quarta-feira, 1 de outubro de 2014

MARINA

Não há dúvidas de que Marina Silva é a candidata com chances efetivas que melhor encarna as aspirações mudancistas da sociedade, manifestas em junho do ano passado. Naquele mês, milhões de pessoas saíram as ruas possuídas por uma insatisfação generalizada com o sistema político brasileiro. Embora em nenhum cartaz estivesse escrito “pela reforma política” ou “abaixo à lógica do peemedebismo”, penso que, no limite, era contra o descolamento dos políticos em relação aos interesses da sociedade que as pessoas se colocaram ali. Marina encarnou esse desejo. Com efeito, a maior ênfase de sua fala está na “nova política”, “programática e não pragmática”.

Para efetivá-la, Marina fala em “governar com os bons” de diversos partidos. Ela insiste na dimensão moral da política, e em larga medida fundamenta sua nova política na crença de que conseguirá formar uma tal aliança suprapartidária, capaz de ajudá-la a governar segundo princípios de denominadores comuns, em vez de negociatas fisiológicas.

Acredito que Marina é ela mesma a realização de um elevado senso moral, de um republicanismo a toda prova (que prevalece sobre interesses pessoais e partidários), mas desconfio que a realidade política brasileira não autoriza, infelizmente, que se fundamente no apelo à moralidade alheia um projeto de reforma. A personalização da perspectiva de Marina não me parece ser capaz de conduzir à imprescindível reforma política, que é um problema de fundo estrutural (por outro lado, o que será capaz de fazê-la?).

A candidata sai-se muito bem em questões relativas ao problema ambiental e a conflitos entre sua religiosidade pessoal e seu papel público. Quando escapa de sua tendência ao difuso, expôe com clareza e concretude suas posições relativas à sustentabilidade. Basicamente, afirma a necessidade de submeter licenças para projetos de desenvolvimento econômico à existência de estudos de impacto sobre o ambiente e ao respeito incondicional aos direitos das populações afetadas. Ponto para ela: uma esquerda que não coloque a questão ambiental no centro de sua perspectiva perdeu o bonde da história.

Sobre sua crença evangélica, resumiu sua posição na frase “o estado é laico, não ateu”: assim como ela deve garantir a separação entre sua crença íntima e os deveres públicos, o estado deve garantir a religiosidade íntima da pessoa pública. Comprovou a veracidade de sua posição ao citar seu apoio, em outras eleições, a Marta Suplicy e Gabeira.

Eu disse acima que uma esquerda deve hoje colocar a questão ambiental no centro de sua perspectiva, equilibrando a exigência de justiça social com a preservação dos limites paramétricos do ecossistema favoráveis à espécie humana (logo estendendo a noção de justiça social a povos refratários à ideia moderna de sociedade). Mas é fundamental observar que o que define primordialmente a esquerda é o compromisso com a justiça social. Pois bem: devo observar que Marina Silva raramente menciona  essa expressão ou variantes. Raramente fala em promoção de igualdades — é claro que, por outro lado, a perspectiva igualitária está incorporada na sua ideia de nova política, bem como no respeito às populações ameaçadas pelo desenvolvimentismo atual. Mas me parece haver aí uma importante questão de ênfase, para dizer o mínimo.

Não vou comentar aqui suas posições quanto à economia porque, se ela é absolutamente inconsistente — e mesmo contraditória, como apontou Flávia Oliveira — em suas respostas, eu não tenho conhecimento para fazer melhor.

Tudo somado, me parecem infundados os temores quanto a uma regressão nas políticas de direitos civis (que com Dilma pouco avançaram, diga-se de passagem). Se houver recuo (como já teria havido, no episódio da errata), será por lógica política, não por crença íntima (exatamente como no governo PT). A questão ambiental me parece mais bem encaminhada por Marina. A questão da justiça social, que está no centro da minha perspectiva de sociedade brasileira, me parece não merecer ênfase em sua visão. E permanece a dúvida quanto à viabilidade de sua nova política — que por enquanto apenas mobiliza a seu favor o amplo repúdio à normalização do cinismo efetivada pelo PT. (Se me permitem um breve desvio: por enquanto, no Brasil, nova política é a do prefeito Fernando Haddad.) NOTA DO BLOG: Que é do PT.

© 1996 - 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

(copyleft) Escarro Napalm Unauthorized reproductions inc.

por Francisco Bosco

AQUI

#

Nenhum comentário: