriam esses temas que você já sabe... talvez até fosse algo legal, tipo pôsters, camisetas... sei lá. Mas, você sabe: pintores só ficam valorizados depois que morrem... quem sabe?

Planos para o Futuro ?

Nada muito ambicioso. Estou organizando umas coisinhas pra fazer... voltando a trocar idéias com muita gente, inclusive pessoas que não tinha contato há uns 15/20 anos... reciclando. E jogando conversa fora com essa turma.

Muito obrigado por sua atenção e fique a vontade para suas considerações finais.

Valeu... sempre é bom falar alguma coisa. Corremos o risco de alguém ler /ouvir e passar a ter novas idéias, quem sabe até salvar a lavoura do mercado de hq.... hehheheheheh

pr Adelvan Kenobi





Começar de novo ...

Carnaval passou, e eis que o ano começa pra valer em Terra Brasilis. Boa oportunidade pra começar de novo com gás renovado. Façamos de conta que o ano começa agora e que foi ano passado que morreram Ron Asheton e Lux Interior. E pra começar com o pé direito, o programa de rock entra em contagem regressiva para seu Aniversário de 2 anos, prestes a chegar no programa de número 100. Teremos novidades para comemorar estas duas ocasiões tão especiais - fiquem de olho no blog do programa, que foi reativado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Leonardo Panço é "gente que faz"


Li ontem, de uma sentada só (é apenas a segunda vez que eu consigo fazer isso em minha vida, a primeira foi com a biografia do Sepultura escrita pelo André Barcinsky), o segundo livro de Leonardo panço, "Caras dessa idade já não lêem manuais". Recomendo muito. Toda a verve ácida desse verdadeiro guerreiro do submundo roqueiro brasileiro em crônicas baseadas em fatos reais ou fantasiosos, porém com os dois pés fincados na "vida como ela é". Sexo, rock and roll (especialmente Interpol) e ... cachorros. Leia mais sobre na entrevista abaixo, extraida do e-zine http://moshinfuria.wordpress.com/

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Saudações a todos, após um bom recesso regado a bebedeiras e muita diversão voltemos aos trabalhos para este o ano de 2009!



E logo de cara pra esculhambar geral, trazemos a você visitante miguxito um “bate-papo” com Leonardo Panço, guitarrista da banda Jason, jornalista e escritor que acaba de lançar seu segundo livro intitulado de “Caras dessa idade não lêem manuais” pela Tamborete Records, gravadora de pequeno porte do próprio que apesar de tantas dificuldades encontradas se mantém de pé no meio underground.



Bem, esperamos que vocês curtam a “entrevista”, pois a mesma foi feita com muita dedicação, pois apesar de sermos amadores saibam que fizemos o possível pra que tudo ocorresse da melhor maneira.



MIF. Então panço, você parece ser um cara bem envolvido com aquilo que faz. Poderia nos dizer quando começou seu interesse não só pela música, mas pelo selo, literatura e todos os projetos em que você está envolvido.

Panço. Creio que pela música, tem muito tempo. Comprei o compacto da Blitz que tinha “Você não soube me amar” em 82, logo depois comecei a ouvir os roqueiros dos anos 80, fui no show do Ultraje em 85, do RPM, Legião, Biquíni. Vem de muito tempo. Até que em 86, 87, comecei a ouvir Replicantes e Garotos Podres e tudo mudou. Literatura não estou certo, mas eu leio e escrevo desde os 3 anos, minha tia me ensinou em casa. Minha mãe fala q eu andava com uma bolsa de livros e cadernos desde essa idade aí. Gravadora eu descobri que podia fazer isso há uns 12, 13 anos atrás mais ou menos. Comecei lançando umas fitas cassete como Panço Records e depois mudou pra Tamborete. Gosto da idéia de lançar o trabalho de outras pessoas. Acho uma pena que a maior parte delas, goste menos do que eu, porque quase todas não se esforçam quase nada. A Tamborete é bem pequena, realmente não é a melhor gravadora do Brasil nem de perto, mas os músicos lançam o disco, acabam a banda logo em seguida e pronto. Não dão à mínima se o CD tá ali numa estante apodrecendo.



MIF. Você acaba de lançar seu segundo livro intitulado “caras dessa idade não lêem manuais”. Do que se trata? Como está sendo feito à divulgação? Tem tido uma boa recepção pelo público?

