quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Eleição sem Lula é fraude

ASSINE O MANIFESTO!  - A tentativa de marcar em tempo recorde para o dia 24 de janeiro a data do julgamento em segunda instância do processo de Lula nada tem de legalidade. Trata-se de um puro ato de perseguição da liderança política mais popular do país. O recurso de recorrer ao expediente espúrio de intervir no processo eleitoral sucede porque o golpe do Impeachment de Dilma não gerou um regime político de estabilidade conservadora por longos anos.

O plano estratégico em curso, depois de afastar Dilma da Presidência da República, retira os direitos dos trabalhadores, ameaça a previdência pública, privatiza a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos, além de abandonar a política externa ativa e altiva.

A reforma trabalhista e o teto de gastos não atraíram os investimentos externos prometidos, que poderiam sustentar a campanha em 2018 de um governo alinhado ao neoliberalismo. Diante da impopularidade, esses setores não conseguiram construir, até o momento, uma candidatura viável à presidência.

Lula cresce nas pesquisas em todos os cenários de primeiro e segundo turno e até pode ganhar em primeiro turno. O cenário de vitória consagradora de Lula significaria o fracasso do golpe, possibilitaria a abertura de um novo ciclo político.

Por isso, a trama de impedir a candidatura do Lula vale tudo: condenação no tribunal de Porto Alegre, instituição do semiparlamentarismo e até adiar as eleições. Nenhuma das ações elencadas está fora de cogitação. Compõem o arsenal de maldades de forças políticas que não prezam a democracia.

Uma perseguição totalmente política, que só será derrotada no terreno da política. Mais que um problema tático ou eleitoral, vitória ou derrota nessa luta terá consequências estratégicas e de longo prazo.

O Brasil vive um momento de encruzilhada: ou restauramos os direitos sociais e o Estado Democrático de Direito ou seremos derrotados e assistiremos a definitiva implantação de uma sociedade de capitalismo sem regulações, baseada na superexploração dos trabalhadores. Este tipo de sociedade requer um Estado dotado de instrumentos de Exceção para reprimir as universidades, os intelectuais, os trabalhadores, as mulheres, a juventude, os pobres, os negros. Enfim, todos os explorados e oprimidos que se levantarem contra o novo sistema.

Assim, a questão da perseguição a Lula não diz respeito somente ao PT e à esquerda, mas a todos os cidadãos brasileiros. Como nunca antes em nossa geração de lutadores, o que se encontra em jogo é o futuro da democracia. ------------------------------------------------------------

Marcia Tiburi: Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída.

Se estamos falando do desejo do eleitorado em relação a Lula, devemos começar por ter presente que esse desejo, na verdade, já não conta no Brasil desde o golpe de 2016. Sabemos que, se ainda houver eleição direta para presidente, hipótese plausível em um país que se tornou terra de ninguém, o desejo do povo manifesto nas urnas só será aceito entre aspas se ele coincidir com o desejo das elites, as mesmas que, servas do grande capital, transformam o Brasil inteiro em um mercado barato, vendendo-o em termos de commodities a preço de balaio. É nesse contexto que enfraquecem as tentativas de sustentar teoricamente a democracia, de manter a resistência contra a ditadura corporativa, midiática, judiciária cada vez mais claras. É claro que resistir é urgente, necessário e muitos morrerão por isso, mas é certo também que não podemos ser ingênuos diante dos jogos que estão sendo tramados nas costas da população, dos movimentos sociais, de todos os que se ocupam em promover qualquer sinal real de democracia no bizarrismo do momento.

Dilma Rousseff, sabemos, estava na mira das armas neoliberais manejadas pelo colonialismo externo do grande capital e o colonialismo interno de políticos, banqueiros e outros donos do Brasil. Ela estava marcada desde o começo, pelos muitos motivos que se tornam cada vez mais evidentes. Do mesmo modo, não é novidade que ela, assim como Lula, apesar dos pesares e das críticas de quem sempre espera um governo mais à esquerda, ou seja, mais socialista, mais capaz de garantir direitos, conseguiu uma proeza incomum: sustentar uma relação com o neoliberalismo de rapina ao mesmo tempo em que tentava por algum freio à barbárie, defendendo direitos fundamentais e uma democracia, por assim dizer, sustentável. Hoje, em que pese a necessidade de repensar o paradigma sócio-político que nos rege, sabemos que essa democracia sustentável praticada por Lula e, na sequência, por Dilma, é só o que se pode esperar de um governo popular em um país colonizado. Talvez Dilma e Lula tenham feito o melhor jogo de cintura de que teremos notícia em nosso país que começa a viver, de 2016 em diante, os piores tempos de sua pós-história. Perdemos a ingenuidade diante dos acontecimentos. A democracia se torna a cada dia um assunto menor.

Antes de seguir, gostaria de gastar um pouco do meu tempo e do meu espaço para pensar no lugar político mais fundamental da nação. Fato é que o cargo de Presidente da República Federativa do Brasil não é mais o mesmo depois do golpe. Esse lugar vale hoje em dia tanto quanto o voto da nação. Michel Temer conseguiu uma antiproeza fundamental na política brasileira do momento. De tudo o que ele ajuda a destruir hoje, o cargo de presidente da República é um dos que perdeu a dignidade conquistada com as eleições de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de Dilma Rousseff, presidentes eleitos e legítimos. Não eram vices golpistas, nem oportunistas. Ao ocupar o cargo de maneira ilegítima, entre o patético e o ridículo de seu personagem, invotável e rejeitado por mais de 90% dos brasileiros, Michel Temer segue se segurando na própria incompetência dos que querem derrubá-lo para não cair, e humilha o cargo que ocupa por meio de um golpe.

Não é possível, nesse momento, não pensar na figura dos que nos representando, não nos representam. Não é possível não se perguntar como Michel Temer suporta ser quem se tornou, sem grau algum de reconhecimento, sem méritos, sem história, sem coragem, sem brilho, sem vergonha. Qualquer pessoa a quem a questão da dignidade ainda fizesse sentido, que ainda tivesse um mínimo de amor próprio, já teria renunciado, teria se matado ou morrido de tristeza estando em sua situação. Mas aqueles que perderam a subjetividade, aquilo que os antigos, chamavam de alma, esses não sentem nada. E talvez seja esse o caso do homem que, sentado no trono da ilegitimidade e da rejeição popular, estarrece a todos.

Mas por que gastar tempo falando de Michel Temer enquanto os Direitos trabalhistas vazam pelo ralo, enquanto vários outros direitos se perdem no meio da desregulamentação da economia, da privatização e dos demais aspectos que fazem parte de um programa neoliberal? Por que Michel Temer é apenas mais um. E porque é sob o seu nome, num país que precisaria de líderes democráticos, de um projeto de país, que se produz a ignominia do desmantelamento do Estado, da sociedade e assistimos a destruição do país. O protótipo do político brasileiro, aquele que chegou onde chegou por tramas obscuras, por jogos sinuosos de poder, no caminho da ilegitimidade é o que está em jogo.

Podemos citar muitos nomes que acompanham Michel Temer na sua inexpressividade a serviço da covardia dos neoliberais. Falamos de um e estamos falando de todos, salvaguardadas as exceções que confirmam a regra. Não podemos nisso tudo esquecer os agentes do Judiciário que hoje, sem provas, sustentados em convicções em nível de delírio, que fazem lembrar idiotas, tentam encontrar um lugar ao sol enquanto todos percebem que se valem de um ódio – no caso dos mais famosos atualmente, de um ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. O ódio destrói a crítica que poderia ser interessante em qualquer momento. O ódio, como sabemos, é plantado em corações vazios, em mentes despreparadas para a política por meios de comunicação que em tudo são máquinas protéticas que definem hoje o caminho, a verdade e a vida da população.

O neoliberalismo é essa religião que programa um caminho, uma verdade e uma vida para cada um. O caminho é o mesmo, o da servidão voluntária ao mercado, ao capitalismo neoliberal.

O que Lula significa para o Brasil nesse momento? Qualquer líder que possa atrapalhar concreta ou simbolicamente o cenário do poder econômico, a descarada tendência dominante há tempos, será destruído, descartado, eliminado. Lula em tudo é o anti-Temer. Querido, amado, altamente expressivo como ser humano, capaz de encantar os mais exigentes estadistas e massas inteiras de gente simples, Lula continua impressionando os intelectuais, os que pensam e até aqueles que não se preocupam muito com política. Ele foi e continua sendo o mais perigoso dos líderes capazes de atrapalhar o cenário político previamente estabelecidos pelos donos do Brasil, simplesmente por um fator. Ele é amado pelo povo que nele se reconhece e nele votaria pura e simplesmente. Me refiro ao povo, às pessoas das classes humilhadas e exploradas que lhe eram fiéis e que, nesse momento, passam a amá-lo mais ainda. Do mesmo modo que, aqueles que ainda não tinham percebido a sua dimensão, diante das injustiças das quais é vítima, passam a adorá-lo.

Mas essa parte da população, que é a imensa maioria, tem perdido seu espaço. E tem perdido a si mesma, seus corpos e suas mentes.

Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem.

O pensamento simplificador, típico de sociedades levadas à incapacidade de reflexão, e a correlata polaridade política, movida a desinformação e ódio, impedem a compreensão do significado de Lula para o Brasil. Hoje, há uma espécie de interdição à percepção de que há um Lula para além do Luiz Inácio Lula da Silva, político com qualidades e defeitos, eleito por duas vezes à Presidência da República.

Se o Lula de carne e osso foi racionalmente tolerado pelos detentores do poder econômico (afinal, os bancos nunca lucraram tanto), esse outro Lula, o do imaginário de imensa parcela da população brasileira (e que alcançou também a atenção de pessoas em todo mundo) tornou-se insuportável justamente no momento em que vem simbolizar o Brasil que volta a ser uma velha colônia usada e abusada pelos colonizadores de sempre, o velho capital internacional aliado hoje em dia de corporações e banqueiros que ocupam os cargos políticos como se fossem os donos do Brasil.
Lula continua em seu papel como representante do povo idêntico ao povo, um papel que é incomparável com qualquer outro político de seu tempo. Perseguido e humilhado, como é inevitável a um líder de sua envergadura, mas altivo e sem dever nada a ninguém, ele nos deixa um recado: “não há solução para nenhum país que não seja uma solução política”. Isso nos leva a pensar que o neoliberalismo em curso propõe soluções econômicas que favorecem os ricos e que esse favorecimento conta com a adesão do cidadão rebaixado a otário. Nas palavras de Lula “a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Precisamos sair desse lugar de otários em que fomos postos por uma produção discursiva que nos afasta de nosso próprio desejo por política e nos faz viver das decisões alheias que sempre nos desfavorecem.

O presidente Lula foi condenado como já se esperava, sem provas, a partir de acusações ridículas. Foi condenado por um juiz que só existe como figura pública porque se colocou a caçar o presidente. O juiz do Paraná lembra Michel Temer, é mais um dos “sem brilho próprio” que sobrevive tentando apagar o alheio. Após deixar de ser unanimidade, o que restará a esse cidadão é agradar alguns admiradores. Talvez Michel Temer, absolvido, Aécio, solto…

A estrela de Lula é maior. Não se apagará de modo algum da história do Brasil, nem do coração das classes humilhadas. -------------------------------------------------

Gilberto Maringoni: Faço campanha política desde 1974. Aprendi a pedir voto, a fazer panfletagens, a tentar convencer o eleitor, a organizar campanhas etc. Sei ler resultados eleitorais de centro acadêmico a pleitos presidenciais como qualquer um que lide com o assunto.

Também sou capaz de verificar movimentos em pesquisas de opinião, buscar identificar tendências e construir cenários através da tabulação das intenções coletadas de centenas, de milhares, de milhões de pessoas de acordo com múltiplas variáveis que compõem a decisão do voto. Repito, não é prerrogativa exclusivamente minha. Qualquer ativista mediano com alguma cultura política tem obrigação de fazer isso. Mas não consigo ler racionalmente a tendência de três votos: os dos desembargadores do TRF-4.

Talvez porque a palavra “voto” seja ali mal empregada. Não há objetividade clara nos movimentos dos três que se arrogarão ao direito de decidir o destino de um homem. Aliás, não é de um homem. Trata-se dos destinos de milhões de brasileiros e brasileiras. O trio decidirá se mais de cem milhões de pessoas poderão exercer plenamente suas prerrogativas cidadãs ou não. Sim, eu sei que a justiça tem determinados ritos e procedimentos, mas não é esse o caso. Os desembargadores não votam nada. O voto que está em jogo lhes é alheio. Proferirão doutas sentenças num processo de rarefeita objetividade jurídica e prenhe de subjetividade política.

Além da falta de provas já exaustivamente argumentada por muitos, há algo mais. Algo que não cai bem para nós de esquerda. Por força um moralismo demagógico que tomou conta de vários setores progressistas – PT, PSOL, PCdoB -, estes se aliaram com a direita e aprovaram no Congresso, em 2010, a lei da ficha limpa. O nome é lindo ...

A norma permite que se faça o que o TRF-4 buscará fazer com o ex-presidente Lula: torná-lo inelegível a partir de uma decisão de segunda instância. O irônico da coisa: o dispositivo foi sancionado pela própria vítima, Lula. A aprovação e a sanção se deram num quadro feito para saciar a sede de sangue de uma classe média narcotizada pela mídia e impulsionada por uma esquerda que viu na pura e simples denúncia de corrupção o caminho da construção de um projeto de país.

Valeria a pena realizar um colóquio de Ciência Política e verificar como e por que a esquerda – aqui o PT – viu na reedição do velho udenismo a melhor maneira de se legitimar, a partir do início dos anos 1990. O período coincide com a derrocada de Collor de Mello. É bom lembrar que a campanha pelo impeachment não tinha por mote a selvagem implantação do modelo neoliberal por parte do “caçador de marajás”, mas tão somente saber se ele havia roubado ou não. Dia 2 de outubro de 1992, Collor caiu. No dia seguinte, Paulo Maluf elegeu-se prefeito de São Paulo, mostrando o fôlego curto das campanhas de moralismo estreito. No cargo, Maluf deu início a um processo de privatização semelhante ao aberto pelo mandatário deposto.

Estão guardadas na memória as imagens dos deputados petistas José Dirceu e Aloísio Mercadante – no Jornal Nacional! – acompanhando diligências da Polícia Federal como fiscais de costumes no combate ao collorato.

A volta do udenismo se deu também na conjuntura da derrocada dos regimes socialistas do Leste europeu. Havia uma intensa campanha midiática de desqualificação da esquerda e da possibilidade de se mudar a sociedade de forma radical. É deste 1992 também o “Fim da História e o último homem”, best seller de Francis Fukuyama, que chegou para nos convencer da inevitabilidade do futuro capitalista (algo tão mecanicista quanto as piores vulgatas marxistas).

Se mudar o mundo não era mais possível, a saída é que ele continuasse ruim, mas com menos roubalheira. Não se ligavam injustiças sociais e concentração de renda à corrupção. No centro de tudo estava a necessidade de se saber se fulano é honesto ou não, de acordo com formalidades miúdas. Exemplo: um triplex sem provas é algo muito pior que uma taxa de juros – legal – que arrebenta o orçamento público, ou que um ajuste fiscal a ceifar verbas de setores essenciais.

O primeiro slogan criado para o PT por Duda Mendonça, na segunda metade dos anos 1990, era “Combater a corrupção e melhorar a vida do povo”. Sim, nessa ordem. A banda de música da União Democrática Nacional não faria melhor, quatro décadas antes…

Voltemos ao TRF-4. Os desembargadores não votam, não julgam. Decidem “sem interferências indevidas” o que pode e o que não pode, de acordo com o Alcorão íntimo de cada um. Ou com a Bíblia, ou com o Livros dos Mortos etc. A Constituição estará lá para decorar o ambiente.

Os três decidirão com um acúmulo de quase três décadas de neoudenismo impulsionado por uma atrapalhada aliança de quem buscava votos fáceis a partir de vários pontos do espectro ideológico nacional. Os Huguinho, Zezinho e Luizinho dos pampas decidirão pelos homens de bem, pelo futuro da nacionalidade, pelo lindo pendão da esperança e pelos sempre bem ocultos interesses de classe, que se vendem como interesses de todos. Só não tendem a decidir muito pela democracia e pela política ...

Por isso, a pressão popular não é apenas legítima. É necessária e urgente. Porque aquele troço lá não é voto! -----------------------------------------------

Ciro Gomes: Dia 24 de janeiro é o dia do julgamento da apelação de Lula contra a sentença que o condenou em primeira instância. Torço para que seu recurso seja reconhecido pelo tribunal regional, órgão de segunda instância da Justiça Federal, e ele seja declarado inocente.

O Judiciário brasileiro, assim como os outros poderes de nossa frágil República, tem graves defeitos - nunca me abstive de criticá-los - mas imaginá-lo parte orgânica de uma conspiração política ofende a inteligencia média do país e, pior, a consequência inevitável desta constatação teria desdobramentos tão graves que a um democrata e republicano só restaria a insurgência revolucionária. Não creio, definitivamente nisto.
É definitivamente constrangedor e inexplicável que nenhum quadro relevante do PSDB esteja preso apesar de fartas e robustas evidências de seu orgânico e ancestral envolvimento em corrupção. Mas não é irrelevante que estejam presos quadros centrais do PMDB como Eduardo Cunha, Gedel Vieira Lima ou Henrique Alves. E que o próprio presidente Michel Temer tenha sido chamado pela Justiça a responder por seus atos de corrupção, embora impedida, a mesma justiça, de prosseguir na apuração, pelo poder politico subornado.

O que quero dizer nesta hora crítica é que, apesar de seus graves problemas, a Justiça brasileira ainda deve merecer o respeito institucional da nação. O oposto é a baderna, a anarquia e, evidentemente, a violência.

Que o Tribunal Regional de Porto Alegre compreenda a transcendência de sua decisão! Que, independentemente de pressões legítimas ou espúrias, afirme a JUSTIÇA! Que tenha a força moral de afirmar a inocência de Lula no processo em questão, se como eu, não vislumbrar clara sua culpa.

Que dê evidências incontestáveis de sua culpa, caso assim entenda, de maneira que a qualquer do povo não reste duvidas e, assim, possa a Nação afirmar como o injustiçado alemão: há juizes em Berlim. E, apesar de tudo, também no nosso sofrido Brasil. ------------------------

Jessé Souza: A sociedade brasileira foi vítima, a partir de 2013, de um dos ataques mais insidiosos e virulentos do capitalismo financeiro internacional.

O ataque teve um sentido duplo: quebrar a nascente experiência do BRICS enquanto tentativa de inserção internacional autônoma do País e transformar o Orçamento público por meio da dívida pública – gigantesca fraude de socialização de prejuízos e privatização de lucros –, além das riquezas nacionais, em um espaço livre para a rapina econômica de uma ínfima elite.

Como as outras frações dos proprietários, incluídos o agronegócio e a indústria, retiram seu lucro maior, crescentemente, da mesma fraude, a fração financeira do capital passa a ter o comando do processo econômico e do processo político.

O capitalismo financeiro não é apenas uma nova ordem econômica mundial. Ele não muda apenas a forma e a velocidade da acumulação do capital e a forma do controle do processo de trabalho.
Também criminaliza e estigmatiza a esfera política para que esta perca qualquer autonomia e a agenda predatória financeira possa impor-se sem qualquer restrição. E, acima de tudo, deseja evitar a mediação política como expressão de interesses das classes populares.

Daí a criminalização dos movimentos populares, o ataque aos sindicatos e a estigmatização dos partidos de esquerda. Na dimensão simbólica, o ataque foi planejado há décadas pela disseminação de think tanks conservadores no mundo e pela compra e cooptação da indústria cultural e da mídia.
O núcleo duro da nova forma de poder é bifronte: o capital financeiro assalta a população e legaliza sua corrupção pela compra da política e do Judiciário. E a mídia frauda o público por meio da distorção sistemática da realidade.

Essa estratégia de manipular as mentes para assaltar o bolso dos imbecilizados tem sólida tradição no Brasil. Como mostro no meu livro mais recente (A Elite do Atraso, Leya, 2017), a elite paulistana construiu a criminalização seletiva da política, contra Getúlio Vargas e seu projeto nacional, ao cooptar a elite intelectual e fundar a imprensa elitista e venal que hoje possuímos.

A ascensão de Vargas, com o apoio da classe média “tenentista”, havia mostrado à elite a necessidade do controle da heterodoxia rebelde da classe média letrada. Se em relação à classe trabalhadora e à “ralé” de marginalizados a violência material e física era, e continua a ser, o tratamento “normal”, em relação à classe média a estratégia teria de ser outra.

Como a pequena elite precisa da classe média como sua aliada carnal no exercício diário da dominação econômica social e política, esta tem de ser seduzida e conquistada. Daí a estratégia de convencimento e não de repressão. Para “convencer” é preciso ideias e uma imprensa elitista e venal para distribuí-las.

Essa elite criou a USP como seu gigantesco think tank do liberalismo conservador brasileiro e a tornou universidade de referência nacional, que forma os professores e estipula os critérios das outras instituições de ensino superior.

Assim, temos a formação de todas as elites nacionais segundo uma referência comum, as ideias centrais de patrimonialismo e de populismo, ambas criadas e difundidas pela USP.

