sábado, 13 de setembro de 2014

EU VOTO LUCIANA GENRO

R$ 513 bilhões. É quanto os bancos lucraram nos doze anos de administração petista. Acusação de Marina Silva? Não, dados do próprio Banco Central. O levantamento é do Valor Data, usando ranking das 50 maiores instituições financeiras, divulgado pelo BC.

Dilma Rousseff vem atacando Marina por sua ligação com Neca Setubal, amiga, conselheira, coordenadora do programa de governo do PSB. Dilma foi pra cima no programa eleitoral gratuito: "A Neca educadora é educadora, mas agora está se comportando como banqueira. À medida que sou herdeira do banco Itaú e defendo a política que defendo claramente os bancos... estou fazendo o papel de banqueira." A resposta veio voando. Os dois grandes jornais de São Paulo publicaram entrevistas com Neca, "como você se sente com essas acusações da campanha do medo" etc. Não é jornalismo, é propaganda. A participação de Neca Setubal no Itaú vale uns R$ 800 milhões. Com os outros herdeiros, ela faz parte do bloco controlador do banco. Seu dinheiro pessoal está investido através do private banking do Itaú. Ela é mais que banqueira, ela é dona de banco. Se não quer ser tratada como tal, fácil. Basta vender suas ações.

Este fato incontestável não torna moral o ataque de Dilma. Que não mente, mas omite a verdade. Questionar Marina por proximidade com os bancos? O Itaú e outros bancos ganharam mais de meio bilhão de reais nos 12 anos do PT. O próprio Lula confirmou há anos: "nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no meu governo". A tendência continuou no governo Dilma, embora a rentabilidade dos bancos tenha caído por um período (porque Dilma forçou a queda dos juros em bancos estatais, e por causa da inadimplência), antes de voltar a crescer. Por comparação, quer saber quanto os bancos lucraram nos dois mandatos de Fernando Henrique? R$ 31 bilhões. O tucano, quem diria, foi menos amigo dos bancos que os petistas.

Tô com ela ...
Dilma pode falar o quanto quiser que enfrenta os bancos. Os números falam mais alto. E tem um que grita e ensurdece. É quanto o seu governo pagou de juros. Entre 2009 e 2013, o Brasil pagou R$ 1,19 trilhão em juros da dívida. Isso mesmo: mais de um trilhão de reais. Ano após ano, vem aumentando. Em 2013, recorde histórico: R$ 249 bilhões. Quanto é isso? Para efeito de comparação, o governo de Dilma investiu em 2013 no Bolsa-Família R$ 25 bilhões - e dez vezes mais no Bolsa-Banqueiro! Em linguagem de gente: o Brasil anos atrás trocou sua dívida externa por uma dívida interna. Que é muito mais cara, porque aqui os juros são muito mais altos que internacionalmente. As contas do Brasil não fecham. Estamos pagando cada vez mais juros para quem nos empresta.

Ele & Ela
E quem nos empresta a grana? Quem compra títulos públicos. Não é o zé povinho. É quem tem boa grana para investir, e grandes empresas, e, claro, os grandes bancos. Nossas instituições financeiras lucram pesado emprestando ao governo, sem risco nenhum. E por isso fazem questão de influir na hora que escolhemos presidentes e congressistas. Segundo a prestação parcial de contas dos candidatos, até agora Dilma arrecadou R$ R$ 123,6 milhões, Aécio R$ 46,5 milhões, e Marina R$ 23 milhões. O Estadão publicou uma grande análise detalhando de onde vêm as doações. Vêm, naturalmente, das maiores empresas do Brasil, as que mais têm relações de negócios com o governo. Vale ler a reportagem do Daniel Bramatti.

Se os títulos públicos pagassem juros mais baixos, seria menos lucro para nossa elite rentista e para os bancos. Se o Brasil diminui ou zera sua dívida amanhã, acaba a mamata. Se pagássemos 20% a menos de juros por ano, dava para o país bancar mais dois programas com o custo do Bolsa Família. Imagine o impacto social disso. Ou fazer a famosa revolução na educação, que todo mundo prega, e nunca se materializa. É pouco provável um enfrentamento com os bancos, ganhe a presidência quem ganhar. "Qual é o seu plano para diminuir rapidamente quanto o Brasil paga de juros, candidata?". Essa é a pergunta que não entra em debate nenhum. Se entrar, a resposta é desconversa na certa.

