quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Chile, 40 Anos depois

Se estou vivo hoje, se 40 anos depois posso contar a história do golpe chileno de 11 de setembro de 1973, é graças à generosidade de meu amigo Claudio Jimeno. Eu me lembro dele agora da forma com o vi na ocasião, quando me despedi sem saber que se tratava de um adeus, sem saber que ele em breve estaria morto e eu sobreviveria, nenhum de nós ciente de que os militares o matariam em vez de mim.

Claudio e eu nos conhecemos em 1960 como calouros da Universidade do Chile, onde seu sorriso dentuço e cabeleira negra lhe renderam o apelido de Conejo (coelho), que o seguiria até o dia de sua morte. Ele namorava Chabela Chadwick, uma estudante de química, e quando eu comecei a sair com Angélica, que posteriormente se tornaria minha mulher, nós quatro nos juntávamos a nossos animados colegas de classe para danças, piqueniques na praia e, especificamente, para manifestações de protesto. O que mais me unia a Claudio e nossas namoradas, além de compartilharmos angústias, dúvidas e esperanças, era uma forte sede por justiça social em um continente frustrantemente pobre e mal desenvolvido.

Como centenas de milhares de outros chilenos, Claudio e eu éramos apoiadores fervorosos do socialista Salvador Allende, que --em uma época em que guerra de guerrilha ocorria por toda a América Latina-- acreditava que uma revolução não violenta em nosso país era possível e que podíamos criar uma sociedade soberana e mais justa por meios pacíficos e democráticos. Nosso sonho parecia se tornar realidade quando, dez anos depois, Allende venceu a eleição presidencial de 1970.

Sonhos e realidade, entretanto, não andam de mãos dadas tão facilmente. Em meados de 1973, o governo Allende foi sitiado e ameaçado com a crescente probabilidade de um golpe. Quando Fernando Flores, um membro do gabinete do presidente, me pediu para servir como seu assessor cultural e de imprensa, eu não hesitei. Uma das minhas maiores responsabilidades era dormir uma vez a cada quatro noites em La Moneda, o palácio presidencial em Santiago, mantendo vigilância para que eu pudesse comunicar imediatamente qualquer emergência para Allende. As outras noites eram revezadas entre outros três assessores, um deles Claudio Jimeno.

Quando descobri que tinha sido escalado para passar a noite de segunda-feira, 10 de setembro, em La Moneda, foi a coisa mais natural do mundo trocar de turno com meu velho amigo. Claudio ofereceu ficar no meu lugar e me deu seu turno no domingo, dia 9, para que eu pudesse mostrar ao meu filho de 6 anos, Rodrigo, a galeria com os retratos dos presidentes do Chile e permitir a ele, antes que sua mãe viesse buscá-lo, experimentar o palácio ao cair da noite, a mágica de mil luzes se acendendo.

A gentileza de Claudio não me surpreendeu. Naqueles tempos perigosos, nós assistíamos nossos filhos brincando sem saber ao certo se os veríamos no dia seguinte, de modo que cada hora com eles era inestimável. Claudio ansiava por um pouco de tranquilidade em casa com Chabela e seus dois filhos naquele domingo.

Consequentemente, foi Claudio Jimeno quem atendeu o telefone na madrugada de terça-feira, 11 de setembro de 1973, e soube que um golpe militar encabeçado pelo general Augusto Pinochet estava em progresso. E foi Claudio quem chamou Allende, Claudio quem lutou ao lado dele em La Moneda. Foi Claudio quem foi feito prisioneiro, depois torturado e então se tornou um dos primeiros desaparecidos do Chile, nunca mais visto de novo. Eu acordei naquela manhã ao lado da minha amada Angélica e tentei, sem sucesso, chegar a La Moneda, e agora, quatro décadas depois, me vejo aqui, celebrando meu amigo, o que foi perdido e o que foi aprendido, lembrando, porque Claudio não pode, como mantivemos a esperança viva nas trevas. Aqui estou, incapaz de visitar o túmulo de Claudio Jimeno porque, até hoje, seus executores se recusam a revelar onde enterraram seu corpo despedaçado.

