sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O edifício está tomado por cupins ...

Há alguns meses, diretor e atores de um dos melhores filmes nacionais produzidos nos últimos tempos se posicionaram contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em Cannes, na França, onde o drama (sem trocadilho) fora apresentado.
O protesto recebeu mais atenções do que a história da última moradora de um edifício que sofre pressões de todos os lados, inclusive da família, para liberar o espaço, um edifício baixo perto da praia de Boa Viagem, e dar lugar a um empreendimento imobiliário milionário – daqueles estilo eucalipto, alto e imponente, mas que impede qualquer coisa de crescer ou respirar ao redor.
Poucos atentaram para o caráter simbólico da história. A escolha de Clara, a personagem interpretada por Sonia Braga, não era um estilo de vida, mas uma forma de viver. De um lado, uma solução padronizada de vivências em que, em nome da segurança e da valorização do território, aceitamos trocar a amplitude da rua por uma gaiola espelhada de luz artificial e área gourmet; de outro, um espaço de vivência, vínculos, integração com o espaço público.
A resistência ao atropelo de um padrão imobiliário, que poderia ser lido como a resistência ao atropelo de outros padrões – de gênero, de comportamento, de envelhecimento e de patrimônio imaterial – tinha um preço. A fatura vinha em ordens sutis e ameaças veladas, como se projetássemos a uma personagem as nuances de um país cujas violências não estavam só materializadas em um porrete físico, mas numa série de pressões psicológicas, mais sofisticadas, decerto, mas igualmente violentas.
Lançado em um período de ebulição, “Aquarius” fez com que muitos vissem na posição de Clara uma alegoria da própria Presidência. Ali, as sobras de princípios da presidenta reeleita em uma época rarefeita de escrúpulos impedia a edificação de um empreendimento de alto padrão que, nas palavras de um dos arquitetos do projeto, e não de um opositor, serviria para delimitar as investigações que ameaçavam engolir o sistema político institucional partidário como conhecemos.
Existem formas e formas de ver o mesmo filme e a mesma crise política, mas em algum momento da história as pequenas represálias sobre a protagonista se materializaram nas represálias sofridas pelos responsáveis pelo filme, enquadrado, estranhamente, numa classificação indicativa, antes chamada censura, a menores de 18 anos, e estranhamente limado da indicação para o Oscar em detrimento de uma obra notadamente menor. Houve até colunista de revistão que foi a público defender que as pessoas de bem deveriam boicotar o filme.
Tom Jobim costuma dizer que o Brasil não era para principiantes. A sentença tem uma lição enrustida: para chegar ao topo é preciso ser profissional. Os amadores rodam por uma espécie de seleção natural.
A crise política detonada desde o início da Lava Jato revelou que a pedra fundamental de nosso mito fundador era, na verdade, uma piada: o topo da cadeia (ou do edifício, para quem quer seguir a linha da alegoria) está tomada por amadores, personagens não de dramas psicológicos e nuances de subtexto, mas de pastelões protagonizado por paspalhos que conseguem se enrolar com o zíper da calça quando vão ao banheiro na casa da namorada.
A trama da vida real não tem sequer a dignidade de produzir metáforas. Como lembrou uma amiga: a queda de pontes mal feitas alicerçadas por acordos mambembes entre contratantes públicos e contratados privados no Rio de Janeiro é real e mata; o mar de lama de Mariana é real e produz estragos; nossa zica não é força de expressão; e a ordem, de cima para baixo, para atender a ganância do ministro da articulação política, chamado na escola de Suíno – uma ordem para destroçar o patrimônio público em nome de uma ganância privada de baixo para cima – não é uma trama engenhosa imaginada por qualquer roteirista. É tão real quanto mesquinha.
Não faz muito tempo, panelas triscavam pelas janelas do Brasil para expressar nossa indignação contra a corrupção. Pouco mais de um ano depois, descobrimos que parte dos militantes que colocaram o bloco na rua eram financiados justamente pelos grupos que tinham interesse em tomar posse do terreno que seria deixado como legado da implosão dos velhos locatários.
Uma vez no poder (ou, no topo deles, já que do poder nunca saíram), esses grupos políticos que falavam em mudanças repetiram com mais voracidade os mesmos pecados apontados dos velhos governos: negociaram, prometeram, nomearam, aparelharam.
Com a ajuda das propagandas, digo, entrevistas entre amigos e simpatizantes, passaram meses defendendo cortes de gastos enquanto serviam banquetes a quem atribuíam o dever de prestar contas e pedir respaldo: deputados, senadores, empresários. Asseguraram privilégios e aumentos para as elites do funcionalismo. Ampliaram, sem a devida transparência, os gastos com cartões corporativos. Patrocinaram, às vésperas da delação da Odebrecht – que, entre outras revelações, conta ter doado R$ 23 milhões via caixa dois ao atual chanceler – projetos de anistia para quem recebeu caixa dois. Condicionaram a presidência da Câmara ao apoio do projeto impopular. Fingiram não ter visto o rombo deixado na sala após a prisão do antigo presidente da Câmara, pivô do impeachment após perder apoio do (velho) governo no Conselho de Ética da Casa por mentir sobre as contas na Suíça onde movimentada dinheiro supostamente desviado da Petrobras.
Os episódios são a massa e a argamassada de um governo edificado em ladainha, para usar uma expressão cara ao atual presidente.
Este governo corre agora o risco de ser demolido por conta da revelação das pressões sofridas pelo ministro da Cultura, um dos primeiros órgãos que o governo temerário tentou destruir ao assumir, para facilitar a vida do colega da Articulação Política que recebe vencimentos acima do teto do funcionalismo enquanto articula um teto para investimentos públicos e via na lei de tombamento um empecilho para o seu sonho da casa própria com vista para o mar. 
Não, não tem qualquer metáfora, analogia ou lição quando falamos de visão, empreendimento e edificação nessa história, por mais que ela diga muito sobre nossa miopia e a mesquinharia que move o fígado dos homens públicos que nos salvariam dos anos de desmandos, incompetências notórias e corrupções.
Quem diria: os homens (também não no sentido metafórico, já que da mulher mais próxima hoje do poder não conhecemos sequer a voz) responsáveis por apagar o incêndio político eram antes o motivo da crise do que a sua solução. Trouxeram um galão de gasolina para combater as chamas e deu no que deu.
Nós, que batíamos panelas para limpar o Brasil de nossos males e amadorismos representados por quem aceita (também indevidamente) presentes de construtoras para nossos sítio e sítios de amigos, não imaginávamos que enquanto metade do país se estapeava pela PEC dos Gastos e as reforma do ensino público e da Previdência a prioridade do governo era resolver o impasse provocado por um ministro que se recusava a beneficiar um colega que tentava usar o cargo público para obter uma vantagem particular.
Durou menos de quatro meses a lenda sobre a raposa política e o soldado da articulação. No governo atual, ganância pode ser alta, mas ela não é maior que o amadorismo, revelado à luz do dia, de quem sempre operou nos bastidores e agora se entrega até mesmo quando olha para a câmera e agradece a propaganda.
A mesquinharia do episódio faria Tom Jobim mudar a própria sentença. O Brasil não é para profissionais.

por Matheus Pichonelli

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atheus Pichonelli

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