quarta-feira, 23 de julho de 2014

PCB, Mauro Iasi

[Sturt Silva, exclusivo para o Diário Liberdade] No dia 30 de outubro o site do Partido Comunista Brasileiro (PCB) anunciou o nome do professor Mauro Iasi como pré-candidato para Presidência da República. A partir desse dia os comunistas deram um grande passo para que o partido tenha candidato próprio nas eleições de 2014.

Mauro Iasi, além de membro do Comitê Central do PCB, é professor da Escola de Serviço Social da Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com diversos livros e trabalhos acadêmicos publicados, sendo que foi presidente do sindicato dos docentes dessa mesma instituição durante o período 2011-2013. Em longa entrevista exclusiva ao Diário Liberdade, Iasi abordou sua pré-candidatura; a formação de uma Frente de esquerda com PSOL, PSTU e movimentos sociais; a reconstrução do Partido Comunista Brasileiro depois do fim da URSS; a construção do Poder Popular como alternativa de ruptura com a ordem burguesa; as Jornadas de Junho como materialização do Bloco Revolucionário do Proletariado e a constituição de uma Frente anticapitalista e anti-imperialista a nível nacional e internacional. Também falou sobre os 10 anos de governos do PT e do rompimento do seu partido com o governo Lula em 2005.

Além disso, salientou que o Brasil já realizou sua revolução burguesa, não clássica, parecida com que Lênin chamou de via prussiana e Gramsci de revolução passiva. Ou seja, pela fala do professor não resta dúvida que a tarefa do proletariado como classe no Brasil é fazer a revolução socialista.

Mas nossa conversa com o cientista social não parou por aí. Ainda conversamos sobre a conjuntura latino-americana, a crise do capitalismo, o fim da URSS e a transição socialista no mundo.

Diário Liberdade (DL): O PCB já definiu seu nome como pré-candidato à presidência da República para as eleições de 2014 no Brasil. Isso significa que a frente de esquerda eleitoral, como houve em 2006, está descartada desde já?
Mauro Iasi (MI): Para o PCB, a Frente de esquerda não é, ou não deveria ser, uma frente eleitoral, mas representar a unidade na luta daqueles que se opõem ao atual rumo político no Brasil imposto pelos governos petistas e o bloco conservador, espaço no qual temos nos encontrado não apenas com o PSOL e o PSTU, mas com várias organizações e movimentos sociais.
Eleitoralmente, nem sempre, é possível marcharmos juntos uma vez que uma construção programática e política não pode ser feita em cima da hora e por conveniências eleitorais, até porque falamos de partidos de esquerda que prezam suas convicções e formulações. 

DL: O PSOL definiu em seu 4º Congresso o nome do senador Randolfe Rodrigues como pré-candidato do partido a presidência da República. Esse fato dificulta as alianças do PCB com o PSOL nas eleições de 2014?
MI: Respeitamos as instâncias internas dos partidos amigos. A decisão sobre o melhor nome para representá-los no pleito de 2014 cabe aos militantes do PSOL.
Ao nosso ver, não é um nome de candidato (seja qual for) que ajuda ou atrapalha a unidade, mas a ausência de uma construção política tal como propusemos em 2010 quando afirmamos que uma verdadeira opção de esquerda aos governos petistas deveria partir de um amplo debate com os partidos, movimentos sociais e entidades dos trabalhadores que chegando a pontos programáticos mínimos se dispusessem a construir uma alternativa de poder de caráter socialista no médio e longo prazo em nosso país. Infelizmente, motivos de natureza mais imediata acabaram inviabilizando esta proposta e nós, desde o encerramento das eleições de 2006, avisamos que não faríamos alianças meramente eleitorais. 

DL: O PCB tem chamado a formação de frentes (anticapitalista e anti-imperialista) e a construção de um Bloco Revolucionário do Proletariado, além das eleições. Como que anda as iniciativas, esforços e conversas do PCB, de outros partidos da esquerda e dos movimentos sociais sobre esta questão?
MI: Acreditamos que houve uma inflexão na conjuntura brasileira desde junho de 2013 com as manifestações de massa que expressam as grandes contradições que amadureciam em nossa sociedade.
A luta contra o aumento das passagens dos transportes urbanos, rapidamente generalizada por uma pauta que incluía educação, saúde, a luta contra os gastos com os grandes eventos esportivos e suas conseqüências como as remoções, assim como contra a violência policial, são, para o PCB, a materialização daquilo que chamamos de Bloco Revolucionário do Proletariado, porque ele não é um movimento ou uma instituição, mas sim a capacidade da classe trabalhadora através de sua ação e identidade política independente se contrapor ao bloco conservador que hegemoniza a política brasileira.
Procuramos atuar decisivamente neste campo, junto aos movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda, mas também organizações e coletivos que tem tido papel importante na manutenção das lutas de rua. 