Um detalhe importantíssimo sobre porque as contas do Brasil não fecham: Não é por causa do Bolsa Família e outros programas sociais. Juntando todos eles, ainda é pouco dinheiro. A razão mais escandalosa é a transferência de recursos públicos a grandes empresários. Desde 2009, no início de mandato de Dilma, o Tesouro Nacional emprestou R$ 305 bilhões ao BNDES. Cobra a taxa Selic, 11%. O BNDES empresta às empresas cobrando a TJLP, 5%. A diferença é enorme, e detona nossas contas.

Que empresas botaram a mão nessa grana? Quase todas as grandes que você já ouviu falar. Algumas foram com mais sede ao pote. As informações são públicas. Se o leitor fizer muita questão, semana que vem publico aqui uma seleção das que meteram mais a mão no nosso bolso. Por enquanto basta citar só uma pessoa, que simboliza bem tudo isso: foram R$ 10 bilhões do BNDES para Eike Batista. (NOTA DO BLOG: Vale citar também a Friboi, que usou dinheiro do BNDS para concentrar o mercado de produção de carne no Brasil, comprando frigoríficos menores). Dinheiro que representa uns 40% do custo anual do Bolsa Família. E que não volta nunca mais para o Tesouro, porque o coitado quebrou, né?

É evidente que tivemos ganhos sociais nos governos petistas. Aliás, também tivemos no governo tucano. Só cego pode negar, como só o pior tipo de cego nega os muitos erros de FHC, Lula, Dilma. Mas o avanço está muito distante do que precisamos, que é garantir pelo menos o básico para todos os brasileiros. É difícil o Brasil ir para frente na velocidade que precisa pagando R$ 250 bilhões de juros ao ano. Aumentando sem parar nossa dívida. E transferindo bilhões sem fim para grandes empresários amigos do poder. Esta é a questão política central do Brasil.

Não duvido que os três candidatos tenham bons projetos em seus programas para isso e aquilo. Papel aceita tudo. O que importa de verdade no capitalismo é dinheiro, de onde vem, para onde vai. Aécio escolheu para futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga. Explicitou sua posição subalterna ao mundo financeiro. Marina e seus conselheiros, como Eduardo Gianetti, vêm dando declarações no mesmo sentido: "independência" do Banco Central, tarifaço, alta de juros. A ligação com Neca torna muito transparente para que lado pende sua candidatura.

Mas Dilma, por seu histórico, não pode atacar Marina pela ligação com o Itaú. Nunca na história deste país houve maior amigo dos bancos que o PT. Na hora de investir nossos recursos públicos, os três candidatos privilegiam os poderosos, e principalmente o poder financeiro.

NOTA DO BLOG: A matéria reproduzida acima, de autoria de André Forastieri e publicada originalmente em seu blog, termina com a frase "E por isso é impossível votar pela mudança em 2014." Discordo. Eu vou votar pela mudança, voto em Luciana Genro. Foda-se se ela tem apenas 1% dos votos: pra mim, é a melhor escolha. O voto no primeiro turno é - ou deveria ser - programático. No segundo, é pragmático. No segundo turno estarei com Dilma - e a opção, pra mim, é clara. Sei reconhecer os avanços, e não acho que tenham sido poucos, muito menos insignificantes.

Luciana Genro é filha de Tarso Genro, quadro histórico do PT e atual governador do Rio Grande do Sul. Abaixo, reproduzo um interessante perfil da família Genro escrito por Cynara Menezes e publicado em seu Blog "Socialista Morena" - discordo apenas do título que ela deu à matéria, que remete ao clássico filme de Mario Monicelli mas dá a impressão, errada, de que trata-se de uma família em pé de guerra ...

Você que não aguenta mais, às vésperas de eleição, discussões sobre política em família, devia agradecer a Deus por não ter nascido um Genro. Ali sim é que o bicho tá pegando. A filha, Luciana, presidenciável do PSOL, enfrenta nacionalmente a candidata paterna, Dilma Rousseff. O pai, Tarso Genro, concorre à reeleição para o governo do Rio Grande do Sul disputando com o ex-marido da filha, Roberto Robaina (PSOL), pai de seu neto Fernando. Luciana vota no ex-marido e não no pai. O pai vota em Dilma e não na filha. O neto vota na mãe e no pai, mas não no avô. Já imaginou?

No final de agosto, no primeiro debate entre os candidatos ao governo gaúcho na TV, o tempo fechou entre Genro e o ex-genro (literalmente) Robaina, que protagonizaram o bate-boca mais acalorado da noite. O petista provocou primeiro, dizendo que o PSOL foi contra o ProUni, o que Robaina disse ser “uma fraude”, porque Luciana votara a favor quando deputada. “Tu funcionas mais como quinta coluna da Ana Amélia do que como um candidato de esquerda”, torpedeou Tarso. Robaina devolveu o petardo lembrando as alianças à direita feitas pelo PT. Tarso chegou a levantar a voz: “Tu tens que amadurecer um pouco politicamente, rapaz”.

Robaina diz que eles voltaram a se encontrar em outro debate e que não houve saia justa. “Foi normal, nós estamos acostumados a brigar”. A falta de simpatia mútua, digamos assim, entre os dois é evidente Tarso foi mais afável com a adversária Ana Amélia do que com o ex-genro. A acusação recorrente de petistas de “falta de maturidade” parece irritar o psolista. “O PT tenta passar essa ideia de que o PSOL é imaturo, mas a maturidade do PT é se juntar com famílias milionárias. O grande orgulho do Tarso, por exemplo, é uma multinacional chilena de celulose que está destruindo os pampas. Essa maturidade de aceitação do status quo nós não queremos. Preferimos manter a coerência”, alfineta. “Nós, do PSOL, temos orgulho de possuir essa alegria juvenil que o Plinio, sendo velho, tinha. Ele entendeu que a grande sabedoria é ligar a luta política à juventude.” Pergunto se ele será o Tarso amanhã. “Não, eu serei o Plínio amanhã”.

Fico imaginando uma longa mesa arrumada com toalha branca para o churrasco de domingo e estas figuras todas sentadas, com suas línguas e facas afiadas. Robaina, que se separou de Luciana quando Fernando tinha um ano e meio de idade (o rapaz tem 26 atualmente), logo esclarece que tem carinho pela família, mas não os freqüenta socialmente. “A gente não fica visitando ex-sogro”, ironiza. Luciana admite que as farpas fazem parte do menu das reuniões familiares, mas garante que partem do pai para ela e não o contrário. “Há uma troca de ironias, mas sem agressão. Ele é quem gosta, é o campeão da provocação. Fica sempre tentando dizer que o PSOL é pequeno, que temos poucos votos, fica se gabando de como é amado e apoiado… Para tentar me irritar. Quando eu era adolescente, conseguia. Mas hoje tenho mais o espírito da filha que quer que o pai seja feliz e não aceito as provocações baratas dele.”

No último Dia dos Pais, Tarso, gozador, publicou em seu facebook um vídeo em que o neto Rodrigo, de dois anos, “discursa” dá-dá-dá-dá e o avô tira onda: “Parece a Lu falando”. Luciana conta que o dissenso familiar é antigo e, até por isso, encarado com naturalidade. Vem, na verdade, do avô dela e pai de Tarso, Adelmo Genro, advogado, professor e velho militante socialista que presidiu o PSB gaúcho. O vô Adelmo saiu feroz em defesa da neta quando ela começou a confrontar o governo Lula e as alianças do PT, postura que acabou por levá-la a ser expulsa do partido após votar contra a reforma da Previdência, em 2003. “Ela puxou ao avô, porque não lambe o prato em que cuspiu”, bradava o patriarca diante de cenas esdrúxulas como a dos antigos desafetos petistas Fernando Collor e José Sarney posando pimpões ao lado de Lula.

As desavenças entre Luciana e Tarso eram mais comuns quando ela, aos 15 anos, decidiu entrar para a Convergência Socialista, corrente interna do PT, enquanto o pai militava em outra tendência, o PRC (Partido Revolucionário Comunista), ao lado de nomes como José Genoino e… Marina Silva. “Para tu ver que quem mudou foi ele, não eu!”, provoca Luciana. “O pai me levou para o PRC e me fez conhecer toda essa fauna das organizações de esquerda, mas acabei me identificando mais com a CS do que com o PRC. Isso foi complicado para ele aceitar.”

Luciana confessa ter dado risada quando assistiu ao pai atacando e sendo atacado pelo ex-marido no debate da Band entre os candidatos ao governo do Rio Grande do Sul, mas, alguns dias depois, quando encontrou Tarso, preferiu não tocar no assunto para não criar caso. Diz que tampouco tem discutido com ele sua performance nos debates presidenciais para não gerar constrangimento porque, afinal, a candidata do partido dele é outra. Tarso dorme cedo e não viu a filha nos debates, mas, ao assistir a um vídeo com os melhores momentos da presidenciável do PSOL que lhe foi mostrado por um assessor, o lado “pai orgulhoso” falou mais alto. “Muito bem. Falou tudo que eu queria dizer e não posso.”