O destino do meu amigo prefigurou o que estava reservado para o Chile. À nossa frente estavam quatro décadas de repressão e temor, de pesar e luta. Mesmo quando conseguimos finalmente derrotar a ditadura, nossa transição para uma democracia plena foi severamente restringida. A sinistra Constituição de Pinochet, aprovada em eleições fraudulentas em 1980, é até hoje a lei suprema do país, tornando reformas urgentes excepcionalmente difíceis de serem executadas.

Mas aquele 11 de setembro de 1973, por mais trágico que tenha sido para tantos chilenos, teve consequências muito além de nossas costas remotas. O fracasso da revolução chilena teve repercussões significativas na Europa, onde levou a uma reorientação fundamental da esquerda em vários países (notadamente, Espanha, França e Itália) e à certeza de que, para gerar transformações radicais na sociedade, um amplo consenso era necessário, não apenas uma maioria eleitoral por margem minúscula.

Nos Estados Unidos, a intervenção (não totalmente) secreta da CIA na queda de Allende foi um dos vários fatores que abriram caminho para investigações do Congresso que estabeleceram leis limitando a extensão com que o Executivo pode interferir em assuntos de governos estrangeiros. Isso abriu uma discussão que é mais relevante hoje, à medida que está claro que os presidentes americanos continuam acreditando ter o direito de interferir, invadir e espionar sempre que acreditam que os interesses e segurança de seu país estão em risco --em outras palavras, todo e qualquer lugar.

Mais crucialmente, entretanto, o legado mais duradouro do 11 de Setembro do Chile foram as políticas econômicas implantadas por Pinochet. Meu país se tornou, na prática, um laboratório para um experimento neoliberal, uma terra de ganância irrestrita onde a extrema desnacionalização dos recursos públicos e a supressão dos direitos dos trabalhadores foram impostas sobre uma população relutante. Muitas dessas políticas impiedosas foram posteriormente implantadas por líderes de todo o mundo.

Apesar de ter levado a uma escandalosa disparidade de distribuição de renda e criado condições convenientes para nossas mais recentes crises financeiras planetárias, o modelo de livre mercado chileno mantém seu apelo. A privatização drástica de Pinochet dos fundos de aposentadoria do Chile é, por exemplo, constantemente apontada como um exemplo de como "resolver" o "problema" do Seguro Social. E um recente editorial não assinado no "The Wall Street Journal" sugeriu que "os egípcios teriam sorte se seus novos generais governantes seguissem o modelo de Augusto Pinochet do Chile".

Felizmente, o Chile não exportou apenas as piores experiências resultantes do golpe militar. Ele também serviu como modelo de como uma população desarmada pode, por meio de não violência e desobediência civil, vencer o medo e derrubar uma ditadura. Os eletrizantes movimentos democráticos e de resistência que nasceram em todos os continentes nos últimos anos provam que o futuro não precisa ser desumano, que o 11 de Setembro chileno não foi o fim da busca por liberdade e justiça social pela qual Claudio Jimeno morreu, e que talvez seu sacrifício não tenha sido totalmente em vão.

Mesmo assim, eu não consigo me consolar, 40 anos depois. Eu ainda me lembro de seu sorriso de coelho enquanto se despedia de mim em La Moneda, na noite de 10 de setembro de 1973. No dia seguinte, aquela terça-feira cheia de terror em Santiago mudou muitas coisas para sempre, incluindo as condições políticas e econômicas que alteraram o Chile e, discutivelmente, o mundo. Mas, quando olhamos para o passado, nós precisamos nos lembrar de que, no final, a história se resume a seres humanos reais, homens e mulheres que são dolorosamente afetados, de cada e todo Claudio Jimeno de nossa espécie, um por um.

Se resume ao que é irreparável e precisa ser lamentado: Claudio não pode, como faço toda manhã, acordar com o canto dos pássaros.

Claudio Jimeno, o amigo que morreu no meu lugar 40 anos atrás, nunca verá seus netos crescerem.

*Ariel Dorfman é autor da peça "A Morte e a Donzela" e, mais recentemente, " Feeding on Dreams: Confessions of an Unrepentant Exile"

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