DL: Em 1992 a “seção brasileira” da III Internacional comunista dividiu-se em duas: PPS e PCB. Você pode explicar para nossos leitores, principalmente galegos e portugueses, com se deu o fato descrito acima?
MI: Em verdade, não se tratava da seção brasileira da III Internacional, há muito já inativa. A divergência baseava-se na leitura sobre a crise que levou ao desmoronamento da União Soviética.
Houve uma tentativa de liquidar o PCB em 1992 que faz parte de um processo mais amplo de crise dos PCs em todo o mundo. Aqui havia o discurso que o PCB estava antiquado e deveria se “renovar”, apresentar um perfil democrático distanciando-se da meta socialista e anticapitalista que sempre caracterizou sua história para ter espaço na política brasileira. Aqueles que assim pensavam formaram o PPS que, desgraçadamente, acabou se tornando uma linha auxiliar da direita em nosso país, ao lado do PSDB e do DEM.
Graças à resistência de vários camaradas o PCB sobreviveu, resistiu e empreendeu um difícil caminho de reconstrução, mantendo seus princípios e convicções socialistas e revolucionárias. 

DL: O PCB participou do bloco político que elegeu Lula em 2002. Em 2005 rompeu com o governo. Por quê?
MI: A eleição de Lula em 2002 significava o culminar de um longo processo de luta e resistência contra a alternativa chamada de neoliberal apontando para reformas de caráter popular e democráticas.
Entretanto, o governo Lula optou por um tipo de governabilidade que os jogou em alianças ao centro e depois à direita com legendas como o PMDB de Sarney, o PP de Paulo Maluf, o PTB de Roberto Jefferson. Manteve todos os elementos de uma macroeconomia que visava garantir as condições para a acumulação de capitais, como a política fiscal e monetária, o controle da inflação, o saneamento financeiro do Estado, a formação de superávits primários, etc; ao mesmo tempo em que impunha contra-reformas, como o desmonte da previdência pública, não fez a reforma agrária necessária, deu continuidade as privatizações diretas ou indiretas através das parcerias público privadas e aprofundou a flexibilização e perda de direitos para os trabalhadores.
Isso nos levou ainda em 2005, portanto, antes dos escândalos do chamado “mensalão” que envolveu o desvio de recursos para comparar a base de sustentação do governo, a romper com o governo petista. 

DL: Como o partido, em resumo, explica o projeto do desenvolvimentismo lulista, em curso desde 2002, no Brasil?
MI: O PT caminhou para uma alternativa de pacto social com a grande burguesia monopolista, fundado na idéia que a base para um chamado desenvolvimento social é o crescimento da economia capitalista, do mercado e da ordem institucional burguesa. Procura diferenciar-se da alternativa neoliberal, que apregoa a prioridade do mercado, afirmando a necessidade do Estado no apoio e subsídio à economia de mercado, numa aparente oscilação entre neoliberalismo e um tipo de neodesenvolvimentismo.
Sabemos que esta é uma disjuntiva falsa. O capitalismo sempre exigiu em seu sociometabolismo a presença do mercado e do Estado, trata-se da ênfase em um ou outro pólo que são os dois elementos essenciais para a acumulação de capital. Mais mercado, ou mais Estado para garantir o bom funcionamento da economia capitalista.
Neste caminho a prioridade é dada às ações que garantam o crescimento da economia capitalista, seja através de subsídios e transferências vultuosas à economia privada, seja através de ações indiretas como as políticas de controle financeiro e inflacionário. O que sobra é destinado ao combate às manifestações mais gritantes da pobreza absoluta, numa política fragmentada e focalizada sob os moldes do Banco Mundial.
O resultado disso é que se há uma diminuição da pobreza absoluta, com os 20% mais pobres que viviam com menos de U$ 1,00 /dia, passando a viver com algo perto de U$2,00 /dia, ou seja, com renda que varia entre R$ 90,00 e R$ 200,00 (no máximo um terço do salário mínimo real); os 10% mais ricos que em 1990 acumulação 53% da riqueza nacional, hoje abocanham 74,2% desta riqueza.
O desenvolvimento gerou enorme acumulação de propriedades e riquezas no agronegócio e estagnou a reforma agrária para os assentamentos e pequenos camponeses; gerou milhões para bancos, grandes monopólios industriais, comerciais, de construção, transporte e outros, ao mesmo tempo precarizou as condições de trabalho retirando ou flexibilizando direitos dos trabalhadores, sucateou os serviços públicos como educação, saúde, saneamento e outros agravando a situação já explosiva dos grandes centros urbanos. 

DL: O PCB tem defendido que temos condições objetivas para a revolução socialista e que a fase de etapas da revolução brasileira está superada. Isso significa que o Brasil já fez sua revolução burguesa (anterior a socialista)? E se fez, quando foi? Ou a leitura que o PCB faz do processo histórico brasileiro é guiada por conceitos gramscianos (revolução passiva, transformismo conservador, etc.)?
MI: A Revolução Burguesa no Brasil já se realizou de maneira não clássica consolidando uma ordem burguesa moderna e inserida de forma dependente na ordem do capital imperialista mundial. Temos hoje um capitalismo completo, isto é, que possui todos os elementos necessários para proceder à acumulação de capitais, um Estado Burguês consolidado e uma sociedade civil burguesa sólida.
Este processo se estendeu no tempo, desde o período Vargas, entre as décadas de 1930 e 1950, com a inserção dependente em relação ao imperialismo no período Juscelino Kubitschek (1955-1960), com a ditadura burguesa estabelecida com o golpe de 1964 e consolidado com o atual processo de Democracia burguesa.
Estamos diante de uma via não clássica, mas é mais que isso, quero dizer, uma forma particular de expressão daquilo que Lênin chamava de Via Prussiana e Gramsci de revolução passiva. Não temos dúvida de que neste processo o PT expressa um claro exemplo de transformismo, ou seja, “absorção gradual, mas contínua, e obtida com métodos de variada eficácia, dos elementos ativos surgidos dos grupos aliados e mesmo dos adversários e que pareciam irreconciliáveis inimigos”, nas palavras de Gramsci. 

DL: Quais grandes marxistas brasileiros influenciam teoricamente o PCB hoje?
MI: Estamos vivendo um rico processo de florescimento do pensamento marxista no Brasil, mas isso só foi possível porque houve uma geração de marxistas que resistiram ao canto de sereia da pós-modernidade e souberam manter, em tempos muito difíceis, os princípios e a clareza teórica que nos caracteriza. São muitos os intelectuais marxistas brasileiros que contribuem para nossas atuais reflexões, sejam aqueles que hoje são quase clássicos entre nós, como de uma nova geração que apresentado produções de altíssima qualidade
Procuramos utilizar todos, tendo ou não vinculo orgânico com o PCB e independente de suas preferências políticas, desde que contribua qualitativamente em nossas reflexões. O PCB hoje não define nenhuma linha como doutrina oficial. Somos marxistas. 

DL: Parece que o PCB tem procurado usar contribuições de marxistas clássicos além do marxismo-leninismo (Luckács, Luxemburgo e Gramsci) para sua formação política. E Trotsky não contribui?
MI: Para nós o caminho dos clássicos sempre é o caminho mais correto, sem um fundamento consistente nas obras de Marx, Engels e Lênin, nenhum estudo do marxismo pode frutificar. Mas o marxismo, ou os marxismos, hoje se tornaram um rico e complexo campo, plural e múltiplo, enriquecido com as obras e reflexões que vão desde Lukács à Gramsci, passando por Trotsky, Mao, Che, Fidel, Rosa, Kollontai e de todos os revolucionários e pensadores do século XX, como Mariategui, Amilcar Cabral, Álvaro Cunhal e tantos outros.
Leon Trotsky foi um grande revolucionário e tem contribuições inestimáveis ao pensamento marxista, seria um erro desconsiderar suas contribuições. Não é preciso ser trotskista para utilizar Trotsky, da mesma forma que ser trotskista não é garantia que o utilize corretamente.
O PCB se considera, hoje, um partido marxista e se a identidade marxista-leninista persiste se dá pela nossa convicção nas formas de organização e princípios políticos que daí derivam e não como cânone indiscutível que funciona como critério de validação de verdades teóricas. Como dizia Fidel, o marxismo não é uma propriedade privada registrada em cartório, é uma teoria revolucionária, feita por revolucionários, desenvolvida por revolucionários e para revolucionários; aqueles que forem capazes de dar interpretações corretas da realidade triunfarão os que não conseguirem serão suplantados. Pensamos ser este nosso critério. 