Pergunto a Luciana se o pai costuma olhá-la com aquele olhar condescendente dos mais velhos diante de um político jovem, aquele olhar de “vamos-conversar-mais-para-a-frente” que os políticos experientes adoram exibir. “Acho que a idade ajuda neste excesso de pragmatismo que eles têm, de querer resultados mais imediatos e aquém do que desejavam originalmente. Os petistas se acomodaram. Eu vejo, pelos textos que o Tarso publica, que ele tem uma visão crítica do partido, mas acha que não existe vida política fora do PT. Cansou de remar contra a maré. Só que um dia a maré vai mudar”, aposta. Pergunto também a ela se não se transformará no Tarso amanhã. “De jeito nenhum. Este processo de construção de uma esquerda coerente não pode repetir o PT. Virar o Tarso é repetir o PT.”

“O Tarso” – é esquisito, mas todos se referem a ele assim. A filha, o ex-marido, o neto. Talvez para separar o político do familiar, termos como “pai” e “vô” ficam reservados para a intimidade. Fernando, filho de Luciana, foi durante os últimos 24 anos o único neto de Tarso Genro, até nascer Rodrigo, filho da médica Vanessa. Pode-se ter uma ideia, portanto, da enorme proximidade entre os dois. Mas Fernando, ex-jogador de futebol, é PSOL como o pai e a mãe e nunca votou no avô para um cargo eletivo  em 2002, quando Tarso perdeu, Fernando ainda não votava; em 2010, quando Tarso ganhou no primeiro turno, o neto escolheu Pedro Ruas, do PSOL. Agora, vota no pai e na mãe, claro.

“Não é uma questão de parentesco: me identifico com a postura ideológica e programática do PSOL. Acho que os governos federais do PT foram bastante decepcionantes do ponto de vista da esquerda”, critica. Faço mais uma vez a pergunta: o jovem que hoje é PSOL quando velho se tornará PT? “O Plínio provou que não é bem assim. Acho que existe um comodismo que vem com a idade, mas não é determinante. O próprio Tarso com certeza era mais PSOL na juventude. Talvez fosse mais fácil ser de esquerda quando a direita estava no poder.”

Seu avô pede para Luciana pegar leve com a Dilma nos debates? “Mas de jeito nenhum”, diz Fernando. “Ele jamais pediria isso, porque sabe que a construção do nosso partido passa pela crítica ao PT.” O filho de Luciana Genro vê como “saudável” o clima de discussões políticas PT X PSOL no seio familiar. “Esta dialética que acontece em casa é bacana porque possibilita tirar o que há de bom e ruim no PT, e o que há de bom e ruim no PSOL”, contemporiza.

Tarso Genro só votou na filha quando ela se candidatou a deputada federal pelo PT. Desde que se tornou PSOL, nunca. Mas na solidão da cabine não vai dar vontade de apertar o 50 e votar na filha para presidente? “Não, porque a responsabilidade política fala mais alto. Ela tem um projeto político muito diferente do meu partido. Eu votaria sempre na Luciana para filha, mas não para presidente”, espeta. O governador assume adorar provocar a filha. “Toda vez que a Lu chega em casa, eu digo: ‘como vai a revolução proletária?’”, e solta uma gargalhada.

Não que deixe de admirá-la. Considera Luciana “um grande quadro político”, mas não aparenta sentir o mesmo pelo ex-genro Robaina. “O Roberto é íntegro, mas temos uma diferença política muito grande. Ele está mais preocupado em desgastar a imagem do PT. A Luciana critica Dilma e Marina, mas está sendo mais lúcida”, diz. “O PSOL é um rescaldo político do socialismo do passado, com uma visão clássica vinculada à revolução bolchevique. É um projeto generoso, mas superado politicamente. Por isto utiliza esta linguagem que trata da mesma forma a direita e a esquerda.”

Pergunto, desta vez ao contrário, se Luciana será como ele amanhã. “O que ocorre com os trotskistas, pelo que tenho visto, é que normalmente eles saem da política e vão ser colunistas de jornal da direita… Espero que ela permaneça trotskista”, provoca. “Eu mesmo fui, durante anos, integrante do movimento comunista. Adquiri conhecimento e não me arrependo. Mas a estrutura de classes da sociedade mudou.”