Panço. Ele tem 46 crônicas e contos, mas não tem um assunto específico não. São relatos de viagens, tem ficção, tem mentiras, tem tudo. Fiz uma tour de 30 dias por sete estados e 13 cidades em novembro para promover o bichinho e alguns eventos no rio e um em Resende, no interior. Agora essa semana consegui finalmente enviar o livro para um monte de gente de imprensa e espero ir para o nordeste em seguida. Acho que tem tido uma boa recepção sim, mas não tá nem próximo do que eu preciso. Ainda está no começo, espero que melhore bastante. Tem tudo para isso acontecer com as resenhas saindo, essa entrevista e espero que muitas outras.



MIF. Sua publicação anterior “Jason, 2001 - uma odisséia na Europa” era um relato sobre a primeira tour européia da banda. Houve alguma contribuição direta ou indireta desta publicação no seu ultimo livro?

Panço. Acho que o que teve, foi à vontade de que o novo fosse diferente do primeiro. Menos relato, menos verdade, menos primeira pessoa, menos diário. Queria enganar mais as pessoas, nem tudo tem que ter acontecido e ser um fato.



MIF. Os selos e distros são uma ótima opção de apoio às bandas mais undergrounds. Com a disponibilização de álbuns para download na internet você acha que os mesmos perderam um pouco da sua forca? Existe alguma maneira de se adequar a essa realidade?

Panço. Pra mim as coisas já vinham devagar, já não conseguia vender muita coisa mesmo, então o download só enterrou, quase de vez. Quem gosta muito, ainda compra CDs, não sei até quando. Dizem que vão abrir uma fábrica de vinil aqui no rio. Caso isso aconteça, espero poder lançar alguns dos meus discos em LPs e pensar em projetos especiais, com tiragens limitadas. SMD também é legal, bem baratinho.



MIF. O Jason tem um público muito fiel aqui no nordeste, a que se deve toda essa identificação (se assim podemos chamar) entre a banda e o público nordestino?

Panço. Realmente não sei ao certo. Acho fantástico e todos nos orgulhamos muito dessa ligação com o nordeste. Já fizemos quase 80 shows por aí, então realmente é muito bom. Não sei se pela agressividade do som, pelas letras. Difícil dizer. Só espero que possamos voltar um dia, o que no momento realmente não é possível.



MIF. As preparações para o ultimo álbum do Jason, o “Regressão”, duraram pouco mais de um ano pelo que vemos no encarte. Mesmo com toda a experiência, quais as principais dificuldades encontradas pela banda durante este processo?

Panço. Foi o disco mais difícil de fazer por n motivos. Era o primeiro sem Vital e Flock para ajudar a compor. Eles só entraram em uma segunda fase do processo, colocando melodias e voz e letras, respectivamente. Ficou tudo mais em cima de mim, o que não estava acostumado, nem interessado em que acontecesse. Desouza acabou ajudando com riffs, etc. Tinha o fato de que durante o período de composição, fomos para Europa tocar, para o nordeste, eu trabalhava de noite e os outros dois dormiam de noite. Daí eu dormia e eles acordavam. N coisas.



MIF. Para o ano de 2009, podemos esperar por mais projetos do panço Jornalista e escritor ou do guitarrista? Há também alguma novidade da Tamborete para este ano?

Panço. É difícil dizer, mas tudo indica que escritor vai estar acima de tudo, mais ou menos perto de assessor de imprensa, pelo que tem acontecido até agora, as previsões. Realmente tocar tem ficado cada vez mais difícil.



MIF. Gostaríamos de agradecer a oportunidade e fique a vontade para suas considerações finais.

Panço. É muito difícil conseguir espaço para divulgar um livro no Brasil. As pessoas não lêem, muito mal foram alfabetizadas, então sempre é bom aparecer alguém interessado num trabalho assim. Obrigado pela atenção.



Para adquirir ao novo livro do Panço e outras publicações e produtos entre em contato com o mesmo através dos seguintes links:

http://www.myspace.com/leonardopanco

http://www.fotolog.com/leonardopanco

http://www.fotolog.com/tamborete

leonardoster@gmail.com



Para saber mais sobre a banda Jas0n:

http://www.bandajas0n.kit.net/

http://www.fotolog.com/jas0n

http://tramavirtual.uol.com.br/jas0n

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Há uma luz que nunca se apaga


Lux Interior R.I.P.

Erick Lee Purkhiser, mais conhecido pelo codinome de Lux Interior - o famoso incendiário vocalista da banda americana The Cramps - faleceu ontem (04/fev) na Califórnia vítima de problemas cardíacos. Lux já estava com 62 anos, mas ainda continuava excursionando com a banda.