DL: Na Europa, também em Portugal, Galiza e no Estado Espanhol se têm a imagem que os governos Latino-americanos que subiram ao aparelho de estado de seus países a partir, entre outras coisas, da crise neoliberal são todos de esquerda. Vocês têm diferenciado seus projetos em duas categorias. Teria os progressistas - de esquerda - (Venezuela, Equador e Bolívia) e os conservadores – de centro e até de direita - (Chile, Peru, Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina). Quais elementos os progressistas têm para serem classificados em uma categoria em separado?
MI: Nós prezamos muito o termo esquerda para utilizá-lo sem critérios mais precisos. Para nós o compromisso e a posição de esquerda, ainda mais em um mundo como o nosso, se justifica pelo claro posicionamento ao lado da classe trabalhadora contra a barbárie do capital. Existem setores de esquerda, ainda que não marxistas ou mesmo revolucionários, isto é do campo do reformismo, assim como existem posições que, ainda que tendo origem neste campo, se distanciaram e hoje, infelizmente, assumem uma posição de centro-direita que favorece os interesses do capital contra os trabalhadores, como foi classicamente o desenvolvimento da socialdemocracia européia.
Na América Latina, procuramos diferenciar processos que, mesmo não sendo imediatamente socialistas, levam à frente reformas que tencionam a ordem do capital, dinamizam a luta de classes e ajudam a formar um bloco de forças populares contra os ataques do capital e do imperialismo. Parecem-nos claramente os casos da Venezuela e Bolívia e em menor medida do Equador.
Não podemos caracterizar desta forma o Brasil ou o Chile sob o governo de Bachelet. Ficaram aquém das reformas e optaram por governabilidades que viabilizam a continuidade dos governos, mas não o avanço das demandas populares; pelo contrário, tornaram-se o meio pelo qual a ordem burguesa legitima suas contrarreformas. 

DL: Qual a relação do partido com Cuba e sua posição em relação às reformas que estão acontecendo na ilha?
MI: Nós temos uma história e um compromisso de solidariedade com Cuba e prezamos muito sua autodeterminação. Nossa solidariedade é incondicional, mas nos resguardamos o direito de afirmar que isso não implica em alinhamento político incondicional.
Vemos com certa preocupação os rumos da revolução cubana e as reformas em curso, ainda que compreendamos a grave situação na qual aquele país se encontra, por conta do brutal bloqueio imperialista, que já dura meio século. Mas confiamos que não haverá retrocesso no processo socialista em Cuba, em que decisões complexas são tomadas após amplo debate popular. Como disse Silvio Rodriguez em uma de suas composições mais recentes: “A desencanto, opóngase deseo. Superen la erre de revolución. Restauren lo decrépito que veo, pero déjenme el brazo de Maceo y para conducirlo, su razón.” 

