quarta-feira, 1 de outubro de 2014

DILMA

O antipetismo é um fenômeno oriundo de ao menos três perspectivas. A primeira se situa no próprio campo da esquerda, e se divide nos seguintes principais repúdios: à lógica do sistema político brasileiro, que o PT, tendo-a levado às últimas consequências, passou a encarnar de forma especial; aos retrocessos ou omissões de Dilma quanto a direitos civis, preservação ambiental, política indígena e política cultural; e à atuação repressiva do governo Dilma nas manifestações, desde junho de 2013 até a Copa, de forma direta ou indireta.

Um outro segmento de onde provém o antipetismo é certa classe média com baixo nível de politização, que considera os escândalos de corrupção (inaceitáveis em si, é claro) e a lógica peemedebista uma exclusividade do PT.

Finalmente, há o conjunto daqueles que odeiam o PT, no fundo (embora raramente o admitam), porque, numa palavra, não suportam perder privilégios e não desejam a democratização da sociedade brasileira.

Com isso acredito ter tocado nos principais aspectos do governo Dilma. Devemos vê-los mais de perto. A começar pelo fim, é inegável que os 12 anos do PT na presidência promoveram uma intensidade de democratização que o país nunca antes conhecera. O Brasil, como acaba de atestar a ONU, saiu do mapa da fome no mundo. Uma política consistente de aumento do salário mínimo e do crédito aqueceu a economia, fazendo-a crescer (ajudada, durante alguns anos, pelo boom das commodities e pelo crescimento da China). Milhões de cidadãos tiveram pela primeira vez alguns direitos elementares reconhecidos. Esse feito democratizante não se deu apenas via ascensão econômica. Foram criadas 18 universidades federais e o ProUni possibilitou o acesso de mais de um milhão de jovens de camadas populares ao ensino superior. Foi criada uma secretaria para a promoção de políticas públicas de igualdade racial, visando a explicitar nosso racismo implícito e efetivar políticas justas (como as cotas em universidades e setores do funcionalismo público). No campo do ensino técnico profissionalizante, implementou-se o Pronatec. No da habitação, com todos os problemas (que não são poucos, mas que vêm melhorando com a pressão de movimentos como o MTST), fez-se o Minha Casa, Minha Vida. Na saúde pública, o programa Mais Médicos já atendeu nada menos que 50.000.000 de pessoas.

Por outro lado, a ênfase absoluta na justiça social segundo um modelo desenvolvimentista tem atropelado todos aqueles que estão ou se colocam no caminho, de índios a manifestantes e ao próprio ecossistema. Ao longo do governo do PT os assassinatos de indígenas aumentaram 269%, segundo o CIMI. Muitos manifestantes sofreram perseguições e prisões arbitrárias. E a questão ambiental, em pleno antropoceno, enquanto até a China já renova largamente suas matrizes energéticas, parece desprezada pelo PT (Marina Silva lhe dá a importância devida).

Dilma é clara e firme quanto ao compromisso primordial com justiça social, enquanto Marina passa mensagens ambíguas sobre apoiar a terceirização, flexibilizar pontos da CLT, e defende a política econômica ortodoxa do tripé, como se ela não tivesse produzido dezenas de milhões de desempregados nos países onde foi adotada (enquanto Dilma valoriza a manutenção da renda do trabalhador e o desemprego baixo, apesar do crescimento atual quase nulo do PIB — quanto a isso, estou com Maria da Conceição Tavares: “Ninguém come PIB”).

O PT realmente normalizou o cinismo do sistema político brasileiro e parece estar acomodado com isso. Mas, pessoalmente, não vejo como uma reforma profunda poderia partir do interior do próprio sistema partidário, e tampouco acato o desprezo absoluto por ele. A questão da corrupção é um dos efeitos colaterais graves desse sistema, mas não é prerrogativa exclusiva do PT.

Dilma fez um mau governo quanto aos direitos LGBT (rifou o kit anti-homofobia e a Comissão de Direitos Humanos) e políticas culturais. Tampouco avançou agendas importantes para a sociedade, como o direito ao aborto e a descriminalização das drogas.

Sobre o uso do violento aparato repressivo nos protestos, é lamentável, mas penso que os conflitos entre polícia e manifestantes só poderão ser resolvidos na sua origem, que é o déficit de reconhecimento de direitos. NOTA DO BLOG: "O povo acordou por mais direitos", como diz a campanha da minha candidata, Luciana Genro.

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por Francisco Bosco

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