O Cramps surgiu em Nova Iorque na segunda metade dos anos 70 juntamente com toda a cena que se reunia no lendário clube CBGB. Sua mistura de rockabilly com punk rock logo ganhou o nome de "Psychobilly", embalado ainda mais pelas letras das músicas que falavam sobre zumbis, monstros, seres de outros planetas, rock'n'roll e garotas usando biquini com metralhadoras nas mãos.

Entre os diversos clássicos da banda estão "Can Your Pussy Do the Dog?", "Human Fly", "I Was A Teenage Werewolf" e é claro "Bikini Girls With Machine Guns". Lux deixa a sua esposa Poison Ivy, guitarrista e também líder do The Cramps, da qual ele era praticamente inseparável. Infelizmente a banda nunca se apresentou no Brasil.

www.uol.com.br

Um herói do rock, de salto e calcinha

"EU GOSTAVA dos B-52's até descobrir que, de dia, eles tiravam as perucas. Então perdi o interesse."
Lux Interior, vocalista dos Cramps, conversa com o amigo André Barcinski enquanto dirige do aeroporto de Los Angeles até a casa em que vivia com a mulher, Poison Ivy, guitarrista da banda. É a mesma casa de Glendale, região de L.A., onde Lux morou até morrer do coração, na semana passada, aos 62 anos.
Essa história de 2001 resume a trajetória demencial de Lux e os Cramps. Lux era de verdade, no palco ou fora dele. Foi buscar o Barça com a mesma calça justíssima de vinil e os mesmo sapatos femininos de salto muito alto e fino que usava nos shows. Em casa, nenhum objeto fabricado depois de 1962. Nem a TV.
Quem deveria estar escrevendo esta coluna é o Barcinski, o brasileiro que teve mais contato com os Cramps, em shows, entrevistas e tentativas de trazê-los ao país. Quase vieram em 92, para fazer um clipe dirigido pelo Zé do Caixão (a ideia de juntar Cramps e Mojica foi deste que vos escreve, modéstia à parte).
Se bobear, Cramps foi a banda que mais vi ao vivo. Em Boston, duas vezes, em San Francisco, trocentas, acho que em Londres também.
O clima era de abandono e descontrole. Lux vestia sempre calça de vinil preta de cintura ultrabaixa. Jaqueta de vinil também, aberta, sem camisa. E os tais sapatos de mulher.
De cara, se atirava na plateia. Passava o microfone por dentro das calças. Engolia o mesmo microfone na sequência. Beijava pessoas na boca aleatoriamente. Terminava só de calcinha.
O som era surf music com punk com blues. Fanáticos por filmes B, obcecados por fetiches sexuais, os Cramps eram a essência primal do rock and roll.
Se você nunca os viu, não sabe o que é rock.

Álvaro Pereira Júnior.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

And Rapadura for all

Publicado originalmente em www.revoluta.com

Adelvan. Escarro Napalm. ETC. Quem viveu no underground dos anos 90, com certeza já ouviu um desses nomes. Pode até nem saber do que se tratava, mas sabia que existiam. Os três estão intimamente ligados. Ou são a mesma coisa. Ou os dois. Sim, tudo isso junto. Adelvan foi editor do fanzine Escarro Napalm, cantou no ETC (sigla de Eu Te Como) e é um dos eternos ícones da cena alternativa brasileira. Roqueiro desde que se entende por gente, está com sua antena lá em Aracaju sintonizada com o mundo. E é lá que também comanda todas as sextas-feiras seu programa de rádio que é exibido simultaneamente na internet, o Programa de Rock. O nosso fã ardoroso e colecionador de seriados de TV conta um pouquinho de sua vida e os motivos que fazem com que ele continue firme e forte nesse espaço virtual chamado underground.

Por Márcio Sno


1. Explique para o mundo quem é o Adelvan.

Eu diria: leia a entrevista e tire você mesmo sua conclusão. Ou não.

