segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Aracaju, uma cidade nua

Aracaju, a tão proclamada capital da qualidade de vida, é uma cidade desnuda de árvores. Sem plantas, é só cimento e tijolos. As árvores são bem raras e restringem-se às praças ou em antigas avenidas. Caminhar pelas ruas de Aracaju num dia de sol, o que ocorre em quase todos os dias do ano, é desencorajador e desestimulante. É quase um sofrimento. Não há árvores, não há sombras, não há alívio e a temperatura até em dias chuvosos não é lá muito agradável. A primavera chegou com ares de verão e já está difícil caminhar pelas ruas da cidade durante o dia. Imagine quando o verão chegar.

Como não se planeja o plantio de árvores, nos deparamos com um deserto urbano que privilegia o automóvel e o concreto, gerando uma superfície que aquece o ar rapidamente e cria desequilíbrios no ecossistema. Há muito se comenta na mídia e nos meios científicos sobre o aumento gradual da temperatura global, provocados pelo aumento do Efeito Estufa, devido basicamente à atividade humana, e que provoca fenômenos complexos, imprevisíveis e alterações climáticas no nosso planeta.

Todos têm visto as conseqüências dessas alterações climáticas ao redor do mundo. Aqui em Aracaju, há alguns meses, a população sofreu com enchentes. Sabe-se que enchentes, formação de ilhas de calor e baixa qualidade do ar são alguns dos prejuízos ambientais provocados pela impermeabilização exaustiva do solo e por falta de árvores. Infelizmente é essa a realidade atual em quase toda a malha urbana. A cidade é cada vez mais asfalto e concreto por todos os lados, mais carros e menos árvores. Dessa forma, não há qualidade de vida e muito menos saúde que resista. Uma forma para minimizar isso é o aumento das áreas verdes, principalmente nas calçadas e canteiros centrais.

Para o doutor em Agronomia, Demóstenes Ferreira da Silva Filho, professor e pesquisador da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo), arborizar é transformar uma cidade. “As árvores conseguem tratar a cidade e amenizar os problemas, melhorando a temperatura, umidade relativa do ar e poluição atmosférica”, revelou. “Porém, o que acontece não é falta de planejamento (urbano). É falta de incluir a árvore no planejamento, de enxergar que as árvores são equipamentos urbanos imprescindíveis tanto quanto a eletricidade”, completou.

Realizando pesquisas em silvicultura (cultura de árvores) e arborização urbana, o agrônomo diz que a proporção de 20% a 30% de cobertura arbórea em um bairro ou centro de uma cidade é suficiente para oferecer melhores condições climáticas. “Pesquisas do Serviço Florestal dos Estados Unidos apontam que uma árvore frondosa, como a tipuana, tem efeito refrescante igual ao de quatro aparelhos de ar-condicionado ligados num período de 20 horas”, contou. “No Brasil, estudos mostraram que a sibipiruna chega a interceptar mais de 90% da radiação do sol, além de fixar o carbono emitido por veículos e atividades urbanas”, expôs.

Temos no Brasil cidades que investem em arborização, que trabalham com a idéia de cidades jardins ou cidades de qualidade de vida, onde se criam, por exemplo, áreas verdes pontuadas por todos os cantos e que envolvem a população a aderir a essa proposta, virando uma identidade, uma característica da cidade. As árvores têm funções múltiplas que podem contribuir de maneira efetiva na promoção de melhorias na qualidade ambiental das cidades.

A sociedade precisa se mobilizar para que a arborização das cidades e o reflorestamento das encostas estejam nas agendas dos políticos e também da iniciativa privada. A responsabilidade pelo meio ambiente é de todos. Aracaju está crescendo a passos largos, condomínios e mais condomínios são anunciados e lançados no mercado a uma velocidade que não damos conta. Por outro lado, não há uma demanda por áreas verdes, nem por parte da população nem por exigência do poder público, e muito menos por iniciativa das grandes construtoras idealizadoras dos concretos armados.

Hoje, a maioria da população mundial habita os centros urbanos. Moramos e passamos grande parte de nossas vidas nas cidades, portanto, devemos procurar nos ater a como melhorar a qualidade ambiental nessa massa de contradições. Praças que são só cimento, concreto e brita, canais fétidos, esgotos a céu aberto, invasão de áreas verdes, ocupação de mangues, morros, vales, desrespeito a áreas públicas, poluição sonora, poluição do ar, poluição visual, são alguns dos muitos problemas que fazem com que as cidades sejam “ilhas” de problemas, quando falamos em ambientes sustentáveis.

Em Aracaju há ainda o agravante das árvores que foram e são assassinadas pelos moradores ou por profissionais porque quebram as calçadas, para ampliar as fachadas das lojas, por conta das podas irregulares e indiscriminadas ou pela falta de cuidado. O vandalismo com as pouquíssimas árvores que se plantam são causas que muitas vezes colocam árvores urbanas como um estorvo na cidade. E assim, a extirpação pura e simples vem sendo utilizada como “remédio” para a solução dos problemas. Enfim, são tantos os motivos para destruí-las. No entanto, temos assistido ao longo dos tempos a um verdadeiro descaso, principalmente do setor público, para com essa causa.

Eu me pergunto: onde estão os órgãos de proteção ambiental desse Estado e dessa cidade? Onde estão as Secretarias Estadual e Municipal do Meio Ambiente? Creio que eles têm um papel importante também com o planejamento urbano das cidades e, a Arborização Urbana tem um papel importante nesse contexto. Mas ainda assim, com todo esse descaso, Aracaju é a proclamada capital da qualidade vida. Esse título está estampado nos outdoors distribuídos pela cidade e está também registrado, quase que obrigatoriamente, na fala dos nossos governantes e da mídia.

Qualidade de vida é um conceito amplo que está ligado ao desenvolvimento humano, abrangendo de modo complexo o equilíbrio dos vários aspectos do indivíduo, com as características mais relevantes do seu meio ambiente que é tudo que nos cerca. Dessa forma, qualidade de vida, implica necessariamente em qualidade ambiental, na utilização de práticas “limpas”, na melhoria da qualidade do ar, na qualidade da ambientação das áreas verdes, no melhoramento climático, na preservação dos morros, mangues, oceanos, rios, no quesito da poluição sonora e ambiental. É responsabilidade de todos e, especialmente do poder público, contribuir para melhorar de maneira efetiva a qualidade ambiental de vida da nossa casa, da nossa rua, do nosso local de trabalho...enfim de nosso lugar de vivência.

por Terezinha Aparecida Fonseca Araujo

Administradora e Especialista em Educação Ambiental

Aracaju, outubro de 2010

2 comentários:

Anônimo disse...

Isto demanda um estudo agronômico. Em boa parte da cidade o solo é areia em que não cresce nada, quando muito uma árvore mirrada de 1,5 m de altura. Veja as árvores plantadas recentemente no Parque da Sementeira, nenhuma vingou.

Anônimo disse...

No Brasil, com raras exceções, a rua é vista como passagem de veículos. O seu componente principal, a calçada, segue na nossa cultura, especialmente a nordestina, a tradição colonial portuguesa: não tem serventia. Calçadas largas, para os pedestres exercerem uma das atividades mais prazerosas da vida - passear, são vistas como desperdício de valor.