quarta-feira, 6 de março de 2013

Bradley Manning, culpado por revelar a verdade

Depois de uma tempestade de neve que cobriu o Meio-Atlântico no começo de 2010, um soldado de 22 anos que estava de licença em Potomac, Maryland, enfrentou a tempestade esperando localizar uma conexão de internet que, diferente daquela disponível na casa de sua tia, não estivesse prejudicada pelos quase 60 centímetros de neve acumulada.

Quando o cabo Bradley Manning conseguiu chegar à livraria Barnes & Noble nas proximidades de Washington, ele tirou seu laptop da mochila, logou no Wi-Fi do Starbucks e procurou por alguns arquivos que tinha salvado num disco, no Kuwait, antes do Natal. Foi nessa loja, cercado por HQs e baristas que ganham salário mínimo, que o soldado magro e de óculos subiu arquivos militares secretos e não-secretos no site WikiLeaks, uma ação que continua sendo alvo de investigações da CIA e do grande júri dos EUA três anos depois. No tribunal de Fort Meade, Maryland, ele se declarou culpado de dez acusações que provavelmente vão lhe render 20 anos de cadeia. “Eu acreditava que, se o público em geral, principalmente o norte-americano, tivesse acesso à informação”, disse Manning ontem no tribunal, “isso poderia desencadear um debate nacional sobre o papel do exército e sobre a nossa política externa em geral”.

O caso do governo — e a opinião pública sobre os atos do jovem soldado — se baseia na afirmação de que o vazamento causado por Manning colocou os Estados Unidos em perigo, tornando públicas informações militares sigilosas. Os arquivos vazados por Manning incluem um agora famoso vídeo de “mortes colaterais” causadas por um ataque de um helicóptero Apache no Iraque, quando soldados americanos confundiram um grupo de jornalistas e civis com insurgentes e os mataram; as ligações diplomáticas dos Estados Unidos com o colapso de uma das três maiores instituições financeiras na Islândia; arquivos sobre detentos de Guantánamo; e trechos de registros de guerra do Iraque e Afeganistão. “Eles capturaram o que aconteceu num dia em particular”, disse Manning sobre os registros.

 Manning foi preso por oficiais norte-americanos em maio de 2010 — depois que voltou ao Kuwait para continuar seu turno num centro de inteligência — quando o ex-hacker Adrian Lamo, que estava se comunicando com Manning sobre os arquivos via e-mail, avisou o FBI. Depois disso, Manning foi acusado de uma enxurrada de crimes relacionados com a alegação de que ele teriam fornecido material para o WikiLeaks. Desde então, o cabo Manning ficou preso sem julgamento por mais de mil dias. Mas durante o seu último depoimento, ele assumiu esses crimes e explicou para o mundo, com suas próprias palavras, por que liberou voluntariamente esses materiais que mudaram a história — mas não da maneira que Manning esperava originalmente.

Quando ele finalmente terminou de ler a declaração de 35 páginas preparada para o tribunal na tarde da quinta-feira passada, um punhado de apoiadores e membros da imprensa presentes no tribunal numa base do exército irrompeu em aplausos. A única vez que ele tinha falado antes foi em dezembro, quando testemunhou sobre as condições enfrentadas por ele na prisão militar depois de ter sido detido. Seu tratamento foi tão notório que a juíza, a coronel Denise Lind, concordou em paralisar o julgamento por quatro meses antes que qualquer sentença fosse proferida.

Apesar de estar enfrentando uma pena de mais de 20 anos de cadeia pelas acusações de vazar informação sigilosa, ele ainda encara a possibilidade de penas mais sérias, por exemplo as de acusação de espionagem. Depois que seu caso passar formalmente pela corte marcial em junho, ele poder pegar prisão perpétua. Tendo cedido informação sigilosa para o WikiLeaks, ou seja, para o mundo, o governo diz que Manning mandou a inteligência norte-americana para o espaço e ajudou terroristas anti-americanos. O governo pode legalmente executar o soldado, que tem 25 anos agora, se ele for considerado culpado por essa acusação.