DL: Qual é o balanço que o senhor e PCB fazem das experiências socialistas do século XX, com destaque para o do Leste Europeu e da URSS?
MI: Antes de tudo consideramos a experiência de transição socialista do século XX, inaugurada pela Revolução Russa de 1917, nosso patrimônio histórico e o principal fato da história recente da humanidade que iniciou nossa construção do futuro emancipado do gênero humano. Com suas vitórias e com suas derrotas, com acertos e erros, é nossa história. E consideramos que o saldo foi positivo.
Foi um momento no qual os trabalhadores de todo o mundo puderam contar com uma retaguarda política e um equilíbrio de forças que produziu, inclusive, vitórias e conquistas na Europa, nos EUA e em todos os povos, até como concessões para evitar a ruptura revolucionária que o bloco socialista representava. Para aqueles que viviam nestes países o início de uma transição socialista, também, tivemos inegavelmente uma alteração qualitativa quanto à vida e suas possibilidades fora do mercado e do domínio do capital.
Em seu XIV Congresso, o PCB debateu o tema da transição socialista e chegamos à conclusão que não cabe a um partido resolver na forma de uma resolução um debate histórico com tantas implicações. Não se trata de dizer apenas se era ou não socialismo, de aceitar passivamente as formas que ali se expressaram de maneira a justificar todas suas conseqüências. Trata-se de uma polêmica política e teórica em aberto, para qual o PCB oferece textos e reflexões, mas não resoluções a serem burocraticamente repetidas.
A experiência de transição socialista ocorrida na URSS e no leste europeu, assim como na Ásia e em Cuba, para nós confirma, ainda que tragicamente, as previsões teóricas de Marx, tanto quanto à potencialidade da revolução, a necessidade da ruptura revolucionária, da destruição do Estado burguês e constituição de um Estado Proletário, a necessidade de socialização dos meios de produção com o fim da propriedade privada e da apropriação privada da força de trabalho.
Ao mesmo tempo, confirma-se tragicamente, que apenas isso, ainda que essencial, não é suficiente. É necessária a superação da escravizante subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, a superação da contradição entre trabalho manual e intelectual, superar o trabalho como mero meio de vida e permitir o desenvolvimento dos indivíduos sociais em todas as dimensões até que cada um possa trabalhar de acordo com a capacidade e receber de acordo com a necessidade. Estes aspectos que Marx enuncia em sua Critica ao Programa de Gotha, são a natureza mesma da transição.
O que vimos nas experiências do século XX foi o início desta transição que não se completou, ficando, por assim dizer, no meio do caminho. Ocorre que estes elementos não superados permitiram que, através de uma contrarrevolução, a experiência fosse interrompida e restabelecida a ordem do capital com todos os efeitos trágicos que hoje presenciamos entre aqueles povos. A contradição entre a ousadia da mudança política e as condições objetivas em que se deram produziram como efeito o processo de burocratização.
Houve, portanto, uma combinação de fatores objetivos (grau de desenvolvimento das forças produtivas, correlação de forças mundiais, etc.) e fatores políticos próprios da condução do processo; a resultante foi uma derrota, não definitiva, das forças socialistas.
A história destas formações sociais e o próprio desfecho das experiências socialistas e a atual crise do capitalismo, nos autorizam a afirmar a validade e, mais que isso, a necessidade de uma alternativa socialista para o mundo contemporâneo. 

DL: Seja na mídia, seja na academia, divulga-se que a crise econômica que vivemos é mais uma crise cíclica do modo de produção capitalista. Porém autores como István Mészáros vem falando em crise estrutural do capital. Como você entende o processo.
MI: Concordamos com Mészáros que vivemos algo muito distinto de uma mera crise conjuntural do capitalismo e que o capital, em suas palavras, ativou os limites estruturais de suas contradições. No entanto, a característica da crise cíclica apontada por Marx persiste, isto é, como o próprio Mészáros indica, é necessário distinguir o caráter estrutural da crise de seu “desfecho último”, como se o capital não tivesse mais saída.
Uma coisa que aprendemos é que o capital sempre encontra uma saída se não for derrotado politicamente pelos trabalhadores e estes forem capazes de contrapor à sociedade do capital uma alternativa socialista. A crise torna possível a mudança revolucionária, mas não inevitável; esta depende da capacidade política das classes revolucionárias. 

DL: O capitalismo no mundo é global, nesse sentido é mais do que necessário uma revolução mundial. Assim como defendeu Hugo Chávez, o PCB defende a construção de uma V Internacional?
MI: Apontamos para isso em nossa concepção de uma Frente anticapitalista e anti-imperialista. Hoje, qualquer luta por mínima que seja se choca com a ordem do capital monopolista e esta está incontornavelmente associada ao capital imperialismo. Lutar contra as formas que impedem a vida em nossos países é lutar contra o capitalismo e lutar contra o capitalismo é lutar contra a ordem internacional na qual ele opera a acumulação, ou seja, a ordem imperialista.
Este quadro nos obriga a pensar a revolução como revolução mundial e cremos que estamos já operando nesta situação, ainda que o grau de consciência, organização e unidade das forças revolucionárias em marcha seja muito incipiente. Neste sentido toda forma de tentar dar um caráter internacional à luta seria muito importante. Não sabemos se na forma de uma Internacional nos moldes com as experiências ate então realizadas se deram, mas de alguma forma temos que dar um salto organizativo rumo a uma forma universal contra o capital que se tornou um entrave universal à humanidade. 