A primeira tese sustenta que a corrupção é só do Estado e da política para tornar invisível a corrupção do mercado, possível pela captura do poder público enfraquecido e criminalizado. Depois, ainda diz que a elite do mal está no Estado, tornando o mercado um espaço idealizado de virtudes como empreendedorismo, honestidade, trabalho duro e iniciativa individual.

O conceito de populismo serve, por sua vez, para tornar as classes populares suspeitas de burrice inata e, portanto, presas fáceis de líderes demagógicos e manipuladores. Com isso, de uma penada, pode-se mitigar o efeito do princípio da soberania popular e tornar suspeita qualquer liderança popular. São essas ideias, distribuídas desde então todos os dias, que envenenam a capacidade de reflexão da população.

Não bastasse, criou-se uma narrativa histórica de longa duração, baseada nessa visão distorcida, possibilitando uma singularidade “vira-lata”, hoje patrimônio indissociável de todo brasileiro. É que a corrupção dos tolos, só do Estado e da política, passa a ser percebida como herança portuguesa e ensinada não só nas universidades, mas a toda criança brasileira na escola.

O ridículo dessa crença, que supõe já existirem no século XIV em Portugal noções que só seriam criadas no século XVIII, entre elas a ideia moderna de bem público, que pressupõe o conceito de soberania popular, não parece ter incomodado ninguém.

O ponto decisivo, ao arrepio da verdade e da inteligência, é inverter o sentido de apropriação privada do público como atributo do Estado e da política e nunca do mercado e da elite de proprietários.


Sem o esclarecimento dessa pré-história, a conjuntura atual é incompreensível. O golpe de 2016 é uma continuidade aprofundada e mais cruel dessa grande fraude brasileira iniciada em 1930. Todos os golpes de Estado desde então tiveram exatamente o mesmo roteiro.

No mais recente, não apenas se reverberou a mentira pronta de cem anos da corrupção dos tolos e do populismo. Sob o comando da Rede Globo e da farsa da Operação Lava Jato, atacou-se o próprio princípio da igualdade social como maior valor do cristianismo e da cultura ocidental.

O ataque seletivo ao PT, entre 2013 e 2016, como “organização criminosa”, narrativa criada pela Globo e depois assumida pela própria Lava Jato, desnudando seu conluio midiático e elitista, é o principal elemento da conjuntura.

O PT, com todos os seus defeitos, foi a única verdadeira novidade da política brasileira nesses últimos cem anos. Um partido que nasceu, em grande medida, de baixo para cima, espécie de confederação de movimentos sociais e associações de trabalhadores do campo e da cidade que procurou assegurar uma pequena parte da riqueza social e do Orçamento público para a maioria carente.

Ao criminalizar tão somente o Partido dos Trabalhadores, enquanto se “fulaniza” a corrupção das demais legendas, conseguiu-se rebaixar a própria demanda por igualdade que o PT simbolizava para as classes populares, de fim moral mais alto em simples meio para um suposto saque ao Estado.
Para onde vão o ressentimento e a raiva justa que os excluídos sentem por causa da exclusão? Sem expressão racional e política possível, o ressentimento popular transforma-se em massa disforme de anseios, medos e desejos irracionais à procura de expressão. Esse é o verdadeiro pano de fundo para as eleições de 2018.

Jair Bolsonaro, como ameaça real, só é compreensível pela ação conjunta do conluio Globo-Lava Jato. Por sua vez, a imunidade parcial de Lula a uma desconstrução orquestrada é reflexo da inteligência prática das classes populares que percebem a política como o jogo dos ricos e corruptos, e querem saber unicamente o que sobra para eles. E foi Lula quem entregou algo a quem nunca teve nada.

Apesar do sucesso pragmático inicial, o golpe perde legitimidade a cada dia. Seu planejamento míope e de curto prazo cobra agora um alto preço daqueles que sujaram as mãos pela elite do saque, a começar pela mídia venal que arriscou seu capital de confiança. E passa pela casta jurídica que acobertou a Lava Jato e destruiu a segurança jurídica e pela política tradicional, que perdeu qualquer legitimidade.

Articuladores tão medíocres fizeram com que, pela primeira vez nestes cem anos de domínio material e simbólico da elite do saque, as entranhas do País real estejam à mostra como nunca dantes. Tudo que era sólido se desfez no ar. Todas as ideias que colonizavam a direita e a esquerda também.

As oportunidades abertas pelo fracasso na legitimação do golpe são revolucionárias. Elas podem efetivamente permitir expor a crueldade do domínio de uma elite mesquinha e de seus prepostos hipócritas na mídia e no aparelho de Estado. Abre-se a possibilidade objetiva de um processo de aprendizado histórico inédito no Brasil.


O problema real da oposição de “esquerda” é que ela foi criada nesse mesmo jogo e, ainda pior, nas mesmas ideias. A esquerda é tão miopemente moralista quanto a direita. Também não possui ideias próprias sobre o funcionamento da sociedade ou do Estado.

Daí ter perdido a narrativa da ascensão social, que ela mesma produziu, para as igrejas evangélicas. Daí ter aparelhado e dado força a instituições de Estado que depois a perseguiram com sanha assassina.

Como em toda crise radical temos agora em 2018 tanto a possibilidade do caos quanto a oportunidade do novo. O discurso da esquerda não pode ser o da volta ao passado, mas o do aprendizado de um novo futuro. O desafio é difícil, mas incontornável. -----------------------

The Intercept Brasil: Roberto Requião recebeu The Intercept Brasil para uma entrevista na última quinta, em Curitiba. Nos últimos anos, o senador paranaense tem sido uma das vozes dissonantes do MDB nacional a apoiar Lula, uma espécie de para-raio político do ex-presidente. Em suma: um comprador de tretas.

Para Requião, Lula é inocente no caso do tríplex – pelo qual será julgado em segunda instância na próxima semana depois de ter sido condenado a nove anos e meio pelo juiz Sérgio Moro. Tanto nesse quanto nos demais casos em que é acusado de receber presentes de construtoras, a culpa, diz o senador, é dos empreiteiros que quiseram comprar a “simpatia” do político. “Tudo isso foram avanços das empreiteiras. Sei o que significa o poder econômico num governo, fui governador três vezes.”
Na sala de espera de seu escritório, que fica em uma grande casa no Bom Retiro, bairro de classe média alta da capital, outro visitante aguardava para conversar com emedebista: o ex-deputado federal Florisvaldo Fier, o Doutor Rosinha, atual presidente do PT do Paraná. “Vim pedir apoio para minha candidatura a governador”, brincou. O senador, de fato, se relaciona melhor com petistas do que com seus próprios correligionários.

Dois dias antes, o veterano de 77 anos havia anunciado que será candidato ao que seria seu quarto mandato como governador do Paraná. Requião chegou em seguida e arrastou Rosinha junto para a entrevista. Falamos por 40 minutos – Rosinha permaneceu mudo na maior parte do tempo.

Na conversa, Requião criticou Lula, moderadamente, e foi mais duro com Sergio Moro, a imprensa (o político já agrediu jornalistas, inclusive fisicamente) e seu próprio partido, o MDB – novo nome do velho PMDB, ao qual é filiado desde os anos 1980, apesar de se ver como um homem de esquerda.

Em determinado momento, Requião sacou de um envelope um exemplar do “Manifesto do Primeiro Partido Operário do Brasil”, assinado, entre outros, por seu avô, Justiniano de Mello e Silva, que mandou imprimir na gráfica do Senado (uma das regalias do mandato de Senador é gastar até R$ 8,5 mil anuais para rodar material “inerente à atividade parlamentar“.) “Você vai entender a posição que eu tenho através da história dos meus antecedentes”, garantiu o senador, integrante de uma família de políticos – o pai foi prefeito nomeado de Curitiba nos anos 1950, e um dos irmãos, deputado federal.

A seguir, os principais trechos da entrevista: 

THE INTERCEPT BRASIL Num vídeo recente na internet, o senhor falou que o julgamento de Lula é um “verdadeiro absurdo”. Por quê?
ROBERTO REQUIÃO Porque, para mim, as coisas com relação ao apartamento são muito claras. Em primeiro lugar: eu não sou devoto do Lula. Sou amigo dele, e fui oposição à política econômica do governo dele. Mas ele terminou o governo com 84% de popularidade e elegeu a sucessora. Não se podia esperar que um empreiteiro não quisesse fazer um favor ao Lula.

Dona Marisa tinha comprado um apartamento. Era uma incorporação do sindicato dos bancários que não deu certo e acabou na mão da OAS. A OAS resolveu fazer uma gentileza ao presidente, deve ter oferecido à dona Marisa a cobertura. E isso significava o quê? Acumulava o pagamento do apartamento e pagaria a diferença.

Ninguém vai me convencer que a OAS cobraria a diferença de um ex-presidente da República com 84% [de aprovação]. Eles eram uma empreiteira com negócios com o Estado, gostariam muito de ter a simpatia do ex-presidente que elegera a sucessora. Mas o Lula refugou a hipótese da negociação. Ele foi dar uma olhada…

Evidente, a dona Marisa, que era uma mulher extraordinariamente simples, ficou encantada em ter uma cobertura, embora fosse uma cobertura medíocre – como diz o Maluf, eram três Minha Casa, Minha Vida um em cima do outro, numa praia [a das Astúrias, no Guarujá, litoral de São Paulo] que não é exatamente o sonho de consumo da burguesia brasileira. Lula disse que não queria o imóvel, dizendo que não gostou de detalhes, e os caras resolveram fazer adaptações.

TIB Mas não lhe parece que só o fato dele ter ido até lá, ver o apartamento, deixar a mulher acompanhar as reformas…
Requião [Interrompe a pergunta] O fato de eu ter te recebido aqui não significa que eu vá me casar com você. Ofereceram o apartamento, sugeriram algumas mudanças. E o pressuposto é de que ele pagaria as diferenças. Mas eu digo a você, com a experiência de ter sido governador do Paraná três vezes, que eles proporiam, ao fim e ao cabo, que o Lula não precisaria pagar a diferença. Mas Lula recusou. E vamos admitir que ele fosse pressionado e a diferença não fosse paga. Mas daí surgiram os escândalos da Petrobras e o negócio não se deu.

Então, não vamos saber nunca se o Lula seria convencido e aceitaria o presente da OAS. Que não tem nada a ver com a Petrobras – o [juiz federal Sergio] Moro admite isso. Então, o apartamento não é dele, tanto que uma juíza do Distrito Federal, na semana passada, sequestrou o apartamento para pagar credores da OAS. O apartamento está em nome da OAS. Não é do Lula, não foi do Lula e não poderá ser do Lula. Então, a condenação é política. Porque a candidatura do Lula, com seus defeitos e qualidades, é hoje o ponto de apoio para alavancar, reverter um projeto de entrega do Brasil.