2. Como você descreveria o jovem Adelvan dos final dos anos 80, quando se envolveu com o rock?

Eu me descreveria como um revoltado, basicamente. Revoltado principalmente contra aquela velha educação católica castradora e repressiva, que faz a gente se sentir culpado por tudo o tempo inteiro. Decidi que não queria passar o resto de minha vida ajoelhado pedindo perdão, e nesse sentido o rock and roll me forneceu uma cultura libertária com a qual me identifiquei a adotei para contrapor ä minha formação católica. Fisicamente, um moleque extremamente magricela, só tinha cabelo e nariz, com um monte de espinha na cara e vestindo uma camiseta verde-cana silkada com uma copia tosca da capa do “Live after Death” do Iron Maiden e o numero 666 estampado atrás. É sério, eu tinha essa camiseta. E meu apelido era “Satan”. Um jovem, realmente - Tinha por volta de 15 anos quando comecei a curtir rock. Sou da geração Rock in Rio/Revista Bizz. Só quando a Globo começou a fazer aquelas matérias sobre as bandas que tocariam no primeiro Rock in Rio, de 1985, eu fui começar a achar aquele mundo que eu vislumbrava até então apenas apenas como exótico também interessante e diversificado. Fui vendo que haviam conceitos ali, não era só coisa de maluco. Notei que havia toda uma cultura alternativa a ser explorada, uma cultura que não chegava até mim, cidadão comum do interior de Sergipe (morava em Itabaiana, na época). Era algo a ser perseguido, caso quisesse se aprofundar, já que o que passava na televisão eu notava que era apenas a ponta do iceberg. É aquela velha historia clássica do moleque que começa a crescer e procurar novos horizontes para além de sua cidadezinha provinciana natal – no caso, eu era um dos “freaks”, um dos que não conseguiam se adaptar ao convívio social “normal” – ou padronizado, pelo meu ponto de vista.

3. Quando você percebeu que essa viagem ao mundo do rock não tinha mais volta?

Acho que foi quando eu fui para o rock in rio II, já em 1991, e voltei de lá mais “roqueiro” do que nunca, cheio de idéias fervilhando na cabeça. A partir daí comecei a me envolver mais intensamente na produção de shows, e com a idéia fixa de montar uma banda - comprei uma guitarra mas não aprendi a tocar, então fui ser vocalista de uma banda grindcore pornográfico (em todos os sentidos) e critico musical underground frustrado, uma entidade também conhecida pela alcunha de Fanzineiro. – a segunda parte da sentença é brincadeira, ok? Desencanei logo dessa idéia de ser guitarrista e por conta disso nunca fui frustrado não. Pelo menos não que eu saiba, conscientemente falando. Foi nessa época também que comecei a publicar meu segundo e mais “famoso’ fanzine, o “Escarro Napalm” – já tinha publicado um nos anos 80 em Itabaiana, intitulado apenas NAPALM.

4. O primeiro disco que você comprou foi o Viva do Camisa de Vênus. Você ainda tem? Costuma ouvi-lo? Quando ouve, o que passa por sua cabeça?

Não tenho mais o vinil, fiz a besteira de trocar pelo CD naquela época da transição em que quase todo mundo ficou deslumbrado com a tecnologia digital. Ridículo isso, era o disco numero 1 de minha coleção, deveria ter preservado. Nunca mais ouvi não. Tenho um carinho especial pelo Camisa de Vênus por ter sido a principal banda a me colocar no caminho do rock, digamos assim – junto com o Ira! (meu disco numero 2 foi o “Vivendo e não aprendendo” do Ira!, e esse ainda tenho guardado em vinil), mas não dá mais pra ouvir hoje com a mesma empolgação que ouvia nos anos 80 né. Os tempos eram outros, minha carga de informação não era suficiente para, por exemplo, detectar os plágios descarados que eles faziam, como de “That´s entertainment” do The Jam em “Passatempo” ou de “gimme shelter” dos Stones em “Só o fim”. Mas era uma banda necessária para a época, uma banda desbocada e vagabunda, como o rock deve ser, na maioria das vezes, pelo menos (nada contra rock poético e trabalhador). E Marcelo Nova, apesar de falar demais e, como todo mundo que fala demais, falar muita besteira, ainda é um cara a ser respeitado. Não dá pra não respeitar um cara que emprestou a guitarra dele pra Chuck Berry tocar, né ?

5. Na sua última passagem por SP você usou pela primeira vez uma jaqueta de couro. É muito difícil ter rock na veia em Aracaju?

Kkkkkkkk – Você não esquece isso né? Com o tempo e o amadurecimento fui vendo que não é preciso se enquadrar em estereótipos estéticos para se auto-afirmar como “roqueiro”. Jaquetas de couro são legais, mas não dá pra usar aqui por causa do calor, vai-se fazer o que ? Andar numa sauna ambulante só pra dizer que é roqueiro ? Sou um roqueiro feliz de camiseta, bermudas e chinelo de dedo. Na verdade sempre fui, nunca fui disposto a fazer esse sacrifício besta de andar de preto no sol escaldante só pra manter a postura maléfica não – lembre que mesmo no auge de meu radicalismo metaleiro adolescente minha camiseta do Iron era verde (risos). Aquela jaqueta de couro eu só usei acho que 2 ou 3 vezes em toda a minha vida.