Depois que terminou o ensino médio, Manning entrou para as forças armadas com “a esperança de obter uma experiência real de mundo” e, idealmente, conseguir ajuda do governo para pagar a faculdade. No entanto, uma vez no exterior, ele descobriu algo em que não podia acreditar.

“Comecei a ficar deprimido com a situação em que estávamos cada vez mais atolados”, disse Manning na quinta. “Nós”, referindo-se aos militares, “nos tornamos obcecados por capturar e matar alvos humanos”, o que excluía qualquer outra preocupação.

O cabo disse que alguns dias depois de subir os registros de guerra do Iraque e do Afeganistão, descobriu um incidente de três anos antes no qual soldados norte-americanos a bordo de um helicóptero Apache abriram fogo contra civis no Iraque, matando dois jornalistas da Reuters no processo. Através de sua própria pesquisa, Manning soube que a Reuters tinha pedido que o governo norte-americano lhe desse a filmagem feita do helicóptero, mas que, 12 meses depois, essa tentativa falhou.

“A Reuters requisitou uma cópia do vídeo através do Ato de Liberdade de Informação”, disse Manning, “ eles queriam ver o vídeo para poder entender o que aconteceu”.

“Eu [também] queria entender o que aconteceu”, ele disse ao tribunal, e o fato de que ninguém liberaria voluntariamente o vídeo o perturbou depois. Ele achou que o mundo — especialmente a Reuters — merecia saber a verdade. “Estava claro para mim que o evento ocorreu porque o time de armamentos aéreos confundiu a equipe da Reuters como uma ameaça em potencial”, ele disse. “Mas eles não eram uma ameaça, apenas bons samaritanos.”

 Em 21 de fevereiro de 2010, de sua base no Iraque, o cabo Manning subiu o vídeo e alguns documentos relacionados no WikiLeaks. Não era a primeira nem a segunda vez que ele compartilhava material sigiloso com o site, apenas mais um dos muitos momentos em 2010 em que ele forneceu arquivos para a organização de denúncia.

“Eu esperava que o público ficasse tão alarmado quanto eu com a conduta dos membros da equipe aérea”, testemunhou Manning. Para ele, o vídeo mostrava o que a guerra realmente era. Ele mostrava “pessoas lutando para sobreviver num ambiente de panela de pressão que chamamos de guerra assimétrica”.

Vasculhando a base de dados em busca de arquivos, Manning também encontrou memorandos do Departamento de Estado norte-americano que realmente explicavam o que estava acontecendo. Esses memorandos “documentavam os acordos clandestinos e atividades aparentemente criminosas” que ele nunca imaginou que o país que ele jurou defender estaria envolvido.

Mas se Manning queria inspirar o debate e a reflexão entre os funcionários do governo norte-americano, aconteceu o oposto. Manning pode ter se tornado o herói de alguns, ontem, ao admitir seus crimes e explicar suas ações, mas também se tornou um mártir do que parece ser uma guerra cada vez mais intensa do governo dos Estados Unidos contra os defensores da informação livre. A saga de Manning desencadeou uma temporada de caça nos EUA contra aqueles que compartilham segredos. Nos quatro anos da presidência de Barack Obama, mais americanos do que nunca foram acusados sob o Ato de Espionagem ou estatutos similares, por vazar informações. O cabo Manning é o primeiro a ficar conhecido por seu julgamento, mas não será o último.

“Achei que essas ligações eram o exemplo perfeito da necessidade de uma diplomacia mais aberta”, disse ele na quinta, antes que o dia terminasse e ele fosse mandado de volta para sua cela. “Eu acreditava que liberar essas ligações não prejudicaria os Estados Unidos. Apesar disso, admito que os cabos poderiam ser vergonhosos.”

por Andrew Blake

Vice

#

Nenhum comentário: