domingo, 10 de outubro de 2010

Wigan/Atacama

Parece estar perto do fim, finalmente, o drama dos mineiros soterrados no deserto de Atacama, no Chile**. Por coincidência, no momento em que aconteceu a tragédia eu estava começando a ler O CAMINHO PARA WIGAN PIER, um livro de 1937 escrito por George Orwell e relançado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras que fala, justamente, da vida dos trabalhadores das minas de carvão no norte da Inglaterra. Para escrever o livro, publicado inicialmente como ums série de reportagens, ele conviveu por dois meses entre os habitantes das regiões industriais de lancashire e Yorkshire. Orwell parece ter tido sempre essa necessidade de sentir na própria carne, ou no mínimo conferir “in loco”, o objeto de seus textos, notadamente no que se refere à vida dos menos afortunados – foi assim com os anteriores “Dias na Birmânia” e “Na pior em Paris e em Londres” (no qual conta sua experiência vivendo como indigente nas ruas das duas metrópoles européias) e no posterior “Homenagem à Catalunha”, onde relata seus dias como combatente voluntário republicano durante a Guerra Civil Espanhola. Este verdadeiro trabalho de imersão em meio ao proletariado, seja em seus aspectos mais militantes ou da vida cotidiana, foi o que possibilitou ao escritor a capacidade de transmitir em sua obra um grande senso de humanismo e empatia, algo que os textos mais puramente teóricos ou político-militantes não conseguem passar.
Os dois primeiros capítulos do livro são verdadeiras obras primas do que posteriormente viria a ser conhecido como “new journalism”*. O primeiro descreve as condições precárias de moradia da população local com uma riqueza de detalhes impressionante, fruto de uma aguçada capacidade de observação do comportamento dos personagens com os quais se depara ao longo de sua jornada. É um verdadeiro desfile de figuras trágicas sobrevivendo como podem em condições inóspitas, com toda uma gama de sentimentos, especialmente rancores e mágoas. A narrativa é fluida e prazerosa, apesar de permeada de imagens repulsivas e com um tom eminentemente pessimista. Já no segundo capítulo é a dura vida dos trabalhadores das minas que é esmiuçada, o que nos faz compartilhar do assombro do autor com relação à capacidade daqueles homens de suportar com relativa facilidade uma rotina de atividades tão árdua. E assim segue por toda a primeira parte do livro (que é dividido em duas), discorrendo sobre inúmeros aspectos da vida daquelas pessoas, de sua luta para se livrar da fiscalização do Serviço social, do desemprego e da falta de perspectivas, enquanto disputam desesperadamente com as máquinas os restos de carvão que sobram das montanhas de escória que saem das minas.
A segunda parte, que não estava prevista no projeto original, feito sob encomenda de uma publicação de cunho esquerdista, desagradou o editor, já que coloca o dedo na ferida da ineficiência dos militantes de partidos de esquerda em conquistar a simpatia dessa mesma classe que, supostamente, defendem. Numa verve ácida, o autor discorre sobre a incapacidade dos chamados “socialistas de gabinete” de sentirem uma real empatia pela classe trabalhadora, já que a esmagadora maioria deles não tinha conseguido ainda se livrar dos preconceitos de classe sob os quais foram educados. É especialmente curiosa sua explanação sobre o que ele considera o principal motivo de repulsa ao socialismo, gerado por um tipo de associação bastante comum na época entre o termo e a enaltação ao progresso científico frio e mecânico representado pelo modelo soviético, muito mais interessado em números do que na verdadeira essência dos ideais de justiça e liberdade. Quando muitos intelectuais de esquerda ainda estavam sob o efeito entorpecente da propaganda stalinista, Orwell já percebia os malefícios que a transformação do comunismo numa doutrina monolítica e a crença num equivocado determinismo histórico causavam à causa. No que deu tudo isto, já sabemos: a ascensão do nazi-fascismo, que mergulhou o mundo na segunda guerra mundial. Posteriormente o mesmo autor seria um dos grandes responsáveis pelo desmascaramento do real caráter do regime que imperava por trás da chamada “cortina de ferro” com a publicação da fábula política “A Revolução dos bichos” e do romance distópico “1984”, que geram até hoje questionamentos quanto a suas convicções por parte dos que não conseguem ver as coisas por um prisma que não seja o do maniqueísmo.
O mundo de hoje não depende mais tanto apenas do carvão mineral, nem a classe operária britânica padece mais dos mesmos males pelos quais padecia na época em que “O Caminho para Wigan píer” foi escrito, mas a humanidade, apesar de todo o avanço tecnológico, ainda depende do trabalho duro de trabalhadores que arriscam suas próprias vidas na busca incessante por matéria prima. Que o digam os mineiros do Chile, que aguardam para a próxima quarta-feira o início do tão esperado resgate que mobiliza as atenções de todos. 73 anos depois da publicação do livro de Orwell, mesmo tendo sido vencido o nazi-fascimo e de termos assistido ao colapso dos regimes totalitários de matriz esquerdista, continuamos imersos numa situação de extrema desigualdade, desequilíbrio e injustiça que gera violência, tensão e incerteza quanto ao futuro. O dilema continua o mesmo: socialismo ou barbárie. Ou avançamos na direção de uma sociedade mais equilibrada e justa ou sucumbiremos à nossa própria incapacidade de resolver os problemas que parecem conduzir-nos a uma catástrofe de proporções planetárias.
por Adelvan
* (Wikipedia) O New Journalism é um gênero jornalístico surgido na imprensa dos Estados Unidos, na década de 60, que tem como principais expoentes Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote. Classificado como romance de não-ficção, sua principal característica é misturar a narrativa jornalística com a literária. Uma das publicações que popularizaram o novo estilo foi a revista The New Yorker. Em 1956, o escritor americano Truman Capote publicou o perfil do ator Marlon Brando, intitulado "O duque em seus domínios", que é citado como o primeiro texto do gênero.
Talese define dessa forma o New Journalism: "O novo Jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. É, ou deveria ser, tão verídico, como a mais exata das reportagens, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo. O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência, ou que assuma o papel de observador imparcial, como fazem outros, eu inclusive."
** O salvamento dos 33 mineiros retidos há dois meses numa mina no Chile entrou na sua última fase com a colocação dos tubos metálicos que permitirão começar a trazê-los para a superfície na quarta-feira.
«Estamos a preparar-nos para começar a descida do primeiro tubo» que vai «forrar» os primeiros 96 metros do poço para facilitar a passagem da cápsula "Phenix" que levará os mineiros para a superfície um a um, declarou o engenheiro Andres Sougarret.

Os trabalhos implicam a colocação de 16 tubos metálicos de seis metros de comprimento nos primeiros 96 metros do poço escavado (que mede um total de 622 metros) e a sua posterior soldadura.

Os socorristas esperam «terminar a instalação completa dos tubos nas próximas 24 horas», acrescentou Sougarret.

Findo este trabalho, são precisas mais 48 horas para instalar na superfície o dispositivo que permitirá içar a cápsula, segundo o ministro das Minas, Laurence Golborne.

Levar os 33 homens para a superfície deverá demorar um dia e meio, à razão de uma hora e meia por pessoa.

«Estamos tranquilos. O salvamento está quase», disse aos jornalistas o pai de Carlos Barrios, um dos mineiros bloqueados entre 600 e 700 metros de profundidade, depois de uma derrocada a 05 de Agosto na mina de ouro e cobre do deserto do Atacama (norte).

As autoridades começaram por estimar em três ou quatro meses o tempo necessário para os trabalhos de resgate dos 33 homens quando eles foram detectados, 22 dias depois do acidente, mas esse prazo foi sucessivamente sendo diminuído.

Agora que a data para começar a retirar os mineiros já foi fixada em quarta-feira, 13 de Outubro, a única incógnita prende-se com a ordem de saída dos homens, 32 deles chilenos e um boliviano.
tsf

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