6. Ao contrário da maioria do povo do rock, você tem o hábito da leitura, inclusive costuma ler autores polêmicos como George Orwell, Saramago, Nietsche. Que livro você indicaria para alguém do rock pegar o gosto pela leitura?

“Mate-me Por Favor”, sem sombra de duvidas. Porque tem tudo a ver com o rock e tem uma linguagem coloquial, já que é todo montado a partir de entrevistas com a galera que viu o punk nascer, crescer e morrer. É muito divertido e inspirador, para o bem ou para o mal. Eu mesmo, ao lê-lo, tinha vontade de largar tudo pro alto e virar um punk de verdade, sair pela rua sem compromisso nenhum com porra nenhuma e ver o que acontece. Só que aí eu lembrava que aquela galera vivia no primeiro mundo, NY, Detroit, e eu vivo em Sergipe, Brasil, terceiro mundo total. É bem diferente. Aqui o bicho pega pra valer.

7. Você fez parte das polêmicas bandas ETC e 120 Dias de Sodoma. Como foram essas experiências e porquê o sonho acabou?

O sonho nunca acabou porque nunca existiu. Eram bandas despretensiosas (na verdade uma banda só, apenas mudou de nome), não nutríamos nenhum tipo de expectativa quanto a elas não. Só por diversão mesmo, pra “tirar uma onda”, como se diz por aqui. Claro que havia uma idéia por trás, e a idéia principal era bater de frente contra um certo dogmatismo que existia (ainda existe, na verdade, mas naquela época era pior) na cena underground, onde vários grupos se auto-proclamam “autênticos “e montam verdadeiras patrulhas ideológicas, tipo, punk é isso, punk é aquilo, metal é isso, metal não é aquilo. Nós achamos que qualquer um deveria poder ser o que quisesse da forma que quisesse na hora que quisesse, sem ninguém pra ficar enchendo saco e cagando regras o tempo inteiro, só isso. Simples assim. Nesse sentido, não deixava de ser uma banda com uma mensagem libertária.

8. Seu gosto musical é um tanto eclético. Fale um pouco a respeito.

Pois é, foi assim desde o inicio. Comecei ouvindo o rock nacional que tocava nas rádios (o rock era a musica mais popular do Brasil na época, metade dos anos 80, veja só), aí conheci o Iron Maiden (com o disco “somewhere in time”, lançamento na época, adorava aquela capa com o Eddie numas de Blade Runner) e o Metallica, tive uma fase bem metal mas logo logo conheci o punk também e curti muito, via principalmente “Nevermind the Bollocks” do Sex Pistols e o “Descanse em Paz” do Ratos de Porão, que abriu minha cabeça pros sons realmente agressivos e “underground “. Nessa fase curtia basicamente som pesado, mas tinha uma certa admiração à distância por grupos como The Smiths, Fellini, Cure, Siouxsie and the Banshees. Achava aquilo ali muito sofisticado, mas não conseguia gostar, acho que minha cabecinha dura de roqueiro louco adolescente não tava preparada pra tanto. Essa barreira foi quebrada com o disco “psychocandy “do Jesus and Mary chain, que era incrivelmente barulhento porém ao mesmo tempo tinha melodias suaves e sofisticadas por trás da massaroca sonora. A partir daí fui conhecendo e curtindo cada vez mais o chamado “indie rock”, Pixies, sonic Youth, a brasileira Second Come. Não saberia explicar porque sou eclético não. Acho que musica é estado de espírito – tem hora pra ouvir som porrada, tem hora pra ouvir melodias tristes. Nunca consegui entender uma pessoa que só ouve um mesmo tipo de musica, o tempo inteiro, não. Também nunca fui de me enquadrar tão rigidamente em “tribos “- sou de uma tribo bem ampla, a tribo do rock. Sou um roqueiro assumido – inclusive gosto dessa palavra, é a versão brasileira do termo “rocker”, não tem porque não adota-la, já que eu sou brasileiro e gosto de rock.

9. Como foi que criou os fanzines Napalm e Escarro Napalm?

Fiz meu primeiro fanzine sem saber que tava fazendo um fanzine. Queria compartilhar as informações que tava recebendo através de revistas como a Bizz e, principalmente, na época, a Rock Brigade (já tinha partido pras searas mais “underground“), mas tinha muito ciúme de minhas revistas, não emprestava nem a pau. Aí fiz o que eu pensava que fosse uma espécie de apostilha, na época, com umas mini-biografias das bandas que eu mais curtia, Led Zeppelin, Venon, Black Sabbath, por aí, só metal. Fiz imitando uma revista, era a MINHA revistinha de fã, e batizei de Napalm, em homenagem a uma casa noturna que tinha em Sp e cujo nome eu achava foda, pois remetia àquela bomba louca que espalhava gasolina e que os americanos soltaram aos montes lá no Vietnã. Aí os caras de uma loja especializada em discos de rock de Aracaju ficaram conhecendo meu zine e se espantaram do mesmo ter citações de George Orwell, de quem eu já era fã, na capa. Me ajudaram numa tiragem maior de cópias xérox e o zine se expandiu, chegando até Sylvio da banda Karne krua, que me influenciou bastante mandando um monte de material de fanzines punk com os quais ele tinha contato. Só aí fui saber que existia toda essa movimentação de publicações e de bandas por vias totalmente alternativas, via xérox e fitas k7 enviadas por correio. Achei fascinante, mas na época não tinha grana pra bancar o correio, então minha atuação foi bem tímida. Só mais tarde, em 1991, quando já morava em Aracaju e trabalhava, portanto tinha alguma renda, criei um novo zine, o ESCARRO NAPALM, e já na primeira tiragem mandei para um monte de endereços que tinha pego na coluna RUN XEROX da extinta revista Animal. O primeiro que me respondeu foi Fellipe CDC de Brasília, não esqueço isso. O segundo mandou de volta o fanzine, porque eu tinha escrito “pau no cu de Deus” na contra-capa junto a uma imagem do Frei Damião (um padre aí que era bem popular aqui no Nordeste na época, considerado santo e tal pelo povo) com um monte de armas apontadas pra sua cabeça e ele não curtiu.

10. O que esses zines mostravam e o no que era diferente dos demais da época?

Quanto aos zines tinha em mente sempre a máxima de que “se você não tem nada a dizer, não diga nada “. Chegavam a minhas mãos muitos zines vazios em conteúdo, que se limitavam a colar releases e flyers de bandas e reproduzir panfletos. Poucos se arriscavam a emitir opiniões sinceras, especialmente nas resenhas de demos – era como se tivessem medo de ofender a pessoa da banda que mandou a fita para a resenha, e que geralmente era também um amigo. A velha conhecida “brodagem”. Eu procurava evitar isso, achava contra-produtivo e extremamente chato. A leitura daquelas resenhas repetitivas, politicamente corretas e cheias de frases de incentivo padronizadas era de um tédio atroz – mas eu lia tudo, tamanho era o meu interesse por aquele tipo de literatura. Já eu procurava focar no que de mais interessante me chegava ãs mãos, e se não gostava de algo que recebia muitas vezes ignorava, citava por alto ou, se fosse o caso, descia o malho mesmo, especialmente em bandas que, ao meu ver, investiam muito esforço e recursos em idéias equivocadas. Não acredito em critica destrutiva – uma critica negativa invariavelmente leva a pessoa a, no mínimo, pensar no porque daquela opinião desfavorável, e PENSAR sobre as coisas antes de executá-las ou de levar algo adiante é sempre uma boa idéia. O caso mais emblemático pra mim pessoalmente foi a resenha que fiz do primeiro disco da banda Insanity, de Fortaleza, para a já revista (começou como fanzine), na época, PANACEIA. Achava o som que eles faziam um thrash ultrapassado e sem criatividade, repleto de clichês do estilo – muito embora executado de forma competente, e disse isso na resenha, apesar de ser amigo de longa data de George Frizzo, o comandante-em-chefe (no bom sentido) da banda, por sinal uma das pioneiras do metal nordestino, tendo lançado seu primeiro compacto, em vinil, ainda nos anos 80. Frizzo ficou meio chateado, ao que parece, me deu umas reclamadas meio que em tom de brincadeira quando nos vimos num Abril pro rock da vida, mas ao final ficou tudo bem, porque as pessoas podem se chatear no inicio, mas depois sempre chegam a conclusão de que é melhor uma opinião sincera do que criticas veladas ou do que aqueles que elogiam quando estão frente a frente mas que descem o pau quando se vira as costas. Tirando esse aspecto, que era um diferencial, a meu ver, meu fanzine seguia um estilo totalmente anárquico, sem regras – fazia como me vinha à cabeça, sem muita arrumação em colunas que lembrassem uma revista, por exemplo – na época havia uma distinção entre Fanzines propriamente ditos e os chamados pro-zines, que eram zines que seguiam muitas vezes à risca os moldes de uma revista, com editorias e espaços bem separados para matérias, notas e resenhas. O Escarro Napalm não era, definitivamente, um pro-zine.

11. Hoje tudo é muito fácil com a internet. Você pode imaginar se na época em que você tinha bandas e zines tivesse todo esse aparato tecnológico?

Teria sido tudo bem mais fácil, evidentemente, como é hoje. Mas de repente não se teria o mesmo tesão. Há uma frase que diz que o ser humano cresce na adversidade, esta é uma das contradições da alma humana. Muita facilidade deixa a pessoa acomodada, preguiçosa, sem tesão, e “sem tesão não há solução”. Mas também não vou cair no clichê de ficar falando que “antigamente é que era bom “, nada disso. Tou achando sensacional ligar o computador e dar de cara com blogs que oferecem links para discos que nunca saíram no Brasil ou aos quais eu dificilmente teria acesso, caso não existisse essa coisa absolutamente maravilhosa e revolucionária chamada internet. Exemplos: Só com a internet fui ouvir de fato a obra do lendário Daminhão Experiença, mendigo (por opção) que lançava discos em vinil por conta própria desde os anos 70 e do qual sempre tinha ouvido falar. E recentemente baixei o que acredito que seja a discografia completa do grupo britânico Durutti Column, que teve apenas 2 ou 3 discos (fora de catálogo) lançados no Brasil. Hoje em dia uma banda como o Laibach lança um disco novo e você consegue baixar pela net, e de graça, o que é mais incrível – mas ops, peraí, é proibido, é pirataria ... Fala sério né porra, excetuando-se os grandes medalhões do mainstrean, que são os verdadeiros prejudicados, pois não precisam mais de publicidade já que são mais do que suficientemente conhecidos, para todos os demais artistas que procuram um lugar ao sol o download gratuito via internet só traz vantagens. Apesar de que há um efeito colateral desagradável, o excesso de informação disponível faz com que se torne ainda mais difícil separar o joio do trigo. É necessário sempre um filtro, uma referência, nesse caso a opinião de alguém com uma posição já consagrada na imprensa, como um kid vinil ou um Fabio Massari, sempre vai ter mais peso que a de um blogueiro de plantão de primeira viagem. Mas já começam a surgir talentos que se destacam e que foram descobertos primeiramente via net, como é o caso do jornalista Arnaldo Branco e de bandas como o CSS, hoje em carreira internacional. Abro um parênteses aqui para registrar que Kid Vinil foi um de meus heróis, descobri muita coisa através de um programa de Vídeo-clips que ele apresentava na TV Cultura nos anos 80 (bem antes do surgimento da MTV), o “ Som pop “.

12. Qual banda underground que você investiria sua fortuna para lançá-la?

Gangena Gasosa, sem duvida. Acho sensacional a proposta deles.

13. Como você começou a apresentar o Programa de Rock? Fale mais como é o programa e quais personalidades já passaram por lá.

Apresentar e principalmente PRODUZIR – a questão do apresentar foi mais uma conseqüência, uma necessidade da gente comentar algo sobre os sons que colocava no ar. Não sou radialista nem locutor nem nada, nunca estudei para isso. Tudo começou com o convite feito pelo atual diretor da Radio, Patrick Torquato. É a radio publica daqui do estado, controlada e mantida pelo governo estadual. Com a ultima eleição houve finalmente uma troca de comando, caiu uma velha oligarquia que mantinha tudo como antes no quartel de abrantes há muitos anos, e com isso houve uma arejada na programação da Fundação Aperipê, que coniste numa emissora de TV e duas estações de radio, AM e FM (a AM, por sinal, é a emissora mais antiga em atividade no radio sergipano). Patrick já conhecia nosso trabalho, meu e de Fabinho, da banda Snooze, e nos chamou para produzirmos em dupla um programa de rock, literalmente falando. Foi tudo bem espontâneo, decidimos que a proposta do programa seria o mais ampla possível, abrangendo todos os estilos e tendências do rock, mas garantindo sempre um espaço cativo para a produção independente e especialmente para a produção local. Procuramos, dentro dessa filosofia, chamar sempre as bandas locais para contarem sua historia e mostrarem seu trabalho no ar, ao vivo, em entrevistas também informais e espontâneas já que, como mencionado, nem eu nem Fabinho somos profissionais do ramo, somos amadores no sentido mais literal da palavra. É diversão levada a sério, feito com dedicação e compromisso, nesses quase dois anos de existencia o programa não deixou de ir ao ar um só dia, salvo por decisão da própria direção da radio, quando os horários do programa se chocavam com alguma outra transmissão prioritária para a Fundação, como em junho, durante os festejos juninos, ou quando há alguma transmissão ao vivo em cadeia com a Rede de Rádios publicas nacional. Mas ressalto que fazemos o programa que queremos, com independência total, sem interferência nenhuma da direção da Radio. É uma produção independente, feita de forma voluntária e veiculada pela FM Aperipê. Além dos grupos, artistas e produtores locais, procuramos entrevistar sempre que possível bandas de fora que estejam de passagem pela cidade. Foram poucas, em boa parte por uma dificuldade estrutural da cidade para este tipo de vento, já que é uma capital pequena do menor estado do Brasil, mas já passaram por lá as bandas mineiras Enne e Silent Cry, e os cariocas Uzômi, Gangrena Gasosa (na pessoa de seu vocalista Ronaldo Chorão, que estava de férias por aqui, na ocasião) e o produtor Michael Menezes, da Parayba Records. Sergipanos, pela própria disponibilidade (e também interesse nosso e da direção da radio em destacar a produção local) foram vários: As bandas Plástico Lunar, The Baggios, karne Krua, Urublues, Scarlet peace, sign of Hate, Cessar Fogo, Glory box e Perdeu a Língua, entre outros, e os produtores Lucas e Edcarlos, da Rock Vivo (que fez shows do Krisiun, Angra, Shaaman e André Matos por aqui) e Fabio andrade, da Terrozone produções, uma produtora bem atuante que também trouxe uma série de atrações nacionais e até mesmo internacionais, como o Sinking da Finlandia e Blaze Bayley, ex-vocalista do Iron Maiden. Enfim, com essas iniciativas, esperamos estar dando nossa cota de contribuição para a cena local, além de estarmos nos divertindo, o que é também muito importante, afinal. É divertido de fazar e fazemos como satisfação pessoal, é satisfatório saber que estamos agradando pessoas com a mente aberta que entendem a importância de uma maior diversidade cultural no dial e nos incentivam a continuar em frente, assim como é satisfatório saber que estamos incomodando outros com uma mentalidade estreita e preconceituosa, como um senhor que ligou pro programa pra dizer que iria fazer um abaixo assinado pra tirar o mesmo do ar pois era um lixo que só tocava musica estrangeira pra corromper a juventude. Achei uma pena ele não ter feito o tal abaixo-assinado, ia ser publicidade gratuita.

14. Fale um pouco desse seu projeto para a TV.

Imagino que por conta da indicação do programa de rock para o premio Dynamite na categoria melhor programa de radio, surgiu um convite por parte da presidente da fundação Aperipê para que produzíssemos uma versão para a televisão do programa. Estamos produzindo o piloto, com algumas matérias e vídeo-clipes. Ainda não há data para ir ao ar nem definição se será apenas um especial ou se será um programa semanal – tudo vai depender de uma série de fatores, já que produzir para a TV é, definitivamente, infinitamente mais complicado que para o radio. Quem viver verá.

15. Recentemente o Chorão3 declarou para o mundo todo no Portal Rock Press que é apaixonado por você e tudo mais. O que acha disso? Aproveite esse espaço para responder à altura.

Eu diria que é um amor correspondido. Pena que ele é casado ...

16. Se pudesse apagar algo nessa sua caminhada, o que seria?

Nem tinha percebido que era uma caminhada, foi tão natural. É minha vida né. É o que eu gosto, com o que me identifico. É o que eu sou. Não apagaria nada não, acrescentaria – aliás, estou acrescentando, sempre que possível. Estou em pleno caminho ainda, afinal. Espero morrer caminhando.

17. O que tirou de proveito disso tudo?

Muita coisa. Dos tempos de fanzineiro ficaram especialmente as amizades que fiz Brasil afora, dentre elas a sua. Através dos zines conheci muitas bandas muito legais que sumiram na poeira do tempo, não “aconteceram”, no sentido de projeção midiática – bandas que eu não conheceria de outra forma. Nem vou me arriscar a citar porque são muitas. Dos shows, as lembranças de momentos inesquecíveis, tanto no “underground”, Festivais anternativos (BHRIF, Goiânia Noise, Abril pro rock) e grandes Festivais como o Rock in Rio II, no qual vi Judas Priest na turnê de painkiller, Megadeth com Rust in peace e Sepultura lançando o Arise, e um Hollywood Rock que fui e no qual vi Jimmy Page e Robert Plant , The cure, Smashing Pumpkins (me lembro claramente que tava no banheiro mijando e a parede tremendo ao som de “today”, uma de minhas msuicas preferidas deles), vários shows underground Brasil afora, grandes sons e grandes amizades. Em resumo, eu diria que viver é bom quando a gente corre atrás de nossos sonhos e não fica “sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.