[Após a repercussão da notícia por sites alinhados a Lula, o Tribunal de Justiça do DF emitiu nota em que afirma que a penhora do tríplex “não emitiu qualquer juízo de valor a respeito da propriedade”.]

TIB No começo de seu governo, em 2003, Lula disse que “não tinha o direito de errar”. Esse relacionamento dele, no mínimo próximo, com as empreiteiras, seja no tríplex, no sítio em Atibaia, no terreno para o Instituto, foi um erro?
Requião Foi um erro. Um erro! Mas tudo isso foram avanços das empreiteiras, e o terreno do instituto não se concretizou. Sei o que significa o poder econômico num governo, fui governador três vezes. Eu conheço o jogo do capital financeiro e das empreiteiras…

TIB Quando governador, o senhor denunciou escândalos de corrupção no governo de seu antecessor Jaime Lerner. Um deles é o caso Banestado, tocado por muitos promotores que estão na Lava Jato e julgado por Sergio Moro. O que mudou?
Requião Você está completamente errado na sua pergunta. O procurador do caso das contas CC-5 do Banestado chamava-se Celso Antônio Três. Ele é o principal opositor da posição fundamentalista de seus colegas do Ministério Público Federal. Ele fez uma crítica dos dez pontos [as dez medidas contra a corrupção propostas pela força-tarefa], e eu a editei no meu gabinete do Senado.

[Na verdade, Três era colega, naquele caso, de Carlos Fernando dos Santos Lima e Januário Paludo, integrantes da força-tarefa da Lava Jato.]

Sobre Moro, não espere de mim que eu vá fazer com ele o que acho que ele faz com o Lula. Eu conheço o Moro. Ele entrou naquele processo, que veio para a Justiça estadual, e não conseguiu fazer com que  avançasse. Mas o Moro queria se destacar como combatente da corrupção. O Moro é um sujeito sério e equivocado, porque está fornecendo munição para o entreguismo no Brasil, para o avanço do capital financeiro e o fim da soberania nacional.

Moro era um sujeito empenhado, mas foi atingido por um pecado comum em políticos, a vaidade. Ele viaja aos Estados Unidos para entrevistas, para receber prêmios, para palestras remuneradas, o que não tem cabimento para um juiz brasileiro que julga uma questão sobre a qual os norte-americanos têm interesse. Acho que, no processo de julgamento, ele se tomou de horror pelo Lula e pelo PT. Ele foi muito atacado pelo PT, e muitas vezes pelos seus acertos, por problemas que levantou e existiam, de que não precisamos falar…

TIB Por exemplo?
Requião Por exemplo, aqueles diretores [na Petrobras] ganhando comissões, o que é rigorosamente inaceitável. E não era só o PT, mas o PT foi reagindo, e ele foi tomado de horror, e transformou o processo num processo pessoal [diz, batendo na mesa].  A tentativa de afastar o Lula é a tentativa de consolidar um projeto à Margaret Thatcher, à Ronald Reagan, que está absolutamente falido no mundo todo. Se não tivermos um candidato com a popularidade e o carisma pessoal do Lula, e essa eleição for morna, ela será uma eleição do poder econômico. Talvez uma parte da população nem vote, [tenhamos] uma abstenção brutal, e os candidatos eleitos serão os que conseguiram pequenos favores com a máquina do estado. É o cabra que levou uma creche, ampliou uma escola, conseguiu uma ambulância…

TIB Não é sempre assim?
Requião Não. Lula se elegeu presidente da República com outro discurso. De certa forma, ele capitulou à pressão da mídia, em partes. Mas acho que hoje ele aprendeu muito e é o ponto de apoio da resistência. “Me dê uma alavanca e eu moverei o universo”. A alavanca que nós temos é o Lula, não o Roberto Requião ou o Ciro Gomes. Somos piores que o Lula? Não acho. Mas o Lula tem as condições objetivas de virar o jogo. 

TIB Mas Lula candidato, rejeitado por boa parte do eleitorado, não contribui com candidaturas da extrema-direita, de Jair Bolsonaro, por exemplo?
Requião Não. O Bolsonaro não existe mais. Foi promovido e despromovido, desapareceu.

TIB Promovido por quem?
Requião Pela Globo, pela mídia e pela banca. Pelos interesses financeiros que queriam derrubar a política progressista e desenvolvimentista. Ele acabou, já apanhou duma forma definitiva, por seus erros pessoais, que não são nem o de visitar um apartamento [como Lula], mas usar recursos públicos para pagar funcionário que não trabalhava, [empregar] a parentela toda sem fazer nada. E eu não tenho nada contra botar parente, desde que seja eficiente. [Quando governador, Requião empregou a mulher, Maristela, e dois irmãos, Eduardo e Maurício, em cargos do primeiro escalão.]

TIB Não foi a insatisfação com a classe política que catapultou Bolsonaro?
Requião Claro, mas é uma insatisfação promovida pela Globo e pela mídia, pelos jornalões. Ou você acha que aquela movimentação pelos vinte centavos no transporte em São Paulo ocorreu pelo quê? Havia, há uma insatisfação latente no Brasil. Havia antes, e hoje está multiplicada por cem. Mas ela não está sendo mobilizada por falta de condutores, na mídia e na organização de base. Se o Lula não for candidato e não pusermos um paradeiro nisso, vamos partir para uma crise social brutal. Porque o brasileiro não vai admitir perder os direitos trabalhistas, políticos e sociais de que usufruiu nos períodos do Lula e do Getúlio Vargas.

TIB A senadora Gleisi Hoffmann disse que será preciso “matar gente” para prender Lula. Qual sua impressão sobre a declaração dela? O que devemos esperar das manifestações em Porto Alegre caso o TRF4 confirme a condenação de Lula?
Requião Não foi isso que ela disse. A declaração foi mal interpretada, e a Gleisi forçou um pouco o raciocínio.
[Em entrevista ao portal Poder 360, a senadora diz: “Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente. Mais que isso: vai ter que matar gente. Aí vai ter que matar”.]

TIB Seu partido, o MDB, foi o artífice do impeachment…
Eu poderia dizer a você: você é um jornalista, e o jornalista brasileiro é um canalha. Devolvo a pergunta a você nesses termos.

TIB O senhor acha que o jornalista brasileiro é um canalha?
Requião Ah, é. As empresas estão acanalhadas e a serviço do capital financeiro e de uma política de destruição da soberania nacional.

TIB Todas elas, indistintamente?
Requião Todas as que têm expressão. Algumas não, tem a mídia alternativa. E, lógico, individualmente, tem jornalistas sérios. Mas a maioria deles e as empresas estão a serviço do mercado.

TIB Eu prossigo com a pergunta: o senhor está no MDB, mas é crítico do governo Temer…
Requião Por que você não pergunta a Temer o que ele faz no meu PMDB?

TIB O senhor acha que é essa a pergunta correta?
Requião A base do PMDB pensa como eu penso. O [ministro Eliseu] Padilha fez uma pesquisa sobre a reforma da previdência com filiados ao partido e 97% disseram que não queriam. Então, o meu PMDB não é o deles [de Padilha e Temer]. Eles têm é o domínio da estrutura parlamentar do Brasil. Mas não saio do PMDB como não deixo de ser brasileiro, não vou fugir para o Paraguai.

TIB O senhor acha que não terão coragem de expulsá-lo do MDB?
Requião Podem tentar, né?

TIB O senhor e o ex-presidente Lula têm falado em “regulação da mídia”. Como seria feito isso? De que forma isso se conduz com uma democracia saudável?
Requião Sugiro a fórmula norte-americana, acabar com o monopólio empresarial, a verticalização, que permite ao sujeito ser dono do jornal, da revista, do rádio e da televisão. Tem que haver pluralidade.

TIB Mas quem faria isso? O Estado?
Requião A legislação. A Argentina aprovou uma lei interessante, que o Macri está destruindo. Os EUA têm uma lei interessante. Multiplicidade de opiniões é a essência da democracia, que é o regime que age pela vontade da maioria, mas preserva o direito das minorias de terem voz. E voz significa ter espaço na imprensa para o convencimento, para se transformar em maioria. Hoje, o poder econômico monopoliza a mídia. Aqui no Paraná, estou conversando com você, mas não dou entrevista a uma rádio, um jornal local.

TIB Qual o papel do MDB nesse futuro político que se avizinha? O senhor vê possibilidade de o MDB continuar a ter o comando do Executivo, ou o partido voltará mesmo pro seu papel tradicional?
Requião O MDB nacional não tem voto. Aqui no Paraná, estamos bem. Estou disparado nas pesquisas de opinião para qualquer candidatura a que me proponha É o meu MDB, desenvolvimentista, com sensibilidade social. Mas o nacional está mais arrasado que o PT.
[Requião lidera sondagens para o Senado, mas não para governador].

TIB Numa hipótese de Lula candidato e eleito, seria possível o MDB integrar o governo?
Requião  Acho que tem que haver uma mudança pesada na estrutura do parlamento brasileiro, que hoje é despolitizado. Os parlamentares brasileiros são analfabetos políticos, na visão brechtiana. Querem manter o mandato. E, da mesma forma que apoiaram o PT num determinado momento, apóiam Temer, desde que tenham verbas para suas emendas. -------------------------

Olívio Dutra: “O PT tem que fazer sua autocrítica, se explicar”



Com sua figura mais emblemática no banco dos réus, o PT precisa vir a público admitir os erros que cometeu, que incluem não expulsar figuras que “achavam que poderiam disputar, em esperteza, com as artimanhas da elite tradicional”, afirmou o ex-governador gaúcho e ex-ministro das Cidades Olívio Dutra. O fundador da legenda e um de seus nomes mais respeitados conversou com The Intercept Brasil, nesta segunda-feira, em Porto Alegre, onde participa de manifestações de apoio ao ex-presidente Lula.

Crítico contumaz das direções recentes do partido, Dutra crê que os problemas legais e éticos enfrentados pelo petismo nos últimos anos se devem, fundamentalmente, ao descolamento entre as bases do partido e seus dirigentes.

“Fizemos concessões a um tipo de política em que as negociações de cúpula valem mais do que o envolvimento do povo”, lamentou. “E não teríamos entrado nesse funil em que estamos. Ele também disse ver com preocupação o domínio cada vez maior da figura de Lula sobre o partido — a ponto de caciques da legenda dizerem que não há alternativa à candidatura dele à presidência em outubro. “O partido, que é uma construção coletiva, passa a ficar dependente ou coadjuvante nesse processo”, afirmou.

Aos 76 anos, Olívio Dutra é um político sui generis para os padrões brasileiros. Desloca-se de ônibus por Porto Alegre, mesmo em dias agitados como essa segunda, quando a cidade começou a receber caciques de todo o país para o julgamento do recurso de Lula contra a sentença em que foi condenado a nove anos e seis meses de prisão pelo juiz federal de primeira instância Sérgio Moro. A Curitiba, para o primeiro depoimento a Moro, no ano passado, Lula viajou num jato particular que pertence ao ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, enroscado no escândalo do mensalão tucano em Minas Gerais.

Olívio Dutra participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, um ano depois de ser preso pela ditadura militar por comandar uma greve de servidores públicos gaúchos – à época, ele presidia o sindicato dos bancários do estado. Ele foi prefeito de Porto Alegre (1989 a 93), governador do Rio Grande do Sul (1999 a 2003) e ministro das Cidades (2003 a 2005).

A seguir, os principais trechos da entrevista. 

THE INTERCEPT BRASIL Lula será julgado nesta quarta-feira na segunda instância num processo em que já foi condenado por Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão, pela alegada posse de um apartamento tríplex. Também responde a processos por conta de um sítio em Atibaia, um terreno para o Instituto Lula e um apartamento em São Bernardo. Tudo isso, segundo a acusação, foi presente de empreiteiras. O senhor acha que Lula é inocente?
OLÍVIO DUTRA Eu acredito na imparcialidade do Judiciário. Mas quem tem que comprovar essa imparcialidade é o próprio Judiciário. Toda decisão que vier tem que ter provas, e não suposições. Estamos aqui para dizer que uma parcela significativa do povo brasileiro não está satisfeita com a maneira como estão funcionando os três poderes. Nenhum deles está funcionando na maneira de um estado de direito, democrático.

Lula é uma liderança, construída ao longo de décadas. Penso que essa liderança, evidentemente, tem que responder muita coisa, e ele não está fugindo de responder isso, está no campo de batalha. Para mim, Lula tem evidentemente uma enorme simbologia, surgiu do interior da classe trabalhadora, chegou à Presidência, fez um governo de transformações importantes, inclusão social enorme, ainda que tenha mantido as estruturas, — reforma política não houve, reforma tributária não houve, reformas agrária e urbana não aconteceram. O Judiciário está usando de parcialidades, de subjetividades, até de preconceitos, que são próprios da elite brasileira, para buscar enquadrar o Lula em crimes. A sociedade tem que exigir provas concretas. Ou não se tem confiança [numa sentença judicial]. O Judiciário não pode viver numa redoma de vidro, numa sociedade democrática. Democracias mais consolidadas têm setores do  Judiciário eleitos pelo voto dos cidadãos. Se falar nisso no Brasil, dizem que é uma agressão à democracia. A qual democracia? As elites brasileiras têm a democracia como algo que pode ou não ser do seu interesse. 

TIB Numa entrevista à Rádio Gaúcha, em 2016, o senhor disse o seguinte: “Não adianta querer dizer que não [aconteceram mensalão e petrolão], culpar o adversário, a grande mídia. Tudo isso existiu sim”. Mas não é exatamente nessa linha de negação desses episódios que vai a defesa do PT e de Lula? Não falta autocrítica ao PT?
Dutra Houve pessoas, no PT, que achavam que estavam construindo um poder que poderia disputar, em esperteza, com as artimanhas da elite tradicional, com seus partidos históricos, que sempre usaram e abusaram do espaço público para satisfazer interesses pessoais. O erro do Partido dos Trabalhadores foi sua direção não ter separado essas condutas individuais do projeto coletivo. O PT não é o partido do Lula, não é o partido do Olívio. É um projeto coletivo. Que vai para o governo, e não para governar sozinho. Tem que compor, numa realidade que não depende da vontade do governante, mas de conjunturas, e o partido não discutiu essa realidade com sua própria base, e muito menos com o conjunto da sociedade. E foi se deixando envolver nessa malha. Ele precisa dizer isso, publicamente, evidente que sim. Ainda não disse o suficiente. 

TIB Que pessoas são essas, do PT, a quem o senhor se referiu?
Dutra Eu não sou de nominar, fulanizar a política. Mas é evidente, está ali, não preciso ser eu a apontar o dedo. Mas tem problemas, ou não estaríamos nessa situação. O impeachment não foi porque a Dilma cometeu erros, roubou, tem conta no exterior, acumulou riqueza. Foi uma urdidura que se montou por cima de alguns argumentos de que figuras do PT se envolveram em coisas não claras, de que a política tradicional é useira e vezeira, e a elite aproveitou-se disso para dar o golpe de agosto de 2016. 

TIB Quais são os erros que trouxeram o partido à situação em que ele está agora?
Dutra Não sou o juiz do PT. Até estranho, por que a fixação no PT? 

TIB Porque o PT surgiu e cresceu com a promessa de que seria diferente da velha política brasileira.
Dutra A conduta do PT poderia ter sido melhor. Se avançou bastante [nos governos petistas], mas no fazer se imitou muito a conduta de quem nós sempre condenamos. Portanto, o PT tem sim que fazer sua autocrítica, se explicar, mas isso se faz no campo democrático. Também temos que lutar para que a democracia não se estreite, para que quem deu o golpe em 2016 não comece a criminalizar os movimentos [sociais], para não ter o Estado como uma cidadela dos interesses dos poderosos. Os partidos políticos são importantes numa democracia, deveriam ser escolas de formação política permanente, não apenas para ensinar, mas também para aprender. E não são. 

TIB Falando no papel dos partidos: tem se falado em eleições com candidatos independentes, sem filiação partidária. O senhor acredita nisso? Os partidos são instituições ultrapassadas?
Dutra Os partidos precisam ter uma estrutura democrática para falar em democracia. Grande parte dos partidos, historicamente, no Brasil, surgiu de cima para baixo. O PT, não. Surgiu de lutas sociais num momento crucial da história brasileira. Portanto, tinha o compromisso de não retroceder. 

TIB Retrocedeu?
Dutra Fizemos concessões a um tipo de política em que as negociações de cúpula valem mais do que o envolvimento consciente dos amplos setores populares. A solução do problema democrático no país não é estreitar os espaços até aqui conquistados, mas radicalizar, ampliar a participação consciente do povo. Tínhamos o orçamento participativo, por exemplo. O partido tinha que ter mantido essa orientação e essa prática. Os partidos políticos não devem ser mesas de negociação, de toma lá, dá cá, de ocupação de cargos ou aproveitamento de espaços públicos. As direções partidárias têm o dever de aprender com as bases partidárias, os movimentos sociais, a sociedade brasileira. 

TIB Seu diagnóstico é de que o PT se afastou das bases, virou um partido como os outros, e precisa retomar o contato com as bases. Como se faz isso?
Dutra  As bases do PT nunca se entregaram totalmente a essa visão verticalizada, das coisas decididas de cima para baixo. O PT surgiu questionando a ideia de uma direção partidária que é onde os deuses se encontram e de lá baixam suas ordens. O PT poderia ter ido mais longe do que foi na forma de fazer política, mas enfrentou conjunturas que independem da vontade do governante. Estamos devendo muito, ainda, para a nossa base e a sociedade. Mas isso não nos faz merecer o sal da terra e muito menos ficar nos chicoteando a toda hora. O partido é um ser vivo, um projeto coletivo. 

TIB Mas não está individualizado, nessa obsessão pela candidatura presidencial de Lula?
Dutra Esse é um problema sério, em toda a América Latina, a ideia de pessoas que incorporam e passam a ser um símbolo quase isolado, tanto pela direita quanto pela esquerda. É um problema que, a meu ver, não está solucionado, [ter] uma figura importante como Lula como para-raio de tudo que acontece, e o partido, que é uma construção coletiva, passa a ficar dependente ou coadjuvante nesse processo. Não é [uma situação] exclusiva do PT. 

TIB Nas eleições de 2016, tivemos uma abstenção recorde, principalmente entre os jovens. Como a política faz para se reconectar com esse público?
Dutra Não é tarefa de um partido, de meia dúzia de partidos. É uma questão cultural, de conscientização. Mas a elite brasileira não pode ser a condutora disso, ela é o problema, não é a solução. Há quem propõe a não obrigatoriedade do voto… 

TIB O senhor concorda?
Dutra Acho que é um processo. E não é o momento, ainda [para isso]. E é bom lembrar que na Venezuela o voto não é obrigatório, e a direita aqui condena a Venezuela, por várias razões, algumas até que se justificam. Tem havido eleição quase todo ano na Venezuela, mas isso por si só resolve, garante uma democracia estabilizada? Não. Tem questões sociais, culturais, que têm de ter sujeitos coletivos capazes de fazer os desdobres, a qualificação democrática. Nos Estados Unidos, Trump, o presidente perdeu no voto popular. Não existe democracia que não precise ser aperfeiçoada. 

TIB Está na moda, nesse momento de crise do sistema político-partidário, falar em refundação dos partidos. Se fosse para refundar o PT, em que bases isso teria de se dar? Quais as diferenças em relação ao PT atual?
Dutra Primeiro que eu não simpatizo com a ideia de refundação. As fundações de um prédio às vezes, conforme o movimento das placas tectônicas embaixo, precisam ser reforçadas. Um partido é um corpo vivo, precisa ser sempre questionado por suas bases. 

TIB Então refaço a pergunta dessa forma: as queixas das bases, no PT, tem a atenção da cúpula?
Dutra Evidente que não. Se estivessem ecoando o suficiente, não teríamos entrado nesse funil em que estamos. Houve uma postura de [decisões impostas] de cima para baixo, por contingências as mais variadas, explicações as mais diversas. Temos que tirar essa lição. As relações com a base não podem ser passageiras, episódicas, eleitoreiras. Têm que ser permanentes. Assim como queremos para a sociedade; não queremos que o cidadão seja um cidadão ocasional, eventual. Um partido que não surgiu de cima para baixo, tinha e tem a obrigação de levantar a política como construção do bem comum, e não simplesmente se mobilizando em ocasiões eleitorais, para disputar cargos. A construção do bem comum é muito mais que isso. Luto para que o PT retome seu caminho, para que o povo o corrija. 

TIB Quando liguei para o senhor para avisar que já estava aqui, o senhor estava a caminho, no ônibus. Não é uma situação comum a dirigentes de outros partidos, inclusive de esquerda, do PT. A proximidade com o dinheiro, com grandes empresas, empreiteiras, que a Lava Jato transparece, estragou o PT?
Dutra Há vários ditados populares, que dizem que o coração está onde está o dinheiro, que têm que ser negados na prática. Tem a frase, acho que do [ex-secretário de Estado dos EUA durante os governos de Richard Nixon e Gerald Ford Henry] Kissinger, de que o poder é afrodisíaco. Tem a história da mosca azul, de quem chega a um cargo e passa a se achar mais importante que o próprio cargo – aliás, o Frei Betto tem um bom livrinho sobre essa questão (rindo). [Se refere a “A mosca azul“, lançado em 2006, logo após o auge do Mensalão, em que o frei dominicano analisa o que era então a maior crise vivida pela esquerda brasileira]. É bom ler (ainda rindo). Tem sempre essa contradição na vida. O ser humano não é um anjo. ---------------------------

Tarso Genro: Lula operou em sistema político amoral, isso é diferente de cometer crime



O sistema político brasileiro é amoral, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se utilizou dele para implementar políticas sociais “que mudaram os padrões de desigualdade no Brasil”, disse o ex-governador gaúcho, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-ministro Tarso Genro, nome histórico do Partido dos Trabalhadores. “Isso é muito diferente de cometer crime, e é colocar dentro dessa amoralidade um objetivo social que é nobre. Foi o que Lula fez”.