DL: Se o PCB ainda considera socialismo como etapa transitória ao comunismo – sociedade de trabalhadores associados e livres – o que seria realmente o estágio socialismo no Brasil e no mundo?
MI: Mais que nunca nossa meta comunista está atualizada. Não se trata de transformações que tornem possível a vida no Brasil, mas até pelo que dissemos antes, ao lutar contra o capitalismo no Brasil estamos enfrentando o capitalismo mundial e as condições para uma verdadeira emancipação humana só pode vir dos esforços e recursos combinados de todo o planeta.
O segundo elemento de nosso propósito comunista é o fim do Estado. É preciso hoje ressaltar este aspecto diante do moderno culto ao Estado como forma insuperável da sociabilidade humana. A destruição do Estado Burguês não cria as condições imediatas para tanto, mas deve criá-las no processo de transição, caso contrário, podemos cair no impasse das transições ocorridas no século XX. Temos que resgatar alguns elementos pertinentes do alerta que o pensamento anarquista já formulava há muito tempo sobre este risco.
O socialismo no Brasil é uma alternativa e uma necessidade. Ele é uma alternativa perfeitamente viável. Um dos mitos que alimentam o reformismo rebaixado e o oportunismo de toda espécie é a afirmação que o socialismo se tornou inviável, seja pela correlação de forças, seja pelo poder militar e ideológico da burguesia.
Vamos por partes. O socialismo é uma necessidade porque o capitalismo ameaça a vida da humanidade com a forma mercadoria, a produção destrutiva e a destruição ambiental. É possível e necessário que passemos a produzir valores de uso que satisfarão necessidades e que possam ser acessados sem a intermediação do mercado. Ora, não há nenhum empecilho de ordem material ou tecnológica para atingirmos este fim, o que impede isso é a forma mercadoria, a propriedade privada e as relações sociais de produção burguesas. Nós podemos mudar estes aspectos e as revoluções provam isso.
Com a natureza disponível se bem cuidada, a quantidade e qualidade da força de trabalho existente e o nível de desenvolvimento tecnológico existente e em potencial, poderíamos satisfazer o conjunto das necessidades da população do Brasil (e no conjunto da humanidade do planeta). O problema são as atuais relações sociais de produção de tipo burguesa, a acumulação privada da riqueza socialmente produzida.
Devemos começar por garantir o caráter não mercantil e radicalmente público de todos os bens e serviços necessários à vida como educação, saúde, assistência e previdência, energia, transporte, água, etc. Para tanto é fundamental que nenhum recurso público seja destinado a fins privados e o Estado dos trabalhadores tenha os instrumentos para iniciar a constituição das bases de uma economia socializada o que é possível através de uma radical reforma agrária que dê condições para os pequenos camponeses e assentamentos, ao mesmo tempo que desenvolva iniciativas para a produção de alimentos, matérias primas essenciais e outros produtos, controle o subsolo e as riquezas minerais, estatize o sistema financeiro e revertam as privatizações fraudulentas de empresas essenciais como mineradoras companhias hidroelétricas, telecomunicações, estradas, ferrovias, portos e aeroportos.
Evidente que isso exige uma ruptura com a dominação e os privilégios hoje existentes. Por isso, a precondição para tanto não é uma mera vitória eleitoral, mas a constituição de um Poder Popular forte o capaz de resistir, enfrentar e derrotar os poderosos instrumentos de poder das classes dominantes. Isso implica, em grande medida, uma batalha quanto aos valores, idéias e concepções de mundo próprias desta ordem e que a legitima e naturaliza, implicando um grande trabalho político e cultural.
Esta ruptura que pode ou não se combinar com vitórias eleitorais, mas certamente vai muito além delas, se choca com o poder dos aparatos repressivos do Estado e do imperialismo. Não desconhecemos esta correlação de forças desfavorável, no entanto, não a mitificamos. Não há força que detenha os processos históricos porque ele é fruto das contradições que esta própria ordem gera. Saberemos desenvolver os meios para que o poder popular seja uma alternativa real de poder em direção ao socialismo.

Aqui e no mundo o projeto socialista está na fase de uma radical negação da ordem capitalista em defesa da vida humana e precisamos reafirmar que nós, comunistas e revolucionários, temos uma alternativa, que não fazemos parte desta corja de oportunistas que bateu em retirada para o conforto das incertezas pós-modernas ou para as experiências reformistas de baixa intensidade que acabam por garantir a ordem burguesa. Como disse certa vez: “lá no passado tínhamos um futuro; lá no futuro temos um presente pronto para nascer... só esperando você se decidir”.

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