segunda-feira, 25 de junho de 2007

Wander Wildner

Texto feito a pedido dos produtores do show acustico que Wander fez aqui em Aracaju em 2006.
Por Adelvan Kenobi



Poucos artistas podem ser definidos com uma lenda viva do rock no Brasil como Wander Wildner. Até um astro do rock ele pode ser considerado, já que uma musica cantada por ele (surfista calhorda, dos replicantes) tomou de assalto as freqüências moduladas de todo o Brasil nos anos 80 e o tornou referencia do estilo por aqui. Mas um astro, para usar um termo do sul, “chinelão”, boa praça, alternativo, “do bem”. Do rock mesmo, na melhor concepção da palavra.Wander passou um tempo no limbo depois de sua saída dos Replicantes. Parece até que foi de propósito, como que para confirmar a sentença carimbada no titulo do primeiro disco da banda, “O futuro é um vórtex”. Mas eis que um dia, ao trabalhar como operário na iluminação de um espetáculo de teatro, ele se lembrou que seu lugar não precisava ser necessariamente nos bastidores. Voltou pra Porto Alegre e lá começou uma frutífera carreira solo que já dura quatro discos e duas coletâneas, sempre numa temática intimista e etílico/romântica, garajeira e estradeira, atormentada e apaixonada. Temática esta ironicamente batizada em seu inicio de carreira como “punk/brega”. Carreira que começa com “Baladas Sangrentas”, seminal disco de estréia que, a exemplo do primeiro álbum do Cachorro grande, também do Rio Grande do sul, já pode ser considerado um clássico do rock nacional, e desemboca no recente “Paraquedas do coração”. No caminho, atribulado, como toda carreira de artista independente e autentico no Brasil, gravou com a Trama antes da Trama ser A trama e lançou uma coletânea nas bancas de todo o pais encartada na revista outracoisa. Viajou e continua viajando pelo Brasil, fez show no chão, de surpresa, no meio do publico, e também no palco do Abril pro rock e de vários outros festivais por aí afora, trabalhou com alguns dos mais influentes produtores do rock brasileiro, como Tom Capone e Carlos Eduardo Miranda, é freqüentemente ovacionado pela critica especializada e invariavelmente cultuado por pelo menos duas gerações de roqueiros tupiniquins, mas nunca abandonou seu espírito anárquico, livre e underground. Profundamente livre, simples, “desencanado”. Se você estiver numa van com ele a caminho do show e o pneu furar, é possível que ele se ofereça para trocá-lo. Se de passagem para o banheiro no muquifo onde o show ocorre você tiver que pedir licença a ele, o “astro” da noite, ele a dará sem pestanejar. E se o dono do bar onde ele acabou de tocar for gente fina e o tratar bem, é provável que ele o ajude a limpar o recinto e guardar as mesas e cadeiras no final da noite. Esse é Wander Wildner. Um cara do caralho.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Rock Sergipano, esse desconhecido

Na foto, Triste Fim de Rosilene
originalmente publicado no site da revista Zero.