Para Genro, “não há provas” em nenhum dos processos movidos contra Lula, “mas existe, nitidamente, a partir de Curitiba, uma intenção de retirá-lo da campanha eleitoral, de retirar sua possibilidade de ser candidato a presidente”. O ex-governador já defendeu que Lula não concorresse nas eleições deste ano, mas mudou de ideia. “Não é que o PT é refém do Lula; o Lula é o condutor político do PT. A figura dele é muito superior ao prestígio do próprio partido”, opinou.

Aos 70 anos de idade, Tarso disse que “não será candidato a coisa alguma em 2018″, e exortou a esquerda a compreender a nova dinâmica econômica para manter a relevância política. “A visão tradicional do partido sindical, do operário assalariado, está sofrendo um desgaste muito grande, porque a estrutura de classes está mudando”, disse. “Se o partido não pensar em uma forma de colocar esses novos interesses no cenário político, dificilmente vai se manter como um partido representativo.”


THE INTERCEPT BRASIL Nesta quarta, dia 24, o TRF4 julga recurso do ex-presidente no processo do tríplex. Lula também responde a outros processos, acusado de ser favorecido por empreiteiras no sítio de Atibaia, no terreno para o Instituto Lula, no apartamento vizinho ao dele em São Bernardo do Campo. Dá para dizer que ele é totalmente inocente na relação com as empreiteiras?
TARSO GENRO Podemos falar sobre essas questões em dois níveis. Um deles é o relacionamento tradicional que os governantes têm no Brasil com as empresas que financiam suas campanhas. Isso é uma crítica política que se pode fazer a qualquer governante. Outra coisa é crime; até agora, em nenhum processo foi provado qualquer crime que Lula tenha cometido. Tanto é verdade que as acusações mais sérias que são feitas contra ele estão relacionadas à arrecadação de dinheiro para o Instituto Lula, coisa que ele apenas deu prosseguimento [ao que já havia sido feito pelo] Instituto Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, e que não teve a mesma atenção da Polícia [Federal] ou do Ministério Público [Federal]. Ao que me consta, nenhum processo tem qualquer prova, qualquer gravação, mala de dinheiro, conta no exterior, pedido de propina pelo presidente. Para mim, ele é, sim, inocente.

TIB Não é algo que não se esperava de Lula, do PT — um relacionamento que, se não é criminoso, não é exatamente moral com as grandes empreiteiras?
Genro O sistema político, que dá governabilidade no Brasil, é amoral. Para qualquer presidente. Se um presidente quer governar, tem que governar dentro desse padrão. O que significa amoralidade? Significa utilizar determinados meios tradicionais na política que relacionam o presidente com as oligarquias regionais para ele poder ter estabilidade para governar. Isso qualquer presidente fez. A diferença da presidência de Lula com relação aos demais é que ele utilizou esse mesmo sistema político, vigente até hoje, para implementar determinadas políticas sociais que mudaram os padrões de desigualdade no Brasil. Isso é muito diferente de cometer crime, e é colocar dentro dessa amoralidade um objetivo social que é nobre. Foi o que Lula fez. 

TIB O senhor disse à rádio Gaúcha, tempos atrás, que achava que Lula não deveria ser candidato em 2018. Agora, o senhor defende o contrário. O que mudou?
Genro Não me lembro de ter dito isso. [Neste momento, um assessor lembra a Genro o que ele falou sobre renovação da esquerda, antes da eclosão da Lava Jato.] Eu deveria estar num momento de pouca lucidez (risos). Mas era um momento em que Lula era quase uma unanimidade política no país, ele dizia que não seria candidato, e eu achava que ele tinha razão, não deveria ser candidato, mas apontar um candidato. Mas, agora, ele tem que ser candidato porque tem o direito de pedir a recuperação da sua imagem, da sua vida política, da sua capacidade de gestão do Estado, a partir da soberania popular. Lula foi colocado como um alvo da destruição do campo político da esquerda. Isso o levou a uma situação de constrangimento, de pressão, que não lhe deu outra saída. Tanto que ele mesmo disse: “Não continuem me acuando que eu daí vou ser candidato e ganhar a eleição”.

TIB Não há espaço para ele buscar isso no sistema Judiciário?
Genro Atualmente não, porque uma parte do sistema da Justiça está encaminhando um processo de perseguição contra o presidente, com o objetivo claro de não permitir que ele seja candidato. Isso não é toda a Justiça, nem todos os juízes ou ministros [dos tribunais superiores].

TIB A quem o senhor se refere?
Genro Existe nitidamente, a partir de Curitiba, uma intenção de retirá-lo da campanha eleitoral, de retirar sua possibilidade de ser candidato a presidente.

TIB Se nesta quarta-feira o TRF4 confirmar a sentença do juiz Sergio Moro, por unanimidade, o PT deveria buscar um plano B, como já sugeriu Olívio Dutra?
Genro Não, acho que a candidatura do Lula tem que ser encaminhada até as portas do Supremo Tribunal Federal. Porque quem tem que tomar essa decisão é o juízo que, em última análise, é o da Constituição. Lula tem que chegar até o Supremo para tentar afirmar sua candidatura. Tem que disputar dentro do estado de direito, enquanto ele permitir que haja recursos. Não é conveniente, hoje, falar em plano B. Não tem nenhuma figura da oposição que tenha metade do prestígio do Lula.

TIB Isso não coloca o PT como refém do Lula?
Genro Não se trata de ser refém; a maioria da população que hoje apoia a candidatura de Lula tem uma memória a respeito [dos governos dele]. Isso ocorre com todas as grandes lideranças. Não é que o PT é refém do Lula; o Lula é que é o condutor político do PT. A figura dele é muito superior ao prestígio do próprio partido.

TIB O senhor colocaria seu nome à disposição do PT?
Genro Não sou candidato, porque o candidato [do PT] não seria do Rio Grande do Sul, mas de São Paulo, que é o centro político mais importante, e onde o PT sofre seus maiores padecimentos. E eu não teria maioria no partido para isso. Sou vinculado a correntes minoritárias do PT.

TIB O senhor acha que o PT deve à sociedade um mea culpa, um pedido de desculpas por seus erros?
Genro O partido tem que fazer uma discussão sobre o que ocorreu. Mas nas circunstâncias atuais, de cerco brutal contra o PT, contra Lula, suprimem essa possibilidade, geram um espírito de corpo dentro do partido. Esse exame dessas circunstâncias deveria ter sido feito já há muito tempo. Mas agora, nesse momento de tentativa de eliminação do PT do mapa político do país, acho que tem que esperar.

TIB Isso não isola o partido perante a opinião pública? Parece ser difícil encontrar, fora do eleitorado petista quem acredite no que diz o partido.
Genro A preferência do PT voltou a 20% do eleitorado, e os votos do Lula vão a 40%, dependendo da pesquisa. Uma coisa é o que se dá na esfera do debate político, e como as ideias se conformam na sociedade. O PT, num momento com esse, fazer mea culpa, abrir uma luta interna para se justificar perante a sociedade, uma mídia oligopólica que quer extinguir o partido, seria suicídio político, que nenhum dirigente de nenhum partido faria.

TIB Qual o caminho para a renovação do partido, a médio e longo prazos? Quais podem ser os próximos nomes do partido?
Genro Há vários, mas não gostaria de citar. Acho que a renovação política do PT não será feita de maneira isolada. O PT tem que ser um renovador da esquerda, e portanto tem que se relacionar com outras forças políticas da esquerda, partidárias ou não, para equacionar uma saída para um novo projeto de esquerda. Falar em renovar apenas o PT levaria o partido a uma posição hegemonista incompatível com a visão de esquerda plural que é a que eu sustento.

TIB Em sua opinião, quais os grandes temas que o PT deveria abordar? A luta de classes, a briga com a mídia, essas coisas ainda fazem sentido?
Genro A extinção das classes sociais tais quais foram dispostas no capitalismo industrial não significa a extinção das classes. O que se chama de elite dominante hoje se concentra no poder do capital financeiro sobre o conjunto do capital. Já no mundo do trabalho, há uma fragmentação muito grande, que recusa a ideia de só ter um sujeito político. Tem que ter diversos sujeitos para representar essa fragmentação, como os movimentos culturais, das mulheres, dos trabalhadores não-sindicalizados, terceirizados, excluídos, autônomos. Se o partido não pensar em uma forma de colocar esses novos interesses no cenário político, dificilmente vai se manter como um partido representativo.

TIB A esquerda tem conseguido isso?
Genro Há esforços exemplares sendo feitos aqui, em outros lugares. Por exemplo: na Espanha, o Podemos conseguiu falar pela gente, como eles dizem, pelos cidadãos, conseguiu condensar um programa mas agora está tendo problemas com a crise da Catalunha. Acho que repensar a representação que ao mesmo tempo é fracionada e unitária, pelas condições de vida difíceis, é algo que a esquerda vai ter que resolver. A visão tradicional do partido sindical, do operário assalariado, está sofrendo um desgaste muito grande, porque a estrutura de classes está mudando. A questão dos autônomos, por exemplo, tem cada vez mais força: são patrões de si mesmo, que vivem num mundo de relações horizontais para sobreviver e que têm escassas condições de vida, diferente de um operário do ABC Paulista. Esse mundo novo exige uma reflexão da esquerda.

TIB Estamos vivendo um momento em que a classe média pende mais à esquerda que as pessoas mais pobres?
Genro Depende. Os artesãos da Idade Média começaram a se colocar como trabalhadores à medida que foram contratados por pessoas que tinham uma massa de capital para organizar novas formas de exploração do trabalho. Antes disso, eram patrões de si mesmo. O que está ocorrendo agora com o fracionamento da classe trabalhadora é o surgimento de novos sujeitos individuais. E a primeira ambição desse sujeito é se tornar um empresário. Isso não é estranho à história da classe trabalhadora. Mas agora temos uma questão nova, com a Amazon anunciando uma loja sem empregados, por exemplo. Isso aí determina um novo mundo do trabalho, e é isso que a esquerda tem que compreender. Muitos setores estão compreendendo isso. Marcio Pochmann, no PT, discute isso há muito tempo. Mas é um processo lento.