A mãe de Luciana, avó de Fernando, ex-sogra de Robaina e mulher de Tarso Genro, Sandra, é a pedra de toque desta história toda. Se o marido não estiver no páreo, a médica Sandra costuma declarar voto no PSOL. Quando Robaina saiu a prefeito, em 2012, ela declarou voto nele. Este ano vota em Luciana para presidente – não em Dilma, como o marido, pelo menos no primeiro turno. Mas vota em Tarso, claro, para governador. Felizmente, Luciana e o pai não se enfrentaram diretamente e Sandra não se viu obrigada a ter que escolher entre os dois, filha ou marido. Ainda.

NOTA DO BLOG: Por fim, alguns bons motivos que me fazem pensar que Marina não é uma opção - não de esquerda, pelo menos. Artigo de Marcelo Zero (formado em Ciências Sociais pela UnB e assessor parlamentar do Partido dos Trabalhadore) publicado originalmente no Blog de Paulo Moreira Leite ...

A primeira grande medida que Tony Blair adotou quando chegou ao poder foi dar independência ao Bank of England, o banco central inglês. A medida não estava no programa de governo, mas Blair a adotou assim mesmo. Era uma forma de demonstrar que o New Labour, por ele representado, estava rompendo definitivamente com o “velho trabalhismo” e com a “antiga socialdemocracia”.

Essa ruptura não era apresentada, contudo, como uma adesão ao “thatcherismo” e à direita. Na realidade, Blair se apresentava como uma espécie de personificação da Terceira Via, teorizada principalmente por Anthony Giddens, sociólogo britânico. A Terceira Via, segundo Giddens e Blair, não era nem de esquerda e nem de direita. Estava, na visão deles, “além da esquerda e da direita”. Rompia com a socialdemocracia tradicional e com o velho trabalhismo, mas também representava uma ruptura com o neoliberalismo. Era algo profundamente novo, um “centralismo radical” que prometia, num grande esforço modernizador, adaptar a economia e a sociedade britânicas aos “novos desafios impostos pela globalização”, mantendo, no entanto, os valores permanentes da justiça social.

Em economia, Blair dizia que a abordagem da Terceira Via não era “nem o laissez faire, nem a interferência estatal”. Ao “Estado necessário”, nem mínimo, nem máximo, caberia o simples papel de sustentar o equilíbrio macroeconômico e promover a atividade empresarial, particularmente as “indústrias do futuro baseadas no conhecimento”. No que tange à esfera social, a Terceira Via faria revolução do Welfare State, adaptando-o às novas necessidades da economia globalizada. Em vez de investir em redes de proteção “excessivas”, era preciso dar “empregabilidade” às pessoas, investindo em Educação e no empreendedorismo. Com isso, asseguravam Blair e Giddens, a economia britânica aumentaria muito a sua produtividade, beneficiando igualmente empresários e trabalhadores.

No "Brave New World" proposto pela Terceira Via, não havia mais conflitos de classes e nem a vinculação orgânica da socialdemocracia e do trabalhismo aos sindicatos e aos movimentos sociais. Não havia também alternativas à “economia de mercado globalizada”; e a desigualdade passou a ser algo aceitável, desde que baseada na “meritocracia”. Completava esse novo mundo sem conflitos, livre das “velhas ideologias”, uma preocupação com as questões ambientais, que haviam sido relegadas a um segundo plano, segundo Giddens, tanto pela antiga socialdemocracia quanto pelo neoliberalismo thatcherista.

Entretanto, o que se viu, na prática, foi a adesão de Blair a todas as principais diretrizes políticas do thatcherismo. Seu governo persistiu no desmonte do sindicalismo britânico, na “flexibilização” do mercado de trabalho, na revisão de alguns direitos previdenciários, nas privatizações e, sobretudo, na crescente desregulamentação do sistema financeiro, já sob a gerência “independente” do Bank of England. Assim, o New Labour saiu do colo trabalhista dos sindicatos britânicos para o colo financeiro da City londrina.

Os resultados não foram bons. O índice de Gini do Reino Unido que, no início do thatcherismo, era de 0,240, aumentou para 0, 340, um dos maiores crescimentos da desigualdade nos países desenvolvidos. Embora a maior parte desse aumento tenha se dado na era Thatcher, a Terceira Via de Blair não conseguiu revertê-lo, e até propiciou um novo incremento. Na realidade, foi durante o período Blair que aumentou mais a renda do 1% mais rico e, particularmente, do 0,1 % mais afluente, renda essa muito vinculada à desregulamentação financeira.

Ao longo do período do New Labour, os que fazem parte do 0,1 % mais rico do Reino Unido aumentaram seus rendimentos 4 vezes mais que 90% da população britânica. Hoje, apenas as cinco famílias mais ricas do Reino Unido têm renda superior aos 20% mais pobres da população. Além disso, houve “precarização” do mercado de trabalho, ao invés da prometida “empregabilidade”. Afinal, a estrela do crescimento econômico durante o New Labour foi o setor de serviços, particularmente os serviços financeiros, com decréscimo das indústrias.

A recessão, que varreu do mapa político o New Labour em 2010, com a derrota de Gordon Brown, sucessor de Blair, só fez piorar esse quadro social. Hoje, 1 em cada 5 britânicos são pobres e, pela primeira vez na história, a maior parte dos lares em condição de pobreza é habitada por indivíduos economicamente ativos, e não por pessoas que dependem da Seguridade Social. O problema maior está justamente no mercado de trabalho, que não gera empregos na quantidade e, principalmente, na qualidade necessárias para promover a ascensão social dos menos favorecidos. E isso ocorria antes mesmo da crise. Tal descalabro econômico e social do New Labour e da Terceira Via foi complementado por um submisso alinhamento da política externa britânica aos interesses dos EUA, que levou a o Reino Unido a participar da farsa da invasão Iraque, fato que suscitou a abertura de um inquérito oficial sobre o assunto.

Enfim, a Terceira Via não passou de uma “carapaça ideológica para o neoliberalismo”, como disse o historiador britânico Perry Anderson. Foi assim no Reino Unido; e foi assim também nos EUA de Clinton e na França de Jospin. Mas essa carapaça ideológica rompeu-se em todos os lugares, revelando a mesmice do pensamento único e a monotonia trágica das políticas conservadoras, associadas à crescente desregulamentação do capital financeiro. As mesmas políticas que provocaram a crise mundial de 2008 e que contribuem, hoje, para manter a recessão na maior parte do mundo industrializado.

Assim, nos países desenvolvidos a carapaça ideológica da Terceira Via atualmente não passa de uma malquista e malcheirosa carcaça política. No Brasil, no entanto, há gente que quer ressuscitar essa carcaça político-ideológica, apresentando-a como uma grande novidade. Como no Reino Unido de Blair, a candidatura Marina pretende conciliar políticas econômicas muito ortodoxas e pró-cíclicas com grandes avanços sociais. Pretende também conciliar desregulamentação financeira e econômica e a extinção de mecanismos estatais de estímulo ao crescimento, como o crédito público em áreas estratégicas. Como no Reino Unido de Blair, a candidatura Marina pretende alinhar nossa política externa aos interesses dos EUA e aliados. Como lá, doura-se a pílula com um difuso e, por vezes, neomalthusiano ambientalismo. Como lá, afirma-se que a “nova” proposta está além da esquerda e da direita. Ao contrário de lá, onde o New Labor promoveu grandes avanços, no que tange aos direitos individuais, particularmente dos gays e outras minorias, aqui tais avanços teriam de passar pelo crivo de sumidades teológicas, como a do Pastor Malafaia.

Bastar ler o plano da candidatura Marina para ver o quanto ele se baseia numa leitura anacrônica das teses da finada Terceira Via. Mistura-se essa leitura anacrônica com uma leitura superficial de Manuel Castells e voilá!, temos a “nova política”. A milagrosa política que não é política, o partido que não é partido e as alianças de ocasião que não são “velha política”. A milagrosa política que vai mudar o sistema de representação apenas com a força dos “homens de bem” reunidos em redes, sem a necessidade de um reforma política com participação popular, como propõe a presidenta. Uma milagrosa reforma sem povo, garantida pelos “homens de bem” e pelos “homens de bens” que controlarão o Banco Central.

No plano não há nenhum a pista sobre o porquê que a finada Terceira Via, que fracassou miseravelmente nos países desenvolvidos, num período de bonança econômica, teria sucesso aqui, um país em desenvolvimento, num período de forte e renitente crise mundial. Afinal, lá era uma aposta nova numa Terceira Via. Aqui é somente a carcaça política de uma fracassada Paleovia.

A resposta talvez esteja em devaneios fora de lugar, e não na razão alicerçada no real conhecimento de um país chamado Brasil. Isso talvez explique porque a candidatura mude de posição constantemente sobre tudo.

Quem é muito “sonhático” acaba ficando muito errático.

E sonho anacrônico acaba virando pesadelo.

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