Underground é um termo em inglês que serve para designar aquilo que se encontra embaixo do solo. O metrô, por exemplo, em muitos lugares é chamado de underground. Com o tempo, os críticos musicais se apropriaram deste termo para designar a musica que era feita à margem do grande circuito da mídia. A mídia, em todo o mundo e, como não poderia deixar de ser, também em nosso país, se concentra onde está o dinheiro, literalmente, ou onde se encontram os centros de poder econômico e de decisão política, no nosso caso, sul e sudeste e eventualmente Brasília. Partindo-se desse ponto de vista, poderíamos dizer que qualquer manifestação artística nascida em nosso estado (com exceção, vá lá, da Calcinha Preta, que tem projeção nacional) é underground, porque está longe dos holofotes da mídia, num âmbito geral. Mas existem correntes artísticas que se desenvolveram ao largo mesmo aos olhos da mídia local. Este, poderíamos dizer, é o nosso submundo, o submundo do submundo. Nele se encontra o rock sergipano, esta entidade misteriosa que, a despeito de ser quase que completamente desconhecido, existe, produz e se reproduz, ao ponto de começar a ser, timidamente, notado e reconhecido. O rock sergipano como um movimento, uma entidade oriunda da existência de várias bandas que tocam juntas e dão suporte umas às outras, começou a se formar no inicio dos anos 80, de carona na grande onda do rock nacional, que por sua vez pegou carona na onda new wave que tomava conta do mundo. Por essa época, começavam a se formar bandas de garagem que tinham na precariedade de recursos e na vontade de criar e se comunicar suas principais caracteristicas. Capitaneadas pela figura de verdadeiros agitadores culturais dos subterrâneos, como Sylvio “Suburbano” e Vicente “Coda”, surgiram nomes como Sem Freio na Língua, Fome Africana e The Merdas. Esta ultima, por sinal, contava em suas fileiras, como baterista, com o hoje nacionalmente conhecido Hélder “Podre”, mais conhecido pelo nome artístico de DJ Dolores. Vicente promovia festivais conhecidos na época como rockadas, um deles, inusitadamente, realizado em sua própria casa, e Sylvio seguia a passos largos em direção a uma militância anarquista que o levou ao mundo do punk rock engajado. Juntos, os dois formaram a Karne Krua, a mais antiga das bandas sergipanas em atividade até o momento. Na esteira de suas atitudes pioneiras, outros grupos foram nascendo, e de diversas matrizes, como a new wave propriamente dita, com CROVE HORRORSHOW, LULU VIÇOSA, ALICE e a já citada FOME AFRICANA, o punk rock/hardcore, com KARNE KRUA, MANICÔMIO, FORCAS ARMADAS, CONDENADOS e LOGORRÉIA, entre outros, e correndo por fora, numa cena à parte, sempre, o mundo do metal, que tinha como seu maior nome o lendário GUILHOTINA. Os espaços para apresentação eram precários, mas as tribos tinham seus pontos de encontro, notadamente as lojas especializadas DISTÚRBIOS SONOROS e LOKAOS e inclusive contaram, durante um certo período, com o apoio de um programa especializado na Rádio Atalaia FM. Chamava-se ROCK REVOLUTION, era produzido pela loja Distúrbios sonoros e costumava, sempre que a qualidade de gravação permitia, ceder espaço para as bandas locais. Com o tempo a maioria dos grupos foi se dissolvendo e seus membros sendo absorvidos pelo “sistema”, mas alguns deles resistiam. A Karne Krua é o exemplo maior de persistência e fidelidade à cena, tanto local quanto nacional. Ao seu redor foi surgindo uma nova onda de hardcore sergipano, materializada principalmente nas bandas SUBLEVAÇÃO, CLEPTOMANIA, OLHO POR OLHO e LECKTOSPINOISE, além de um sem-numero de grupos que seguiam uma tendência ainda mais rápida e barulhenta do estilo conhecida como grindcore, dentre elas REFUGOS DE BELSEN, CAMBOJA, e ANAL PUTREFACTION . Com o tempo, essa ultima foi se aproximando do metal e transformando seu som em Death Metal, enquanto o Camboja, capitaneado na figura de seu líder e multiinstrumentista Jamson Madureira, começa a sofrer influencias do rock industrial à la Ministry e Nine Inch Nails, tornando-se a mais inovadora e, talvez por isso mesmo, injustiçada banda do rock sergipano. Teve uma carreira curta mas deixou um belo legado de energia e criatividade para quem conheceu suas demos (GRIND TO GRIND, LIES ABOUT FREEDOM) e frequentou suas apresentações, sempre antológicas. No front do metal despontava a DEUTERONÔMIO, fundada ainda nos anos 80 por Vicente Matheus, o Bruxo (de saudosa memória) e que teve uma carreira sólida e constante até a metade dos anos 90.


Na foto, snooze.
Foi ainda no inicio dos anos 90, em parte como fruto da explosão alternativa causada pelo Nirvana, que surgiu o SNOOZE, hoje uma das bandas sergipanas mais conceituadas e conhecidas nacionalmente, ao lado do LACERTAE, de Lagarto. Ambas começaram a mesma época e fazendo covers, a primeira de medalhões do grunge e do rock alternativo, a segunda de Pantera e outros ícones do metal, mas foram aos poucos adquirindo sonoridade e personalidade própria, especialmente o Lacertae, que é reconhecido como um dos grupos mais inovadores do rock independente nacional. Na primeira metade da década passada a divisão em tribos ficou mais latente na cidade, com o surgimento de uma cena metal forte capitaneada pelo WARLORD, que segue uma linha mais tradicional, e de diversas bandas de death metal que surgiram no rastro do Deuteronômo e da Anal Putrefaction, dentre as quais se destacou a MUCOUS SECRETION e a DEVILRY, de Itabaiana. Foi por essa época que a Karne Krua conseguiu o feito de ser a primeira banda underground do estado a lançar um disco, ainda em vinil e totalmente independente. Ficaram célebres ainda os shows promovidos pelo pub MAHALO DISCO CLUB, simpático barzinho localizado no centro, em frente à UNIT, que começou a abrir espaço para as bandas de rock locais nos finais de se mana, e o fervilhante movimento de fanzines sergipanos, que já tinha uma certa tradição desde o CENTAURO SEM CABEÇA (de Macaô) e BURACAJU (de Sylvio, sempre pioneiro), nos anos 80, e se fortaleceu à época com os nacionalmente conhecidos ESCARRO NAPALM (editado por Adelvan, depois vocalista do ETC) e CABRUNCO (editado por Adolfo sá e que se tornou um verdadeiro marco nacional na arte de se fazer fanzine). Ainda na cena grindcore surgiu a banda ETC, que tinha uma proposta mais irreverente e ousada para a época. Foi a primeira a ultilizar-se de influências regionalistas em sua musica (bem antes de alguém por aqui saber o que era Raimundos ou mangue Beat) e a usar e abusar de palavrões e de temas ligados ao sexo e a sacanagens em geral, conseguindo bater de frente com punks e puritanos de uma só vez. Sua proposta anárquica radical foi mal compreendida na época e segue incompreendida até hoje, nos shows esporádicos que promove com o intuito único de manter a lenda e provocar os que se entregam à apatia e aos modelos de comportamento, mesmo no mundo do rock, que a princípio deveria ser dinâmico e anárquico por natureza. Vale dizer que a grande figura por trás dessa e de outras bandas era, mais uma vez, a de Sylvio Suburbano, que depois do fim das atividades regulares do ETC seguiu sua saga em busca da renovação do harcore montando bandas como CASCA GROSSA e WORDS GUERRILLA, esta última em atividade até os dias de hoje. Por volta da segunda metade da década, a movimentação no underground diminui, mas começa a se gestar uma nova etapa para a cena como um todo. O marco dessa nova etapa foi a realização do megafestival ROCK-SE, que trouxe pela primeira vez ao estado um evento nos moldes dos já consagrados Juntatribo e Abril pro Rock, com bandas nacionalmente reconhecidas tocando lado a lado com os representantes da cena local. O ROCK-SE não teve continuidade, mas lançou a semente para um novo patamar no nível de organização e, especialmente, ousadia dos produtores de shows que o sucederam. Começaram a aparecer mais bandas de fora do estado dispostas a se apresentar aqui, o que deve ter influenciado o surgimento de uma nova geração do punk rock sergipano, dessa vez mais sintonizada com as tendências mundiais colocadas na vitrine por megacorporações como a MTV e, por isso mesmo, muito mais amplas porém mais inofensivas. O que parecia impossível na década de 80 parece estar se configurando no limiar do século XXI: o rock está sendo mais aceito e hoje é capaz de levar multidões a shows que antes eram freqüentados por, no máximo, 20 a 30 pessoas. E com um importante fator adicional: as mulheres estão comparecendo e aparecendo. Há uma banda feminina, LILY JUNKIE, em plena atividade, fazendo shows e lançando demos, algo que nuca havia acontecido antes. Os novos nomes atendem por FLUSTER (HC melódico) , MERDA DE MENDIGO e GEE-O-DIE (hc casca grossa curto e grosso, mais na tradição do que sempre foi feito cidade), SONNET (rock alternativo), PLÁSTICO LUNAR (rock setentista) NAURÊIA e MARIA SCOMBONA (regional) e muitos, muitos outros. O front do metal segue firme, com nomes egressos da década de 90 que se mantêm em evidencia, como SCALET PEACE (metal gótico/doom) TCHANDALA (metal tradicional), ATITUDE e MYSTICAL FIRE (black metal estilo europeu), este ultimo com uma mise-em-scene de palco impressionante, com direito a cuspidas de fogo e cabeças de porco como cenário. Não saberia dizer até onde a garotada que está ajudando a fazer o rock sergipano hoje em dia foi influenciada ou, sequer, conhece os esforços que foram empreendidos no passado para a construção desta pequena, porém orgulhosa, cena. O que importa é que a chama continua acesa e assim permanecerá. Mudará de forma, se adaptará à passagem do tempo mas nunca se extinguirá.