TIB Dá para dizer que Lula é o último líder trabalhista do Brasil surgido num sindicato de grandes bases de trabalhadores?
Genro Depende de como vai evoluir o capitalismo. Tem uma dualidade no sistema. Ainda temos massas enormes de trabalhadores assalariados em várias atividades, e ao lado disso surge esse novo mundo que coloca autonomia como valor fundamental, que tem o controle do trabalho pelo resultado, não pela subordinação direta. Tem um período de transição, para ver qual mundo vai vencer. Atualmente, a resposta para isso é o desemprego, com grandes massas de trabalhadores desempregados, na marginalidade, em função desse conflito entre atraso e modernização presente na economia brasileira. --------------------------

El País: Luiz Inácio Lula da Silva diz que não conhece “a palavra desistir” porque uma das coisas que lhe ensinou sua mãe foi que é preciso “teimar sempre”. Após duas horas de conversa, fica claro que Lula deu ouvidos à sua mãe e que vai teimar até o fim. “Eu estou muito motivado, e uma das coisas da minha motivação é a minha honra”, comenta. “Eu acho que essas pessoas que estão lidando com o meu processo não me conhecem direito. Se me conhecessem, não teriam a coragem e a desfaçatez de dizer que eu sou ladrão. Como eu tenho orgulho de tudo o que eu fiz, eu quero que um dia eles peçam desculpas para mim. Ou peçam desculpas para o povo brasileiro”.

Seis dias antes do decisivo julgamento em Porto Alegre sobre a condenação do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente insiste que o processo não tem fatos contra ele, que ninguém conseguiu provar que o tríplex do Guarujá seja dele. Em reunião com jornalistas internacionais nesta quinta-feira no Instituto Lula em São Paulo, o líder petista avisa que continuará com seus planos políticos e eleitorais seja qual for a decisão do tribunal superior no próximo dia 24. Lula não deixa dúvidas: quer brigar até o último recurso - ainda que há quem aposte que ele pode desistir na reta final e passar o bastão a um outro candidato. Para depois do Carnaval, já prepara uma nova caravana pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Nas fronteiras com os países vizinhos quer aproveitar para fazer atos com os ex-presidentes José Mujica, Cristina Kirchner e Fernando Lugo. Ele antecipa onde vai acabar a périplo: “Em Curitiba, onde tem um lugar chamado de Boca Maldita”.

Estes são os principais trechos da conversa do ex-presidente com jornalistas do EL PAÍS, The New York Times, The Guardian, La Nación, Die Zeit e Liberátion nesta quinta-feira. 

Pergunta. Por que defende que o único motivo do processo é político? 

Resposta. Tudo começou com uma mentira, uma matéria no jornal O Globo que falava que o apartamento era meu. A partir de aí, houve pedido do Ministério Público (Federal, MPF) para que a Policia Federal fizesse o inquérito, e a policia fez um inquérito mentiroso. Mas o MP aceitou o inquérito tal como ele estava e fez uma acusação mentirosa. E o que é mais grave: o juiz Moro aceitou. A aceitação tal como ela foi me faz supor que estamos diante de um processo mais político do que jurídico. Quando o MP apresentou a denúncia, ele apresentou à opinião pública um power point e lá, sem nenhuma prova, fala do PT como uma organização criminosa, que o PT nasceu, cresceu, ganhou o governo, para roubar ao Brasil. Essa é nave mãe da denúncia. E isso tem 90% de interesse político e 10% de interesse jurídico. Eu não posso julgar o que vai decidir o tribunal porque eu não conheço nenhum juiz. A única coisa que eu espero é que eles tenham lido o processo e com base nisso eles decidam respeitando o Código Penal e a Constituição. Quando uma pessoa é acusada, espera-se que a acusação apresente provas materiais de que é dono de um apartamento. Porque eu não posso ser dono de nada sem que apresentem uma documentação com prova de pagamento, de aquisição... alguma prova de que é meu. Se o objetivo deles é político, se eles querem me tirar de uma possível disputa, seria até prudente apresentar a prova porque eu ficaria totalmente desmoralizado diante do povo brasileiro. Teriam que apresentar um documento, uma assinatura, para dizer: 'Não, o Lula está mentindo'. E por isso que eu sou obrigado a dizer que eles estão mentindo, e que o processo tem um forte componente político, às vezes até com uma mistura de ódio.

P. Se for condenado, continuaria com a sua campanha ou desistiria? 

R. Na minha vida eu não conheço a palavra desistir e não faço uso dela. Eu estou convencido de que o povo brasileiro tem consciência de que este país pode voltar a crescer, pode gerar emprego, pode dar certo... de que o Brasil pode deixar de ser tratado como se fosse o país do futuro. Faz 500 anos que nós temos país do futuro. Nós provamos em 12 anos que o país do futuro na verdade aconteceu. Vamos tentar mostrar isso para a sociedade brasileira. 

P. Então, aconteça o que o acontecer em Porto Alegre, o senhor vai continuar lutando até o final para chegar à eleição? 

R. Vou continuar lutando porque eu quero viver até os 120 anos... para estar forte, para estar bem de saúde, para estar de bom humor... O dia 24 para mim não é o dia D, é o dia 24, é um julgamento. Eu tenho mais nove ou dez processos. Em algum desses processos o que está em julgamento não é o Lula, é um governo, é o jeito em que nós tratamos este país. Eu não estou brigando para ser candidato, estou brigando para provar minha inocência. Eu não quero ser candidato para não ser condenado, eu quero ser inocentado para ser candidato. Eu vou continuar viajando no Brasil, apresentando as minhas provas, falando de política, e se o PT quiser que eu seja candidato, eu serei candidato. Se a Justiça quiser impugnar, é outro problema, vai ter processo, vai ter recurso... Mas eu não deixarei de conversar com o povo brasileiro. Esse é o meu destino. 

P. E o senhor concorda com os dirigentes do PT que falam que a eleição sem o Lula seria fraude? 

R. Nós já tivemos tantas eleições sem Lula... O problema não é o Lula. O problema é a democracia. Criar um processo jurídico para evitar que alguém seja candidato é pouco democrático. Não é o PT que está dizendo que a eleição sem mim é fraude, é uma campanha que envolve vários partidos, que envolve o movimento social... Se o Lula for proibido de ser candidato por uma decisão política do judiciário, obviamente está se montando uma fraude. Por que é que o Lula está sendo impedido? Se eu tivesse 1% da pesquisa ninguém queria me impedir, o povo impediria. Eu vou tentar que o povo seja o grande júri da democracia neste país. Por isso é que eu não posso desistir. Minha mãe dizia: “Teimar sempre, teimar sempre”. 


P. Não acha que dá a imagem de que se sente além da Justiça? 

R. Não, pelo contrário. Se eu não acreditasse na Justiça, não seria democrata, é a minha crença na força da democracia que me faz acreditar na Justiça. Mas a Justiça deve ter um comportamento apolítico, ela deve atuar pela Constituição, não pela convicção. Quando um cidadão inventa a teoria de que ‘eu não tenho prova, mas tenho convicção’, significa que essa gente não precisa de prova para condenar. E eu não posso aceitar isso. Eu me sinto como os 210 milhões de brasileiros, não me sinto acima de ninguém, mas também não abaixo de ninguém. Eu só digo que o eu quero é o que o processo diz. Se os juízes julgarem de acordo com os atos do processo, eu não tenho dúvida nenhuma que eu teria que ter 3x0 a meu favor. Eu acredito que neste momento estão lendo o processo, estão vendo prova e vão julgar com base nisso. 

P.  Nas ruas do Brasil se sente muito ódio e em alguns setores muito ódio contra o senhor? De onde vem isso? 


R.  Eu não sei responder, deveriam dizer as pessoas que têm esse ódio. Eu perdi três eleições e nunca instiguei à sociedade a duvidar do resultado. E quando eu deixei o governo eu tinha uma aprovação do 87%. Os meus opositores acharam que eu ia fracassar porque não estava preparado. Mas aconteceu exatamente o contrário: nós conseguimos crescimento econômico com distribuição de renda. Nós fizemos alguma coisa que eu penso que acabou criando um certo ódio: a ascensão de uma parcela significativa das pessoas mais pobres, 36 milhões de pessoas saíram da pobreza, nós transformamos essas pessoas em cidadãos. Tudo o que até então era exclusivo de 35% da população passou a ser de todos. Eu acho que essa é a razão pela qual uma parcela da sociedade, que não sabe dividir os espaços públicos, que não acredita em democracia nem em alternância de poder, criou um ódio que foi consagrado na campanha de 2014. O candidato derrotado [Aécio Neves, do PSDB] estabeleceu uma política de ódio como jamais eu vi. E não acatou o resultado. Eu agora exatamente vou ser candidato para desfazer esse clima de ódio. Eu acho que os meus acusadores hoje estão mais preocupados do que eu. Porque eu estou com a tranquilidade dos inocentes. Eles estão com a culpabilidade dos mentirosos. Eles sabem que mentiram. Os que me acusaram sabem que um dia um filho dele vai acordar e vai perguntar: 'Pai, o que você mentiu com relação ao Lula'. E quando isso acontecer, eles vão ter dificuldade para explicar. Inclusive alguns jornalistas, sobretudo da Rede Globo. Por que mentiram tanto durante tanto tempo, por que tentaram destruir o PT desde 2005, por que fizeram isso com a Dilma com uma acusação falsa. 

P. O PT não está alimentando também esse clima de ódio quando fala de que não vai ficar manso, que pode ter mortos... Não teme um derramamento de sangue? 

R. Eu acho normal que o PT esteja nas ruas protestando. Só estão torcendo para mim. Que derramamento de sangue? Eu não acredito. Este país não tem a cultura da violência. É o PT o que sempre foi vítima de violência. Os mortos na história estão do nosso lado. 

P. O senhor fala que está sendo vítima de um setor do Judiciário, mas a serviço de quem? A direita está também sendo alvo da Lava Jato. 

R. Eu não utilizei o nome do Poder Judiciário. Eu utilizei o nome do MP, da PF e do Moro. Por enquanto estou falando de um processo de Curitiba. Apurar a corrupção era um sonho da chegada do PT ao Governo no 2002. Se tem um partido que fez coisas para combater a corrupção, somos nós. Tudo o que foi feito neste pais para combater a corrupção, todos os mecanismos, foram feitos nos governos do PT. Quem roubou tem que estar preso. O problema grave é quando o juiz ou uma parte do Poder Judiciário subordinam o julgamento à opinião pública. 

P. Mas a direita também é alvo da Lava Jato, então faz sentido falar de uma perseguição voltada para o PT? 

R. A direita virou alvo porque estava em uma situação tão escancarada que não tiveram mais como esconder. Porque os dois primeiros anos era só o PT. Mas a sociedade brasileira começou a cobrar. E felizmente a gente começou a saber muita coisa pela Internet, coisa que a imprensa não divulga. Chegou um momento em que eles acharam dinheiro na casa de muita gente, acharam contas bancárias na Suíça. Por que não acharam na minha casa? Por que não acharam contas minhas? Na medida em que os cinco minutos de glória foram subindo a cabeça dos meninos, eles passaram a tentar destruir a política neste país. Chegamos a um momento em que já não tem mais como parar as investigações de corrupção. Você não pode parar enquanto não criar uma nova cultura neste país. Mas a corrupção não é uma coisa brasileira. Olha os EUA, a França, a Alemanha... O problema é que no Brasil nós fazemos um carnaval imenso. Não podemos subordinar nenhum julgamento à condenação midiática. Na Lava Jato, tudo tinha que ser subordinado à imprensa. Nós queremos que o país tenha um processo de investigação sério, mas que se respeite a Constituição. 

P. O senhor não precisaria fazer uma autocrítica? Não tem arrependimentos? 

R. Eu teria o arrependimento de não ter feito mais. Aquele que não tenha arrependimento da trajetória de governo não está sendo sincero. Poderia ter feito e não fiz. 

P. Por exemplo? 

R. A reforma dos meios de comunicação, a regulação. Eu poderia ter feito mais incentivo para o favorecimento do microemprendedorismo. Não consegui fazer tudo o que nós queríamos. O que acontece é que no montante de coisas que nós fizemos... Eu não me esqueço nunca, foi em Mar del Plata que nós enterramos a ALCA e fizemos o (re)nascimento do Mercosul. O orgulho que eu tenho da criação da Unasul... Certamente que nós poderíamos ter feito mais investimento na educação, no combate ao analfabetismo, na saúde... Acontece que nós fizemos um monte de coisas. Em 12 anos nós saímos de 4 milhões para 8 milhões de jovens na universidade. Parece pouco, mas nós fomos o último país da América Latina a ter universidade. Neste país tudo acontece atrasado. Tudo. 

P. Por que o PT nunca fez uma mea culpa? Desde o mensalão tem muitas figuras acusadas de corrupção. 

R. Eu não posso fazer autocrítica do processo. Eu posso fazer autocrítica com relação ao comportamento da Justiça, no meu caso, do Ministério Público e da PF. No mensalão, eu era presidente e eu fiz documento dizendo que nós devíamos apurar com muito rigor aquilo. O que é que nós fizemos de autocrítica? Nós passamos a governar melhor, afastando do Governo quem estava sendo denunciado. É assim que faz. 

P. Os petistas não roubam? 

R. O PT não rouba. O PT é um partido muito grande. Se algumas pessoas do PT roubaram, elas devem pagar como qualquer pessoa de qualquer partido. Não tem como você evitar... O PT é um partido com mais de dois milhões de filiados, o maior partido de esquerda de América Latina. Se alguém do PT cometeu erro, vai ser julgado. Não há proteção do PT a quem cometa erro. O que temos que fazer é defender nossos companheiros até se provar o contrário. Tem uma denúncia.. tem prova? Porque nem sempre eles conseguem provar. Um partido não governa fazendo mea culpa todo santo dia. 


P. E o senhor não soube o que acontecia na Petrobras? 

R. Eu ainda estou convencido de que nós vamos descobrir o que aconteceu na Petrobras. A Petrobras não é uma empresa, são milhares de empresas. Dentre a lista das empresas que faziam auditoria tem até empresas americanas e nunca fizeram nenhuma acusação contra a Petrobras. Ela era vista como uma empresa de grande governança. Quando eu fui perguntar .. a PF não sabia, o MP não sabia, o presidente da Petrobras não sabia. Sabe quem sabia? O Moro, que tinha um bandido, o Youssef [doleiro e delator na Lava Jato]. Como eu não tinha amizade com o Youssef, eu não podia saber. Se alguém roubava, algum funcionário, a PF, deveria ter informação. Como é que ninguém tinha? Não é fácil. As pessoas não se apresentam para você dizendo: ‘sou um corrupto’. As pessoas indicadas para a direção da Petrobras tinham 30 anos na empresa. O importante é, quando você descobre, punir. 

P. Qual é a sua ideia quando fala de regular a mídia? 

R. O problema é que a última regulação foi feita em 1962. É preciso que a gente envolva a sociedade em um debate de democratização dos meios de comunicação. Eu penso na convocação de uma conferência internacional, foro de debate no Congresso, na participação dos donos da mídia, de jornalistas... Para evitar que os meios de informação sejam utilizados por algumas famílias para manipular o que eles querem. Podia ser um tipo de regulação inglesa, dos EUA, alemã.. Não quero uma regulação tipo China ou tipo Cuba, até porque achamos que quem deve censurar um jornal é o leitor. Mas a gente não pode aceitar a ideia de que o único controle admitido do meio de comunicação é o controle remoto. Porque aí a mídia se coloca como ser superior. Falam o que querem, contam mentiras o tempo inteiro. A regulação é uma coisa que já tem no mundo inteiro. Aqui no Brasil nós temos nove famílias que têm quase todo o poder na mídia tradicional. Nós queremos democratizar os meios de comunicação, fortalecer as rádios comunitárias... O outro dia um cidadão falou para mim: 'Eu tenho uma televisão em Goiás, outra no Rio, e tenho 36 rádios'. Não é possível. Não é possível um cara ter rádio em todos os Estados. O povo de Manaus, de Natal... eles são obrigados a assistir à programação de São Paulo e do Rio, são obrigados a ver o Faustão e que o ele mostra todo domingo. Nós conseguimos sair de 300 e poucos veículos que recebiam ajuda do Governo federal a 3.400. E preciso fazer que tenha uma certa igualdade no recebimento das informações. 

P. O senhor parece disposto a  fazer alianças com partidos que apoiaram o impeachment. 

R. Nós tentamos fazer as alianças políticas com partidos que não votaram no impeachment. Mas o partido também saberá se curvar em função da realidade regional. Cada Estado tem uma história. Como é que o PT vai romper com o PMDB de Minas Gerais se ele está no governo, apoia o Pimentel [governador petista] e brigou com o PMDB nacional? Não é questão de princípio, é de conjuntura política. Vamos construir, caso a caso, uma aliança política, porque não queremos apenas ganhar, queremos governar. 


P. Quando o senhor critica a política de austeridade do Governo é porque está negando o descalabro das finanças públicas? 

R. A melhor maneira de diminuir os gastos públicos é fazer a economia crescer. E é denominar bem o que é gasto e que é investimento. Eu, por exemplo, não aceito a ideia de que dinheiro colocado na educação seja gasto. É o mais produtivo investimento que uma nação possa fazer. Se você, aumentado mesmo a sua dívida, tiver um investimento que tiver retorno em três, quatro anos, compensa fazer a dívida. Agora, se você não tem investimento e fica vendendo patrimônio público que levamos um século para construir... Sem os bancos públicos, a gente não teria salvado o Brasil em 2008. Eu fui assalariado 27 anos e sei o que é responsabilidade, porque sabia que não podia gastar mais do que recebia. No Governo é a mesma coisa. Se você não tiver responsabilidade fiscal, não governa. O que eu acho engraçado é que todas a pessoas que fazem crítica Dilma porque gastou demais, elas esquecem de dizer que o problema do nosso Governo é que a gente fez 528 bilhões de reais de exoneração para incentivar a economia. Não é que a gente gastou demais, é que a gente deu demais. E talvez fosse necessário fazer. Isso não foi à toa. Hoje este país tem um colchão de segurança de 378 bilhões de dólares, é a quarta reserva do mundo. O Brasil não tem que ter medo, tem que ter ousadia, tem que ter projeto. Mas você tem uma turma no Governo que não tem mais projeto do que vender as calças, os sapatos, o paletó... Daqui a pouco estão pelados na rua. Eu quero provar que o Brasil pode voltar a crescer e a ser protagonista internacional. Eu lembro quando o Obama agradecia porque os brasileiros estavam gastando muito dinheiro em Nova York. 

P. Mas o senhor teve muita sorte, foi uma época com muito dinheiro. Agora são tempos difíceis. E no Brasil é muito difícil fazer passar reformas pelo Congresso. O senhor acha que poderia aprovar reformas? 

R. Em 2004 nós fizemos uma reforma da Previdência do setor público. O problema é como fazer. O problema é se você acha que é necessário uma reforma da Previdência porque está arrecadando menos do que está pagando. Mas quando você cria uma desordem no mundo do trabalho, tira direitos trabalhistas, reduz a massa salarial, você diminui a arrecadação. Então é preciso que você discuta como aumentar. E ela vem da geração de emprego e do aumento de contribuintes. Eu não vejo ninguém discutir isso. Neste país as pessoas querem pagar cada vez menos impostos e ter cada vez mais benefícios. A nossa carga tributária é alta? Ela é para os pobres, que pagam mais. Do jeito que foi feita (proposta) a reforma da Previdência foi apenas para cobrir os interesses do mercado. Se você quiser governar para quem está no mercado, não é difícil. Você coloca a polícia para cuidar dos pobres e você governa. Eu acredito que o Governo deve governar para todos, mas preferencialmente para os mais pobres. E foi assim que a nossa economia cresceu, quando os pobres entraram no mercado, quando viraram consumidores. 

P. O senhor já falou muitas vezes que o mercado ganhou muito dinheiro durante o seus governos. Por que acha que agora se preocupa tanto com uma possível vitória do senhor? 

R. Eu sinceramente não sei se é o mercado... 

P. No dia em que foi marcado o julgamento de Porto Alegre a Bolsa subiu. 

R. Aqui a Bolsa é uma coisa muito volúvel. Subia quando o Corinthians perdia, quando o Corinthians ganhava... Eu acho que as pessoas sérias sabem que nós sabemos fazer o bem por este pais. Quando os jornalistas fazem uma manchete “o mercado...”, às vezes é um yuppie de 29 anos que não conhece sequer um bairro brasileiro e dá um palpite para o Brasil. Eu já vivi muito isso. Quando a queda de Lehman Brothers não teve um economista do FMI ou do Banco Mundial que desse um palpite de um pais da Europa ou dos EUA. Parece que perderam a língua, ficaram quietos. É preciso que essas pessoas do mercado que falam coloquem a cara, para saber que mercado é esse. Porque alguns que têm falado parecem mais mercado de terroristas que vivem especulando com noticias para ganhar dinheiro. Nós queremos acreditar no mercado de consumidores, da construção civil, no mercado industrial, o que de verdade conta para o crescimento da economia. A única coisa que eu tenho certeza é de que é possível fazer crescer o país de novo. E vamos fazer isso com muita rapidez porque o mandato é curto, só de quatro anos. E eu acho que se nós conseguimos ganhar no Brasil, há possibilidades de a gente ganhar também noutros países da América Latina. 


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